40ena ena ena ena. Infinitena

De março do ano passado até agora foi uma montanha-russa de emoções, alternando entre tristeza, muita tristeza, angústia, desespero e, num laivo de irrealidade, um pouco de esperança, ali por outubro. Sinto-me de volta ao pior momento de 2020: álcool, programas ruins de tv, letargia e todo tipo de anestésico ou entorpecente legal sendo usado sem moderação. Com o agravante que não tenho mais ânimo pra falar com amigos ou dar em cima do moço que nem sabe que eu estava dando em cima dele pois meus métodos são apenas dois: rinoceronte numa loja de cristais ou borboleta no jardim. Ele era uma rosa, como na canção do Jorge Ben.

Não consigo ler. Não consegui ver os filmes do Oscar. Não consigo fazer mais do que o básico do meu trabalho. Muitas pessoas queridas perdendo pessoas muito queridas. Mesmo não podendo sentir como elas, sinto com elas. Não tenho força pra mais nada a não ser chorar as 3000 ausências a cada dia.

É verdade que a vida segue, gente nasce, gente faz aniversário, gente casa, passa no doutorado, defende dissertação. São momentos felizes. Eu é que já não sou.

Sinto muita falta de mim.

Mantenho a sanidade mental vendo vídeos dos sobrinhos (incluo aqui os filhos da Iara e da Marília M.) e bebendo café na varanda da minha irmã/vizinha. Mas fui aos Correios hoje e vou passar 15 dias sem o café. Haja vídeo fofinho.

Não consigo ler, mas consigo lembrar. E arrumando as prateleiras, encontrei esse livro fininho, No teu deserto, do Miguel Sousa Tavares, uma carta – como tantas que escrevi e não enviei. Um quase romance – como mais poderia descrever o que nos aconteceu? Não que tenhamos atravessado o Saara ou que um de nós esteja morto. Pelo menos eu acho que não estou. Aviso que não é spoiler falar da morte de Cláudia, somos informados logo nas páginas iniciais. Um momento único forja laços únicos. Como vivenciar a imensidão de um deserto. Ou o infindável de uma pandemia. Um livro que faz rir do que é para o riso, E que lateja, no que é para doer. Um livro que nos pega, nos apega e lemos como quem percorre. Viagem. Ficamos com o corpo cansado de estar na mesma posição – como se fôssemos no jipe. Sentimos o olho coçar e a necessidade de um banho, como se areia houvesse, entranhada. Nos deslumbramos com a vastidão e nos sentimos um tantinho perdidos. Uma carta que chega tarde demais, mas teria algo a ser escrito se tivesse sido dito? Texto testemunho do impossível. Muito, muito além de uma verdade. Há momentos que não voltam. Ou nós não voltamos a eles, por mais que melancolicamente enfileiremos palavras para os dizer. Não é o livro mais profundo, trabalhado, elaborado. Pode-se até mesmo encontrar, nas páginas, alguma autoindulgência. Mas há uma beleza nesta tristeza do que não foi. Tento me convencer disso, pensando em você. Não consigo ler e, parece, também não consigo esquecer.

E se estamos falando de livros, vou fazer o jabá do livro que lancei Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Está em pré-venda, aqui, na Loja do Drops Editora.  

Mockups Design

E quem não conhece minha newscoisa, Garrafinhas da Lu, vem aqui: Newscoisa #44: as águas vão rolar. Teve até BBB.  Continue lendo “40ena ena ena ena. Infinitena”

“devemos lembrar que os esquecemos”

Hoje (na verdade, ontem, é que ainda não dormi) foi pesado demais. O número de mortes, o sofrimento com rosto e nome, o adoecimento e a morte de pessoas que já fizeram parte da nossa vida de ouvir voz, sentir pele. Difícil demais. Nem a votação no STF conseguiu me tirar da areia movediça da angústia e tristeza.

