Singular

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“Saímos do amor

como de um acidente aéreo

Havíamos perdido a roupa

os documentos

a mim me faltava um dente

a você a noção de tempo

Foi um ano longo como um século

ou um século curto como um dia?

Pelos móveis

pela casa

restos estragados:

copos fotos livros desfolhados

Éramos os sobreviventes

de um deslizamento

de um vulcão

de águas exaltadas

e nos despedimos com a vaga sensação

de termos sobrevivido

embora não soubéssemos para quê”

Cristina Peri Rossi (trad. Laura Erber)

PS. Me atraem o tempo e a pessoa verbal nesse poema porque a) disfarçam o fato de que pensei que embarcávamos juntos, mas só eu estava no vôo e b) colocam no pretérito imperfeito o que – espero – será meu futuro desse dolorido presente em que ainda estou soterrada nos escombros. 

Dívidas de amor

Ninguém mais faz o que eu faço por você
Meus olhos já são seus e só você não vê
Meus beijos tem o gosto das dívidas de amor
Pense em mim pra sempre, me faça esse favor
Na hora em que eu morrer, me beija amor, me beija
Não pense nessa dor
Que eu deixo em sua boca o último desejo
O último suspiro e todo o meu amor
Aceite sempre tudo, qualquer dos meus presentes
Ah, eu me esforço tanto, que todo mundo sente
Você perdeu o rumo em algum lugar da casa
Mas fica calma, eu juro, lá fora não há nada

Sono e melancolia

Estou suspeitando que minha melancolia, às vezes, é sono. Tenho dormido pouco. E tenho dormido mal. Não consigo descansar. E choro. Existe um único momento, em que já não me sinto desperta, mas ainda sei que não estou completamente adormecida, que me vem um pequeno e confortador sonho. É um abraço, é sempre um abraço. E é tão certo, tão bom, tudo, o encaixe, o cheiro, a textura da blusa em que encosto o queixo, meu nariz no seu pescoço, sua barba na minha testa, seu jeito de respirar fundo e suspirar a seguir, antes dos pequenos beijos que se espalham por testa e bochecha e nariz e você me aperta como se confirmasse que eu cheguei e estou e, sim, é um começo promissor de repouso, mas daí a pouco o sono fica leve e ansioso, acordo por tudo, acordo por nada, mesmo podendo ficar mais tempo na cama levanto com o sol  (e o sol chega muito cedinho por estas bandas) e nada do que espero aconteceu (e nem é razoável que tenha acontecido, como o Bozo ter sido deposto ou terem encontrado uma vacina mágica pro covid) e é um vazio que se estende até que chegue a hora de tentar, de novo, descansar, e ser mal sucedida nisso e eu chamo de tristeza e angústia e solidão mas deve ser sono mesmo.

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Aí eu gastei um monte de dinheiros sem poder pra ver se me sentia melhor e, olha só, não só não me senti melhor como agora estou me sentindo pior pensando na fatura no cartão de crédito e adiando as compras do supermercado.

Pelo menos o congelador está cheio de peixe.

Parece que tá todo mundo bem adaptado ao tal “novo normal”. O meu “novo normal” é esperar. Não recomendo.

Mas além do choro e ranger de dentes, vi um filme bom. Sempre posso contar com West Wing. Tenho amigos realmente adoráveis. O Alan Alda garante que tudo vai ficar bem no ano que vem. Tem um sim colorido e distante e o trabalho com as letras que são promessa de quase alegria. Há mãe, pai, filho, irmãos e sobrinhada. Tem divã na quarta. Futebol umas tantas vezes por semana.

Não esquecer: “a dor é minha, em mim doeu; a culpa é sua, o samba é meu”.

Quanto mais eu compro máscaras mais aparecem propagandas de máscara e mais eu tenho vontade de comprar máscaras o que nem faz sentido porque eu não estou saindo de casa pra nada mesmo.

Estas são as melhores e as piores máscaras para COVID-19

Lacinho vermelho

A pessoa arruma o quarto todinho, no capricho, e decide: nada mais de bagunça, quarto é pra ser espaço tranquilo, sei que lá, repouso, sei que lá, sei que lá, descanso. Um dia e meio depois está dormindo com catorze livros, dois cadernos, o kindle, um pote de lápis de cor e nem vou continuar.

