Banguela

de tudo, é de mim que sinto mais saudades.

A sensação de completa inadequação, depois de anos de esforços frustrados e rebeliões controladas, tomou conta das chaves, hasteou bandeira, matou ou mantém aprisionados – e devidamente amordaçados – os outros habitantes do forte e agora vaga, solitária, pelos corredores vazios, gemendo alto só pra ouvir o eco. E, precavida, empilha todos os “nunca mais” que fantasia bem em frente ao portão, como quem faz barricadas contra improváveis missões de resgate, que ela chama de tentativas de invasão pra dar alguma legitimidade à aridez.

Não sei (ou não lembro – olha o microspoiler), quem disse que o segredo da felicidade é saúde boa e memória ruim. Pensava eu, ingênua, que era pra ir esquecendo as coisas doloridas que nos aconteciam. Mas fui descobrindo que é quase o contrário. Vou embaciando a felicidade pra conseguir respirar.

“amar é dar o que não se tem” – tão bonitinho, quase altruísta. Não perder de vista a sequência: “a alguém que não o quer” – muito menos consolador, não é? só o que temos a oferecer é o nosso vazio.

Nunca diga desta água não beberei porque quando você repara está se afogando na síndrome de impostora.

Nos livros da Agatha Christie de vez em quando pinta um militar reformado, major ou coronel, talvez, daqueles que vivem de glórias passadas. Costumeiramente, um chato. Sinto-me cada vez mais afinada com eles.

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A verdade é que abdiquei de marchas e embreagem, agora vou descendo a ladeira na banguela, regulando só no freio.

Bem agora está escuro, chove e venta muito. Dá quase pra se ouvir a melancolia escorrendo nos telhados ou dos meus olhos.

é irônico lembrar que há pouquinhos dias eu estivesse pensando em fazer uma news letter.

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Amizade à Bulhão Prato ou Celebrando Renata

Sempre que vou celebrar Renata Lins, eu esqueço mais um pouquinho da história. Tudo que é lembrança vai se tornando sentimento. Já nem sei o primeiro contato, o primeiro comentário, o primeiro abraço. Nem o último, a ser sincera. Renata Lins é daquelas que se torna um sempre, na vida.

Ela disse que, hoje, teria vôngoles. Eu disse que ia ao mar, com ela. É isso que eu sinto: vontade de estar perto. Quem não quer? Renata tem aquele sorriso quente, iluminado, tem a palavra em riso, tem sabedoria, humor, tem aquele dito que rasga o óbvio e nos deixa ver tantas belezas possíveis.

A Renata é afetuosa, doce, sensível e sabe dar voadora no meio da pleura, sem nem piscar. É, também, inteligente, culta, erudita e faz piadas 5a série B tão naturais que a gente se pergunta porque a linguagem não é sempre assim. Renata é daquelas raras pessoas que sabem dizer não e é com ele que se começa conversas, um não daquele que abre caminhos.

Eu geralmente não encontro, de corpo e abraço, a Renata no aniversário dela, mesmo. Mas brindo. E, de tira gosto, amêijoas à bulhão pato. Gosto de chamar de amêijoa porque fica com sabor de tempo feliz. Um tempo, que, aliás, também foi tempo com Renata. Como eu disse, ela, sempre. Taioba, vôngole, berbigão, amêijoa, amizade, tudo se pode fazer assim. Com simplicidade, sabor, calor e vinho.

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Aqui, agora, a casa cheira toda a azeite, alho, mar, afetos. Cheira, até, quem diria, a alegria. Os tempos de hoje não são os tempos dos desejos risonhos. Ainda assim, insisto em palavras coloridas, em vento bom, em brisa marinha, em som de cadeira arrastada no boteco, em cavaquinhos, em gente saindo antes e gente chegando depois, em abraços que se sucedem, em ruído do mundo. Eu te amo tanto, amiga.

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Eu podia ter feito um status no FB. Era o que eu ia fazer. Mas andei falando de construir memória. E você é um sempre. Achei melhor este efêmero que o outro. Porque você é, também, um porto. A gente parte, a gente chega. A gente fica no balanço.

