Chico César, Eco, Camille, Fal, o moço da Polishop e um texto com soluço

para viver em estado de poesia, me entranharia nesses sertões de você“. era essa a coragem que eu esperava. a única disposição. a vontade. nenhuma promessa mais. não almejo amanhãs, os hojes me bastam. tu se engraçou, eu correspondi. mas não se engane que o pouco não é um nada. eu não me furtei, mas tu não me arrecebeu. em certo momento, quanto menos você aí, mais você em mim. crescendo, crescendo, crescendo. desejo, saudade, anseio. mas você cresceu tanto que já não há mais espaço. eu bem que tentei, botei pra fora outros sentimentos, planos, belezas, lembranças e você cada vez maior em mim, ocupando cada brecha, até começar a transbordar. e agora eu choro você, suo você, cuspo você, você sai de mim de todos e tantos jeitos. eu tento vedar as rachaduras porque eu amei tanto te amar e tenho tanto medo de ficar oca sem você e sem mim cá dentro. oca sem sequer a dor de te querer me acompanhando nos dias e me assombrando as noites. medo de murchar e encolher e desaparecer e me perder e me esquecer e me desencontrar. e emudecer. é do que tenho mais medo. de não conseguir dizer nada mais, se eu nunca disser que te amo.

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Umberto Eco é um autor muito inquietante. Você olha sua estante e pensa que tem o bastante da obra dele. Aí de repente você descobre – ou alguém descobre e mostra pra você – um texto que lhe é desconhecido e você percebe que precisa ter. Imediatamente. E não é só isso (como diria o moço da Polishop), você também sente que tem que distribuir o tal livro para algumas pessoas queridas. Cartas, livros e vasinhos com flores na varanda, sei não, talvez a infinitena tenha aberto uma fenda no espaço-tempo e eu tenha me mudado para uma década qualquer em outro século. Afinal eu coro quando vejo aquela letra no envelope. Uma coisa desconcertante é encontrar uma frase que fez belezas em sua vida presente na narrativa de mudança de vida de outra pessoa: “você só precisa pagar a passagem”. Procuro sentimentos futuros nas entrelinhas. Releio para passar mais tempo ao lado da pessoa sombra que mal vislumbro. Seguro o facho. Preencho páginas com a letra esparramada, ansiosa por ser despachada. E por uma ou duas horas eu não sou sua. Eu não me ressinto da ausência, não preencho o silêncio com lágrimas, não definho. Definhar é uma palavra estranha. Só de pensar nela já me sinto um pouco debilitada. Passam os dias pra mim – ou eu por eles – e sinto que estou perdendo alguma coisa. Eu mesma. É como se a tristeza me consumisse lentamente de dentro pra fora. Não mais aquela angústia ou desespero sustentados pela esperança de um “nós”, em uma irônica contradição vou sendo esvaziada ao ser preenchida por uma resignada aceitação de que o horizonte encantador era um cenário pintado. E lamento. Fico triste de marré descer. Eu sei que você gosta de mim, os astros, os búzios, as cartas e suas próprias palavras dizem isso. Talvez fosse melhor se você não gostasse. Seria mais fácil soltar as amarras, deixar o barco deslizar suavemente embalado pelas águas do esquecimento e seguir para um além de outros afetos. Mas fico e o lodo se entranha entre as tábuas do casco, encaixes enferrujam, as velas mofam, dobradas e úmidas, todo o estoque de rum acabou. Onde está o bom e velho “ele só quer te comer” no lugar dessa sintonia assustadora que parece querer ameaçar mundos? Quem quer casar com dona baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha, é carinhosa e não faz doce mas pode rolar um torresmo ou um peixinho? Claro, onde se lê casar é pra trocar por dar uns quebras, ficar, chegar mais. Alguém além de mim ainda fala dar uns quebras? Talvez não. Mais ainda se fala de outra das minhas frases preferidas. Foi a Fal falou citou hoje, no diarinho: Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente. Sentir a ausência de algo que nem se sabe o que é. É Camille e é, pra mim, a leitura sentida de Caio dessa ideia de Camille. É o filme, é meu passeio solitário pelos jardins do Museu Rodin. São corpos dolorosamente enlaçados. Doloroso como ler um texto como esse, que entalou.

Pra que essa boca tão grande?

