Nós

Meu analista me perguntou se eu não sinto medo. Porque não falo disso. Não falo da minha morte, de adoecer, nada assim. Do que falo, o tempo todo, é de tristeza. Sinto a tristeza travando a garganta. Apertando meus pulmões. Ocupando peito, estômago, revirando intestino, acelerando coração. Sinto a tristeza escorrer pelos olhos. Sinto a tristeza enrijecendo nos músculos. Doendo nos ossos. Sinto a tristeza lancinante, que me faz encolher e chorar. Sinto a tristeza constante, quase um ruído de fundo. Sinto a tristeza deslizando na língua. Sinto a tristeza como odor no meu suor. Sinto a tristeza como pequeno desconforto diário, um sapato um tantinho apertado. E sinto a tristeza avassaladora, como uma inundação invadindo casa, estragando móveis, arrastando objetos e destruindo memórias. Sinto a tristeza como intrusa inconveniente, sinto a tristeza como companheira. Sinto tristeza como sombra, sinto a tristeza como reflexo. Sinto a tristeza como uma estranha e sinto a tristeza como íntima. Sinto a tristeza, sinto tristeza, sinto-me triste. Misturei-me a ela de tal forma que dizer a tristeza é dizer de mim. E isso me apavora. Esse é o medo do qual devo falar, talvez.

Comprei goiaba, kiwi, tangerina, abacate, manga. Preciso redescobrir sabor nos dias. Ou fazer uma sangria insólita.

O bom do dizer-se é que não se acaba.
A dor do dizer-se, também.

Quando eu estou muito, muito, muito triste, eu evito as coisas que eu sei que me fazem bem. Não leio Verissimo, não converso com amigos, não assisto Tudo bem no ano que vem. Eu não entendia o porquê, mas agora eu sei: tenho medo de que não funcionem, que a tristeza seja maior que eles. Tenho medo de perdê-los. 

Tem a tristeza e tem a dor. Todo dia, o dia dói muito.

Vai ter Mostra Krzysztof Kieslowski a partir do meio dia, no Telecine Cult, e os deuses sabem que vou mergulhar nela, só vou parar pra ver o Paulinho da Viola às 22hs (vou perder A Igualdade é Branca) e continuar com a fraternidade (que infelizmente é o último).

“Éramos nós”. 

Projeto meio gata: me enroscar no teu colo e ronronar.

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Fragmentos da Infinitena

Estava passeando pelo meu instagram – a única pessoa que eu stalkeio sou eu mesma – e percebi como eu comia bem, até, sei lá, o ano passado. Uns pratos coloridos, com combinações de sabores, processos elaborados coisas assim. Não apenas o conteúdo (continuo comendo espinafre, cenoura, peixe, abobrinha, etc) mas o preparo, o cuidado, a apresentação. Continuo me amando (eu sou uma pessoa bem amável) mas tenho que caprichar mais na forma de demonstrar.

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Uma atividade que me tranquiliza: alguém afiando o gume da espada.

O conto dez de dezembro, do George Saunders, é um negócio que fica mais e mais bonito em mim, quanto mais lembro dele. É meio mágico quando a literatura pega a gente assim.

O golpe, a eleição do presidente genocida e a pandemia me fizeram uma pessoa bem mais ranzinza. E depois que eu pego gastura…

Vinho, livros, máscaras, eu colaboro com a movimentação da economia.

Já cheguei na trigésima primeira newscoisa: Garrafinhas da Lu, se quiser assinar é só vir aqui.

Sinto falta da rua. Dos sons das conversas aleatórias nas calçadas. Dos cheiros no mercado do peixe. Das cores das roupas das pessoas, dos esbarrões acidentais, de comer bobagem nas lanchonetes de esquina. Até de me irritar em filas. Sinto falta vida num mundo meio desconfortável, mas tão rico e diverso.

Eu não sei viver esse luto. Mandei mensagem, chorei, confortei, mas acreditar, acreditar mesmo, que ele já não está, eu ainda não. Talvez em um Natal futuro, quando alguém disser: “podemos começar o amigo secreto, todo mundo já chegou” e o tio não estiver lá. Talvez aí. Talvez.

Passei muitos anos em análise e não lembro de ter chorado em nenhuma sessão. Voltei ao divã e, dessa vez, não teve uma sessão sequer que eu não tenha começado chorando.

