Correspondentes

Orgulhosa de mim mesma e da coragem desprendida evocada, dei o que eu supus ser uma imensa patada. A pessoa achou que era um afago e me tratou com a displicência condescendente de sempre. Só me resta cantarolar: a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o livro é meu – porque um dia virá, sim, virá. Enquanto não vem, um convite gentil, um pequeno conto, uma boa aula, os Corleones, máscara com válvula, hidro, a correspondência. Abri o envelope e choveu dourados. Cartas há mais de um ano e você ainda consegue me surpreender. Alerta de correios e de sorrisos em mim, sorrisos que eu julguei perdidos. Ouvi uma musiquinha do Fito Paez. Tão doces os amores do passado que nos fizeram bem mesmo que não os entendêssemos como devíamos. Escuto os moços falarem de luxúria e me admira a segurança com que dão conselhos. Se eu fosse dos que dão conselhos diria: coloquem a macaxeira para cozinhar no cozido de carneiro. De preferência, tendo temperado a carne, também, com canela. E acrescentaria: depois que no prato estiverem carneiro, macaxeira e cuscuz, taca sem dó um monte de pimenta biquinho. Garanto uma boca em festa. Por falar em festas, ando precisando de um boteco. Em outra freguesia. Criei uma armadilha e me joguei nela. Eu era feliz e sabia. O que eu não sabia é que não seria feliz assim de novo. Os moços ainda estão no papo, infelizmente não dá para ignorar o moralismo dos conselhos. Sexo é um assunto complicado para se falar en passant – lembro-me de dar este desconto. Só me resta reler Ligações Perigosas e respirar por Merteuil. Eu não tinha medo de morrer. Agora eu tenho receio de não morrer. Ou de não saber que estou morrendo. Ainda estou decidindo. Li o diarinho da Fal e é óbvio que não devo assistir Uncoupled. Nem ler threads no twitter sobre obsessivos e histéricas. Este era o seu apelido correto: Olegário. Sôo ressentida? A dor é minha, o livro é meu. Comprei pasta de amendoim. Gastei dinheiro que não tenho. Não me senti melhor. Nem pior. Faz tempo que estou como o pintinho da piada: sentindo nada. Aí passa o efeito do analgésico e, claro, ninguém quer ler sobre isso. Fiz fotos com meus sapatos vermelhos. Não estou mais no Kansas, nem em Oz, nem mesmo em São Paulo. Mas encontrei um papel de carta muito fofo e etiquetas douradas em forma de estrela. Não estou fazendo planos pois não sei se estaremos juntos, eu e o futuro. Não sei quem ele vai encontrar, caso chegue. Provavelmente alguém que eu desconheço. Enfim, não estou fazendo planos, mas em algum canto bonito em mim, sonho encontros, vinho verde, pequenas palavras, imensos silêncios, muitos risos, talvez murmúrios, algum espanto, surpresas, conforto, a hora de ir embora sempre chegando antes do que devia. Preciso comprar envelopes.

Telescópio e outros aléns

Recebi a carta mais simples, despretensiosa e gentil. E, sim, o “com amor” me balançou um pouco. 

Status: entendendo melhor o conceito de migalhas. 

Eu poderia dizer que não tem sido fácil viver e qualquer um acompanharia o raciocínio. Mas não seria muito honesto. Nem posso garantir que estou tentando. Há coisas que não tenho nem terei coragem de fazer e todo o resto parece pálido diante desta constatação.

Westworld voltou e que morte horrível. Mas talvez seja eu.

Minha amiga perguntou se eu não preciso de ajuda. Tentei. A mulher disse que a vida tá dureza mesmo, respira fundo, come melhor, chora quando precisar e segue… quando estiver na ladeira, solta e vai na banguela. Não com essas palavras, claro.

A amiga autora me escreveu uma carta, aceitei o convite e estou comendo pão integral com grãos, ouvindo Salmaso e tentando não dar na vista que não ligo muito para fotos de salas e maçãs.

