Loja de penhor, cuscuz de peitinho e a ilha da proteção de tela

Depositei a vida em uma loja de penhor e não tenho recursos para resgatá-la.

Um livro da Agatha Christie por dia, na ordem em que forma publicados, a morfina da vez.

Vamos jantar cuscuz de peitinho e ovo mexido, o sol de dentro pra fora.

Tenho saudades das palestras que me confundiam, dos seminários em que eu entendia pouquíssimo, das sonolentas aulas expositivas, dos textos longos e cacetes. Saudades do tempo em que eu aprendia.

Um montão de obrigações, reuniões, agendamentos. Encontro algum consolo quando lembro que a minha agenda é lindona.

Olhei, olhei e tá confirmado: este ano não conseguirei escrever nada, nadinha.

O cobertor continua meio curto.

Dei um passo maior que as pernas e o jeito, agora, é seguir aos trambolhões.

Vazio demais e nenhuma pandemia pra pôr a culpa.

***************

downton

***************

Tem dias que me sinto uma farsa, você não? E não, não estou me referindo à síndrome de impostor, não é nenhuma percepção de mim mesma como incompetente ou insuficiente. É a sensação de farsante. De não ser quem parece que eu sou. Não costumo me preocupar muito porque sei (ou penso que sei) que um dos motivos da gente não se sentir verdadeiramente a gente mesma é que a gente não é mesmo a gente mesma. Ou, pelo menos, a gente não é só essa gente mesma que a gente sabe e reconhece. Tem uma suruba de “a gente mesma” que a gente nem faz ideia. Além do eu, esse pândego deslizante, ainda tem um mói de coisa aperriando  nosso juízo.

Mas, o que interessa: uma farsante. Não que eu saiba em quê exatamente eu engano. Ou a quem. Se for pensar bem – mas não quero, não quero – talvez a mim mesma. Acontece que lá vem esse “mesma” outra vez bagunçar tudo. Não me escute. Ou ainda, não leia. Não há ninguém aqui.

Não é isso. É uma mensagem cifrada. Ou aqueles troços enterrados no quintal. Para abrir daqui a X anos. Como se a memória não fosse esse antigo projetor dos slides preferidos. Ou como se o futuro não parecesse o Godzila. Porque é isso, olhando pra frente, só tememos o que já adivinhamos. Ou: eu temo o que adivinho. Mania de colocar na primeira pessoa do plural pra ver se fica mais fácil de lidar. Spoiler: não fica. A caixinha enterrada só com as ausências. As cartas que não escrevi. Os bilhetes que não enviei. Os telefonemas que não respondi. As reuniões que faltei. As consultas que não marquei. Os exames que não fiz. As visitas que não retribuí. As mãos que soltei. Tudo que me esqueceu. Opa, que esqueci. A solidão é minha. Os sonhos. Os passos. A estrada. O barco. As letras no pergaminho. A garrafa. As ondas. A ilha. Eu sou a ilha, essa metáfora tão banal. Talvez aquela, da antiga animação de proteção de tela.  .

2023 chegou; eu, ainda não

Eu desaprendi a viver.

Nunca fui uma dessas pessoas que se define pelo trabalho mas, em 2023, só o que vai existir na minha vida é trabalho, ou ainda, só existirei no trabalho.

Assisto todos esses programas porcaria da Netflix, desses de gente que quer muito casar. É aterrador, mas não consigo desviar o olhar (suponho que se sente mais ou menos assim quem diminui velocidade e passa devagarzinho perto de acidente de carro). Fiquei matutando porque este fascínio. Talvez seja um pouco aquilo da histérica inquirir o desejo alheio, pra entender porque alguém iria querer o que a gente não quer e se faria mais sentido querer aquilo do que o que se costuma (não) querer. Não dá pra evitar mencionar: como tem gente perdidinha nesse mundo.

Eu não posso reclamar de falta de dinheiro, mas eu tô reclamando de falta de dinheiro sim.

Sabe quando você vê o trem vindo com tudo, mas não consegue sair do trilho?

Preciso voltar pra análise pra controlar a sangria. Eu sei tudo que tenho que fazer, tudo que preciso fazer, tudo que quero fazer, cuidar dos vínculos, escrever cartas, responder as mensagens dos amigos enviar livro pelo correio, sair da concha, cuidar das amizades. Mas não consigo encontrar tempo, palavra, energia. E assim vou me perdendo ao perder quem me faz bem.