Eu-nírico*

Nos meus blogs, tudo é ficção, quase nada é literatura.

A história da minha vida: dar mais do que eu pretendia, menos do que esperavam.

Eu poderia te amar, mas nem eu nem você sabemos ao certo o que isso quer dizer.

[haveria muitos beijos. e abraços. e cafunés. e pernas enroscadas. e toques, muitos toques. mãos que se encontram meio sem porquê. e cafunés, eu já disse? e nariz fazendo cócegas. e abraços no meio de uma praça, apenas para rimar com o tempo que já foi – ou que podia ter sido]

A verdade é que estou precisando de mar. Deixar arder o sal nas feridas. Mergulhar e confundir maresia e lágrimas. Lavar a alma ou tirar a areia do biquíni, sei lá.

Descobri que, durante toda a vida, plagiei – mal – uma escritora que nunca havia lido. Uma escritora que me faz colocar sapatos vermelhos para lê-la ou dela falar. Juro. Acho que é o jeito que ela usa os adjetivos.

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Quando você pensa em Silvina Ocampo você pensa em… inquietude, perversão onírica, cores, perturbação, devaneio, estranheza, espelho, primeira pessoa, primeiro a pessoa, desatino, sombras, desejo e uma certa crueldade.

Tem aquele moço, não, não, a bem da verdade, teve aquele moço que tem até apelido no meu rol de afetos: enfiada de pé na jaca. Tem um moço, bem moço. O interesse é muito, a energia é pouca. Tem o moço de sempre. Tem o moço do quem sabe. Tem o moço do e se tivesse sido. Tem o outro moço, nem tão moço, nem tão paquera, outra vida, outro tempo, responsabilidades, mas tão boa a dança. Dois pra lá, dois pra cá, de sapatos vermelhos, claro.

Era só chegar no bar. E sentar ao lado. E pedir a cerveja. E contar uma história repetida. E de novo. E chegar mais perto pra ouvir melhor. E falar no ouvido, porque há muito barulho. E soprar, mornas, as palavras, e encostar a língua de leve no lóbulo. E sentir a pele arisca. E encostar joelho. E dispensar um copo e beber junto. E sentir o corpo úmido. E esbarrar mãos. E já nem lembrar qual o assunto. E entrar no táxi**. E encontrar lábios. E chocar dente. E rir um pouco. E pegar o jeito. E encostar o que der de pele. E sentir-se lânguida. E ficar feliz de conhecer esta palavra porque o corpo todo está pesado, mas vivo. E decidir. Sobe, segue, despede-se? Não importa, a memória é aquela ilha de edição.

Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Foi assim com M. Duras, eu jurava que tinha sido assim comigo. Mas não, apesar de na minha vida, também, muito cedo ser tarde demais, e sempre sentir-me um tanto mais velha do que o que os anos contavam, meu rosto só mudou aos 40. Mudou tudo de uma vez, ângulos, expressões, textura. Ainda estou aprendendo a ser essa outra mulher. Que tem seu charme, mas é um charme outro, tal como um esgrimista que muda do florete para o sabre e está descobrindo como manter a elegância.

Eu queria ter te amado melhor, sabe. Não me entenda mal, eu não queria ter te amado mais, nem em duração nem em intensidade. Eu te amei inteira, eu te amei em cada linha escrita, eu te amei em cada dito ou escuta, eu te amei no sono e te amei no sonho, eu te amei em lábios e pele e ânsia. Eu te amei tanto. Mas sim, eu queria ter te amado melhor.

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Os roteiristas deste programa tem toda minha admiração. A lista de livros, a relação da arte com a morte, a homenagem a Aldir Blanc e todos os outros, a canção do Tom Zé cantada em família. Tudo isso me fez tão bem. Porque não é negar a dor. É olhar no olho do medo, da perda, da raiva, da finitude e reinventar em beleza.

