Imaginar felicidades

Eu tenho sentido saudades de tudo. Especialmente de imaginar felicidades.

Lua que míngua, pequenos planos, longas cartas engavetadas, gastos inesperados, imagens de Lisboa, jogos de futebol, queijo errado, o pão certo, uma depilação esquisita, susto, café, café, café, sua foto me doendo, a vontade do livro que é caro demais, uma encomenda que não chega, espera, espera, espera, um tempo com Odisseu, desilusão, o universo já não me aguenta mais, a sensação de morrer em um mundo muito pior do que o que vivi, café, café, pão com patê de ricota e azeitona preta, Fellini, Éris como deusa do mês, uma dúzia de garrafas de água vazias ao redor da cama, coisas por fazer, atos de #forabolsonaro pelo país, uma resposta atravessada, o samba da Mangueira para 2022, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia nessa pandemia, se não eu, quero nem saber quem vai fazer você feliz, opa, errei a letra e acertei o sentir, café, café, feijão e banana, escolher um conto de Capote, empilhar cadernos e baralhos, os suspiros, os muitos suspiros, a planilha de custos, Olhos nos olhos, a morte de Sebastião Tapajós, Edward Hopper pintando meus dias, vento pela porta da varanda, a pele macia, Bethania cantando à capela, uma história emperrada, a sensação incessante de pisar em areia movediça.

outono

Outono. Talvez seja a estação que mais me cativou quando a gente as tem bem marcadinhas. No outono tudo é maduro. Há cor, cheiro e disposição. No outono o morno das castanhas. As folhas vermelhas. O vento eriçando pelos e mamilos. O mundo perde o pudor. As árvores se põem nuas. No outono já não há promessas, a vida é em entregas. O outono é luxúria. E aconchego, também. Fumacinha na tigela e ainda azul nos dias. Uma manta colorida. E memória. Outono é outra luz. E terra. Pés descalços e encontro. Dourado à beira da estrada. Outono é essa vontade de chegar, encolher no abraço e aceitar o bom do agora.  Neste momento é outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, pode-se cantarolar ao percorrer, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam desnudas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.

Tem conversas que eu não consigo mais ter e coisas que eu não quero explicar. Se alguém não entende, por exemplo, porque ter apenas cardápios em Qrcoisa não é desejável, eu dou de ombros e sigo andando. Tô cansada demais. Eu tenho bússola, descobre aí a sua, baby.

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Escrevi uma Garrafinha esses dias sobre dias banais e me reinventar para viver os dias que chegam. Dá pra ler neste link: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu/letters/newscoisa-66-banal e se quiser assinar e receber as Garrafinahs direto no seu email, é aqui: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

Ossada Perpétua

Ontem foi aniversário do Verissimo e eu queria comemorar com você. Tem disco novo com músicas do Aldir Blanc, penso logo em mandar o link. Meu time empatou, o seu venceu, eu poderia comentar isso. Vi episódios do Chico & Caetano, mais um tópico. Guardo mais um pdf que você gostaria de ler, arquivo uma e outra imagem que faria você rir, salvo pequenas tiradas, registros do cotidiano, memórias e insights, tudo que poderia lhe interessar. Vou montando uma ossada perpétua desse amor.

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É difícil demais aceitar que o trem já partiu. Reconhecer o não. Especialmente quando a pessoa é displicente ou receosa demais de dizê-lo assim, bem soletradinho: ene-a-o-til. Eu nunca entendi muito a necessidade de devolver presentes, fechar gestalts ou sei lá o nome que se queira dar pra passar a régua e zerar a conta. Provavelmente porque eram minhas as costas que estavam sendo vistas. Ainda não decidi se mantenho esse Amarcord na estante ou faço um pacote com a carta de despedida, a proposta que esbocei tão bonitinha e se tornou obsoleta e mais dois ou três presentes que planejei enviar e agora são excrescências. Queria respirar fundo, empinar o peito e desculpar-me, tal como a Audrey, de que não poderei ficar para lavar os pratos. Vou ensaiando.

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Vaidade é um negócio que me surpreende não porque me falta, mas porque me sobra. Vejo pessoas deixando de usar máscara, usando ineficientes máscaras de tecido com renda ou laços, comprando caras máscaras coloridas pra combinar com a roupa, etc. JAMAIS me passaria pela cabeça que usar qualquer tipo de máscara segura me deixaria menos linda do que reconhecidamente me sinto e sou.

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Semana que vem eu pretendo ir à praia. E na seguinte vou a Fortaleza e, sim, comprarei peixe no mercado. Por um tempo pensei que o segredo era recuperar todos os meus pequenos pedaços e descobrir como reencaixá-los. Eu, quebra-cabeça. Quando muito, providenciar ouro e fazer kintsugi do coração. Bobinha. Olhando os cacos todos no chão, bordas ásperas, algumas pontas esfareladas, percebi que o caminho é uma espécie de bricolagem. Como a que faz a irmã que quebra toda a porcelana que a outra colecionava e, depois, transforma aquela devastação em beleza, cobrindo uma parede com os cacos, no filme Colcha de Retalhos. Reinventar-me, outra, com o que já fui e mais as belezas e toda gentileza que puder misturar pra fazer o grude.

