Deslizes

Resolvi muitas coisas hoje. Praticamente uma pessoa adulta. Passei perto de tudo que precisava fazer? Aí já é querer demais. Uma boa reunião, cartório, e-mails que eu não respondi. No fim do dia fiz uma sopinha de carne, daquelas com todos os legumes cortados em quadradinhos miúdos e quase idênticos. Tem um pênalti bem agora, no jogo que passa na televisão. Sempre penso na solidão do goleiro. Talvez para não lembrar da minha. Não sei de onde as pessoas tiram o tempo para tanta coisa, inclusive para a felicidade, para a infelicidade e para todas as séries que assistem, livros que lêem, músicas que escutam. Minha cozinha estava uma bagunça, agora só a pia estão lastimável. Dias melhores virão. Escrevi o conto e ele foi aprovado. Um dia de cada vez. E as noites todas me sufocando. Roubei das obrigações e acabei de assistir Uncoupled. Achei uma delícia (menos a cena final, mas entendi que era um gancho, etc).  Porém eu estava certa quando cogitei não ver. Não pelos motivos que cogitei. As emoções foram tão outras. Tive um estalo e percebi que minha questão não está nos términos, na ausência de um “um” na cama, nos dias; meu problema é não ter amigos do babado por perto. Fiquei muito envergonhada. My fault, i know. Muriçocas fazem a festa. Tão mais bem empregado o sangue se a visita fosse o Gary Oldman ou mesmo o Tom. Velhas referências. Separei umas fotos para colocar no mural de ímãs/viagens. Gastei tanto dinheiro hoje que fiquei tonta. E um pouco apavorada. Planejamento financeiro é no dia primeiro você saber em quanto vai fechar o mês no vermelho. Uma convicção: cafuné deveria ser considerado artigo de primeira necessidade. Vou ali, ouvir umas críticas da Isabela Boscov para me sentir sabida por gostar do que ela gosta. Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. Para quem acredita, as paralelas marcaram encontro no infinito.

Contente

WhatsApp Image 2021-10-07 at 09.09.21

Nada de raízes, tenho âncoras, já falei algumas vezes. De outro jeito: eu sou meu próprio lar. Andava exilada e, hoje, a sensação de que estou voltando pra casa. A amiga lá longe disse: o retorno de coisas que dão alegria na vida. Coisas que a pandemia nos tirou. Coisas que nos dão muito prazer e nos definem. Ela me conhece muito. Olhar no espelho e perceber que estou sorrindo. Pode ser do bolinho de espinafre. Da piscina aquecida. Das primeiras páginas d’A Convidada ou das últimas d’O Amante. De me sentir feliz na chegada e na partida. Seguir a vida. Ter os planos bagunçados. Fazer pequenas listas confusas: trocar o punho da rede, descascar macaxeira, enterrar a margarida. Rir sozinha das coincidências. Escrever: so-zi-nha e não parar de respirar. Experimentei soletrar seu nome. Depois, em sílabas. Murmurar inteiro. E em voz alta: nome e sobrenome. Olha só, o chão ainda está aqui, sob os meus pés. Se não contarmos o cearensês, a língua italiana é provavelmente a mais bonita. Certamente é a mais gostosa. Estou indo embora como a Julieta dos espíritos, mas tocando o trompete do final d’Os Palhaços. Fechando o círculo: lembrei que tem gente que faz bem pra gente sem nem precisar estar com a gente, só por estar na gente. E ter marcado o colchão. De resto: pia cheia, panqueca de cogumelo, promessa de mimosas, foto sorrindo, o samba da Vila de 2022, instrução normativa de retorno à atividade presencial, uma consulta médica agendada, os livros de poesia da Ana Martins Marques, uma carta que não chegou ao coração de Minas, garrafinhas de água, Stellas vazias enfileiradas no quintal, a carta dos enamorados, um galeão saindo do peito. Eu ainda durmo do lado da cama mais perto da porta.

