“O acaso é a flor do real”

Pois é, viajando. Tal como o moço da piada caindo de um prédio muito muito muito alto, o que eu posso dizer sobre isso é: até agora, tudo bem.

Liberdade nunca é demais. Subir e descer e descer e subir, entrar em todos os mercados e ficar espiando rótulos com símbolos que nunca jamais decifrarei. Comer guioza na rua. Sentar no banquinho e espiar pessoas e tampo passarem se misturando. Querer mergulhar no caldinho do Tempura Udon do Izakaya Issa. Comprar temperinhos. Uma senhora idosa de máscara bem assentada, um pouco curvada, bengala estilosa e passo calculado como se o tempo estivesse a seu serviço e abrisse espaço na calçada para ela seguir seu trajeto. Jovens ligeiros gesticulando muito, ocupando a calçada na largura, falando uns com os outros e no celular – ao mesmo tempo. Um homem e duas crianças de olhos sorridentes por cima das máscaras coloridas param na ponte para tirar fotografias. Som, som, som e, entrando no jardim, um repentino som que, de tão diferente, é quase silêncio, como quando se atravessa uma cachoeira e já não há antes nem o depois, só a água fora, dentro, por todo lado, entontecendo. Uma moça fuma e reclama baixinho com ninguém, segurando o celular quase com repulsa. Duas adolescentes trocam selinhos. Um senhor de suéter azul, cabelos grisalhos e uma teia de tempo no rosto, fuma, distraído. Queria  me ver assim como vejo toda gente. O jeito, o corpo, as expressões. Meu rosto deve parecer tão triste de máscara, talvez, os olhinhos baixos sem o sorriso pra distrair. A sapatilha vermelha fazendo seu trabalho de destruição. Sacolas e uma bolsa de cactos. Sobe e desce e desce e sobe, entrando nos mercados, comendo na rua, carregando uma gargalhada como uma cicatriz, se esquecendo do tempo sentada no banco do jardim com um kindle no colo e o olhar vagando dentro.

No mercado de lá tinha lichia, perguntei o preço, balancei, não comprei. Na esquina daqui tinha castanha portuguesa, não perguntei o preço, comprei-a-a como diria o Rolando Lero. E depois chorei.

Choro por tudo que a gente não teve, por tudo que a gente não realizou, choro porque eu sei etc. Eita, Fábio Jr.

Por muitos anos eu evitei visitar São Paulo achando que nada havia lá que fosse realmente me interessar. Boba. Por muitos anos evitei visitar o Rio de Janeiro temendo que a realidade não se empariasse com minha imaginação alimentada por Nelsons e Vinícius. Boba. Boba.

Bem baixinho, no cantinho: São Paulo me trata melhor. Pohan, Rio, chuva? (e nem vamos falar do tira-gosto).

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Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

E essa é a última vez que eu digo que é a última vez. Porque estou cansada de não estar contente, sabe. E não tem mais desculpa, nem pra você nem pra mim. Estou aqui, estenda a mão, abra os braços, me cante uma canção bonita. Qualquer versão disso. Eu entendo as dores, mas já não quero um afeto que se recusa. Que me recusa. Te deixei livre para todos os caminhos, o passo e a rota que você escolhesse. Mas não viajar é dolorido demais. Você fica. Fique. Eu vou. Violeira. E se confundo lágrima e neblina é só um jeito diferente de ver a paisagem. 

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(Yuval Robichek)

Cartas e carrancas

Não tenho nada a dizer sobre o disco novo do Caetano. Não tenho nada a dizer sobre muitas coisas e mesmo sobre aquelas poucas que tenho algo ou muito a dizer, tenho silenciado quase sempre. Menos nas oito longas páginas – e contando – em que desfio memórias incompletas, reflexões antigas, perguntas novas, piadinhas cada vez menos preocupadas em fazer sentido e vários nadas contentes. Há muitos adjetivos nesta carta. Dos bons. E palavras proparoxítonas, que ambos gostamos. O antigo twitter seria impossível pra nós. O novo quase o é. Hoje espiei a frente da sua casa no google maps. Não sei se fui xereta ou atrasada nessa iniciativa. Não sei o que você sabe de mim. Mas sei o que importa: você ainda quer saber mais. Foda-se pandemia, eu já não quero nenhuma vida senão a que vou inventar.

