Jogando Bola na Rua ou o Golpe Nosso de Cada Dia

Faz bastante tempo que eu tive essa revelação: viver em sociedade é como jogar bola na rua. Depende, basicamente, que todo mundo concorde de agir e reagir mediados pelas mesmas regras. O que pode, o que não pode, o que vale, quanto vale.

Na pelada ideal o dono da bola não é escolhido só porque é o dono da bola, entra no par ou ímpar como qualquer um. Gol feio e gol bonito vale igual. É lateral, independente se a gente gosta ou não de quem bateu por último na bola e por aí vai. Além disso, e principalmente, não se mudam as regras durante a partida. Tá implícito.

E olha que a pelada convencional tá longe de ser inclusiva. Por exemplo, menina não joga. São muitos os excluídos, os marginalizados. Tem quem jogue de chuteira, uniforme oficial, tem quem entre descalço e de bermuda tactel. A gente pede, negocia, pressiona e vai ajustando uma regra e outra, devagarzinho. Muito, muito devagar. E o jogo vai sendo jogado porque, né, a democracia, opa, a pelada é a pior forma de governo, fora todas as outras.

Eu vivo encucada com o quanto a pelada na rua é de um frágil equilíbrio. Todo mundo tem que concordar, gente. Concordar com regra que me favorece, com regra que me prejudica, com regra que não ajuda nem atrapalha as pessoas mas serve ao jogo. Um monte de “tudo bem, se é pelo bem da partida, eu topo” e o quão displicentemente lidamos com isso. A gente bate bola e tenta o gol sem nem perceber o quanto de acerto prévio, cordialidade e respeito mútuo tem que estar presente pra garantir isso aí. Até o dia que dá ruim. Que furam a bola.

Tem umas ruas aí que o jogo é jogado a tanto tempo que as pessoas nem duvidam da importância dele. Gostando ou não, mantém a bola em movimento. Mas em outras esquinas, ah, em outras, é todo o tempo o risco de ultrapassar a risca. E se o dono da bola decidir que só ele escolhe quem vai jogar? Se o time com camisa tem que fazer três pra valer um e o time com camisa começa a fraudar a placar só porque está com os irmãos mais velhos e mais fortes ali do lado, dando uma força? E se o time perdedor resolver proibir os melhores do time adversário de entrarem na partida? E se a turma da liga do outro bairro resolver tumultuar as nossas partidas e mandarem os irmãos mais velhos e malhados deles influenciarem nossos resultados?

Sei lá, eu sou muito da galera que acha que quem tá na calçada esperando pela vez já devia resolver que não tem isso e entrar todo mundo agora-já-imediatamente e dane-se. Mas e depois? Depois tem que ir todo mundo pra casa, tomar o toddy, dormir descansado e no outro dia, combinar de novo o novo, par ou ímpar, vamos tirar o time. E retomar o frágil equilíbrio.

Sei lá se tem fim este post, tô engasgada, não pode ter a porra de uma alegriazinha que vem o sistema e lembra que nós tamo é fodido mesmo

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Coisas desconexas ou eu me dou mal até nos memes

Coisas desconexas que sei fazer: qualquer coisa que eu faça já que sou desconexa de berço.

Outro: as pessoas listando o que as marcou em cada ano desta última década e eu não consigo lembrar nem o que jantei no sábado passado.

Eu quero muito, muito fazer uma coisa. Essa coisa me assusta demais. Não é de bouas financeiramente. Aí eu não sei se estou pensando em não ir porque sou racional, ponderada e adulta e sei que não devo me endividar por um ano ou se estou desistindo porque estou com medo e estou disfarçando colocando a culpa na grana.

E eu sou gulosa, né, podia ser só o bolo mas eu quero com cobertura e cereja.

Luciana, não vi nenhum comentário seu sobre o óleo no litoral do Nordeste. É que eu não consigo gente. Não consigo. Eu tô morrendo junto.