Vi uma enquete no twitter que perguntava no que você acredita? e as opções eram deus, natureza, universo e nada. Entre estas eu responderia nada, claro. Mas bem lá no fundo ainda acredito é na rapaziada. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá – apesar das evidências todas me atropelando. Hoje vimos as primeiras imagens do telescópio James Webb. O engenho humano sempre me encanta. Que alguém, que é gente, tenha pintado a capela sistina, tenha esculpido Davi, tenha feito cálculos para pôr foguetes em órbita, tenha descoberto vacinas e impresso estampas em tecido, tudo isso me comove e arrebata.

As coisas que você estragou pra mim

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.
(Paulo Mendes Campos)

Que pena que você foi embora, moço. Levou, que nem a Rita, um sorriso meu e tantos assuntos que ainda poderiam ser. Guardo, com carinho, os últimos besitos. Melhores que vinho.

É, para mim, cada dia mais difícil falar com as pessoas. Especialmente com as gentis. Com os gentis que são meus amigos, então, é quase impossível. Atenciosamente eles me perguntam: como vai? Como você está? E eu não posso responder. Não conheço as palavras. Me esquivo. Ontem eu tentei, porque ela, tão querida, perguntou. Eu disse – eu tô sem estar. Sinto que atravesso os dias como se todos fossem o mesmo e cada um fosse o vazio. Nem alegre nem triste nem poeta – mas eu disse não é exato, não é bem isso, embora seja o mais perto que consigo chegar da verdade quando tento colocar em palavras.

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Vem aí meu aniversário (falta menos de uma semana) e eu estou apavorada com a tristeza que vou sentir.

Em um Diarinho recente ela fez uma lista de coisas interessantes sobre a vida dela e disse que uma – só umazinha – era mentira. Foi tão bonito que eu nem soube comentar.

Quando eu digo que não conheço as palavras é uma meia verdade. Conheço algumas, mas elas tentam escapar. Hoje passei uns bons 50 segundos olhando pra escrivaninha, tentando lembrar este nome e só me vinha: maçaneta.

As coisas que você estragou pra mim (ou bem perto disso): Paulinho da Viola, Verissimo, escola de samba, madrugada, a sua cidade, vinho, bacalhau, amizade.

Status: hora extra.

É muito irritante quando eu digo, em análise, eu não sei tal coisa (sobre mim) e o analista emenda um sonoro: eu também não.

Tenho saudades do tempo em que eu não gostava de brócolis #classemédiasofre

A tua carta está em cima da escrivaninha esperando ser respondida. Não chegou hoje nem ontem. Nem mesmo anteontem. Chegou com um bonito e enorme gato no envelope, prometendo tanto. Que não veio. Que não estava no envelope, nas linhas nem nas entrelinhas nem nada. Bom, pelo menos eu não encontrei. Não respondi ainda. Não me animei. Não me inquietei. Não me inspirei. Não quis. Não quero. Estou cansando de você, provavelmente por suspeitar que logo você vá cansar de mim. Não é um movimento novo, embora ainda não tenha conseguido explicar direitinho, no divã, o fenômeno. Eu vou embora, mesmo que ainda pareça estar. E não consigo voltar. Depois podem ser os ridículos “dezesseis dias seguintes”, mas, quase sempre, nem isso.

A casa limpinha. Máscaras nas estantes, na mochila, na bolsa, nas gavetas. Esperando. O kindle e o reino dos livros inacabados. Rúcula com manga. Alho frito. O vermelho intenso da rosa do deserto. Decisões tomadas. Grandes, imensas. Renúncias presentes e futuras. Camisola lilás. A televisão recebendo um poltergaist. Suco de maracujá. Muito suco de maracujá. Reunião no sábado. Um bom filme velho. Um gol do Flamengo. Uma música triste. O café sem açúcar. O shampoo de café. E o condicionador de canela. A ponta do lápis de cor. Os passarinhos, as florzinhas, o ventinho frio de chuva. Aquele doer sem diminutivo.

De grão em grão

Eu nunca fui boa aluna, especialmente na escola da vida. Cada lugar pelo qual passei só me torna inquieta no que agora estou – e se para um deles voltasse, seria insatisfeita com o que, daqui, não se encontra lá; e se para um novo fosse, sentiria falta daqui e de todos os outros lá(re)s.

Greta Garbo belíssima em Grand Hotel. Gosto muito de histórias que usam boa desculpa para desfilar uma profusão de vidas que só se tocam pelo viés do acaso e que acabam se transformando no processo: trens, hotéis, excursões e acidentes.