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Eu sou ansiosa. Chego antes. Imagino de tudo: atos, sentimentos, finais. É muito raro (e, também, muito precioso) que alguém consiga apenas ser, ao meu lado. E, mais, que me faça apenas existir, sem a imaginação, as expectativas, os diálogos imaginários, as ações marionetadas, as grandes despedidas. Obrigada.

Porque hoje é sábado, isso e aquilo – foi mais ou menos assim que escreveu Vinícius. Porque hoje é sábado, 240 km de estrada pouco tranquila. Porque hoje é sábado, jantar 23hs. No intervalo: água, café, palavras. Porque hoje é sábado, trabalhar feito boi de puxar engenho e não terminar o que havia pra ser feito. Não chegar nem perto. Porque hoje é sábado, uma saudade inconveniente. Porque hoje é sábado, esvaziar a geladeira, separar as roupas pra máquina, aspirar o quarto. Porque hoje é sábado, futebol. E ainda que não fosse sábado, uma pontada com a derrota. Porque hoje é sábado, bater o martelo em uma casa pra chamar de minha no Rio. Um sapato vermelho pra São Paulo. Porque hoje é sábado, reler cartas e reinventar minhas respostas. Falando em carta, uma para o domingo: rainha de copas. Uma para o futuro: rainha de paus.

Belchior

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Mas, principalmente porque você não estará por perto para ouvir.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a distância é tão grande. Porque doem ao sair do peito para a língua e, afiadas, cortam minha garganta no caminho. 

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Um livro de capa amarela. Canetas falhando. Comida ruim. Tarefas incompletas. Seu fantasma puxando o meu pé. O jogo indesculpável da seleção masculina de futebol. Mais de 600.000 ausências. As decisões judiciais absurdas. A planilha de contas. A planta que definha. A mensagem que eu não respondi. O programa tranqueira. Todas as pecinhas do quebra-cabeça que anunciam: ano passado eu morri mesmo, o Belchior estava certo. 

Ossada Perpétua

Ontem foi aniversário do Verissimo e eu queria comemorar com você. Tem disco novo com músicas do Aldir Blanc, penso logo em mandar o link. Meu time empatou, o seu venceu, eu poderia comentar isso. Vi episódios do Chico & Caetano, mais um tópico. Guardo mais um pdf que você gostaria de ler, arquivo uma e outra imagem que faria você rir, salvo pequenas tiradas, registros do cotidiano, memórias e insights, tudo que poderia lhe interessar. Vou montando uma ossada perpétua desse amor.

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É difícil demais aceitar que o trem já partiu. Reconhecer o não. Especialmente quando a pessoa é displicente ou receosa demais de dizê-lo assim, bem soletradinho: ene-a-o-til. Eu nunca entendi muito a necessidade de devolver presentes, fechar gestalts ou sei lá o nome que se queira dar pra passar a régua e zerar a conta. Provavelmente porque eram minhas as costas que estavam sendo vistas. Ainda não decidi se mantenho esse Amarcord na estante ou faço um pacote com a carta de despedida, a proposta que esbocei tão bonitinha e se tornou obsoleta e mais dois ou três presentes que planejei enviar e agora são excrescências. Queria respirar fundo, empinar o peito e desculpar-me, tal como a Audrey, de que não poderei ficar para lavar os pratos. Vou ensaiando.

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Vaidade é um negócio que me surpreende não porque me falta, mas porque me sobra. Vejo pessoas deixando de usar máscara, usando ineficientes máscaras de tecido com renda ou laços, comprando caras máscaras coloridas pra combinar com a roupa, etc. JAMAIS me passaria pela cabeça que usar qualquer tipo de máscara segura me deixaria menos linda do que reconhecidamente me sinto e sou.

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Semana que vem eu pretendo ir à praia. E na seguinte vou a Fortaleza e, sim, comprarei peixe no mercado. Por um tempo pensei que o segredo era recuperar todos os meus pequenos pedaços e descobrir como reencaixá-los. Eu, quebra-cabeça. Quando muito, providenciar ouro e fazer kintsugi do coração. Bobinha. Olhando os cacos todos no chão, bordas ásperas, algumas pontas esfareladas, percebi que o caminho é uma espécie de bricolagem. Como a que faz a irmã que quebra toda a porcelana que a outra colecionava e, depois, transforma aquela devastação em beleza, cobrindo uma parede com os cacos, no filme Colcha de Retalhos. Reinventar-me, outra, com o que já fui e mais as belezas e toda gentileza que puder misturar pra fazer o grude.

