Deslizes

Resolvi muitas coisas hoje. Praticamente uma pessoa adulta. Passei perto de tudo que precisava fazer? Aí já é querer demais. Uma boa reunião, cartório, e-mails que eu não respondi. No fim do dia fiz uma sopinha de carne, daquelas com todos os legumes cortados em quadradinhos miúdos e quase idênticos. Tem um pênalti bem agora, no jogo que passa na televisão. Sempre penso na solidão do goleiro. Talvez para não lembrar da minha. Não sei de onde as pessoas tiram o tempo para tanta coisa, inclusive para a felicidade, para a infelicidade e para todas as séries que assistem, livros que lêem, músicas que escutam. Minha cozinha estava uma bagunça, agora só a pia estão lastimável. Dias melhores virão. Escrevi o conto e ele foi aprovado. Um dia de cada vez. E as noites todas me sufocando. Roubei das obrigações e acabei de assistir Uncoupled. Achei uma delícia (menos a cena final, mas entendi que era um gancho, etc).  Porém eu estava certa quando cogitei não ver. Não pelos motivos que cogitei. As emoções foram tão outras. Tive um estalo e percebi que minha questão não está nos términos, na ausência de um “um” na cama, nos dias; meu problema é não ter amigos do babado por perto. Fiquei muito envergonhada. My fault, i know. Muriçocas fazem a festa. Tão mais bem empregado o sangue se a visita fosse o Gary Oldman ou mesmo o Tom. Velhas referências. Separei umas fotos para colocar no mural de ímãs/viagens. Gastei tanto dinheiro hoje que fiquei tonta. E um pouco apavorada. Planejamento financeiro é no dia primeiro você saber em quanto vai fechar o mês no vermelho. Uma convicção: cafuné deveria ser considerado artigo de primeira necessidade. Vou ali, ouvir umas críticas da Isabela Boscov para me sentir sabida por gostar do que ela gosta. Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. Para quem acredita, as paralelas marcaram encontro no infinito.

Correspondentes

Orgulhosa de mim mesma e da coragem desprendida evocada, dei o que eu supus ser uma imensa patada. A pessoa achou que era um afago e me tratou com a displicência condescendente de sempre. Só me resta cantarolar: a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o livro é meu – porque um dia virá, sim, virá. Enquanto não vem, um convite gentil, um pequeno conto, uma boa aula, os Corleones, máscara com válvula, hidro, a correspondência. Abri o envelope e choveu dourados. Cartas há mais de um ano e você ainda consegue me surpreender. Alerta de correios e de sorrisos em mim, sorrisos que eu julguei perdidos. Ouvi uma musiquinha do Fito Paez. Tão doces os amores do passado que nos fizeram bem mesmo que não os entendêssemos como devíamos. Escuto os moços falarem de luxúria e me admira a segurança com que dão conselhos. Se eu fosse dos que dão conselhos diria: coloquem a macaxeira para cozinhar no cozido de carneiro. De preferência, tendo temperado a carne, também, com canela. E acrescentaria: depois que no prato estiverem carneiro, macaxeira e cuscuz, taca sem dó um monte de pimenta biquinho. Garanto uma boca em festa. Por falar em festas, ando precisando de um boteco. Em outra freguesia. Criei uma armadilha e me joguei nela. Eu era feliz e sabia. O que eu não sabia é que não seria feliz assim de novo. Os moços ainda estão no papo, infelizmente não dá para ignorar o moralismo dos conselhos. Sexo é um assunto complicado para se falar en passant – lembro-me de dar este desconto. Só me resta reler Ligações Perigosas e respirar por Merteuil. Eu não tinha medo de morrer. Agora eu tenho receio de não morrer. Ou de não saber que estou morrendo. Ainda estou decidindo. Li o diarinho da Fal e é óbvio que não devo assistir Uncoupled. Nem ler threads no twitter sobre obsessivos e histéricas. Este era o seu apelido correto: Olegário. Sôo ressentida? A dor é minha, o livro é meu. Comprei pasta de amendoim. Gastei dinheiro que não tenho. Não me senti melhor. Nem pior. Faz tempo que estou como o pintinho da piada: sentindo nada. Aí passa o efeito do analgésico e, claro, ninguém quer ler sobre isso. Fiz fotos com meus sapatos vermelhos. Não estou mais no Kansas, nem em Oz, nem mesmo em São Paulo. Mas encontrei um papel de carta muito fofo e etiquetas douradas em forma de estrela. Não estou fazendo planos pois não sei se estaremos juntos, eu e o futuro. Não sei quem ele vai encontrar, caso chegue. Provavelmente alguém que eu desconheço. Enfim, não estou fazendo planos, mas em algum canto bonito em mim, sonho encontros, vinho verde, pequenas palavras, imensos silêncios, muitos risos, talvez murmúrios, algum espanto, surpresas, conforto, a hora de ir embora sempre chegando antes do que devia. Preciso comprar envelopes.

Telescópio e outros aléns

Recebi a carta mais simples, despretensiosa e gentil. E, sim, o “com amor” me balançou um pouco. 

Status: entendendo melhor o conceito de migalhas. 

Eu poderia dizer que não tem sido fácil viver e qualquer um acompanharia o raciocínio. