Incêndios

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Detalhe: Rogelio de Egusquiza – Tristan and Isolt (Death)

Às vezes lembra-se dele. Muitas vezes até, entre uma aula e outra. Ainda frequenta bibliotecas, isso favorece. Os seres humanos podem ser estúpidos. Não ele. Ou ele também, mas não é assim que ela imagina. Ruído, pânico, alguma fumaça. As pessoas empurravam e corriam e falavam alto, tão alto. Menos ele, que soube dar-lhe a mão, em silêncio. Ele também lembra dela. Quando pensa “e se”. Quando se irrita com a birra da filha mais nova, quando se preocupa com o último boleto do mês, quando se enfada no trabalho. Quando a vida cotidiana é pior do que o estouro de pessoas assustadas. Ele quase sente a mão que encontrou a sua como se fosse lógico. Deram as mãos. Em meio ao susto, confiaram um no outro sem perguntar-se porquê. Quando o movimento da multidão ameaçou separá-los, entrelaçaram dedos. A pele dela tão fina. A pele dele, tão morna. Um lance de escada, dois, três, os livros virando cinza e fumaça, era de se pensar que as mãos suassem, que os ritmos acabassem por se desencontrar, mas eles nem precisavam se olhar pra se saber, a pele seca, as mãos firmes, o mesmo passo. As sirenes, os alarmes, a luz, o ar tão puro que engasga. Ele tosse. Ela inspira fundo. Podiam apenas ter desatado as mãos, mas beijaram-se, como para descobrir se era bom. Não era. Ainda assim, às vezes ela lembra dele. E ele lembra dela. E falta um pouco o ar, a um e outro, como quem aspira demasiada fumaça. Ele carrega uma tosse crônica, ela tem o hábito de longos suspiros. Fim de semana passada, passaram um pelo outro na praça de alimentação do shopping. Ela, a bolsa pesada de livros, o andar arrastado, o turno nos olhos, as mãos machucadas da lida doméstica. Ele, a filha irritante, a fila do caixa eletrônico, as contas a mais, as mãos frias de uma pressão sempre baixa. Não se reconheceram.

The Irishman – de uma sentada

“ouvi dizer que você pinta casas”

The Irishman é um grande filme. Parece piadinha já que tem quase três horas e meia, mas não é a isso que me refiro. É um filme que, apesar de ser lançado em uma plataforma de streaming, foi feito com grande reverência à essência do que é cinematográfico. É uma história que se conta, mas isso é feito de tal forma que se pensa que essa história só poderia ser contada feito filme, tinha que ser um filme, não uma peça, não um livro, não uma fotografia, um filme. Scorsese constrói uma elegia a um jeito de fazer filmes e a uma forma de assisti-los. Não é melhor nem pior, parece nos dizer, mas é. Para além disso, The Irishman é uma declaração terna e algo melancólica a certos personagens e aos atores que os tornaram imensos.

As palavras que me vinham enquanto eu via o filme, além da já referida melancolia, eram finitude, fortuidade, efemeridade, transitoriedade. Na narrativa vemos o auge de um período  – como bem definiu uma amiga no twitter : Camelot – mas nas frestas deste ápice já se vislumbra a falência, a decrepitude, o termo. Uma coisa que colabora com esta sensação – e achei incrível – é que apesar de uma significativa passagem de tempo, são os mesmos atores, não envelhecidos com maquiagem ou tecnologia (como é o comum) mas rejuvenescidos. Eles parecem jovens, mas se movimentam, falam, gesticulam como idosos, então é como se eles já tivessem, mesmo na época áurea, a semente da decadência. Outra coisa que trabalha nesta mesma toada é a luz em grande parte do filme que dá, aos personagens, um jeito de embalsamados.

O Irlandês mostra um Scorsese melancólico e reflexivo (Crítica)

Eu gostei demais do recurso de ir anunciando a finitude dos personagens, em um rompante, em um momento completamente desconectado do que seria a morte ela mesma, quando eles estavam rindo, bebendo, conversando, tramando. A morte violenta, o câncer, a idade, não importa, tudo deixa mais frívolo e mais precioso cada momento vivido. Gosto ainda mais que a morte de Hoffa não é anunciada – embora nós a esperemos, conhecedores da história – e mesmo quando acontece é como se não fosse. Ele só morre, ou desaparece, como um trocadilho que Scorsese faz com a narrativa “real”, quando é esquecido: a enfermeira, jovem, desconhece não só seu rosto mas seu nome e sua reputação.