WhatsApp Image 2021-10-07 at 09.07.49

Infinitena #dia467 #dia04 #dia331nocalendáriokalúnico*

Ela disse assim: hoje. Mas foi ontem. Nunca fui boa com calendários. Mas sei que seria boa com você. Uma certeza a la Arnaldo. O Antunes, embora do Jabor a gente possa aproveitar a Fernanda de chapéu. Sim, a minha relação com arte é confusa. Aliás. Com a arte? Agora eu ri. De mim mesma, é como sai mais livre a minha gargalhada. Sim, sou dos sorrisos, você não errou. Mas também nos encontraremos no escuro. Um dia. Outro. Depois. Fiz um ovinho mexido, mexi no programa das disciplinas do próximo semestre, enchi uma caixa com víveres do fim de semana. Dei uma olhada na caixa de e-mails e senti um arrepio com a quantidade de mensagens da amazon. Alguém comprou livros demais. Na tv, as mulheres do vôlei brasileiro e seus bonitos sorrisos. No notebook, o lamaçal na transmissão da CPI. Pelas TLs, fotos de pessoas sendo vacinadas. Ainda me emociono. Pra melhorar, também aquele ele. Alívio. Brinde, prometi, Mas, eu dizia: ela disse hoje. Quando era ontem. Ontem foi a falta. Não de você, que é sempre (eu exagero, minha amiga se alarma, eu tento explicar que a palavra escrita cabe mais que o peito). Falta do amarelo. Do milho que se faz pamonha, canjica, mugunzá. Que se mistura com vermelho nas fogueiras, nas roupas, nas bandeirinhas.  Dia, não, noite, de sentir falta da sanfona, do salão, do corpo suando junto a outro corpo. Se algum dia eu precisar esquecer você, vou pensar assim: ele nem dança forró mesmo. Vou ver Loki. E Luca. E o mar. Não hoje, mas quase. Vi você. Das coisas que eu gosto em você: esse sorriso bobo no meu rosto. Se você visse o que eu vejo. Em você, em mim, no mundo. Se meu fusca falasse. Se a avó de não sei quem tivesse rodas. Se a gente pudesse mandar o Michael no lugar do Gerson. Essa jogadora de cabelo cor de rosa, no time da Turquia, é encantadora. Ainda me espanto como as pessoas fodonas de vários campos não entendem o uso da máscara (e não falo de negacionistas escrotos). Mais tarde serei vidraça. Já coloquei o vinho na geladeira. Ela disse: hoje. E disse: comentário tonto. Como se fosse eu. Fiz tudo certinho. Fui indo, fui indo. Vi a placa. Pare aqui. Vaga na garagem coberta e tudo. Mas o pé, o pé no acelerador. Na jaca. Chutando tampa, balde, tudo. E a cara batendo no muro. 

106269834_2990445287660048_6728580780426080582_n

*************************

Um comentário de nada enquanto Teresa Cristina cantava, um gole a mais de vinho e uma mensagem sua, uma desnecessária simpatia minha e o convite pra outro canal. Para quem não sabe, a miudeza embaralha a vida. Bem assim.

*******************

As coisas que eu sei: sua vida não cabe na minha. Minha vida não cabe na sua. Mas umas horas em uma tarde de, sei lá, qualquer terça, pouco tempo, pouca palavra, pouca roupa, quando a vida vai dar uma brecha?

Ler as cartas da Simone de Beauvoir pra Algren, além da sensação de espiar pela fechadura, alenta. Toda carta de amor é mesmo ridícula, estava correto o moço lá. 

Eu tenho tirado muita selfies. Suspeito que a ausência do olhar alheio vai esgarçando o limite entre o dentro e o fora meus, entre o público e o privado, entre o que mostro e o que disfarço. Vou perdendo contorno, definição. Ontem comprei sutiãs e quase fiz mais do que falar sobre isso no twitter. Olha a falta da fronteira aí, gente. Na ausência dos olhares de desconhecidos na rua, de amigos em bares, de flertes, vou de selfies e noites de quinta. A selfie ajuda, me lembra quem sou, quem posso ser e quem fui. Mas o principal, não consegui decidir: de óculo ou sem?

*Calendário Kalúnico: significa nada não, gente, eu inventei

À moda de Lafayette

(leia cantarolando Fracasso)

um abraço pra Maria Angélica,
que acreditou em mim, tadinha

Eu não faço bolos. Eu nem como tanto bolo, não acerto, nunca tem tudo que precisa, antigamente tinha aquele lance de bater claras em neve, não tenho batedeira, etc. Eu não faço bolo.

