As coisas que você estragou pra mim

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.
(Paulo Mendes Campos)

Que pena que você foi embora, moço. Levou, que nem a Rita, um sorriso meu e tantos assuntos que ainda poderiam ser. Guardo, com carinho, os últimos besitos. Melhores que vinho.

É, para mim, cada dia mais difícil falar com as pessoas. Especialmente com as gentis. Com os gentis que são meus amigos, então, é quase impossível. Atenciosamente eles me perguntam: como vai? Como você está? E eu não posso responder. Não conheço as palavras. Me esquivo. Ontem eu tentei, porque ela, tão querida, perguntou. Eu disse – eu tô sem estar. Sinto que atravesso os dias como se todos fossem o mesmo e cada um fosse o vazio. Nem alegre nem triste nem poeta – mas eu disse não é exato, não é bem isso, embora seja o mais perto que consigo chegar da verdade quando tento colocar em palavras.

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Vem aí meu aniversário (falta menos de uma semana) e eu estou apavorada com a tristeza que vou sentir.

Em um Diarinho recente ela fez uma lista de coisas interessantes sobre a vida dela e disse que uma – só umazinha – era mentira. Foi tão bonito que eu nem soube comentar.

Quando eu digo que não conheço as palavras é uma meia verdade. Conheço algumas, mas elas tentam escapar. Hoje passei uns bons 50 segundos olhando pra escrivaninha, tentando lembrar este nome e só me vinha: maçaneta.

As coisas que você estragou pra mim (ou bem perto disso): Paulinho da Viola, Verissimo, escola de samba, madrugada, a sua cidade, vinho, bacalhau, amizade.

Status: hora extra.

É muito irritante quando eu digo, em análise, eu não sei tal coisa (sobre mim) e o analista emenda um sonoro: eu também não.

Tenho saudades do tempo em que eu não gostava de brócolis #classemédiasofre

A tua carta está em cima da escrivaninha esperando ser respondida. Não chegou hoje nem ontem. Nem mesmo anteontem. Chegou com um bonito e enorme gato no envelope, prometendo tanto. Que não veio. Que não estava no envelope, nas linhas nem nas entrelinhas nem nada. Bom, pelo menos eu não encontrei. Não respondi ainda. Não me animei. Não me inquietei. Não me inspirei. Não quis. Não quero. Estou cansando de você, provavelmente por suspeitar que logo você vá cansar de mim. Não é um movimento novo, embora ainda não tenha conseguido explicar direitinho, no divã, o fenômeno. Eu vou embora, mesmo que ainda pareça estar. E não consigo voltar. Depois podem ser os ridículos “dezesseis dias seguintes”, mas, quase sempre, nem isso.

A casa limpinha. Máscaras nas estantes, na mochila, na bolsa, nas gavetas. Esperando. O kindle e o reino dos livros inacabados. Rúcula com manga. Alho frito. O vermelho intenso da rosa do deserto. Decisões tomadas. Grandes, imensas. Renúncias presentes e futuras. Camisola lilás. A televisão recebendo um poltergaist. Suco de maracujá. Muito suco de maracujá. Reunião no sábado. Um bom filme velho. Um gol do Flamengo. Uma música triste. O café sem açúcar. O shampoo de café. E o condicionador de canela. A ponta do lápis de cor. Os passarinhos, as florzinhas, o ventinho frio de chuva. Aquele doer sem diminutivo.

Está chegando a hora…

Não é a minha “crítica” sobre o filmes. É apenas a listinha de comentário/indicação de gosto que a Marília pediu. Já escrevi sobre Ataque dos Cães na newscoisa e sobre a maior parte dos outros filmes no meu perfil do FB (quem for mais curioso e/ou gostar de comentários melhor desenvolvios)

Melhor Filme

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Ataque dos Cães – é o filme do ano, pra mim. Competente nas qualidades técnicas, em explorar emoções e tem aquele sine qua non que caracteriza uma grande obra e transforma um bom filme em uma experiência realmente especial. E é um faroeste, né, minha gente, como não amar os faroestes? Imperdível.

Belfast – uma maravilha de filme, com uma fotografia em preto e branco muito inteligente, excelentes atuações – especialmente dos coadjuvantes, um filme sobre memória e afetos. Vale muito.

Não olhe para cima – uma comédia que não me interessou, a não ser em uns poucos minutos de fim do mundo. E, claro, Leo é realmente um ator imenso, tudo que ele faz tem um toque de talento. Nhé.