 

(tem umas pessoas públicas que eu admiro pelo que produziram, pela sua arte, pela sua voz, humor, talento, etc. e fica nisto, admiro, elas lá, eu aqui. tem outras que além disso ou apesar disso, eu sei, eu sinto, com convicção, que seríamos próximos caso nos conhecêssemos (me deixa). O Gilberto Gil é assim. O Caito Mainier. E tem aqueles que eu nem sei se seríamos amigos e tal, mas tem hora que eu bem que gostaria. Como o Gregório. Hoje eu quis muito tomar um café na casa dele.)

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*Um moço inteligente, um dos melhores em trocadilhos – bobos ou sabidos – enquanto se conversava sobre a escrita de Silvina Ocampo, soltou essa: ela não tem eu lírico, tem eu-nírico. Avisei que ia roubar. Roubei.

** A paixão tem este sentido de urgência. Um livro que me tocou muito se chama “O Repouso do Guerreiro”.  Logo no começo da história, quando está se envolvendo com Renauld, a narradora diz:
“— Aliás, vamos tomar um táxi. É bastante longe.
Oh! Como é longe! O tempo é desmesurado. Dez metros, eu não os faria a pé. Só percebo o minuto seguinte a uma distância inacessível, nunca o atingirei.”

America’s Next Top Model ou Outras questões relevantes na quarentena

Quarentena. Isolamento Social. Lockdown. Ficar em casa. Não sair, não receber. Tem muita coisa implicada nisso, quem mora com criança, quem mora com idoso, quem mora em casa pequena e com muita gente, quem nem tem canto pra morar, quem mora com trabalhador da área da saúde ou de serviços essenciais… e tem a especificidade de quem mora só.

Morar só, neste período, tem algumas vantagens, nem preciso listar, cada um é capaz de imaginar. Mas depois de um certo tempo se acostumando com os “ritos” para evitar o Covid, depois que a tristeza e a raiva já tomaram quase todo o espaço da agenda, depois que a gente consegue não morrer de exaustão mental trabalhando online, depois que se estabelece uma dinâmica pra falar com familiares e amigos e tal, depois chega ela, né, e dá aquele toque que ainda tá por aqui. Ela, a libido.

(na verdade verdadeira eu coloquei depois pra dar um ritmo ao texto, cada qual sabe do seu cada qual, o que sei de mim é que ela, sempre. Mas, camarada, sabe ser discreta quando necessário)

Mas, dizia eu, a libido, ali, pedindo, exigindo, implicando, incomodando. E o tinder disponível para o mundo todo. Aqueles moços de sempre tudo no alvoroço, também eles quarentenados. E, quem sabe, aquele moço que nem era opção pois vivendo no reino tão, tão distante, mas, agora, não importa se no quarteirão vizinho ou lá no extremo de outro país, a impossibilidade da presença física é a mesma. Todos se tornam possibilidade. No primeiro momento isso me parece vantagem já que sou boa de papo (não procurem modéstia aqui, não trabalhamos) e, pensei, papo é basicamente o que se pode ter quando ado, ado, ado, cada um no seu quadrado.

Rá. Bobinha. Porque as pessoas querem ver, né. E eu não vou lembrar (nem vou procurar agora, pois meia noite e meia) se é Darian Leader no seu Por que as mulheres escrevem mais cartas do que enviam? ou é Franceso Alberoni n’ O Erotismo, mas um deles fala de uma posição erótica masculina ligada à visão e uma posição erótica feminina mais tátil (posição masculina ou feminina não entendida como determinante e exclusivamente vinculado a homem e mulher). O lance é que chega a hora de dar um oi ao vivo ou mandar uma fotinha do que-você-está-fazendo-neste-instante. E e nem estou falando de quem vai além no jogo de sedução, estou tratando só do básico da conexão mesmo. As pessoas querem ver e ser vistas.

É neste momento que eu lembro que eu assistia America’s Next Top Model sempre muito impressionada não com a aparência das pessoas, não com o mundo da moda, não com a competição, mas com o conhecimento e o domínio que as e os modelos tinham do seu próprio corpo e de como ele (corpo) se apresenta ao mundo. Algo que eu nunca, nunquinha, tive. Talvez me atrapalhe o fato de que, na vida, eu nunca liguei para espelhos. Já passei mais de um ano sem nenhum espelho na casa, nem daqueles pequeninos, do banheiro. Não faço idéia de como meu rosto fica quando estou com raiva ou triste ou enigmática ou whatever. Sei que fico de boca aberta quando estou absorta, talvez por causa dos problemas respiratórios da infância/adolescência. Controle corporal, então, nem pensar, eu tenho que raciocinar pra lembrar direita/esquerda. Daí eu realmente me impressiono com a forma como elas modificam as expressões no rosto, posam com o corpo todo, controlando mão e joelho e cotovelo e anca e tal.