Mas minha sobrinha de 8 anos fez um bolo lindo. 8 anos, eu disse. Um bolo super simples, disseram: 3 ingredientes. Opa, 3 ingredientes é capaz de rolar. E, né, hoje é aniversário do meu filho, estou longe, fazer bolo tem um efeito simbólico que me consola um pouco. Pois bora.

3 ovos, duas xícaras de leite em pó,uma colher de fermento. Simples, né? E uma sorte, eu nunca tenho leite em pó, mas comprei um saco pra fazer pão, sobrou quase todo. Pois fiz, bati os ovos, misturei o leite em pó, coloquei o fermento… Aí eu pensei:

uma pitadinha de sal, claro, tudo que é doce pede sal. Daí lembrei que estou sem sal comum em casa (sempre falta alguma coisa, eu disse), coloquei uma pitada de sal grosso, talvez não tão inha assim. E como uma coisa puxa outra, lembrei que tinha coco ralado na geladeira. Vai uma colherzinha? vai sim. Não coloquei muito, pois não sabia o efeito na massa. Quando fui guardar o resto do coco na geladeira vi o queijo. Porque ralá-lo, porque não ralá-lo… ralei-o-ô. Mais uma colheradinha na tigela.

Tão contando os ingredientes? De três pulamos pra seis. Hora de colocar no fornOPA tem que untar a forma, aí me toquei que também acabou a manteiga, untei com azeite.

Uns quinze minutos de forno e ficaram LINDOS. Lindos mesmo, fofinhos, convidativos, cheirosos… eu podia parar o relato aqui, vocês nunca saberiam a verdade: ficaram uma delícia porém salgados. Quando pega uma lasquinha do coco engana mais ou menos. Mas tá salgado.

Modus que se algum outro dia eu for incursionar por estas paragens (que não vai ser tão cedo pois acabou o leite em pó também), ou sal ou queijo, luciana.

96520114_2853755451329033_85752376434098176_n

Zapidinhas

Já que não me levam pra suruba, quero pelo menos o bar e o torresmo.

De maneira geral eu acho que importa pouco se o outro amou e deixou de amar, nunca amou, achava que amava mas não amava, acha que não amava mas amava, acha que não amava mas ainda vai descobrir que ama. Viver uma separação pode ser duro, melhor fazer isso sem ter que dar conta do sentir alheio. É complicado fazer uma re-leitura dos tempos passados a partir dos sentimentos do presente, acho. A gente acaba pensando/dizendo que sentiu coisas que estão sendo sentidas agora ou, dependendo do que se sente agora, a gente olha pra trás e deduz: se sinto X agora, obviamente naquele tempo eu me sentia assim e assim. Não sei se estou sabendo me explicar, mas se você conseguir, se proteja um pouco e não se deixe magoar pelos motivos. Já há dor o suficiente no ato em si, esqueçamos as razões. Pelo menos hoje em dia tem Netflix. Todas às vezes que começar a pensar se ele isso ou aquilo, se você tivesse feito isso ou aquilo, se vocês tal e coisa quem sabe… liga logo a Netflix.

Lembro que meu pai dizia, quando eu era criança: se não tiver coisa boa pra dizer, não diga nada. Claro que o contexto era outro, mas suspeito que as notícias vão seguir assim, curtinhas, por um tempo.

eu sou uma pessoa constantemente deslumbrada, então pouco me choca pois já vivo de olho esbugalhado.

myga, sua louca, viver é contagem regressiva.

Nós temos ritmos diferentes, não há como esconder. Eu tenho a presa de saber o bem querer, você tem a paciência de deixar ele crescer como quiser. Eu uso mapas para tentar lhe desvendar, você me desenha à mão livre. Eu chego deixando malas, marcas, perguntando e procurando, você evita forçar portas, janelas, corações. Às vezes eu temo que minha impetuosidade lhe assuste. Às vezes temo que sua cautela me afaste. É engraçado perceber que minha zoada e seu silêncio falam a mesma coisa ou dizem da mesma coisa.