É estranho como desejar uma coisa diferente pode soar ameaçador. Ou como as pessoas podem ser condescendentes imaginando que tem algo que é muito superior. Spoiler: não tem.

O que  tenho é esse livro Cobras do LFV, mas emprestei e não sei a quem, chuiff.

São tantas coisinhas miúdas… e a menor delas sou eu.

A humanidade sonha: viajar no tempo.
Digo eu: é fácil viajar no tempo.

Antes do protesto e das provas em contrário, reafirmo, é fácil viajar no tempo, é bem assim: uma noite estrelada e uma pessoa a mirar o firmamento. Eu. Ou você. Pronto. Os pontos de luz que atravessam nossa retina surgiram há milhares de anos. Algumas até já desapareceram. É isso, vemos e vivemos, ao olhar para estrelas, um evento que aconteceu há séculos. O tempo, o aprisionamos nos olhos ao bem abri-los. O tempo nos aprisiona em seu mistério ao bem fechá-los. Porque quando fechamos os olhos para melhor sentir seja uma carícia, seja um doer, queremos nos colocar fora dele – tempo – mas é justo aí que ele opera, passa sem o sabermos e logo há histórias demais em nossa pele. Somos transitórios, é o que o tempo nos diz e, ao dizê-lo em estrelas que deixam de existir quando ainda as vemos, oscilamos entre finito e eterno. É na beleza deste intervalo que a gente reconhece: ainda não, e nesta brecha a vida se sabe mais.

Contar o tempo em xícaras de café, folhas que se amarelam – nas árvores e nas mãos, em beijos, sabores na ponta da língua. Deixar que seja o corpo o que ele se encaminha pra ser e rir-se em rugas nos cantos dos olhos como se dissesse: o seu tempo é o meu. O meu tempo sou eu. Então, espero a noite, vou pra varanda, abro bem os olhos e vejo estrelas que sussurram historietas de olhares outros. É bonito isso, de não estarem mais em lugar algum e ainda poderem estar em tantos olhos distantes. Estendo a mão, simulando um toque que transpusesse espaços. Em vão. A mais imperfeita máquina do tempo é a saudade.

 

 

 

Passar vergonha é muito melhor que passar vontade

Sabe o rosto devastado da Marguerite Duras? Posso começar um livro falando do meu rosto encalombado, eita que é espinha.

É engraçado saber que chegamos tão perto.

Sexo não sustenta namoro, o que importAHAHAHA sustenta comigo sim (às vezes o twitter é um lugar surreal)

Nós sempre teremos um boteco.

Passar vergonha é muito melhor que passar vontade (e, como dizia a Marquesa de Merteuil, a vergonha é como a dor, só se sente uma vez).

o que é ser humano? é desenhar uma clarabóia na cela cinza.

Cigarro e cerveja, chega mais, eu não vou resistir.

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Pois sempre foi exatamente assim, embora sem cigarro, sem Dean, sem roupa preta, sem largas e discretas janelas, sem P&B, mas exatamente assim. Foi exatamente assim embora sem os detalhes entalhados na madeira, sem as persianas fechadas, sem a elegância da moça, sem as manchas na parede, mas exatamente assim.

Pois sempre foi exatamente assim, mesmo sem nunca ter sido, sem mergulharmos no abismo, sem termos nenhuma memória que não pudesse ser partilhada nas conversas de salão. Pois sempre foi exatamente assim mesmo agora quando já não poderá ser e o agora dói como unha encravada (sei lá, devia ter uma metáfora mais elegante, mas só consigo enxugar o rosto e assoar o nariz e isso não é nada elegante, mas foi exatamente assim e eu nem sei mais usar pontuação porque preciso assoar o nariz de novo e me convencer que ainda sei respirar).

Não dá pra ver o rosto do Dean nesta foto aí. Mas eu, eu sei a doçura espantada. Sei a mão firme que sustenta e acaricia. Sei o olhar morno, encabulado e contente. A cabeça meio de lado, desviando a vista, embaraçado da alegria que quase se ouve. Sei o sonoro da gargalhada. Sei o corpo confortável no abraço. Sei que você riria junto. Sei o contágio. Eu escreveria: feliz, se achasse que felicidade vale a pena. Toda urgência diluída. Entre nós o gosto de cerveja e uma apenas. Apenas somos, ficamos, estamos. Cozinhamos, vemos filmes, trepamos, comemos, dormimos, ouvimos música, falamos. Somos, ficamos, estamos, tudo cabe neste abraço que foi exatamente assim mesmo sem nunca ter sido.

Se acaso me quiseres

Não tem nada funcionando por aqui.

Eu diria que é preguiça, não fosse a tristeza.

Salompas é coisa linda de deus.

Aquela vontade constante de fechar os olhos e dormir até 2024, no mínimo.

“Nada do que é humano me é estranho”, uso muito pra acolher os moços.

Eu digo sim. Para todas os caminhos que não vamos percorrer juntos, para as camas que não partilharemos, para as memórias que não teremos, para as promessas que não faremos.

Lembro Kundera e aquele lance de que é uma angústia que a vida não tenha ensaio nem esboço. Eu gostaria de ter vivido, também, aquela vida que seria nossa.

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é só pedir com jeitinho

Se ele soubesse como dizer. Como chegar. Ela passa e ele suspira, copo de plástico cheio de café, a manhã crescendo, um dia todo pela frente e a vontade de ficar por ali, seguindo em memória o passo balançado dela, que já dobrou a esquina em direção ao porto. Ele, no rumo oposto, o trabalho duro esperando, sabe, sem ver, o que vai ser do dia dela. Os olhos no mar. A espera. A saudade. Ela anseia e nele dói.

Se ele soubesse como dizer. Olha, olha pra mim. Olha como eu te olho. Olha, olha o meu sorriso bobo todo oferecido pra você. Olha a vida toda possível nos dentes alinhados, nos lábios estendidos, na alegria latente. Ele empilha caixas, transporta sacos, seus braços retesados de peso e abraços estocados. O ar seco dificulta o ritmo da respiração mas o peito se estende, imenso, aberto. Travesseiro disponível. Enquanto sua, ele a imagina. O vento marítimo lacrimejando os olhos femininos. Salgado, seu rosto, de mar e saudades. Ela oscila, sem porto e sem peito de apoio. Ele adivinha, lá longe, e sofre junto.

Se ele soubesse como dizer. Vem, moça, você cabe aqui. Vem, me escuta. Olha, descansa enquanto eu conto histórias, construo castelos sustentados em palavras, sonho aventuras, venço batalhas. Escuta os vales, as estradas, territórios outros, outro mar não navegado, um mundo meu que digo a você. Pausa pra almoço e ele sente a fome dela. O vazio. Ela e a inquietação. Vive em espreita. Volta já, ela tenta se consolar. Porque ele disse que voltava. Prometeu. Pro-me-teu, ela fala devagar, a voz doce, ele lembra, com um chorar surdo ao fundo. Quando? Qualquer um poderia perguntar, ele não pergunta, ninguém pergunta, com medo de quebrar aquela frágil espinha que se mantém reta na beira do cais. Em tardes de vento, sua saia abana como bandeira e ela deixa os olhos no mar, faróis, como se pudesse, com eles guiar os barcos e jangadas e navios e canoas e tudo que navega de volta à terra. Sereia ao avesso, seu silêncio é tentativa de resgate.

Findo o ofício, ele volta pra esquina de sempre, o mormaço do fim do dia dilatando as narinas enquanto espera o passo cadenciado que vem, na contramão da brisa, do mar pra terra, da saudade pra possibilidade, da incerteza pro abraço, da onda balouçante pra terra firme, quem sabe hoje ele tem coragem e descobre como dizer: morena, olha pra cá, olha pra mim, aporta, sossega, esquece, vem ver o sorriso, vem ser meu sorriso. Ela passa, desce a noite e ele suspira. Amanhã cedo, esquina, café quente e um novo quem sabe.

