Deslizes

Resolvi muitas coisas hoje. Praticamente uma pessoa adulta. Passei perto de tudo que precisava fazer? Aí já é querer demais. Uma boa reunião, cartório, e-mails que eu não respondi. No fim do dia fiz uma sopinha de carne, daquelas com todos os legumes cortados em quadradinhos miúdos e quase idênticos. Tem um pênalti bem agora, no jogo que passa na televisão. Sempre penso na solidão do goleiro. Talvez para não lembrar da minha. Não sei de onde as pessoas tiram o tempo para tanta coisa, inclusive para a felicidade, para a infelicidade e para todas as séries que assistem, livros que lêem, músicas que escutam. Minha cozinha estava uma bagunça, agora só a pia estão lastimável. Dias melhores virão. Escrevi o conto e ele foi aprovado. Um dia de cada vez. E as noites todas me sufocando. Roubei das obrigações e acabei de assistir Uncoupled. Achei uma delícia (menos a cena final, mas entendi que era um gancho, etc).  Porém eu estava certa quando cogitei não ver. Não pelos motivos que cogitei. As emoções foram tão outras. Tive um estalo e percebi que minha questão não está nos términos, na ausência de um “um” na cama, nos dias; meu problema é não ter amigos do babado por perto. Fiquei muito envergonhada. My fault, i know. Muriçocas fazem a festa. Tão mais bem empregado o sangue se a visita fosse o Gary Oldman ou mesmo o Tom. Velhas referências. Separei umas fotos para colocar no mural de ímãs/viagens. Gastei tanto dinheiro hoje que fiquei tonta. E um pouco apavorada. Planejamento financeiro é no dia primeiro você saber em quanto vai fechar o mês no vermelho. Uma convicção: cafuné deveria ser considerado artigo de primeira necessidade. Vou ali, ouvir umas críticas da Isabela Boscov para me sentir sabida por gostar do que ela gosta. Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. Para quem acredita, as paralelas marcaram encontro no infinito.

Correspondentes

Orgulhosa de mim mesma e da coragem desprendida evocada, dei o que eu supus ser uma imensa patada. A pessoa achou que era um afago e me tratou com a displicência condescendente de sempre. Só me resta cantarolar: a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o livro é meu – porque um dia virá, sim, virá. Enquanto não vem, um convite gentil, um pequeno conto, uma boa aula, os Corleones, máscara com válvula, hidro, a correspondência. Abri o envelope e choveu dourados. Cartas há mais de um ano e você ainda consegue me surpreender. Alerta de correios e de sorrisos em mim, sorrisos que eu julguei perdidos. Ouvi uma musiquinha do Fito Paez. Tão doces os amores do passado que nos fizeram bem mesmo que não os entendêssemos como devíamos. Escuto os moços falarem de luxúria e me admira a segurança com que dão conselhos. Se eu fosse dos que dão conselhos diria: coloquem a macaxeira para cozinhar no cozido de carneiro. De preferência, tendo temperado a carne, também, com canela. E acrescentaria: depois que no prato estiverem carneiro, macaxeira e cuscuz, taca sem dó um monte de pimenta biquinho. Garanto uma boca em festa. Por falar em festas, ando precisando de um boteco. Em outra freguesia. Criei uma armadilha e me joguei nela. Eu era feliz e sabia. O que eu não sabia é que não seria feliz assim de novo. Os moços ainda estão no papo, infelizmente não dá para ignorar o moralismo dos conselhos. Sexo é um assunto complicado para se falar en passant – lembro-me de dar este desconto. Só me resta reler Ligações Perigosas e respirar por Merteuil. Eu não tinha medo de morrer. Agora eu tenho receio de não morrer. Ou de não saber que estou morrendo. Ainda estou decidindo. Li o diarinho da Fal e é óbvio que não devo assistir Uncoupled. Nem ler threads no twitter sobre obsessivos e histéricas. Este era o seu apelido correto: Olegário. Sôo ressentida? A dor é minha, o livro é meu. Comprei pasta de amendoim. Gastei dinheiro que não tenho. Não me senti melhor. Nem pior. Faz tempo que estou como o pintinho da piada: sentindo nada. Aí passa o efeito do analgésico e, claro, ninguém quer ler sobre isso. Fiz fotos com meus sapatos vermelhos. Não estou mais no Kansas, nem em Oz, nem mesmo em São Paulo. Mas encontrei um papel de carta muito fofo e etiquetas douradas em forma de estrela. Não estou fazendo planos pois não sei se estaremos juntos, eu e o futuro. Não sei quem ele vai encontrar, caso chegue. Provavelmente alguém que eu desconheço. Enfim, não estou fazendo planos, mas em algum canto bonito em mim, sonho encontros, vinho verde, pequenas palavras, imensos silêncios, muitos risos, talvez murmúrios, algum espanto, surpresas, conforto, a hora de ir embora sempre chegando antes do que devia. Preciso comprar envelopes.

