Correspondentes

Orgulhosa de mim mesma e da coragem desprendida evocada, dei o que eu supus ser uma imensa patada. A pessoa achou que era um afago e me tratou com a displicência condescendente de sempre. Só me resta cantarolar: a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o livro é meu – porque um dia virá, sim, virá. Enquanto não vem, um convite gentil, um pequeno conto, uma boa aula, os Corleones, máscara com válvula, hidro, a correspondência. Abri o envelope e choveu dourados. Cartas há mais de um ano e você ainda consegue me surpreender. Alerta de correios e de sorrisos em mim, sorrisos que eu julguei perdidos. Ouvi uma musiquinha do Fito Paez. Tão doces os amores do passado que nos fizeram bem mesmo que não os entendêssemos como devíamos. Escuto os moços falarem de luxúria e me admira a segurança com que dão conselhos. Se eu fosse dos que dão conselhos diria: coloquem a macaxeira para cozinhar no cozido de carneiro. De preferência, tendo temperado a carne, também, com canela. E acrescentaria: depois que no prato estiverem carneiro, macaxeira e cuscuz, taca sem dó um monte de pimenta biquinho. Garanto uma boca em festa. Por falar em festas, ando precisando de um boteco. Em outra freguesia. Criei uma armadilha e me joguei nela. Eu era feliz e sabia. O que eu não sabia é que não seria feliz assim de novo. Os moços ainda estão no papo, infelizmente não dá para ignorar o moralismo dos conselhos. Sexo é um assunto complicado para se falar en passant – lembro-me de dar este desconto. Só me resta reler Ligações Perigosas e respirar por Merteuil. Eu não tinha medo de morrer. Agora eu tenho receio de não morrer. Ou de não saber que estou morrendo. Ainda estou decidindo. Li o diarinho da Fal e é óbvio que não devo assistir Uncoupled. Nem ler threads no twitter sobre obsessivos e histéricas. Este era o seu apelido correto: Olegário. Sôo ressentida? A dor é minha, o livro é meu. Comprei pasta de amendoim. Gastei dinheiro que não tenho. Não me senti melhor. Nem pior. Faz tempo que estou como o pintinho da piada: sentindo nada. Aí passa o efeito do analgésico e, claro, ninguém quer ler sobre isso. Fiz fotos com meus sapatos vermelhos. Não estou mais no Kansas, nem em Oz, nem mesmo em São Paulo. Mas encontrei um papel de carta muito fofo e etiquetas douradas em forma de estrela. Não estou fazendo planos pois não sei se estaremos juntos, eu e o futuro. Não sei quem ele vai encontrar, caso chegue. Provavelmente alguém que eu desconheço. Enfim, não estou fazendo planos, mas em algum canto bonito em mim, sonho encontros, vinho verde, pequenas palavras, imensos silêncios, muitos risos, talvez murmúrios, algum espanto, surpresas, conforto, a hora de ir embora sempre chegando antes do que devia. Preciso comprar envelopes.

As coisas que você estragou pra mim

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.
(Paulo Mendes Campos)

Que pena que você foi embora, moço. Levou, que nem a Rita, um sorriso meu e tantos assuntos que ainda poderiam ser. Guardo, com carinho, os últimos besitos. Melhores que vinho.

É, para mim, cada dia mais difícil falar com as pessoas. Especialmente com as gentis. Com os gentis que são meus amigos, então, é quase impossível. Atenciosamente eles me perguntam: como vai? Como você está? E eu não posso responder. Não conheço as palavras. Me esquivo. Ontem eu tentei, porque ela, tão querida, perguntou. Eu disse – eu tô sem estar. Sinto que atravesso os dias como se todos fossem o mesmo e cada um fosse o vazio. Nem alegre nem triste nem poeta – mas eu disse não é exato, não é bem isso, embora seja o mais perto que consigo chegar da verdade quando tento colocar em palavras.

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Vem aí meu aniversário (falta menos de uma semana) e eu estou apavorada com a tristeza que vou sentir.

Em um Diarinho recente ela fez uma lista de coisas interessantes sobre a vida dela e disse que uma – só umazinha – era mentira. Foi tão bonito que eu nem soube comentar.