A casa precisando de faxina. A alma também.

devemos lembrar que os esquecemos” – é isso mesmo, Sally. Harry & Sally é meu filme de tantas formas. Menos no subtítulo péssimo. Tudo que Harry e Sally não são é pré-fabricados um pro outro, tudo que eles não são é um encaixe fácil, uma atração física avassaladora, uma irmandade de almas afastados temporariamente por situações confusas ou pessoas mal intencionadas. Eles não são feitos um para o outro, eles desenvolvem um vínculo, constroem um afeto, se abrem pra relação, se conhecem, se desvendam, se estranham, se permitem e, neste processo, descobrem-se importando-se em estar (e não ser) um para o outro, um com o outro.

Things I Love About “When Harry Met Sally…”

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Tentei ver a Liga da Justiça porque minha experiência me diz filme de herói é fácil de ver. Mas não quando é tão ruim assim. Além dos inúmeros problemas de cor, de roteiro, de fotografia, ainda tem um péssimo vilão. O que Thanos tinha de interessante e complexo esse tem de falta de carisma e ausência de mote. E eu nem me lembro mais porque ou como o Superman morreu. 

Qual é o melhor momento de Friends e porque é Ross presenteando Phoebe com a bicicleta? – eu não dependo só da gentileza de estranhos, eu dependo da gentileza de todo mundo.

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Sim, seu moço, eu sei que podíamos ter sido felizes. Mas não acho triste pensar nisso. Acho bonito saber que tantas vidas que não vivi seriam boas como esta costumava ser (agora ela tá em stand by, né, não serve pra comparação)

Arrastar os dias feitos correntes. Toda minha solidariedade aos fantasmas de desenho animado.

Membros Fantasmas

Uma verdade: um dia a gente paga a língua (a gente sou eu, claro, e um dia é hoje).

Você troca livros, queria trocar carícias.

Ele só quer te usar. Ah, quem dera. Meu tempo, meu corpo, meu afeto, minha capacidade de cuidar, de entreter, minha alegria. Me usa.

Pode ser só birra, claro. Teimosia. Ego. Orgulho. Falta do que fazer. Eu chamo de amor – e ele responde.

Eu não preciso que você me ame. Que me namore. Que faça planos. Que viva comigo. Eu só quero que você me queira, tal qual Os Mutantes. E que deixe eu gostar de você.

Um dia e mais outro e outro. Aquela sensação de que o mundo acabou e, lá fora, só destroços do tipo filme distópico. Você fazendo compras por aplicativo. Máscaras penduradas em todos os compartimentos da casa, sempre à mão. Obras por terminar. Profissionais de saúde, exaustos. Acaba oxigênio em algumas cidades. Supermercados desabastecidos. Mil mortos por dia. O horror. Aí você vê fotografias. Filmagens. Assiste, sem querer, uma parte de um jornal. Festas, bailes, shows. Bares, jantares, reuniões. Escolas abertas. Salões de beleza. Shoppings. Pessoas circulando. Pessoas que você conhece fazendo “só um churrasquinho” com todas as medidas de segurança. Aquelas, de abril de 2020. E que no frigir dos ovos – ou no assar da carne – se resumem a lavar as mãos, talvez com álcool, porque quem vai comer e beber de máscara?

Cada dia mais e mais só.

Mas ainda recebo teu branco e preto e sinto calor. Ainda escuto as canções. Ainda rio com os trocadilhos. E danço, nua, pensando em você. Danço, né. Claro.

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Grey’s Anatomy é das melhores coisas que já vivi (nem digo vi, porque mexe comigo de uma forma ativa). Quando começou – e por muitos anos – a personagem que dá nome ao programa não me entusiasmava. O resto dos personagens é que construíram a teia e me aninharam nela. O que eu não sabia é que esse trabalho todo era pra deixar vir uma enorme Meredith – aranha prontinha para devorar meu coração. Por uns 12 anos eu questionava seu protagonismo, sem perceber a narrativa que se estruturava, para além da história evidente e que, hoje, me faz não só amá-la, mas entendê-la e, tantas vezes, entender-me.

Ser humano é ser um só (no sentido da unicidade, mas também da solidão que nos estrutura). E a série nos conduz junto à espiral da solidão de Meredith. Sua pessoa âncora: Cristina. Seu amor porto: Derek. Um a um. Vindo. Indo. Como a estação cantada por Milton: encontros e despedidas. Ou uma estação de trem, a perfeita metáfora do meu coração: chegadas e partidas.