No ritmo do coração – um drama leve com ares de sessão da tarde não fosse a delicadeza e sensibilidade com que a história é dirigida, interpretada e fotografada. Sabe aquela comoção que não senti com Lady Bird? Senti aqui. Assista sim.

O beco do pesadelo – um bom noir na primeira metade do filme. A segunda metade tem Cate Blanchett que desistiu de interpretar outros personagens a não ser “Cate Blanchett interpretando com intensidade”, além daquela constrangedora cena no divã. Razoável, mas dispensável.

Duna – Visualmente impressionante, bons atores. Tem gente que reclama do ritmo, mas eu amo faroeste antigo, então, né. Para os pacientes, para os adeptos, para os curiosos.

Drive my car – não vi ainda porque os torrentes vem com a legenda em inglês pregada mas li o conto – e amo. Aguardo ansiosa.

West Side Story – é Spielberg é musical. Quero.

King Richard – não sei bem porque tendo duas mulheres fodas pra cinebiografar, se escolhe contar a história do pai delas de uma forma chapa branca, com um roteiro bem clichê, que fala nas Williams mas que elas poderiam ser substituídas por qualquer personagem atleta padrão e o roteiro seria quase a mesma coisa. Achei um filme bem convencional, direção sem criatividade, escolhas estéticas banais, não curti não.

Licorice Pizza – estava esperando agoniada, porque Trama Fantasma meio mudou a minha vida, tinha expectativas imensas. Vi Licorice Pizza e sei lá porque tanta gente gostou. Inclusive sei lá porque eu gostei tanto. Paul Thomas Anderson é um feiticeiro original, capaz de alternar extrema delicadeza e uma estranheza inesperada sem soar artificial ou desnecessário. O filho de Phillip Seymour tá incrível e nem tenho palavras para a moça que faz Alana, ela parece um ímã poderoso, esquisito e charmoso, concomitantemente. Sei que vou rever e sei que vou escrever textão, mas adianto que tem hora que a gente se encanta, tem hora que a gente se retrai mas principalmente sai sorrindo do filme e isso é enorme.

Melhor Direção:

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Concorrem Kenneth Branagh (Belfast), Ryusuke Hamaguchi (Drive my car), Jane Campion (Ataque dos cães), Steven Spielberg (“Amor, sublime amor”) e Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza). Falta ver Amor, Sublime Amor e Drive my car, mas acho difícil alguém ter sido melhor que Jane Campion, ela acertou demais no uso da câmera, dos planos, do ritmo, deu alma ao filme.

Melhor Atriz:

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Jessica Chastain fez um trabalho assustadoramente bom em Os olhos de Tammy Faye e é minha favorita, disparada. A queridinha que deve ganhar é a Olivia cult Colman com seu trabalho como mãe de boneca n’A filha perdida. Outra que disputa com chance é Nicole Kidman, muito convincente em Apresentando os Ricardos. Ela realmente interpretou Lucille Ball de forma brilhante, mas o roteiro do filme é bem ruim. Por fim temos Penélope Cruz em Mães paralelas. Acho que Jessica fez um trabalho primoroso, porém parte de mim torce inconsequente pela Penélope pois todo reconhecimento é pouco para um filme do Almodóvar.

Honestamente não sei o que Spencer e Kirsten Stewart estão fazendo na lista, acho até desrespeitosa esta indicação em que a atriz alterna cara de nada com cara de choro. Por mais insípida que a princesa fosse, é ficção e não mímica.

Melhor Ator

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Esta categoria está impossível pra mim. Impossível. O que Benedict Cumberbatch fez em Ataque dos cães deveria lhe dar o prêmio, com folga. Mas aí chegou Denzel e seu Macbeth e, OLHA, eu não tenho nem palavras pra interpretação que ele trouxe a um personagem já tão conhecido. Fez um trabalho louvável: Andrew Garfield (Tick, tick… Boom!). É competente, mas nada de especial: Javier Bardem (Apresentando os Ricardos). Não sei avaliar porque o filme é tão blé que atrapalha a interpretação: Will Smith (King Richard: criando campeãs).

Melhor ator coadjuvante

Se entregarem para Ciarán Hinds por Belfast ou Troy Kotsur por No ritmo do coração, está muito bem entregue. Se quiserem dar pro jovem Kodi Smit-McPhee de Ataque dos cães, não vou reclamar. Jesse Plemons (Ataque dos cães) e J.K. Simmons (Apresentando os Ricardos) são bons atores, mas não foram os melhores com estes papéis.