Muito Greta Garbo, ela

“já realizou todos os seus sonhos?”
“Não, ainda tenho muita coisa pra fazer ainda, só tenho que descobrir o que é”
Martinho da Vila, mas podia ser eu.

Eu me sinto muito espertinha porque o Almodóvar também gosta do diálogo de Johnny Guitar. #mulheresabeiradeumataquedenervosfeelings

Cansei de tudo, tuitarei no blog.

Se eu participasse de Love is Blind provavelmente me envolveria com 100% dos não escrotos.

Fiz uma sopa tão gostosa que fiquei triste por todas as outras pessoas do mundo que tomam suas sopas pensando que estão boas. Não estão. Esta sim, estava.

Sobre a celeuma da Semana de 22, até ontem eu diria com prazer que não tenho informações suficientes para ter opinião, mas agora já não posso dizer isso, tenho informações o bastante para dizer que acho toda a conversa um tédio.

Tomar decisões é um esporte que eu pratico de maneira instável, então é tipo voltar pra musculação depois de um tempo sedentária, dói tudo.

A verdade é que eu pego muita corda. E agora estou sentindo falta dos seus emails. Vida que segue, espero que as fotografias do futuro fiquem boas.

Eu só ficarei realmente satisfeita com uma versão em que Christian e Cyrano se descubram apaixonados um pelo outro e dane-se a autocentrada Roxane.

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Muito triste não ter uma amiga que tenha uma vida igual à minha e passe pelos meus problemas e tenha as minhas aspirações e desejos e dificuldades para me ajudar a tomar as decisões difíceis.

Cresci em coletivos. A rua em que vivi toda a infância era uma espécie de vila e a família expandida era imensa com primos e primas dormindo em minha casa e eu na deles, viajando juntos, grandes almoços de domingo. Depois, grupos de jovem, coordenação de crisma, pastoral da juventude do meio popular, teatro, coral. A seguir, um projeto de extensão durante toda minha vida universitária, assentamentos, conselhos, associações, federações. Avançando em idade e tecnologia, listas de e-mails, longas e profundas conversas. Sempre tive e sempre gostei de ter gente por perto. Daí me mudei, me separei, filho vivendo distante, o trabalho que faço me mantem em contato com muitas pessoas mas não em grupo e, por fim, eu e a cidade em que vivo nunca nos entendemos muito bem. Sinto falta das experiências coletivas. Tentava amenizar com os grandes momentos de comunhão em redes sociais. Copa, Olimpíadas, Masterchef, até no BBB eu mergulhei para ter a sensação de algum contato com os outros. Funcionou por um tempo, mas a verdade é que me enfastio cada vez mais. Os mesmos temas voltando com tratamento cada vez mais tosco. Me cansam as bobagens ditas sobre psicanálise. Me entendiam as conversas sobre aparência, peso, ruga. Me irritam os papos moralistas. Vou preferindo o silêncio.