Enfiar o pé na jaca: uma arte que domino (ou me domina, ainda estamos negociando essa definição). Vai devagar, luciana. Deixa pra lá, luciana. Paciência, luciana. Escreve pouco, luciana. E eu de lobo, olhos enormes, braços enormes, nariz enorme, boca enorme. Fome enorme. Ir com muita sede ao pote, dizia minha vó. A sede parece não ter fim e demasiado ímpeto consegue, no máximo, partir o pote em pedaços como se um coração fosse. E era, talvez. O meu, o seu. O de alguém, já que eu piso em cacos e na palma do meu pé se misturam novas e antigas cicatrizes enquanto decoro o piso com desenhos de sangue. Percebe, Ivair, a rapidez com que mergulho no melodrama? Ela declara, de vez em quando, que moraria em um sótão com o você dela. Eu digo que moraria em madrugadas com você. Lindas e inúteis disposições, as nossas.  Queria acender um sol no seu peito. Sabe, Pavlov teria alguma dificuldade para explicar: todas as notificações do aplicativo, no celular, tocam igualzinho. Ainda assim, eu me ponho alerta quando é a sua. Adivinho. Sensível. Treinada. O coração dá um salto quando eu olho na caixinha de correspondência e tem cartinha. É engraçado que seja necessário tão pouco para me fazer feliz e você não se dê ao trabalho. Não, vou corrigir esta frase. Não é engraçado, nem mesmo no sentido que costumo usar essa palavra: engraçado como peculiar, estranho. Não é engraçado. É triste. Repito bem devagar, acenando a bandeira amarela diante do meu rosto: é triste que seja necessário tão pouco para me fazer feliz e você não se dê ao trabalho. Me perco no labirinto de meus afetos, vagando entre altas paredes de solidão enredada aos ciprestes. Uma das saídas será viver um romance de 1a guerra mundial? Trocar cartas, zero tecnologia e nenhuma palavra que evoque desejo, amor ou futuro porque pode ser que algum dos mundos acabe antes que seja possível conhecer a família e pedir em namoro? Ou a saída é mandar mensagens ambíguas para o outro moço, de vida arrumada e tantas coisas a equilibrar, mas que abre brecha pra rir comigo e, sim, se encontra nesse cais? Rir é melhor do que chorar, viver é melhor que sonhar, beijinho é melhor que brigadeiro. Keaton, Chaplin, Tati, você está vendo a melancolia atrás de todo riso? Acompanho as modalidades paraolímpicas com admiração, mas estou vendo rugby na cadeira de rodas só pra ver os choques e quedas. Então, por hoje, vou fazer hiato. Quase um sim. Se eu soubesse rezar: dai-me a coragem de não saber sobreviver. 

Ou vamos de Benett:

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Uma praia na Itália e Verissimos pelo correio

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Ganhei livros da Fal. Mais livros, na verdade. Ela, que já me deu tanto. Coisas, também, mas tão mais. Chorei ontem, quando recebi os livros. Chorei agorinha, quando fiz a foto pra me gabar por todo lado. Como cantavam os moços do MPB4, a vida não anda amenizando. Aprendi a fazer planos. Por exemplo: depois do turno da noite, pretendo beber. A única coisa que eu realmente preciso, na madrugada, é ficar longe do teclado para não mandar mensagens estúpidas com digitação tosca. Concluí que o efeito colateral do vinho é fazer as pontas dos dedos ficarem tão largas que a gente – a gente sou sempre eu – pensa que está apertando numa letrinha no celular e está apertando outras três. O mais humilhante nem é a mensagem estúpida (o que mais se pode esperar de uma adolescente apaixonada?) e sim os erros ortográficos, de concordância e as palavras ilegíveis. Tento assistir white lótus mas fico constrangida com as coisas que acontecem com os personagens. Um dia de cada vez, uma solidão depois da outra. Um respiro: a live do livro. Quase fui feliz. Você sabe bem o porquê. Além dos moços gentis e das palavras simpáticas. É bem difícil manter este ralo aberto no peito. Ainda tenho a varanda, carrego meus anseios pra lá e deixo-os respirar. Recebo musiquinha na caixinha e primeiro penso: porque você não. Depois fico contente porque ele sim. Como era a música, Caetano? Só vou gostar de quem gosta de mim. Eu era assim. Eu sempre fui assim. Nem sei como foi que você me mudou e eu ainda aqui, quando você, você não (eu sei que não é verdade. Eu sei que você gosta de mim. Mas eu preciso fazer de conta que não. Porque não basta. Acho que seria mais fácil se você não gostasse. Seria?). Então, ele sim. Música, foto, palavra. Presente. Me usa. Pretendo. Ele que não gosta de mim. Não desse jeito. Eu não gosto dele. Não dessa maneira. Mas gostamos de gostar um do outro de um jeito nosso. Bóia em alto mar. Sapato vermelho, caderneta, corpete. Magnífico. Magníficos. Um sorriso entre parênteses. No resto do tempo, arrasto a vontade de dezembros. Você, você é sumidouro. O dinheiro acabou mais cedo, então nem posso compensar com mimos, vinhos e livros toda essa solidão. Desligar o celular para dormir sem esperanças. Passar a noite sonhando com barulhinho de notificação e acordando a cada susto. Sonhei. Tem carta, pena, tinta que é sangue diluída em mar, portas abertas, encontros, tem eu e você neste sonho. Sonho que se sonha só é feito unha encravada. Lateja. Chega mais um diarinho que é como arrancar a casquinha do machucado. Gostaria de comprar morangos e laranjas. Gostaria de estar na foto em uma praia italiana. Opa, já estive. De casaco vermelho. Eu sou tão, tão bonita. É importante não esquecer.