É tanta muriçoca que eu tenho medo de não sobrar sangue pros exames.

Confesso que eu fico muito impressionada com a displicência com que pessoas não-negacionistas resolveram viver a vida nestes últimos tempos.

Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

Eu não entendo. Mas eu não preciso entender. Preciso me colocar no colo, me embalar, afagar minhas costas, secar minhas lágrimas, servir uma canja, velar meu sono. E sobreviver.

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Sono e melancolia

Estou suspeitando que minha melancolia, às vezes, é sono. Tenho dormido pouco. E tenho dormido mal. Não consigo descansar. E choro. Existe um único momento, em que já não me sinto desperta, mas ainda sei que não estou completamente adormecida, que me vem um pequeno e confortador sonho. É um abraço, é sempre um abraço. E é tão certo, tão bom, tudo, o encaixe, o cheiro, a textura da blusa em que encosto o queixo, meu nariz no seu pescoço, sua barba na minha testa, seu jeito de respirar fundo e suspirar a seguir, antes dos pequenos beijos que se espalham por testa e bochecha e nariz e você me aperta como se confirmasse que eu cheguei e estou e, sim, é um começo promissor de repouso, mas daí a pouco o sono fica leve e ansioso, acordo por tudo, acordo por nada, mesmo podendo ficar mais tempo na cama levanto com o sol  (e o sol chega muito cedinho por estas bandas) e nada do que espero aconteceu (e nem é razoável que tenha acontecido, como o Bozo ter sido deposto ou terem encontrado uma vacina mágica pro covid) e é um vazio que se estende até que chegue a hora de tentar, de novo, descansar, e ser mal sucedida nisso e eu chamo de tristeza e angústia e solidão mas deve ser sono mesmo.

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Aí eu gastei um monte de dinheiros sem poder pra ver se me sentia melhor e, olha só, não só não me senti melhor como agora estou me sentindo pior pensando na fatura no cartão de crédito e adiando as compras do supermercado.

Pelo menos o congelador está cheio de peixe.

Parece que tá todo mundo bem adaptado ao tal “novo normal”. O meu “novo normal” é esperar. Não recomendo.

Mas além do choro e ranger de dentes, vi um filme bom. Sempre posso contar com West Wing. Tenho amigos realmente adoráveis. O Alan Alda garante que tudo vai ficar bem no ano que vem. Tem um sim colorido e distante e o trabalho com as letras que são promessa de quase alegria. Há mãe, pai, filho, irmãos e sobrinhada. Tem divã na quarta. Futebol umas tantas vezes por semana.

Não esquecer: “a dor é minha, em mim doeu; a culpa é sua, o samba é meu”.

Quanto mais eu compro máscaras mais aparecem propagandas de máscara e mais eu tenho vontade de comprar máscaras o que nem faz sentido porque eu não estou saindo de casa pra nada mesmo.

Estas são as melhores e as piores máscaras para COVID-19

O mundo lá fora, o mundo cá dentro

As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto
Como diria o Rogerinho: tá certa a indignação do Drummond
(e assim aceito, melhor, a minha)

Tá foda o mundo lá fora. Uma pandemia. Pessoas morrendo. Pessoas sendo contaminadas e tendo sua saúde futura comprometida. Um sistema de saúde promissor sendo rifado. Um governo todo formado por gente da mais baixa estirpe. Milhões de escrotos apoiando a barbárie. O desmantelo de várias políticas públicas importantes. A carestia. A miséria crescendo. Tá foda o mundo lá fora. Mesmo horrível, eu bem que queria. Mas não pode, não dá. Então, faço o quê? invento um bonitinho, claro. Dentro da minha cabeça. Um mundo em azul e encontros e risos e borboletas e esperanças e flores e lençóis frios e corpos quentes e, bom, um mundo pra eu ficar e me sentir melhor. Aí o que acontece? As flores se tornam carnívoras, as borboletas tem enormes presas e tudo arranha e dói e arde e o azul é movediço e não tem mais ninguém aqui, só eu e o meu medo e a solidão e a desesperança e os lençóis se enrolando em minhas pernas e me imobilizando e me puxando pro abismo e nenhum corpo outro, só a zombaria gelada do silêncio.

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Estou me alimentando mal, mastigo ansiedade feito chiclete.

