Eu, no x-games da vida e uma dolorida resignação

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Desde que comecei a ver X-games com Bob Burnquist, Mineirinho e cia., descobri que tenho alma de skatista: volta após volta taco a cara no cimento e ainda me lembro de rir porque, sei lá, em algum momento eu vou voar e quando há voo, ah, que beleza. Por isso, estou na pista. Claro que arranha, machuca, arranca a tampa do joelho. E, também por isso, chorei no divã. Mas consegui dizer: displicente. Porque há quem não tenha o que dar. Mas há quem não se importa o bastante para lembrar de. Espero que sejam lágrimas suficientes para encharcar seus pés de barro. Abrir mão de um amor é ceder de quem somos naquele amar. É difícil perder esse você que inventei, mais difícil ainda me despedir dessa eu que quis, quis mesmo, quis tanto, você. As águas do desejo são turvas, eu quase me afoguei. Faltou o ar. Ainda falta, mas nesses quandos, vou pra varanda e mergulho no azul. Ou encho a banheira. Ou peço uma comida gostosa. Trato bem o corpo que você ignora. Não tenho muita certeza se vale a máxima que cada um escolhe a vida que leva, mas confio que cada um escolhe a vida que lhe leva. Como uma versão da canção do Chico escrita em outra linha temporal (pois é, eu vi Loki), consta nos astros, nos signos, nos búzios, nos anúncios, no espelho, garantem os orixás que eu tenho que deixar pra trás. Abrir mão. Desapegar. Eu sei o quê, eles só não explicam o como. Continuo caindo com tudo no cimento. Mas continuo levantando. E buscando o voo.

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Infinitena, ano 2.
509 madrugadas
561 mil mortes
Aproximadamente 20.026.500 casos de coronavírus
1.118 mortes em 24horas
2 doses de Astrazeneca e nenhuma reação (mentira, muitas: fiquei emocionada, zangada, solitária, contente, aliviada, foram tantas que nem sei descrever)
373o dia no calendário kalúnico
Um apelido, uma ou duas playlists, um coração partido

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Estou me resignando à ideia de o Brasil manter um número constante e significativo de mortes por covid. Estou me resignando a, eu mesma, ficar cada vez mais em casa, não voltar a frequentar cinemas, restaurantes, não fazer compras em shopping, me resignando a não viajar pra ver amigos em outros estados. Estou me resignando a fronteiras internacionais fechadas ao turismo brasileiro e a passar todas as férias na praia aqui vizinha.

Porque olho pela janela e tem artista que foi resistência esses meses todos, fazendo shows – com todos os protocolos. Amigos e conhecidos que se cuidaram esse tempo todo achando que é o jeito abrir mesmo todas as escolas – com todos os protocolos – porque já não dava mais. Vendo gente juntinho, juntinho, juntinho em festas e comemorações e fazendo presencialmente trabalhos que poderiam ser à distância – com todos os protocolos – porque a vida precisa seguir.

E eu já nem estou mais discutindo se ainda dava, se a vida precisa mesmo seguir, se a arte é ou não indispensável agora. Não estou culpando ninguém nem mesmo considerando quem devia ser mais ou menos forte, mais ou menos resistente, fazer assim ou assado, Estou apenas triste porque todos os protocolos são absurdamente desconexos do que é efetivamente recomendado: não são espaços ventilados, não é obrigatório uso de PFF2, não tem intervalos em curtos espaços de tempo para se estar ao ar livre. Apenas se aceita o termo protocolo do jeito que ele vem, se inspira fundo, se reza ou se torce pro melhor e nos acostumamos à dor.

Eu me espanto, eu realmente me espanto, porque dá pra saber exatamente o que precisa ser feito pra minimizar. Não estou almejando isolamento, lockdown, essas aspirações mais nobres de um tempo anterior. Mas testagem, sabe, coisa possível. Máscara. Rastreio. Não é difícil, até eu que sou limitada, sei.