Me desagrada a vida que levo, do jeito que levo, mas me desagradaria ainda mais levar a vida do jeito que vejo os outros levando, mesmo que sejam felizes nelas – e que bom que são.

Meu casco parece cada vez mais atraente: uso os pôsteres dos filmes do Almodóvar de decoração.

Minha cozinha cheira a especiarias e pimenta de cheiro, meu prato de massa alcançou uma elegância que me faz chorar, só uso lençóis macios e tomo banhos de canela, camomila, mel e casca de maçã.

Cortei o cabelo e tá, olha, lindo demais.

2022 e alguma beleza

O ano só começa quando eu consigo voltar a escrever.

Como se diz bom dia? Bem assim: primeiro o flocão de milho amarelinho, amarelinho. Daí o leite. Pode ser de vaca, de coco, misturado. Deixa o flocão se hidratar. Um pouco de açúcar, um pouco de sal. Manteiga, claro. Um ovo, com a gema bem amarelinha – se quiser. Canela, cravo, queijo. Mexe, mexe. Um pouquinhozinho de nada de farinha de trigo. Fermento. Espalha na frigideira untad com mais manteiga. Bordinha quase queimou? Vira. Um balde de café quente, forte e amargo. Uma cadeira de balanço, vento enlinhando o cabelo, a vida proseando na calçada com o tempo que por ali passava e parou.

Existe uma beleza na alegria de ser quem se é. Acordei assim. Sorri pro meu sorriso no espelho. Ouvi minha playlist de forró. Comi meu milho com queijo. Inspirei com força o cheiro de mormaço. Amei meu rosto, meu corpo, meus dias.

A espiga, mugunzá, canjica, pamonha, cuscuz – com ovo, com manteiga, com leite, com galinha ao molho, com carne de sol, com queijo, chapéu de couro, bolo. É de milho? Quero. Quero o quentinho e o riso do amarelo. A chinela na beirada do alpendre. A rede no lento balanço. O lençol dançando no varal. O barulhinho dos animais no terreiro. O sol, o sol, o sol e aquela gotinha de suor, marota, escorregando pelo cangote e se perdendo entre os seios.

Daí me perguntaram sobre minhas habilidades. E eu falei que a que eu tenho é fazer as pessoas se sentirem bem. E eu sou uma pessoa, né.

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Roupa no varal, que não seca nunca, o cartão do mês que vem virando uma bola de neve, a máquina de lavar vazando, acordar procurando um email que não veio, Duras na cabeceira novamente, folhas em branco reclamando, alguns sorrisos, comentários enormes no Drops da Fal, todos os vasos da varanda vazios, a caixa dos correios vazia, a geladeira vazia, uma quinta-feira vadia, o Gilson de novo no blog – viva!, um banho gostoso, a carta escrita pela metade,  o filme do Woody Allen, a mais bonita carta de tarot, a canjinha da madrugada, cabelo cheiroso, nada de email, uma prova de kart, bolinho de chuva ou bolinho de arroz, papel de carta lilás, aquela paixãozinha pelo detetive de Shetland, a situação de Minas Gerais, autorretrato: um pedacinho de sonho cercado de solidão por todos os lados, muitos diminutivos no caminho, o analista impaciente, lista de supermercado, a vontade do mar, o email ainda não chegou, notícias tristes, notícias boas, vacinas para crianças, Vinícius Jr., sapatinhos vermelhos, café quente quente quente, lápis sem ponta, misturo sim peixe com laticínio, risco livros, como pizza de calabresa com queijo, sou uma vândala, tem uma nova maquininha na cozinha, tenho que comprar remédios, a restauração do Poderoso Chefão.

“Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”

Chegou 2022 com alguns aperreios inesperados. Cheguei nele com a decisão de ficar bem. De remover muros, cercas e sei lá mais quantas camadas de proteção que eu sei que uso, que nem o menino enrolado em plástico bolha do Pequeno Grande Time. Bora lá, mergulhar de cabeça, correndo o risco de partir uns ossos. Ou o coração.