Quando eu digo que não conheço as palavras é uma meia verdade. Conheço algumas, mas elas tentam escapar. Hoje passei uns bons 50 segundos olhando pra escrivaninha, tentando lembrar este nome e só me vinha: maçaneta.

As coisas que você estragou pra mim (ou bem perto disso): Paulinho da Viola, Verissimo, escola de samba, madrugada, a sua cidade, vinho, bacalhau, amizade.

Status: hora extra.

É muito irritante quando eu digo, em análise, eu não sei tal coisa (sobre mim) e o analista emenda um sonoro: eu também não.

Tenho saudades do tempo em que eu não gostava de brócolis #classemédiasofre

A tua carta está em cima da escrivaninha esperando ser respondida. Não chegou hoje nem ontem. Nem mesmo anteontem. Chegou com um bonito e enorme gato no envelope, prometendo tanto. Que não veio. Que não estava no envelope, nas linhas nem nas entrelinhas nem nada. Bom, pelo menos eu não encontrei. Não respondi ainda. Não me animei. Não me inquietei. Não me inspirei. Não quis. Não quero. Estou cansando de você, provavelmente por suspeitar que logo você vá cansar de mim. Não é um movimento novo, embora ainda não tenha conseguido explicar direitinho, no divã, o fenômeno. Eu vou embora, mesmo que ainda pareça estar. E não consigo voltar. Depois podem ser os ridículos “dezesseis dias seguintes”, mas, quase sempre, nem isso.

A casa limpinha. Máscaras nas estantes, na mochila, na bolsa, nas gavetas. Esperando. O kindle e o reino dos livros inacabados. Rúcula com manga. Alho frito. O vermelho intenso da rosa do deserto. Decisões tomadas. Grandes, imensas. Renúncias presentes e futuras. Camisola lilás. A televisão recebendo um poltergaist. Suco de maracujá. Muito suco de maracujá. Reunião no sábado. Um bom filme velho. Um gol do Flamengo. Uma música triste. O café sem açúcar. O shampoo de café. E o condicionador de canela. A ponta do lápis de cor. Os passarinhos, as florzinhas, o ventinho frio de chuva. Aquele doer sem diminutivo.

Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

“O acaso é a flor do real”

Pois é, viajando. Tal como o moço da piada caindo de um prédio muito muito muito alto, o que eu posso dizer sobre isso é: até agora, tudo bem.

Liberdade nunca é demais. Subir e descer e descer e subir, entrar em todos os mercados e ficar espiando rótulos com símbolos que nunca jamais decifrarei. Comer guioza na rua. Sentar no banquinho e espiar pessoas e tampo passarem se misturando. Querer mergulhar no caldinho do Tempura Udon do Izakaya Issa. Comprar temperinhos. Uma senhora idosa de máscara bem assentada, um pouco curvada, bengala estilosa e passo calculado como se o tempo estivesse a seu serviço e abrisse espaço na calçada para ela seguir seu trajeto. Jovens ligeiros gesticulando muito, ocupando a calçada na largura, falando uns com os outros e no celular – ao mesmo tempo. Um homem e duas crianças de olhos sorridentes por cima das máscaras coloridas param na ponte para tirar fotografias. Som, som, som e, entrando no jardim, um repentino som que, de tão diferente, é quase silêncio, como quando se atravessa uma cachoeira e já não há antes nem o depois, só a água fora, dentro, por todo lado, entontecendo. Uma moça fuma e reclama baixinho com ninguém, segurando o celular quase com repulsa. Duas adolescentes trocam selinhos. Um senhor de suéter azul, cabelos grisalhos e uma teia de tempo no rosto, fuma, distraído. Queria  me ver assim como vejo toda gente. O jeito, o corpo, as expressões. Meu rosto deve parecer tão triste de máscara, talvez, os olhinhos baixos sem o sorriso pra distrair. A sapatilha vermelha fazendo seu trabalho de destruição. Sacolas e uma bolsa de cactos. Sobe e desce e desce e sobe, entrando nos mercados, comendo na rua, carregando uma gargalhada como uma cicatriz, se esquecendo do tempo sentada no banco do jardim com um kindle no colo e o olhar vagando dentro.