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Pés. Aos seus. Barro. Chumbo.

Terminei de escrever na madrugada de quarta, pensei: melhor publicar durante o dia. Esqueci, claro. Mas tô aqui, infinitena, sobrevivendo a mim mesma.

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                                                Meu mundo você é quem faz, música, letra e dança

Parei no diarinho em que ela disse que existem opções. Porque, a quem eu quero enganar, é mais fácil fazer de conta que ficar aqui, na tal pedra do porto, é destino. Ela está certa, existem caminhos, posso fazer escolhas. Não faço, mas aí o problema é outro. Decido visitar meus pais. Duas vezes, em dezoito meses. Tomar banho de bica. Ouvir e contar histórias. Comer chapéu de couro. Cantar bem alto no carro de vidros fechados. Não tenho nenhum unicórnio pra resgatar, mas senti falta dos meus zecas ao lê-la no domingo. Aqui não choveu. Rego as plantinhas disciplinadamente, se alguma coisa der errada, não fui eu, não fui eu, não fui eu. A não ser na medida de que eu é que dei errado. Vontade de apertar a mão dela e dizer, não como quem consola, apenas estupefata com a coincidência: eu também não sei o que estou fazendo. Outras decisões. Cortar o cabelo. Abrir uma cerveja. Escrever um tanto de cartas. Marcar o dentista. E o que nem é preciso decidir. Preparei aulas. Inventei problemas futuros que não me façam parecer ter 14 anos. Mas inventar problemas futuros é muito, muito juvenil. Bola fora. Ela teve um dia todo sem mim. Senti um pouco de ciúme. Ri disso. Eu tive uma vida toda sem você. Como era mesmo? Leio o diarinho, uma palavra puxa outra e lembro que vou espalhando minhas pedrinhas no tumblr: peladonas, cigarro, cerveja, ofélias, cores em você. Tudo com você, como na música da Letrux que dói, escuto em looping e vai queimando, ferro de marcar gado. Já tive tudo com você. Na minha cabeça. Você nunca pisou lá, no tumblr, você não tem tempo pra me ler, me ver, me ouvir. Deixo as placas, sinalizo as estradas e aí me lembro do amigo debochado da Julia Roberts no filme do casamento em que outro amigo é quem casa. Atenção, não tem ninguém correndo, etc. Eu hoje precisei de você. Não é sempre, o sempre é o desejo, mas, sim, hoje eu precisei de você. Escrevo com tinta invisível: quero te contar coisas e que você também segure minha mão. É só isso, quero não me sentir como eu estou me sentindo, agora, agorinha; eu quero me sentir como me senti há três horas. Por três minutos. Tomo um banho longo, mas você não sai com espuma. Ou lágrimas. Talvez uma intervenção. Cirúrgica. Ela disse nariz. (leia aqui) E tudo o mais sobre ele. Ou melhor, sobre a ausência de. Eu li e entendi assim: o bem querer do moço. Já estamos todos enjoados dessa ladainha, eu, os leitores, você. Recuo um pouco, você talvez não, você nem deve saber essa angústia. Como um totem displicente, recebe as oferendas que deposito regularmente na sua caixinha como se fosse nada mais do que a ordem do dia. Tento me afastar, mas se seus pés são de barro, os meus são de chumbo.

