Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

“Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”

Chegou 2022 com alguns aperreios inesperados. Cheguei nele com a decisão de ficar bem. De remover muros, cercas e sei lá mais quantas camadas de proteção que eu sei que uso, que nem o menino enrolado em plástico bolha do Pequeno Grande Time. Bora lá, mergulhar de cabeça, correndo o risco de partir uns ossos. Ou o coração.

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Desde que voltei pra casa eu não fiquei triste, triste de verdade. Nem alegre. Nem calma. Nem nada que se costuma usar pra definir um estado. Meio oca, talvez. Tirei uma foto do meu lindo óculos. E faço de conta que não quero saber se alguém viu. Tenho intenção de passar uns dias deixando o mar lavar a ferida. E bebendo mimosas. E caipirinhas. E cervejas. E alguma água de coco. Se ele soubesse – mas ele não vai – talvez ele pensasse: se eu vivesse com essa mulher, eu seria um alcóolatra. Digo eu: melhor que ser um adicto da infelicidade (perdoem, estou decompondo a amargura, espero em breve ter outros sabores). Minha pia está limpa, minhas roupas estão lavadas, o chão está aspirado. Ok, a cama está bagunçada e tenho livros demais dentro do quarto, mas, espiando rápido, 2022 já começa melhor do que terminei 2021. Eu não curto chá (ou infusão, como a Fal e o Fabi preferirem), mas tomei banho de camomila. E fiz uma pequena prece – para os deuses gregos, que são os únicos que conheço pelo nome e tal. Comi pizza ontem, comi pizza hoje. Com café. Doei coisas, ganhei uma churrasqueira de fogão, além de um batom nude e água micelar – tive que pesquisar pra descobrir o que é. Vi muitos episódios de queer eye sobre pessoas incríveis que trabalham muito pra fazer o mundo melhor. Fiz isto enrodilhada na minha preguiça. Foi confortador passar o ano só e confirmar que sou desnecessária. Estou lendo um conto com uma personagem se chama Glosspan. Nem precisa muito mais do que isso pra ser bom, não é? Preciso de uma luz mais forte no meu quarto. De um colchão novo. Ir ao dentista. De menos danos. Melhores planos.

Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”.  A frase do Maradona é a epígrafe de um filme. Gosto de pensar que funciona, também, como síntese das minhas ações em relação a, bom, essa coisa toda.

Eu nunca fui especialmente ligada em super heróis embora tenha lido muita, muita mesmo, revistinha na infância/adolescência. Essa ênfase na quantidade vinha mais pela facilidade de encontrar este tipo de coisa pra ler do que por uma preferência temática. Entretanto, em tempos recentes, a Marvel tem me oferecido um consolo parecido com aquele que advém dos romances policiais, especialmente dos livros da Agatha Christie. Eles me confortam. Colocam meu mundo no lugar, mesmo que temporariamente. Dificilmente eu poderia eleger meu Vingador preferido. Mas, ao longo do tempo, fui reconhecendo minha afinidade com um tipo de personagem: o mais humano – e, humano, aqui, simbolizando potencial para enfiar o pé na jaca. Na longa lista brilham Derfel, Boromir, Rollo e afins. É nessa tradição que se apresenta meu xodó pelo Gavião Arqueiro. O herói de mau humor. Que sai todo roxo dos embates. Que faz o que é certo porque, bom, é o certo. O que tem uma melhor amiga. Que se envolve. Que vê longe e escuta mal. Que brinca com os filhos, tem piada cúmplice com a companheira, que passa vergonha em público. Nesse 2022 só quero voltar a ser eu mesma, sem nenhuma pretensão de super poder, pendurada nos prédios por um nadinha, fazendo o que é certo porque é certo e, evntualmente, o pé todo atochado na jaca.

Das coisas que você precisa ouvir, mas eu nunca, nunca vou te dizer: você toma péssimas decisões.