Que muleta bonitinha, esse meu sintoma.

*************

Conjugando o verbo dar, no indicativo:

eu dou (se eu quiser) – presente do indicativo

tu deste (e ninguém tem nada com isso) – pretérito perfeito

ela dará (porque é livre pra fazer com o corpo o que quiser) – futuro do presente

nós dávamos (quando nos apetecia) – pretérito imperfeito

vós daríeis (se pintasse a vontade) – futuro do pretérito

eles deram (que o gênero não importa pra alegria) – pretérito mais-que-perfeito

Sleep more

Tem umas situações da vida adulta que se parecem demais com injeção ou vacina durante a infância: a gente até entende que é pro nosso bem, mas dói um bocado.

Estou no mastdon: @caisdesaudades.

No tempo do alívio, em que a garra fria afrouxa o aperto nos pulmões, penso apenas na poda da minha rosa do deserto, na sopa de legumes perfurmando a cozinha, na recuperação do joelho do meu cunhado, no cansaço da minha irmã, no aromatizador com cheiro de cangote de bebê, na data das consultas médicas, no preço de um lençol macio e em palavras que sejam como um afago com o dorso da mão, somente nisso consigo pensar, o mundo é grande demais, complexo demais, dolorido demais. Aliviada mas não descansada, só isso e já me sinto exausta.

Uma carranca, o áudio livro do Pequeno Príncipe, um livro de arte, aliás, livros diversos, caderno de Paris, baralho, filme, uma lista no spotify, carimbos, adesivos, atenção. O que você me deu: um cano.

Assisti uns vinte episódios de uma série cujo mérito principal era aparecer a bunda do protagonista toda hora – porém uma crítica conscienciosa tem que alertar que a espera pelo nu frontal será frustrante.

Eu já falei daquele filme com a Binoche. Aquele das imagens e das palavras. E do ingênuo protagonista: “você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto”. Onde dói o amor? No corpo, dói sempre na carne porque é no corpo que o amor inscreve sua história. É a pele que ele arisca, que ele esquenta, que ele assanha. E daí pra cada vez mais fundo. Tem gente que fala da pontada no coração. Se o coração não basta e o amor parece precisar de mais espaço, alguns sentem um aperto no peito. Se o amor magoa, a dor é no cotovelo. Se corremos atrás dele – em vão, correr atrás dele é sempre inútil, aprendi no filme da Julia Roberts – dá aquela dorzinha do lado do tórax. Dor desviada. Adoro esse termo para essa situação, parece que a dor foi tirada do rumo, deslocada, por causa do amor. Você me dói, saiba. Quase sempre no pescoço. Um amor que trava o movimento. O esforço prolongado de desviar o olhar dos momentos que não teremos. As noites mal dormidas sem você. Uma dor que se espalha para os ombros por carregar o peso desse desejo que você alimenta e nunca alivia. Doem-me, principalmente, as pernas. Como se eu tivesse caminhado tanto e tanto para te encontrar. Como se ainda estivesse esperando, parada, em pé, que você entenda. Mas você não quer saber. Não quer saber o que, quando, onde dói. Não se inquieta, como o moço do filme. Suspeito que nem mesmo se eu fosse ela, a Binoche.

durme

Às vezes eu tenho a impressão de que a esquerda do sudeste usa o “nordestino”, referindo-se ao Lula, como um adereço fofinho e meio inócuo, mas que só o reconhecem como liderança capaz dada a “vivência” em são paulo, porque não é possível ignorarem, com tanta insistência, nomes relevantes do próprio PT – ou da esquerda entendida mais ampla, na discussão que eles mesmos já resolveram abrir sobre a sucessão em 2026.

Acordei e o twitter estava  –  again  –  na pauta síndrome do impostor. Não tenho. Sinto-me do tamanho certo para as coisas que faço. Acho que faço com a competência e a verve adequada e sou reconhecida na medida por isso.

A idéia de paixão às vezes desaparece de mim e me assusto um pouco. Talvez um dia aconteça, conforto-me. A imaginação me prega peças. A pessoa que sorri, na outra ponta do balcão da sorveteria, será que?

Lula, senhoras e senhores:

“Meus amigos e minhas amigas.