É seu aniversário e eu fico toda paba da minha vida encostar na sua, vez em quando. Desejo que os dias sejam frescos, que o café seja quente, que os lençóis sejam macios, que vez em quando alguém massageie seus pés, que os animais só morram de velhinhos, bem bem velhinhos, que haja risada vez em quando em algum cômodo da casa, que cheire bem o refogado, que a vitrola (que continuemos a chamar assim) cantarole os mais delicados acordes, que Antônio, Dean, Darín e uns outros tantos moços assim apareçam vez em quando para fazer boa companhia, que as pessoas decepcionem cada vez menos – ou que você as ignore cada vez mais, que o molho de tomate leve manjericão e que as dores dos dias – tantas, sei bem – não sejam maiores que as belezas. Te amo.

Como hoje a vida fere mais fundo (não, não fui eu, foi o Vinícius que disse) não mando beijos nem cheiros, sinta-se devidamente mordido.

Lamento demais não poder estar perto fisicamente, chorar com você, cozinhar pra você, arrumar gavetas, lavar e desembaraçar seu cabelo, fazer chá, fazer café, empacotar álbuns, dobrar lençóis, jogar fora calcinhas,  planejar mudanças, beber junto e te colocar na cama, dar o cafuné que você precisa.

se ao meno tu parasse quieto eu ia te visitar… pra nós viver igualado a sanguessuga nosso amor pede mais fuga do que essa que nos dão #momentogonzagão… mas tu só vive batendo perna pelo mundo (no que tá muito certo)

acho que a gente continua amando, mas tem que saber que ama uma memória, quem a pessoa foi, não quem a pessoa é. E, principalmente, a gente ama quem a gente acha que era com aquela pessoa. Não digo que não tenha casos de reencontro em que a pessoas se amem no hoje, mas aí é como se fosse um relacionamento novo, é outro amor porque são outras pessoas envolvidas, pessoas que aquelas que elas foram são importantes pra ser quem elas são, mas já outras.

Faltando você, então faltou quase tudo, mas vi os viajantes, bebi com minha dona, ganhei torresmo, vou comprar lichia. Então sobreviverei. Tristemente, é fato, mas na vibe Scarlett.

Uma coisa: a gente usa morno pra definir relações que a gente acha que não estão bem mas, olha, morno é bom. Não queima a língua, se for sopa. Não mata de calor nem faz sofrer de frio. Um lugar morninho pra se enroscar é tudo que queremos quando venta demais. Sei lá, talvez antes de decidir qualquer coisa seria bom dar uma conferida no que são as reais expectativas e o que é mesmo a tal felicidade.

o certo é que tem que ter um #bolsaamizade ou, pelo menos, desconto nas passagens aéreas.

fotodecapa

Botão de Autodestruição

o que nos resta é o fato de que o organismo deseja morrer
apenas do seu próprio modo

 

Uma rosácea tão atacada que o rosto que parece um caminho de cascalhos, dores em lugares do corpo que eu antigamente nem lembrava que tinha, uma imunidade tão baixa que nem o mais flexível dos bailarinos passaria embaixo do sarrafo, suspeito que o organismo aqui já resolveu o como, só falta chegar lá.

Como eu posso condenar quem usa drogas: eu me entorpeço mergulhando em romances policiais e vendo esportes na tv.

No governo golpista Temer a sensação era de queda livre (passando pelo décimo terceiro andar e até agora tudo bem), agora é de areia movediça (e já com a lama no pescoço).

É melhor ser alegre que ser triste, né, Vinícius.

Vou ficando mais e mais preguiçosa. Pra tudo: limpar a casa, ler textos de trabalho, escrever artigos (a única coisa que ainda não esmoreci foi preparar e dar aula). Como se a bateria estivesse acabando.

Uma prece: dai-me a coragem de não saber sobreviver. Ou: dai-me a sabedoria de não ter coragem de sobreviver. Ou: dai-me a sabedoria de sobreviver sem coragem. Ou dai-me a coragem de sobreviver com sabedoria. A verdade é que nunca aprendi a rezar mesmo.

Passar os dias como atleta de saltos ornamentais: dar umas cambalhotas não por acaso batizadas de mortais e torcer pra não cair de barriga.