Hoffa, que desempenho sensacional do Al Pacino. Pacino tem este talento de nos comprometer com o personagem a que ele dá corpo e Hoffa é um destes papéis que parecem sob medida. Cheio de maneirismos, gestos grandiloquentes, cordial (no sentido que nos define como brasileiros e tão mal entendido), é também o personagem que faz silêncios inesperados. Aquela cena em que ele entende, enfim, que é uma ameaça que lhe está sendo feita, tudo passa em seu rosto: surpresa, inquietação, medo e depois o descrédito.

Mas nenhum silêncio de Pacino faz frente ao pesado silêncio que De Niro performa na última hora do filme. O que é brilhante, já que ele é o narrador, cada vez mais sozinho na contação da história, encarregado de nos informar do que foi, quem foi, pra onde foi, quando foi e como foi e com talento nos impulsiona e sentimos e compartilhamos o que ele não pode, não sabe ou não quer dizer. E o que ele nunca disse retorna como nada, não há, de volta, o que os outros queiram lhe falar. Ao redor dele, o vazio. Outros grandes momentos decorrem da interação De Niro e Joe Pesci que, sem precisar de muito mais que alguns olhares e um tom de voz comedido, representa todo poder, ameaça e influência da máfia. Perigoso, parece gritar a cara de sono de Pesci que, apesar de todas as tentativas, jamais consegue cativar a menina Peggy.

É engraçado que seja um filme sobre amizade e lealdade quando, bom, acontece o que se sabe. Mas é. Um filme sobre escolhas, mesmo quando aparentemente já não se pode voltar atrás no caminho trilhado. Um filme sobre consequências, não em um sentido moralista ou dogmático, mas evocador da responsabilidade e autonomia. Um filme sobre vulnerabilidade, apesar da insistência no pego-mato-esfolo como caminho único para a afirmação de si. Pesci, De Niro, Al Pacino, só eles e seus personagens já valeriam o filme. Que é muito maior que eles, apesar disso. É um trabalho preciso de figurino, de trilha, de edição, de direção, voltando ao que eu disse lá no começo do texto, uma certa reverência ao fim de uma Era. Logo que vi o filme comentei que me lembrava, em alguns aspectos, o Método Kominsky – e sustento – tem a acidez, a relação humorada com o declínio, a falta de glamour da velhice. Mas agora, depois de uma segunda investida, penso também nos meus faroestes de estima: O Homem que Matou o Facínora e O Último Pistoleiro. A morte vem, não importa quão grande e aterrorizante alguém foi, e a quem tem tempo de saber e sentir que ela se avizinha, é cobrada uma posição. Os personagens de James Stewart e John Wayne, cada um a seu modo, percebem-se anacrônicos. Frank Sheeran também e, diante do medo que sente, monta pequenas barreiras: uma morte que não seja “tão” definitiva é o que ele anseia, mesmo depois de se defrontar, vezes e vezes, com a explicitação do insignificante controle que se tem não só da morte, mas também da vida, que é outro nome para dizê-la, só que soletrando devagar.

Não há pompa em The Irishman, mas isso não o preserva de ser visto com reverência. Parece um filme de gângster, soa como filme de gângster, vendem como filme de gângster… mas The Irishman é um filme sobre como viver é vão (com ambiguidade).

Os PSs maravilhosos: eu sou pintor de paredes/o sangue espirrando; a cena da porta entreaberta de Frank ecoando, de forma antagônica quase, a porta entreaberta de O Poderso Chefão, o deboche de Pacino: todos se chamam Tony,  a pergunta inquieta: há uma diferença real entre obedecer ordens e matar na guerra e obedecer e matar pela máfia?

Viajando na maionese ou tempo demais no twitter

Li um twite que dizia: “meninas que se relacionam com homens: se ele se diz desconstruído, comunista, de esquerda, etc. pergunte pra ele qual sua opinião sobre prostituição ou pornografia”. Digo eu: se for menina, não se relacione com homens. Agora, se for mulher, lembre que a prostituição é o trabalho de várias outras mulheres, aliás de várias pessoas marginalizadas e que o problema da pornografia não é o conteúdo mas ser uma indústria, como a de roupa, a de carne, etc. Não infantilizar nem tutelar as mulheres, acho, é bem importante para um pensamento que realmente se sustente na ideia radical de que mulher é gente.