Corpos em desalinho

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Cometi uma carta de nove páginas. Nove. Já estou até encabulada. A semana vai começar puxada. Disse sim para todos os compromissos de segunda e agora vou ter que rebolar, rebolar, rebolar. O que eu queria mesmo era ficar ouvindo o disco novo da Bethania por horas e depois me entorpecer de esporte. Não existe mais nem um pedacinho de mim pra te oferecer. Tenho que contar que você fique por aqui apenas pelo prazer da companhia. Fique, eu disse? Volte. Uma história só existe ao ser contada. Esta se dilui no seu silêncio. Teimosa, insisto ao gritá-la na beiradinha do abismo, mas sinto o ridículo de receber de volta apenas o eco debochado das últimas sílabas das minhas próprias palavras. Vou regar a margaridinha na varanda. Passar um café. Dobrar lençóis. Colocar máscara sobre máscara para enfrentar o lá fora. Sempre tive o sorriso fácil como técnica diversionista para os olhos tristes. Além da questão estrutural, tenho birra pessoal com a monogamia que ano após ano vai sequestrando parte da minha intimidade com as amigas. De tudo no envelhecer, o que me tem causado espanto e pena é ficar tão quebradiça. Recebi a segunda dose da vacina. Na esquina de casa. Viva o SUS. Diferente da primeira dose, que comemorei em praça pública, estou escondendo essa no texto que quase ninguém lê. Não sei bem por quê. Talvez tenha me dado a dimensão de uma outra solidão. Mas não passou em branco, celebrei tomando um suco de laranja e tentando despachar o máximo de tarefinhas como responder e-mails e marcar orientações. Zanetti aumentou a nota de partida e bateu com a cara no colchão. Arriscou tudo e foi imenso. Eu fiz o mesmo, aumentei a aposta, paguei pra ver. Sem igual grandeza, mas com semelhante resultado. Tudo bem, é só um pequeno sangramento no nariz.  Recebi a proposta que espero desde 2015 e disse talvez, mas com sabor de não. Almocei um picolé. Participei de reunião, dei boas sugestões. Chorei com crônicas bregas nos canais de esporte. Reli o diarinho da Fal vezes e vezes. Atenção para o segredo: o bom da amizade é a outra pessoa. Olho a despensa como certas pessoas lidam com o guarda – roupa: não tenho nada pra vestir, digo, pra comer. Você me fez perder a mão. Prometo, outra vez, sim, outra vez, deixar ir. Não esperar. Não pedir. Não tentar. De novo. Chamar o sol. Então, é isso. Mas, pra você saber, se estamos no escuro, corpos em desalinho e pés entrelaçados, é mais fácil dizer. Até adeus.

Moça com decote debruçada na janela, aquarela, 2021.

Quando a gente não sabe o que fazer. Quando a gente sabe o que fazer, mas não quer. Quando a gente sabe e quer, mas não tem, por exemplo, grana ou tempo. Quando a gente sabe, quer, pode, mas tem medo de não segurar o tranco. Quando a gente não tem mais o que fazer. Quando, esse lugar onde moram meus fantasmas.

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Exausta de, como boa histérica, andar por aí erotizando o mundo. Andar é o jeito de dizer, né. Moça com decote debruçada na janela, aquarela, 2021. Na tv, moços com arco e flecha e eu fazendo piada com Sherwood. Tenho poucas referências, mas são ótimas. Chegou pacote e as próximas cartas irão em papel lilás. Ela contou uma fábula materna do diarinho e além do tudo bonito e especial, tem o ouvir. Quantos mundos, eventos, decisões e rumos os outros podem inventar pra nós que nunca nos teria ocorrido. Gosto de habitar essas vidas minhas que desconheço. Conversinha boa no grupo do Cortázar. Aquele clima gostoso de álcool, cigarro e conversa decadente. Eu quase acredito que estou dizendo coisas interessantes. Os outros com certeza estão. E a minha dúvida não se refere à minha capacidade de, mas à impressão que sempre tive de que é muito difícil falar do que leio, porque o melhor jeito de dizer aquilo que deve ser dito já costuma ter sido usado pelo autor. Não dessa vez, porém. Ou não de todo. Um autor pode ser inteligente e ter consciência de que assim é, mas ficar chamando atenção pra isso, ah, não é de bom tom. Menos ainda, acho, partir do pressuposto de que o leitor é igualmente inteligente e, pior, igualmente (in)formado. De qualquer forma, boa leitura. Divertido, mas um tantinho pedante. Não foi uma análise unânime, ainda bem, os espaços foram cobertos com muita idéia boa e alguma fofoca. O personare manda avisar que eu segure a onda porque a lua e Vênus estão meio de ponta e isso significa que, se eu não me cuidar, vou me meter em treta e ficar mal vista. Por um momento rodopio em um grande salão e escuto Reth Butler me dizendo que eu posso viver sem reputação. Logo depois eu lembro que não sou uma dama sulista falida. As referências, as referências.

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Uma saudade dolorida de avião. Eu queria viver de férias, o quão absurdo é formular esse pensamento enquanto preparo aulas? Na vida real (que, nesse momento pandêmico, é o Twitter) uma ou outra aleatoriedade que empurra o tempo. Alimento o tumblr com Ofélias. Fui mal interpretada ao ser simpática? Preparo um bicuda, desisto, vou cutucar uma amiga e falo sobre, sem precisar ir pra praça. Olha aí, personare, obedeci. Preciso, muito, ir ao oculista. Giro sobre mim mesma na análise fazendo de conta que não estou falando sobre você. Seguro a mensagem que está na ponta do dedo. Até amanhã, até amanhã. Gasto um dinheiro que não deveria, mas é pouquinho. Mando pele, de presente. Esse merece. A caneta tinteiro dela estourou. Aqui, uma certa autoimagem também. Análise funcionando tão precisamente que 17:30 em ponto eu comecei a chorar, apesar do analista avisar que chegaria com algum atraso. Conferi o site dos correios, troquei a roupa da cama, tirei o lixo, tirei o sutiã (sim, eu coloco sutiã pra análise, nem pergunte). A amiga usou carinhosa para falar de Agnes Varda e seu cinema. Eu usei gentil. Falamos sobre a linha pontilhada entre confissão e ficção e constatamos que se alguém estiver lendo isso, jamais voltarei a ser paquerada. Meu único conforto é que paquera deve, mesmo, ser uma palavra aposentada já. Embora eu não tenha sido informada. A lua está tão bonita que até parece provocação. Ou um alerta. Gostaria de ter sido amada pelo Vinícius. Sim, o de Moraes. Todos temos muletas? Eu tenho: Luciana em italiano. Lutchana. Não tem erro, não tem mancha, não tem senão. “É barato viver como queremos e gostamos porque se paga com algo que não existe: a felicidade!”. Um moço tão novinho sai da piscina e me pede desculpas (ele pede desculpas a todos que torceram, eu torci, então pede desculpa pra mim, ué). Ele pede desculpas, a Maria Portela pediu desculpas, quase todos o atletas brasileiros que perdem sentem que fizeram um pouco menos do que eles acham que deveriam e pedem desculpas. Não deveriam, eles entregam tanto, já. Pelo visto, eu jamais poderia ser atlética olímpica, não sinto tanta culpa assim. Não sou boa. Nunca serei boa como a minha mãe. Nem como a mãe dela, aliás, que escuta a menininha no elevador. Nem como ela, embora a gente vá discordar nisso, eu sei. Mas tenho escolhido bons presentes. Chegará a madrugada e eu encarando os incongruentemente frustrantes tracinhos azuis. É assim. Me dá a mão, quero o braço. O ombro. O colo.