Volta às aulas, exausta, rouca e contente com o interesse da turma nova.

Pensando em mudar de banco, mas que preguiça dos procedimentos burocráticos.

Café como os dias, cada vez mais amargos.

Todas as vezes que eu assisto “se meu apartamento falasse” e vejo Jack Lemmon – que é dito como bom cozinheiro no filme – lavando o macarrão cozido e depois soltando umas almôndegas secas em cima eu penso que talvez o conceito de boa comida seja mais relativo do que se imagina. Pelo menos ele joga uma profusão de azeite em cima.

Woody Allen é muito destruidor. A Outra é tão bonito que ecoa em mim por dias.

40 anos torcendo, meu time disputando grandes clássicos, rivais históricos, várias picuinhas, nunca tinha visto uma torcida tão mesquinha como essa do Atlético. Os caras com um timaço, ganhando e tal, mas mentalidade de dor de cotovelo e incapazes de ver as limitações administrativas do clube. Vou dar um desconto apenas porque na era das redes sociais a voz dos imbecis é ampliada né.

Juntar moedinhas, se não vou mais ser feliz, pelo menos vou passar o mês comprando tomates na feira em Florença.

Muito Greta Garbo, ela

“já realizou todos os seus sonhos?”
“Não, ainda tenho muita coisa pra fazer ainda, só tenho que descobrir o que é”
Martinho da Vila, mas podia ser eu.

Eu me sinto muito espertinha porque o Almodóvar também gosta do diálogo de Johnny Guitar. #mulheresabeiradeumataquedenervosfeelings

Cansei de tudo, tuitarei no blog.

Se eu participasse de Love is Blind provavelmente me envolveria com 100% dos não escrotos.

Fiz uma sopa tão gostosa que fiquei triste por todas as outras pessoas do mundo que tomam suas sopas pensando que estão boas. Não estão. Esta sim, estava.

Sobre a celeuma da Semana de 22, até ontem eu diria com prazer que não tenho informações suficientes para ter opinião, mas agora já não posso dizer isso, tenho informações o bastante para dizer que acho toda a conversa um tédio.

Tomar decisões é um esporte que eu pratico de maneira instável, então é tipo voltar pra musculação depois de um tempo sedentária, dói tudo.

A verdade é que eu pego muita corda. E agora estou sentindo falta dos seus emails. Vida que segue, espero que as fotografias do futuro fiquem boas.

Eu só ficarei realmente satisfeita com uma versão em que Christian e Cyrano se descubram apaixonados um pelo outro e dane-se a autocentrada Roxane.

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Muito triste não ter uma amiga que tenha uma vida igual à minha e passe pelos meus problemas e tenha as minhas aspirações e desejos e dificuldades para me ajudar a tomar as decisões difíceis.

Cresci em coletivos. A rua em que vivi toda a infância era uma espécie de vila e a família expandida era imensa com primos e primas dormindo em minha casa e eu na deles, viajando juntos, grandes almoços de domingo. Depois, grupos de jovem, coordenação de crisma, pastoral da juventude do meio popular, teatro, coral. A seguir, um projeto de extensão durante toda minha vida universitária, assentamentos, conselhos, associações, federações. Avançando em idade e tecnologia, listas de e-mails, longas e profundas conversas. Sempre tive e sempre gostei de ter gente por perto. Daí me mudei, me separei, filho vivendo distante, o trabalho que faço me mantem em contato com muitas pessoas mas não em grupo e, por fim, eu e a cidade em que vivo nunca nos entendemos muito bem. Sinto falta das experiências coletivas. Tentava amenizar com os grandes momentos de comunhão em redes sociais. Copa, Olimpíadas, Masterchef, até no BBB eu mergulhei para ter a sensação de algum contato com os outros. Funcionou por um tempo, mas a verdade é que me enfastio cada vez mais. Os mesmos temas voltando com tratamento cada vez mais tosco. Me cansam as bobagens ditas sobre psicanálise. Me entendiam as conversas sobre aparência, peso, ruga. Me irritam os papos moralistas. Vou preferindo o silêncio.

Me desagrada a vida que levo, do jeito que levo, mas me desagradaria ainda mais levar a vida do jeito que vejo os outros levando, mesmo que sejam felizes nelas – e que bom que são.