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Desde que voltei pra casa eu não fiquei triste, triste de verdade. Nem alegre. Nem calma. Nem nada que se costuma usar pra definir um estado. Meio oca, talvez. Tirei uma foto do meu lindo óculos. E faço de conta que não quero saber se alguém viu. Tenho intenção de passar uns dias deixando o mar lavar a ferida. E bebendo mimosas. E caipirinhas. E cervejas. E alguma água de coco. Se ele soubesse – mas ele não vai – talvez ele pensasse: se eu vivesse com essa mulher, eu seria um alcóolatra. Digo eu: melhor que ser um adicto da infelicidade (perdoem, estou decompondo a amargura, espero em breve ter outros sabores). Minha pia está limpa, minhas roupas estão lavadas, o chão está aspirado. Ok, a cama está bagunçada e tenho livros demais dentro do quarto, mas, espiando rápido, 2022 já começa melhor do que terminei 2021. Eu não curto chá (ou infusão, como a Fal e o Fabi preferirem), mas tomei banho de camomila. E fiz uma pequena prece – para os deuses gregos, que são os únicos que conheço pelo nome e tal. Comi pizza ontem, comi pizza hoje. Com café. Doei coisas, ganhei uma churrasqueira de fogão, além de um batom nude e água micelar – tive que pesquisar pra descobrir o que é. Vi muitos episódios de queer eye sobre pessoas incríveis que trabalham muito pra fazer o mundo melhor. Fiz isto enrodilhada na minha preguiça. Foi confortador passar o ano só e confirmar que sou desnecessária. Estou lendo um conto com uma personagem se chama Glosspan. Nem precisa muito mais do que isso pra ser bom, não é? Preciso de uma luz mais forte no meu quarto. De um colchão novo. Ir ao dentista. De menos danos. Melhores planos.

Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”.  A frase do Maradona é a epígrafe de um filme. Gosto de pensar que funciona, também, como síntese das minhas ações em relação a, bom, essa coisa toda.

Eu nunca fui especialmente ligada em super heróis embora tenha lido muita, muita mesmo, revistinha na infância/adolescência. Essa ênfase na quantidade vinha mais pela facilidade de encontrar este tipo de coisa pra ler do que por uma preferência temática. Entretanto, em tempos recentes, a Marvel tem me oferecido um consolo parecido com aquele que advém dos romances policiais, especialmente dos livros da Agatha Christie. Eles me confortam. Colocam meu mundo no lugar, mesmo que temporariamente. Dificilmente eu poderia eleger meu Vingador preferido. Mas, ao longo do tempo, fui reconhecendo minha afinidade com um tipo de personagem: o mais humano – e, humano, aqui, simbolizando potencial para enfiar o pé na jaca. Na longa lista brilham Derfel, Boromir, Rollo e afins. É nessa tradição que se apresenta meu xodó pelo Gavião Arqueiro. O herói de mau humor. Que sai todo roxo dos embates. Que faz o que é certo porque, bom, é o certo. O que tem uma melhor amiga. Que se envolve. Que vê longe e escuta mal. Que brinca com os filhos, tem piada cúmplice com a companheira, que passa vergonha em público. Nesse 2022 só quero voltar a ser eu mesma, sem nenhuma pretensão de super poder, pendurada nos prédios por um nadinha, fazendo o que é certo porque é certo e, evntualmente, o pé todo atochado na jaca.

Das coisas que você precisa ouvir, mas eu nunca, nunca vou te dizer: você toma péssimas decisões.

Antes de conhecer você eu não tinha razões para viver. Mais, eu não tinha razões para morrer. Você me deu os dois.” Se eu fosse uma das criadoras do álbum, colocaria assim: “amar é”… ver sinais onde existem apenas coincidências e diálogos fracos. Estou assistindo A Roda do Tempo. A série é bem qualquer coisa, há desvios demais da história dos livros pro meu gosto, mas – tal como os personagens todos – estou envolvida com Moiraine e disposta a segui-la, mesmo me sentindo incomodada quase sempre.