Uma vez e outra, passar pela decisão: seguir vivendo apesar de. Apesar da água gelada que amortece a dor de viver. Apesar de ter o risco de ver explodir o coração como uma bomba. Apesar do inesperado da vida, acidente que leva onde não se pode cuidar de tudo e de todos. Com uma beleza que me encanta, episódio após episódio, a contradição: é nas perdas e nos vazios que as presenças e os laços se originam, se evidenciam, se consolidam. Perda após perda, sem porto e sem âncora, Meredith navega com bóias, faróis e sinaleiros.

Meredith vai descobrindo que poder ficar só não implica em querer ficar só, sempre. Nem, principalmente, ter que ficar só. Acho que é uma forma muito delicada de trabalhar o amadurecimento. Crescer não é não precisar de mais ninguém. É, também, acho, saber dar e receber esse cuidado. E, algumas vezes, precisar e ele não chegar. Muito se faz rima entre vidas que se tocam. A gente perdoa o outro. Ou se perdoa. Ou. E. Como Alex, ele que perdoou o pai que não deu o que ele precisava e perdoou a mãe por fazer tanto pra dar o que ele precisava e mesmo assim não pôde dar. Porque ninguém nunca pode, acho. Ele mesmo não pôde, e partiu.

Ser a gente mesmo, como disse o terapeuta da Meredith, pode ser bem assustador. E ainda mais assustador é reconhecer que nossos pedacinhos, o que nos forma e nos define, as partes de nossa “anatomia”, não são apenas o que está ou se acrescenta na vida, mas também as subtrações, as faltas, as perdas. Nossos membros fantasmas. E nunca poder coçá-los.

40ena e outros desabafos

Resolvi parar de me debater pra não me afogar tão rápido nessa areia movediça tóxica que é morar no brasil durante o (des)governo do genocida. Sim, a pandemia. Sim, a destruição do serviço público. Sim, a aceleração da devastação do meio ambiente. Sim, o extermínio dos povos indígenas. Sim, o esgarçamento das teias de proteção (já poucas) a mulheres, quilombolas, população LGBT. Ainda assim, apesar de tudo isso, parar de me debater. Cuidar um pouco mais de mim. Reencontrar os sorrisos. Me encontrar neles. Fazer-me bem. Comprei jerimum, batata doce, macaxeira. Comprei milho, laranja, tangerina. Cenoura, batata, um monte de cebola e tomate, cheiro verde, pimentões de todas as cores. Com boas, incríveis intenções: sopinha, por exemplo. Comprei todas as coisinhas, inclusive o caríssimo pão de forma, pra fazer o meu querido pão americano. Acordo com a notícia sobre a situação de Manaus. Hospitais sem oxigênio. Amigos de outros estados com parentes queridos internados. E o Ministério da Saúde lançando aplicativo que estimula que a população aja de forma irresponsável, usando medicação inócua e pressionando profissionais responsáveis. Hoje tá sendo pancada atrás de pancada. Sinto junto. Sinto muito. Sinto tanto não poder fazer muito mais do que sentir. Não tem sopinha, não tem pão gostosinho, não tem fome, não tem autocuidado, não tem nada a não ser uma angústia avassaladora, impotente, sem nome, sem rumo, vez em quando vertida em lágrima.

Toda minha solidariedade aos profissionais que estão tendo que decidir quem vão tentar manter vivos e quem vão abandonar pra morrer.

A todos que em nome de sua saúde mental contribuíram pra essa situação, vão pra baixa da égua (tenho repetido muito isso, eu sei, mas é meu sentimento constante). Uma amiga querida sugeriu que a gente devia ser um pouco mais generosa e condescendente senão vai ficar muito solitário o mundo pós-pandemia. Eu acho que pra mim isso já é irremediável. Ainda vou sorrir e conversar com você que fez só aquele churrasco, que deu só uma voltinha no shopping, que foi passar o carnaval na serra, na praia deserta? Provavelmente. Vocês não são negacionistas, bolsonaristas, etc. Eu vou fazer questão disso e me organizar para e festejar cada encontro? Não. E sim, eu já li que a gente que reclama é porque tem inveja. Releia a primeira frase do parágrafo.