Melhor atriz coadjuvante

Terei que fazer a Glória Pires, mas Judi Dench e Kirsten Dunst foram muito bem nos seus papéis, as usual. Também foram indicadas: Jessie Buckley por A filha perdida (vi, gostei); Ariana DeBose por Amor, sublime amor (não vi), e Aunjanue Ellis por King Richard: criando campeãs (tal como o Will Smithm acho que o roteiro não oferece muito material).

Melhor roteiro original

Amei Belfast dicumforça, considero que Não olhe para cima fora do ponto, Licorice Pizza tem um roteiro realmente delicado e criativo. Não gostei de King Richard e não vi A Pior Pessoa do Mundo.

Melhor roteiro adaptado

Pelamor Ataque dos Cães é uma perfeição. Merece demais todos os prêmios que receber. Acho que quem adaptou A Filha Perdida perdeu (desculpe) muita nuance da protagonista, mas ainda assim resultou em um filme muito inteligente e bem dirigido. Adaptar Duna já merece um prêmio, nem que seja de coragem. CODA tem um bom roteiro, mas acho que não o bastante para disputar. Preciso ver Drive my car, o conto é ótimo (eu já disse, mas repito).

De grão em grão

Eu nunca fui boa aluna, especialmente na escola da vida. Cada lugar pelo qual passei só me torna inquieta no que agora estou – e se para um deles voltasse, seria insatisfeita com o que, daqui, não se encontra lá; e se para um novo fosse, sentiria falta daqui e de todos os outros lá(re)s.

Greta Garbo belíssima em Grand Hotel. Gosto muito de histórias que usam boa desculpa para desfilar uma profusão de vidas que só se tocam pelo viés do acaso e que acabam se transformando no processo: trens, hotéis, excursões e acidentes.

Volta às aulas, exausta, rouca e contente com o interesse da turma nova.

Pensando em mudar de banco, mas que preguiça dos procedimentos burocráticos.

Café como os dias, cada vez mais amargos.

Todas as vezes que eu assisto “se meu apartamento falasse” e vejo Jack Lemmon – que é dito como bom cozinheiro no filme – lavando o macarrão cozido e depois soltando umas almôndegas secas em cima eu penso que talvez o conceito de boa comida seja mais relativo do que se imagina. Pelo menos ele joga uma profusão de azeite em cima.

Woody Allen é muito destruidor. A Outra é tão bonito que ecoa em mim por dias.

40 anos torcendo, meu time disputando grandes clássicos, rivais históricos, várias picuinhas, nunca tinha visto uma torcida tão mesquinha como essa do Atlético. Os caras com um timaço, ganhando e tal, mas mentalidade de dor de cotovelo e incapazes de ver as limitações administrativas do clube. Vou dar um desconto apenas porque na era das redes sociais a voz dos imbecis é ampliada né.

Juntar moedinhas, se não vou mais ser feliz, pelo menos vou passar o mês comprando tomates na feira em Florença.

Muito Greta Garbo, ela

“já realizou todos os seus sonhos?”
“Não, ainda tenho muita coisa pra fazer ainda, só tenho que descobrir o que é”
Martinho da Vila, mas podia ser eu.

Eu me sinto muito espertinha porque o Almodóvar também gosta do diálogo de Johnny Guitar. #mulheresabeiradeumataquedenervosfeelings

Cansei de tudo, tuitarei no blog.

Se eu participasse de Love is Blind provavelmente me envolveria com 100% dos não escrotos.

Fiz uma sopa tão gostosa que fiquei triste por todas as outras pessoas do mundo que tomam suas sopas pensando que estão boas. Não estão. Esta sim, estava.

Sobre a celeuma da Semana de 22, até ontem eu diria com prazer que não tenho informações suficientes para ter opinião, mas agora já não posso dizer isso, tenho informações o bastante para dizer que acho toda a conversa um tédio.

Tomar decisões é um esporte que eu pratico de maneira instável, então é tipo voltar pra musculação depois de um tempo sedentária, dói tudo.

A verdade é que eu pego muita corda. E agora estou sentindo falta dos seus emails. Vida que segue, espero que as fotografias do futuro fiquem boas.

Eu só ficarei realmente satisfeita com uma versão em que Christian e Cyrano se descubram apaixonados um pelo outro e dane-se a autocentrada Roxane.