No mercado de lá tinha lichia, perguntei o preço, balancei, não comprei. Na esquina daqui tinha castanha portuguesa, não perguntei o preço, comprei-a-a como diria o Rolando Lero. E depois chorei.

Choro por tudo que a gente não teve, por tudo que a gente não realizou, choro porque eu sei etc. Eita, Fábio Jr.

Por muitos anos eu evitei visitar São Paulo achando que nada havia lá que fosse realmente me interessar. Boba. Por muitos anos evitei visitar o Rio de Janeiro temendo que a realidade não se empariasse com minha imaginação alimentada por Nelsons e Vinícius. Boba. Boba.

Bem baixinho, no cantinho: São Paulo me trata melhor. Pohan, Rio, chuva? (e nem vamos falar do tira-gosto).

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Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

E essa é a última vez que eu digo que é a última vez. Porque estou cansada de não estar contente, sabe. E não tem mais desculpa, nem pra você nem pra mim. Estou aqui, estenda a mão, abra os braços, me cante uma canção bonita. Qualquer versão disso. Eu entendo as dores, mas já não quero um afeto que se recusa. Que me recusa. Te deixei livre para todos os caminhos, o passo e a rota que você escolhesse. Mas não viajar é dolorido demais. Você fica. Fique. Eu vou. Violeira. E se confundo lágrima e neblina é só um jeito diferente de ver a paisagem. 

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(Yuval Robichek)

Um amor chamado Boromir

Deixa a minha boca morar na sua boca
Deixa o meu sexo morar no seu
Deixa a minha mão morar nas suas pernas
E o meu quadril anexo ao seu

Euforia
Euforia
Eu faria
Tudo por você

No envelope: chá, cartão, cartinha de baralho. E palavras, muitas palavras. Na caneca, café. No peito, corredores vazios. A roupa de cama tem cinza e verde. Na mala, sapatos vermelhos. Livros que não li. Mensagens que não respondi. Redes que não frequentei. Mais boletos que dinheiros. Uma lista no spotify. Um artigo revisado. No vaso, florzinhas vermelhas. Várias renúncias. Uma hora inteira resumindo faroestes pro analista. Ele riu. Eu chorei. Você, você eu não sei. Não quero ser amada, quero ser entendida. Ele riu, eu ri também. Você, você eu inventei.

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Eu lembrava que gosto muito d’A Sociedade do Anel, mas eu tinha esquecido como o filme é gloriosamente bonito. Que uso primoroso da luz. E é admirável como os roteiristas conseguiram cortar vários eventos presentes nos livros sem perder a essência da narrativa. É um filme de afetos. De gente que não tem vergonha, nem de chorar nem de abraçar. Revi lembrando Meredith e Cristina. Elas caberiam direitinho entre os personagens. Em se tratando deles, aliás, ressalto que gosto demais do Boromir. Boromir é o personagem que vacila. Aquele personagem que enfia o pé na jaca com tanto gosto, que flerta com a desonra, que protagoniza tantos furos na virtude que se poderia pensar que existe só para servir de contraponto ao fodão. Mas não é (só) isso. Ele é tão, tão humano. Tão fraco, tão suscetível ao erro, tão vulnerável. É isso que mais amo: a vulnerabilidade. Porque é da sua imensa, enorme fraqueza, que ele se faz forte. É ele quem brinca com os hobbits, ele que se comove com a dor dos pequenos quando perdem o mago, ele que carrega uma culpa imensa por não ser capaz de proteger todo um povo, ele que cobiça, ele que se arrepende, ele que se inspira. Ele que se entrega. Ele é daqueles que, uma hora ou outra, sucumbem. Que eles caem, caem, mas que seja em cima de mim. Os mais humanos e, por isso, meus preferidos. Ele não sabe os caminhos, ele só sabe a chegada e, nisso, se perde. A morte de Boromir é tocante demais. Redimindo-se. E é tão simbólico que ele não cai no confronto direto. É preciso a covardia e a distância para atingi-lo. E uma imensa crueldade. 