Sempre achei intrigante a mania que os vilões tem de colocar botão de autodestruição com contagem regressiva que sempre permite aos heróis desenvolverem uma estratégia pra salvar a própria vida/a situação/o mundo.

Viver é indizível, biografia é ficção.

A imagem pode conter: 6 pessoas, texto

Antes que os amigos planejem uma intervenção, ainda faço planos pro ano novo, ainda reservo pousadas para setembro, ainda marco jantares pra daqui a duas semanas.

Mimosas

O que nos faz humanos é a incompletude, a falta. Não só a existência da falta mas os esforços que fazemos por conta dela, o quanto nos dedicamos a escamoteá-la,  disfarçá-la, esquecê-la, negá-la e afins. Uma das mais e menos bem sucedida tentativa humana é a comunicação. A gente manda brasa na fala, na escrita, nos desenhos, whatever, com a ilusão gostosa de que pode ser que alguém, em algum lugar, receba a mensagem. E recebem, mas o quem, o onde, o quando e o o quê não são o que planejamos. Com sorte, um deles o é. Na maior parte dos casos, a gente atira no que viu e acerta no que não viu. Isso pra dizer que certamente a Fal e a Dani da Fal, envolvidas nesta conversa, não podem ser responsáveis pelo despirocamento de escrever um comentário do tamanhão que escrevi, muito menos pelo seu conteúdo desgrenhado:

Cheguei mais de 21hs em casa, exausta depois de três expedientes na universidade. Fui arrumar a pia (não lavar a louça, ainda não) e quebrei uma caneca querida, chorei. Catei um pão com manteiga, um copo de iogurte e resolvi comer lá em cima. Daí chutei a quina do degrau da escada e, claro, chorei. Piscando as lágrimas, passei o olho pelas notícias e vi: morreu Niki Lauda, lenda da fórmula 1 e eu chorei (não me pergunte se pelos apenas 70 anos dele, se por mim que assistia isso nas manhãs de domingos tão outros, se apenas porque meu mundo não para de se acabar antes de mim). Não dei prosseguimento na conversa com a amiga, não continuei a leitura do bom livro, não escolhi um filme bom na tv a cabo ou netflix. Deitei e fiquei olhando as pás (é assim que chama?) do ventilador de teto desligado (não porque não esteja calor, mas porque ele tá com defeito e eu nunca consigo me organizar o suficiente pra chamar o eletricista, daí estou usando o do quarto de visitas) enquanto o embaçado do dia secava. Antes de entregar os pontos e dormir o sono que não sinto porque amanhã o dia me exige cedo, vim aqui pra ver se havia alguma conversa nova. E havia. “como o seu, meu corpo também está tentando se livrar de alguma coisa. Acho que é de mim” eu devia ter rido, mas eu chorei. “quero ser uma pessoa doce e primaveril” eu devia ter chorado mas eu ri. Mas esse comentário todo era apenas pra dizer que eu, apesar de não fumar, tenho uma cigarreira que comprei na Feira da Ladra. Não sei onde está, claro, mas qual a novidade, ando perdendo até a mim. Eu gargalho ainda, mas sorrio bem menos. Queria mesmo era comprar uma passagem e tomar café da manhã com você em uma padaria meio metida, vamos pedir mimosas?

se alguém estiver se perguntando, sim eu coloquei um comentário destamanhão no post de uma amiga. em minha (pálida) defesa, devo dizer que ela consentiu. Fal, melhor pessoa (procurei e achei a cigarreira, amiga), Drops da Fal, melhor lugar.

WhatsApp Image 2019-05-21 at 10.02.03

A mesma bagaceira que faz a comunicação ser um sucesso por ser um fracasso (e vício e verso) é, suponho, o que justifica que eu tenha comprado e mantenha uma cigarreira sem ser uma fumante. Ou sendo, mas basicamente só em intenção. Daquelas, provavelmente, que lotam  o inferno, aquele que tal como o entendimento completo, o encaixe perfeito, a relação sexual e A Mulher, suspeito que não existe.

 

Publique-se

Usou a palavra arco já me distraio na conversa.

Eu realmente gosto de Onze homens e um segredo, todo mundo com cara de quem tá se divertindo e ainda mudando o final mega moralista do filme original. Gente curtindo o que tá fazendo me inspira.