Antes de conhecer você eu não tinha razões para viver. Mais, eu não tinha razões para morrer. Você me deu os dois.” Se eu fosse uma das criadoras do álbum, colocaria assim: “amar é”… ver sinais onde existem apenas coincidências e diálogos fracos. Estou assistindo A Roda do Tempo. A série é bem qualquer coisa, há desvios demais da história dos livros pro meu gosto, mas – tal como os personagens todos – estou envolvida com Moiraine e disposta a segui-la, mesmo me sentindo incomodada quase sempre.

Segunda temporada de Emily em Paris: um conflito besta que se estende em um segredo sem pé nem cabeça. Mas o personagem Luc cresceu bem e me diverte.

Andei vendo: Tick, Tick…Boom!; A Filha Perdida; Meu ano em Nova Iorque; Não Olhei Para Cima, A Mão de Deus. #aquecimentoparaoOscar

Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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Um amor chamado Boromir

Deixa a minha boca morar na sua boca
Deixa o meu sexo morar no seu
Deixa a minha mão morar nas suas pernas
E o meu quadril anexo ao seu

Euforia
Euforia
Eu faria
Tudo por você

No envelope: chá, cartão, cartinha de baralho. E palavras, muitas palavras. Na caneca, café. No peito, corredores vazios. A roupa de cama tem cinza e verde. Na mala, sapatos vermelhos. Livros que não li. Mensagens que não respondi. Redes que não frequentei. Mais boletos que dinheiros. Uma lista no spotify. Um artigo revisado. No vaso, florzinhas vermelhas. Várias renúncias. Uma hora inteira resumindo faroestes pro analista. Ele riu. Eu chorei. Você, você eu não sei. Não quero ser amada, quero ser entendida. Ele riu, eu ri também. Você, você eu inventei.

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Eu lembrava que gosto muito d’A Sociedade do Anel, mas eu tinha esquecido como o filme é gloriosamente bonito. Que uso primoroso da luz. E é admirável como os roteiristas conseguiram cortar vários eventos presentes nos livros sem perder a essência da narrativa. É um filme de afetos. De gente que não tem vergonha, nem de chorar nem de abraçar. Revi lembrando Meredith e Cristina. Elas caberiam direitinho entre os personagens. Em se tratando deles, aliás, ressalto que gosto demais do Boromir. Boromir é o personagem que vacila. Aquele personagem que enfia o pé na jaca com tanto gosto, que flerta com a desonra, que protagoniza tantos furos na virtude que se poderia pensar que existe só para servir de contraponto ao fodão. Mas não é (só) isso. Ele é tão, tão humano. Tão fraco, tão suscetível ao erro, tão vulnerável. É isso que mais amo: a vulnerabilidade. Porque é da sua imensa, enorme fraqueza, que ele se faz forte. É ele quem brinca com os hobbits, ele que se comove com a dor dos pequenos quando perdem o mago, ele que carrega uma culpa imensa por não ser capaz de proteger todo um povo, ele que cobiça, ele que se arrepende, ele que se inspira. Ele que se entrega. Ele é daqueles que, uma hora ou outra, sucumbem. Que eles caem, caem, mas que seja em cima de mim. Os mais humanos e, por isso, meus preferidos. Ele não sabe os caminhos, ele só sabe a chegada e, nisso, se perde. A morte de Boromir é tocante demais. Redimindo-se. E é tão simbólico que ele não cai no confronto direto. É preciso a covardia e a distância para atingi-lo. E uma imensa crueldade. 

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As pessoas saem com inquietações da sessão de análise, eu saio com dicas de faroestes.

Sim, carrego arrependimentos. Poucos e leves.
Como ter usado minha melhor dedicatória no livro que te dei.

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Cinema é um negócio mágico quando bem feito. Em poucos minutos, com as cores, o riso, as conversas, a gente entende porque Frodo – confrontado com a iminência do Condado ser invadido, resolve partir, proteger seu lugar e seu povo. Antes do bom e conhecido “salvar o mundo”, cuidar do que é alegre e bom. E não em um sentido mítico e expurgado de paraíso, entre os hobbits há fofoca, intriga, picuinha, maledicência, gula, alguma preguiça, etc. Ainda assim – ou por causa disso tudo – é um tempo/espaço precioso. 