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As pessoas saem com inquietações da sessão de análise, eu saio com dicas de faroestes.

Sim, carrego arrependimentos. Poucos e leves.
Como ter usado minha melhor dedicatória no livro que te dei.

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Cinema é um negócio mágico quando bem feito. Em poucos minutos, com as cores, o riso, as conversas, a gente entende porque Frodo – confrontado com a iminência do Condado ser invadido, resolve partir, proteger seu lugar e seu povo. Antes do bom e conhecido “salvar o mundo”, cuidar do que é alegre e bom. E não em um sentido mítico e expurgado de paraíso, entre os hobbits há fofoca, intriga, picuinha, maledicência, gula, alguma preguiça, etc. Ainda assim – ou por causa disso tudo – é um tempo/espaço precioso. 

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Hoje me perguntaram: se eu caio enferma, quem será meu escudo e minha espada? 

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Tem uma hora que Frodo diz a Gandalf que gostaria que o anel nunca tivesse chegado a ele, Frodo. Que preferia que nada do que lhe ocorreu tivesse acontecido. E Gandalf responde, com a genialidade do óbvio (não estou sendo irônica): assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Temos de decidir apenas o que fazer com o tempo que nos é dado. Eu gostei dessa frase quando vi o filme a primeira vez e em todas as vezes subsequentes. Acontece que eu não tinha revisto ainda depois de 2015. Venho repetindo, como Frodo, que preferia outro mundo, outra vida, outros eventos. Porque que tempos de horror. Mas preciso encontrar o eco da frase de Gandalf, em mim.

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Um dos segredos da felicidade, ouvi dizer, é compreender a nossa relevância no mundo.
Acrescentei por minha conta: e rir disso. 

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Está confirmado, haverá um amanhã.

Espelho, espelho meu

Enquanto grande parte do meu círculo está decretando o fim da pandemia + distanciamento social, engrenando uma quinta e retomando a vida como se covid fosse uma distante memória ruim, eu ainda estou tateando, tentando descobrir uma forma de sobreviver ao isolamento. Me apaixonar não resolveu, então agora eu escrevo cartas. Escrevo com muito, muito carinho, tentando fazer a letra ficar legível e dizer alguma coisa gentil. Se você recebeu uma carta minha e uma (ou as duas) dessas condições não estão presentes, saiba: não foi falta de esforço. Nesse processo, reencontrei um amigo, uma pessoa que amo muito, mas que, por completa falta de jeito minha, eu tinha afastado. Ponto pras cartinhas. Algumas pessoas recebem as cartas e ficam contentes. Algumas pessoas recebem as cartas e respondem. Aí eu fico contente. E re-respondo. Só não escrevo pra você. Bom, é uma meia verdade. Eu escrevo. Mas não envio.

Ressentimento é uma coisa amarga. E grudenta. Viscosa, de um jeito negativo. Vai chegar o dia em que vou me esquecer de lembrar de esquecer. Vai sim. Por enquanto, trago esse travo nas palavras. Recordo envergonhada, o que eu disse, fiz, dei. Risos. O que digo, faço, dou. Se nego às cartas envelope e selo, não é por querer te privar do que quer que seja. Não tenho essa firmeza de caráter. Já ofereci tudo que tinha em mim. Palavras são o reconhecimento da falta. Não posso te dar o meu vazio.

Para além do seriado juvenil em que transformei minha vida, tipo um Barrados no Baile sofrido, Brasília está caindo, vias fechadas por caminhoneiros que dançam macarena, um povo esquisito que usava verde e amarelo e bradava por repressão agora quer sair de branco, mas ainda querendo a repressão e desejando mortes várias – inclusive a minha, STF com notinha de repúdio, centrão raspando o tacho, Temer escrevendo cartinha pro bozo assinar e eu gastando meu doer com a mensagem sem setinhas azuis. Ridícula. É que fico agoniada porque eu seria feliz fazendo você feliz. Mas você não quer ser feliz. Não desse jeito.