Eu e meu corpo temos uma relação bem boa. Gosto dele, aprecio e respeito como ele é, ele me retribui com prazer e tal e coisa. Acho vantagem. Sou razoavelmente bem informada e, principalmente, eu o sinto. Sinto como ele sente, sinto quando ele sente, sinto o que ele sente. Sinto. Mas, né, não faço idéia de qual meu melhor ângulo (embora saiba que tenho um, como dá pra notar nas fotos, só nunca me lembro de pensar qual é e se penso, não lembro), não sei como aproximar a câmera ou mantê-la afastada, não sei como evitar tirar uma foto ótima e perceber que a toalha aparece estendida no corrimão da escada, não sei se é de baixo pra cima, de cima pra baixo, da esquerda pra direita, de cá pra lá ou vice e versa. Não sei porque parece que tenho 32 rostos diferentes, desde um do queixo mais comprido que de um cavalo de raça até outro redondidnho que nem bolacha Maria. Não sei manter-me na frente da câmera enquanto falo sem mexer braços e pescoço e levantar e sentar e nunca parar. Esqueço de olhar pra o buraquinho da câmera e não pra tela do celular ou notebook. São tantos detalhes. Pra que lado virar o rosto pra pegar a luz? Como posicionar o tronco pra dar aquela valorizada no decote? Onde colocar o celular pra tirar selfie sem parecer que seu braço tem o dobro do comprimento do seu corpo ou a metade do que seria razoável? E, pelamor, como assim procurar a luz?

Zélia Salgado | Enciclopédia Itaú Cultural
Mulher no Espelho – Zélia Salgado

Quando o mundo era outro, aquele que costumávamos chamar de “normal”, isso não era questão, eu ligava a câmera de qualquer jeito, mandava um oi e daqui um tempinho tava no boteco ao vivo e a cores, com meu corpo desastrado do jeitinho dele, mãos pra todo lado, cheiro, textura, voz, meu corpo e o apelo que ele tivesse. Mas, no mundo que é este,  não há futuros envolvidos. Não tem encontro, boteco, passeio, viagem, não tem falar baixinho no ouvido, não tem mão se esbarrando, joelho se encostando, não tem um copo de cerveja pros dois, não tem o apenas um corpo agindo no mundo.

O que uma histérica quer é ser querida (uma, ressalto, não “a histérica”, uma a uma é assim que se conta, que a gente se dá conta, sendo esta uma, quem se enuncia) e a pressão da libido fungando no cangote, olha, quem tem seu mozão juntinho no isolamento, aproveita, sério mesmo, porque não está sendo fáceo.

L’appel du vide

Canção da Despedida é das coisas bonitas que a gente aprende com Geraldo Azevedo na voz da Elba. Quando eu era novinha, cantava assim: “amor, não chora, que a hora é de beijar”. Talvez eu soubesse coisas sobre mim que ainda eram só promessa. Talvez eu tenha me inventado aí.

Status: um pouco Scarlett.

Você está na posição exata de um ladrão que foi pego em flagrante e não se arrepende de ter roubado, mas está terrivelmente arrependido porque vai para a cadeia” – Reth não amaciava, não é mesmo?

Se fosse hoje, a roupa da cama trocada, a pose ensaiada, a casa arrumada. Se fosse hoje, a alma tranquila, a sede contida, a palavra escolhida. Se fosse hoje, sabendo pedir, sabendo ceder, sabendo querer. Se fosse hoje, o ontem.