Olha, um alguém morfina, que legal. Mas aí você precisa de doses maiores e mais próximas e cortam o abastecimento.

É seu jeito de suspirar e os olhos um tantinho fundos que me puxam pro abismo que é gostar tanto assim de você.

Eu só quero saber porque fomos tão distraídos e agora tenho que ter vontades em vez de ter memórias.

Pensando bem, meu problema é inveja. Vejo conhecidos “furando o isolamento” indo à praia tomar uma cerveja e comer um caranguejo ou almoçar sozinho em um restaurante com mesas na calçada ou casal indo visitar em jantar íntimo outro casal amigo. Eu sinto inveja. Inveja não dessas coisas, mas dessas aspirações. Por isso aí que descrevi ser o que é importante, ser o suficiente, ser bom o bastante. Porque pra eu furar meu isolamento de um jeito que me fizesse realmente bem, a ponto de compensar medos e culpas e tudo, era preciso que pelo menos umas, sei lá, quinze pessoas, no mínimo, furassem também. Porque o que eu queria era sair daqui, passar em Fortaleza, abraçar os meus, depois pegar um avião pro Rio de Janeiro e descer já em um abraço. Desse abraço eu queria pular pra rua de botecos no Centro – samba, gargalhadas, nenhum tira-gosto, cervejas, talvez o homem-aranha participando de um casamento- seguindo depois pelas ruas até parar naquele bar da mesa comprida (na Glória?), gente chegando, gente saindo, mais gente chegando, aquele abraço ainda do meu lado, esquecido do tempo, segurando minha mão às vezes só pra ter certeza que eu estou ali, conversas com cuspes saltitantes, gaitadas, gente vindo de São Paulo e BH e Recife pra esse encontro, o garçom meio perdido nos pedidos, a madrugada se esquecendo de chegar, entretida com a alegria da gente. E isso é a menor das aspirações.

Mas tem o amigo que faz rir. O amigo que conforta. Que sabe dizer a coisa in-certa e trazer os melhores links e lembrar as mais inusitadas músicas e fazer as melhores imagens. O amigo que ainda vai estar, no depois. Que bom que é saber você, querido.

Mandei fazer a caneca com a rosa.

Aí você acena e eu…

De vestido curtinho e sapatos vermelhos. Ainda viva.

A amiga disse: o importante é sobreviver e voltar pra contar a história.

A sorte é sua.

Faço longas cartas para alguém.

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A gente assim. Mesmo que nunca tenha sido. Eu sei tudo que não está na imagem. Sei os dedos entrelaçados. Sei o rosto de um virado pro outro enquanto o outro espia o mar. Sei o movimento discreto com que alternam o foco. E o riso no canto da boca quando os olhos se encontram meio sem querer, embaraçados de se quererem bem tanto assim. Sei o vento redesenhando a canga frouxamente amarrada no pescoço. Sei a bermuda discreta, a camisa que também é filtro e o gosto de protetor solar na curva do pescoço. Sei a impressão de que está tudo bem. A sensação de que devia ser sempre aquele momento. E, ao mesmo tempo, o gostoso de levar a cumplicidade por onde vão. Sei o morno da água e a surpresa gostosa de um e o sorriso convencido do outro, eu te disse. Sei o instante em que se desenroscam dedos e se parte, levando o sal, o horizonte, o azul, a saudade e a memória como uma liga a mais. Você faz parecer fácil. Simples. Óbvio. Faz parecer que sim. Queres. Quero. Queremos. Eu quase acredito. Suspiro.

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Eu gosto de tanto, nesta foto. Talvez tudo. Gosto do que está além. Que ela tenha sido feita em um dia especialmente difícil, entre muitos que não vem sendo fáceis de atravessar. Um dia em que o divã foi lenço. Um dia em que eu chorei. Tanto. Se não é fácil abrir portas e janelas, que dirá demolir muros. E, mesmo assim, o sorriso veio. Apesar de mim, dos temores, dos fantasmas. Ainda alguma alegria.