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Desnuda:

Pássaro sem asa e um campo minado

Uma segunda bem longa. Que não se cansou ainda de nós, ela disse na hora do diarinho. Um jeito muito mais bonito do que reclamar e reclamar e reclamar da exaustão, como eu tenho feito. Ainda assim, apesar da beleza do enunciado, uma segunda imensa. Olimpíada de noite e de manhãzinha. No intervalo: coisa demais pra fazer, pra pensar, pra sentir. Até os quitutes das olimpíadas sofreram os efeitos, fui apenas de tortilla de batata com cebola e queijo. Graças aos deuses pela cebola e graças a quem deixou o leite talhar, pelo queijo. No meio, um divã inesperado. Meu rosto no espelho. Não, meu desejo no espelho. Confirmando imperativos. Firme, luciana, firme. Apesar do mate, apesar dos sonhos. Um passo, outro passo. Mas tem um sensor, né. Só pode, tipo aquele das granadas enterradas. Pisei em uma e sempre que penso em sair e diminuo o peso, dispara como se fosse estourar. Você adivinha. Gentileza, elogio, coração. Eu, manteiga. Vexame. De novo em cima da granada. Suspirando. Coloco o sorriso no rosto e faço de conta que. Bem leve, leve, é isso, marisa? A amiga é tão amiga que assistiu a live no dia seguinte. Nas redes vejo pessoas fazendo planos de encontro, viagem, bar para vinte dias depois da segunda dose da própria vacina e me dá um desânimo. Não estamos entendendo nada. Lá dentro uma voz corrosiva lembra que eu mesma faço planos para dezembro. Argumento que é um hipotético dezembro. Se houver cobertura vacinal. Se isso, se aquilo. Leio a notícia que a taxa de contaminação no brasil deu uma leve subida. Não verás dezembro nenhum. Como é mesmo o nome dele? Tento responder e seu nome gruda na minha língua. Escuto letra por letra na minha própria voz e cada uma delas é uma pontada no coração. Bico afiado. Pássaro sem asa, rei da covardia. Arrumo a cama, aguo as plantas, choro de vez em quando. Alterno tristeza e beleza. Obrigada, olímpicos. As dúvidas do cotidiano me atropelam. Já liguei pro moço que conserta a máquina de lavar roupa? Claro que não. Compro ou não compro o salmão pelos olhos da cara? Claro que não. Porque a vida real é tão exigente? No mais, café, feijão, farinha. Do que é fresco, banana, coentro e rúcula. Nem era diarinho mas ela quebrou minhas pernas colocando o Zeca Baleiro pra me lembrar o tanto que quero –  tua língua, mamilos, beijo, Tejo, Guanabara – e me desprezar levemente porque vou passar agosto esperando setembro, setembro esperando outubro, outubro esperando novembro, novembro esperando dezembro, dezembro esperando você e você, você vai dizer sim e depois silêncio. Agora, outras esperas. Espero um trabalho por email e espero um email de trabalho. Nenhum dos dois chega, passo pro próximo serviço. Tento não prestar atenção nos estragos no Cnpq e na possibilidade de ter que fazer lattes e tudo mais de novo. Você acorda lá no seu longe. Eu aguardo o dia de não precisar mais de você para dormir. Anoto vários nadas no caderninho. Leio os contos para o Cortazar na quarentena e penso na imensa sorte de poder ser outra nessas noites de fumaça, taças e livros. Meu carro estava se desmanchando por falta de uso. Meu cabelo mais cai do que cresce. Preciso marcar oculista, exame, dentista. Ou morrer me desmanchando, como o carro. Pergunto para as cartas se há um moço pra mim. Sim. Pergunto se ele está em Mossoró. As cartas debocham e mandam um não em neon. Tenho um grande número de quadros para colocar na parede. E eu, eu nunca. Não dou conta dos quadros, das dores, do tempo, das tarefas, de todas as mensagens. Me irrito com mais um mouse com problema. Escuto crianças brincando na rua e sorrio. Há algum alento em ainda conseguir sentir o bom. A ginasta russa terminando sua apresentação no solo ternamente comovida é meu espírito animal. Escuto a comentarista dizendo: não existe atleta sem dor. O atleta convive sempre com a dor. Cada um sente dor em algum lugar. Você é meu esporte.