Apesar do nome daquele blog, a borboleta nunca foi uma das “minhas” metáforas. Mas, agora, estou achando que, talvez, o casulo seja.

Eu quis dizer…

5 objetos que são muito a minha cara (sem hierarquia entre eles)

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Não precisa ser esse, esse, justamente esse, mas é bom que seja desse modelo. E, pra ser sincera, esse, esse mesmo, justamente esse, já está comigo faz um tempo, fazendo um lindo trabalho.

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Eu amo esse quadrinho, ele sintetiza várias coisas que me dão prazer: uma viagem divertida, heróis, vida longa, a possibilidade de um certo cansaço espantado. 

Ganhei este caldeirãozinho de um amigo querido, só isso já seria motivo pra ter como xodó, mas como tudo que é bom parece que aprecia ser melhorado, virou a casa de muitas conchinhas de diversas praias que visitei. 

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Eu resisti muito à ideia do kindle. Eu gosto da materialidade dos livros, gosto do cheirinho dos livros novos, do amarelado nas páginas dos livros antigos, gosto de folhear pra achar o que eu nem sabia que procurava e muitas outras coisas assim. Mas, poxa, viajar ficou muito mais fácil. A mala ficou mais maneira, muito mais maneira e não me acompanha mais aquele medo do livro acabar antes da viagem, já que no kindle vão muitos. Guardo, nele, minhas bíblias (do poderoso chefão a ligações perigosas, passando pela filha pródiga, fogos e a insustentável leveza do ser) e já nem sei como seria meu fim de tarde, na rede, sem sua companhia

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Meu caderninho de tudo. Eu tinha esquecido o prazer de escrever à mão e quando voltei a isso, eita, que alegria. Tem de tudo nele, planos de viagem, bilhetinhos de amor jamais enviados, lista de supermercado, planos de reforma (improvável), ideias aleatórias para posts e garrafinhas, palavras soltas que jamais saberei a que eu me referia, anotações sobre conceitos e insights teórico-empíricos variados e tudo mais que nem sei nomear. 

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(depois da lista definida e fotografada foi que pensei que devia ter incluído um ventilador, meu companheiro fiel, ligado 24/7, no ambiente em que eu estiver na casa, então vai de bônus, ele, todo prosa, sentadinho na minha poltrona)

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O tempo, o vento e o álcool

Uma coisa tristíssima é a sensação de que, passado o que precisa ser passado, depois do depois, quando estivermos de máscara mas devidamente vacinados e na rua, eu estarei muito mais sozinha do que agora, nestes meses de isolamento.

A vida dá uns sacodes que benzadeus.

O consolo é que gosto um bocado da minha própria companhia. E tem a internet, livros, uns projetos interessantes pra tocar, praia por perto quando puder sair de casa, rede na varanda, tudo bem no ano que vem, ligações perigosas, west wing e o poderoso chefão pra rever até os olhos ficarem dormentes e a cozinha, sempre terei a cozinha (não hoje, hoje comerei pão com queijo e café, o dia todo).

Mesmo assim, doeu. Ah, doeu.