E gosto mais, gosto muito, do que está nela. Do cabelo branco, bem vistoso. Das marcas, todas: os pés de galinha, os riscos que são parênteses pro sorriso, as olheiras. Olheiras, claro, durmo tão pouquinho. Da sobrancelha sem forma, desajeitada e desligada, nem sei onde está a pinça. Muito menos sei usá-la. Gosto de ver o colo enrugando. E o decote, ainda amplo. Gosto de ter 45 anos e não saber passar o batom direito. Sigo tentando. Gosto das sardas, do pelinho da “minha barba”, das machinhas e sinais na testa. Todas as imprecisões, imperfeições, assinatura da vida que se inscreve em pele. Gosto do arremedo de covinha e dos olhos terem resolvido olhar pro mesmo lugar – dribles não intencionais no real. Gosto até do vermelho da rosácea, que se limitou ao rubor essa semana e de sentir falta dos meus cílios mais fartos e mais longos. Do sem jeito do enquadramento que mostra um nadinha de prateleira, que alaranja o fundo – vestígio das cores que ocupam a casa fazendo ponta na fotografia, que revela o amarelo de uma proteção que preciso e o pedaço de pau (sei lá como se chama) que seria rodapé na paredinha da sala, ali, ainda encostado no escritório.

Eu gosto de tanto nesta foto. De estar nela. De vestido curtinho e sapatos vermelhos. Ainda viva.

Lacinho vermelho

A pessoa arruma o quarto todinho, no capricho, e decide: nada mais de bagunça, quarto é pra ser espaço tranquilo, sei que lá, repouso, sei que lá, sei que lá, descanso. Um dia e meio depois está dormindo com catorze livros, dois cadernos, o kindle, um pote de lápis de cor e nem vou continuar.

Isolamento na quarentena dá nisso, a gente ocupa o outro lado da cama com o que pode, não com quem se quer.

A última vez que falei sobre isso, aqui, eram 80.000 mortos. Hoje já ultrapassamos 130.000 mortos no Brasil. Não tenho mais palavras. Parece que nunca acaba de caber mais dor no coração. Nunca esquecer: não são números. De vez em quando é bom visitar esta página: Inumeráveis. 

E o Pantanal queima. E o desmonte do serviço público. E a ameaça da reforma administrativa. E a privatização iminente dos Correios.

Queria mesmo era sentir o cheiro do seu cangote.

Rede na varanda, lua que míngua, bacalhau, café, café, café, bitucas, longas cartas pra ninguém, documentos antigos, algumas risadas – ainda sei rir, um alívio, notícias de outros continentes, o calor, os slides, as aulas, a raiva, a raiva, a angústia de esquecer o nome de alguém, um Pirandello, o desejo, o vermelho na conta chegando antes da hora, café, café, café, o israelita, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia, devia beber mais água, Otto, Otto, Otto, vinho, cerveja, mimosas, batata-alho-azeite, garrafinhas, o espelho quebrado, a vontade do mar.

Exausta de doer.

Cada vez mais e mais Belchior.

Daí a moça se apressa e enfia os pés pelas mãos.

Eu falo muito, mas tento não ser inconveniente.

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Atenção para a leitura astrológica:
Vênus em brasa na casa 69, rubro sentir, aquece, te deixa sem fôlego (pois consome o oxigênio), rápido queima, rápido apaga, termina em cinzas. Como eu morro de amor, pra tentar reviver.

O desejo: fechar os olhos e conhecer tua história lendo as linhas no teu corpo com o cuidado de dedos tão leves pra não borrar suas memórias, mas você se inclina e deixa seu corpo encostar com força no meu, como se aquele momento único pudesse reinventar o caminho que nos desencontrou em todos os passados e mesmo que todas as promessas sorridentes de contato se esvaneçam nos dias que serão sólido futuro ante esse agora que é só névoa e intangível e paredes e solidões e este encontro nunca haja e lábios nunca sejam beijos, já estive nesse abraço que existe pela palavra que encanta o mundo.

Uma camisola nova – e com lacinho vermelho! – é toda a aposta em algum futuro que consigo fazer.

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Hoje tá difícil, tá difícil de verdade. Tá difícil pra caraleo.

E na hora do enlace…

Seria só um assim, cerveja ou café, um chegando no depois do outro, o passo entre o contente e o incerto, o abraço desajeitado dos corpos aprendizes, sem um saber de onde colocar mãos e desejos. O sentar quase ao lado, a mesa quadrada, os joelhos se tocando na ponta dos noventa graus. As palavras, que nunca serão lembradas com precisão nos futuros, servindo de véu, enquanto na língua que insinua sua ponta úmida, no bater mais acelerado das pestanas, no entreabrir da boca, na pequena dilatação do nariz, nos dentes que mordiscam os lábios, na voz um tanto mais baixa convidando à aproximação, confessam-se.  Você não ia ler minha mão? E agora a gente acredita? Precisamos. Então, simO verso sobre a palma, uma pele seca e quente, a outra macia, o dedo percorrendo as linhas como se borrasse fronteiras. Entrelaçam os dedos, suponho. Pagam contas de bebidas que não beberam, comidas que não mastigaram, atendimentos que não precisaram, pois eram esperas e vontades e só. Vagam ruas. Procuram, enfim, reserva e meia luz e portas com chaves e camas, Num sem fôlego despem roupas e vidas lá fora e entrelaçam pernas e histórias. Sentem gostos e alegrias e se afogam e se perdem e se provam e se mordem e se tocam até que, quando já estão tão abraçados que não há espaço para culpa ou indecisão, se beijam. Sopro. Como se dessem a vida a uma frágil, delicada, rara possibilidade. E, libertados, morrem um pouquinho um no outro. E outra e outra e outra vez. No depois dos suores e cheiros e aconchego e cochilos, ela vê a réstia de luz avançar no quarto e tocar um pequeno franzir na testa dele e, antes que a preocupação que chega vire tristeza, ela espana com os cabelos a ruga e desce esfregando nariz no nariz e morde o queixo e beija o peito lá onde o coração soluça e distribui risadas e roupas onde foram carinhos. Se os corpos que voltam pro mundo não se roçam nem num acaso, é que já não precisam, tão dentro um do outro. Na frente do mesmo bar, um abraço, com corpos que já se sabem, nem despedida nem promessa. O incêndio de um amor.

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Acontecesse (Bruno Batista)

Se um dia acontecesse
De nós se amirar
Um cadinho que sêsse
E se acaso ocorresse
De tu se engraçasse
E eu correspondesse
E nós se aprumasse
E se desgarrasse
De qualquer devesse
E na hora do enlace
Eu não me furtasse
E tu me arrecebesse

E nós se empariasse
Tu me trespassasse
Eu não me contesse
E eu mais tu se embrenhasse
E nem assuntasse
De tanto quererse
E adispois começasse
Teus óio virasse
Minhas pernas tremesse
E se o Diabo gostasse
Deus escutasse
E um anjo descesse.

E achegasse num susto
E com muito custo
Nós se apercebesse
E ele arresolvesse
Arrastar asa pra tu, e eu vêsse
E o safado eu maldasse
(Que Deus perdoasse)
Eu ensandecesse
E o anjo depenasse
Ele gargalhasse
E arrespondesse:

“Fui pro céu por acaso
(Um caso com uma santa estrangeira)
Os donzelo odiaram
E me agarraram com uma padroeira
Então fui rebaixado
Pra Anjo da Guarda das Virgem Embusteira
E agora depenado
Vou virar beato
Das alcoviteiras”.

Equívocos

Essa semana talvez eu tenha sido um pouco indelicada em um grupo, totalmente sem querer (posso ser indelicada querendo, é raro, mas acontece). Uma das pessoas estava relatando o tempo que leva pra fazer as compras, em tempos de hipercuidado com o corona vírus e vários outros confirmando, máscaras, álcool gel, não entrar no corredor que tem muita gente, limpar o cartão de crédito depois do uso… daí eu perguntei: mas, vem cá, aí não tem entrega? Claro que tem, né, dãaa, luciana. Cidade muito maior que a sua. Mas um único supermercado não tem tudo que eles precisam. E pedir por imagem não é a mesma coisa que apalpar a fruta, verificar seu cheiro, etc. Desde que começou isso da infinitena eu desenvolvi uma forma de lidar com o mundo, inclusive compras: diminuir as interações ao mínimo do mínimo e aceitar que isso traz limitações. Em relação ao supermercado: reconhecer que não vou conseguir comprar tudo que quero ou acho que preciso, que alguns itens vão acabar antes de outros e eu vou passar um tempo comendo coisas mais sem graça, sem verdinhos; que os produtos que vão chegar não vão estar exatamente como eu os escolheria. Essa é a pegadinha, né? Não perceber que o nosso jeito é exata e apenas isso: um jeito, nosso.