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Eu não sou muito de reclamar da temperatura, calor ou frio, porque não sou muito de reparar nela. Mas, né, até eu tenho limite. Aqui fez um calor na semana que passou que me fez chorar. Não que eu tenha precisado de muito motivo pra chorar nestes últimos dias. Ou meses. Ou anos, se pensarmos bem, mas divago. Fez um calor desgraçado. Sem brisa. Abafado. Como se o calor fosse um elefante suado sentado no meu peito. Além da agonia, uma saudade. Senti falta da ignorância, de não saber outros lugares e seus termômetros. Leio as pessoas falando em primavera (coerentemente), mas outubro, pra mim, será sempre outono, castanhas assadas, folhas vermelhas, vinhos mais encorpados. No antes, eu aqui eu só tinha a estação praia, aprendi os demais ritmos com sotaque luso e, suspeito, será sempre assim que lembrarei. Ela, a Fal, contou que canta em voz alta. Eu nunca falo em voz alta e raramente canto, o que me fez pensar que as palavras que me habitam tem mais discernimento do que eu mesma. Em outra editoria, deixo registrado que gosto das minhas rugas – e também das rugas da Fal. Disse o Caio: “queria tanto que alguém me amasse pelo que escrevi”. Por muito tempo essa frase me acompanhou como uma espécie de farol meio inconsciente, presente sempre que eu começava a digitar. Um alguém é qualquer um e, eventualmente, até mesmo uma ausência. Tinha e não tinha um leitor ideal(izado) #Schrödingerfeelings. Mas a maré enche e seca e deixa coisas na areia além de conchas ocas. Alguém agora tem endereço, barba e tristeza no olhar. Tem sotaque e blusas de botão. Boletos. Tem até rima e rival. E eu, modesta, um pouco tímida, nem fico querendo ser amada pelo que escrevi, fico cantarolando como uma atrasada Mutante “eu só quero que ele me queira” pelo que escrevi ou por qualquer outro motivo trivial, sei lá, porque meus dedos médios tem uma curvinha charmosa.

Ontem revi O Poderoso Chefão pela zilionésima vez e é sempre um espanto. O filme é todo, todo, todo incrível, mas os primeiros vinte e seis minutos, sei nem o que diga de tão bem feitos.

Um amor geralmente é uma pergunta. Uma inquietação. Aqui chegando logo vi que sabia tão pouco, ou mesmo nada.  E na mesma medida que chegava o encanto, chegava a vontade de conhecer. Essa suposição ingênua e recorrente de que, ao desvendar o objeto de amor, o teremos mais nosso. Quando muito, acontece de sermos mais dele.

O funeral de Heitor

“Quero muito fogo
Pra toda essa palha”

A ira de Aquiles termina com a morte de Heitor. E não só, a Ilíada também. Homero nem precisa contar se Tróia caiu ou como. Cairia sem Heitor, sabia-se. Heitor que morreu porque os deuses determinaram e por nenhum outro motivo. Heitor que reconheceu o que os deuses queriam e tratou de fazê-la inesquecível. Heitor que pôde cruzar olhar com seu algoz e repreendê-lo. Heitor, o nobre. Heitor, valente não porque queria ou gostava, mas porque era preciso. Gentil, é como sinto Heitor. Quando ele tira o elmo, caem todas as minhas defesas. Gosto muito de muitos, mas tenho um xodó especial por Heitor que, suspeito, vem do mesmo lugar e tem a mesma natureza do que me faz apreciar Rollo e Boromir. Heitor que recebe as glórias e as honras, mas nunca perde as dúvidas, os medos, a perspectiva. Heitor que valoriza o simples, a vida, o riso do filho, o toque da mulher. Heitor era amado. Pela esposa, pelo filho, pelo povo. Não temido. Amado. Porque era um grande guerreiro, claro, e admirado por isso, mas não apenas. Não ser um apenas. Lembrei dele, ao pensar em Heitor, e não de você. Mais um passo. Um dia termino de ir embora. Com sorte, nesta vida. Andei lotando ela, esta vida, de compromissos pesados e dos quais já não posso me esquivar. Pra equilibrar estou fazendo o quê? Isso mesmo, me comprometendo com mais outro tanto de coisas, mas dessa vez coisas das quais eu gosto, coisas que queria fazer e não fazia porque achava que não dava. Agora, na rádio cabeça, a musiquinha “vai ter que dar, vai ter que dar”. Um clube de leitura para reencontrar a Odisseia. Outro grupinho semanal para ler e discutir contos. A aulinha de cinema. E a aventura iniciada hoje. Eu gostaria de ser a pessoa que diz: pode me empurrar do penhasco etc sei voar tal e coisa. Mas não sou assim. Não vou usar o caderno que veio de Paris. Pelo menos mandei telegrama. É que não aguento mais o Universo falando para eu desapegar e ninguém me dizendo como. Resolvi passar 3 dias sem gastar dinheiro de jeito nenhum. Mas só começa amanhã que hoje eu vou pedir jantar pois, após terem erguido o túmulo, voltaram os troianos ao palácio de Príamo e, seguindo os ritos, festejaram com um banquete. E foi assim o funeral de Heitor, o domador de cavalos, a lembrança delicada de que nem todos os finais podem ser felizes, mas o meu (ou o desse amor, que neste momento me parece a mesma coisa), posso fazê-lo nobre.