Meu casco parece cada vez mais atraente: uso os pôsteres dos filmes do Almodóvar de decoração.

Minha cozinha cheira a especiarias e pimenta de cheiro, meu prato de massa alcançou uma elegância que me faz chorar, só uso lençóis macios e tomo banhos de canela, camomila, mel e casca de maçã.

Cortei o cabelo e tá, olha, lindo demais.

Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

“Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”

Chegou 2022 com alguns aperreios inesperados. Cheguei nele com a decisão de ficar bem. De remover muros, cercas e sei lá mais quantas camadas de proteção que eu sei que uso, que nem o menino enrolado em plástico bolha do Pequeno Grande Time. Bora lá, mergulhar de cabeça, correndo o risco de partir uns ossos. Ou o coração.

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Desde que voltei pra casa eu não fiquei triste, triste de verdade. Nem alegre. Nem calma. Nem nada que se costuma usar pra definir um estado. Meio oca, talvez. Tirei uma foto do meu lindo óculos. E faço de conta que não quero saber se alguém viu. Tenho intenção de passar uns dias deixando o mar lavar a ferida. E bebendo mimosas. E caipirinhas. E cervejas. E alguma água de coco. Se ele soubesse – mas ele não vai – talvez ele pensasse: se eu vivesse com essa mulher, eu seria um alcóolatra. Digo eu: melhor que ser um adicto da infelicidade (perdoem, estou decompondo a amargura, espero em breve ter outros sabores). Minha pia está limpa, minhas roupas estão lavadas, o chão está aspirado. Ok, a cama está bagunçada e tenho livros demais dentro do quarto, mas, espiando rápido, 2022 já começa melhor do que terminei 2021. Eu não curto chá (ou infusão, como a Fal e o Fabi preferirem), mas tomei banho de camomila. E fiz uma pequena prece – para os deuses gregos, que são os únicos que conheço pelo nome e tal. Comi pizza ontem, comi pizza hoje. Com café. Doei coisas, ganhei uma churrasqueira de fogão, além de um batom nude e água micelar – tive que pesquisar pra descobrir o que é. Vi muitos episódios de queer eye sobre pessoas incríveis que trabalham muito pra fazer o mundo melhor. Fiz isto enrodilhada na minha preguiça. Foi confortador passar o ano só e confirmar que sou desnecessária. Estou lendo um conto com uma personagem se chama Glosspan. Nem precisa muito mais do que isso pra ser bom, não é? Preciso de uma luz mais forte no meu quarto. De um colchão novo. Ir ao dentista. De menos danos. Melhores planos.

Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”.  A frase do Maradona é a epígrafe de um filme. Gosto de pensar que funciona, também, como síntese das minhas ações em relação a, bom, essa coisa toda.

Eu nunca fui especialmente ligada em super heróis embora tenha lido muita, muita mesmo, revistinha na infância/adolescência. Essa ênfase na quantidade vinha mais pela facilidade de encontrar este tipo de coisa pra ler do que por uma preferência temática. Entretanto, em tempos recentes, a Marvel tem me oferecido um consolo parecido com aquele que advém dos romances policiais, especialmente dos livros da Agatha Christie. Eles me confortam. Colocam meu mundo no lugar, mesmo que temporariamente. Dificilmente eu poderia eleger meu Vingador preferido. Mas, ao longo do tempo, fui reconhecendo minha afinidade com um tipo de personagem: o mais humano – e, humano, aqui, simbolizando potencial para enfiar o pé na jaca. Na longa lista brilham Derfel, Boromir, Rollo e afins. É nessa tradição que se apresenta meu xodó pelo Gavião Arqueiro. O herói de mau humor. Que sai todo roxo dos embates. Que faz o que é certo porque, bom, é o certo. O que tem uma melhor amiga. Que se envolve. Que vê longe e escuta mal. Que brinca com os filhos, tem piada cúmplice com a companheira, que passa vergonha em público. Nesse 2022 só quero voltar a ser eu mesma, sem nenhuma pretensão de super poder, pendurada nos prédios por um nadinha, fazendo o que é certo porque é certo e, evntualmente, o pé todo atochado na jaca.

Das coisas que você precisa ouvir, mas eu nunca, nunca vou te dizer: você toma péssimas decisões.