Segunda temporada de Emily em Paris: um conflito besta que se estende em um segredo sem pé nem cabeça. Mas o personagem Luc cresceu bem e me diverte.

Andei vendo: Tick, Tick…Boom!; A Filha Perdida; Meu ano em Nova Iorque; Não Olhei Para Cima, A Mão de Deus. #aquecimentoparaoOscar

Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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“O acaso é a flor do real”

Pois é, viajando. Tal como o moço da piada caindo de um prédio muito muito muito alto, o que eu posso dizer sobre isso é: até agora, tudo bem.

Liberdade nunca é demais. Subir e descer e descer e subir, entrar em todos os mercados e ficar espiando rótulos com símbolos que nunca jamais decifrarei. Comer guioza na rua. Sentar no banquinho e espiar pessoas e tampo passarem se misturando. Querer mergulhar no caldinho do Tempura Udon do Izakaya Issa. Comprar temperinhos. Uma senhora idosa de máscara bem assentada, um pouco curvada, bengala estilosa e passo calculado como se o tempo estivesse a seu serviço e abrisse espaço na calçada para ela seguir seu trajeto. Jovens ligeiros gesticulando muito, ocupando a calçada na largura, falando uns com os outros e no celular – ao mesmo tempo. Um homem e duas crianças de olhos sorridentes por cima das máscaras coloridas param na ponte para tirar fotografias. Som, som, som e, entrando no jardim, um repentino som que, de tão diferente, é quase silêncio, como quando se atravessa uma cachoeira e já não há antes nem o depois, só a água fora, dentro, por todo lado, entontecendo. Uma moça fuma e reclama baixinho com ninguém, segurando o celular quase com repulsa. Duas adolescentes trocam selinhos. Um senhor de suéter azul, cabelos grisalhos e uma teia de tempo no rosto, fuma, distraído. Queria  me ver assim como vejo toda gente. O jeito, o corpo, as expressões. Meu rosto deve parecer tão triste de máscara, talvez, os olhinhos baixos sem o sorriso pra distrair. A sapatilha vermelha fazendo seu trabalho de destruição. Sacolas e uma bolsa de cactos. Sobe e desce e desce e sobe, entrando nos mercados, comendo na rua, carregando uma gargalhada como uma cicatriz, se esquecendo do tempo sentada no banco do jardim com um kindle no colo e o olhar vagando dentro.

No mercado de lá tinha lichia, perguntei o preço, balancei, não comprei. Na esquina daqui tinha castanha portuguesa, não perguntei o preço, comprei-a-a como diria o Rolando Lero. E depois chorei.

Choro por tudo que a gente não teve, por tudo que a gente não realizou, choro porque eu sei etc. Eita, Fábio Jr.

Por muitos anos eu evitei visitar São Paulo achando que nada havia lá que fosse realmente me interessar. Boba. Por muitos anos evitei visitar o Rio de Janeiro temendo que a realidade não se empariasse com minha imaginação alimentada por Nelsons e Vinícius. Boba. Boba.

Bem baixinho, no cantinho: São Paulo me trata melhor. Pohan, Rio, chuva? (e nem vamos falar do tira-gosto).

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Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

E essa é a última vez que eu digo que é a última vez. Porque estou cansada de não estar contente, sabe. E não tem mais desculpa, nem pra você nem pra mim. Estou aqui, estenda a mão, abra os braços, me cante uma canção bonita. Qualquer versão disso. Eu entendo as dores, mas já não quero um afeto que se recusa. Que me recusa. Te deixei livre para todos os caminhos, o passo e a rota que você escolhesse. Mas não viajar é dolorido demais. Você fica. Fique. Eu vou. Violeira. E se confundo lágrima e neblina é só um jeito diferente de ver a paisagem. 