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Imagem meramente ilustrativa

Tanta pose e palavra bonita para, no fim da noite, eu chorar como sempre, soluçar e escorrer nariz, enrodilhada na saudade de uma madrugada contigo, desejando mandar mensagem, mandar presente, mandar um avião com faixa pra frente da sua casa, arrancar o coração com a mão e depositar na sua caixa de correio.

Peixinha

Eu tinha um pé atrás com o lance dos signos. Provavelmente por vaidade. Em todo canto encontrava a ideia de que pisciano é trouxa e, olha, de maneira geral eu tenho a bunda virada pra lua e as pessoas mais cuidam de mim do que tentam me enganar de alguma forma. Outros estereótipos nos quais eu não me encaixava muito: gente sofredora e que se apaixona fácil. Quem me conhece sabe da minha imensa vocação para a alegria e, quanto à paixão, bom, eu realmente nunca nem tinha me apaixonado, acho. Não nos moldes mais comumente descritos na literatura, registrados em cinematecas e compartilhados em fuxicos de amigas.

Mas estes dias tenho vivido a “piscianidade” (existe essa palavra? Em algum multiverso?) de uma forma bem explícita até pra desligados como eu (piscadinha pro clichê). Olha aí o desenhinho:

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Um peixe nadando pra cima, o outro peixe ignorando esse otimismo e nadando pra baixo. Um quer o mundo e os encontros, o outro busca a solidão e o ensimesmamento. Eu quero o claro, eu sonho o breu. Persigo a superfície, me afundo na região abissal. Falo tudo pra não dizer nada. Todos os dias me convenço que é hora de ir, que já não há mais espaço pra você cá dentro, que a história engasgou, não rende, aquele vislumbre de magia está perdido. Segue, luciana. Vai pra cima, nada em outros cardumes, tá vendo aquele dançante dourado? É o sol fazendo cócegas no emciminha da água. Uma beleza, bora lá. Todas as noites eu me impregno da vontade de você e me convenço de que não é possível deixar pra trás sem esperar até o possível, só pra ver, que mal faz, alimenta mais um pouco, entrega mais uma coisinha, tá quase lá, vai embora sem nem saber o gosto? A curiosidade segura e esfrego escamas no frio entre rochas do abismo.

A Fal disse, em seu diarinho*, que a vida anda. Eu acredito que sim. Eu sei que sim. A minha mesma já seguiu de momentos tão mais cinematográficos. Andou. Andei. Estou aqui, não estou? “Pessoas danificadas/machucadas/quebradas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. Sobrevivi. E mais. Eu só não lembro direito o como. Mas vou descobrir, claro. Em algum momento de um futuro que está sempre distante demais para o peixinho que sobe e ameaçadoramente próximo para o peixinho que procura o reino de Poseidon ou mesmo Atlântida. É que o sorriso chega antes da alegria.

Antes do futuro que virá, virá aquele momento do grande gesto. Eu, hoje, entendo porque alguns moços ficam confusos e até magoados comigo. Geralmente faço o solene e grandioso ato de amor verdadeiro, forte e profundo, naquele momento exatamente anterior à minha partida. Cabo de guerra entre peixinhos. Ficar, ficar, partir, partir, ficar, partir.

Minto pra mim, pra vocês, pra eles? Faço o grande ato de amor verdadeiro, forte e profundo quando já parti, mas reluto em aceitar? Não tenho certeza se não tem sido isso essa sucessão de entregas recentes. Ao ladinho do sempre tua tem aquela que talvez esteja abrindo as janelas, arejando espaços, batendo o tapete, espanando os cantos, trocando a roupa das almofadas. A vantagem do peito vazio é a acústica.

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Raramente te dá presentes e eles são esquisitos. Mas estranhamente pertinentes.

(o print é puro suco de narcisismo, né? Não tenho vergonha na cara)

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O que vocês preferem: narrar uma vida inventada ou inventar uma vida a ser vivida?

Gosto demais de La la land. Revendo uma conversa antiga, reclamam que não tem química entre o casal protagonista. E eu respondi que o filme não deveria contar com um par certo porque a vida não é sobre as pessoas encontrarem pessoas certas. É sobre a gente pensar que é. Reli essa minha resposta e doeu como jogar água oxigenada no joelho ralado. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

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*Se você quiser receber o Diarinho da Fal, diariamente no seu zap, sem preocupação (não tem interação, só a Fal posta) é só apertar neste link: https://chat.whatsapp.com/BcANA1N35q6Libhh8Yz8lW

Jabá e outras sugestões

Acho que todo mundo conhece aquela piada:

Chega de falar de mim, já fizemos muito isso. Vamos falar de você. O que você acha de mim?

Mockups Design

Pois bem, amiguinhos, esse é o espírito da live da próxima quinta-feira, 19/08, às 20:30hs, sobre (ainda e de novo) o livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Anota aí na agenda, daqui a uma semana exatinho. Teremos convidados e eu prometo que, dessa vez, falarei bem pouco (e vou aproveitar as pessoas falando de mim ou, mais exatamente, do meu livro).

