Macia

Acho que eu nunca estive tão macia. Pode ser um comentário meio bobo, paciência, é assim que me sinto: macia. E não é uma metáfora, alegoria ou qualquer tipo de jogo de palavras espertinho. É minha pele e meu cabelo. Ok, eu troquei os shampoos de supermercado por uma linha de produtos um pouco menos aleatórios, mas isso explica a pele também? O shampoo escorre corpo abaixo e isso basta? Eu, toda macia, mas sozinha nesta infinitena e ninguém pra me alisar. Se eu tivesse escrito isso ontem, teria ficado triste. Quando eu ler, amanhã ou depois, provavelmente ficarei. Mas não hoje. Porque minha terra vermelha de Tara é azul, sabe a sal, vai e vem em murmúrios e hoje eu a visitei. Até trouxe conchinhas pra casa. Uma hora dirigindo de ida, outra hora de volta, o rádio contemporâneo falando de Afrodite, duas horinhas de praia. Tudo valeu a pena. Minha alma é imensa.

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Em casa, vi séries que eu deveria ficar constrangida de comentar. Pensei que estava curada de séries médicas ao passar incólume por The Good Doctor, mantendo-me fiel só às paixões crônicas e tal, mas caí em uma série turca chamada (eu não tenho jeito) Um Milagre, que é o quê? Hein? Hein? Série de hospital. No caso, com médico no espectro autista, que a vida não cansa de ser irônica. Mas tão lindos os moços turcos. No diarinho, a Fal disse que escrever é registrar. E eu entendi porque nunca senti a síndrome de impostor(a). É que eu sou mesmo uma. Dois livros, uma tese, uma dissertação, muitos artigos, 64 newscoisas, sei nem dizer quantos posts em blog. Eu escrevo, escrevo e escrevo. E sou péssima nisso de registrar. Mas disfarço a inconsistência da minha mágica com muita fumaça no palco, pombos voando, balões coloridos e uma assistente de palco com maiô bem cavado. Preciso – e quero – ler dois cantos da Odisseia, Torto Arado (sempre leio “tô tarado” – e descobri que não sou a única) e um artigo sobre Teoria Crítica e Estudos Organizacionais, mas vou ver heróis de macacão colado salvando o Universo. É isto ou desperdiçar 72hs de resistência e mandar mensagem praquele que deve ser esquecido.

Jabá e outras sugestões

Acho que todo mundo conhece aquela piada:

Chega de falar de mim, já fizemos muito isso. Vamos falar de você. O que você acha de mim?

Mockups Design

Pois bem, amiguinhos, esse é o espírito da live da próxima quinta-feira, 19/08, às 20:30hs, sobre (ainda e de novo) o livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Anota aí na agenda, daqui a uma semana exatinho. Teremos convidados e eu prometo que, dessa vez, falarei bem pouco (e vou aproveitar as pessoas falando de mim ou, mais exatamente, do meu livro).

Vamos ouvir o João Carlos Ribeiro Jr. discutir o conto “Te encontro, Maninha” e perguntar pro Fernando sobre como foi escrever, em parceria, os contos “Foda-se, Plutão” e “Companheiros, blues, cafés, tabacos, drinques: fortes, amargos e lentos”. Teremos, também, claro, a participação luxuosa das Drops Editora, recebendo em seu perfil esse conversê todo. E porque alguém deveria se interessar e assistir? Primeiro: porque eles são lindinhos, vocês não acham?

Mas se isso não for motivo suficiente, confiem na minha palavra de que os dois são um excelente papo e entendem muito, muito mesmo, desse negócio de ler e escrever. Além disso, dessa vez estarei mais livre para acompanhar os comentários, anotar as questões e incluir mais gente no papo. Você já leu o livro, já conhece os moços, já não aguenta mais me ver? Tudo bem, divulga pros coleguinhas. Estou pensando até em sortear livros (não necessariamente o Éter). #VemGente

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Já que estamos falando de instagram, queria sugerir que vocês sigam esses perfis que, garanto, fazem daquela rede um lugar bem melhor pra se estar do que ele mesmo se pretende ser:

@fiftinah: um perfil que é, concomitantemente, instigante, informativo, divertido, que produz conteúdo sobre e para mulheres 45+. Toda sexta-feira, 19hs, tem live. A anfitriã e dona da porra toda é a queridíssima Tina Lopes. Amanhã, 13/08, o tema é “Mulheres à beira de um ataque de burnout” com Carla Zuquetto, terapeuta analítico-comportamental, que atende adolescentes e adultos; Renata Crispim, psicanalista, comunicadora e professora universitária e Líívia Ferreira, que trabalha com clínica psicanalítica e é doutoranda em Psicologia, com uma pesquisa em corpo, gênero e feminino.