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(Yuval Robichek)

Cartas e carrancas

Não tenho nada a dizer sobre o disco novo do Caetano. Não tenho nada a dizer sobre muitas coisas e mesmo sobre aquelas poucas que tenho algo ou muito a dizer, tenho silenciado quase sempre. Menos nas oito longas páginas – e contando – em que desfio memórias incompletas, reflexões antigas, perguntas novas, piadinhas cada vez menos preocupadas em fazer sentido e vários nadas contentes. Há muitos adjetivos nesta carta. Dos bons. E palavras proparoxítonas, que ambos gostamos. O antigo twitter seria impossível pra nós. O novo quase o é. Hoje espiei a frente da sua casa no google maps. Não sei se fui xereta ou atrasada nessa iniciativa. Não sei o que você sabe de mim. Mas sei o que importa: você ainda quer saber mais. Foda-se pandemia, eu já não quero nenhuma vida senão a que vou inventar.

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Eu sou ansiosa. Chego antes. Imagino de tudo: atos, sentimentos, finais. É muito raro (e, também, muito precioso) que alguém consiga apenas ser, ao meu lado. E, mais, que me faça apenas existir, sem a imaginação, as expectativas, os diálogos imaginários, as ações marionetadas, as grandes despedidas. Obrigada.

Porque hoje é sábado, isso e aquilo – foi mais ou menos assim que escreveu Vinícius. Porque hoje é sábado, 240 km de estrada pouco tranquila. Porque hoje é sábado, jantar 23hs. No intervalo: água, café, palavras. Porque hoje é sábado, trabalhar feito boi de puxar engenho e não terminar o que havia pra ser feito. Não chegar nem perto. Porque hoje é sábado, uma saudade inconveniente. Porque hoje é sábado, esvaziar a geladeira, separar as roupas pra máquina, aspirar o quarto. Porque hoje é sábado, futebol. E ainda que não fosse sábado, uma pontada com a derrota. Porque hoje é sábado, bater o martelo em uma casa pra chamar de minha no Rio. Um sapato vermelho pra São Paulo. Porque hoje é sábado, reler cartas e reinventar minhas respostas. Falando em carta, uma para o domingo: rainha de copas. Uma para o futuro: rainha de paus.

Belchior

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Mas, principalmente porque você não estará por perto para ouvir.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a distância é tão grande. Porque doem ao sair do peito para a língua e, afiadas, cortam minha garganta no caminho. 

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Um livro de capa amarela. Canetas falhando. Comida ruim. Tarefas incompletas. Seu fantasma puxando o meu pé. O jogo indesculpável da seleção masculina de futebol. Mais de 600.000 ausências. As decisões judiciais absurdas. A planilha de contas. A planta que definha. A mensagem que eu não respondi. O programa tranqueira. Todas as pecinhas do quebra-cabeça que anunciam: ano passado eu morri mesmo, o Belchior estava certo. 

Ossada Perpétua

Ontem foi aniversário do Verissimo e eu queria comemorar com você. Tem disco novo com músicas do Aldir Blanc, penso logo em mandar o link. Meu time empatou, o seu venceu, eu poderia comentar isso. Vi episódios do Chico & Caetano, mais um tópico. Guardo mais um pdf que você gostaria de ler, arquivo uma e outra imagem que faria você rir, salvo pequenas tiradas, registros do cotidiano, memórias e insights, tudo que poderia lhe interessar. Vou montando uma ossada perpétua desse amor.

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É difícil demais aceitar que o trem já partiu. Reconhecer o não. Especialmente quando a pessoa é displicente ou receosa demais de dizê-lo assim, bem soletradinho: ene-a-o-til. Eu nunca entendi muito a necessidade de devolver presentes, fechar gestalts ou sei lá o nome que se queira dar pra passar a régua e zerar a conta. Provavelmente porque eram minhas as costas que estavam sendo vistas. Ainda não decidi se mantenho esse Amarcord na estante ou faço um pacote com a carta de despedida, a proposta que esbocei tão bonitinha e se tornou obsoleta e mais dois ou três presentes que planejei enviar e agora são excrescências. Queria respirar fundo, empinar o peito e desculpar-me, tal como a Audrey, de que não poderei ficar para lavar os pratos. Vou ensaiando.