Chegamos ao final de uma das mais importantes eleições da nossa história. Uma eleição que colocou frente a frente dois projetos opostos de país, e que hoje tem um único e grande vencedor: o povo brasileiro. Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha. É a vitória de um imenso movimento democrático que se formou, acima dos partidos políticos, dos interesses pessoais e das ideologias, para que a democracia saísse vencedora. 

Neste 30 de outubro histórico, a maioria do povo brasileiro deixou bem claro que deseja mais – e não menos democracia. Deseja mais – e não menos inclusão social e oportunidades para todos. Deseja mais – e não menos respeito e entendimento entre os brasileiros. Em suma, deseja mais – e não menos liberdade, igualdade e fraternidade em nosso país.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que exercer o direito sagrado de escolher quem vai governar a sua vida. Ele quer participar ativamente das decisões do governo. O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que o direito de apenas protestar que está com fome, que não há emprego, que o seu salário é insuficiente para viver com dignidade, que não tem acesso a saúde e educação, que lhe falta um teto para viver e criar seus filhos em segurança, que não há nenhuma perspectiva de futuro. O povo brasileiro quer viver bem, comer bem, morar bem. Quer um bom emprego, um salário reajustado sempre acima da inflação, quer ter saúde e educação públicas de qualidade. Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, ter acesso a todos os bens culturais, porque a cultura alimenta nossa alma. 

O povo brasileiro quer ter de volta a esperança. 

É assim que eu entendo a democracia. Não apenas como uma palavra bonita inscrita na Lei, mas como algo palpável, que sentimos na pele, e que podemos construir no dia-dia. Foi essa democracia, no sentido mais amplo do termo, que o povo brasileiro escolheu hoje nas urnas. Foi com essa democracia – real, concreta – que nós assumimos o compromisso ao longo de toda a nossa campanha. E é essa democracia que nós vamos buscar construir a cada dia do nosso governo. Com crescimento econômico repartido entre toda a população, porque é assim que a economia deve funcionar – como instrumento para melhorar a vida de todos, e não para perpetuar desigualdades. 

A roda da economia vai voltar a girar, com geração de empregos, valorização dos salários e renegociação das dívidas das famílias que perderam seu poder de compra. A roda da economia vai voltar a girar com os pobres fazendo parte do orçamento. Com apoio aos pequenos e médios produtores rurais, responsáveis por 70% dos alimentos que chegam às nossas mesas. Com todos os incentivos possíveis aos micros e pequenos empreendedores, para que eles possam colocar seu extraordinário potencial criativo a serviço do desenvolvimento do país. 

É preciso ir além. Fortalecer as políticas de combate à violência contra as mulheres, e garantir que elas ganhem o mesmo salários que os homens no exercício de igual função. Enfrentar sem tréguas o racismo, o preconceito e a discriminação, para que brancos, negros e indígenas tenham os mesmos direitos e oportunidades. Só assim seremos capazes de construir um país de todos. Um Brasil igualitário, cuja prioridade sejam as pessoas que mais precisam. Um Brasil com paz, democracia e oportunidades. 

Minhas amigas e meus amigos. 

A partir de 1º de janeiro de 2023 vou governar para 215 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somo um único país, um único povo, uma grande nação. Não interessa a ninguém viver numa família onde reina a discórdia. É hora de reunir de novo as famílias, refazer os laços de amizade rompidos pela propagação criminosa do ódio. A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra. Este país precisa de paz e de união. Esse povo não quer mais brigar. Esse povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído. É hora de baixar as armas, que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida. 

O desafio é imenso. É preciso reconstruir este país em todas as suas dimensões. Na política, na economia, na gestão pública, na harmonia institucional, nas relações internacionais e, sobretudo, no cuidado com os mais necessitados. É preciso reconstruir a própria alma deste país. Recuperar a generosidade, a solidariedade, o respeito às diferenças e o amor ao próximo. Trazer de volta a alegria de sermos brasileiros, e o orgulho que sempre tivemos do verde-amarelo e da bandeira do nosso país. Esse verde-amarelo e essa bandeira que não pertencem a ninguém, a não ser ao povo brasileiro. 

Nosso compromisso mais urgente é acabar outra vez com a fome. Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer, ou que consumam menos calorias e proteínas do que o necessário. Se somos o terceiro maior produtor mundial de alimentos e o primeiro de proteína animal, se temos tecnologia e uma imensidão de terras agricultáveis, se somos capazes de exportar para o mundo inteiro, temos o dever de garantir que todo brasileiro possa tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias. Este será, novamente, o compromisso número 1 do nosso governo. 