Eu, no x-games da vida e uma dolorida resignação

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Desde que comecei a ver X-games com Bob Burnquist, Mineirinho e cia., descobri que tenho alma de skatista: volta após volta taco a cara no cimento e ainda me lembro de rir porque, sei lá, em algum momento eu vou voar e quando há voo, ah, que beleza. Por isso, estou na pista. Claro que arranha, machuca, arranca a tampa do joelho. E, também por isso, chorei no divã. Mas consegui dizer: displicente. Porque há quem não tenha o que dar. Mas há quem não se importa o bastante para lembrar de. Espero que sejam lágrimas suficientes para encharcar seus pés de barro. Abrir mão de um amor é ceder de quem somos naquele amar. É difícil perder esse você que inventei, mais difícil ainda me despedir dessa eu que quis, quis mesmo, quis tanto, você. As águas do desejo são turvas, eu quase me afoguei. Faltou o ar. Ainda falta, mas nesses quandos, vou pra varanda e mergulho no azul. Ou encho a banheira. Ou peço uma comida gostosa. Trato bem o corpo que você ignora. Não tenho muita certeza se vale a máxima que cada um escolhe a vida que leva, mas confio que cada um escolhe a vida que lhe leva. Como uma versão da canção do Chico escrita em outra linha temporal (pois é, eu vi Loki), consta nos astros, nos signos, nos búzios, nos anúncios, no espelho, garantem os orixás que eu tenho que deixar pra trás. Abrir mão. Desapegar. Eu sei o quê, eles só não explicam o como. Continuo caindo com tudo no cimento. Mas continuo levantando. E buscando o voo.

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Infinitena, ano 2.
509 madrugadas
561 mil mortes
Aproximadamente 20.026.500 casos de coronavírus
1.118 mortes em 24horas
2 doses de Astrazeneca e nenhuma reação (mentira, muitas: fiquei emocionada, zangada, solitária, contente, aliviada, foram tantas que nem sei descrever)
373o dia no calendário kalúnico
Um apelido, uma ou duas playlists, um coração partido

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Estou me resignando à ideia de o Brasil manter um número constante e significativo de mortes por covid. Estou me resignando a, eu mesma, ficar cada vez mais em casa, não voltar a frequentar cinemas, restaurantes, não fazer compras em shopping, me resignando a não viajar pra ver amigos em outros estados. Estou me resignando a fronteiras internacionais fechadas ao turismo brasileiro e a passar todas as férias na praia aqui vizinha.

Porque olho pela janela e tem artista que foi resistência esses meses todos, fazendo shows – com todos os protocolos. Amigos e conhecidos que se cuidaram esse tempo todo achando que é o jeito abrir mesmo todas as escolas – com todos os protocolos – porque já não dava mais. Vendo gente juntinho, juntinho, juntinho em festas e comemorações e fazendo presencialmente trabalhos que poderiam ser à distância – com todos os protocolos – porque a vida precisa seguir.

E eu já nem estou mais discutindo se ainda dava, se a vida precisa mesmo seguir, se a arte é ou não indispensável agora. Não estou culpando ninguém nem mesmo considerando quem devia ser mais ou menos forte, mais ou menos resistente, fazer assim ou assado, Estou apenas triste porque todos os protocolos são absurdamente desconexos do que é efetivamente recomendado: não são espaços ventilados, não é obrigatório uso de PFF2, não tem intervalos em curtos espaços de tempo para se estar ao ar livre. Apenas se aceita o termo protocolo do jeito que ele vem, se inspira fundo, se reza ou se torce pro melhor e nos acostumamos à dor.

Eu me espanto, eu realmente me espanto, porque dá pra saber exatamente o que precisa ser feito pra minimizar. Não estou almejando isolamento, lockdown, essas aspirações mais nobres de um tempo anterior. Mas testagem, sabe, coisa possível. Máscara. Rastreio. Não é difícil, até eu que sou limitada, sei.