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Muito triste não ter uma amiga que tenha uma vida igual à minha e passe pelos meus problemas e tenha as minhas aspirações e desejos e dificuldades para me ajudar a tomar as decisões difíceis.

Cresci em coletivos. A rua em que vivi toda a infância era uma espécie de vila e a família expandida era imensa com primos e primas dormindo em minha casa e eu na deles, viajando juntos, grandes almoços de domingo. Depois, grupos de jovem, coordenação de crisma, pastoral da juventude do meio popular, teatro, coral. A seguir, um projeto de extensão durante toda minha vida universitária, assentamentos, conselhos, associações, federações. Avançando em idade e tecnologia, listas de e-mails, longas e profundas conversas. Sempre tive e sempre gostei de ter gente por perto. Daí me mudei, me separei, filho vivendo distante, o trabalho que faço me mantem em contato com muitas pessoas mas não em grupo e, por fim, eu e a cidade em que vivo nunca nos entendemos muito bem. Sinto falta das experiências coletivas. Tentava amenizar com os grandes momentos de comunhão em redes sociais. Copa, Olimpíadas, Masterchef, até no BBB eu mergulhei para ter a sensação de algum contato com os outros. Funcionou por um tempo, mas a verdade é que me enfastio cada vez mais. Os mesmos temas voltando com tratamento cada vez mais tosco. Me cansam as bobagens ditas sobre psicanálise. Me entendiam as conversas sobre aparência, peso, ruga. Me irritam os papos moralistas. Vou preferindo o silêncio.

Me desagrada a vida que levo, do jeito que levo, mas me desagradaria ainda mais levar a vida do jeito que vejo os outros levando, mesmo que sejam felizes nelas – e que bom que são.

Meu casco parece cada vez mais atraente: uso os pôsteres dos filmes do Almodóvar de decoração.

Minha cozinha cheira a especiarias e pimenta de cheiro, meu prato de massa alcançou uma elegância que me faz chorar, só uso lençóis macios e tomo banhos de canela, camomila, mel e casca de maçã.

Cortei o cabelo e tá, olha, lindo demais.

Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

2022 e alguma beleza

O ano só começa quando eu consigo voltar a escrever.

Como se diz bom dia? Bem assim: primeiro o flocão de milho amarelinho, amarelinho. Daí o leite. Pode ser de vaca, de coco, misturado. Deixa o flocão se hidratar. Um pouco de açúcar, um pouco de sal. Manteiga, claro. Um ovo, com a gema bem amarelinha – se quiser. Canela, cravo, queijo. Mexe, mexe. Um pouquinhozinho de nada de farinha de trigo. Fermento. Espalha na frigideira untad com mais manteiga. Bordinha quase queimou? Vira. Um balde de café quente, forte e amargo. Uma cadeira de balanço, vento enlinhando o cabelo, a vida proseando na calçada com o tempo que por ali passava e parou.

Existe uma beleza na alegria de ser quem se é. Acordei assim. Sorri pro meu sorriso no espelho. Ouvi minha playlist de forró. Comi meu milho com queijo. Inspirei com força o cheiro de mormaço. Amei meu rosto, meu corpo, meus dias.

A espiga, mugunzá, canjica, pamonha, cuscuz – com ovo, com manteiga, com leite, com galinha ao molho, com carne de sol, com queijo, chapéu de couro, bolo. É de milho? Quero. Quero o quentinho e o riso do amarelo. A chinela na beirada do alpendre. A rede no lento balanço. O lençol dançando no varal. O barulhinho dos animais no terreiro. O sol, o sol, o sol e aquela gotinha de suor, marota, escorregando pelo cangote e se perdendo entre os seios.

Daí me perguntaram sobre minhas habilidades. E eu falei que a que eu tenho é fazer as pessoas se sentirem bem. E eu sou uma pessoa, né.