Não podemos aceitar como normal que famílias inteiras sejam obrigadas a dormir nas ruas, expostas ao frio, à chuva e à violência. Por isso, vamos retomar o Minha Casa Minha Vida, com prioridade para as famílias de baixa renda, e trazer de volta os programas de inclusão que tiraram 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza. O Brasil não pode mais conviver com esse imenso fosso sem fundo, esse muro de concreto e desigualdade que separa o Brasil em partes desiguais que não se reconhecem. Este país precisa se reconhecer. Precisa se reencontrar consigo mesmo. 

Para além de combater a extrema pobreza e a fome, vamos restabelecer o diálogo neste país. É preciso retomar o diálogo com o Legislativo e Judiciário. Sem tentativas de exorbitar, intervir, controlar, cooptar, mas buscando reconstruir a convivência harmoniosa e republicana entre os três poderes. A normalidade democrática está consagrada na Constituição. É ela que estabelece os direitos e obrigações de cada poder, de cada instituição, das Forças Armadas e de cada um de nós. A Constituição rege a nossa existência coletiva, e ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la.

Também é mais do que urgente retomar o diálogo entre o povo e o governo. Por isso vamos trazer de volta as conferências nacionais. Para que os interessados elejam suas prioridades, e apresentem ao governo sugestões de políticas públicas para cada área: educação, saúde, segurança, direitos da mulher, igualdade racial, juventude, habitação e tantas outras. Vamos retomar o diálogo com os governadores e os prefeitos, para definirmos juntos as obras prioritárias para cada população. Não interessa o partido ao qual pertençam o governador e o prefeito. Nosso compromisso será sempre com melhoria de vida da população de cada estado, de cada município deste país. Vamos também reestabelecer o diálogo entre governo, empresários, trabalhadores e sociedade civil organizada, com a volta do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. 

Ou seja, as grandes decisões políticas que impactem as vidas de 215 milhões de brasileiros não serão tomadas em sigilo, na calada da noite, mas após um amplo diálogo com a sociedade. Acredito que os principais problemas do Brasil, do mundo, do ser humano, possam ser resolvidos com diálogo, e não com força bruta.Que ninguém duvide da força da palavra, quando se trata de buscar o entendimento e o bem comum. 

Meus amigos e minhas amigas. 

Nas minhas viagens internacionais, e nos contatos que tenho mantido com líderes de diversos países, o que mais escuto é que o mundo sente saudade do Brasil. Saudade daquele Brasil soberano, que falava de igual para igual com os países mais ricos e poderosos. E que ao mesmo tempo contribuía para o desenvolvimento dos países mais pobres. Brasil que apoiou o desenvolvimento dos países africanos, por meio de cooperação, investimento e transferência de tecnologia. Que trabalhou pela integração da América do Sul, da América Latina e do Caribe, que fortaleceu o Mercosul, e ajudou a criar o G-20, a UnaSul, a Celac e os BRICS. 

Hoje nós estamos dizendo ao mundo que o Brasil está de volta. Que o Brasil é grande demais para ser relegado a esse triste papel de pária do mundo. Vamos reconquistar a credibilidade, a previsibilidade e a estabilidade do país, para que os investidores – nacionais e estrangeiros – retomem a confiança no Brasil. Para que deixem de enxergar nosso país como fonte de lucro imediato e predatório, e passem a ser nossos parceiros na retomada do crescimento econômico com inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Queremos um comércio internacional mais justo. Retomar nossas parcerias com os Estados Unidos e a União Europeia em novas bases. Não nos interessam acordos comerciais que condenem nosso país ao eterno papel de exportador de commodities e matéria prima. Vamos re-industrializar o Brasil, investir na economia verde e digital, apoiar a criatividade dos nossos empresários e empreendedores. Queremos exportar também conhecimento. Vamos lutar novamente por uma nova governança global, com a inclusão de mais países no Conselho de Segurança da ONU e com o fim do direito a veto, que prejudica o equilíbrio entre as nações. 

