As coisas que você estragou pra mim

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.
(Paulo Mendes Campos)

Que pena que você foi embora, moço. Levou, que nem a Rita, um sorriso meu e tantos assuntos que ainda poderiam ser. Guardo, com carinho, os últimos besitos. Melhores que vinho.

É, para mim, cada dia mais difícil falar com as pessoas. Especialmente com as gentis. Com os gentis que são meus amigos, então, é quase impossível. Atenciosamente eles me perguntam: como vai? Como você está? E eu não posso responder. Não conheço as palavras. Me esquivo. Ontem eu tentei, porque ela, tão querida, perguntou. Eu disse – eu tô sem estar. Sinto que atravesso os dias como se todos fossem o mesmo e cada um fosse o vazio. Nem alegre nem triste nem poeta – mas eu disse não é exato, não é bem isso, embora seja o mais perto que consigo chegar da verdade quando tento colocar em palavras.

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Vem aí meu aniversário (falta menos de uma semana) e eu estou apavorada com a tristeza que vou sentir.

Em um Diarinho recente ela fez uma lista de coisas interessantes sobre a vida dela e disse que uma – só umazinha – era mentira. Foi tão bonito que eu nem soube comentar.

Quando eu digo que não conheço as palavras é uma meia verdade. Conheço algumas, mas elas tentam escapar. Hoje passei uns bons 50 segundos olhando pra escrivaninha, tentando lembrar este nome e só me vinha: maçaneta.

As coisas que você estragou pra mim (ou bem perto disso): Paulinho da Viola, Verissimo, escola de samba, madrugada, a sua cidade, vinho, bacalhau, amizade.

Status: hora extra.

É muito irritante quando eu digo, em análise, eu não sei tal coisa (sobre mim) e o analista emenda um sonoro: eu também não.

Tenho saudades do tempo em que eu não gostava de brócolis #classemédiasofre

A tua carta está em cima da escrivaninha esperando ser respondida. Não chegou hoje nem ontem. Nem mesmo anteontem. Chegou com um bonito e enorme gato no envelope, prometendo tanto. Que não veio. Que não estava no envelope, nas linhas nem nas entrelinhas nem nada. Bom, pelo menos eu não encontrei. Não respondi ainda. Não me animei. Não me inquietei. Não me inspirei. Não quis. Não quero. Estou cansando de você, provavelmente por suspeitar que logo você vá cansar de mim. Não é um movimento novo, embora ainda não tenha conseguido explicar direitinho, no divã, o fenômeno. Eu vou embora, mesmo que ainda pareça estar. E não consigo voltar. Depois podem ser os ridículos “dezesseis dias seguintes”, mas, quase sempre, nem isso.

A casa limpinha. Máscaras nas estantes, na mochila, na bolsa, nas gavetas. Esperando. O kindle e o reino dos livros inacabados. Rúcula com manga. Alho frito. O vermelho intenso da rosa do deserto. Decisões tomadas. Grandes, imensas. Renúncias presentes e futuras. Camisola lilás. A televisão recebendo um poltergaist. Suco de maracujá. Muito suco de maracujá. Reunião no sábado. Um bom filme velho. Um gol do Flamengo. Uma música triste. O café sem açúcar. O shampoo de café. E o condicionador de canela. A ponta do lápis de cor. Os passarinhos, as florzinhas, o ventinho frio de chuva. Aquele doer sem diminutivo.

Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

“Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”

Chegou 2022 com alguns aperreios inesperados. Cheguei nele com a decisão de ficar bem. De remover muros, cercas e sei lá mais quantas camadas de proteção que eu sei que uso, que nem o menino enrolado em plástico bolha do Pequeno Grande Time. Bora lá, mergulhar de cabeça, correndo o risco de partir uns ossos. Ou o coração.