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Eu não sou muito de reclamar da temperatura, calor ou frio, porque não sou muito de reparar nela. Mas, né, até eu tenho limite. Aqui fez um calor na semana que passou que me fez chorar. Não que eu tenha precisado de muito motivo pra chorar nestes últimos dias. Ou meses. Ou anos, se pensarmos bem, mas divago. Fez um calor desgraçado. Sem brisa. Abafado. Como se o calor fosse um elefante suado sentado no meu peito. Além da agonia, uma saudade. Senti falta da ignorância, de não saber outros lugares e seus termômetros. Leio as pessoas falando em primavera (coerentemente), mas outubro, pra mim, será sempre outono, castanhas assadas, folhas vermelhas, vinhos mais encorpados. No antes, eu aqui eu só tinha a estação praia, aprendi os demais ritmos com sotaque luso e, suspeito, será sempre assim que lembrarei. Ela, a Fal, contou que canta em voz alta. Eu nunca falo em voz alta e raramente canto, o que me fez pensar que as palavras que me habitam tem mais discernimento do que eu mesma. Em outra editoria, deixo registrado que gosto das minhas rugas – e também das rugas da Fal. Disse o Caio: “queria tanto que alguém me amasse pelo que escrevi”. Por muito tempo essa frase me acompanhou como uma espécie de farol meio inconsciente, presente sempre que eu começava a digitar. Um alguém é qualquer um e, eventualmente, até mesmo uma ausência. Tinha e não tinha um leitor ideal(izado) #Schrödingerfeelings. Mas a maré enche e seca e deixa coisas na areia além de conchas ocas. Alguém agora tem endereço, barba e tristeza no olhar. Tem sotaque e blusas de botão. Boletos. Tem até rima e rival. E eu, modesta, um pouco tímida, nem fico querendo ser amada pelo que escrevi, fico cantarolando como uma atrasada Mutante “eu só quero que ele me queira” pelo que escrevi ou por qualquer outro motivo trivial, sei lá, porque meus dedos médios tem uma curvinha charmosa.

Ontem revi O Poderoso Chefão pela zilionésima vez e é sempre um espanto. O filme é todo, todo, todo incrível, mas os primeiros vinte e seis minutos, sei nem o que diga de tão bem feitos.

Um amor geralmente é uma pergunta. Uma inquietação. Aqui chegando logo vi que sabia tão pouco, ou mesmo nada.  E na mesma medida que chegava o encanto, chegava a vontade de conhecer. Essa suposição ingênua e recorrente de que, ao desvendar o objeto de amor, o teremos mais nosso. Quando muito, acontece de sermos mais dele.

Peixinha

Eu tinha um pé atrás com o lance dos signos. Provavelmente por vaidade. Em todo canto encontrava a ideia de que pisciano é trouxa e, olha, de maneira geral eu tenho a bunda virada pra lua e as pessoas mais cuidam de mim do que tentam me enganar de alguma forma. Outros estereótipos nos quais eu não me encaixava muito: gente sofredora e que se apaixona fácil. Quem me conhece sabe da minha imensa vocação para a alegria e, quanto à paixão, bom, eu realmente nunca nem tinha me apaixonado, acho. Não nos moldes mais comumente descritos na literatura, registrados em cinematecas e compartilhados em fuxicos de amigas.

Mas estes dias tenho vivido a “piscianidade” (existe essa palavra? Em algum multiverso?) de uma forma bem explícita até pra desligados como eu (piscadinha pro clichê). Olha aí o desenhinho:

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Um peixe nadando pra cima, o outro peixe ignorando esse otimismo e nadando pra baixo. Um quer o mundo e os encontros, o outro busca a solidão e o ensimesmamento. Eu quero o claro, eu sonho o breu. Persigo a superfície, me afundo na região abissal. Falo tudo pra não dizer nada. Todos os dias me convenço que é hora de ir, que já não há mais espaço pra você cá dentro, que a história engasgou, não rende, aquele vislumbre de magia está perdido. Segue, luciana. Vai pra cima, nada em outros cardumes, tá vendo aquele dançante dourado? É o sol fazendo cócegas no emciminha da água. Uma beleza, bora lá. Todas as noites eu me impregno da vontade de você e me convenço de que não é possível deixar pra trás sem esperar até o possível, só pra ver, que mal faz, alimenta mais um pouco, entrega mais uma coisinha, tá quase lá, vai embora sem nem saber o gosto? A curiosidade segura e esfrego escamas no frio entre rochas do abismo.