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Hoje me perguntaram: se eu caio enferma, quem será meu escudo e minha espada? 

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Tem uma hora que Frodo diz a Gandalf que gostaria que o anel nunca tivesse chegado a ele, Frodo. Que preferia que nada do que lhe ocorreu tivesse acontecido. E Gandalf responde, com a genialidade do óbvio (não estou sendo irônica): assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Temos de decidir apenas o que fazer com o tempo que nos é dado. Eu gostei dessa frase quando vi o filme a primeira vez e em todas as vezes subsequentes. Acontece que eu não tinha revisto ainda depois de 2015. Venho repetindo, como Frodo, que preferia outro mundo, outra vida, outros eventos. Porque que tempos de horror. Mas preciso encontrar o eco da frase de Gandalf, em mim.

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Um dos segredos da felicidade, ouvi dizer, é compreender a nossa relevância no mundo.
Acrescentei por minha conta: e rir disso. 

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Está confirmado, haverá um amanhã.

Revisitando

Abrir portas, aguar plantas, acender fogo. Onde o sol entra a doença sai, diziam as avós ou dizem que elas diziam. Água, pó de café, coador. Goma, peneira, frigideira. Manteiga da terra – que adeptos de uma língua que me é quase estrangeira chamam “de garrafa”. Arrumar a mesa com a toalha estampada com versinhos advindos dos lenços dos namorados – sentir saudades de Portugal, colocar fados para tocar no celular, prosear com mãe e pai, cozinhar milho, responder e-mails irritantes, responder e-mails importantes, corrigir trabalhos, cozinhar batatas, limpar o peixe, temperar o peixe, rechear o peixe, assar o peixe, alimentar duas casas. Comprar passagens, suspirar, lavar louças, mandar mensagens, preparar slides, arrumar o kindle do pai, tirar tudo da cristaleira, arrastar móveis, organizar taças, aparelho de jantar da avó, coleção de canecas, trocar as mantas do divã e sofá, já é de novo cozinha, carne de sol, arroz de leite, casa da irmã, voltar correndo pra aula, esperar alunos, fazer o melhor possível sempre, sentir o corpo pedir repouso, espiar o céu, respirar fundo, fazer silêncio bem dentro, deixar o vento balançar cabelo e saia do vestido, fechar portas – deixando uma brechinha nas persianas. Já é quase um amanhã.

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Tá lá no Vinícius: é impossível ser feliz sozinho. E eu sempre entendi mais ou menos como: precisamos do Outro para a felicidade, somos seres de incompletude, há sempre o vazio do objeto perdido enquanto perdido e por aí vai. Hoje, sustentando a compreensão inicial, mas emprestando-lhe uma outra camada, percebi que há certas felicidades que precisam ser contadas, esmiuçadas, compartilhadas letra a letra. Guardadas só em mim tiram meu prumo, me engasgam, aceleram meu coração no peito chega faz aquele barulhinho de carro de F1 na curva. Zuuummmm. Foi um pouco melancólico (não fosse eu uma peixinha) perceber que não havia ninguém para ouvir essa felicidade, ou melhor, ninguém que a ouvisse e a entendesse – como já houve. Ninguém que risse e suspirasse e o olho brilhasse. Tenho mais e – se o termo pudesse ser empregado nessa situação – melhores amigos do que já tive. Mas no envelhecimento nosso ficou no caminho aquela amiguinha do telefonema longo depois das 22hs, a da conversa no banco na calçada, aquela de quem eu guardei correspondência e pra quem revisei e até escrevi cartas que ela remeteria a seus paqueras, a amiga pra quem eu narraria meu sorriso e pra quem contaria detalhes insignificantes como se importassem – e ela realmente se importaria. Não quero soar errado, então esclareço mais um pouquinho: tenho muitos amigos e eles – sem exceção – se alegram com qualquer minha alegria. Com todas felicidades que eu sinta. Mas ficariam contentes e animados porque eu estou contente e animada – não pela coisa em si. O lance é que não tem outro alguém tão bobo/a quanto eu. Não que isso tenha me inibido, chamei uma e pedi: tenha paciência. E ela teve e me acolheu e achou bonito que eu ficasse feliz.