Vamos ouvir o João Carlos Ribeiro Jr. discutir o conto “Te encontro, Maninha” e perguntar pro Fernando sobre como foi escrever, em parceria, os contos “Foda-se, Plutão” e “Companheiros, blues, cafés, tabacos, drinques: fortes, amargos e lentos”. Teremos, também, claro, a participação luxuosa das Drops Editora, recebendo em seu perfil esse conversê todo. E porque alguém deveria se interessar e assistir? Primeiro: porque eles são lindinhos, vocês não acham?

Mas se isso não for motivo suficiente, confiem na minha palavra de que os dois são um excelente papo e entendem muito, muito mesmo, desse negócio de ler e escrever. Além disso, dessa vez estarei mais livre para acompanhar os comentários, anotar as questões e incluir mais gente no papo. Você já leu o livro, já conhece os moços, já não aguenta mais me ver? Tudo bem, divulga pros coleguinhas. Estou pensando até em sortear livros (não necessariamente o Éter). #VemGente

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Já que estamos falando de instagram, queria sugerir que vocês sigam esses perfis que, garanto, fazem daquela rede um lugar bem melhor pra se estar do que ele mesmo se pretende ser:

@fiftinah: um perfil que é, concomitantemente, instigante, informativo, divertido, que produz conteúdo sobre e para mulheres 45+. Toda sexta-feira, 19hs, tem live. A anfitriã e dona da porra toda é a queridíssima Tina Lopes. Amanhã, 13/08, o tema é “Mulheres à beira de um ataque de burnout” com Carla Zuquetto, terapeuta analítico-comportamental, que atende adolescentes e adultos; Renata Crispim, psicanalista, comunicadora e professora universitária e Líívia Ferreira, que trabalha com clínica psicanalítica e é doutoranda em Psicologia, com uma pesquisa em corpo, gênero e feminino.

@dropseditora: perfil que vocês devem acompanhar, além da divulgação dos livros incríveis editados pela Fal e Suzi, encontramos sugestões de leituras, divulgação de material sobre literatura, informação de forma lúdica. Aproveita e já fica sabendo que vai ter reimpressão “Como ensinar um idiota a dançar” – coletânea de Drops – e “Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem” – coletânea de crônicas – que são dois livros no mesmo volume.

@chamaterapêutica: perfil de loja online, situada em Fortaleza-Ce, que comercializa produtos terapêuticos e fitoterápicos.

@maesemhomeoffice2021: perfil do projeto de extensão da Universidade Federal Rural do Semiárido que ouviu e sistematizou o discurso de mulheres, mães, trabalhadoras, que tiveram que reorganizar a vida ao atravessar a pandemia da covid19.

@narrativadefeminicidios: perfil do livro das jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, que analisa o discurso sobre feminicídios e como esse discurso sustenta a violência contra a mulher.

@cafebelgrado: gosta de basquete? Gosta de NBA? Esse é o perfil pra você.

@edisca: segue o perfil da Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente para acompanhar as ações inspiradoras e assistir trechos de espetáculos de balé tão, tão lindos que o jeito é chorar.

@caju.fred: perfil do poeta Fred Caju que também é editor da Castanha Mecânica. E vem com a beleza pernambucana.

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Essa quinta, essa semana, esse mês, essa infinitena:tumblr_1855a2f0131835be00a25792fee21ae6_b44e4263_540

Salonpas e outros anestésicos

(sim, eu rio de mim mesma)

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Terça-feira, meio dia: completamente destruída, corpo, alma, coração, não tem pedra sobre pedra. Usei salonpas pra dormir, infelizmente não tem desses pros lugares onde o desejo maltrata.

Os domingos enganam a gente, às vezes, né. Olha o dela, franguinho, maionese, pessoas e bichos numa boa. O meu nem foi mal, peixinho, florzinhas, risadas com o pai e toda galera, bom filme, bom livro. A segunda acordou pensando que era domingo, filho meu vacinado, pranto que é sorriso. Aí o Molusco foge, lá nela, aqui começa a aparecer dor em tudo que é lugar, amiga com problema renal, gente querida com covid, orientando que não entende o que se diz, universidade mandando colocar datas fictícias no sistema para fazer processo seletivo, faço comida conforto que não confortou, noite mal dormida, pesadelo com você, chegamos ali no começo do texto, salonpas, lágrimas e a terça com tanques na rua, nenhuma mensagem na caixinha, nenhuma carta no escaninho. Caiu uma obturação. Escuto os velhos homens na CPI e sinto tudo murchando cá dentro. Queria que alguém me fizesse uma jarra de suco de laranja. Sinto cada vez mais saudades de um outro lugar sabendo que sinto falta mesmo é do outro tempo. Que podia ser um futuro. Conto os livros dentro do quarto: 26. Não estou lendo nenhum deles. Estão ali, empilhados, provavelmente tentando derrubar a prateleira do móvel da tv. Compro ou não compra mais salonpas?

Choro porque nos acomodamos com mil mortos por dia. Choro porque perdemos o verniz na coisa pública. Choro porque prenderam um moço que tocava saxofone, Choro porque as margaridinhas amanheceram feinhas. Choro porque tenho que encher as garrafinhas de água. Choro porque não estou em Paris. Nem em canto nenhum. Nem mesmo em mim (eu sei, já disse isso, mas ainda sinto. Não é porque escrevi uma vez que deixo de sentir. Queria que a escrita tivesse esse poder de esponja mágica).

Minhas mãos geladas. A respiração forçada. Onde estão os balões de oxigênio? Falo com o moço que sabe ser tudo e são corpos e suspiros e sonhos e sapatos vermelhos e eu respiro mais fundo e sinto o morno na pele, sou tão grata por me fazer latejar. Mantem alguma coisa ligada. São muitos os nãos por aqui. Eu não sei piscar. Não sei estalar os dedos. Não sei levantar a sobrancelha. Não sei enrolar a língua. Nem lidar com o mundo real. Escrevi salonpas, o corretor transformou em sadomasoquismo. Pedi remédios e um sorvete. A farmácia não mandou o sorvete. Eu entendi a mensagem, universo, não precisa sapatear nas minhas costas.

Marquei reuniões. Fiz anotações pra hoje a noite. Paguei mais uma rodada de aulinha de cinema. Coloquei uma tabela ao lado dos remédios pra não esquecer de toma-los. Esqueço de marcar o x na tabelinha. Paquero mais um deck de tarot. Eu não leio tarot. Leio cartas, mas elas não chegaram ainda. Ross e Rachel estão namorando. Pode ser fanfic? Pode. Mas nós vivemos atolados em fake news de mau gosto, vou deixar essa bonitinha na mesinha de cabeceira pelo mens uma noite. Junto com taça e garrafa de vinho. Ama como uma estrada começa, disse Mário Cesariny. Bonito, né? Mas como começa uma estrada? Quando se precisa de um destino. Eis um porquê possível. Mas como? Com um passo e uma coragem?

Por um sopro, digo, por um fio

tumblr_p4wu6tVOtl1x7dyhyo1_540Qual o recado? Sossega, Luciana. O que eu faço? Besteira, claro. Exausta. Exausta de querer, de decidir ir, de acabar ficando. Exausta de sorrir por qualquer coisa, de acreditar em qualquer palavra, de tentar recuperar o momento perdido depois de perdido. Bom, não exatamente perdido, eu sei exatamente onde ele está. Você também sabe, falou dele ontem. Só não tem interesse em voltar lá. Exausta da versão de “na volta a gente compra” para relacionamentos amorosos. Alô, não é uma promessa de verdade, luciana. Pelo menos a pia está limpa, o frango está na cerveja, as plantas estão regadas, o cabelo está lavado e Isaquias remou tanto, tanto, que – aproveitando o fuso – chegou quase um dia na frente dos adversários. Café e pão com manteiga na frigideira. A Grécia está pegando fogo. Foi aprovada a privatização dos correios. Vão colocar o voto no papelzinho pra ser decidido em plenário. É duro lidar dia após dia com a pandemia, mas é perturbador pensar no que vou encontrar lá fora quando enfim abrir a porta. (Me) Fiz uma pergunta na análise e fiquei rodando sobre o mesmo tema. Daquele jeito inquietante que os analistas tem quando parecem saber alguma coisa que a gente não sabe ainda, ele soltou um “deixe sem resposta que o que é importante vem” seguido de um “vamos ficar por aqui”. Pois veio. Chegou, chegando. Uma caixa cheia de maravilhas. Um pacote de coisas lindas e interessantes e divertidas que ela escolheu e generosamente me enviou. Além do diarinho, além de me editar, além da amizade, ela me deu presentinhos. E um envelope vermelho. Eu estou encantada com o envelope vermelho. E agoniada com o texto que não sai. Palavra após palavra, algum sentido, nenhuma beleza. Chega mais um diarinho. Já são três e eu encruada nessa saudade. Umas tristezazinhas, disse ela. Aqui também. E mais, digo eu, umas caipirinhas, jogos na tv, tentativas de cochilo, uma espera, uma hora no telefone, a vacina do filhote finalmente chegando, uma enorme e magoada espinha, olheiras, uma foto bonita recebida na caixinha, um vídeo consolação. Seu coração maltratado, o meu coração ausente. Muitos itens no carrinho da amazon. Nenhuma compra. Último dia de Olimpíadas, já sinto o efeito anestésico diminuindo. Acho que quebrei um dente. Com certeza quebrei a cara.