 

 

 

Your girl is lovely, Hubbell

É um post mas podia ser uma sessão de análise. Daquelas que a gente fala um monte sobre o que não importa para não falar do que é realmente importante e de repente vem aquela puxada de tapete porque é a forma como se falou do que não é importante é o que importa.

Sei lá, eu gostava mais quando a gente fazia massagem no cabelo e não hidratação.

Teve aí a controversa entrevista do Milton – que eu não li. A música brasileira atual não é tão boa sei que lá? Não saberia dizer. A verdade é que eu fiquei lá, naquele cantinho pré-cd com uns discos e filmes de estima e nada mais. Claro que eu escuto “coisas novas”. Mas a verdade constrangedora é que sou vou ouvir Roberta Sá, prefiro quando ela canta Cicatrizes.

Status: atrasadíssima, perdendo o bonde, o cavalo selado, a vez, o prumo.

Toda uma vida construída sobre saber ficar, saber partir. Mais: aproveitar o tempo de ficar, reconhecer a hora de partir. É tentador se deixar ficar só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho como na floresta das fadas em Avalon, enquanto a fruta apodrece, o cavalo vira carcaça, enquanto a noite é dia e o dia é noite, as pontas do que é morte e do que não é se encontram formando o círculo entorpecedor do qual já não se consegue sair, ficar só mais um pouquinho e esquecer como viver é tão bom que dói.

Argentina, Uruguai, Chile, Portugal ou Itália? provavelmente nenhum deles mas se não acenar com uma cenoura eu sou aquele burro teimoso que empaca.

Escolhendo a coragem.

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This is Us ou A memória é uma ilha de edição

Eu não ligo pra spoiler. Não me importo nadinha quando passam imagens que ainda não vi de algum filme ou série, não ligo quando alguém comenta que evento A ou B vai rolar. Não consigo lembrar de nenhum livro, filme ou série que eu tenha gostado que tenha sido prejudicado pelo fato de eu saber algum “o quê”. Entretanto This Is Us colocou em xeque, duas vezes, essa minha indiferença. Há, nesta série, duas únicas situações que eu suspeito que sim, que se eu tivesse assistido sabendo quem eram aqueles personagens, teria sido menos emocionante. Duas situações em 3 longas temporadas, nem sei se chega a ser suficiente pra configurar como exceção.

O fato é que (se você não viu o primeiro episódio da primeira temporada de This is Us – e pretende ver a série – sugiro não ler este parágrafo) o uso das linhas temporais distintas e descobrir que aquele amontoado de histórias se entrelaçava foi muito instigante. E isso dependia apenas disso: saber quem eles eram. O uso intencional deste mesmo recurso no primeiro episódio da quarta temporada foi ainda mais tocante.

Mas nem era disso que eu ia falar. This Is Us é uma série brilhante sobre miudezas. Sobre cotidiano, pequenas alegrias, perdas, trabalho, cólicas menstruais, afeto, mudar de cidade, empacotar e desempacotar itens pra mudança, encontrar parentes que nem se sabia que tinha, parir, adotar, cozinhar, ir a uma reunião de AA. É uma série sobre viver. E sobre as decisões, inúmeras e constantes decisões que tomamos e que nos tomam e nos dirigem a seguir. Ficar ou não em uma festa, cursar ou não uma disciplina, dar bola ou não pra um rapaz bonito e como isso é ao mesmo tempo insignificante e completamente transformador.