Estamos prontos para nos engajar outra vez no combate à fome e à desigualdade no mundo, e nos esforços para a promoção da paz entre os povos. O Brasil está pronto para retomar o seu protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos biomas, sobretudo a Floresta Amazônica. Em nosso governo, fomos capazes de reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia, diminuindo de forma considerável a emissão de gases que provocam o aquecimento global. Agora, vamos lutar pelo desmatamento zero da Amazônia. O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva. Uma árvore em pé vale mais do que toneladas de madeira extraídas ilegalmente por aqueles que pensam apenas no lucro fácil, às custas da deterioração da vida na Terra. Um rio de águas límpidas vale muito mais do que todo o ouro extraído às custas do mercúrio que mata a fauna e coloca em risco a vida humana. 

Quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente, uma parte da humanidade morre junto com ela. Por isso, vamos retomar o monitoramento e a vigilância da Amazônia, e combater toda e qualquer atividade ilegal – seja garimpo, mineração, extração de madeira ou ocupação agropecuária indevida. Ao mesmo tempo, vamos promover o desenvolvimento sustentável das comunidades que vivem na região amazônica. Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem destruir o meio ambiente. 

Estamos abertos à cooperação internacional para preservar a Amazônia, seja em forma de investimento ou pesquisa científica. Mas sempre sob a liderança do Brasil, sem jamais renunciarmos à nossa soberania. Temos compromisso com os povos indígenas, com os demais povos da floresta e com a biodiversidade. Queremos a pacificação ambiental. Não nos interessa uma guerra pelo meio ambiente, mas estamos prontos para defendê-lo de qualquer ameaça. 

Meus amigos e minhas amigas. 

O novo Brasil que iremos construir a partir de 1º de janeiro não interessa apenas ao povo brasileiro, mas a todas as pessoas que trabalham pela paz, a solidariedade e a fraternidade, em qualquer parte do mundo. Na última quarta-feira, o Papa Francisco enviou uma importante mensagem ao Brasil, orando para que o povo brasileiro fique livre do ódio, da intolerância e da violência. Quero dizer que desejamos o mesmo, e vamos trabalhar sem descanso por um Brasil onde o amor prevaleça sobre o ódio, a verdade vença a mentira, e a esperança seja maior que o medo. 

Todos os dias da minha vida eu me lembro do maior ensinamento de Jesus Cristo, que é o amor ao próximo. Por isso, acredito que a mais importante virtude de um bom governante será sempre o amor – pelo seu país e pelo seu povo. No que depender de nós, não faltará amor neste país. Vamos cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro. Viveremos um novo tempo. De paz, de amor e de esperança. Um tempo em que o povo brasileiro tenha de novo o direito de sonhar. E as oportunidades para realizar aquilo que sonha. 

Para isso, convido a cada brasileiro e cada brasileira, independentemente em que candidato votou nessa eleição. Mais do que nunca, vamos juntos pelo Brasil, olhando mais para aquilo que nos une, do que para nossas diferenças. 

Sei a magnitude da missão que a história me reservou, e sei que não poderei cumpri-la sozinho. Vou precisar de todos – partidos políticos, trabalhadores, empresários, parlamentares, govenadores, prefeitos, gente de todas as religiões. Brasileiros e brasileiras que sonham com um Brasil mais desenvolvido, mais justo e mais fraterno. Volto a dizer aquilo que disse durante toda a campanha. Aquilo que nunca foi uma simples promessa de candidato, mas sim uma profissão de fé, um compromisso de vida: O Brasil tem jeito. Todos juntos seremos capazes de consertar este país, e construir um Brasil do tamanho dos nossos sonhos – com oportunidades para transformá-los em realidade. Mais uma vez, renovo minha eterna gratidão ao povo brasileiro. Um grande abraço, e que Deus abençoe nossa jornada”

O amor é cego e outras febres

Ele voltou. Com aquele jeito fortuito de estar, sim, mas como quem fica perto da porta para escapar mais facilmente. Eu vi ele me olhando. Desviei rápido a vista, sei bem demais que quando se olha para o abismo, ele nos convida ao mergulho e eu já não tenho forças para escalar o despenhadeiro mais uma vez. Prefiro evitar a vertigem.