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Infinitena, ano 2.
#dia500
nenhum corte de cabelo profissional
1 corte de cabelo amador
1 fim de semana na praia
1 cadeira preta com furinhos
1 viagem constantemente adiada
3 semestres completos e 1 iniciado
108 encontros do Cortazar na Quarentena
7 aulinhas  de cinema
1 oficina de escrita por começar
2 shows da Salmaso
1 encontro com os pais, sem abraço
1 artigo em evento e 1 artigo submetido à revista
4  madrugadas olímpicas
5 medalhas
#dia364 no calendário kalúnico
4 tentativas de ir embora
1 piada repetida
2 Verissimos, 1 pintado
1 Melody Gardot
1 vontade
1 ilusão de encontro
61 garrafinhas
1 dose da vacina
551 mil mortos
551 mil mortos
551 mil mortos
1 horror inesquecível

Vejo a amiga à beira de despenhadeiro e meu coração falha. Penso em gritar cuidado, mas tenho medo do desequilíbrio em caso de susto. Que coragem é essa, amiga, andar vendada assim na beiradinha? Toda nua. Toda. Pé em ponta, rodopios, faz pose, balança. Vou devagar, mão estendida, cheia de sermão pra depois do resgate. No finzinho da pedra, o ao redor vazio. Era eu, era eu, era eu. Eu e o abismo. Me empurro, então.

Walk tall, Luciana

Às vezes ela come chocolate. Eu fico pensando no que eu estou perdendo, em estilo, por não gostar muito de doces, especialmente chocolate. E não beber chá. Nem infusão. Não usar lenço ou chapéu com regularidade. Não frequentar cafés. Mas aí nem é limitação minha, eu frequentaria se cá houvesse. Enquanto assistia “há tanto tempo que te amo” eu pensava que também me reencontraria em cafés, cigarro e amor. Fizemos live e eu falei, falei, falei. Mas o som estava ruim e ninguém escutou. A vida podia ser mais discreta com as metáforas irônicas. Pelo menos as perguntas foram sensacionais, vale a pena assistir por isso. Me preparei pra ter o coração partido. E tive. Tem um certo conforto em largar mão do “e se”. Se nada, se toca mulher. Procuro o lado positivo, mas ele está de costas. Atravessei a madrugada vendo pessoas mais rápidas, mais equilibradas, mais fortes, mais disciplinadas e, principalmente, mais esperançosas do que eu. Coloco foto de flores e comida nas redes sociais no lugar de pedidos de socorro. Preparo um banho longo, há onze anos que me parabenizo por ter feito questão da banheira. Começo listinha mental do quanto sou foda, mas desisto depois de um tempo, é um bocado de coisa. Ser capaz de rir de mim mesma estava na lista sim. Tem nem dez dias falei dos labirintos vazios, ela trouxe os minotauros esfomeados Somando todas as horas de sono dos últimos dias, não dá as tais oito horas. Coloquei pra gelar cervejas que não bebi. Mas fiz gostosura com abacates. Uma banda e meia, leite condensado e creme de leite. A outra banda, um parente próximo de guacamole: abacate amassadinho, azeite, sal, pimentinha, cebola roxa, tomate, cheiro verde, limão. Aí é só montar: uma torrada gostosinha, cream cheese, o abacate temperado e, sucesso, uma fatia de salmão defumado. Luxo. Tem coisas que eu compro no supermercado quando vejo porque nunca, nunca, nunca tem. Cogumelo, salmão defumado, lichia. Posso até me endividar pra isso. Chega o diarinho de hoje. O que foi esclarecido: não posso ficar menor do que sou pra caber na sua vida. O que foi arrumado: a louça. O que foi escrito: a 60ª newscoisa, Garrafinhas da Lu. O que foi visto – olimpíada, revisto – as primeiras páginas de Orgulho e Preconceito, entendido – o silêncio é intencional. O que foi posto no lugar: meu juízo. O que foi planejado: um dezembro. O que foi pintado de azul: Blue Rondo à la Turk (Dave Brubeck, melhor bagagem de relacionamento). O que foi possível: sobreviver.

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Um cristal estilhaçando. Ainda tem o afeto, o desejo, ainda tem tudo que revira entranhas. Mas. Pois é. Saber que não importa pra você faz importar menos pra mim. Ainda vai doer, eu sei que vai. Ainda vou acordar chorando no meio da madrugada. Ainda vou sentir como se um batalhão de soldados enfiassem sabres no meu peito. Ainda vai arder, ainda vai queimar, ainda vai me faltar o ar, o ânimo, a força, o riso. Ainda vou chorar e suar e sangrar pra você sair de mim. Mas, agora, eu sei que há um depois sem sua presença aqui dentro. Porque, hoje, você abriu essa fresta por onde vai se esvair esse sentir. Eu não esperava muita coisa. Nem isso nem aquilo nem futuro ou laço. Só estar aí. Aqui. Ali. Pra mim. E você não esteve. Não está.