Vamos falar de sofrimento, agora a tv fica brincando de aparece e desaparece com as legendas.

Ah, mas não dá pra comparar livro e filme/série. Não dá mesmo não, são dois veículos muito, muito diferentes. Isso não significa, acho eu, que não dá pra avaliar uma adaptação. Eu, por exemplo, não faço questão que tudo que tem no livro tenha no produto áudio-visual. Penso, mesmo, que é um equivoco tentar fazer uma transposição literal. As adaptações que admiro são aquelas que preservam a “essência” dos personagens de forma tal que mesmo quando eles fazem algo no filme que não tem no livro (ou vice-versa) parece que a gente até já viu ele fazendo aquilo, de tão compatível e coerente com as demais ações dele. Gosto de uma adaptação que ao colocar o personagem para reagir de determinada forma em uma situação que eu desconheço, mesmo já conhecendo o livro, me faça pensar: arrá, faz sentido ele ter tomado esta decisão. Um exemplo de uma adaptação primorosa é E o vento levou. Tem um bocado de coisa no livro que não tem no filme mas eles conseguiram manter o espírito da personagem, as transições, a evolução, tudo. Inclusive saudades, Scarlett e Reth, acho que vou reler.

Todo dia a mais é um dia a menos.

Com tanta gente querida morrendo, minhas referências sendo combatidas ou mesmo negadas, acho que não estou exagerando ao dizer que o (meu) mundo está acabando. Como uma amiga comentou: dói. É bem triste quando o mundo-da-gente morre antes que nós mesmos – não saberia dizer se é sempre assim, nunca morri antes. Esse fim de semana vi um filme de cachorro (sim, daqueles) com moral da história feito pergunta: seu propósito no mundo, qual é? o cachorrinho lá tem uma resposta possível: divirta-se, quando der, salve pessoas e lamba o máximo que puder as pessoas que você ama.

Uma certeza que eu tenho é que Keira Knightley deve ser uma pessoa maravilhosa, de excelente trato, flexível, esperta, cativante e com um ótimo agente porque não consigo imaginar outros motivos pra ela ser sempre protagonista de filmes com roteiros excelentes sendo tão nhé. Vem aí: Colette.

Tem muito filme bom e tem O Homem Que Matou o Facínora. O personagem de James Stewart representa e sintetiza o estado democrático de direito, a insistência na Lei como possibilidade de mediação da vida em sociedade, a tecnologia, a civilização, a vida menos desigual, enquanto Valance representa a desordem, os métodos tradicionais, a barbárie, a violência como atalho, a vida antiga. Mas não só Valance, né. Doniphon também. E eu amo que ele, Doniphon, reconhece a necessidade de ser superado. Ele sabe que apesar de ser seu o tiro, quem realmente matou Valance foi Stewart e sua teimosia em inventar um mundo diferente. E sabemos nós, que assistimos, que ao aceitar o papel de quem matou Valance, Stewart, concomitantemente matou também Doniphon – simbolicamente, apenas, o que torna ainda mais doloroso – e contraditoriamente fez isso tudo na lógica inversa do que acreditava: um pacifista e adepto das leis só pôde exercer sua influência nesta direção ao ser reconhecido e celebrado por um ato de violência. Tem muito filme bom e tem O Homem Que Matou o Facínora. Fica aquela inquietação: saberia eu prosseguir fiel ao que acredito sem supôr que em algum lugar, há um Doniphon a me sustentar? Ou, além, conseguiria eu reconhecer que represento o que precisa ser abandonado e mesmo doendo me fazer ausência e silêncio?

doniphon

E é meio melancólico ver que o meu mundo que morre antes de mim leva junto tanto do que me fez. Como interlocutores pra falar de Doniphon e sua dor.