Tá tendo maratona de Criminal Minds, exatamente a companhia que eu precisava para passar essa virada de ano. Sim, continuo apaixonadinha pelo Reid. Séries e livros policiais me confortam muito. Já falei sobre isso algumas vezes. Eu sempre recomendo romances e séries policiais para males diversos, especialmente os de amor. É que eles parecem seguir uma lógica. Organizam o mundo. Encontram respostas. Quando uma relação acaba ou nem, quando está tudo muito dolorido, é aquela confusão nos sentidos. Tudo em carne viva e as pessoas se perguntando e se? Mas porque? Foi alguma coisa que eu fiz? Será que? O amor é labirinto sem fio de Ariadne. Sem nem mesmo as migalhinhas de pão do João. Amor não tem resposta única (o viver, na verdade, mas a gente se entretem no dia a dia e esquece um pouco). Não tem verdade. Quanto mais se olha pra trás e tenta desvendar o que e como aconteceu, mais perdida a pessoa fica. Já o universo do mistério policial faz sentido. No mundo dos livros e séries de investigação há uma pergunta central e uma resposta única. A verdade. Um desenlace que se a gente não pegou de primeira, volta e espia: vai ter um fio condutor. As pistas estavam todas lá, a gente que não tinha visto, mas com calma, analisando bem, arrá, era isso. Alguém explica tudo. Tudinho. O romance policial me acalma. Acalenta. Coloca um pouco de ordem – mesmo que temporária e transitória – na bagunça que é o sentir. É um desafio intelectual. A gente pode pensar sobre. Ou se deixar levar, como quem faz uma visita guiada: à direita vocês podem ver um suspeito inocentado, reparem que seu ar suspeito é, na verdade, efeito da azia. A gente (a gente sou sempre eu, como anteriormente combinado) tem essa fome: de conhecimento, de verdade, de saber. E viver é aprender que não tem resposta fácil, que a gente não vai saber tudo e que a verdade é uma construção. E amar é aprender isso tudo sem pele. Mas o romance policial, ah, por um momento a gente pode, sabe, responde. Poirot, Grissom, Miss Marple, Reid, quem for, eles vão saber. Vão dizer. Vão provar. Nesse 2020 de angústias, de incerteza, um tempo sem horizonte (que se estende para o ano que começa amanhã), nesse ano em que não só o sentir, mas o próprio existir se apresenta como uma imensa bagunça disforme, os livros e séries desse tipo me tem sido muleta, oxigênio, ninho, limite, fôrma (eu sei que não tem chapeuzinho, me deixa). Bora, Reid, me abraça.

Pegando gastura.

Tenho pena de nunca ter te mostrado o conto Plantação. Eu nunca tinha vivido em um tarde demais. É um lugar realmente inóspito.

O tempo, o vento e o álcool. Meu tio, muito sábio.

Eles desgastam tudo, sabe? O tempo, o vento, o álcool. Lenta ou rapidamente, no seu próprio e inesperado ritmo, vão esculpindo na pele, na carne, na terra, nas coisas do mundo, suas marcas. Discreta ou descaradamente. De forma bela ou disforme. Podemos dar-lhes sentido ou aos seus efeitos, mas não evitá-los – pelo menos não aos efeitos.

Escrevi e apaguei e reescrevi a mensagem que vou te enviar. Porque sou uma tonta e sim, tenho que desapegar, mas não, não vai ser hoje. Hoje eu ainda queria. Quero. Tonta, tonta, tonta, eu já disse?

Vejo as pessoas comentando sobre qual a cor que vão usar na passagem de ano e, bom, pelo menos nisso vou me divertir, estarei “cor da pele”.

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Duke Ellington, muito de boas

As alegrias, os drinques, as despedidas

Do mesmo jeito que sinto a tristeza do mundo, sinto as alegrias. A conquista das mulheres e dos movimentos sociais da Argentina me faz contente, me comove, me inspira. A interrupção voluntária da gestação não depende de leis. As pessoas abortam. Mas a segurança e a saúde das mulheres (e dos homens trans, claro) depende, sim, de leis e de uma cultura que as proteja. Argentina se torna um lugar melhor pra se viver.

A imagem pode conter: texto que diz "LA MUJER DECIDE LA SOCIEDAD RESPETA EL ESTADO GARANTIZA LA IGLESIA NO SE METE EL DECORADO SE CALLA"

Nunca fui de fazer planos (os pouquíssimos que lembrei de fazer – casar, tirar licença capacitação, comemorar os 45 anos em uma viagem – deram tão errado que é melhor nem comentar) mas tenho uma vontadezinhazinha pra 2021. Bem pequena e bem simples pra não atrapalhar a vida de mais ninguém.

Talvez eu tenha feito um pouco de chantagem maternal com meu filho (narrador: ela não se arrepende).