Se eu desisti – eu disse que desisti, não disse? então foi, tá desistido – eu devia pôr minha violinha no saco e cantar em outra freguesia, de ouvidos mais atentos. Devia mesmo. Mas fico arrodeando, fazendo de conta que estou só afinando uma corda, fingindo que estou compondo a última estrofe antes de seguir, cantarolo alto como quem ensaia, invento miudezas várias para ficar por perto, fazendo bastante barulho, como ensinou o Pedro Cardoso, E nada de Deborah Bloch pra mim.

Pelo menos a casa está limpa e arrumada, as aulas estão em dia, telegramas foram entregues, tem fruta na geladeira, tomei meus remédios, aguei as plantas, fiz ovinho mexido e suco de laranja para jantar e, se eu dormir, em um amanhã será sol e mar.

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A morte e outras rotinas

“No centro da sala, diante da mesa,
no fundo do prato, comida e tristeza”

Eu lembro sempre de um episódio de Grey’s em que a voz em off comenta que a gente nunca sabe que o maior dia da nossa vida vai ser o maior dia da nossa vida, que os dias que a gente espera que sejam especiais acabam nunca sendo exatamente o que se esperava deles. São os dias comuns, os que começam normais e sem expectativas, estes são os dias que terminam por ser os maiores dias. No episódio, excepcionalmente para esta série, eles estão falando dos grandes dias que são, também, os felizes. Mas eu acho que a lógica se mantém para todos os outros tipos de dias excepcionais. Como o dia em que você morre quando morre alguma coisa em você que lhe é tão própria, que você se acostumou a pensar naquilo como sendo você mesma. Alguma coisa. Um amor. Foi bem assim – e hoje eu posso sentar na cadeira de balanço e embalar a memória daquele dia – o dia em que eu morri. Não acordei antes nem depois do horário comum. Banho, escova de dente, de cabelo, nenhum sinal. Até aulinha de hidro eu fiz. Não almocei, mas também isso era comum naqueles dias. Em algum momento da tarde, suco de laranja. Trabalhos corrigidos. Notas lançadas. Pedido na feirinha. Emails respondidos. O sol que subiu, descia. Tudo como mandava o figurino. E aí, então, eu morri. Entre um silêncio e um emoji. Bom, não exatamente eu. O amor. Ou a crença que o insuflava. Uma brincadeira com dominós. Morreu aquele algo que sustentava o amor que me fazia existir. Tão bonitinha, ela. Pois é, morreu. Morrer dói, é a informação que eu trago aqui (como diria o moço do choque de cultura). Foi no meio da dor que eu percebi que aquele era um dos grandes dias da vida, do tipo que se falava em Grey’s. Depois de morrer continuei fazendo o que tinha que fazer. Orientei alunos, vi tv, fiz sopa, comi a sopa. Li, escrevi. Dormi. Acordei. Morta. Mortinha. Foi interessante – e um tanto perturbador – daí pra frente, imaginar quantos outros mortos haveria vivendo no mundo. Talvez alguns deles até assistam grey’s anatomy, como eu.

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 Se eu tivesse vergonha na cara, não postaria essa Bacall hoje

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Cá dentro, eu sei: gosto, de uma forma terna e dolorida, que não cheguemos nunca a nos encontrar, mesmo com toda essa fome que tivemos um pelo outro. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, tantos futuros se dissolvendo. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, eu repito, agora em voz alta, e a minha mão te procura e o mundo me chega morno e salgado.

Não há você, mas eu lembro a história. A do primeiro bichinho de estimação: um porquinho da índia que um dia, tão velho, tão velho, sumiu. E quem não quis acreditar quando uma mãe ofereceu abraço e mentiras e disse: ele fugiu? Eu, eu também quis acreditar na fuga do porquinho.

Hoje, sem mãe, sem abraço, sem você, me sobra a mentira: o porquinho fugiu.

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A conversa que Phoebe tem com os embriões é meio o que eu queria dizer pra alguns moços: estou aqui pra fazê-los se sentir bem e quentinhos por um tempo, depois vocês serão devidamente entregues e tal. E, claro, quando nos virmos, se eu estiver gritando, não se assustem, é assim mesmo.

Obviamente essa é uma mensagem na garrafa que nunca chegou à sua praia.