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 Eu queria que você viesse
Penso tanto que quase acontece
Porém, se eu decidir não me enganar assim
Talvez o meu pranto tenha fim
Se você ouvisse minha prece
Não quisesse me ver tão aflita
Sonhar não custa nada
Eu quero tanto ainda
Grata te daria uma saliva
Junto com você a vida impera
Nosso 3X4 na carteira
Vendo a meia-lua, a luz e meia
Rogo que me faça uma visita

Eu sonho tanto porque tanto lhe amo assim
O sonho é santo porque traz você pra mim

Eu, no x-games da vida e uma dolorida resignação

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Desde que comecei a ver X-games com Bob Burnquist, Mineirinho e cia., descobri que tenho alma de skatista: volta após volta taco a cara no cimento e ainda me lembro de rir porque, sei lá, em algum momento eu vou voar e quando há voo, ah, que beleza. Por isso, estou na pista. Claro que arranha, machuca, arranca a tampa do joelho. E, também por isso, chorei no divã. Mas consegui dizer: displicente. Porque há quem não tenha o que dar. Mas há quem não se importa o bastante para lembrar de. Espero que sejam lágrimas suficientes para encharcar seus pés de barro. Abrir mão de um amor é ceder de quem somos naquele amar. É difícil perder esse você que inventei, mais difícil ainda me despedir dessa eu que quis, quis mesmo, quis tanto, você. As águas do desejo são turvas, eu quase me afoguei. Faltou o ar. Ainda falta, mas nesses quandos, vou pra varanda e mergulho no azul. Ou encho a banheira. Ou peço uma comida gostosa. Trato bem o corpo que você ignora. Não tenho muita certeza se vale a máxima que cada um escolhe a vida que leva, mas confio que cada um escolhe a vida que lhe leva. Como uma versão da canção do Chico escrita em outra linha temporal (pois é, eu vi Loki), consta nos astros, nos signos, nos búzios, nos anúncios, no espelho, garantem os orixás que eu tenho que deixar pra trás. Abrir mão. Desapegar. Eu sei o quê, eles só não explicam o como. Continuo caindo com tudo no cimento. Mas continuo levantando. E buscando o voo.

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Infinitena, ano 2.
509 madrugadas
561 mil mortes
Aproximadamente 20.026.500 casos de coronavírus
1.118 mortes em 24horas
2 doses de Astrazeneca e nenhuma reação (mentira, muitas: fiquei emocionada, zangada, solitária, contente, aliviada, foram tantas que nem sei descrever)
373o dia no calendário kalúnico
Um apelido, uma ou duas playlists, um coração partido

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Estou me resignando à ideia de o Brasil manter um número constante e significativo de mortes por covid. Estou me resignando a, eu mesma, ficar cada vez mais em casa, não voltar a frequentar cinemas, restaurantes, não fazer compras em shopping, me resignando a não viajar pra ver amigos em outros estados. Estou me resignando a fronteiras internacionais fechadas ao turismo brasileiro e a passar todas as férias na praia aqui vizinha.

Porque olho pela janela e tem artista que foi resistência esses meses todos, fazendo shows – com todos os protocolos. Amigos e conhecidos que se cuidaram esse tempo todo achando que é o jeito abrir mesmo todas as escolas – com todos os protocolos – porque já não dava mais. Vendo gente juntinho, juntinho, juntinho em festas e comemorações e fazendo presencialmente trabalhos que poderiam ser à distância – com todos os protocolos – porque a vida precisa seguir.

E eu já nem estou mais discutindo se ainda dava, se a vida precisa mesmo seguir, se a arte é ou não indispensável agora. Não estou culpando ninguém nem mesmo considerando quem devia ser mais ou menos forte, mais ou menos resistente, fazer assim ou assado, Estou apenas triste porque todos os protocolos são absurdamente desconexos do que é efetivamente recomendado: não são espaços ventilados, não é obrigatório uso de PFF2, não tem intervalos em curtos espaços de tempo para se estar ao ar livre. Apenas se aceita o termo protocolo do jeito que ele vem, se inspira fundo, se reza ou se torce pro melhor e nos acostumamos à dor.

Eu me espanto, eu realmente me espanto, porque dá pra saber exatamente o que precisa ser feito pra minimizar. Não estou almejando isolamento, lockdown, essas aspirações mais nobres de um tempo anterior. Mas testagem, sabe, coisa possível. Máscara. Rastreio. Não é difícil, até eu que sou limitada, sei.

Queda livre

Desde que te conheci, nunca fui tão infeliz na minha vida. 
-Nem eu. 
– Eu não trocaria isso por nada. 
-Nem eu.”
(Do filme A Um Passo da Eternidade)

Então ciúme é isso. Dói mesmo. Eu não acreditava muito. Parece que meus olhos querem chorar ácido, os pulmões ficam miudinhos e uma mão descarnada e quente aperta, alternadamente, coração e garganta. Tem caninos afiados e vem roendo por dentro. É pegajoso e amorfo.  Não encarei ainda os olhos, pra saber se são verdes, mas definitivamente é um monstro e não daqueles ou destes.

onde vivem os monstros

Estava lá, rabiscado em um caderno velhinho: não temo as partidas, já fui porto, navio, viagem, marinheiro.  E oceano. Por todos os deuses, luciana, você não sabia de nada mesmo.