@dropseditora: perfil que vocês devem acompanhar, além da divulgação dos livros incríveis editados pela Fal e Suzi, encontramos sugestões de leituras, divulgação de material sobre literatura, informação de forma lúdica. Aproveita e já fica sabendo que vai ter reimpressão “Como ensinar um idiota a dançar” – coletânea de Drops – e “Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem” – coletânea de crônicas – que são dois livros no mesmo volume.

@chamaterapêutica: perfil de loja online, situada em Fortaleza-Ce, que comercializa produtos terapêuticos e fitoterápicos.

@maesemhomeoffice2021: perfil do projeto de extensão da Universidade Federal Rural do Semiárido que ouviu e sistematizou o discurso de mulheres, mães, trabalhadoras, que tiveram que reorganizar a vida ao atravessar a pandemia da covid19.

@narrativadefeminicidios: perfil do livro das jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, que analisa o discurso sobre feminicídios e como esse discurso sustenta a violência contra a mulher.

@cafebelgrado: gosta de basquete? Gosta de NBA? Esse é o perfil pra você.

@edisca: segue o perfil da Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente para acompanhar as ações inspiradoras e assistir trechos de espetáculos de balé tão, tão lindos que o jeito é chorar.

@caju.fred: perfil do poeta Fred Caju que também é editor da Castanha Mecânica. E vem com a beleza pernambucana.

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Essa quinta, essa semana, esse mês, essa infinitena:tumblr_1855a2f0131835be00a25792fee21ae6_b44e4263_540

você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto

Trazido do Borboletas, de maio de 2016
Identidade: vejo futebol domingo meio dia.
 
Eu sei que sou uma pessoa legal. Mas não veio com algum tipo de esforço ou mérito. Mas uma coisa eu conquistei: a falta de vergonha de dizer. Eu digo. Digo mesmo. Digo a raiva. A dor. Digo a inveja. Digo o afeto. O encanto. O amor. Digo eu te amo. Digo muito. Digo sem vergonha. Dizer é uma conquista minha.
 
 
 Foi quase sem querer. O jogo de futebol às onze mudando todo o ritmo do domingo, a tarde preguiçosa se estendendo meio inútil às minha frente: um filme. Uma zapeada e encontrar Binoche. Eu vejo qualquer filme em que ela esteja. Selo de garantia. E ainda tinha o nome: Palavras e Imagens. E o mote: uma disputa entre uma professora de pintura (Dina) e um professor da língua (Marcus).
 
Nem é um filme novo. Tem essa vantagem em ser distraída como sou: de repente, uma aventura. Poderia ser apenas mais uma comédia romântica com momentos de melodrama. E quase é. Se. Se não tivesse a Binoche. E personagens fora do padrão. O mocinho, alcóolatra. A mocinha, artrite reumatóide. O drama: perder o emprego, os vínculos com o filho, a saúde. Uns momentos previsíveis. Ouros bonitos. E boas palavras. Bem usadas.
 
Um filme esquecível. Se não tivesse a Binoche. E se seu personagem não tivesse que reinventar o seu ofício, reinventando-se, a partir da mudança funcional do seu corpo. Eu pintava o mundo que podia ver. Agora vejo o mundo que posso pintar. Ou algo assim (saudades de ver os filmes em cassete e voltar aos diálogos pra transcrever direitinho).
 
O filme nos joga em perguntas: o que traduz melhor os sentimentos, o mundo, a vida, palavras ou imagens? Em quais delas podemos confiar? O que nos ampara e norteia? O que nos faz avançar? O que nos humaniza? E a dúvida que não está no filme, a não ser como resposta, mas que sustento como questão: há uma resposta única?
 
No próprio filme disputam imagens e palavras. Por um momento a gente se deixa convencer pela imagem: Binoche, um casaco vermelho, um lenço azul escuro. No momento seguinte, o diálogo mais tocante. Perto do fim do filme, o momento da disputa oficial, imagens X palavras e o moço, claro, usa as palavras para dizer que não importa se poema ou pintura, importa onde nos levam, nos elevam, etc. Mas eu, se fosse roteirista, teria terminado a fala dele assim: diante desses artistas, Shakespeare ou Dina, só nos resta a gratidão. E obrigado, claro, é uma palavra (é que eu não esqueço a marquesa: “traição não é sua palavra preferida? – não, crueldade. É mais imponente”).
 