A Fal disse, em seu diarinho*, que a vida anda. Eu acredito que sim. Eu sei que sim. A minha mesma já seguiu de momentos tão mais cinematográficos. Andou. Andei. Estou aqui, não estou? “Pessoas danificadas/machucadas/quebradas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. Sobrevivi. E mais. Eu só não lembro direito o como. Mas vou descobrir, claro. Em algum momento de um futuro que está sempre distante demais para o peixinho que sobe e ameaçadoramente próximo para o peixinho que procura o reino de Poseidon ou mesmo Atlântida. É que o sorriso chega antes da alegria.

Antes do futuro que virá, virá aquele momento do grande gesto. Eu, hoje, entendo porque alguns moços ficam confusos e até magoados comigo. Geralmente faço o solene e grandioso ato de amor verdadeiro, forte e profundo, naquele momento exatamente anterior à minha partida. Cabo de guerra entre peixinhos. Ficar, ficar, partir, partir, ficar, partir.

Minto pra mim, pra vocês, pra eles? Faço o grande ato de amor verdadeiro, forte e profundo quando já parti, mas reluto em aceitar? Não tenho certeza se não tem sido isso essa sucessão de entregas recentes. Ao ladinho do sempre tua tem aquela que talvez esteja abrindo as janelas, arejando espaços, batendo o tapete, espanando os cantos, trocando a roupa das almofadas. A vantagem do peito vazio é a acústica.

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Raramente te dá presentes e eles são esquisitos. Mas estranhamente pertinentes.

(o print é puro suco de narcisismo, né? Não tenho vergonha na cara)

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O que vocês preferem: narrar uma vida inventada ou inventar uma vida a ser vivida?

Gosto demais de La la land. Revendo uma conversa antiga, reclamam que não tem química entre o casal protagonista. E eu respondi que o filme não deveria contar com um par certo porque a vida não é sobre as pessoas encontrarem pessoas certas. É sobre a gente pensar que é. Reli essa minha resposta e doeu como jogar água oxigenada no joelho ralado. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

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*Se você quiser receber o Diarinho da Fal, diariamente no seu zap, sem preocupação (não tem interação, só a Fal posta) é só apertar neste link: https://chat.whatsapp.com/BcANA1N35q6Libhh8Yz8lW

Jabá e outras sugestões

Acho que todo mundo conhece aquela piada:

Chega de falar de mim, já fizemos muito isso. Vamos falar de você. O que você acha de mim?

Mockups Design

Pois bem, amiguinhos, esse é o espírito da live da próxima quinta-feira, 19/08, às 20:30hs, sobre (ainda e de novo) o livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Anota aí na agenda, daqui a uma semana exatinho. Teremos convidados e eu prometo que, dessa vez, falarei bem pouco (e vou aproveitar as pessoas falando de mim ou, mais exatamente, do meu livro).

Vamos ouvir o João Carlos Ribeiro Jr. discutir o conto “Te encontro, Maninha” e perguntar pro Fernando sobre como foi escrever, em parceria, os contos “Foda-se, Plutão” e “Companheiros, blues, cafés, tabacos, drinques: fortes, amargos e lentos”. Teremos, também, claro, a participação luxuosa das Drops Editora, recebendo em seu perfil esse conversê todo. E porque alguém deveria se interessar e assistir? Primeiro: porque eles são lindinhos, vocês não acham?

Mas se isso não for motivo suficiente, confiem na minha palavra de que os dois são um excelente papo e entendem muito, muito mesmo, desse negócio de ler e escrever. Além disso, dessa vez estarei mais livre para acompanhar os comentários, anotar as questões e incluir mais gente no papo. Você já leu o livro, já conhece os moços, já não aguenta mais me ver? Tudo bem, divulga pros coleguinhas. Estou pensando até em sortear livros (não necessariamente o Éter). #VemGente

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Já que estamos falando de instagram, queria sugerir que vocês sigam esses perfis que, garanto, fazem daquela rede um lugar bem melhor pra se estar do que ele mesmo se pretende ser:

@fiftinah: um perfil que é, concomitantemente, instigante, informativo, divertido, que produz conteúdo sobre e para mulheres 45+. Toda sexta-feira, 19hs, tem live. A anfitriã e dona da porra toda é a queridíssima Tina Lopes. Amanhã, 13/08, o tema é “Mulheres à beira de um ataque de burnout” com Carla Zuquetto, terapeuta analítico-comportamental, que atende adolescentes e adultos; Renata Crispim, psicanalista, comunicadora e professora universitária e Líívia Ferreira, que trabalha com clínica psicanalítica e é doutoranda em Psicologia, com uma pesquisa em corpo, gênero e feminino.