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Desde que voltei pra casa eu não fiquei triste, triste de verdade. Nem alegre. Nem calma. Nem nada que se costuma usar pra definir um estado. Meio oca, talvez. Tirei uma foto do meu lindo óculos. E faço de conta que não quero saber se alguém viu. Tenho intenção de passar uns dias deixando o mar lavar a ferida. E bebendo mimosas. E caipirinhas. E cervejas. E alguma água de coco. Se ele soubesse – mas ele não vai – talvez ele pensasse: se eu vivesse com essa mulher, eu seria um alcóolatra. Digo eu: melhor que ser um adicto da infelicidade (perdoem, estou decompondo a amargura, espero em breve ter outros sabores). Minha pia está limpa, minhas roupas estão lavadas, o chão está aspirado. Ok, a cama está bagunçada e tenho livros demais dentro do quarto, mas, espiando rápido, 2022 já começa melhor do que terminei 2021. Eu não curto chá (ou infusão, como a Fal e o Fabi preferirem), mas tomei banho de camomila. E fiz uma pequena prece – para os deuses gregos, que são os únicos que conheço pelo nome e tal. Comi pizza ontem, comi pizza hoje. Com café. Doei coisas, ganhei uma churrasqueira de fogão, além de um batom nude e água micelar – tive que pesquisar pra descobrir o que é. Vi muitos episódios de queer eye sobre pessoas incríveis que trabalham muito pra fazer o mundo melhor. Fiz isto enrodilhada na minha preguiça. Foi confortador passar o ano só e confirmar que sou desnecessária. Estou lendo um conto com uma personagem se chama Glosspan. Nem precisa muito mais do que isso pra ser bom, não é? Preciso de uma luz mais forte no meu quarto. De um colchão novo. Ir ao dentista. De menos danos. Melhores planos.

Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”.  A frase do Maradona é a epígrafe de um filme. Gosto de pensar que funciona, também, como síntese das minhas ações em relação a, bom, essa coisa toda.

Eu nunca fui especialmente ligada em super heróis embora tenha lido muita, muita mesmo, revistinha na infância/adolescência. Essa ênfase na quantidade vinha mais pela facilidade de encontrar este tipo de coisa pra ler do que por uma preferência temática. Entretanto, em tempos recentes, a Marvel tem me oferecido um consolo parecido com aquele que advém dos romances policiais, especialmente dos livros da Agatha Christie. Eles me confortam. Colocam meu mundo no lugar, mesmo que temporariamente. Dificilmente eu poderia eleger meu Vingador preferido. Mas, ao longo do tempo, fui reconhecendo minha afinidade com um tipo de personagem: o mais humano – e, humano, aqui, simbolizando potencial para enfiar o pé na jaca. Na longa lista brilham Derfel, Boromir, Rollo e afins. É nessa tradição que se apresenta meu xodó pelo Gavião Arqueiro. O herói de mau humor. Que sai todo roxo dos embates. Que faz o que é certo porque, bom, é o certo. O que tem uma melhor amiga. Que se envolve. Que vê longe e escuta mal. Que brinca com os filhos, tem piada cúmplice com a companheira, que passa vergonha em público. Nesse 2022 só quero voltar a ser eu mesma, sem nenhuma pretensão de super poder, pendurada nos prédios por um nadinha, fazendo o que é certo porque é certo e, evntualmente, o pé todo atochado na jaca.

Das coisas que você precisa ouvir, mas eu nunca, nunca vou te dizer: você toma péssimas decisões.

Antes de conhecer você eu não tinha razões para viver. Mais, eu não tinha razões para morrer. Você me deu os dois.” Se eu fosse uma das criadoras do álbum, colocaria assim: “amar é”… ver sinais onde existem apenas coincidências e diálogos fracos. Estou assistindo A Roda do Tempo. A série é bem qualquer coisa, há desvios demais da história dos livros pro meu gosto, mas – tal como os personagens todos – estou envolvida com Moiraine e disposta a segui-la, mesmo me sentindo incomodada quase sempre.

Segunda temporada de Emily em Paris: um conflito besta que se estende em um segredo sem pé nem cabeça. Mas o personagem Luc cresceu bem e me diverte.