Isolamento na quarentena dá nisso, a gente ocupa o outro lado da cama com o que pode, não com quem se quer.

A última vez que falei sobre isso, aqui, eram 80.000 mortos. Hoje já ultrapassamos 130.000 mortos no Brasil. Não tenho mais palavras. Parece que nunca acaba de caber mais dor no coração. Nunca esquecer: não são números. De vez em quando é bom visitar esta página: Inumeráveis. 

E o Pantanal queima. E o desmonte do serviço público. E a ameaça da reforma administrativa. E a privatização iminente dos Correios.

Queria mesmo era sentir o cheiro do seu cangote.

Rede na varanda, lua que míngua, bacalhau, café, café, café, bitucas, longas cartas pra ninguém, documentos antigos, algumas risadas – ainda sei rir, um alívio, notícias de outros continentes, o calor, os slides, as aulas, a raiva, a raiva, a angústia de esquecer o nome de alguém, um Pirandello, o desejo, o vermelho na conta chegando antes da hora, café, café, café, o israelita, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia, devia beber mais água, Otto, Otto, Otto, vinho, cerveja, mimosas, batata-alho-azeite, garrafinhas, o espelho quebrado, a vontade do mar.

Exausta de doer.

Cada vez mais e mais Belchior.

Daí a moça se apressa e enfia os pés pelas mãos.

Eu falo muito, mas tento não ser inconveniente.

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Atenção para a leitura astrológica:
Vênus em brasa na casa 69, rubro sentir, aquece, te deixa sem fôlego (pois consome o oxigênio), rápido queima, rápido apaga, termina em cinzas. Como eu morro de amor, pra tentar reviver.

O desejo: fechar os olhos e conhecer tua história lendo as linhas no teu corpo com o cuidado de dedos tão leves pra não borrar suas memórias, mas você se inclina e deixa seu corpo encostar com força no meu, como se aquele momento único pudesse reinventar o caminho que nos desencontrou em todos os passados e mesmo que todas as promessas sorridentes de contato se esvaneçam nos dias que serão sólido futuro ante esse agora que é só névoa e intangível e paredes e solidões e este encontro nunca haja e lábios nunca sejam beijos, já estive nesse abraço que existe pela palavra que encanta o mundo.

Uma camisola nova – e com lacinho vermelho! – é toda a aposta em algum futuro que consigo fazer.

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Hoje tá difícil, tá difícil de verdade. Tá difícil pra caraleo.

Caraminholas

98o dia de quarentena (ou algo assim), mais de 50.000 mortos e, como na canção, “esse silêncio todo me atordoa”;

Pra tentar tirar a cabeça da imensa angústia do desamparo de nossa população nessa situação de pandemia, tem gente fazendo yoga, zumba, curso de cabala, aprendendo mandarim, eu estou lendo romances policiais e me entretendo com reflexões dessa natureza:

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Outra: as pessoas falando de Kopenhagem, eu lembro do único chocolate que realmente gosto, um negócio da Lindt com sal. Vou olhar no google e está confirmado, nunca mais como chocolate, uma barra é 30 reais, pelamor, o preço de um presente de Natal.

Eu estou preparada pra ficar por aqui, quietinha, trancada, quanto tempo for necessário, mais dois meses, quatro, um ano. Mas que vontade dolorida do mar.

A amiga me avisou da estréia e aqui estou eu esperando o primeiro episódio de Perry Mason. Intervalo, paro aqui, vou assistir. Vi. Pesadão.

Se eu pudesse. Se eu soubesse. Se me fosse dada a arte. Eu faria, do dolorido, vínculo. Vou aprender kintsugi.

Porque era noite e sem lua, ela apagou as luzes na casa e acendeu anseios. Porque era noite e havia sido dia, ela aceitou as dores nos ombros, o peso das pernas, o aperto no peito. Porque ela era sua própria noite, fechou os olhos e se deixou escurecer. E sentiu. As sombras. A dor. A solidão. O desejo. Porque eram noite, em coragens percorreu seus breus e vazios. Acolheu-se. Abriu os olhos e se soube madrugada. Sorriu, leve, caíam-lhe bem as cores.