Foram dois diarinhos difíceis de responder. Mas, na caixinha, trocamos informações e risos sobre faxina, ela me mandou fotos do cantinho a vencer, eu contei que lavei parte da louça e que tinha aguado seis vasinhos de planta e me quedado exausta. Não usei quedado na conversa, mas poderia, ela não me julga. Ou julga, mas é educada demais para demonstrar. Para continuar a madrugada, ela deixou um dublado na tv fazendo companhia à tediosa atividade doméstica, eu coloquei um Nicholas Ray porque era isso ou mandar mensagens lamechas fora de hora. Paciência, paciência, paciência, a hora há de chegar, é só manter a peteca no ar até o quando. Não sei é se tenho é fôlego pra isso. Escrevi cartas. Entendi porque as ladys tinham o dia para tratar da correspondência. Leva tempo fazer tudo direitinho, incluindo endereçar e envelopar. Na prateleira em cima da tv, um vaso metido a besta, a deusa Fortuna, o quadro do Jardim das Picas Murchas e a miniatura que é também caixinha de música, que a Camila me deu. Eu gosto demais de caixinhas de música e só tinha uma, até ganhar esta, uma miudinha, que toca a música d’O Poderoso Chefão. Foi escrever isso aí e pensar: cadê? Não achei, vasculhei as gavetas do quarto e nadica. Terei que enfrentar as várias estantes e sacolas e caixas e prateleiras e gavetas dos outros quartos. No caminho, nada se perde, tudo se transforma, esbarrei no livro e, sim, passou na frente de tudo o mais e estou relendo. É que a capa está bonita. Aliás, culpo Manuel e Fabiano por este novo gosto por livros estilosos. Livro-objeto.

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Outra afinidade recente: rosés. Inclusive tem dois na geladeira pra sábado. Não devia ter te convidado. Sei que você não vem e sofreria menos se pudesse pensar: é que ele não sabia. Mas eu sempre arranquei a casquinha da ferida. Escrevo de tudo aqui. Fico com a impressão que mesmo que alguém comece a ler, em algum momento do texto se distrai  e não me escuta. Teria vergonha se achasse que estou sendo entendida. Posso escrever sem pejo: eu não gosto de telefonemas, não muito, mas queria telefonar e saber que, ao atender, você não diria alô e sim vem e eu, ao ouvir sua respiração, poderia falar qualquer coisa porque o que digo mesmo é desejo. Sussurrar ou gritar: só o tanto que for. Só o tempo que for. Não saber antes. Descerrar a cortina quando for sol, espiar os desenhos no vidro quando for chuva. Não dar corda aos relógios. Abrir os botões como se fosse o peito. Escrever assim como quem gosta, como quem sofre, como quem morre e ninguém saber: queda livre. Me diluir entre as letras. Depois enfiar a lista de compras e seguir, nariz arrebitado. Abacate, maçã, tangerina, manga, laranja madura na beira da estrada e tudo mais. É complicado fazer perguntas nas redes sociais, mas as dicas compensam. Preciso trocar o colchão, dormi tanto tempo sozinha que só um lado dele afundou. Durmo sempre perto da porta. Sento sempre de costas pra parede. Procuro sempre a mesa afastada. Corto as unhas do pé com tesourinha, ainda, nunca aprendi a usar aquele outro trequinho. Brinco de noves fora. Não sei desenhar. Guardo uma moeda ou cédula de todo país que visitei na esperança de voltar lá pra gastar. E sonho com sopros.

Eu competindo nesses programas de culinária. Os chefs: falta acidez e doçura no prato. Eu, internamente: mas não na alma.

Estou cansada de não ser feliz.

Eu sou arisca. Eu dou, eu digo, eu entrego. Mas o mas está sempre rondando. Enquanto são dois pra lá, dois pra cá, eu danço. Mas tenho atenção ao ritmo. E nunca desgostei das cadeirinhas de descanso. Essa sou eu, saindo da pista, indo buscar uma bebida.

Eu preciso de:
Um abraço
Um filtro de barro
Sorvete de graviola
Uma pele mais grossa
Sapatinhos vermelhos
Um colchão
Coragem
Um corte de cabelo
Um batom vermelho
Esquecer você
Um sabonete de chá verde
Passagem aérea
Uma caixinha de som
Uma semana em Canoa
Uma colher de pau. Ou duas.
Uma sombrinha vermelha
Uma máquina de escrever
Láudano
Bom senso

Brilhar e brincar de desesconde – desesconde #dia440nocalendáriokalúnico

Tal como o David Luiz, eu também escolhi esperar. Não as mesmas coisas. Mas esperar. Respirar fundo. Não contar até 10. Não contar as horas, os dias, o tempo. Esperar a mensagem. Esperar a vontade. Esperar alguma saudade. Esperar a presença. Esperar que. E se não, não. Receber bem essa minha desconhecida. Oi, tudo bem, dona Paciência? Senta aqui, faça de conta que esse peito é sua casa. Abri um vinho agorinha, aceita uma taça? Esperar. Acreditar que o futuro é mais que um agora estendido. Bem leve, leve. Dançar na pontinha do pé. Lavar o rosto com água gelada. E, no por enquanto, brilhar. 

Brilhar e brincar. De desesconde – desesconde.
Não saber o que é não significa que não seja ou que não seja bom.
Quando faz, faz muito bem. 

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Se ela tivesse a coragem de morrer de amor 
Se não soubesse que a paixão traz sempre muita dor
Se ela me desse toda a devoção da vida
Num só instante sem momento de partida
Pudesse ela me dizer o que eu preciso ouvir
Que o tempo insiste, porque existe um tempo que há de vir
Se ela quisesse, se tivesse essa certeza
De repente, que beleza, ter a vida assim ao seu dispor
Ela veria, saberia que doçura, que delícia, que loucura,
Como é lindo se morrer de amor!