A morte e outras rotinas

“No centro da sala, diante da mesa,
no fundo do prato, comida e tristeza”

Eu lembro sempre de um episódio de Grey’s em que a voz em off comenta que a gente nunca sabe que o maior dia da nossa vida vai ser o maior dia da nossa vida, que os dias que a gente espera que sejam especiais acabam nunca sendo exatamente o que se esperava deles. São os dias comuns, os que começam normais e sem expectativas, estes são os dias que terminam por ser os maiores dias. No episódio, excepcionalmente para esta série, eles estão falando dos grandes dias que são, também, os felizes. Mas eu acho que a lógica se mantém para todos os outros tipos de dias excepcionais. Como o dia em que você morre quando morre alguma coisa em você que lhe é tão própria, que você se acostumou a pensar naquilo como sendo você mesma. Alguma coisa. Um amor. Foi bem assim – e hoje eu posso sentar na cadeira de balanço e embalar a memória daquele dia – o dia em que eu morri. Não acordei antes nem depois do horário comum. Banho, escova de dente, de cabelo, nenhum sinal. Até aulinha de hidro eu fiz. Não almocei, mas também isso era comum naqueles dias. Em algum momento da tarde, suco de laranja. Trabalhos corrigidos. Notas lançadas. Pedido na feirinha. Emails respondidos. O sol que subiu, descia. Tudo como mandava o figurino. E aí, então, eu morri. Entre um silêncio e um emoji. Bom, não exatamente eu. O amor. Ou a crença que o insuflava. Uma brincadeira com dominós. Morreu aquele algo que sustentava o amor que me fazia existir. Tão bonitinha, ela. Pois é, morreu. Morrer dói, é a informação que eu trago aqui (como diria o moço do choque de cultura). Foi no meio da dor que eu percebi que aquele era um dos grandes dias da vida, do tipo que se falava em Grey’s. Depois de morrer continuei fazendo o que tinha que fazer. Orientei alunos, vi tv, fiz sopa, comi a sopa. Li, escrevi. Dormi. Acordei. Morta. Mortinha. Foi interessante – e um tanto perturbador – daí pra frente, imaginar quantos outros mortos haveria vivendo no mundo. Talvez alguns deles até assistam grey’s anatomy, como eu.

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 Se eu tivesse vergonha na cara, não postaria essa Bacall hoje

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Cá dentro, eu sei: gosto, de uma forma terna e dolorida, que não cheguemos nunca a nos encontrar, mesmo com toda essa fome que tivemos um pelo outro. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, tantos futuros se dissolvendo. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, eu repito, agora em voz alta, e a minha mão te procura e o mundo me chega morno e salgado.

Não há você, mas eu lembro a história. A do primeiro bichinho de estimação: um porquinho da índia que um dia, tão velho, tão velho, sumiu. E quem não quis acreditar quando uma mãe ofereceu abraço e mentiras e disse: ele fugiu? Eu, eu também quis acreditar na fuga do porquinho.

Hoje, sem mãe, sem abraço, sem você, me sobra a mentira: o porquinho fugiu.

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A conversa que Phoebe tem com os embriões é meio o que eu queria dizer pra alguns moços: estou aqui pra fazê-los se sentir bem e quentinhos por um tempo, depois vocês serão devidamente entregues e tal. E, claro, quando nos virmos, se eu estiver gritando, não se assustem, é assim mesmo.

Obviamente essa é uma mensagem na garrafa que nunca chegou à sua praia.

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Além disso, Mathilde é uma otimista.
 Tem para si que, se aquele fio não a levar ao seu amante,
paciência, não importa, ela ainda pode se enforcar com ele.