A nossa verdadeira trilha sonora é Jura Secreta.

Já somos esquecimento, sem nunca termos sido memória. E dói como nunca doeu um amor abandonado ou um amor que me abandonou. Como nunca doeu uma mala arrumada, uma porta aberta, uma estrada vazia. Como nunca doeu uma partida. Como nunca doeu um último abraço. Como nunca doeu uma estação, um portão de embarque, uma mesa de bar, um quarto de hotel, uma lágrima quente, um documento assinado. Como nunca doeu um dito. Uma certeza. Como nunca doeu uma despedida. A palavra que se esgarça até o silêncio é a espada mais afiada.

Um pacotinho daquelas frutas vermelhas congeladas. Polpa de morango. Umas uvas roxas. Um espumante. Não fica bonito, mas que boa companhia que é.

Desapegar não de você, mas da bonita história que eu queria contar.

Nem vem, não vai ter bolo mesmo

Eu não fui passar o Natal com meus pais e irmãos. Não vou, na noite da passagem de ano, dar os dez ou quinze passos que separam minha porta da porta da minha irmã-vizinha e acompanhar o fim de 2020 com ela, o marido e o filho. Ridículo dizer, mas também não fui a nenhuma outro tipo de encontro ou confraternização presencial. Na verdade, também não participei de nenhuma festividade virtual. E, claro, não tenho me juntado a nenhum grupo para não contrair ou transmitir covid. Porque por mais que tenhamos cuidado, o ambiente que tem pessoas reunidas, falando, talvez se abraçando, tirando a máscara para comer, etc, é, sim, um ambiente de risco.

Mas andei refletindo e percebi que esse não é o único motivo. Eu não sinto vontade nenhuma de festejar o que quer que seja. Ficar longe de todo mundo esse ano foi difícil. Foi difícil demais. Mas não participar de nenhum evento de confraternização, de nenhuma festa, neste dezembro, não foi nenhum sacrifício, foi apenas reflexo do meu estado de espírito. Não quero encontrar ninguém, não tenho coisas a agradecer nem esperanças pro ano que vem. Eu estou triste. E se minha alegria é insana e descaradamente gregária, minha tristeza é reservada, cheia de pudores, amante do recolhimento. Sempre fui uma pessoa de brechas. Sempre procurei o riso. Mantive uma Pollyanna brincando, livre, em mim, quando a todos parecia tolo. Mas não consigo comemorar o que quer que seja. Não consigo me imaginar festejando, esquecendo os 200.000 mortos – só no Brasil. Esquecendo os profissionais de saúde que estarão, exaustos, em plantões. Esquecendo as famílias e amigos que perderam cada um que foi perdido pra este vírus, mas não só, pra essa política de morte. 

Entendo quem vai num outro caminho, quem precisa do toque das pessoas próximas, quem precisa do brinde, quem precisa do respiro dos afetos íntimos, pra manter a cabeça fora d’água. Entendo quem arruma mesa bonita e faz comida farta pros que estão próximos, moram juntos ou se resguardaram pra esse momento. Entendo quem faz longas chamadas de vídeo e está gelando espumante pra brindar, pela telinha. Entendo quem resiste, quem não deixa a dor sufocar o riso. Entendo. Admiro.

Mas não entendo gente que faz churrasco pra um monte de outras gentes. Não mesmo. Não entendo quem tá fazendo festa em casa, quem tá indo jantar fora (especialmente com uma galera), quem tá viajando, quem tá visitando. E, principalmente não entendo quem escreve o que hoje eu li, no twitter: Porque vocês ficam se martirizando diante do inevitável? Eu morro um pouquinho quando leio isso. Alguém acha, de verdade, que 200.000 mortes (e as que virão, de covid e de miséria, já, já) e uma economia em bancarrota são/eram inevitáveis e que não tem nada demais ficar listando as coisas boas de 2020, não tem nada demais escrever sobre “os aprendizados da pandemia” e falar que é muito bad vibes quem não consegue ver o lado bom do ano que tá acabando. Alguém não só acha que isso tudo era inevitável como se ressente de quem não tá soltando fogos. Não entendo, não consigo me ver, depois do depois, sentada na mesma mesa que essas pessoas, por qualquer motivo que seja. 