Izmália e outros sons

Deu um certo alívio o diarinho de segunda. Porque é um pouco espantoso ela sempre me adivinhar. Pois bem, ela ama casamentos, Eu também. Mas ela aprecia tudo nos casamentos e eu curto casamentos porque é um subgrupo de um amor maior: festas. Que ela não gosta tanto. Em comum, ela ama os casamentos por um dos motivos pelos quais eu gosto de festas: pessoas felizes. Não lembro o primeiro casamento que fui. Nem o último. Ou o mais bonito. Sei que o mais interessante certamente é o dos meus pais, minha mãe com um grande chapéu e pequena saia, atraso do noivo e o casal saindo de costas da igreja para o fotógrafo fazer fotos como se eles estivessem entrando porque não deu tempo no começo. Mas desse eu não lembro, só reinventei nas imagens. Lembro da carninha de caranguejo no casamento da Liana, das tranças maravilhosas no meu cabelo no casamento da Luana e que eu e ela quebramos todas as convenções e chocamos a sociedade, no casamento do Lucas, porque usamos vestidos da mesma cor (por total falta de opção na loja de roupas que não acertou fazer o meu vestido e só me avisou em cima da hora). Também eu tive casamento. Um e um plano. Nenhum dos dois acabou tendo uma grande festa, mas no primeiro eu mesma fiz o sermão no lugar do padre (#influente) e o cancelamento do segundo (faltando 16 dias) me rendeu uma bela viagem para a Itália com direito a um pulinho em Paris. Chorar no travesseiro é quentinho, mas passeando no umbigo do mundo é muito mais divertido. O que não é divertido? Perceber que você não tem nada pra me dizer, nem mesmo so long, farewell, auf Wiedersehen, adieu. E a delicadeza dos estranhos esfregando na minha cara que nem mesmo as promessas do auge foram cumpridas. Boba, boba, boba. Coloco a culpa nas estrelas, no isolamento, na Teresa Cristina. Como a piada: a culpa é minha, boto onde eu quiser. Lá no lá dela continua o frio, a luta está sob judice. Aqui nada continua, só se repete. Presa num infeliz dia da marmota. Inclusive no sentido cearense, não apenas a marmota do filme. A dor dela é no ouvido, a minha é no que não foi dito (#desculpem). Adorei o desenhinho animado – eu sou do tempo que fala desenho animado, não animação ou qualquer variação dessas. Um dos meus desenhos animados preferidos é A Pequena Sereia. Eu sei, gente, eu sei. Perder a voz. Eu faço análise, podem ficar tranquilos. Ela disse: live curtinha. Eu falei pelos cotovelos. Ainda bem que tenho sorte e as pessoas tem paciência comigo. A terça-feira começou com o mimo da Camila e eu até pensei algum alento. Bronze do Thiago, ouro da Ana Marcela, o nosso atleta que parece o Hulk do Vingadores Ultimato conseguindo a classificação pra final. Mas veio a tempestade, o dia foi doendo, doendo, doendo, de um jeito caprichado. No ritmo da Izmália: levar um soco, quase não dói; quebrar os dentes, não dói; ter que levantar, quase não dói. Quase.

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Fiz o possível: banho, comida quente e simples, lençol cheiroso.

E chorei, chorei, chorei toda a impossibilidade.

No eu te dedico, uma dedicatória no livro uma história social do morrer, para uma Luciana. Só isso mesmo.

Tem uma música meio breguinha, mas que eu adoro que diz: abre a porta e deixa entrar, essa paz que faz o amor imenso. É mesmo pelas frestas que um amor chega. Às vezes penso que não é a solidão o que nos define como humanos. É sabermos a solidão.

Esse é um blog de família. Provavelmente da Corleone.

Não poder não escrever também é uma coisa que me define, vocês sabem. Querer ser amada não apesar da falha, mas pela falha, é um desses abismos em que me jogo.

Ele segurou minha mão no recital e por todo caminho de volta pra casa (eu chamo de casa todo local que me hospedo, vejam vocês). E eu ficando tão miudinha que podia caber na palma de uma mão. E coube. E me deixei ficar porque às vezes eu canso de não caber em lugar nenhum.

Corpos em desalinho

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Cometi uma carta de nove páginas. Nove. Já estou até encabulada. A semana vai começar puxada. Disse sim para todos os compromissos de segunda e agora vou ter que rebolar, rebolar, rebolar. O que eu queria mesmo era ficar ouvindo o disco novo da Bethania por horas e depois me entorpecer de esporte. Não existe mais nem um pedacinho de mim pra te oferecer. Tenho que contar que você fique por aqui apenas pelo prazer da companhia. Fique, eu disse? Volte. Uma história só existe ao ser contada. Esta se dilui no seu silêncio. Teimosa, insisto ao gritá-la na beiradinha do abismo, mas sinto o ridículo de receber de volta apenas o eco debochado das últimas sílabas das minhas próprias palavras. Vou regar a margaridinha na varanda. Passar um café. Dobrar lençóis. Colocar máscara sobre máscara para enfrentar o lá fora. Sempre tive o sorriso fácil como técnica diversionista para os olhos tristes. Além da questão estrutural, tenho birra pessoal com a monogamia que ano após ano vai sequestrando parte da minha intimidade com as amigas. De tudo no envelhecer, o que me tem causado espanto e pena é ficar tão quebradiça. Recebi a segunda dose da vacina. Na esquina de casa. Viva o SUS. Diferente da primeira dose, que comemorei em praça pública, estou escondendo essa no texto que quase ninguém lê. Não sei bem por quê. Talvez tenha me dado a dimensão de uma outra solidão. Mas não passou em branco, celebrei tomando um suco de laranja e tentando despachar o máximo de tarefinhas como responder e-mails e marcar orientações. Zanetti aumentou a nota de partida e bateu com a cara no colchão. Arriscou tudo e foi imenso. Eu fiz o mesmo, aumentei a aposta, paguei pra ver. Sem igual grandeza, mas com semelhante resultado. Tudo bem, é só um pequeno sangramento no nariz.  Recebi a proposta que espero desde 2015 e disse talvez, mas com sabor de não. Almocei um picolé. Participei de reunião, dei boas sugestões. Chorei com crônicas bregas nos canais de esporte. Reli o diarinho da Fal vezes e vezes. Atenção para o segredo: o bom da amizade é a outra pessoa. Olho a despensa como certas pessoas lidam com o guarda – roupa: não tenho nada pra vestir, digo, pra comer. Você me fez perder a mão. Prometo, outra vez, sim, outra vez, deixar ir. Não esperar. Não pedir. Não tentar. De novo. Chamar o sol. Então, é isso. Mas, pra você saber, se estamos no escuro, corpos em desalinho e pés entrelaçados, é mais fácil dizer. Até adeus.