Status de segunda: muito encantada por essa canção do Bruno Batista

 

Esticando a baladeira

Quando não tem olho que olha, a gente vai perdendo contorno, meio desaparecendo, deixando de ser, será? Poder estar no teu olho, na tua mão, na tua letra é um pequeno, mas valioso, balão de oxigênio.

E, sim, hay desejo acá, mas nem é disso que se trata. É a sorte imensa de poder ser.

É bonito ir construindo um mundo de imagens e letras e cores e confiança e aceitação e leveza e sei lá quantos nomes mais pra dizer o que não tem limite, caixinha, registro. Gosto demais que sejamos operários juntos.

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Na editoria vizinha, meti o pé pelas mãos.

Não devia ser mais fácil? Ou eu que ando me cansando logo?

Por outro lado um quero você e tem que acabar a quarentena acho que eu gosto mesmo é de você , então nem tudo está perdido.

E essa lista do que quero fazer depois de só aumenta (especialmente a parte 18+)

No fim, no fim, eu estico demais a baladeira.

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Termos novos que detesto: empoderamento, narrativa, privilégio, romantizar. Termo que tenho xodó: disputa.

Uma ideia bem louca, mas um nome tão bonito, seria uma pena desperdiçar.

Amanhã começam as aulas e eu tô como? impressionadíssima que dá pra ficar mais preocupada com o primeiro dia que nas aulas tete-a-tete.

Eu parei de contar os dias da quarentena.  Os dias estão cada dia menos cada um.

Quantas pessoas morreram vítima do corna vírus, é a pergunta que a gente tende a fazer pra lidar com o horror. Mas é impossível dizer, engasgo, me comovo, me enraiveço, fico completamente desmantelada, é impossível dizer um número – não pela subnotificação – mas porque são inumeráveis.

O podcast Elástico Mental teve uma conversa ótima com o Tiago Nacarato (sim, aquele moço bonito do The Voice de Portugal que cantou Onde anda você) e o melhor de tudo é que saí de lá com um encantamento novo: o moço Luca Argel que faz um sambinha tão engraçadinho, tô toda na dele.

E eu que nunca imaginei, agora imagino. Em camas voadoras.

Estou apaixonadinha pela minha paixão por você. Todo dia vou te encontrar no fim da tarde, começo da noite. Você não me sabe, mas talvez escute os suspiros (mentira, vai escutar nada, se belisca logo, luciana, coração, opa, bola no mato que o jogo é de campeonato)

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Eu já senti todos os medos, eu já gozei de todo jeito, eu já morri no fim da história, eu já furei corações com salto fino, eu já toquei todos os corpos, eu já sangrei por todos os cortes, eu já conheço todos os gostos, eu já bebi todos os venenos. Eu já beijei todas as bocas. Eu vi o filme da Binoche. Eu sobrevivi.

Ela não disse nada disso, claro, esticou o braço, ofereceu a mão, um lado do rosto, roçou com os lábios o rosto dele, muito prazer.

 

Espírito dos Tempos

1.262 mortos oficiais (porque a subnotificação está comendo de esmola). Passamos de 30.000 mortes, o país devia estar de luto, mas seguimos, imperturbáveis, com tendência a depreciar e desprezar a humanidade do outro.

Todo dia eu tento encontrar um jeito de viver esses dias que temos pra viver mas reconheço a minha incompetência. Eu sentia muita tristeza. Mais tristeza que tudo. Aí passei a sentir mais raiva que tristeza. Tanta, tanta. E voltou a tristeza, mais cruel, mais afiada, mais espaçosa, mais exigente.

O quanto é ridículo ficar falando da minha, minha, minha, minha dor?

Creme de abacate com colher de sopa e café.

Dois livros, muitas lágrimas, uma reunião, três artigos e a escrita de um conto que, de certa forma, parece acontecer em um universo paralelo.

Pensei em fazer oficina de escrita porque, né, se nada mais resta, ler e escrever. Ou, como meu pai me aperreia: escrever pra ler. Mas a vida deu uma endoidada (ia escrevendo enlutada, muito bem, seu inconsciente), então parece que não.