@dropseditora: perfil que vocês devem acompanhar, além da divulgação dos livros incríveis editados pela Fal e Suzi, encontramos sugestões de leituras, divulgação de material sobre literatura, informação de forma lúdica. Aproveita e já fica sabendo que vai ter reimpressão “Como ensinar um idiota a dançar” – coletânea de Drops – e “Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem” – coletânea de crônicas – que são dois livros no mesmo volume.

@chamaterapêutica: perfil de loja online, situada em Fortaleza-Ce, que comercializa produtos terapêuticos e fitoterápicos.

@maesemhomeoffice2021: perfil do projeto de extensão da Universidade Federal Rural do Semiárido que ouviu e sistematizou o discurso de mulheres, mães, trabalhadoras, que tiveram que reorganizar a vida ao atravessar a pandemia da covid19.

@narrativadefeminicidios: perfil do livro das jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, que analisa o discurso sobre feminicídios e como esse discurso sustenta a violência contra a mulher.

@cafebelgrado: gosta de basquete? Gosta de NBA? Esse é o perfil pra você.

@edisca: segue o perfil da Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente para acompanhar as ações inspiradoras e assistir trechos de espetáculos de balé tão, tão lindos que o jeito é chorar.

@caju.fred: perfil do poeta Fred Caju que também é editor da Castanha Mecânica. E vem com a beleza pernambucana.

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Essa quinta, essa semana, esse mês, essa infinitena:tumblr_1855a2f0131835be00a25792fee21ae6_b44e4263_540

Membros Fantasmas

Uma verdade: um dia a gente paga a língua (a gente sou eu, claro, e um dia é hoje).

Você troca livros, queria trocar carícias.

Ele só quer te usar. Ah, quem dera. Meu tempo, meu corpo, meu afeto, minha capacidade de cuidar, de entreter, minha alegria. Me usa.

Pode ser só birra, claro. Teimosia. Ego. Orgulho. Falta do que fazer. Eu chamo de amor – e ele responde.

Eu não preciso que você me ame. Que me namore. Que faça planos. Que viva comigo. Eu só quero que você me queira, tal qual Os Mutantes. E que deixe eu gostar de você.

Um dia e mais outro e outro. Aquela sensação de que o mundo acabou e, lá fora, só destroços do tipo filme distópico. Você fazendo compras por aplicativo. Máscaras penduradas em todos os compartimentos da casa, sempre à mão. Obras por terminar. Profissionais de saúde, exaustos. Acaba oxigênio em algumas cidades. Supermercados desabastecidos. Mil mortos por dia. O horror. Aí você vê fotografias. Filmagens. Assiste, sem querer, uma parte de um jornal. Festas, bailes, shows. Bares, jantares, reuniões. Escolas abertas. Salões de beleza. Shoppings. Pessoas circulando. Pessoas que você conhece fazendo “só um churrasquinho” com todas as medidas de segurança. Aquelas, de abril de 2020. E que no frigir dos ovos – ou no assar da carne – se resumem a lavar as mãos, talvez com álcool, porque quem vai comer e beber de máscara?

Cada dia mais e mais só.

Mas ainda recebo teu branco e preto e sinto calor. Ainda escuto as canções. Ainda rio com os trocadilhos. E danço, nua, pensando em você. Danço, né. Claro.

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Grey’s Anatomy é das melhores coisas que já vivi (nem digo vi, porque mexe comigo de uma forma ativa). Quando começou – e por muitos anos – a personagem que dá nome ao programa não me entusiasmava. O resto dos personagens é que construíram a teia e me aninharam nela. O que eu não sabia é que esse trabalho todo era pra deixar vir uma enorme Meredith – aranha prontinha para devorar meu coração. Por uns 12 anos eu questionava seu protagonismo, sem perceber a narrativa que se estruturava, para além da história evidente e que, hoje, me faz não só amá-la, mas entendê-la e, tantas vezes, entender-me.

Ser humano é ser um só (no sentido da unicidade, mas também da solidão que nos estrutura). E a série nos conduz junto à espiral da solidão de Meredith. Sua pessoa âncora: Cristina. Seu amor porto: Derek. Um a um. Vindo. Indo. Como a estação cantada por Milton: encontros e despedidas. Ou uma estação de trem, a perfeita metáfora do meu coração: chegadas e partidas.