Depois de morrer, fui ver um filme. Rever, a bem da verdade. Um Longo Domingo de Noivado. A esperança, essa droga perigosa. O esquecimento. Os horrores da guerra. O horror, talvez mais duro, da incerteza cotidiana. As imensas tragédias. As pequenas perdas. A cena do farol, que justifica todo o amor, toda a espera, todos os amores que você e eu vamos sentir ou já sentimos, todas as lágrimas que choramos, todos os sonhos que cultivamos. O cinema me ajuda a pôr a vida em perspectiva. Me faz lembrar que, fora os filmes, é isso mesmo: um dia e outro e outro e outro e, se puder, um pouco de alegria. Enfim, para além de Pollyana, me descobrir Mathilde. Seguro, firme, o fio. E sigo otimista.

Chico César, Eco, Camille, Fal, o moço da Polishop e um texto com soluço

para viver em estado de poesia, me entranharia nesses sertões de você“. era essa a coragem que eu esperava. a única disposição. a vontade. nenhuma promessa mais. não almejo amanhãs, os hojes me bastam. tu se engraçou, eu correspondi. mas não se engane que o pouco não é um nada. eu não me furtei, mas tu não me arrecebeu. em certo momento, quanto menos você aí, mais você em mim. crescendo, crescendo, crescendo. desejo, saudade, anseio. mas você cresceu tanto que já não há mais espaço. eu bem que tentei, botei pra fora outros sentimentos, planos, belezas, lembranças e você cada vez maior em mim, ocupando cada brecha, até começar a transbordar. e agora eu choro você, suo você, cuspo você, você sai de mim de todos e tantos jeitos. eu tento vedar as rachaduras porque eu amei tanto te amar e tenho tanto medo de ficar oca sem você e sem mim cá dentro. oca sem sequer a dor de te querer me acompanhando nos dias e me assombrando as noites. medo de murchar e encolher e desaparecer e me perder e me esquecer e me desencontrar. e emudecer. é do que tenho mais medo. de não conseguir dizer nada mais, se eu nunca disser que te amo.

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Umberto Eco é um autor muito inquietante. Você olha sua estante e pensa que tem o bastante da obra dele. Aí de repente você descobre – ou alguém descobre e mostra pra você – um texto que lhe é desconhecido e você percebe que precisa ter. Imediatamente. E não é só isso (como diria o moço da Polishop), você também sente que tem que distribuir o tal livro para algumas pessoas queridas. Cartas, livros e vasinhos com flores na varanda, sei não, talvez a infinitena tenha aberto uma fenda no espaço-tempo e eu tenha me mudado para uma década qualquer em outro século. Afinal eu coro quando vejo aquela letra no envelope. Uma coisa desconcertante é encontrar uma frase que fez belezas em sua vida presente na narrativa de mudança de vida de outra pessoa: “você só precisa pagar a passagem”. Procuro sentimentos futuros nas entrelinhas. Releio para passar mais tempo ao lado da pessoa sombra que mal vislumbro. Seguro o facho. Preencho páginas com a letra esparramada, ansiosa por ser despachada. E por uma ou duas horas eu não sou sua. Eu não me ressinto da ausência, não preencho o silêncio com lágrimas, não definho. Definhar é uma palavra estranha. Só de pensar nela já me sinto um pouco debilitada. Passam os dias pra mim – ou eu por eles – e sinto que estou perdendo alguma coisa. Eu mesma. É como se a tristeza me consumisse lentamente de dentro pra fora. Não mais aquela angústia ou desespero sustentados pela esperança de um “nós”, em uma irônica contradição vou sendo esvaziada ao ser preenchida por uma resignada aceitação de que o horizonte encantador era um cenário pintado. E lamento. Fico triste de marré descer. Eu sei que você gosta de mim, os astros, os búzios, as cartas e suas próprias palavras dizem isso. Talvez fosse melhor se você não gostasse. Seria mais fácil soltar as amarras, deixar o barco deslizar suavemente embalado pelas águas do esquecimento e seguir para um além de outros afetos. Mas fico e o lodo se entranha entre as tábuas do casco, encaixes enferrujam, as velas mofam, dobradas e úmidas, todo o estoque de rum acabou. Onde está o bom e velho “ele só quer te comer” no lugar dessa sintonia assustadora que parece querer ameaçar mundos? Quem quer casar com dona baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha, é carinhosa e não faz doce mas pode rolar um torresmo ou um peixinho? Claro, onde se lê casar é pra trocar por dar uns quebras, ficar, chegar mais. Alguém além de mim ainda fala dar uns quebras? Talvez não. Mais ainda se fala de outra das minhas frases preferidas. Foi a Fal falou citou hoje, no diarinho: Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente. Sentir a ausência de algo que nem se sabe o que é. É Camille e é, pra mim, a leitura sentida de Caio dessa ideia de Camille. É o filme, é meu passeio solitário pelos jardins do Museu Rodin. São corpos dolorosamente enlaçados. Doloroso como ler um texto como esse, que entalou.