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Roupa no varal, que não seca nunca, o cartão do mês que vem virando uma bola de neve, a máquina de lavar vazando, acordar procurando um email que não veio, Duras na cabeceira novamente, folhas em branco reclamando, alguns sorrisos, comentários enormes no Drops da Fal, todos os vasos da varanda vazios, a caixa dos correios vazia, a geladeira vazia, uma quinta-feira vadia, o Gilson de novo no blog – viva!, um banho gostoso, a carta escrita pela metade,  o filme do Woody Allen, a mais bonita carta de tarot, a canjinha da madrugada, cabelo cheiroso, nada de email, uma prova de kart, bolinho de chuva ou bolinho de arroz, papel de carta lilás, aquela paixãozinha pelo detetive de Shetland, a situação de Minas Gerais, autorretrato: um pedacinho de sonho cercado de solidão por todos os lados, muitos diminutivos no caminho, o analista impaciente, lista de supermercado, a vontade do mar, o email ainda não chegou, notícias tristes, notícias boas, vacinas para crianças, Vinícius Jr., sapatinhos vermelhos, café quente quente quente, lápis sem ponta, misturo sim peixe com laticínio, risco livros, como pizza de calabresa com queijo, sou uma vândala, tem uma nova maquininha na cozinha, tenho que comprar remédios, a restauração do Poderoso Chefão.

“Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”

Chegou 2022 com alguns aperreios inesperados. Cheguei nele com a decisão de ficar bem. De remover muros, cercas e sei lá mais quantas camadas de proteção que eu sei que uso, que nem o menino enrolado em plástico bolha do Pequeno Grande Time. Bora lá, mergulhar de cabeça, correndo o risco de partir uns ossos. Ou o coração.

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Desde que voltei pra casa eu não fiquei triste, triste de verdade. Nem alegre. Nem calma. Nem nada que se costuma usar pra definir um estado. Meio oca, talvez. Tirei uma foto do meu lindo óculos. E faço de conta que não quero saber se alguém viu. Tenho intenção de passar uns dias deixando o mar lavar a ferida. E bebendo mimosas. E caipirinhas. E cervejas. E alguma água de coco. Se ele soubesse – mas ele não vai – talvez ele pensasse: se eu vivesse com essa mulher, eu seria um alcóolatra. Digo eu: melhor que ser um adicto da infelicidade (perdoem, estou decompondo a amargura, espero em breve ter outros sabores). Minha pia está limpa, minhas roupas estão lavadas, o chão está aspirado. Ok, a cama está bagunçada e tenho livros demais dentro do quarto, mas, espiando rápido, 2022 já começa melhor do que terminei 2021. Eu não curto chá (ou infusão, como a Fal e o Fabi preferirem), mas tomei banho de camomila. E fiz uma pequena prece – para os deuses gregos, que são os únicos que conheço pelo nome e tal. Comi pizza ontem, comi pizza hoje. Com café. Doei coisas, ganhei uma churrasqueira de fogão, além de um batom nude e água micelar – tive que pesquisar pra descobrir o que é. Vi muitos episódios de queer eye sobre pessoas incríveis que trabalham muito pra fazer o mundo melhor. Fiz isto enrodilhada na minha preguiça. Foi confortador passar o ano só e confirmar que sou desnecessária. Estou lendo um conto com uma personagem se chama Glosspan. Nem precisa muito mais do que isso pra ser bom, não é? Preciso de uma luz mais forte no meu quarto. De um colchão novo. Ir ao dentista. De menos danos. Melhores planos.

Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”.  A frase do Maradona é a epígrafe de um filme. Gosto de pensar que funciona, também, como síntese das minhas ações em relação a, bom, essa coisa toda.

Eu nunca fui especialmente ligada em super heróis embora tenha lido muita, muita mesmo, revistinha na infância/adolescência. Essa ênfase na quantidade vinha mais pela facilidade de encontrar este tipo de coisa pra ler do que por uma preferência temática. Entretanto, em tempos recentes, a Marvel tem me oferecido um consolo parecido com aquele que advém dos romances policiais, especialmente dos livros da Agatha Christie. Eles me confortam. Colocam meu mundo no lugar, mesmo que temporariamente. Dificilmente eu poderia eleger meu Vingador preferido. Mas, ao longo do tempo, fui reconhecendo minha afinidade com um tipo de personagem: o mais humano – e, humano, aqui, simbolizando potencial para enfiar o pé na jaca. Na longa lista brilham Derfel, Boromir, Rollo e afins. É nessa tradição que se apresenta meu xodó pelo Gavião Arqueiro. O herói de mau humor. Que sai todo roxo dos embates. Que faz o que é certo porque, bom, é o certo. O que tem uma melhor amiga. Que se envolve. Que vê longe e escuta mal. Que brinca com os filhos, tem piada cúmplice com a companheira, que passa vergonha em público. Nesse 2022 só quero voltar a ser eu mesma, sem nenhuma pretensão de super poder, pendurada nos prédios por um nadinha, fazendo o que é certo porque é certo e, evntualmente, o pé todo atochado na jaca.