Uma coisa que realmente aprecio: conferência old school, com texto preparado previamente e bem lido. Aprecio em dobro: ouvir a História narrada por quem a construiu. Foi um privilégio e uma alegria participar do evento da noite de ontem. Sem querer ser a velha chata e ranzinza, mas sendo, fico pensando como a ausência de referências (e o descaso com elas) faz com que parte significativa das pessoas não usufrua como poderiam de momentos como os de ontem. Eu lembro (sim, vou puxar a brasa pra minha sardinha) da minha emoção ante figuras como Florestan Fernandes e Paulo Freire, a compreensão que eu tinha de viver uma situação única e especial.

Se já acho difícil que as sociedades sustentem a democracia, como explicar que pessoas curvem joelhos simplesmente porque alguém é filho do alguém que mandava na bodega? Eu tenho dificuldades com a monarquia, de partida, porque tenho dificuldade com a fé numa divindade que a sustente, acho. Mas tão lindo o Chalamet. E o Shakespeare, então vão lá ver o filme O Rei, na Netflix.

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Flamengo Bicampeão da Libertadores e Heptacampeão brasileiro no mesmo fim de semana. Nem sei o que escrever sobre isso, ainda estou sendo alegria.

Eu não sei porque vocês estão discutindo esse lance da Flip. Todo mundo sabe que o homenageado devia ser o Jorge Jesus.

Uma pessoa sugere, no twitter, que as pessoas vejam, mesmo em casa, o filme O Irlandês, de uma sentada só. E justifica a sugestão com um critério técnico, não é uma ideia que ele tira do suvaco. Daí um monte de gente reage com violência ou sarcasmo ou whatever que eu nem entendi, de verdade. É uma sugestão, gente. Não quer, não pode, não concorda, não faz, ué. E nem é uma sugestão absurda, filmes são feitos, a princípio, pra ver numa lapada, tipo, sei lá, no cinema?

O que se depreende disso tudo? provavelmente estou passando tempo a mais no twitter.

Terra Vermelha

mas este feriado eu fui pra Canoa e Canoa é minha terra vermelha de Tara. Em Canoa tem festival de blues e caipirinha gelada e sotaques variados e crianças na escola cantando em roda o Canto do Povo de Um Lugar e velhinhas vaidosas de maiô, chapéu e colares à beira-mar e pais passeando com carrinhos e bebês de madrugada e uma rua chamada Broadway e pastel de arraia, às vezes com banana! e gente que faz tererê e massagem no meio da muvuca e um bar ridículo chamado bar dos bombados e uma pintura do Belchior e barraca que vai buscar você na pousada de buggy e cerveja gelada e cerveja quente e arranjos amorosos de toda modalidade e reggae na praia em noite de lua e adolescente tocando violino e tem aquele mar que eu não sei explicar mas faz parecer que um dia a mais de vida vale toda pena (e são tantas) mas tem Canoa e Canoa é minha terra vermelha de Tara. Canoa é tão em mim que quando falo dela eu escrevo sem pontuar direito porque justamente Canoa me faz respirar diferente.

eu tinha um plano. planilha de excel com projeção de custos. documentos no protocolo. datas revisadas. consentimento de chefe, amiga-irmã-colega-de-trabalho cobrindo uns dias. daí vem esse dólar e como é mesmo que se diz? white people problem mesmo quando não se é tão white assim.

pessoas queridas visitando cidades que eu amo me dá uma saudade chega pinica.

assumir que não cabe no orçamento. mas dói.

eu gosto de mar. de boteco. de conversa sem rumo. de beijo na boca. gosto de gente. de prédios antigos. de fazer a mala. de comprar passagem. gosto de torresmo. de queijo, gosto muito de queijo. gosto de abraço, de contar história. de contar muitas vezes a mesma história. de ouvir. de abraçar. de fazer ciranda no terreiro, de fazer ciranda a beira mar, de fazer ciranda em reunião, aula, o que for. gosto de blusa decotada. gosto de batom vermelho – mesmo esquecendo de usar. gosto de cafuné. gosto de pele com pele. gosto de fresta, de brecha, de fenda, de deixar em aberto. gosto do quem sabe. gosto.

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Tem, na vida, aqueles momentos que a gente já vive sacando que são “de cinema”. A luz é perfeita, os diálogos azeitados, até trilha sonora aparece. O duro é depois voltar pro dia a dia de programa de tv com baixo orçamento.