 

 

A dor da gente

A Renata Lins disse assim: assiste After Life. E eu fui ver, claro. E é o que a vida devia ser. Com mais samba, futebol e cerveja no lugar do uísque, mas basicamente o que a vida devia ser. Um trabalho que faz algum sentido mas que não ocupa muito tempo. O mar pertinho. Suporte psicológico aparentemente sem estigma. Questões materiais de sobrevivência superadas. Eu já falei  do mar pertinho? E gente. Gente que ama a gente. Gente que a gente não vai com a cara. Gente que se importa. Gente estranha. Gente gentil. Gente que ainda é gente pequena. Gente que já é gente há muito tempo. Gente perdida. Gente que é farol. Gente que já foi e os outros nem sabem. Gente que vai ficando. Gente banal. Gente banal mas que em um certo ângulo, quando a luz bate no prisma, se torna a nossa gente especial. Gente que nem a gente e gente totalmente diferente. Gente que a gente nem entende. E nem precisa. Gente. O Chico Buarque lamentou: “a dor da gente não sai no jornal“, bom em After Life ela sai sim.

ricky-gervais-e-elenco-na-serie-after-life-1552404722628_v2_1170x540

Pensando em usar todos os nomes de blogs que já tive como categorias nesse aqui.

Provavelmente eu devia voltar pra análise.

Duas amigas amadas tendo filhos no espaço de poucos dias. Lá na França, então eu só faço de conta o cheirinho de leite e o peso gostoso junto ao peito.

O problema em GoT começou quando destruíram o jardim pra construir um gazebo ou um coreto, sei lá. No lugar de escreverem cenas que são compatíveis com o que os personagens “são”, com o que poderiam sentir, decidir, pensar e a partir daí escrever mais cenas que seriam consequência dos pensamentos, decisões e sentimentos anteriores; os roteiristas escolhem situações que eles acham que deveriam acontecer, que favorecem que se provoque emoção A ou B, que se cause este ou aquele choque nos espectadores, que permita reviravolta e sei que lá e aí encaixam à força os personagens nestas situações. O problema de GoT é que o material base dos livros trata do tempo de forma amalgamada – quem o personagem é deriva de tudo que ele viveu e do que ele anseia viver – e as últimas temporadas da série tem foco no que os personagens devem vir a ser.

Eu penso que existem dois tipos de escritores, os arquitetos e os jardineiros. Os arquitetos planejam tudo antes do tempo, como um arquiteto constrói uma casa. Eles sabem quantos aposentos a casa terá, que tipo de telhado terá, onde os fios estarão passando, que tipo de encanamento terá… Eles têm a coisa toda projetada e desenhada antes mesmo de pregarem a primeira tábua. Já os jardineiros cavam um buraco, jogam uma semente e regam. Eles meio que sabem que tipo de semente é; eles sabem se plantaram uma semente de fantasia ou uma semente de mistério ou o que quer que seja. Mas conforme eles regam e a planta cresce, eles não sabem quantos ramos ela terá, eles descobrem isso conforme ela cresce. Eu sou muito mais um jardineiro do que um arquiteto.” (George R. R. Martin)

Queria encher a banheira mas estou com preguiça só de pensar em enxugar o banheiro depois.

Eu era mais contente quando a saudade era inventada.

Ela sabe que já perdeu todos os cavalos selados. Já não é jovem, pra começar. Bebeu demais e leu de menos. Nunca embarcou em nenhuma aventura. Nunca viveu um amor desses de cinema. Tem amigos, mas não é a melhor amiga de ninguém e ninguém é a “sua pessoa”. Acordou, estudou, trabalhou, comeu, dormiu. Olha pra trás e sabe que nunca experimentou o gosto de algo realmente especial. Não é tarde demais, claro, em todos os filmes ruins de sábado a noite, quando não estão explodindo carros e prédios, repetem as boas lições de recomeço. E não só do outro lado da tela. Não foi seu primo que emagreceu, trocou de emprego e tem um segundo casamento feliz? Não foi sua vizinha que fez vestibular e começou outra faculdade? Ela ainda pode. O quê não é muito claro, mas pode, se. Se mudar de vida. De rumo. Não beber o vinho. Não comer a massa. Não dormir tarde. Não ficar em casa aos domingos. Não beliscar na frente da tv vendo futebol. Não inventar desculpas ruins para convites que devia aceitar. Se. Ainda tem uns tantos anos pela frente sem ataques cardiovasculares e complicações assim assim. Talvez. Com sorte. Se. Se. Se. Se ela não gostasse tanto de quem tinha se tornado. E não tivesse tanta preguiça de se desconhecer.