Encontrei uma boa gravação de um dos episódios da Comédia da Vida Privada, justamento um dos que mais gosto. Foi ontem de madrugada e já fui assistindo. Aí vi hoje de manhã também. Vi de novo no fim da tarde. Estou planejando ver mais uma vez, daqui a pouco. Cada um com sua droguita.

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“eu fui namorada dele, mas faz horas”

Enquanto eu for, meus amores que foram, são. Somos. Todo amor é eterno enquanto eu dure.

Não sei se é por ser madrugada, por ser em língua outra, por ser memória, mas eu nunca fui mais linda e mais eu que nas suas palavras rabiscadas em dedicatórias de livros e discos. E a gente nem se amou.

Se você que não sonha – quase nem dorme – acorda sonhada com uma história que, nunca, nunca, não vai ser, não vai dar, mais que improvável, quem você pensa que é, rá, então talvez seja hora de se beliscar.

Como descobri que só vou conseguir, no agora, escrever aqueles textos de batom borrado, garrafas vazias, lençóis amarfanhados, cotovelos doloridos, olhos ressacados, horizontes esfumaçados e afins, fiz playlist no youtube chamada manguaça. As colegas de blog que prendam o fôlego que o mergulho vai ser punk.

Daí que você tem uma boca imensa e um filtro desgastado. E diz que ah, queria. Fazia. E tudo. E ela diz: te apresento. E você ri. É brincadeira, claro. Mas você cora. É a rosácea, não sou eu. Claro. Você muda de assunto. Você volta pro assunto. É brincadeira. Claro. Morde a língua.

Não alimente a besta, luciana, ela te devora de dentro pra fora.

Entreabrir a persiana ou escancarar a janela não faz diferença, será dia enquanto for e, depois, não mais. Vale o mesmo pro amor, acho. Das coisas que eu gostava em você: o sorriso bobo no meu rosto. Agora, no espelho, me olha de volta um vazio compenetrado.

Era uma vez um homem-lua, uma cama grande, janelas com vista pro mar, roteiro do programa de jazz em rabiscos, mãos gentis e pratos de panqueca. Era uma vez um homem-lua, óculos redondos, peito amplo, prata nos pêlos. Era uma vez um homem lua que enfeitiçava relógios em tardes preguiçosas em um tempo que já era tarde demais. Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste de quem sabia que mesmo sem saber quantos dias seriam, conhecia que seriam poucos.Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste  de quem compraria passagem, arrumaria mala, minguaria aqui e levaria a vista pro mar por trás de pálpebras úmidas. Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste de quem abriria espaços, estenderia a mão, faria convites que veria recusados. Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste de quem partiria sem querer ficar. Sem querer que ninguém ficasse.

Eu vivi tantos amores eternos que só Vinícius na causa.

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É claro que eu acho que todo mundo devia ficar bem guardadinho dentro de casa, sem ir pra rua nem nada, até a pandemia entrar em outro estágio (controle, vacina, eteceteras). Daí eu lembro que tem gente sem casa. Tem gente sendo assassinado, dentro de casa, pela polícia, se a casa for na favela ou periferia. Tem indígena e quilombola sendo perseguido porque quer preservar sua casa. Tem gente obrigado a sair de casa porque as regras de confinamento tão relaxando e a pessoa não pode perder o emprego que sustenta a família. Tem gente que não recebeu o miserável auxílio de 600 reais e tem que ir pra rua vender o que puder ser vendido. Tem gente sendo pressionado e ridicularizado pelo “medinho de uma gripe” porque esse é o discurso do governo federal. Tem a ameaça à educação todo tempo, com a gente em casa ou não, via enem, future-se, livro didático pra criança de educação infantil. E< aí eu acho que temos, sim, que ficar dentro de casa guardadinhos, mas que também temos que pressionar o governo em todas as suas instâncias pra que isso seja possível pra maior parte da população. E que lindas as manifestações antifascistas das torcidas organizadas e que lindo o ato Vidas Negras Importam, hoje, no Rio. Gente de coragem. Gente de luta. Gente que me anima a ser gente. É pra isso o ficar vivo.

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Coloquei essa imagem como foto de capa lá no FB e já teve mais de 1.000 compartilhamentos. Isso é que é espírito do tempo, hein.

Banguela

de tudo, é de mim que sinto mais saudades.