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Amiga, isso não se faz. Estou aqui juntando força pra tentar sair de cabeça erguida, apesar do fio da meia corrido, do salto quebrado, da mão trêmula agarrando a alça da bolsa, do rímel borrado, do dente mordendo lábio até o sangue. Não se faz, um texto assim, Juntando força pra sair sem tropeçar,  tropeçar sem cair, cair sem chorar, chorar sem fazer barulho. Engolir em seco sentindo as lágrimas escavando gretas no rosto. Juntando força pra sair sem xingar, sem reclamar, sem pedir, sem me despedir, porque qualquer palavra, eu sei, seria uma desculpa para mais um eu e. Pois é. Isso não se faz, amiga, um texto que chega puxando o tapete sem aviso, sem alerta, sem alarme e agora meu passo fica mais lento, meus ombros mais pesados, a hemorragia mais intensa.

Que jogo é esse

Estava ouvindo a live no Fiftinah sobre Literatura e envelhecimento (vão lá ouvir também) e em algum momento a Tina fala que uma das dificuldades de envelhecer é uma certa dificuldade de se reconhecer. De olhar no espelho e não ver a si mesma na imagem que olha de volta. E fez uma luz em mim. Eu não tenho recordações visuais de mim mesma (e também não tenho boa memória sobre vocês, gravo os traços básicos, mas realmente me escapa se cortou cabelo, engordou, emagreceu, cabelo tá branco, ruivo, tem ruga, não tem, pé de galinha, colocou aparelho, etc. Eu identifico o essencial). É isso, não lembro como eu fui ou sou. No máximo lembro da minha imagem em algumas fotos antigas, mas nem isso é significativo porque são lucianas diferentes dependendo do ângulo, roupa, etc. Não tenho uma imagem pra perder e, assim, não tenho uma imagem pra reconstruir no processo de envelhecer. O que o espelho me oferece não é um reconhecimento, mas uma descoberta. Tem suas vantagens, garanto. Algumas dores e preocupações me escapam totalmente. Mas também cobra um preço. Tanta leveza, tá lá no Kundera, torna-nos menos que reais, tão livres quanto insignificantes.

Sorte no jogo, azar no amor. O jogo:

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Tem dia que não é dia. Ontem não era o do Nory. Antes das provas eu já senti. No solo, ele tava indo bem e eu avisei pra amiga: não vai rolar. Ele caiu de bunda logo depois. Tem dia que não é dia, O leite ferve e derrama, a gente queima o alho, bate o dedão do pé no pé da mesa, vê o ônibus dobrando a esquina quando chega na parada, deixa cair o celular no chão e trinca a tela e, mesmo que fique quietinha em casa, só esperando passar o dia, ainda é capaz de receber má notícia pelo telefone. Tem dia que não é dia, o corpo não corresponde, a mente vagueia, a alma fraqueja. Se fosse no dia anterior, quem sabe. Se fosse amanhã, talvez. Mas naquele dia, não dá, não vai, não anda. A gente cai de bunda no chão. O que o amor faz é enfileirar esses dias numa sucessão de desilusões olímpicas. Um calendário próprio só com dia que não é dia.

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Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore, 
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto. Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha…

(Adélia Prado)

Eu também queria, Adélia. E também tentei. Coisas que não dou a qualquer pessoa. A quem eu quero enganar? que nunca tinha dado a ninguém. Uma caixinha de pedacinhos de mim. Um envelope com instruções. Um livro, outro, uma imagem através de furinhos. A gente repete e repete o dar o que não se tem e esquece do a alguém que não o quer, não pediu, e, às vezes Lacan, nem faz conta.

Um jogo. Cheguei com a partida em andamento, ninguém me passou as regras e a sensação é de que estou perdendo de lavada.

Todo dia me beliscar para saber se sou capaz de sentir outra coisa além desse desejo.

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Teve mais coisa nas Olimpíadas: o jogão de futebol feminino, Brasil e Holanda, empate de seis gols. Marta, digna e analítica no pós-jogo, é quase tão bom vê-la dando entrevista quanto é gostoso vê-la jogar. Teve zebra no vôlei masculino (quem não curte torcer para um azarão?), o Irã derrotou a Polônia em um jogo tão intenso que o quinto set teve o placar de 23 a 21. Todo o talento – e beleza – de Marouf na quadra. Teve ginástica masculina e pegamos algumas finais, mas não a de equipe, que pena. Teve vôlei de quadra, eliminação precoce da campeã mundial Nathalie, de manhãzinha teve provas classificatórias de natação, teve, teve, teve, mas, talvez, o resultado mais importante do dia tenha sido a vitória de Richard Carapaz em Fuji, primeiro campeão olímpico da América Latina no ciclismo de estrada.

Uma das vantagens de morar sozinha e cozinhar apenas para mim mesma é poder arriscar, sem medo de deixar outra pessoa com fome, testar combinações, tentar matar a curiosidade. Então, eu via no programas de tv, camarão e bacon. Sempre pensei que devia dar certo mesmo, afinal, como diz o Joey, “camarão, bom”, “bacon, bom”. Procurei uma receita, fiz quase tudo diferente e voilá. Dizia: tempere o camarão com sal e pimenta. Fiquei com o pé atrás, afinal bacon é salgado, né? Descasquei, limpei, deixei o rabinho e temperei só com pimenta e alho em pasta. Enrolei no bacon (mas minhas habilidades manuais são sofríveis). Fechei com palitos. Uma coisa que eu faria diferente: colocaria um palito tb dentro do camarão, assim, quando ele fritasse, não enrolaria e ficaria mais bonitinho. Outra desobediência: dizia para fritar por imersão, em óleo. Achei desnecessário, peguei frigideira e azeite mesmo. Com medo de apostar todas as fichas em um número só, tratei o resto do camarão como sempre, sem bacon. Ficaram gostosinhos. Eu queria um molhinho, mas não queria rosé, daí fui nesse pesto.