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Como é mesmo o negócio? Quando a gente olha muito tempo pro abismo, ele retribui o olhar. E anexa um convite. Tem essa vontade, infantil?, de ocupar os vazios, de completar o que falta, de tampar a panela, vedar as brechas. Vertigem. É um risco, mas a gente balança. Tá lá o abismo, tá aqui a gente, entre nós o laço do olho que é olhado. Tênue equilíbrio.  Quem pisca primeiro? O vácuo convoca. Entregar-me de olhos abertos ou fechar o olho, recusar o apelo, um passo atrás e o suspiro?

Talvez um pouco arrependida de ser eu demais.

É tão estranho sentir uma tristeza outra, uma tristeza egoísta, mesquinha, particular, embaraçada, íntima. Uma tristeza pessoal como bater o dedão no pé da mesa, ninguém pra culpar, a impossibilidade de partilhar, quando foi que eu fiquei tão sozinha assim?

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Em outra editoria, a angústia nossa de cada dia.

Morreu Sergio Sant’Anna. Meu céu mais e mais escuro.

Dia das Mães e a impossibilidade de falar de felicidade. De falar, de desejar, de sentir felicidade.

E aquela raiva de todo dia, o dia todo. Quando eu era criança ou pré-adolescente, não lembro ao certo, passava aquele seriado do Hulk. Eu me comovia sempre quando ia terminando o episódio e ele seguia, sozinho, em estradas dolorosamente desertas. Intuía que o viver tinha uma sombra que era exatamente isso: estamos sós. Nunca pensei que um dia me identificaria com Bruce Banner e seu segredo. Eu agora também estou com raiva o tempo todo.

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À moda de Lafayette

(leia cantarolando Fracasso)

um abraço pra Maria Angélica,
que acreditou em mim, tadinha

Eu não faço bolos. Eu nem como tanto bolo, não acerto, nunca tem tudo que precisa, antigamente tinha aquele lance de bater claras em neve, não tenho batedeira, etc. Eu não faço bolo.

Mas minha sobrinha de 8 anos fez um bolo lindo. 8 anos, eu disse. Um bolo super simples, disseram: 3 ingredientes. Opa, 3 ingredientes é capaz de rolar. E, né, hoje é aniversário do meu filho, estou longe, fazer bolo tem um efeito simbólico que me consola um pouco. Pois bora.

3 ovos, duas xícaras de leite em pó,uma colher de fermento. Simples, né? E uma sorte, eu nunca tenho leite em pó, mas comprei um saco pra fazer pão, sobrou quase todo. Pois fiz, bati os ovos, misturei o leite em pó, coloquei o fermento… Aí eu pensei:

uma pitadinha de sal, claro, tudo que é doce pede sal. Daí lembrei que estou sem sal comum em casa (sempre falta alguma coisa, eu disse), coloquei uma pitada de sal grosso, talvez não tão inha assim. E como uma coisa puxa outra, lembrei que tinha coco ralado na geladeira. Vai uma colherzinha? vai sim. Não coloquei muito, pois não sabia o efeito na massa. Quando fui guardar o resto do coco na geladeira vi o queijo. Porque ralá-lo, porque não ralá-lo… ralei-o-ô. Mais uma colheradinha na tigela.

Tão contando os ingredientes? De três pulamos pra seis. Hora de colocar no fornOPA tem que untar a forma, aí me toquei que também acabou a manteiga, untei com azeite.

Uns quinze minutos de forno e ficaram LINDOS. Lindos mesmo, fofinhos, convidativos, cheirosos… eu podia parar o relato aqui, vocês nunca saberiam a verdade: ficaram uma delícia porém salgados. Quando pega uma lasquinha do coco engana mais ou menos. Mas tá salgado.

Modus que se algum outro dia eu for incursionar por estas paragens (que não vai ser tão cedo pois acabou o leite em pó também), ou sal ou queijo, luciana.

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De perto, ninguém é

Se você entrasse na minha casa, agora, ia perceber, já na entrada, em cima do aparador, um frasco de álcool gel. Esticando a vista, olhando em frente, em cima da mesa da cozinha, três ou quatro pacotes de farinha de trigo, um de feijão, milho, massa de lasanha, pacote de papel toalha, um vidro de azeite e mais um monte de outras coisas, como se alguém tivesse acabado de chegar do supermercado e estivesse desfazendo os pacotes. No chão do escritório, sacolas com outras compras “de castigo”, antes de serem higienizadas para serem utilizadas.