Era uma mulher com seu caderno

 “Não era mais uma menina com um livro:
era uma mulher com o seu amante”.

Algumas vezes escrever é como caminhar no pó de estrelas, lúdico e brilhante, e a gente se sente um tanto Wendy, fazendo a curva no Big Ben e partindo para o mágico espaço onde agora é sempre. Na maior parte das vezes, porém, escrever – pra mim – é desbravar cavernas subterrâneas, onde incessante se escuta o gotejar das dúvidas e a mágica possível é continuar respirando e acreditando que o sempre é só agora, vai passar, e um nunca prometido e visionário está em alguma curva, em algum vão, no próximo tropeço, talvez. Entre o ar rarefeito do vôo e do profundo, se passo um dia sem escrever, quando retorno pra folha em branco, volto sempre com um medo esquisito de não saber mais como se faz. A quem eu quero enganar? (a mim mesma, pra começar e, se possível, a você também). Como falar de qualquer outra coisa quando só me vem palavras sobre o que eu não posso dizer? Não posso? Não quero. Não sei. Só sei que plantei, adubo e diariamente trago minha canequinha com água para regar este segredo. Vejo cores nele. Opa, em você. As aulas não me permitiram acompanhar o incêndio da Cinemateca na hora em que aconteceu. Alívio. As aulas não me permitiram acompanhar a live da Tina com Mary W, Helê e, claro, com ela. Perda. A vida dá, a vida tira. Vejo a conversa com atraso e me engasgo com todos os comentários que queria ter feito. Tanta coisa silenciada. Ganhei um caderno. Sim, Mardônio, eu percebo a ironia. Na tv, atletas de vários países choram. De alegria, de tristeza, quase sempre o principal sentimento é decepção. Sim, Mardônio, de novo, eu sei, eu sei. Eu falei de saudade e fui respondida. Partilhamos vislumbres de esquinas e ímãs de geladeira e eu passei uma hora inteira sorrindo. Gosto desse devagar dos envelopes, me ajuda a respirar. Tive uma ideia gentil e deixei no quase. Cheguei a pensar que tinha gastado todas com você. Você que, ainda. Você que inventei e reinventei em mim. Ainda sinto a fome. A besta no ventre. Fico pensando se o o problema é que fui educada pela Teresinha e agora não sei, você me contou suas viagens, vantagens, me diz rainha mas não me entrega nada e, ainda assim, posseiro, claro, como não? Às vezes estranho seu rosto. Saberíamos nos reconhecer além das palavras? Fui espiar o céu, sem lua, sem estrela, sem lembranças nem promessas. O escuro como o primeiro ou último abraço. Às vezes eu tenho medo de não estar viva, mas nunca de morrer.

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Pássaro sem asa e um campo minado