Das coisas que você precisa ouvir, mas eu nunca, nunca vou te dizer: você toma péssimas decisões.

Antes de conhecer você eu não tinha razões para viver. Mais, eu não tinha razões para morrer. Você me deu os dois.” Se eu fosse uma das criadoras do álbum, colocaria assim: “amar é”… ver sinais onde existem apenas coincidências e diálogos fracos. Estou assistindo A Roda do Tempo. A série é bem qualquer coisa, há desvios demais da história dos livros pro meu gosto, mas – tal como os personagens todos – estou envolvida com Moiraine e disposta a segui-la, mesmo me sentindo incomodada quase sempre.

Segunda temporada de Emily em Paris: um conflito besta que se estende em um segredo sem pé nem cabeça. Mas o personagem Luc cresceu bem e me diverte.

Andei vendo: Tick, Tick…Boom!; A Filha Perdida; Meu ano em Nova Iorque; Não Olhei Para Cima, A Mão de Deus. #aquecimentoparaoOscar

Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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“O acaso é a flor do real”

Pois é, viajando. Tal como o moço da piada caindo de um prédio muito muito muito alto, o que eu posso dizer sobre isso é: até agora, tudo bem.

Liberdade nunca é demais. Subir e descer e descer e subir, entrar em todos os mercados e ficar espiando rótulos com símbolos que nunca jamais decifrarei. Comer guioza na rua. Sentar no banquinho e espiar pessoas e tampo passarem se misturando. Querer mergulhar no caldinho do Tempura Udon do Izakaya Issa. Comprar temperinhos. Uma senhora idosa de máscara bem assentada, um pouco curvada, bengala estilosa e passo calculado como se o tempo estivesse a seu serviço e abrisse espaço na calçada para ela seguir seu trajeto. Jovens ligeiros gesticulando muito, ocupando a calçada na largura, falando uns com os outros e no celular – ao mesmo tempo. Um homem e duas crianças de olhos sorridentes por cima das máscaras coloridas param na ponte para tirar fotografias. Som, som, som e, entrando no jardim, um repentino som que, de tão diferente, é quase silêncio, como quando se atravessa uma cachoeira e já não há antes nem o depois, só a água fora, dentro, por todo lado, entontecendo. Uma moça fuma e reclama baixinho com ninguém, segurando o celular quase com repulsa. Duas adolescentes trocam selinhos. Um senhor de suéter azul, cabelos grisalhos e uma teia de tempo no rosto, fuma, distraído. Queria  me ver assim como vejo toda gente. O jeito, o corpo, as expressões. Meu rosto deve parecer tão triste de máscara, talvez, os olhinhos baixos sem o sorriso pra distrair. A sapatilha vermelha fazendo seu trabalho de destruição. Sacolas e uma bolsa de cactos. Sobe e desce e desce e sobe, entrando nos mercados, comendo na rua, carregando uma gargalhada como uma cicatriz, se esquecendo do tempo sentada no banco do jardim com um kindle no colo e o olhar vagando dentro.

No mercado de lá tinha lichia, perguntei o preço, balancei, não comprei. Na esquina daqui tinha castanha portuguesa, não perguntei o preço, comprei-a-a como diria o Rolando Lero. E depois chorei.

Choro por tudo que a gente não teve, por tudo que a gente não realizou, choro porque eu sei etc. Eita, Fábio Jr.

Por muitos anos eu evitei visitar São Paulo achando que nada havia lá que fosse realmente me interessar. Boba. Por muitos anos evitei visitar o Rio de Janeiro temendo que a realidade não se empariasse com minha imaginação alimentada por Nelsons e Vinícius. Boba. Boba.

Bem baixinho, no cantinho: São Paulo me trata melhor. Pohan, Rio, chuva? (e nem vamos falar do tira-gosto).

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Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

E essa é a última vez que eu digo que é a última vez. Porque estou cansada de não estar contente, sabe. E não tem mais desculpa, nem pra você nem pra mim. Estou aqui, estenda a mão, abra os braços, me cante uma canção bonita. Qualquer versão disso. Eu entendo as dores, mas já não quero um afeto que se recusa. Que me recusa. Te deixei livre para todos os caminhos, o passo e a rota que você escolhesse. Mas não viajar é dolorido demais. Você fica. Fique. Eu vou. Violeira. E se confundo lágrima e neblina é só um jeito diferente de ver a paisagem. 

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(Yuval Robichek)