Uma vez e outra, passar pela decisão: seguir vivendo apesar de. Apesar da água gelada que amortece a dor de viver. Apesar de ter o risco de ver explodir o coração como uma bomba. Apesar do inesperado da vida, acidente que leva onde não se pode cuidar de tudo e de todos. Com uma beleza que me encanta, episódio após episódio, a contradição: é nas perdas e nos vazios que as presenças e os laços se originam, se evidenciam, se consolidam. Perda após perda, sem porto e sem âncora, Meredith navega com bóias, faróis e sinaleiros.

Meredith vai descobrindo que poder ficar só não implica em querer ficar só, sempre. Nem, principalmente, ter que ficar só. Acho que é uma forma muito delicada de trabalhar o amadurecimento. Crescer não é não precisar de mais ninguém. É, também, acho, saber dar e receber esse cuidado. E, algumas vezes, precisar e ele não chegar. Muito se faz rima entre vidas que se tocam. A gente perdoa o outro. Ou se perdoa. Ou. E. Como Alex, ele que perdoou o pai que não deu o que ele precisava e perdoou a mãe por fazer tanto pra dar o que ele precisava e mesmo assim não pôde dar. Porque ninguém nunca pode, acho. Ele mesmo não pôde, e partiu.

Ser a gente mesmo, como disse o terapeuta da Meredith, pode ser bem assustador. E ainda mais assustador é reconhecer que nossos pedacinhos, o que nos forma e nos define, as partes de nossa “anatomia”, não são apenas o que está ou se acrescenta na vida, mas também as subtrações, as faltas, as perdas. Nossos membros fantasmas. E nunca poder coçá-los.

O tempo, o vento e o álcool

Uma coisa tristíssima é a sensação de que, passado o que precisa ser passado, depois do depois, quando estivermos de máscara mas devidamente vacinados e na rua, eu estarei muito mais sozinha do que agora, nestes meses de isolamento.

A vida dá uns sacodes que benzadeus.

O consolo é que gosto um bocado da minha própria companhia. E tem a internet, livros, uns projetos interessantes pra tocar, praia por perto quando puder sair de casa, rede na varanda, tudo bem no ano que vem, ligações perigosas, west wing e o poderoso chefão pra rever até os olhos ficarem dormentes e a cozinha, sempre terei a cozinha (não hoje, hoje comerei pão com queijo e café, o dia todo).

Mesmo assim, doeu. Ah, doeu.

Tá tendo maratona de Criminal Minds, exatamente a companhia que eu precisava para passar essa virada de ano. Sim, continuo apaixonadinha pelo Reid. Séries e livros policiais me confortam muito. Já falei sobre isso algumas vezes. Eu sempre recomendo romances e séries policiais para males diversos, especialmente os de amor. É que eles parecem seguir uma lógica. Organizam o mundo. Encontram respostas. Quando uma relação acaba ou nem, quando está tudo muito dolorido, é aquela confusão nos sentidos. Tudo em carne viva e as pessoas se perguntando e se? Mas porque? Foi alguma coisa que eu fiz? Será que? O amor é labirinto sem fio de Ariadne. Sem nem mesmo as migalhinhas de pão do João. Amor não tem resposta única (o viver, na verdade, mas a gente se entretem no dia a dia e esquece um pouco). Não tem verdade. Quanto mais se olha pra trás e tenta desvendar o que e como aconteceu, mais perdida a pessoa fica. Já o universo do mistério policial faz sentido. No mundo dos livros e séries de investigação há uma pergunta central e uma resposta única. A verdade. Um desenlace que se a gente não pegou de primeira, volta e espia: vai ter um fio condutor. As pistas estavam todas lá, a gente que não tinha visto, mas com calma, analisando bem, arrá, era isso. Alguém explica tudo. Tudinho. O romance policial me acalma. Acalenta. Coloca um pouco de ordem – mesmo que temporária e transitória – na bagunça que é o sentir. É um desafio intelectual. A gente pode pensar sobre. Ou se deixar levar, como quem faz uma visita guiada: à direita vocês podem ver um suspeito inocentado, reparem que seu ar suspeito é, na verdade, efeito da azia. A gente (a gente sou sempre eu, como anteriormente combinado) tem essa fome: de conhecimento, de verdade, de saber. E viver é aprender que não tem resposta fácil, que a gente não vai saber tudo e que a verdade é uma construção. E amar é aprender isso tudo sem pele. Mas o romance policial, ah, por um momento a gente pode, sabe, responde. Poirot, Grissom, Miss Marple, Reid, quem for, eles vão saber. Vão dizer. Vão provar. Nesse 2020 de angústias, de incerteza, um tempo sem horizonte (que se estende para o ano que começa amanhã), nesse ano em que não só o sentir, mas o próprio existir se apresenta como uma imensa bagunça disforme, os livros e séries desse tipo me tem sido muleta, oxigênio, ninho, limite, fôrma (eu sei que não tem chapeuzinho, me deixa). Bora, Reid, me abraça.