(eu sou antitotalitarismo, viva a liberdade, etc, mas bem me apetecia uma política pública clara, nestes tempos, para mediar os “jeitos nossos” e evitar essa inclinação ao moralismo e julgamento do viver alheio)

futuro

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Passou por mim uma discussão sobre ser ou não pedante e eu ri porque, né, sou mesmo é deslumbrada.

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Todo dia acordar no mesmo dia não ajuda quem já é um poço de preguiça.

Eu admiro todo mundo que ainda estuda e, mais, quem ainda aprende. Eu, agora, só troco a água.

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Amar é fácil. Ser amada é um pouco mais difícil (sim, também no sentido de que é difícil  ter alguém que nos ame, mas eu estava pensando mesmo é no quanto é difícil aceitar amor. Aceitar ser amada como o outro ama e não como esperamos ser amados. Não como nós próprios amamos).

Você olha para a página em branco do word, ela olha de volta pra você, zombeteira. Você tenta disfarçar a incompetência colando trechos de artigos e livros que deveriam fazer algum sentido. A página gargalha. Você pensa, com inveja, nas pessoas que escrevem à mão e podem, nesses momentos, amassar a folha com determinação.

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Desde que começou a infinitena tenho lido bem menos, não vi quase nada de filme ou série, atividades que me eram costumeiras. Por outro lado, eu, que não tinha o costume de ouvir música e muito menos de cantar passei a fazer as duas coisas com espantosa regularidade em grande parte do dia. Isso estava me encafifando. Daí hoje, aos berros, me ouvi, no meio de uma canção do Ednardo. É engraçado e triste o óbvio, né: porque cantar parece com não morrer, é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão.

Estive relendo meus posts do começo da quarentena (ainda chamávamos assim) e, olha, como eu era ingênua. Quantas esperanças eu tinha.

Mais de 97.000 mortos. Não é inevitável o que atravessamos. Para não esquecermos que são pessoas, não números: inumeráveis. Para lembrarmos que havia caminhos e opções: a geografia macabra da covid-19.

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Uma das coisas bonitas de cozinhar só pra si mesma é poder usar largamente o tempero popularmente conhecido como “porque eu quis“.

Fato: invento motivo pra gostar de praticamente tudo que leio.

A voz da Mônica Salmaso é como uma carícia com dedos calejados. A gente geme, meio dor, meio prazer. E vive esperando por um pouquinho mais.

Cada dia eu vou no pêndulo do sofrer: a dor de todo o mundo, das mortes, dos que ficam, familiares e amigos, do cansaço dos profissionais de saúde, das pessoas que vão carregar as sequelas do covid até chorar de soluçar porque queria comprar uma passagem ou passar um fim de semana em Canoa.

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É melhor ser alegre que ser triste

É melhor ser alegre que ser triste, mas estar triste, às vezes, é inevitável.

Uma pessoa querida escreveu: infinitena. E é tão isso. Eu sinto falta de ver gente, ouvir gente, sentir gente, tocar gente, beijar gente? Sim. Mas eu poderia ficar por esse tempo  todo – e mais – em isolamento, sem me sentir tão impotente, raivosa, triste, adoecida. Se.

Ontem morreu a Carla. Dez anos de conversas, contatos, afeto. E a indiferença, o descaso, o deboche de quem se encontra no governo federal continua ativo. Eu choro a Carla como chorei o Fábio e como choro cada um dos Inumeráveis.

E eu sinto falta – muita – de velar os mortos em coletividade.

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Ontem reli Luísa (quase uma história de amor) e a verdade é que eu queria muito publicar um livro prefaciado pelo Caio Fernando Abreu.

Uma alegria: ir ao Mercado Central, com meu pai, comer panelada e beber cajuína, umas sete da manhã.

Quando eu não sabia nada de fenomenologia (não que hoje eu saiba muito mais) eu só repetia aquele negócio de colocar o fenômeno entre parênteses. O fenômeno, atualmente, é a minha vida, pelo visto.

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Outra alegria, maior, atual, renovada: hoje é aniversário do meu irmão. Esse moço talentoso, engraçado, corajoso, amoroso e muitos outros “osos” favoráveis. Sinto um amor imenso por ele. E um orgulho danado. Se você gosta de basquete/NBA, acompanha o trabalho dele no podcast Café Belgrado. Se você prefere basquete nacional, tem o Pingado. E se seu negócio não é esporte, mas cultura, não perca o Elástico Mental que já entrevistou pessoas incríveis que nem a Marília Librandi Rocha, os portugueses Tiago Nacarato e Bárbara Tinoco, a Carolina Larriera e o maranhense Bruno Batista.