Andei vendo: Tick, Tick…Boom!; A Filha Perdida; Meu ano em Nova Iorque; Não Olhei Para Cima, A Mão de Deus. #aquecimentoparaoOscar

Cartas e carrancas

Não tenho nada a dizer sobre o disco novo do Caetano. Não tenho nada a dizer sobre muitas coisas e mesmo sobre aquelas poucas que tenho algo ou muito a dizer, tenho silenciado quase sempre. Menos nas oito longas páginas – e contando – em que desfio memórias incompletas, reflexões antigas, perguntas novas, piadinhas cada vez menos preocupadas em fazer sentido e vários nadas contentes. Há muitos adjetivos nesta carta. Dos bons. E palavras proparoxítonas, que ambos gostamos. O antigo twitter seria impossível pra nós. O novo quase o é. Hoje espiei a frente da sua casa no google maps. Não sei se fui xereta ou atrasada nessa iniciativa. Não sei o que você sabe de mim. Mas sei o que importa: você ainda quer saber mais. Foda-se pandemia, eu já não quero nenhuma vida senão a que vou inventar.

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Eu sou ansiosa. Chego antes. Imagino de tudo: atos, sentimentos, finais. É muito raro (e, também, muito precioso) que alguém consiga apenas ser, ao meu lado. E, mais, que me faça apenas existir, sem a imaginação, as expectativas, os diálogos imaginários, as ações marionetadas, as grandes despedidas. Obrigada.

Porque hoje é sábado, isso e aquilo – foi mais ou menos assim que escreveu Vinícius. Porque hoje é sábado, 240 km de estrada pouco tranquila. Porque hoje é sábado, jantar 23hs. No intervalo: água, café, palavras. Porque hoje é sábado, trabalhar feito boi de puxar engenho e não terminar o que havia pra ser feito. Não chegar nem perto. Porque hoje é sábado, uma saudade inconveniente. Porque hoje é sábado, esvaziar a geladeira, separar as roupas pra máquina, aspirar o quarto. Porque hoje é sábado, futebol. E ainda que não fosse sábado, uma pontada com a derrota. Porque hoje é sábado, bater o martelo em uma casa pra chamar de minha no Rio. Um sapato vermelho pra São Paulo. Porque hoje é sábado, reler cartas e reinventar minhas respostas. Falando em carta, uma para o domingo: rainha de copas. Uma para o futuro: rainha de paus.

Belchior

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Mas, principalmente porque você não estará por perto para ouvir.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a distância é tão grande. Porque doem ao sair do peito para a língua e, afiadas, cortam minha garganta no caminho. 

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Um livro de capa amarela. Canetas falhando. Comida ruim. Tarefas incompletas. Seu fantasma puxando o meu pé. O jogo indesculpável da seleção masculina de futebol. Mais de 600.000 ausências. As decisões judiciais absurdas. A planilha de contas. A planta que definha. A mensagem que eu não respondi. O programa tranqueira. Todas as pecinhas do quebra-cabeça que anunciam: ano passado eu morri mesmo, o Belchior estava certo. 

Imaginar felicidades

Eu tenho sentido saudades de tudo. Especialmente de imaginar felicidades.

Lua que míngua, pequenos planos, longas cartas engavetadas, gastos inesperados, imagens de Lisboa, jogos de futebol, queijo errado, o pão certo, uma depilação esquisita, susto, café, café, café, sua foto me doendo, a vontade do livro que é caro demais, uma encomenda que não chega, espera, espera, espera, um tempo com Odisseu, desilusão, o universo já não me aguenta mais, a sensação de morrer em um mundo muito pior do que o que vivi, café, café, pão com patê de ricota e azeitona preta, Fellini, Éris como deusa do mês, uma dúzia de garrafas de água vazias ao redor da cama, coisas por fazer, atos de #forabolsonaro pelo país, uma resposta atravessada, o samba da Mangueira para 2022, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia nessa pandemia, se não eu, quero nem saber quem vai fazer você feliz, opa, errei a letra e acertei o sentir, café, café, feijão e banana, escolher um conto de Capote, empilhar cadernos e baralhos, os suspiros, os muitos suspiros, a planilha de custos, Olhos nos olhos, a morte de Sebastião Tapajós, Edward Hopper pintando meus dias, vento pela porta da varanda, a pele macia, Bethania cantando à capela, uma história emperrada, a sensação incessante de pisar em areia movediça.