Pegando gastura.

Tenho pena de nunca ter te mostrado o conto Plantação. Eu nunca tinha vivido em um tarde demais. É um lugar realmente inóspito.

O tempo, o vento e o álcool. Meu tio, muito sábio.

Eles desgastam tudo, sabe? O tempo, o vento, o álcool. Lenta ou rapidamente, no seu próprio e inesperado ritmo, vão esculpindo na pele, na carne, na terra, nas coisas do mundo, suas marcas. Discreta ou descaradamente. De forma bela ou disforme. Podemos dar-lhes sentido ou aos seus efeitos, mas não evitá-los – pelo menos não aos efeitos.

Escrevi e apaguei e reescrevi a mensagem que vou te enviar. Porque sou uma tonta e sim, tenho que desapegar, mas não, não vai ser hoje. Hoje eu ainda queria. Quero. Tonta, tonta, tonta, eu já disse?

Vejo as pessoas comentando sobre qual a cor que vão usar na passagem de ano e, bom, pelo menos nisso vou me divertir, estarei “cor da pele”.

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Duke Ellington, muito de boas

Nem vem, não vai ter bolo mesmo

Eu não fui passar o Natal com meus pais e irmãos. Não vou, na noite da passagem de ano, dar os dez ou quinze passos que separam minha porta da porta da minha irmã-vizinha e acompanhar o fim de 2020 com ela, o marido e o filho. Ridículo dizer, mas também não fui a nenhuma outro tipo de encontro ou confraternização presencial. Na verdade, também não participei de nenhuma festividade virtual. E, claro, não tenho me juntado a nenhum grupo para não contrair ou transmitir covid. Porque por mais que tenhamos cuidado, o ambiente que tem pessoas reunidas, falando, talvez se abraçando, tirando a máscara para comer, etc, é, sim, um ambiente de risco.

Mas andei refletindo e percebi que esse não é o único motivo. Eu não sinto vontade nenhuma de festejar o que quer que seja. Ficar longe de todo mundo esse ano foi difícil. Foi difícil demais. Mas não participar de nenhum evento de confraternização, de nenhuma festa, neste dezembro, não foi nenhum sacrifício, foi apenas reflexo do meu estado de espírito. Não quero encontrar ninguém, não tenho coisas a agradecer nem esperanças pro ano que vem. Eu estou triste. E se minha alegria é insana e descaradamente gregária, minha tristeza é reservada, cheia de pudores, amante do recolhimento. Sempre fui uma pessoa de brechas. Sempre procurei o riso. Mantive uma Pollyanna brincando, livre, em mim, quando a todos parecia tolo. Mas não consigo comemorar o que quer que seja. Não consigo me imaginar festejando, esquecendo os 200.000 mortos – só no Brasil. Esquecendo os profissionais de saúde que estarão, exaustos, em plantões. Esquecendo as famílias e amigos que perderam cada um que foi perdido pra este vírus, mas não só, pra essa política de morte. 

Entendo quem vai num outro caminho, quem precisa do toque das pessoas próximas, quem precisa do brinde, quem precisa do respiro dos afetos íntimos, pra manter a cabeça fora d’água. Entendo quem arruma mesa bonita e faz comida farta pros que estão próximos, moram juntos ou se resguardaram pra esse momento. Entendo quem faz longas chamadas de vídeo e está gelando espumante pra brindar, pela telinha. Entendo quem resiste, quem não deixa a dor sufocar o riso. Entendo. Admiro.