 

Faltou o figurino

Mais de 80.000 mortos. Sabe-se lá quantas pessoas sofrendo a perda de gente querida. Já vivemos a distopia, só não percebemos porque não adaptamos o figurino.

Nunca esquecer: não são números. De vez em quando é bom visitar esta página: Inumeráveis.

125 dias de distanciamento e hoje apareceram duas notícias promissoras sobre vacinas.  Mas ainda leva meses, na mais otimista das versões. E, sim, eu não consigo deixar de me animar. Esperança é um negócio traiçoeiro mesmo.

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Mas a notícia mais animadora (e, ao mesmo tempo, menos, pois vivemos no brasil-sil-sil uma época estranha) é decorrente do estudo com soldados suíços: o resultado parece apontar que a gravidade da doença depende da carga viral. Assim, o uso de máscara e o distanciamento passam a ser ainda mais relevantes e desejáveis.

As voltas que o mundo dá (e às vezes a gente fica tonto): meu filho, ainda mais jovem do que o jovem que ele é hoje, vivia me falando do Átila. Eu tentava ouvir no youtube, pra ter assunto em comum, mas achava uó. Hoje é uma das pessoas que eu sigo com gosto.

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A máquina de pão queimou. Este mês eu soltei um pouco a mão e acabei gastando no limite. Tô aqui balançando se compro outra ou passo um tempo só de tapioca, cuscuz e chapéu de couro.

Tem sido cansativo, mas também muito recompensador, lecionar uma disciplina no semestre suplementar. O engajamento dos alunos à proposta realmente me emocionou.

Comprei umas máscaras, dessas que na propaganda parecem sensacionais. Comprei dando um desconto de que se parecem sensacionais, devem ser apenas boas. Pelo valor, de boas eu desci pra médias. Chegaram, experimentei. Putz, eu tava sendo otimista. Elas são ok. Ou nem isso: dá pra usar.

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Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava pra sempre.”

Antônio Bivar, por Maria Bethânia no disco Drama 3°Ato, 1973.

Eu acho engraçado (naquele sentido que não faz rir, mas pensar) gostar tanto deste texto. Eu não era, nem sou, das que tem medo do que não permanece. E nunca pensei em ser trapezista, eu já tinha a certeza de estar segura, sem precisar do disfarce do picadeiro. Isso, de saber o amor, é rede de proteção que segue com a gente.

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Olha só: não tenho mais nada pra dar.

Mas era amor de verdade? Ou: você estava apaixonada mesmo? Me escapa, sempre, porque isso seria relevante (ou, mesmo, se possível determinar). O que esse mesmo ou de verdade pelejam pra representar é o que sempre escapa. Não há palavra para o real. Todo afeto é ficção. Como, aliás, todo o viver.

Meta: beber água e não me afogar em tristezas. Falhando miseravelmente.

Eu gostava de estar em outro lugar (conjugando em português de cá e de lá).

Cartas na mesa. Copos também. Ou corpos. A memória é confusa.

Em outra editoria: eu me despedi de você sem mágoa. Doeu, sarou. Passamos. Ou achei que. Lamento que o seu futuro tenha, de certa forma, roubado meu passado.

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Eu era viúva do Carlinhos. Acabei pensando, por anos e anos, que ninguém ia me proporcionar as emoções que ele provocava, nunca ninguém ia acertar meu time do jeito que eu sonhava. Era conformada em não desejar. E resignada de ter alegrias, nunca felicidade. Aí ele chegou e colocou tudo no lugar certo: riso e William Arão, só pra começar. Foi um amor intenso. Ele me deu não mais, mas justinho o que eu sempre quis, do jeito que eu quis. Tudo parecia possível. Mesmo quando o mundo adoeceu, saber que ele, eu, os homens, ainda seríamos no depois, me animava. Mas não deu pra ele ficar. Estou de coração partido? estou. Mas ainda amo um homem.

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Um homem que não tem medo nem vergonha de beijar outro homem. Jesus merece (e recebe) todo meu bem querer.