Mas antes de me perder, quero dizer da imensa beleza das imagens-movimento de Juliete em sua casa-oficina-estúdio. Li por aí que as telas que aparecem no filme são mesmo dela. Quanto talento cabe em um corpo? Mas nem era essa a beleza. Do corpo. Mas a da limitação do corpo. A beleza dos exercícios. Dos pincéis enormes, para assim poderem ser manuseados. Da cadeira com rodinhas para facilitar o deslocamento. A beleza da vulnerabilidade conjugada com a força.
 
  
O filme corre pro inevitável romance entre os personagens centrais. É quando eles estão se preparando pro rala e rola que ela diz: “você tem que ter cuidado, com o meu corpo” e ele responde: “você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto.”
 
É uma crença ingênua, a do personagem Marcus. Uma crença que partilho, quase sempre. A de que as palavras serão o suficiente. Basta isso: a coragem do enunciado. Abre-te sésamo e estaremos diante dos tesouros. É só me dizer o que dói, onde e quanto e não nos machucaremos. Faça um esforço, respire mais fundo e tenha coragem de dizer: não me machuque. E, ainda assim. Eu não vou te machucar, a gente promete e acredita para, no momento seguinte, cair em cima da tela recem pintada.
 
Pessoas fazem merda. Pessoas legais. Pessoas gentis. Pessoas boas. Fazemos merda. Mesmo que tenham nos dito, com esforço: o que doía, onde e quanto. Dizer é indispensável, mas não é garantia. A gente esquece. Eu esqueço. Eu esqueci. Que as palavras não bastam. Não é o suficiente saber o que dói e quanto dói. As palavras não serão o suficiente porque nada, nunca, será o bastante. Somos humanos e há, no que não está dito, a vulnerabilidade que nos estrutura.
 
Às vezes nos dizem o que dói. Onde. Quanto. E mesmo assim. 
 
O que resta saber: “desculpe” também é uma palavra.
 
Eventualmente, inútil. Mas nunca dispensável.

Bacurau não é um panfleto. É, talvez, um objeto não identificado que traz, gravado, o segredo: sobreviver é arte.

se alguém tem que morrer, que seja pra melhorar (…)
você que não entendeu, não perde por esperar

Tão dizendo por aí que Bacurau é bom. Bom é comer até suar um cozido de carne de criação com cuscuz. Bacurau é cinema de primeira qualidade.

Importa pouco, parece-me, no rol de suas virtudes, que ao ser lançado em época de desgoverno bolsonaro, responda a necessidades subjetivas de nossa militância confusa (importa bem mais, acho, que ele provavelmente não seria rodado neste desgoverno, não com os apoios que teve).

Importa, mesmo, a voz de Gal Costa em uma abertura absurdamente longa e aparentemente desconectada da narrativa, uma beleza que é. Uma abertura que nos coloca no mapa. Nós existimos, teimosamente, a abertura é quase um spoiler.

Importa, mais, o uso de cenas longas seguidas, na parte final, de planos rápidos, quase confusos, não permitindo a autocomplacência do espectador, o uso da brilhante alegoria da nudez, ora sutil, ora uma confrontação óbvia.

Nenhuma descrição de foto disponível.

Importa mais a crua desmitificação dos gringos com seus diálogos fracos. Não há nenhuma idealização, não há um mal sofisticado, eles são aquilo mesmo: toscos, broncos, ridículos. Com suas necessidades medíocres e seus arroubos obscenos, eles nada sabem de sobreviver. Como são burros, os motoqueiros que não querem ver o museu. Ao desprezarem a história de Bacurau, ignoram dados importantes para a ação futura.

Importa muito mais a interpretação de Sônia Braga que poderia, com sua trajetória brilhante e talento, destacar-se do resto do elenco, mas disciplinadamente ela sustenta o tom, mantendo entrelaçados os fios que interligam os personagens, em uma espécie de capitonê sofisticado.

Importa mesmo, mesmo, a valentia de quem peleja. De quem se importa. De quem, apesar do que se diz da nossa memória, não esquece. Importa que mesmo cansado a gente puxa a peixeira. Importa é Lunga, é Teresa, os que voltam, os que lutam. Importa é o ônibus feito horta. Importa é aquela reunião de distribuição de comida e remédio, outro spoiler maravilhoso dentro do filme.