 

 

 

Coisas desconexas ou eu me dou mal até nos memes

Coisas desconexas que sei fazer: qualquer coisa que eu faça já que sou desconexa de berço.

Outro: as pessoas listando o que as marcou em cada ano desta última década e eu não consigo lembrar nem o que jantei no sábado passado.

Eu quero muito, muito fazer uma coisa. Essa coisa me assusta demais. Não é de bouas financeiramente. Aí eu não sei se estou pensando em não ir porque sou racional, ponderada e adulta e sei que não devo me endividar por um ano ou se estou desistindo porque estou com medo e estou disfarçando colocando a culpa na grana.

E eu sou gulosa, né, podia ser só o bolo mas eu quero com cobertura e cereja.

Luciana, não vi nenhum comentário seu sobre o óleo no litoral do Nordeste. É que eu não consigo gente. Não consigo. Eu tô morrendo junto.

É estranho como desejar uma coisa diferente pode soar ameaçador. Ou como as pessoas podem ser condescendentes imaginando que tem algo que é muito superior. Spoiler: não tem.

O que  tenho é esse livro Cobras do LFV, mas emprestei e não sei a quem, chuiff.

São tantas coisinhas miúdas… e a menor delas sou eu.

A humanidade sonha: viajar no tempo.
Digo eu: é fácil viajar no tempo.

Antes do protesto e das provas em contrário, reafirmo, é fácil viajar no tempo, é bem assim: uma noite estrelada e uma pessoa a mirar o firmamento. Eu. Ou você. Pronto. Os pontos de luz que atravessam nossa retina surgiram há milhares de anos. Algumas até já desapareceram. É isso, vemos e vivemos, ao olhar para estrelas, um evento que aconteceu há séculos. O tempo, o aprisionamos nos olhos ao bem abri-los. O tempo nos aprisiona em seu mistério ao bem fechá-los. Porque quando fechamos os olhos para melhor sentir seja uma carícia, seja um doer, queremos nos colocar fora dele – tempo – mas é justo aí que ele opera, passa sem o sabermos e logo há histórias demais em nossa pele. Somos transitórios, é o que o tempo nos diz e, ao dizê-lo em estrelas que deixam de existir quando ainda as vemos, oscilamos entre finito e eterno. É na beleza deste intervalo que a gente reconhece: ainda não, e nesta brecha a vida se sabe mais.

Contar o tempo em xícaras de café, folhas que se amarelam – nas árvores e nas mãos, em beijos, sabores na ponta da língua. Deixar que seja o corpo o que ele se encaminha pra ser e rir-se em rugas nos cantos dos olhos como se dissesse: o seu tempo é o meu. O meu tempo sou eu. Então, espero a noite, vou pra varanda, abro bem os olhos e vejo estrelas que sussurram historietas de olhares outros. É bonito isso, de não estarem mais em lugar algum e ainda poderem estar em tantos olhos distantes. Estendo a mão, simulando um toque que transpusesse espaços. Em vão. A mais imperfeita máquina do tempo é a saudade.

 

 

 

Passar vergonha é muito melhor que passar vontade

Sabe o rosto devastado da Marguerite Duras? Posso começar um livro falando do meu rosto encalombado, eita que é espinha.

É engraçado saber que chegamos tão perto.

Sexo não sustenta namoro, o que importAHAHAHA sustenta comigo sim (às vezes o twitter é um lugar surreal)

Nós sempre teremos um boteco.

Passar vergonha é muito melhor que passar vontade (e, como dizia a Marquesa de Merteuil, a vergonha é como a dor, só se sente uma vez).

o que é ser humano? é desenhar uma clarabóia na cela cinza.

Cigarro e cerveja, chega mais, eu não vou resistir.

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Pois sempre foi exatamente assim, embora sem cigarro, sem Dean, sem roupa preta, sem largas e discretas janelas, sem P&B, mas exatamente assim. Foi exatamente assim embora sem os detalhes entalhados na madeira, sem as persianas fechadas, sem a elegância da moça, sem as manchas na parede, mas exatamente assim.

Pois sempre foi exatamente assim, mesmo sem nunca ter sido, sem mergulharmos no abismo, sem termos nenhuma memória que não pudesse ser partilhada nas conversas de salão. Pois sempre foi exatamente assim mesmo agora quando já não poderá ser e o agora dói como unha encravada (sei lá, devia ter uma metáfora mais elegante, mas só consigo enxugar o rosto e assoar o nariz e isso não é nada elegante, mas foi exatamente assim e eu nem sei mais usar pontuação porque preciso assoar o nariz de novo e me convencer que ainda sei respirar).