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Infinitena, ano 2. 
497 madrugadas
1 CPI
548 mil mortos
1 ano sem a Carla
Margarida na varanda
Papeis de carta
Rosés
4 noites de competições olímpicas
361o dia no calendário kalúnico e contando.
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Incontáveis crises de choro
Uma caneca, um imperador, uma cirurgia, uma interrupção.
Um convite engasgado.

É hoje, gente:

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Desinventar e outros quitutes

Se eu pudesse ser outra, 
seria tua.

É que já não é mais só o silêncio. É o seu silêncio. O vazio que se impõe à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar.

Ontem escrevi manchas roxas e acabei postando manchas rochas. Ainda bem que tenho amigas. Gostaria, mesmo, de saber desativar esse corretor do celular. 

Uma dor de cabeça de tanto chorar, antes de começar a primeira aula do semestre, parabéns pra mim. 

Porque eu quase encostei minha cabeça em seu peito, mas era apenas luz, sombra, letras e a minha vontade. 

Há dias difíceis, disse-me ele. Aqueles – explicou – que amanhecem nublados, mesmo que o sol não saiba e se bamboleie iluminando as coisas por aí. Disse: é que a alma amanhece cinza e o coração dormente. Nessas horas, penso eu, não devia ter geografia. Devia ser assim: bem penso nele, bem lhe dou  um abraço. O que eu não te disse, amigo, é que eu sei estes dias. Eles ardem como se a gente tivesse um corte aberto no pé e entrasse no mar. Não são o dia da dor, mas o seguinte. O primeiro dia do resto da vida. O primeiro dia do resto da vida sem aquele ele.

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Ela aconselha que suas meninas e seu menino de redação escrevam diariamente sobre a própria vida. Que façam anotações, diários, registros. Imagino que ela viraria pra mim e diria: mas você, amiga, você pare. Eu escrevo todo dia faz um bocado de tempo. Porque não consigo não escrever é o motivo principal ao qual, eventualmente, se agregam outros como tentar comunicar alguma coisa, te gritar pra me ver ou tentar ser resgatada de mim mesma. Escrevo e escrevo e nunca é o bastante. Nunca sou o bastante. Escrevo desde sempre para você, que sempre existiu em mim, mesmo quando eu não te sabia. Claro que isso é mentira, inventei agora, mas que diferença faz? Inventei também você e esse sentimento e, ainda assim, a dor de não estar contigo é real e não consigo desinventar. E eu tento e tento, todas as quartas-feiras, com meu Freud particular, que sacode a cabeça de um lado pra outro enquanto eu tento não te amar em todas as palavras. Suspeito que ele até me confortaria em um abraço (não, não me abraçaria, mas eu posso inventar isso também). De divã em divã, ontem o moço da barba bonita e dono da minha rosa escreveu: desfalar e eu ri porque eu já disse, deitadinha no divã, exatamente isso: falei e desfalei. Sabe, gosto de conversar com ele, é um encontro no caminho, não uma revelação. Dá tempo respirar. E apreciar luas e rosas e esquinas. Não. Não quero colocar coluninhas pra vocês. Gosto de conversar com ele, ponto.