Antes de conhecer você eu não tinha razões para viver. Mais, eu não tinha razões para morrer. Você me deu os dois.” Se eu fosse uma das criadoras do álbum, colocaria assim: “amar é”… ver sinais onde existem apenas coincidências e diálogos fracos. Estou assistindo A Roda do Tempo. A série é bem qualquer coisa, há desvios demais da história dos livros pro meu gosto, mas – tal como os personagens todos – estou envolvida com Moiraine e disposta a segui-la, mesmo me sentindo incomodada quase sempre.

Segunda temporada de Emily em Paris: um conflito besta que se estende em um segredo sem pé nem cabeça. Mas o personagem Luc cresceu bem e me diverte.

Andei vendo: Tick, Tick…Boom!; A Filha Perdida; Meu ano em Nova Iorque; Não Olhei Para Cima, A Mão de Deus. #aquecimentoparaoOscar

Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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Um amor chamado Boromir

Deixa a minha boca morar na sua boca
Deixa o meu sexo morar no seu
Deixa a minha mão morar nas suas pernas
E o meu quadril anexo ao seu

Euforia
Euforia
Eu faria
Tudo por você

No envelope: chá, cartão, cartinha de baralho. E palavras, muitas palavras. Na caneca, café. No peito, corredores vazios. A roupa de cama tem cinza e verde. Na mala, sapatos vermelhos. Livros que não li. Mensagens que não respondi. Redes que não frequentei. Mais boletos que dinheiros. Uma lista no spotify. Um artigo revisado. No vaso, florzinhas vermelhas. Várias renúncias. Uma hora inteira resumindo faroestes pro analista. Ele riu. Eu chorei. Você, você eu não sei. Não quero ser amada, quero ser entendida. Ele riu, eu ri também. Você, você eu inventei.

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Eu lembrava que gosto muito d’A Sociedade do Anel, mas eu tinha esquecido como o filme é gloriosamente bonito. Que uso primoroso da luz. E é admirável como os roteiristas conseguiram cortar vários eventos presentes nos livros sem perder a essência da narrativa. É um filme de afetos. De gente que não tem vergonha, nem de chorar nem de abraçar. Revi lembrando Meredith e Cristina. Elas caberiam direitinho entre os personagens. Em se tratando deles, aliás, ressalto que gosto demais do Boromir. Boromir é o personagem que vacila. Aquele personagem que enfia o pé na jaca com tanto gosto, que flerta com a desonra, que protagoniza tantos furos na virtude que se poderia pensar que existe só para servir de contraponto ao fodão. Mas não é (só) isso. Ele é tão, tão humano. Tão fraco, tão suscetível ao erro, tão vulnerável. É isso que mais amo: a vulnerabilidade. Porque é da sua imensa, enorme fraqueza, que ele se faz forte. É ele quem brinca com os hobbits, ele que se comove com a dor dos pequenos quando perdem o mago, ele que carrega uma culpa imensa por não ser capaz de proteger todo um povo, ele que cobiça, ele que se arrepende, ele que se inspira. Ele que se entrega. Ele é daqueles que, uma hora ou outra, sucumbem. Que eles caem, caem, mas que seja em cima de mim. Os mais humanos e, por isso, meus preferidos. Ele não sabe os caminhos, ele só sabe a chegada e, nisso, se perde. A morte de Boromir é tocante demais. Redimindo-se. E é tão simbólico que ele não cai no confronto direto. É preciso a covardia e a distância para atingi-lo. E uma imensa crueldade. 

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As pessoas saem com inquietações da sessão de análise, eu saio com dicas de faroestes.

Sim, carrego arrependimentos. Poucos e leves.
Como ter usado minha melhor dedicatória no livro que te dei.

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Cinema é um negócio mágico quando bem feito. Em poucos minutos, com as cores, o riso, as conversas, a gente entende porque Frodo – confrontado com a iminência do Condado ser invadido, resolve partir, proteger seu lugar e seu povo. Antes do bom e conhecido “salvar o mundo”, cuidar do que é alegre e bom. E não em um sentido mítico e expurgado de paraíso, entre os hobbits há fofoca, intriga, picuinha, maledicência, gula, alguma preguiça, etc. Ainda assim – ou por causa disso tudo – é um tempo/espaço precioso. 