outono

Outono. Talvez seja a estação que mais me cativou quando a gente as tem bem marcadinhas. No outono tudo é maduro. Há cor, cheiro e disposição. No outono o morno das castanhas. As folhas vermelhas. O vento eriçando pelos e mamilos. O mundo perde o pudor. As árvores se põem nuas. No outono já não há promessas, a vida é em entregas. O outono é luxúria. E aconchego, também. Fumacinha na tigela e ainda azul nos dias. Uma manta colorida. E memória. Outono é outra luz. E terra. Pés descalços e encontro. Dourado à beira da estrada. Outono é essa vontade de chegar, encolher no abraço e aceitar o bom do agora.  Neste momento é outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, pode-se cantarolar ao percorrer, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam desnudas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.

Tem conversas que eu não consigo mais ter e coisas que eu não quero explicar. Se alguém não entende, por exemplo, porque ter apenas cardápios em Qrcoisa não é desejável, eu dou de ombros e sigo andando. Tô cansada demais. Eu tenho bússola, descobre aí a sua, baby.

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Escrevi uma Garrafinha esses dias sobre dias banais e me reinventar para viver os dias que chegam. Dá pra ler neste link: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu/letters/newscoisa-66-banal e se quiser assinar e receber as Garrafinahs direto no seu email, é aqui: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

Todos os outros dias

 “Descobri — numa carta de Clarice Lispector para Lucio Cardoso —
que polisipo, em grego, significa “pausa na dor”.
Têm sido, estes dias, polisipos.”

Caio Fernando Abreu

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Passei o dia na cama, hoje. Não pelas melhores razões (saudades, melhores razões), mas não pelas piores. Não por doença ou angústia. Eu li – uma das coisas gostosas em mim é que quando engrena eu leio ligeiro demais. 230 e tal páginas se foram em menos de uma manhã. Aí revi um filme imenso, viagem no tempo, amizades, perdas, esperança. Uma coragem. Segui no dia em três partidas de futebol. Na mais importante delas – pra mim – o Flamengo venceu. Papeei com o Fabiano – e nem foi só sobre livros. Depois fiquei fuçando e-mails antigos. Eu, deliciosamente pedante. Que maravilha a vida que eu tenho vivido. Muito bom lembrar disso. Que vinha me divertindo. E que se tem estado tudo cinza e pesado nos meus dias é porque tá mesmo especialmente pesado e cinza no mundo. Mas, esticando a vista, lá está o veio do bom. Sim, eu tenho sofrido. Sofrido por grandes motivos e por miudezas. Mas nem boa nisso eu sou. Por isso fico genuinamente animada quando há analgesia. Fiz um banho especial. Morninho, com camomila e outras coisas doces e gentis. Menos chorosa, repito a sabedoria do Mark Sloan: Walk tall, Luciana. Até queria esticar as horas, mas já me sinto molinha. Vou dormir vendo um compacto de Palmeiras 1 X 3 Flamengo. E sorrindo.

(esse hoje foi ontem, agora já é o amanhã do antes e a vida tá sapateando, com bico fino, no meu coração)

Espelho, espelho meu

Enquanto grande parte do meu círculo está decretando o fim da pandemia + distanciamento social, engrenando uma quinta e retomando a vida como se covid fosse uma distante memória ruim, eu ainda estou tateando, tentando descobrir uma forma de sobreviver ao isolamento. Me apaixonar não resolveu, então agora eu escrevo cartas. Escrevo com muito, muito carinho, tentando fazer a letra ficar legível e dizer alguma coisa gentil. Se você recebeu uma carta minha e uma (ou as duas) dessas condições não estão presentes, saiba: não foi falta de esforço. Nesse processo, reencontrei um amigo, uma pessoa que amo muito, mas que, por completa falta de jeito minha, eu tinha afastado. Ponto pras cartinhas. Algumas pessoas recebem as cartas e ficam contentes. Algumas pessoas recebem as cartas e respondem. Aí eu fico contente. E re-respondo. Só não escrevo pra você. Bom, é uma meia verdade. Eu escrevo. Mas não envio.