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Além disso, Mathilde é uma otimista.
 Tem para si que, se aquele fio não a levar ao seu amante,
paciência, não importa, ela ainda pode se enforcar com ele.

Depois de morrer, fui ver um filme. Rever, a bem da verdade. Um Longo Domingo de Noivado. A esperança, essa droga perigosa. O esquecimento. Os horrores da guerra. O horror, talvez mais duro, da incerteza cotidiana. As imensas tragédias. As pequenas perdas. A cena do farol, que justifica todo o amor, toda a espera, todos os amores que você e eu vamos sentir ou já sentimos, todas as lágrimas que choramos, todos os sonhos que cultivamos. O cinema me ajuda a pôr a vida em perspectiva. Me faz lembrar que, fora os filmes, é isso mesmo: um dia e outro e outro e outro e, se puder, um pouco de alegria. Enfim, para além de Pollyana, me descobrir Mathilde. Seguro, firme, o fio. E sigo otimista.

O funeral de Heitor

“Quero muito fogo
Pra toda essa palha”

A ira de Aquiles termina com a morte de Heitor. E não só, a Ilíada também. Homero nem precisa contar se Tróia caiu ou como. Cairia sem Heitor, sabia-se. Heitor que morreu porque os deuses determinaram e por nenhum outro motivo. Heitor que reconheceu o que os deuses queriam e tratou de fazê-la inesquecível. Heitor que pôde cruzar olhar com seu algoz e repreendê-lo. Heitor, o nobre. Heitor, valente não porque queria ou gostava, mas porque era preciso. Gentil, é como sinto Heitor. Quando ele tira o elmo, caem todas as minhas defesas. Gosto muito de muitos, mas tenho um xodó especial por Heitor que, suspeito, vem do mesmo lugar e tem a mesma natureza do que me faz apreciar Rollo e Boromir. Heitor que recebe as glórias e as honras, mas nunca perde as dúvidas, os medos, a perspectiva. Heitor que valoriza o simples, a vida, o riso do filho, o toque da mulher. Heitor era amado. Pela esposa, pelo filho, pelo povo. Não temido. Amado. Porque era um grande guerreiro, claro, e admirado por isso, mas não apenas. Não ser um apenas. Lembrei dele, ao pensar em Heitor, e não de você. Mais um passo. Um dia termino de ir embora. Com sorte, nesta vida. Andei lotando ela, esta vida, de compromissos pesados e dos quais já não posso me esquivar. Pra equilibrar estou fazendo o quê? Isso mesmo, me comprometendo com mais outro tanto de coisas, mas dessa vez coisas das quais eu gosto, coisas que queria fazer e não fazia porque achava que não dava. Agora, na rádio cabeça, a musiquinha “vai ter que dar, vai ter que dar”. Um clube de leitura para reencontrar a Odisseia. Outro grupinho semanal para ler e discutir contos. A aulinha de cinema. E a aventura iniciada hoje. Eu gostaria de ser a pessoa que diz: pode me empurrar do penhasco etc sei voar tal e coisa. Mas não sou assim. Não vou usar o caderno que veio de Paris. Pelo menos mandei telegrama. É que não aguento mais o Universo falando para eu desapegar e ninguém me dizendo como. Resolvi passar 3 dias sem gastar dinheiro de jeito nenhum. Mas só começa amanhã que hoje eu vou pedir jantar pois, após terem erguido o túmulo, voltaram os troianos ao palácio de Príamo e, seguindo os ritos, festejaram com um banquete. E foi assim o funeral de Heitor, o domador de cavalos, a lembrança delicada de que nem todos os finais podem ser felizes, mas o meu (ou o desse amor, que neste momento me parece a mesma coisa), posso fazê-lo nobre.

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Imagem meramente ilustrativa

Tanta pose e palavra bonita para, no fim da noite, eu chorar como sempre, soluçar e escorrer nariz, enrodilhada na saudade de uma madrugada contigo, desejando mandar mensagem, mandar presente, mandar um avião com faixa pra frente da sua casa, arrancar o coração com a mão e depositar na sua caixa de correio.