Pra que essa boca tão grande?

Enfiar o pé na jaca: uma arte que domino (ou me domina, ainda estamos negociando essa definição). Vai devagar, luciana. Deixa pra lá, luciana. Paciência, luciana. Escreve pouco, luciana. E eu de lobo, olhos enormes, braços enormes, nariz enorme, boca enorme. Fome enorme. Ir com muita sede ao pote, dizia minha vó. A sede parece não ter fim e demasiado ímpeto consegue, no máximo, partir o pote em pedaços como se um coração fosse. E era, talvez. O meu, o seu. O de alguém, já que eu piso em cacos e na palma do meu pé se misturam novas e antigas cicatrizes enquanto decoro o piso com desenhos de sangue. Percebe, Ivair, a rapidez com que mergulho no melodrama? Ela declara, de vez em quando, que moraria em um sótão com o você dela. Eu digo que moraria em madrugadas com você. Lindas e inúteis disposições, as nossas.  Queria acender um sol no seu peito. Sabe, Pavlov teria alguma dificuldade para explicar: todas as notificações do aplicativo, no celular, tocam igualzinho. Ainda assim, eu me ponho alerta quando é a sua. Adivinho. Sensível. Treinada. O coração dá um salto quando eu olho na caixinha de correspondência e tem cartinha. É engraçado que seja necessário tão pouco para me fazer feliz e você não se dê ao trabalho. Não, vou corrigir esta frase. Não é engraçado, nem mesmo no sentido que costumo usar essa palavra: engraçado como peculiar, estranho. Não é engraçado. É triste. Repito bem devagar, acenando a bandeira amarela diante do meu rosto: é triste que seja necessário tão pouco para me fazer feliz e você não se dê ao trabalho. Me perco no labirinto de meus afetos, vagando entre altas paredes de solidão enredada aos ciprestes. Uma das saídas será viver um romance de 1a guerra mundial? Trocar cartas, zero tecnologia e nenhuma palavra que evoque desejo, amor ou futuro porque pode ser que algum dos mundos acabe antes que seja possível conhecer a família e pedir em namoro? Ou a saída é mandar mensagens ambíguas para o outro moço, de vida arrumada e tantas coisas a equilibrar, mas que abre brecha pra rir comigo e, sim, se encontra nesse cais? Rir é melhor do que chorar, viver é melhor que sonhar, beijinho é melhor que brigadeiro. Keaton, Chaplin, Tati, você está vendo a melancolia atrás de todo riso? Acompanho as modalidades paraolímpicas com admiração, mas estou vendo rugby na cadeira de rodas só pra ver os choques e quedas. Então, por hoje, vou fazer hiato. Quase um sim. Se eu soubesse rezar: dai-me a coragem de não saber sobreviver. 