Uma segunda bem longa. Que não se cansou ainda de nós, ela disse na hora do diarinho. Um jeito muito mais bonito do que reclamar e reclamar e reclamar da exaustão, como eu tenho feito. Ainda assim, apesar da beleza do enunciado, uma segunda imensa. Olimpíada de noite e de manhãzinha. No intervalo: coisa demais pra fazer, pra pensar, pra sentir. Até os quitutes das olimpíadas sofreram os efeitos, fui apenas de tortilla de batata com cebola e queijo. Graças aos deuses pela cebola e graças a quem deixou o leite talhar, pelo queijo. No meio, um divã inesperado. Meu rosto no espelho. Não, meu desejo no espelho. Confirmando imperativos. Firme, luciana, firme. Apesar do mate, apesar dos sonhos. Um passo, outro passo. Mas tem um sensor, né. Só pode, tipo aquele das granadas enterradas. Pisei em uma e sempre que penso em sair e diminuo o peso, dispara como se fosse estourar. Você adivinha. Gentileza, elogio, coração. Eu, manteiga. Vexame. De novo em cima da granada. Suspirando. Coloco o sorriso no rosto e faço de conta que. Bem leve, leve, é isso, marisa? A amiga é tão amiga que assistiu a live no dia seguinte. Nas redes vejo pessoas fazendo planos de encontro, viagem, bar para vinte dias depois da segunda dose da própria vacina e me dá um desânimo. Não estamos entendendo nada. Lá dentro uma voz corrosiva lembra que eu mesma faço planos para dezembro. Argumento que é um hipotético dezembro. Se houver cobertura vacinal. Se isso, se aquilo. Leio a notícia que a taxa de contaminação no brasil deu uma leve subida. Não verás dezembro nenhum. Como é mesmo o nome dele? Tento responder e seu nome gruda na minha língua. Escuto letra por letra na minha própria voz e cada uma delas é uma pontada no coração. Bico afiado. Pássaro sem asa, rei da covardia. Arrumo a cama, aguo as plantas, choro de vez em quando. Alterno tristeza e beleza. Obrigada, olímpicos. As dúvidas do cotidiano me atropelam. Já liguei pro moço que conserta a máquina de lavar roupa? Claro que não. Compro ou não compro o salmão pelos olhos da cara? Claro que não. Porque a vida real é tão exigente? No mais, café, feijão, farinha. Do que é fresco, banana, coentro e rúcula. Nem era diarinho mas ela quebrou minhas pernas colocando o Zeca Baleiro pra me lembrar o tanto que quero –  tua língua, mamilos, beijo, Tejo, Guanabara – e me desprezar levemente porque vou passar agosto esperando setembro, setembro esperando outubro, outubro esperando novembro, novembro esperando dezembro, dezembro esperando você e você, você vai dizer sim e depois silêncio. Agora, outras esperas. Espero um trabalho por email e espero um email de trabalho. Nenhum dos dois chega, passo pro próximo serviço. Tento não prestar atenção nos estragos no Cnpq e na possibilidade de ter que fazer lattes e tudo mais de novo. Você acorda lá no seu longe. Eu aguardo o dia de não precisar mais de você para dormir. Anoto vários nadas no caderninho. Leio os contos para o Cortazar na quarentena e penso na imensa sorte de poder ser outra nessas noites de fumaça, taças e livros. Meu carro estava se desmanchando por falta de uso. Meu cabelo mais cai do que cresce. Preciso marcar oculista, exame, dentista. Ou morrer me desmanchando, como o carro. Pergunto para as cartas se há um moço pra mim. Sim. Pergunto se ele está em Mossoró. As cartas debocham e mandam um não em neon. Tenho um grande número de quadros para colocar na parede. E eu, eu nunca. Não dou conta dos quadros, das dores, do tempo, das tarefas, de todas as mensagens. Me irrito com mais um mouse com problema. Escuto crianças brincando na rua e sorrio. Há algum alento em ainda conseguir sentir o bom. A ginasta russa terminando sua apresentação no solo ternamente comovida é meu espírito animal. Escuto a comentarista dizendo: não existe atleta sem dor. O atleta convive sempre com a dor. Cada um sente dor em algum lugar. Você é meu esporte.

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Infinitena, ano 2.
#dia500
nenhum corte de cabelo profissional
1 corte de cabelo amador
1 fim de semana na praia
1 cadeira preta com furinhos
1 viagem constantemente adiada
3 semestres completos e 1 iniciado
108 encontros do Cortazar na Quarentena
7 aulinhas  de cinema
1 oficina de escrita por começar
2 shows da Salmaso
1 encontro com os pais, sem abraço
1 artigo em evento e 1 artigo submetido à revista
4  madrugadas olímpicas
5 medalhas
#dia364 no calendário kalúnico
4 tentativas de ir embora
1 piada repetida
2 Verissimos, 1 pintado
1 Melody Gardot
1 vontade
1 ilusão de encontro
61 garrafinhas
1 dose da vacina
551 mil mortos
551 mil mortos
551 mil mortos
1 horror inesquecível

Vejo a amiga à beira de despenhadeiro e meu coração falha. Penso em gritar cuidado, mas tenho medo do desequilíbrio em caso de susto. Que coragem é essa, amiga, andar vendada assim na beiradinha? Toda nua. Toda. Pé em ponta, rodopios, faz pose, balança. Vou devagar, mão estendida, cheia de sermão pra depois do resgate. No finzinho da pedra, o ao redor vazio. Era eu, era eu, era eu. Eu e o abismo. Me empurro, então.