Peixinha

Eu tinha um pé atrás com o lance dos signos. Provavelmente por vaidade. Em todo canto encontrava a ideia de que pisciano é trouxa e, olha, de maneira geral eu tenho a bunda virada pra lua e as pessoas mais cuidam de mim do que tentam me enganar de alguma forma. Outros estereótipos nos quais eu não me encaixava muito: gente sofredora e que se apaixona fácil. Quem me conhece sabe da minha imensa vocação para a alegria e, quanto à paixão, bom, eu realmente nunca nem tinha me apaixonado, acho. Não nos moldes mais comumente descritos na literatura, registrados em cinematecas e compartilhados em fuxicos de amigas.

Mas estes dias tenho vivido a “piscianidade” (existe essa palavra? Em algum multiverso?) de uma forma bem explícita até pra desligados como eu (piscadinha pro clichê). Olha aí o desenhinho:

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Um peixe nadando pra cima, o outro peixe ignorando esse otimismo e nadando pra baixo. Um quer o mundo e os encontros, o outro busca a solidão e o ensimesmamento. Eu quero o claro, eu sonho o breu. Persigo a superfície, me afundo na região abissal. Falo tudo pra não dizer nada. Todos os dias me convenço que é hora de ir, que já não há mais espaço pra você cá dentro, que a história engasgou, não rende, aquele vislumbre de magia está perdido. Segue, luciana. Vai pra cima, nada em outros cardumes, tá vendo aquele dançante dourado? É o sol fazendo cócegas no emciminha da água. Uma beleza, bora lá. Todas as noites eu me impregno da vontade de você e me convenço de que não é possível deixar pra trás sem esperar até o possível, só pra ver, que mal faz, alimenta mais um pouco, entrega mais uma coisinha, tá quase lá, vai embora sem nem saber o gosto? A curiosidade segura e esfrego escamas no frio entre rochas do abismo.

A Fal disse, em seu diarinho*, que a vida anda. Eu acredito que sim. Eu sei que sim. A minha mesma já seguiu de momentos tão mais cinematográficos. Andou. Andei. Estou aqui, não estou? “Pessoas danificadas/machucadas/quebradas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. Sobrevivi. E mais. Eu só não lembro direito o como. Mas vou descobrir, claro. Em algum momento de um futuro que está sempre distante demais para o peixinho que sobe e ameaçadoramente próximo para o peixinho que procura o reino de Poseidon ou mesmo Atlântida. É que o sorriso chega antes da alegria.

Antes do futuro que virá, virá aquele momento do grande gesto. Eu, hoje, entendo porque alguns moços ficam confusos e até magoados comigo. Geralmente faço o solene e grandioso ato de amor verdadeiro, forte e profundo, naquele momento exatamente anterior à minha partida. Cabo de guerra entre peixinhos. Ficar, ficar, partir, partir, ficar, partir.

Minto pra mim, pra vocês, pra eles? Faço o grande ato de amor verdadeiro, forte e profundo quando já parti, mas reluto em aceitar? Não tenho certeza se não tem sido isso essa sucessão de entregas recentes. Ao ladinho do sempre tua tem aquela que talvez esteja abrindo as janelas, arejando espaços, batendo o tapete, espanando os cantos, trocando a roupa das almofadas. A vantagem do peito vazio é a acústica.

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Raramente te dá presentes e eles são esquisitos. Mas estranhamente pertinentes.

(o print é puro suco de narcisismo, né? Não tenho vergonha na cara)

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O que vocês preferem: narrar uma vida inventada ou inventar uma vida a ser vivida?

Gosto demais de La la land. Revendo uma conversa antiga, reclamam que não tem química entre o casal protagonista. E eu respondi que o filme não deveria contar com um par certo porque a vida não é sobre as pessoas encontrarem pessoas certas. É sobre a gente pensar que é. Reli essa minha resposta e doeu como jogar água oxigenada no joelho ralado. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

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*Se você quiser receber o Diarinho da Fal, diariamente no seu zap, sem preocupação (não tem interação, só a Fal posta) é só apertar neste link: https://chat.whatsapp.com/BcANA1N35q6Libhh8Yz8lW