Como a casa dela, a minha é esse interminável de coisas a fazer. A máquina de lavar roupa quebrou outra vez e eu ainda não liguei pros senhores consertadores. Preciso de um colchão novo. De um filtro de barro. De todas as coisas que listei no post anterior e mais um monte que nem tive coragem de colocar. Como trocar as tomadas. Porque, porque, porque não fazem casas com tomadas introcáveis? Arrumei o quarto bagunçado e já desarrumei. Fiz besteira, me queimei e adiei pequenas e necessárias ações. Amanhã, sim, amanhã eu faço. Escrevo bilhetinhos pra mim mesma nestes fofos e coloridos papéis-para-aviso da 3m e colo na tela do notebook. Tenho certeza que estou esquecendo alguma coisa importante. Passo os dias com esta sombra dependurada no meu ombro. Eu detesto ver seu rosto nas fotinhas quando vou procurar alguma coisa nas conversas, detesto, detesto, detesto, você é tão bonito. Porque você é tão bonito? Detesto, detesto, detesto. Apesar disso, nunca deixo sua imagem desparecer. Podia deixá-la descer, descer, descer até ser mais irrelevante que as mensagens da Fazendinha ou da Farmácia. Mas, não. Você é tão bonito. Eu já disse que você é tão, tão, tão bonito? Tenho vontade de mandar uma mensagem só pra dizer isso. Ridícula e sem nem ter a justificativa de ser uma carta de amor, esta sou eu. Criei um grupo no zap só meu e envio pra mim todos os links, matérias, textos, músicas, notícias do mundo e do meu cotidiano que eu queria mandar pra você. Ah, moço bonito, porque esta barba macia e este cangote tão cheiroso e essa mão que me cabe toda? A ideia de me entorpecer com Olimpíadas tem funcionado parcialmente. Dois jogos de futebol, feminino e masculino, duas goleadas do brasil, que delícia. Mais partidas de softball (continuo não entendendo nada), no futebol feminino uma derrota dos EUA (uia); no futebol masculino a Argentina perdeu pra Austrália (uia, uia) e o México enfiou 4 na França. E queria falar de cada uma dessas coisas com você. Mandar pequenas frases com exclamações ou textos emocionados de muitas linhas. Combinar os quitutes. Louvar os atletas, reclamar de qualquer coisa da organização. Mas, moço bonito, esse barco já partiu. Tenho aula hoje à noite. Preparei tudo, tudinho, mas a insegurança de todo primeiro dia bate mais forte nessa modalidade esquisita de aulas à distância como se não o fossem. É engraçado pensar que há vidas (a sua, a sua, claro que é a sua) que são melhores comigo mas que seguiriam, impávidas, sem mim. Se eu nunca mais, você saberia? Ou espantaria o pensamento: ué, ela nunca mais sem nem uma saudade? Claro que eu releio tudo isso e estranho: quem foi mesmo que escreveu? Não eu, com a autoestima em dia, comendo morangos com balsâmico, recebendo mensagens simpáticas e vendo saltos e tiros e saques e arremessos e chutes e mergulhos e lutinhas de todos os tipos na tv. Não fui eu, não sou, queria mandar embora essa que insiste no amor pelo moço bonito, talvez a Fal saiba como mas ela fala de chá e biscoitinhos e eu não tomo chã e molho o pão com manteiga no café, eu não tenho finesse, eu não tenho dignidade e eu não tenho força pra fechar os olhos e nunca, nunca, nunca mais te ver, moço bonito.

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No “quitutes das olimpíadas” de hoje vamos de macarrão porque macarrão é gostoso, macarrão é fácil, macarrão acolhe quase tudo e, bom, eu tinha macarrão em casa. Bacon, parmesão, espinafre, creme de leite, alho e a massa. Passo 1: cortar bacon, separar folhas de espinafre, picar alho, ralar queijo, abrir a caixinha de creme de leite. Já tá praticamente pronto. Uma frigideira grande pra fazer quase tudo, uma coisa de cada vez. Vai de bacon, deixa até ficar crocante, deixa a gordurinha na frigideira e reserva o bacon crocante (reserva é só o nome chique para: deixa ali no cantinho). Joga o alho e as folhas de espinafre (muitas e muitas) nesta mesma frigideira, tempera (eu coloco mais pimenta e um nada no sal, porque o bacon e o parmesão já tem bastante, né) e espera murchar. Separa uns dois terços das folhas e alho e coloca no liquidificador, o que fica eu deixo pra misturar como está com a massa, acho gostoso mastigar as folhas. Pois bem, sua massa ainda não tá cozida? Pois avie. Bateu espinafre com creme de leite, volta pra frigideira, mergulha a massa que (pelo meu gosto) deve estar al dente, mistura bonitinho, coloca as folhas e o bacon reservado, despeja ou arruma bonitinho no prato, é a hora do queijo ralado e já pode correr pro abraço. 

E o de ontem? Para os quitutes das olimpíadas de ontem nem precisei acender o fogo. Foi bem comida de rico (que não sou). Enroladinhos: rúcula, manga e presunto parma; no palitinho: morango e parmesão; banhando tudo (mas com moderação, como nas propagandas de bebida): balsâmico, mel e laranja.

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Eu só não queria cair no abismo toda vez que penso teu nome longe do meu. 

No fim do filme ela diz: eu estou aqui. Sonho com o dia que poderei repetir isso. 

 

Paulinho da Viola, Hiroshima e outros vazios

Primeiro o convite: sábado, dia 24 de julho, vai ter uma live, no instagram, sobre o meu livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Estaremos papeando eu, Suzi e Fal (editoras) e Fernando Amaral (co-autor de dois contos). Meu perfil: @lucianahnepomuceno ou o perfil do livro @eter_luciana_nepomuceno.

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Às vezes penso que era melhor se você me fizesse sofrer de propósito. 

Por um erro de julgamento nossa heroína vai viver, esta semana, de maçã, manga, rúcula e espinafre.

Me digam uma coisa, vocês que são sabidos, quando um amor irrealizado sequestra uma música, um cantor, um estilo, depois ele devolve?  

Estado de espírito: Joey colocando Mulherzinhas do congelador. 

Nunca mais ouvir para um amor no recife sem sentir uma pontada. Nunca mais ouvir coisas do mundo, minha nega sem doer uma vontade. 

Por causa da aulinha de cinema, senti saudade da M. Duras. Resultado: reli O Amante, O Amante da China do Norte (como uma autora consegue escrever dois maravilhosos livros contando a mesma história?) e revi Hiroshima, mon amour (inclusive copiando trechos). Sim, eu tinha acabado de rever o filme para a aulinha, mas o que eu posso fazer se você dói tanto em mim? 