Walk tall, Luciana

Às vezes ela come chocolate. Eu fico pensando no que eu estou perdendo, em estilo, por não gostar muito de doces, especialmente chocolate. E não beber chá. Nem infusão. Não usar lenço ou chapéu com regularidade. Não frequentar cafés. Mas aí nem é limitação minha, eu frequentaria se cá houvesse. Enquanto assistia “há tanto tempo que te amo” eu pensava que também me reencontraria em cafés, cigarro e amor. Fizemos live e eu falei, falei, falei. Mas o som estava ruim e ninguém escutou. A vida podia ser mais discreta com as metáforas irônicas. Pelo menos as perguntas foram sensacionais, vale a pena assistir por isso. Me preparei pra ter o coração partido. E tive. Tem um certo conforto em largar mão do “e se”. Se nada, se toca mulher. Procuro o lado positivo, mas ele está de costas. Atravessei a madrugada vendo pessoas mais rápidas, mais equilibradas, mais fortes, mais disciplinadas e, principalmente, mais esperançosas do que eu. Coloco foto de flores e comida nas redes sociais no lugar de pedidos de socorro. Preparo um banho longo, há onze anos que me parabenizo por ter feito questão da banheira. Começo listinha mental do quanto sou foda, mas desisto depois de um tempo, é um bocado de coisa. Ser capaz de rir de mim mesma estava na lista sim. Tem nem dez dias falei dos labirintos vazios, ela trouxe os minotauros esfomeados Somando todas as horas de sono dos últimos dias, não dá as tais oito horas. Coloquei pra gelar cervejas que não bebi. Mas fiz gostosura com abacates. Uma banda e meia, leite condensado e creme de leite. A outra banda, um parente próximo de guacamole: abacate amassadinho, azeite, sal, pimentinha, cebola roxa, tomate, cheiro verde, limão. Aí é só montar: uma torrada gostosinha, cream cheese, o abacate temperado e, sucesso, uma fatia de salmão defumado. Luxo. Tem coisas que eu compro no supermercado quando vejo porque nunca, nunca, nunca tem. Cogumelo, salmão defumado, lichia. Posso até me endividar pra isso. Chega o diarinho de hoje. O que foi esclarecido: não posso ficar menor do que sou pra caber na sua vida. O que foi arrumado: a louça. O que foi escrito: a 60ª newscoisa, Garrafinhas da Lu. O que foi visto – olimpíada, revisto – as primeiras páginas de Orgulho e Preconceito, entendido – o silêncio é intencional. O que foi posto no lugar: meu juízo. O que foi planejado: um dezembro. O que foi pintado de azul: Blue Rondo à la Turk (Dave Brubeck, melhor bagagem de relacionamento). O que foi possível: sobreviver.

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Um cristal estilhaçando. Ainda tem o afeto, o desejo, ainda tem tudo que revira entranhas. Mas. Pois é. Saber que não importa pra você faz importar menos pra mim. Ainda vai doer, eu sei que vai. Ainda vou acordar chorando no meio da madrugada. Ainda vou sentir como se um batalhão de soldados enfiassem sabres no meu peito. Ainda vai arder, ainda vai queimar, ainda vai me faltar o ar, o ânimo, a força, o riso. Ainda vou chorar e suar e sangrar pra você sair de mim. Mas, agora, eu sei que há um depois sem sua presença aqui dentro. Porque, hoje, você abriu essa fresta por onde vai se esvair esse sentir. Eu não esperava muita coisa. Nem isso nem aquilo nem futuro ou laço. Só estar aí. Aqui. Ali. Pra mim. E você não esteve. Não está.

Greys-Anatomy-quotes8 (1)

Amiga, isso não se faz. Estou aqui juntando força pra tentar sair de cabeça erguida, apesar do fio da meia corrido, do salto quebrado, da mão trêmula agarrando a alça da bolsa, do rímel borrado, do dente mordendo lábio até o sangue. Não se faz, um texto assim, Juntando força pra sair sem tropeçar,  tropeçar sem cair, cair sem chorar, chorar sem fazer barulho. Engolir em seco sentindo as lágrimas escavando gretas no rosto. Juntando força pra sair sem xingar, sem reclamar, sem pedir, sem me despedir, porque qualquer palavra, eu sei, seria uma desculpa para mais um eu e. Pois é. Isso não se faz, amiga, um texto que chega puxando o tapete sem aviso, sem alerta, sem alarme e agora meu passo fica mais lento, meus ombros mais pesados, a hemorragia mais intensa.