A sensação de completa inadequação, depois de anos de esforços frustrados e rebeliões controladas, tomou conta das chaves, hasteou bandeira, matou ou mantém aprisionados – e devidamente amordaçados – os outros habitantes do forte e agora vaga, solitária, pelos corredores vazios, gemendo alto só pra ouvir o eco. E, precavida, empilha todos os “nunca mais” que fantasia bem em frente ao portão, como quem faz barricadas contra improváveis missões de resgate, que ela chama de tentativas de invasão pra dar alguma legitimidade à aridez.

Não sei (ou não lembro – olha o microspoiler), quem disse que o segredo da felicidade é saúde boa e memória ruim. Pensava eu, ingênua, que era pra ir esquecendo as coisas doloridas que nos aconteciam. Mas fui descobrindo que é quase o contrário. Vou embaciando a felicidade pra conseguir respirar.

“amar é dar o que não se tem” – tão bonitinho, quase altruísta. Não perder de vista a sequência: “a alguém que não o quer” – muito menos consolador, não é? só o que temos a oferecer é o nosso vazio.

Nunca diga desta água não beberei porque quando você repara está se afogando na síndrome de impostora.

Nos livros da Agatha Christie de vez em quando pinta um militar reformado, major ou coronel, talvez, daqueles que vivem de glórias passadas. Costumeiramente, um chato. Sinto-me cada vez mais afinada com eles.

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A verdade é que abdiquei de marchas e embreagem, agora vou descendo a ladeira na banguela, regulando só no freio.

Bem agora está escuro, chove e venta muito. Dá quase pra se ouvir a melancolia escorrendo nos telhados ou dos meus olhos.

é irônico lembrar que há pouquinhos dias eu estivesse pensando em fazer uma news letter.

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L’appel du vide

Canção da Despedida é das coisas bonitas que a gente aprende com Geraldo Azevedo na voz da Elba. Quando eu era novinha, cantava assim: “amor, não chora, que a hora é de beijar”. Talvez eu soubesse coisas sobre mim que ainda eram só promessa. Talvez eu tenha me inventado aí.

Status: um pouco Scarlett.

Você está na posição exata de um ladrão que foi pego em flagrante e não se arrepende de ter roubado, mas está terrivelmente arrependido porque vai para a cadeia” – Reth não amaciava, não é mesmo?

Se fosse hoje, a roupa da cama trocada, a pose ensaiada, a casa arrumada. Se fosse hoje, a alma tranquila, a sede contida, a palavra escolhida. Se fosse hoje, sabendo pedir, sabendo ceder, sabendo querer. Se fosse hoje, o ontem.

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Como é mesmo o negócio? Quando a gente olha muito tempo pro abismo, ele retribui o olhar. E anexa um convite. Tem essa vontade, infantil?, de ocupar os vazios, de completar o que falta, de tampar a panela, vedar as brechas. Vertigem. É um risco, mas a gente balança. Tá lá o abismo, tá aqui a gente, entre nós o laço do olho que é olhado. Tênue equilíbrio.  Quem pisca primeiro? O vácuo convoca. Entregar-me de olhos abertos ou fechar o olho, recusar o apelo, um passo atrás e o suspiro?

Talvez um pouco arrependida de ser eu demais.

É tão estranho sentir uma tristeza outra, uma tristeza egoísta, mesquinha, particular, embaraçada, íntima. Uma tristeza pessoal como bater o dedão no pé da mesa, ninguém pra culpar, a impossibilidade de partilhar, quando foi que eu fiquei tão sozinha assim?

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Em outra editoria, a angústia nossa de cada dia.

Morreu Sergio Sant’Anna. Meu céu mais e mais escuro.

Dia das Mães e a impossibilidade de falar de felicidade. De falar, de desejar, de sentir felicidade.

E aquela raiva de todo dia, o dia todo. Quando eu era criança ou pré-adolescente, não lembro ao certo, passava aquele seriado do Hulk. Eu me comovia sempre quando ia terminando o episódio e ele seguia, sozinho, em estradas dolorosamente desertas. Intuía que o viver tinha uma sombra que era exatamente isso: estamos sós. Nunca pensei que um dia me identificaria com Bruce Banner e seu segredo. Eu agora também estou com raiva o tempo todo.

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