Importa é aquele passeio pelos recortes de jornais. Importa é que a dor de Acácio faz chorar de soluçar. Importam os resistentes. importa é que “A gente está sob efeito de um poderoso psicotrópico e você vai morrer.” Importa é o caixão de Carmelita borbulhando água.

Importa que é uma bricolagem de cinéfilo, feito por quem e pra quem ama cinema, com seus clichês e seus escapes.

Importa é que sim, Idris Elba é lindo, mas, pelamor, nós temos Pacote

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Peso Morto

Me perguntaram porque não escrevi nada sobre o prêmio pro Chico já que ~ grande amor ~. E, sei lá, deve ser por isso mesmo. O amor escapa do dito, como um corpo grande para um cobertor curto. Dá um certo pudor de gastar mal as palavras. Daí eu apenas senti, como um rubor nas faces, um morno no peito, um riso na boca, uma bambeada de perna.

Sou meio peso morto pra esquerda neste momento. Tenho péssima memória pra datas e cifras, esqueço onde salvei os bons artigos com análise de conjuntura, esqueço o partido dos deputados com cabelo acaju e quantos nomes a Arena já teve. São muitos deméritos. Mas o principal, acho, é que em relação a certos temas políticos eu sou muito simplória e não sei argumentar porque eu quase não penso sobre os assuntos, eu apenas sigo uma bússola interna que me posiciona à esquerda (ou no que se considera esquerda por aqui). Eu até poderia (acho), mas não sei construir o raciocínio da universidade pública e gratuita porque, ué, é óbvio. O mesmo para o SUS. Para o direito das mulheres andarem de peito de fora se quiserem. Do não encarceramento. Creches, claro. Des-hierarquização dos produtos culturais. Liberdade sexual. Taxação de grandes fortunas (fim das mesmas, de preferência). Cotas. As pessoas argumentam e eu fico olhando com uma cara de “como assim” porque apenas me parece impossível que não seja óbvio o que deve ser feito, o que precisa ser buscado, os entraves e os ganhos decorrentes.

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Quadro-recordação da última viagem que sintetiza bem o tipo de pessoa que sou

Meu amor, estou saindo. Deixo fechadas todas as portas que você não teve coragem de abrir pra nós. Menos a porta da frente do apartamento, esta deixo só encostada para que você perceba que há algo de inusitado e, assim, possa procurar e encontrar esta  cartinha de despedida. Existem muitos e nenhum motivo para que eu faça isso hoje e agora, não nos dias que já passaram ou em algum tempo futuro. Todos eles eu já falei, gritei ou choraminguei. Você deve continuar a desprezá-los. Este é o primeiro. Listá-los agora só seria uma artimanha para adiar a partida. Tantas vezes eu pensei: agora vai. E não foi. Você não veio ou eu não fui, sei lá. Entre amantes não existe encontro no meio do caminho, um deve querer ir ao fundo do outro, se perder no outro. O amor não é estrada, é abismo.

A sensação de passar os dias apagando incêndios no trabalho não é estimulante.

A linha entre relato e invenção na minha escrita é tão fina. E pontilhada.

Uma preguiça de cozinhar tão abrangente que até fritar um ovo demanda um tempão de reflexão: preciso mesmo disso ou um pãozinho com manteiga resolve?

O mundo do 8 ou 80 é cansativo.

você que me faz feliz, você que me faz cantar“. Não sei de quem a Marisa Monte tava falando mas eu sempre penso no Flamengo.

Uma coisa cansativa deste cargo administrativo que estou ocupando (e que está me ocupando ainda mais) é a sensação constante de que estou ferrando a vida de alguém (ou de alguéns) por estar esquecendo alguma reunião, deixando de assinar um papel, perdendo um prazo ou qualquer coisa assim.

Por outro lado (ou do mesmo lado, sei não) eu estou realmente satisfeita com meu desempenho como professora da turma de Psicologia neste semestre. Apesar de usar marromeno o mesmo método, ter uma base de textos que se repetem, etc, tem vez que encaixa e tem vez que não. É bom quando sim. Uma alegria toda terça-feira.

Meus posts apresentam umas repetições que podem ser entendidas como charmosas e fruto de estilo ou como repertório restrito e ausência de revisão. Hoje, por exemplo, tô toda trabalhada nos advérbios de intensidade.