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Será que o Paulinho da Viola também gosta de bacalhau? Deve gostar, Rio de Janeiro e tal. Não era o meu peixe favorito, você sabe. Você sabe? Enfim. Não era. Agora, gosto e faço de um montão de jeitos, a única certeza é: azeite. Então, pega a assadeira e já coloca uma boa dose de azeite. Despejo com vontade, como se soltasse todos aqueles gestos que não posso fazer e todas as palavras que não posso dizer. Aviso: esta receita leva cebola. Muita cebola. É sempre uma boa desculpa pra chorar, quando se precisa manter a compostura e fingir que se detém algum controle. Cebola, pois. Pra começar, crua, em rodelas mais ou menos finas, para cobrir o fundo da vasilha. Esqueci (sim, sou um tanto Dory, leia-me toda, marque na caixinha: estou ciente e quero continuar): já tem batata no fogo, até ficar al dente. Eu cozinho fatiada, prefiro ter a maior parte do trabalho no começo do preparo mesmo. Depois, segue na banguela, é meio assim que toco a vida. Pode colocar um pouco de sal na batata (se tiver dessalgado direitinho o bacalhau, claro). Quando a batata está no ponto, emborca a metade na assadeira e deixa o resto reservado. Em uma panela ou frigideira grade e funda, mais uma cebola, cortada em rodelas finas, azeite, fogo, alho, enche a cozinha com o cheirinho de refogado e coloca o bacalhau lá dentro. Bacalhau em lascas, já dessalgado. bacalhau que parecia um amanhecer frio, olhando montanha, que parecia esquina de catedral, que parecia conversa mansa com amigo sabido, que parecia surpresa, intimidade, festa e agora só parece você, você, você. Depois de mexer pra lá e pra cá, um nadinha de leite pro bacalhau cozinhar por, no máximo, dez minutos. E lá vai o bacalhau em cima das batatas. Pega mais uma (ou duas) cebolas (mais? mais), corta do jeito que você preferir e refoga bem, deixando molinha, molinha, que nem alguém fica quando o bem querer capricha no cheiro no cangote (como se eu soubesse, como se vontade já fosse saudade). Cebola em cima do bacalhau, o resto da batata em cima da cebola (e viva a suruba de comida). Aí vem o molho branco que cada um faz como preferir. E queijinho parmesão ralado por cima. Forno por meia hora, duas taças de vinho enquanto espera, mais outro tanto pra acompanhar o prato. Se faltar sal, lágrima.

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Nem teve Cerimônia de Abertura ainda e já estou mergulhada nas Olimpíadas. Pra começar uma partida deliciosa de softball, entendi zero, me anestesiei totalmente. Obrigada, deuses gregos. Pouquinhas horas de sono (mas pelo menos agora é opcional e não uma versão ruim de uma canção do Roberto Carlos) e amanheço vendo gols de Marta e Debinha, na competição de futebol feminino. Sigo trabalhando e ouvindo a narração do jogo entre Holanda e Zâmbia (um passeio ainda maior que o nosso). Já são quase doze horas segurando a onda de depender emocionalmente de outrem que não você.

Brasil 5 X 0 China. Dois gols da Marta e um trabalho incrível tanto da nossa goleira como da trave.

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“Ele virá até mim, me pegará pelos ombros e me beijará. Ele me beijará e eu estarei perdida (se a gente sou sempre eu, ele ou você, sabemos quem é). Eu encontro você. Lembro-me de você. Esta cidade foi feita para o amor. Você foi feito na medida do meu corpo (antecipo o encaixe, seu queixo em meu cabelo, sua mão me cabendo toda, escuto a batida descompassada do coração – meu ou seu? – e deixo que minha mão mapeie todos os atalhos, esquinas, curvas, acidentes geográficos neste teu corpo-território). Quem é você? Você está me matando. Eu tinha fome. Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer (fui escrever morrer e escrevi você, nenhuma surpresa, os atos falhos se amontoam). Desde sempre. Eu sabia que um dia você cairia sobre mim (…). Devore-me. Deforme-me à sua imagem para que ninguém, depois, possa entender o porquê de tamanho desejo (para que eu mesma não consiga encontrar o marco temporal, nem antes nem depois, um sempre esse amor. Reescrevo nossa história, reinvento momentos, escrevo cartas, sonho lembranças). Nós ficaremos sozinhos, meu amor. A noite não acabará (só isso que quero: uma noite, um momento, um encontro e o desnecessário depois, dias e dias em que eu saberei que estive com você e você esteve em mim). O dia não nascerá mais para ninguém. Nunca. Nunca mais. Enfim. Você ainda está me matando. Você me faz bem (todos, todos os dias, eu sinto a angústia e aí você, qualquer coisa e todos os passarinhos cantam e todos os arco-íris colorem céus e todo o riso e bom e certo se apresentam. Ou eu acho que sim). Prantearemos o dia morto com consciência e boa vontade. Não teremos mais nada a fazer senão prantear o dia morto (porque teremos sido felizes, tudo se acolhe e se enfrenta). O tempo passará. O tempo, somente (não passará meu bem querer). E virá o tempo em que não saberemos dar nome ao que nos uniu. O nome se apagará aos poucos de nossa memória, depois desaparecerá por completo (a felicidade, como a beleza, é mesmo tão fugaz).”