Lidar com as sensibilidades alheias sem me perder demais, a meta.

love-is-blind-facts-jp-221019-13f46b

A sensação de que realmente sumi do pensar, do sentir, do lembrar faz parecer que eu carrego um bicho do pé encravado na aorta. Estou precisando responder cartas, mas não sei como escrever só o que posso ou devo dizer. Cartas. Não para você. Não mais pra você. Nunca mais para você – escrevo para que eu mesma aceite o limite. Cartas. Pra ele. Pra ela. Outros destinos. Digo, destinatários. Esta semana comprei maçãs da turma da mônica, uva sem caroço e mamão hawai. Abria geladeira agora a pouco e ri um tanto, deve ser para combinar com o tanto que tenho me percebido miudinha. Gastei horas me irritando com os participantes do reality Love is blind por serem tão ruins no que eu sou tão boa. Ou era. Não pensei encravar criptonita no meu peito, depois de já andar na vida há tanto tempo. Não abri a mensagem de além mar. Não quero pensar que quero o que no antes eu já sabia que não queria só para no agora fingir que não quero o que não devia querer mais. Mais. E mais. A Fal faria (fará?) uma tese sobre o que comem os que trazem o coração triturado. Eu ajudo. O que planejam comer os que trazem corações triturados: atum no gergelim, rúcula e batata doce. O que efetivamente comem: salada de batata e ovo cozido. Entre as incontáveis coisas que não sei fazer tal como piscar e assobiar, está fotografar. Eu adoraria saber fotografar, especialmente as miudezas. Ou nudes. Sou péssima. Não, não é autodepreciação dengosa para receber elogios e consolo. Sou péssima mesmo. Penso que estou fazendo uma fotografia perfeita e, quando olho, tem uma toalha molhada pendurada na maçaneta, sacolas de plástico em cima da escrivaninha, lençol amassado, e lá está a bagunça da estante à mostra. É sempre tudo uma zona no fundo da imagem. Zona: meu juízo. Um monte de trabalho atrasado, mas não porque procrastinei. Porque peguei muito mais bolinhas pra manter no ar do que minha agilidade permite. Ano eleitoral eu devia me comprometer com: nada. Vou anotar bem baixinho aqui: a cada disputa presidencial, tenho mais certeza de que a independência do Nordeste é uma boa ideia. A amiga me contou que na série dos dois moços bonitos que matam demônios, um deles fica sem alma por um tempo. Ele escapa do inferno mas a alma, OPS, acaba ficando por lá. Devia ter perguntado o nome dele para mandar um bilhetinho: Ô moço fulano, tamo junto demais. Faz uns seis meses que quero comprar umas cumbucas. Eu adoro comer em cumbuca, especialmente rubras massas fumegantes, faz a comida parecer mais confortadora. Escolher e apreciar uma vida solitária não nos protege de esporádicos dias de deserto e eventuais noites de pântano. Só. Eu vivo só. Por aqui nem cachorros, nem gatos. Apenas umas febres, às vezes. Minha febre era você. E tudo que eu poderia fazer com você. Uma febre que eventualmente nos levaria para a cama. Ah, as ilusões feito texto.

o horror, o horror

Pode ser um meme de 6 pessoas e texto que diz "Só queria saber como você está se sentindo. UMFLME MED ME DSSE MEDISSE Ora, que gentileza a sua. Como eu estou? Estou lidando com o horror de ter consciência da realidade do mundo."

Falhei em tudo. Tudo. Tudo. Deixei no caminho o viço da pouca idade, as perguntas corajosas, as atitudes invejáveis. Pesava. Troquei por nada e agora giro no vácuo. Talvez por isso esteja um pouco tonta. Ou da quantidade de pílulas que botei pra dentro. Com perfume, já que alguém derramou toda a bebida que tinha em casa. Alguém. Eu, cheia de boa vontade. Imbecil, logo mais gastarei em dobro. Abençoados cartões de crédito. O mais difícil é estar nesses anos todos depois que a vida já acabou. Esticar lençol, lavar louça, bater ponto, cozinhar ovos, tirar o lixo, sorrir. O tempo zomba da vontade de que ele acabe. A água não ferve, se a gente ficar pastorando. Mantenho a tv ligada em um desses canais que passa sempre os mesmos episódios das mesmas séries antigas, para facilitar a confusão das horas. Janelas fechadas, cortinas corridas, luz sempre acesa. Sinto na minha pele aquela textura de bananas maduras demais e o odor desagradável, mas quase viciante, de mormaço. O enjôo piora. Meu corpo sempre rejeita a melhor solução. Os espasmos chegam quase sem intervalo. O banheiro não está perto o bastante. Deito no chão e deixo vir. Falhei em tudo. Tudo.