Tomamos estas miúdas e significativas decisões baseadas em um balaio de coisas, nossos valores, o momento que vivemos, nossas esperanças, medos, informações que dispomos e, também, nossa memória. Quem e como nos fizemos a pessoa que somos. Em This is us somos levados a nos envolver com uma família pelo que vamos descobrindo do que eles viveram. Aí vem um maravilhoso episódio na terceira temporada e dá aquela sacudida: a memória é seletiva, ela lembra de uma guerra de lantejoulas, ele lembra do pai, frustrado e zangado, jogando um prato no chão. Mesmo dia, mesma família. O que é mentira, o que é verdade? Importa pouco, importa como o que “escolhemos” lembrar (e essa escolha, como bem enfatiza o Randall, também é resultado dos afetos envolvidos e de como um tipo de sensação, boa ou ruim, é forte o bastante pra suplantar a outra) vai sustentando novas decisões que forjarão outras lembranças que levarão a outras decisões.

Estava conversando com a Ju Fina Flor e lembrei da situação entre Randall e Beth e como, em determinada discussão, ela começa a listar uma série de situações no casamento em que ela foi se adaptando ao que era melhor pro Randall.  E eu totalmente do lado dela, como numa claque eu gritava mentalmente: “separa! separa!”. Mas depois eu pensei: o que nós lembramos vai depender, também, não só do afeto do momento em que vivemos aquelas situações mas do afeto atual quando recontamos a história. Se hoje ela se sente pressionada a se adequar e se ressente de se sentir assim, o afeto vai colocar holofote em outras situações em que, se ela não sentiu assim, poderia. Mas, eis a minha questão, se no decorrer do relacionamento ela não viveu aquilo como adequação, perda de sonhos, whatever, é pertinente que se cobre que as pessoas que viviam aquilo com ela tivessem reconhecido e reagido de forma diferente? E, além, sendo a memória esta ilha de edição, não é possível pensar que, neste momento da briga, é perfeitamente plausível que se edite pra lembrar o que se lembra de acordo com o desejo presente?

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This is us é como a prateleira de vídeos feitos em casa, sem etiquetas e nas caixas erradas. Em cada episódio é como se sentássemos, puxássemos uma fita aleatória e nos encontrássemos com histórias incompletas, que dependem, em grande parte, do ângulo e das decisões de quem estava filmando, como se estivéssemos acompanhando uma conversa entre três pessoas, uma delas sai, a câmera acompanha aquela e ficamos pensando o que as outras duas continuaram dizendo ou quando estamos filmando uma criança fazer alguma coisa fofa aí ela cai e soltamos a câmera e nada depois daquilo fica gravado. This is Us deixa uma porção de frestas. Questões em aberto. Como foi mesmo? O que vai ser? Será que? Mas a vida não apresenta respostas lineares e a série também não. Cada fita caseira traz a história que narra mas traz, também, as emoções ligadas àqueles momentos, lembranças afins que não foram gravadas, brechas materiais para sabermos não só o que foi dito ou feito, mas como. Porque nos lembramos disso e não daquilo? Gosto que na série tem muita coisa aleatória e sem sentido – como na vida. E, tal como na vida, a gente busca dar um significado a estas coisas, porque é impossível simplesmente lidar com o é da coisa. Mas o sentido que encontramos, que tecemos, é sempre cobertor curto e não é único, depende da forma que cada um encontra pra lidar com o viver.

Daí reli o texto e o que achei que era um prefácio descontextualizado está inequivocamente relacionado ao que gosto tanto em This is us: a série é um spoiler ambulante. O presente nos conta infinitas coisas da linha temporal do passado. De repente uma conversa aleatória do presente nos conta que alguém morreu, casou, teve filho, se mudou, brigou, sei lá o quê e bola pra frente. Momentos “criticos”, reviravoltas, plots twits e tudo que poderia ser UAU simplesmente surgem num papo. Em This is us não é o que aconteceu que importa, mas o como, o caminho, a jornada de cada um, os afetos que se vincularam ao evento, como se lembram, como reagem, como seguem.