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Hoje me perguntaram: se eu caio enferma, quem será meu escudo e minha espada? 

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Tem uma hora que Frodo diz a Gandalf que gostaria que o anel nunca tivesse chegado a ele, Frodo. Que preferia que nada do que lhe ocorreu tivesse acontecido. E Gandalf responde, com a genialidade do óbvio (não estou sendo irônica): assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Temos de decidir apenas o que fazer com o tempo que nos é dado. Eu gostei dessa frase quando vi o filme a primeira vez e em todas as vezes subsequentes. Acontece que eu não tinha revisto ainda depois de 2015. Venho repetindo, como Frodo, que preferia outro mundo, outra vida, outros eventos. Porque que tempos de horror. Mas preciso encontrar o eco da frase de Gandalf, em mim.

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Um dos segredos da felicidade, ouvi dizer, é compreender a nossa relevância no mundo.
Acrescentei por minha conta: e rir disso. 

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Está confirmado, haverá um amanhã.

Revisitando

Abrir portas, aguar plantas, acender fogo. Onde o sol entra a doença sai, diziam as avós ou dizem que elas diziam. Água, pó de café, coador. Goma, peneira, frigideira. Manteiga da terra – que adeptos de uma língua que me é quase estrangeira chamam “de garrafa”. Arrumar a mesa com a toalha estampada com versinhos advindos dos lenços dos namorados – sentir saudades de Portugal, colocar fados para tocar no celular, prosear com mãe e pai, cozinhar milho, responder e-mails irritantes, responder e-mails importantes, corrigir trabalhos, cozinhar batatas, limpar o peixe, temperar o peixe, rechear o peixe, assar o peixe, alimentar duas casas. Comprar passagens, suspirar, lavar louças, mandar mensagens, preparar slides, arrumar o kindle do pai, tirar tudo da cristaleira, arrastar móveis, organizar taças, aparelho de jantar da avó, coleção de canecas, trocar as mantas do divã e sofá, já é de novo cozinha, carne de sol, arroz de leite, casa da irmã, voltar correndo pra aula, esperar alunos, fazer o melhor possível sempre, sentir o corpo pedir repouso, espiar o céu, respirar fundo, fazer silêncio bem dentro, deixar o vento balançar cabelo e saia do vestido, fechar portas – deixando uma brechinha nas persianas. Já é quase um amanhã.

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Tá lá no Vinícius: é impossível ser feliz sozinho. E eu sempre entendi mais ou menos como: precisamos do Outro para a felicidade, somos seres de incompletude, há sempre o vazio do objeto perdido enquanto perdido e por aí vai. Hoje, sustentando a compreensão inicial, mas emprestando-lhe uma outra camada, percebi que há certas felicidades que precisam ser contadas, esmiuçadas, compartilhadas letra a letra. Guardadas só em mim tiram meu prumo, me engasgam, aceleram meu coração no peito chega faz aquele barulhinho de carro de F1 na curva. Zuuummmm. Foi um pouco melancólico (não fosse eu uma peixinha) perceber que não havia ninguém para ouvir essa felicidade, ou melhor, ninguém que a ouvisse e a entendesse – como já houve. Ninguém que risse e suspirasse e o olho brilhasse. Tenho mais e – se o termo pudesse ser empregado nessa situação – melhores amigos do que já tive. Mas no envelhecimento nosso ficou no caminho aquela amiguinha do telefonema longo depois das 22hs, a da conversa no banco na calçada, aquela de quem eu guardei correspondência e pra quem revisei e até escrevi cartas que ela remeteria a seus paqueras, a amiga pra quem eu narraria meu sorriso e pra quem contaria detalhes insignificantes como se importassem – e ela realmente se importaria. Não quero soar errado, então esclareço mais um pouquinho: tenho muitos amigos e eles – sem exceção – se alegram com qualquer minha alegria. Com todas felicidades que eu sinta. Mas ficariam contentes e animados porque eu estou contente e animada – não pela coisa em si. O lance é que não tem outro alguém tão bobo/a quanto eu. Não que isso tenha me inibido, chamei uma e pedi: tenha paciência. E ela teve e me acolheu e achou bonito que eu ficasse feliz.