Ressentimento é uma coisa amarga. E grudenta. Viscosa, de um jeito negativo. Vai chegar o dia em que vou me esquecer de lembrar de esquecer. Vai sim. Por enquanto, trago esse travo nas palavras. Recordo envergonhada, o que eu disse, fiz, dei. Risos. O que digo, faço, dou. Se nego às cartas envelope e selo, não é por querer te privar do que quer que seja. Não tenho essa firmeza de caráter. Já ofereci tudo que tinha em mim. Palavras são o reconhecimento da falta. Não posso te dar o meu vazio.

Para além do seriado juvenil em que transformei minha vida, tipo um Barrados no Baile sofrido, Brasília está caindo, vias fechadas por caminhoneiros que dançam macarena, um povo esquisito que usava verde e amarelo e bradava por repressão agora quer sair de branco, mas ainda querendo a repressão e desejando mortes várias – inclusive a minha, STF com notinha de repúdio, centrão raspando o tacho, Temer escrevendo cartinha pro bozo assinar e eu gastando meu doer com a mensagem sem setinhas azuis. Ridícula. É que fico agoniada porque eu seria feliz fazendo você feliz. Mas você não quer ser feliz. Não desse jeito.

Se eu desisti – eu disse que desisti, não disse? então foi, tá desistido – eu devia pôr minha violinha no saco e cantar em outra freguesia, de ouvidos mais atentos. Devia mesmo. Mas fico arrodeando, fazendo de conta que estou só afinando uma corda, fingindo que estou compondo a última estrofe antes de seguir, cantarolo alto como quem ensaia, invento miudezas várias para ficar por perto, fazendo bastante barulho, como ensinou o Pedro Cardoso, E nada de Deborah Bloch pra mim.

Pelo menos a casa está limpa e arrumada, as aulas estão em dia, telegramas foram entregues, tem fruta na geladeira, tomei meus remédios, aguei as plantas, fiz ovinho mexido e suco de laranja para jantar e, se eu dormir, em um amanhã será sol e mar.

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Eu, no x-games da vida e uma dolorida resignação

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Desde que comecei a ver X-games com Bob Burnquist, Mineirinho e cia., descobri que tenho alma de skatista: volta após volta taco a cara no cimento e ainda me lembro de rir porque, sei lá, em algum momento eu vou voar e quando há voo, ah, que beleza. Por isso, estou na pista. Claro que arranha, machuca, arranca a tampa do joelho. E, também por isso, chorei no divã. Mas consegui dizer: displicente. Porque há quem não tenha o que dar. Mas há quem não se importa o bastante para lembrar de. Espero que sejam lágrimas suficientes para encharcar seus pés de barro. Abrir mão de um amor é ceder de quem somos naquele amar. É difícil perder esse você que inventei, mais difícil ainda me despedir dessa eu que quis, quis mesmo, quis tanto, você. As águas do desejo são turvas, eu quase me afoguei. Faltou o ar. Ainda falta, mas nesses quandos, vou pra varanda e mergulho no azul. Ou encho a banheira. Ou peço uma comida gostosa. Trato bem o corpo que você ignora. Não tenho muita certeza se vale a máxima que cada um escolhe a vida que leva, mas confio que cada um escolhe a vida que lhe leva. Como uma versão da canção do Chico escrita em outra linha temporal (pois é, eu vi Loki), consta nos astros, nos signos, nos búzios, nos anúncios, no espelho, garantem os orixás que eu tenho que deixar pra trás. Abrir mão. Desapegar. Eu sei o quê, eles só não explicam o como. Continuo caindo com tudo no cimento. Mas continuo levantando. E buscando o voo.