Não dá pra ver o rosto do Dean nesta foto aí. Mas eu, eu sei a doçura espantada. Sei a mão firme que sustenta e acaricia. Sei o olhar morno, encabulado e contente. A cabeça meio de lado, desviando a vista, embaraçado da alegria que quase se ouve. Sei o sonoro da gargalhada. Sei o corpo confortável no abraço. Sei que você riria junto. Sei o contágio. Eu escreveria: feliz, se achasse que felicidade vale a pena. Toda urgência diluída. Entre nós o gosto de cerveja e uma apenas. Apenas somos, ficamos, estamos. Cozinhamos, vemos filmes, trepamos, comemos, dormimos, ouvimos música, falamos. Somos, ficamos, estamos, tudo cabe neste abraço que foi exatamente assim mesmo sem nunca ter sido.

Se acaso me quiseres

Não tem nada funcionando por aqui.

Eu diria que é preguiça, não fosse a tristeza.

Salompas é coisa linda de deus.

Aquela vontade constante de fechar os olhos e dormir até 2024, no mínimo.

“Nada do que é humano me é estranho”, uso muito pra acolher os moços.

Eu digo sim. Para todas os caminhos que não vamos percorrer juntos, para as camas que não partilharemos, para as memórias que não teremos, para as promessas que não faremos.

Lembro Kundera e aquele lance de que é uma angústia que a vida não tenha ensaio nem esboço. Eu gostaria de ter vivido, também, aquela vida que seria nossa.

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é só pedir com jeitinho

Se ele soubesse como dizer. Como chegar. Ela passa e ele suspira, copo de plástico cheio de café, a manhã crescendo, um dia todo pela frente e a vontade de ficar por ali, seguindo em memória o passo balançado dela, que já dobrou a esquina em direção ao porto. Ele, no rumo oposto, o trabalho duro esperando, sabe, sem ver, o que vai ser do dia dela. Os olhos no mar. A espera. A saudade. Ela anseia e nele dói.

Se ele soubesse como dizer. Olha, olha pra mim. Olha como eu te olho. Olha, olha o meu sorriso bobo todo oferecido pra você. Olha a vida toda possível nos dentes alinhados, nos lábios estendidos, na alegria latente. Ele empilha caixas, transporta sacos, seus braços retesados de peso e abraços estocados. O ar seco dificulta o ritmo da respiração mas o peito se estende, imenso, aberto. Travesseiro disponível. Enquanto sua, ele a imagina. O vento marítimo lacrimejando os olhos femininos. Salgado, seu rosto, de mar e saudades. Ela oscila, sem porto e sem peito de apoio. Ele adivinha, lá longe, e sofre junto.

Se ele soubesse como dizer. Vem, moça, você cabe aqui. Vem, me escuta. Olha, descansa enquanto eu conto histórias, construo castelos sustentados em palavras, sonho aventuras, venço batalhas. Escuta os vales, as estradas, territórios outros, outro mar não navegado, um mundo meu que digo a você. Pausa pra almoço e ele sente a fome dela. O vazio. Ela e a inquietação. Vive em espreita. Volta já, ela tenta se consolar. Porque ele disse que voltava. Prometeu. Pro-me-teu, ela fala devagar, a voz doce, ele lembra, com um chorar surdo ao fundo. Quando? Qualquer um poderia perguntar, ele não pergunta, ninguém pergunta, com medo de quebrar aquela frágil espinha que se mantém reta na beira do cais. Em tardes de vento, sua saia abana como bandeira e ela deixa os olhos no mar, faróis, como se pudesse, com eles guiar os barcos e jangadas e navios e canoas e tudo que navega de volta à terra. Sereia ao avesso, seu silêncio é tentativa de resgate.

Findo o ofício, ele volta pra esquina de sempre, o mormaço do fim do dia dilatando as narinas enquanto espera o passo cadenciado que vem, na contramão da brisa, do mar pra terra, da saudade pra possibilidade, da incerteza pro abraço, da onda balouçante pra terra firme, quem sabe hoje ele tem coragem e descobre como dizer: morena, olha pra cá, olha pra mim, aporta, sossega, esquece, vem ver o sorriso, vem ser meu sorriso. Ela passa, desce a noite e ele suspira. Amanhã cedo, esquina, café quente e um novo quem sabe.