Kensington e a cor da chita

FeJyGa-XkAMzWz0

Eu fiz patê. Quilos de. Vou passar muitos dias comendo pãozinho com patê ao invés (sempre uso essa expressão com insegurança) de fazer refeições mornas, sadias e reconfortantes, como a canja da Fal. Comerei pães de forma com patê, pãozinho de leite com patê, baguetes com patê, embora minha médica tenha proibido farinha branca por uns meses. Ela propôs, eu concordei – mas não garanti quais meses. Talvez eu esteja brincando com a cor da chita. Talvez eu esteja sendo um pouco ingrata com a vida que tem me fechado portas mas aberto umas janelas. Acontece que eu não sei pular janelas. Nunca fui muito atlética. No máximo, me escoro no parapeito e fico observando a rua. Fui perdendo tanto no caminho. Não sei mais ler, por exemplo. Não tenho mais, nem mesmo, minha grande dor. Mantenho algum vestígio de uma antiga eu, umas alegrias persistentes, mas em claro processo de erosão. Pisquei e as únicas sessões de A Mulher Rei são dubladas. Hoje uma amiga foi para Buenos Aires. Me inspirou. Fiz as contas aqui e provavelmente não poderei fazer nem viagens curtas nos próximos cinco, seis anos. Conto os dias e junto moedas: sábado, quem sabe, eu vá ver o mar. Fiquei vazia, em dias vazios. Mas fiz patê. Quilos de. Tenho patê de gorgonzola e damasco, de mortadela, de azeitona, de beterraba, de cenoura e de pepino. Não fiz, mas ainda penso em fazer aqueles mini sandubinhas de pepino e ovo. Se já não há esperança de felicidade, pelo menos a vida devia me oferecer fartos chás da cinco na “lanchonete” do Palácio de Kensington.

********

Na editoria: será que ainda vai ter Brasil em algum futuro, o Ceará fez tudo certinho ontem. E, hoje, Tasso fez certo também. Sei que é meio tosco, mas tenho meus pequenos orgulhos sim.

********

Queria escrever um diário. Manter bloquinhos com anotações enigmáticas. Fazer listas. Rotular os vidros de temperos. Copiar poesias e letras de canções que me impressionassem. Ter um caderno de sonhos, bem na mesinha de cabeceira.

********

Queria que alguém cozinhasse pra mim, lavasse minha louça, limpasse minha casa, levasse minhas cartas pro correio, trocasse as lâmpadas queimadas, ligasse pro moço da máquina, pro eletricista, pro encanador, podasse a planta gigante na minha minha varanda, arrumasse minha escrivaninha, atualizasse as notas no sistema e segurasse minha mão quando os monstros, todos, saem debaixo da cama.

Amanhã

É amanhã. Nem sei como estou atravessando o hoje. Deixando o dia me levar, tal como foi por toda a semana. Pouco fiz, além de sonhar. Amanhã vou votar cedo, voltar e ficar cozinhando, sei que não vou conseguir me concentrar em mais nada. Acredito na vitória no 1º turno. Estou pronta para a alegria. E, depois, para a paciência. A espera e, a seguir, a lenta reconstrução. Do país, da minha vida.

PT começa hoje 'esquenta' para registro de candidatura de Lula

Você era grão de café, algo para cheirar entre um amor e outro. Um bochecho de água. Limpar o palato. Não era pra eu sentir como se uma luciana inteira estivesse morrendo nesse nunca mais.

Não aguento mais toda pequena compra ser 100 reais.

Eu sempre entendi cognitivamente o lance da representatividade, mas eu não sei se eu já tinha sentido (talvez um vislumbre com Cine Holliúdy) até a voz da Juliette.

Suspeito que o efeito da paixão é meio como o vírus da gripe. A gente chama pelo mesmo nome toda vez que nos acomete, tem sintomas parecidos a cada episódio, tenta se proteger com vitamina C e mais uma cacetada de coisa…, mas dada sua capacidade de mutação, é sempre novo e costuma nos pegar desprevenidos. E, claro, se possível nos deixa de cama.

***********

Nos últimos tempos, lá pela newscoisa, andam vagando nas Garrrafinhas da Lu:

Quatro + 1 histórias de quase amor

Ainda sobre a escrita

Reinados, guelras, bléfaros e outras histórias de cama, mesa e banho