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Infinitena, ano 2.
509 madrugadas
561 mil mortes
Aproximadamente 20.026.500 casos de coronavírus
1.118 mortes em 24horas
2 doses de Astrazeneca e nenhuma reação (mentira, muitas: fiquei emocionada, zangada, solitária, contente, aliviada, foram tantas que nem sei descrever)
373o dia no calendário kalúnico
Um apelido, uma ou duas playlists, um coração partido

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Estou me resignando à ideia de o Brasil manter um número constante e significativo de mortes por covid. Estou me resignando a, eu mesma, ficar cada vez mais em casa, não voltar a frequentar cinemas, restaurantes, não fazer compras em shopping, me resignando a não viajar pra ver amigos em outros estados. Estou me resignando a fronteiras internacionais fechadas ao turismo brasileiro e a passar todas as férias na praia aqui vizinha.

Porque olho pela janela e tem artista que foi resistência esses meses todos, fazendo shows – com todos os protocolos. Amigos e conhecidos que se cuidaram esse tempo todo achando que é o jeito abrir mesmo todas as escolas – com todos os protocolos – porque já não dava mais. Vendo gente juntinho, juntinho, juntinho em festas e comemorações e fazendo presencialmente trabalhos que poderiam ser à distância – com todos os protocolos – porque a vida precisa seguir.

E eu já nem estou mais discutindo se ainda dava, se a vida precisa mesmo seguir, se a arte é ou não indispensável agora. Não estou culpando ninguém nem mesmo considerando quem devia ser mais ou menos forte, mais ou menos resistente, fazer assim ou assado, Estou apenas triste porque todos os protocolos são absurdamente desconexos do que é efetivamente recomendado: não são espaços ventilados, não é obrigatório uso de PFF2, não tem intervalos em curtos espaços de tempo para se estar ao ar livre. Apenas se aceita o termo protocolo do jeito que ele vem, se inspira fundo, se reza ou se torce pro melhor e nos acostumamos à dor.

Eu me espanto, eu realmente me espanto, porque dá pra saber exatamente o que precisa ser feito pra minimizar. Não estou almejando isolamento, lockdown, essas aspirações mais nobres de um tempo anterior. Mas testagem, sabe, coisa possível. Máscara. Rastreio. Não é difícil, até eu que sou limitada, sei.