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Vaidade é um negócio que me surpreende não porque me falta, mas porque me sobra. Vejo pessoas deixando de usar máscara, usando ineficientes máscaras de tecido com renda ou laços, comprando caras máscaras coloridas pra combinar com a roupa, etc. JAMAIS me passaria pela cabeça que usar qualquer tipo de máscara segura me deixaria menos linda do que reconhecidamente me sinto e sou.

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Semana que vem eu pretendo ir à praia. E na seguinte vou a Fortaleza e, sim, comprarei peixe no mercado. Por um tempo pensei que o segredo era recuperar todos os meus pequenos pedaços e descobrir como reencaixá-los. Eu, quebra-cabeça. Quando muito, providenciar ouro e fazer kintsugi do coração. Bobinha. Olhando os cacos todos no chão, bordas ásperas, algumas pontas esfareladas, percebi que o caminho é uma espécie de bricolagem. Como a que faz a irmã que quebra toda a porcelana que a outra colecionava e, depois, transforma aquela devastação em beleza, cobrindo uma parede com os cacos, no filme Colcha de Retalhos. Reinventar-me, outra, com o que já fui e mais as belezas e toda gentileza que puder misturar pra fazer o grude.

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Eu não sou muito de reclamar da temperatura, calor ou frio, porque não sou muito de reparar nela. Mas, né, até eu tenho limite. Aqui fez um calor na semana que passou que me fez chorar. Não que eu tenha precisado de muito motivo pra chorar nestes últimos dias. Ou meses. Ou anos, se pensarmos bem, mas divago. Fez um calor desgraçado. Sem brisa. Abafado. Como se o calor fosse um elefante suado sentado no meu peito. Além da agonia, uma saudade. Senti falta da ignorância, de não saber outros lugares e seus termômetros. Leio as pessoas falando em primavera (coerentemente), mas outubro, pra mim, será sempre outono, castanhas assadas, folhas vermelhas, vinhos mais encorpados. No antes, eu aqui eu só tinha a estação praia, aprendi os demais ritmos com sotaque luso e, suspeito, será sempre assim que lembrarei. Ela, a Fal, contou que canta em voz alta. Eu nunca falo em voz alta e raramente canto, o que me fez pensar que as palavras que me habitam tem mais discernimento do que eu mesma. Em outra editoria, deixo registrado que gosto das minhas rugas – e também das rugas da Fal. Disse o Caio: “queria tanto que alguém me amasse pelo que escrevi”. Por muito tempo essa frase me acompanhou como uma espécie de farol meio inconsciente, presente sempre que eu começava a digitar. Um alguém é qualquer um e, eventualmente, até mesmo uma ausência. Tinha e não tinha um leitor ideal(izado) #Schrödingerfeelings. Mas a maré enche e seca e deixa coisas na areia além de conchas ocas. Alguém agora tem endereço, barba e tristeza no olhar. Tem sotaque e blusas de botão. Boletos. Tem até rima e rival. E eu, modesta, um pouco tímida, nem fico querendo ser amada pelo que escrevi, fico cantarolando como uma atrasada Mutante “eu só quero que ele me queira” pelo que escrevi ou por qualquer outro motivo trivial, sei lá, porque meus dedos médios tem uma curvinha charmosa.

Ontem revi O Poderoso Chefão pela zilionésima vez e é sempre um espanto. O filme é todo, todo, todo incrível, mas os primeiros vinte e seis minutos, sei nem o que diga de tão bem feitos.

Um amor geralmente é uma pergunta. Uma inquietação. Aqui chegando logo vi que sabia tão pouco, ou mesmo nada.  E na mesma medida que chegava o encanto, chegava a vontade de conhecer. Essa suposição ingênua e recorrente de que, ao desvendar o objeto de amor, o teremos mais nosso. Quando muito, acontece de sermos mais dele.