This is Us é um dramalhão feito pra gente chorar e empilhar saudades do que foi, do que podia ter sido, do que devia ter sido? É sim. Mas é feito com graça, com elegância, com suavidade,  afetos, com belezas. Sou ligada a eles de forma tal que até pra escolher as fotos desse post eu chorei. Que bom sentir tanto assim.

PS. Em outra conversa com a Ju (essa linda) fiquei pensando sobre como se sentir amado, aceito, impacta na vida de Randall (e na minha). Como somos um tanto egoístas. E como, também, achamos natural, fácil, aceitar que nos amem e acreditar que as pessoas merecem ser amadas. Lá pela terceira temporada, Deja fala como pra ela foi impactante a forma fácil como ele a elogiou, como disse que ela era especial, não como um favor condescendente ou uma grande revelação, mas como uma constatação – e como isso era enorme e transformador. Os personagens de This is us merecem outro tanto de posts, els são absurdamente complexos e adoráveis. Só de ver o trailer da temporada já me comovo:

A volta das garrafinhas

Sobre viver no Brasil, nestes tempos:

“Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…”

Mario Quintana

Querido diário,

… hoje eu comi um mamão tão doce que a expressão “mamão com açúcar” se tornou um pleonasmo.

… o mar não tá pra Peixes.

… agendei pousada em Canoa pra novembro e lembrei de um status que preparei na cabeça e nunca cheguei a digitar (parece que foi ontem que um moço cheiroso cantou “Moça Bonita” do Geraldo Azevedo no pé do meu ouvidOPA foi ontem mesmo, Canoa é este lugar que faz dobras no tempo)

…tudo em technicolor tem um charme estranho, até a desesperança. Como bem sabia Clarice. Ou como eu gosto de pensar que ela saberia.

…tá confirmado: quanto mais Suassuna melhor. Além da purpurina.

… eu poderia morar na língua brasileira anordestinada.

…descobri que, em se tratando de fugas, tenho as melhores estratégias.

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Mesmo depois de tudo, eu ainda quero te proteger. Do mundo. Dos outros. Das palavras, duras, mesmo que elas nunca cheguem a você. Dos pensamentos, condenatórios, mesmo que você nunca os venha a conhecer. Eu ainda tento te proteger de mim. Principalmente, especialmente, eu ainda tento te proteger de mim. Mesmo que você seja grande, forte e use esta roupa impermeável e eu seja fraca de marré, marré, marré, eu ainda tento de proteger de mim, eu te adivinho um Aquiles invertido, que só mergulhou o calcanhar, vulnerável e desprotegido e eu ainda tento te proteger de mim. Ainda escolho as palavras mais leves. Ainda dou voltas nos ditos. Nunca bato a porta. Nunca exijo a chave. Desculpa aí qualquer coisa, essa coisa que pesa em culpa no meu peito. Eu devia te amar melhor. Eu devia amar melhor, ponto. Eu não sei como, então monto barricadas para me impedir de avançar. Mas não basta. Tenho boa mira e munição, vejo apagar o brilho em olhos onde eu já desejei desejar morar. É isso, eu me distraio com demasiada rapidez. Trago a crueldade na algibeira. Eu tentar te proteger de mim nada mais é do que o reconhecimento de que é tarde demais. Meu exército invadiu o seu país. Música antiga, trocadilhos bobos, eu não consigo nem te proteger da piada ruim. Então evito as verdades. Disfarço cenários. Aponto atalhos. Coloco o cobertor nas tuas pernas, velo teu sono, invento desculpas, aceito reprimendas, acolho o deboche, assumo culpas sobre nada. Palavras fáceis, gestos mansos e, ainda assim, a faca sempre mais afiada, o movimento sempre mais rápido, a estocada sempre mais precisa. Eu ainda tento te proteger. Uso meu corpo de escudo. Ainda tento te proteger. Sigo aparando os golpes. Preocupo-me ao ver sangue. Respiro aliviada: é meu.