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Tem esse programa, brincando com fogo. Umas pessoas bem jovens, dentro do padrão de beleza, solteiras e teoricamente loucas por sexo mas, olhando de perto, cuidadosamente escolhidas por suas inseguranças e péssimos relacionamentos prévios. Aí a dinâmica é: passar o dia com pouca roupa, na praia, flertando, mas sem pegação. No horizonte há um prêmio que será (ou não) dividido por todos ao fim do programa e a cada infração considerada sexual (beijo, masturbação, sexo), o valor do prêmio vai diminuindo. A premissa é que para fazer conexões profundas, os aspectos físicos do relacionamento devem ser minimizados, adiados, escanteados. Procurem a beleza interior. Risos. Quem consegue confiar no parceiro, ter conversas íntimas, dar suporte um ao outro, vai ganhando sinais verdes, basicamente algum tempo sem punição pra se beijar e tal. É um entretenimento triste tanto porque a impressão que dá é que o problema é o sexo e não como as pessoas lidam com ele, como porque há momentos de euforia quando algum casal que demonstra se gostar muito tem a oportunidade de passar a noite em uma suíte especial, sozinhos, e acordam no dia seguinte sem perder nenhum dinheiro porque colocaram um banco (isso mesmo, senhoras e senhores, um banco), no meio da cama, para não se tocarem. No sex, more money, um anti Zeca Baleiro.

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Hoje eu visitei um passado e revi muitas coisas. Evitei cuidadosamente as que se tornaram nossas, tão rápido. Como uma espécie de arqueologia de mim mesma, reli, assisti, ouvi e até comi coisas tão minhas. Só minhas. É que eu sei que vivi muitos dias antes dos dias em que você passou a viver em mim. Eu sei. Mas eu não sinto. Não sentia. Fiz escavação. Fósseis, monumentos, artefatos de uma época A. V. O desejo moveu placas tectônicas no meu peito. Descobri um coração e suas brechas. Entre ruínas jarros, pratos, urnas mortuárias, fivelas de cabelo. Downtton Abbey. Uma Marquesa. De Merteuil, oba. Discos da Mia Martini e Fito Paez.  Chapéu de couro, uma alegria intocada pela sua sombra. Praias, montanhas, castanhas, telegramas, touca, câmera, janelão, muros pulados, beijos na praça, até maquiagem e meias de seda. Por vezes eu parei, exausta de não te querer. Difícil resistir, tem euro na tv. Respirar, abraçar os livros do Machado de Assis, seguir. Acreditar-me capaz de kintsugi n’alma, depois que sua ausência for ausência e não essa presença dolorida se espreguiçando e imprimindo marca no tudo dentro de mim. Olhar pra trás é uma espécie de olhar pra frente, Construir, com meus tijolos amarelos, um viaduto, pra atravessar esse território. Olha lá, do outro lado, de casaco vermelho, echarpe azul e biquíni de estampa amarela, rindo alto, uma luciana.

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Não teve diarinho ontem? Pois teve. Um cheio de quinas e pontas afiadas. Como se diria no twitter: muitos gatinhos. Especialmente um Heitor. O dela não é o meu, mas ainda assim, Heitor. Além do que foi, Heitor é, talvez, meu herói preferido. Fechada nas minhas muralhas, recebi contas, mas nenhuma carta. Talvez, ao longe, atraquem mil navios. Se não tenho certeza sobre os ventos e barquinhos, confirmo que pelo menos chegaram Ilíada e Odisseia com tradução de Frederico Lourenço e uma caixa bem bonitinha, sombras em azul sobre letras. “Tenho no peito dores desmedidas“, diz e diz e diz Helena presa que é à injunção de Afrodite de que aceite e mesmo procure os abraços de Páris. Ser favorito de um deus não é nada moleza. Não que seja tão mais fácil ser esquecido por eles, como bem sabia Duras. Tenho que escolher um tema para falar na feira literária. Porque eu ainda digo sim se sei que não sei o que dizer? Vou dando like nas postagens de gente na rua. Fora, desgoverno genocida. Vez ou outra a foto de um moço que eu penso porque não fui? Sei lá de onde vem esse vento nostálgico, abro portas pra ele correr mais rápido. Pedi respostas na última garrafinha e recebi. É bonito algum diálogo. Uma vez uma estante de ferro, cheia de livros, caiu em cima de mim (pra minha sorte tinha uma cama pra eu cair em cima enquanto os livros faziam um morrinho no meu peito). Eu imagino uns leitores assim, tentando acompanhar tudo que escrevo, soterrados em palavras minhas. Talvez tenha sido isso. Sinto falta de você por perto, imagino que você pegou alguma saída no caminho, mas talvez você só tenha ficado preso em algum dito. Amanhã é domingo, vou assar legumes, trocar os lençóis da cama, tomar banho de sol, varrer o quarto, lavar o banheiro, esquecer você. Hoje é sábado, dia de sábado eu minto.