Um amigo querido demais fez umas postagens lindas dizendo que 2020 não foi o ano mais difícil da vida dele, mas que entendia e acolhia que pra maior parte das pessoas que ele conhecia, sim, havia sido um ano péssimo e ele tava junto com essas pessoas. Não ia louvar 2020, etc. Eu me senti muito acolhida e amada. Pela sensibilidade dele. Pela generosidade. Pelo desprendimento. 

Talvez eu devesse me sentir um pouco melhor sobre 2020 do que me sinto. Aconteceram algumas coisas realmente boas. Das melhores e mais importantes que já me aconteceram, como sujeito. Mas eu não consigo não sentir tudo misturado. Eu sinto o desespero e o desamparo e a tristeza e as perdas e as mortes e o cansaço e a solidão e a impotência de todo mundo como se fossem coisas minhas, íntimas e isso tudo me pesa, me curva, me aparta, me separa, me impede o festejo do que quer que seja. 

Cheguei de onde saí. Me repito. Não vou festejar agora. Espero que chegue o dia. Que chegue a hora. Tô me guardando, talvez, pra quando o Carnaval chegar.

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esse cara suburbano coração ateu
ou
a história de nós dois
 
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Quíron é um dos meus mais queridos. Viver com a dor sem deixar que ela o defina, não é fácil (inclusive tenho fracassado nisso miseravelmente em 2020). 

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Eu tenho costume do bom. Do fácil. Das despedidas leves. Sempre fui do abraço prolongado e da caminhada decidida. Nunca deixei passar a validade. Não sei porque me pesa tanto o braço nesse aceno entre nós.

 

 

Bay. E eu.

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Tem essa série juvenil. E na série tem um casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. E a vida que segue primeiro é a dele. Ou ele nota primeiro. E ela fica. E ela sofre. E as pessoas – todas muito legais – dizem a ela que vai passar, vai passar e tal. E, sabe, não adianta nada dizer. Ela se encolhe, se esconde, sofre em dobro, porque dói a ausência dele, do relacionamento, de quem ela era com ele e sofre mais, sofre porque parece em desacordo, mal educado, indelicado da parte dela continuar sofrendo apesar de tanto cuidado de todo mundo explicando que passa, que acaba, que não é tudo isso que parece ser naquele momento.  Apesar das boas intenções, do bem querer verdadeiro e do cuidado legítimo de todos que a rodeiam, ainda dói, porque naquela hora ali, não passou ainda.

Há sempre um tanto de gente com boas intenções. Quando não casei, quando escrevia a tese, quando perdi pessoas queridas. Todas lembrando que passa, que acaba, que não é tanto como parece naquele momento. Há até quem use essa lógica para 2020. E a pandemia. Se falo de desconforto, de angústia, do difícil que é viver cada dia, as pessoas, gentis e prestativas, me dizem que vai passar, que logo acaba, que é preciso sobreviver. E sim, eu acredito. Mas não adianta muito saber. Ainda dói. E me sinto indelicada, mal educada, fora de sintonia por não saber agir em consonância com todas essas tentativas e notícias boas que as pessoas gentis me trazem. Então me encolho, me escondo e dói em dobro. Porque, olha só, não passou ainda. Não desconheço o que é preciso. Coloco panelas no fogo, limpo a casa, faço meu trabalho. Vez ou outra, até sorrio num esquecer qualquer. E se não compartilho esperanças, carrego a teimosia de insistir na vida. Em algum lugar, eu mesma, ainda. Mas.

É isso. Tem essa série juvenil. Com esse casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. A vida dele seguiu. E ela ficou. Ficou, ficou, ficou até não mais ficar. Não mais. Não tanto. Também ela, um passo, outro, dois pra lá, dois pra cá. Segue. Entra na dança. Na roda. E até sorri. Quem sabe, um dia, até diz, bem intencionada, a outro alguém: vai passar.

Eu me abraço, me embalo e penso: que venha minha próxima temporada.