Um balde de roupa suja fica do lado da porta da cozinha, pelo lado de fora, quando termino de higienizar qualquer coisa, me dispo ali mesmo antes de entrar em casa, pelada. Há um par de chinela também ao lado da porta, ela é usada só do “lado de lá” e tem a outra pra usar do lado de cá.

Se eu pedi as compras na quinta passada (e elas chegarão só daqui a uma semana) e nesse ínterim percebo que esqueci algo como fio dental ou creme de leite, paciência, são cerca de três semanas antes de pedir qualquer coisa de novo. Eu podia pedir o fio dental na farmácia, claro, ou já fazer nova encomenda ao mercadinho. Podia pedir comida diferente, quando enjoo do meu tempero, pelo ifood. Podia guardar as compras todas nos potes e prateleiras da cozinha, podia arrumar a sala. Podia encomendar pão.

Moro só, seria razoavelmente confiável me proteger nestas interações, máscara, álcool gel e afins. Podia deixar minha casa arrumadinha, “aproveitar o tempo”, guardar tudo nos seus potes e prateleiras. Se se tratasse só de mim. Se não pedir coisas o tempo todo pela internet tivesse relação com mais ou menos conforto e não com diminuir a circulação das pessoas.

Podia manter uma rotina, como vejo tanta gente recomendando por aí. Mas eu não consigo. Porque o que estamos vivendo, e apesar das facilidades da minha posição eu não esqueço que também estou vivendo isso (com as especificidades que meu conforto e privilégios oferecem), é uma situação excepcional. Uma situação dolorosa, que altera planos, projetos, costumes. Uma situação invulgar que deixa tudo fora do lugar (embora, tal como n’ O Leopoardo, com alguns elementos estanques, como os efeitos devastadores da desigualdade social).

Quando eu percebi que não estava deixando as coisas com cara de normal, comum – veja bem, não é que a casa esteja arrumada ou bagunçada, ela só não está com a cara do “de sempre” – me perguntei por quê. Se, sei lá, estava mantendo tudo desse jeito para que me lembrasse de como está o “lá fora”, ou estava sentindo culpa e me punindo por poder me proteger e cuidar quando tantos não podem? Passou um bocado de coisa pela minha cabeça, inclusive que podia ser só preguiça, né. Acabei por achar que é sintoma, mesmo, na sua extensão de sentido, algo que manifesta outra coisa, que alerta, um sinal, um traço, um indício. Não é um para, é um por quê. O meu porquê.

Estamos em uma situação excepcional, invulgar, dolorosa, sim, sim, sim, mas, principalmente, preciso acreditar que é uma situação transitória. As sacolas no chão do escritório, as compras sobre a mesa e todos os outros elementos que evidenciam a quebra da rotina são sintoma dessa esperança (que às vezes sinto desaparecer e fico oca) de que isto que vivemos (ou que morremos) é provisório.

Leio bastante que “este é um momento de incerteza”. Não consigo entender assim. Não consigo vivê-lo assim. A vida, regularmente, é incerta. O imprevisto, o inusitado, o acaso, são sempre presentes quando a vida corre solta. Eu cresci ouvindo que a “única certeza é a morte”. Sinto que este não é um tempo de incerteza, de acaso, de inesperado, é um tempo de morte. Espero que seja um intervalo.

Porque sendo provisório o que vivemos agora – e apenas se – você nunca verá esta casa assim, como está agora que escrevo este post. Verá objetos insólitos sobre o aparador? Sim. Haverá coisas em cima da mesa da cozinha e espalhadas pelo chão do escritório? Provavelmente. Esbarrará em mim andando nua pela casa? Não há dúvida. Mas não será uma casa em suspenso, distante de si mesma, de mim, uma casa bunker.

Então eu desejo isso: que você veja minha casa como nós somos.  Parece simples, mas é imenso, você estará aqui, eu estarei aqui, a ameaça e o medo, não.

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