Pássaro sem asa e um campo minado

Uma segunda bem longa. Que não se cansou ainda de nós, ela disse na hora do diarinho. Um jeito muito mais bonito do que reclamar e reclamar e reclamar da exaustão, como eu tenho feito. Ainda assim, apesar da beleza do enunciado, uma segunda imensa. Olimpíada de noite e de manhãzinha. No intervalo: coisa demais pra fazer, pra pensar, pra sentir. Até os quitutes das olimpíadas sofreram os efeitos, fui apenas de tortilla de batata com cebola e queijo. Graças aos deuses pela cebola e graças a quem deixou o leite talhar, pelo queijo. No meio, um divã inesperado. Meu rosto no espelho. Não, meu desejo no espelho. Confirmando imperativos. Firme, luciana, firme. Apesar do mate, apesar dos sonhos. Um passo, outro passo. Mas tem um sensor, né. Só pode, tipo aquele das granadas enterradas. Pisei em uma e sempre que penso em sair e diminuo o peso, dispara como se fosse estourar. Você adivinha. Gentileza, elogio, coração. Eu, manteiga. Vexame. De novo em cima da granada. Suspirando. Coloco o sorriso no rosto e faço de conta que. Bem leve, leve, é isso, marisa? A amiga é tão amiga que assistiu a live no dia seguinte. Nas redes vejo pessoas fazendo planos de encontro, viagem, bar para vinte dias depois da segunda dose da própria vacina e me dá um desânimo. Não estamos entendendo nada. Lá dentro uma voz corrosiva lembra que eu mesma faço planos para dezembro. Argumento que é um hipotético dezembro. Se houver cobertura vacinal. Se isso, se aquilo. Leio a notícia que a taxa de contaminação no brasil deu uma leve subida. Não verás dezembro nenhum. Como é mesmo o nome dele? Tento responder e seu nome gruda na minha língua. Escuto letra por letra na minha própria voz e cada uma delas é uma pontada no coração. Bico afiado. Pássaro sem asa, rei da covardia. Arrumo a cama, aguo as plantas, choro de vez em quando. Alterno tristeza e beleza. Obrigada, olímpicos. As dúvidas do cotidiano me atropelam. Já liguei pro moço que conserta a máquina de lavar roupa? Claro que não. Compro ou não compro o salmão pelos olhos da cara? Claro que não. Porque a vida real é tão exigente? No mais, café, feijão, farinha. Do que é fresco, banana, coentro e rúcula. Nem era diarinho mas ela quebrou minhas pernas colocando o Zeca Baleiro pra me lembrar o tanto que quero –  tua língua, mamilos, beijo, Tejo, Guanabara – e me desprezar levemente porque vou passar agosto esperando setembro, setembro esperando outubro, outubro esperando novembro, novembro esperando dezembro, dezembro esperando você e você, você vai dizer sim e depois silêncio. Agora, outras esperas. Espero um trabalho por email e espero um email de trabalho. Nenhum dos dois chega, passo pro próximo serviço. Tento não prestar atenção nos estragos no Cnpq e na possibilidade de ter que fazer lattes e tudo mais de novo. Você acorda lá no seu longe. Eu aguardo o dia de não precisar mais de você para dormir. Anoto vários nadas no caderninho. Leio os contos para o Cortazar na quarentena e penso na imensa sorte de poder ser outra nessas noites de fumaça, taças e livros. Meu carro estava se desmanchando por falta de uso. Meu cabelo mais cai do que cresce. Preciso marcar oculista, exame, dentista. Ou morrer me desmanchando, como o carro. Pergunto para as cartas se há um moço pra mim. Sim. Pergunto se ele está em Mossoró. As cartas debocham e mandam um não em neon. Tenho um grande número de quadros para colocar na parede. E eu, eu nunca. Não dou conta dos quadros, das dores, do tempo, das tarefas, de todas as mensagens. Me irrito com mais um mouse com problema. Escuto crianças brincando na rua e sorrio. Há algum alento em ainda conseguir sentir o bom. A ginasta russa terminando sua apresentação no solo ternamente comovida é meu espírito animal. Escuto a comentarista dizendo: não existe atleta sem dor. O atleta convive sempre com a dor. Cada um sente dor em algum lugar. Você é meu esporte.

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Infinitena, ano 2.
#dia500
nenhum corte de cabelo profissional
1 corte de cabelo amador
1 fim de semana na praia
1 cadeira preta com furinhos
1 viagem constantemente adiada
3 semestres completos e 1 iniciado
108 encontros do Cortazar na Quarentena
7 aulinhas  de cinema
1 oficina de escrita por começar
2 shows da Salmaso
1 encontro com os pais, sem abraço
1 artigo em evento e 1 artigo submetido à revista
4  madrugadas olímpicas
5 medalhas
#dia364 no calendário kalúnico
4 tentativas de ir embora
1 piada repetida
2 Verissimos, 1 pintado
1 Melody Gardot
1 vontade
1 ilusão de encontro
61 garrafinhas
1 dose da vacina
551 mil mortos
551 mil mortos
551 mil mortos
1 horror inesquecível

Vejo a amiga à beira de despenhadeiro e meu coração falha. Penso em gritar cuidado, mas tenho medo do desequilíbrio em caso de susto. Que coragem é essa, amiga, andar vendada assim na beiradinha? Toda nua. Toda. Pé em ponta, rodopios, faz pose, balança. Vou devagar, mão estendida, cheia de sermão pra depois do resgate. No finzinho da pedra, o ao redor vazio. Era eu, era eu, era eu. Eu e o abismo. Me empurro, então.