Ou vamos de Benett:

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Atropelamentos

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Se eu disser isso, se eu mandar de presente aquilo, se eu fizer de um jeito ou de outro, pode ser que a pessoa entenda errado. Pode ser mesmo. Já aconteceu muitas vezes, inclusive. Mas se eu não fizer isso ou aquilo, se não enviar o presente, se não disser o que quero, construiremos fina camada de gelo sobre o lago como relacionamento e, um dia, pisando mais pesado na travessia, me afogo congelada. Não me parece um futuro promissor. Isso dos afetos é a minha praia. Não entendo de muito mais que isso. Finjo que entendo, mas, por exemplo, não sei direito a diferença entre sopa e caldo. O que não entendo, invento. Arrumo as palavras, as ideias, os sentimentos de forma que construam um mundo pra mim. Um mundo meu. Olhando de perto, lembra seu rosto. A coisa mais difícil que fiz hoje foi não responder à sua mensagem. E, olha, não foi um dia fácil. Na outra caixinha, notícias alvissareiras. Vem aí, um evento. Tenho nem roupa pra isso. Com sorte, não precisarei delas. Luciana, qual o mantra da sua vida, o maior ensinamento, seu farol desde a infância? quem já viu não se admira, quem nunca viu não sabe o que é. A vida já foi e vai voltar a ser mais de boas é a ilusão que alimento pra não saber que viver é superestimado e, ainda assim, é como a democracia, a melhor opção, etc. Faço listas dos médicos que preciso visitar: dermatologista, dentista, oculista. Não sei se a vista borrada é problema ou lente do óculos que está suja. Gostaria de ver mais. Inclusive ver mais séries e filmes para conversar com as pessoas, mas chega o fim de semana e eu assisto futebol, futebol, futebol. Perto da meia noite do domingo entro no site da universidade para aprovar relatório de iniciação científica só para desviar a cabeça e não mandar mensagem para você. Que nem leu o Eco. Perdi o controle, talvez. Talvez? Rá. Meu cabelo está bonito, minha pele está macia, meu cangote está cheiroso. E ninguém por perto.

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Amalia Bautista, CORAÇÃO DESABITADO, selecção e tradução de Inês Dias, ed. Edições Averno

Eu tive um pequeno vislumbre quando estava lendo a autobiografia do WA, mas larguei o livro, desviei o rumo, fechei os olhos, fugi. Foi assistindo o especial do Chico na Netflix, que entendi. Entender é um termo delicado e elegante demais pro que aconteceu, na verdade. Fui atropelada pela compreensão. Não é que você seja a pessoa de quem eu mais gostei. Não somos a maior história de amor ou algo desta natureza. É que saber que você existe me faz me sentir só. Muito só. Muito, muito, muito só. Porque todos os outros moços podiam – e uns ainda podem – me tirar os pés do chão, roubar o ar, fazer a cabeça girar. Eles podem me fazer bem. Podem me inspirar, me emocionar, me comover. Podem me excitar. Mas eu nunca pensei que eles veriam isso ou aquilo tão perto do que eu vejo. Não sentiriam tão perto do que eu sinto. Perto, próximo, íntimo. Por dentro. Não igual, melhor até. Encostadinho. Poder ser assim e não ser dói de um jeito que eu nem sei explicar. Disse ela: ninguém pode ser o que você quer ou precisa que ele seja – e ela está certa. Certíssima. Mas pode ser pior: alguém pode ser o que você quer ou precisa (você sou sempre eu, quem nem quando escrevo a gente, a gente também sou eu) e mesmo assim não querer, não poder, não qualquer coisa que impede que ela esteja, mesmo sendo. Meu único consolo é que sempre que entendo um pouco mais desse sentimento, mais perto fico de me despedir do mesmo. Do amor só é possível fazer autópsia (nem lembro quem disse, mas alguém disse).

Izmália e outros sons

Deu um certo alívio o diarinho de segunda. Porque é um pouco espantoso ela sempre me adivinhar. Pois bem, ela ama casamentos, Eu também. Mas ela aprecia tudo nos casamentos e eu curto casamentos porque é um subgrupo de um amor maior: festas. Que ela não gosta tanto. Em comum, ela ama os casamentos por um dos motivos pelos quais eu gosto de festas: pessoas felizes. Não lembro o primeiro casamento que fui. Nem o último. Ou o mais bonito. Sei que o mais interessante certamente é o dos meus pais, minha mãe com um grande chapéu e pequena saia, atraso do noivo e o casal saindo de costas da igreja para o fotógrafo fazer fotos como se eles estivessem entrando porque não deu tempo no começo. Mas desse eu não lembro, só reinventei nas imagens. Lembro da carninha de caranguejo no casamento da Liana, das tranças maravilhosas no meu cabelo no casamento da Luana e que eu e ela quebramos todas as convenções e chocamos a sociedade, no casamento do Lucas, porque usamos vestidos da mesma cor (por total falta de opção na loja de roupas que não acertou fazer o meu vestido e só me avisou em cima da hora). Também eu tive casamento. Um e um plano. Nenhum dos dois acabou tendo uma grande festa, mas no primeiro eu mesma fiz o sermão no lugar do padre (#influente) e o cancelamento do segundo (faltando 16 dias) me rendeu uma bela viagem para a Itália com direito a um pulinho em Paris. Chorar no travesseiro é quentinho, mas passeando no umbigo do mundo é muito mais divertido. O que não é divertido? Perceber que você não tem nada pra me dizer, nem mesmo so long, farewell, auf Wiedersehen, adieu. E a delicadeza dos estranhos esfregando na minha cara que nem mesmo as promessas do auge foram cumpridas. Boba, boba, boba. Coloco a culpa nas estrelas, no isolamento, na Teresa Cristina. Como a piada: a culpa é minha, boto onde eu quiser. Lá no lá dela continua o frio, a luta está sob judice. Aqui nada continua, só se repete. Presa num infeliz dia da marmota. Inclusive no sentido cearense, não apenas a marmota do filme. A dor dela é no ouvido, a minha é no que não foi dito (#desculpem). Adorei o desenhinho animado – eu sou do tempo que fala desenho animado, não animação ou qualquer variação dessas. Um dos meus desenhos animados preferidos é A Pequena Sereia. Eu sei, gente, eu sei. Perder a voz. Eu faço análise, podem ficar tranquilos. Ela disse: live curtinha. Eu falei pelos cotovelos. Ainda bem que tenho sorte e as pessoas tem paciência comigo. A terça-feira começou com o mimo da Camila e eu até pensei algum alento. Bronze do Thiago, ouro da Ana Marcela, o nosso atleta que parece o Hulk do Vingadores Ultimato conseguindo a classificação pra final. Mas veio a tempestade, o dia foi doendo, doendo, doendo, de um jeito caprichado. No ritmo da Izmália: levar um soco, quase não dói; quebrar os dentes, não dói; ter que levantar, quase não dói. Quase.

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Fiz o possível: banho, comida quente e simples, lençol cheiroso.

E chorei, chorei, chorei toda a impossibilidade.

No eu te dedico, uma dedicatória no livro uma história social do morrer, para uma Luciana. Só isso mesmo.

Tem uma música meio breguinha, mas que eu adoro que diz: abre a porta e deixa entrar, essa paz que faz o amor imenso. É mesmo pelas frestas que um amor chega. Às vezes penso que não é a solidão o que nos define como humanos. É sabermos a solidão.

Esse é um blog de família. Provavelmente da Corleone.

Não poder não escrever também é uma coisa que me define, vocês sabem. Querer ser amada não apesar da falha, mas pela falha, é um desses abismos em que me jogo.

Ele segurou minha mão no recital e por todo caminho de volta pra casa (eu chamo de casa todo local que me hospedo, vejam vocês). E eu ficando tão miudinha que podia caber na palma de uma mão. E coube. E me deixei ficar porque às vezes eu canso de não caber em lugar nenhum.