Mas não entendo gente que faz churrasco pra um monte de outras gentes. Não mesmo. Não entendo quem tá fazendo festa em casa, quem tá indo jantar fora (especialmente com uma galera), quem tá viajando, quem tá visitando. E, principalmente não entendo quem escreve o que hoje eu li, no twitter: Porque vocês ficam se martirizando diante do inevitável? Eu morro um pouquinho quando leio isso. Alguém acha, de verdade, que 200.000 mortes (e as que virão, de covid e de miséria, já, já) e uma economia em bancarrota são/eram inevitáveis e que não tem nada demais ficar listando as coisas boas de 2020, não tem nada demais escrever sobre “os aprendizados da pandemia” e falar que é muito bad vibes quem não consegue ver o lado bom do ano que tá acabando. Alguém não só acha que isso tudo era inevitável como se ressente de quem não tá soltando fogos. Não entendo, não consigo me ver, depois do depois, sentada na mesma mesa que essas pessoas, por qualquer motivo que seja. 

Um amigo querido demais fez umas postagens lindas dizendo que 2020 não foi o ano mais difícil da vida dele, mas que entendia e acolhia que pra maior parte das pessoas que ele conhecia, sim, havia sido um ano péssimo e ele tava junto com essas pessoas. Não ia louvar 2020, etc. Eu me senti muito acolhida e amada. Pela sensibilidade dele. Pela generosidade. Pelo desprendimento. 

Talvez eu devesse me sentir um pouco melhor sobre 2020 do que me sinto. Aconteceram algumas coisas realmente boas. Das melhores e mais importantes que já me aconteceram, como sujeito. Mas eu não consigo não sentir tudo misturado. Eu sinto o desespero e o desamparo e a tristeza e as perdas e as mortes e o cansaço e a solidão e a impotência de todo mundo como se fossem coisas minhas, íntimas e isso tudo me pesa, me curva, me aparta, me separa, me impede o festejo do que quer que seja. 

Cheguei de onde saí. Me repito. Não vou festejar agora. Espero que chegue o dia. Que chegue a hora. Tô me guardando, talvez, pra quando o Carnaval chegar.

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esse cara suburbano coração ateu
ou
a história de nós dois
 
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quiron1

Quíron é um dos meus mais queridos. Viver com a dor sem deixar que ela o defina, não é fácil (inclusive tenho fracassado nisso miseravelmente em 2020). 

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Eu tenho costume do bom. Do fácil. Das despedidas leves. Sempre fui do abraço prolongado e da caminhada decidida. Nunca deixei passar a validade. Não sei porque me pesa tanto o braço nesse aceno entre nós.

 

 

Bay. E eu.

bay

Tem essa série juvenil. E na série tem um casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. E a vida que segue primeiro é a dele. Ou ele nota primeiro. E ela fica. E ela sofre. E as pessoas – todas muito legais – dizem a ela que vai passar, vai passar e tal. E, sabe, não adianta nada dizer. Ela se encolhe, se esconde, sofre em dobro, porque dói a ausência dele, do relacionamento, de quem ela era com ele e sofre mais, sofre porque parece em desacordo, mal educado, indelicado da parte dela continuar sofrendo apesar de tanto cuidado de todo mundo explicando que passa, que acaba, que não é tudo isso que parece ser naquele momento.  Apesar das boas intenções, do bem querer verdadeiro e do cuidado legítimo de todos que a rodeiam, ainda dói, porque naquela hora ali, não passou ainda.

Há sempre um tanto de gente com boas intenções. Quando não casei, quando escrevia a tese, quando perdi pessoas queridas. Todas lembrando que passa, que acaba, que não é tanto como parece naquele momento. Há até quem use essa lógica para 2020. E a pandemia. Se falo de desconforto, de angústia, do difícil que é viver cada dia, as pessoas, gentis e prestativas, me dizem que vai passar, que logo acaba, que é preciso sobreviver. E sim, eu acredito. Mas não adianta muito saber. Ainda dói. E me sinto indelicada, mal educada, fora de sintonia por não saber agir em consonância com todas essas tentativas e notícias boas que as pessoas gentis me trazem. Então me encolho, me escondo e dói em dobro. Porque, olha só, não passou ainda. Não desconheço o que é preciso. Coloco panelas no fogo, limpo a casa, faço meu trabalho. Vez ou outra, até sorrio num esquecer qualquer. E se não compartilho esperanças, carrego a teimosia de insistir na vida. Em algum lugar, eu mesma, ainda. Mas.

É isso. Tem essa série juvenil. Com esse casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. A vida dele seguiu. E ela ficou. Ficou, ficou, ficou até não mais ficar. Não mais. Não tanto. Também ela, um passo, outro, dois pra lá, dois pra cá. Segue. Entra na dança. Na roda. E até sorri. Quem sabe, um dia, até diz, bem intencionada, a outro alguém: vai passar.

Eu me abraço, me embalo e penso: que venha minha próxima temporada.