Chico César, Eco, Camille, Fal, o moço da Polishop e um texto com soluço

para viver em estado de poesia, me entranharia nesses sertões de você“. era essa a coragem que eu esperava. a única disposição. a vontade. nenhuma promessa mais. não almejo amanhãs, os hojes me bastam. tu se engraçou, eu correspondi. mas não se engane que o pouco não é um nada. eu não me furtei, mas tu não me arrecebeu. em certo momento, quanto menos você aí, mais você em mim. crescendo, crescendo, crescendo. desejo, saudade, anseio. mas você cresceu tanto que já não há mais espaço. eu bem que tentei, botei pra fora outros sentimentos, planos, belezas, lembranças e você cada vez maior em mim, ocupando cada brecha, até começar a transbordar. e agora eu choro você, suo você, cuspo você, você sai de mim de todos e tantos jeitos. eu tento vedar as rachaduras porque eu amei tanto te amar e tenho tanto medo de ficar oca sem você e sem mim cá dentro. oca sem sequer a dor de te querer me acompanhando nos dias e me assombrando as noites. medo de murchar e encolher e desaparecer e me perder e me esquecer e me desencontrar. e emudecer. é do que tenho mais medo. de não conseguir dizer nada mais, se eu nunca disser que te amo.

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Umberto Eco é um autor muito inquietante. Você olha sua estante e pensa que tem o bastante da obra dele. Aí de repente você descobre – ou alguém descobre e mostra pra você – um texto que lhe é desconhecido e você percebe que precisa ter. Imediatamente. E não é só isso (como diria o moço da Polishop), você também sente que tem que distribuir o tal livro para algumas pessoas queridas. Cartas, livros e vasinhos com flores na varanda, sei não, talvez a infinitena tenha aberto uma fenda no espaço-tempo e eu tenha me mudado para uma década qualquer em outro século. Afinal eu coro quando vejo aquela letra no envelope. Uma coisa desconcertante é encontrar uma frase que fez belezas em sua vida presente na narrativa de mudança de vida de outra pessoa: “você só precisa pagar a passagem”. Procuro sentimentos futuros nas entrelinhas. Releio para passar mais tempo ao lado da pessoa sombra que mal vislumbro. Seguro o facho. Preencho páginas com a letra esparramada, ansiosa por ser despachada. E por uma ou duas horas eu não sou sua. Eu não me ressinto da ausência, não preencho o silêncio com lágrimas, não definho. Definhar é uma palavra estranha. Só de pensar nela já me sinto um pouco debilitada. Passam os dias pra mim – ou eu por eles – e sinto que estou perdendo alguma coisa. Eu mesma. É como se a tristeza me consumisse lentamente de dentro pra fora. Não mais aquela angústia ou desespero sustentados pela esperança de um “nós”, em uma irônica contradição vou sendo esvaziada ao ser preenchida por uma resignada aceitação de que o horizonte encantador era um cenário pintado. E lamento. Fico triste de marré descer. Eu sei que você gosta de mim, os astros, os búzios, as cartas e suas próprias palavras dizem isso. Talvez fosse melhor se você não gostasse. Seria mais fácil soltar as amarras, deixar o barco deslizar suavemente embalado pelas águas do esquecimento e seguir para um além de outros afetos. Mas fico e o lodo se entranha entre as tábuas do casco, encaixes enferrujam, as velas mofam, dobradas e úmidas, todo o estoque de rum acabou. Onde está o bom e velho “ele só quer te comer” no lugar dessa sintonia assustadora que parece querer ameaçar mundos? Quem quer casar com dona baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha, é carinhosa e não faz doce mas pode rolar um torresmo ou um peixinho? Claro, onde se lê casar é pra trocar por dar uns quebras, ficar, chegar mais. Alguém além de mim ainda fala dar uns quebras? Talvez não. Mais ainda se fala de outra das minhas frases preferidas. Foi a Fal falou citou hoje, no diarinho: Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente. Sentir a ausência de algo que nem se sabe o que é. É Camille e é, pra mim, a leitura sentida de Caio dessa ideia de Camille. É o filme, é meu passeio solitário pelos jardins do Museu Rodin. São corpos dolorosamente enlaçados. Doloroso como ler um texto como esse, que entalou.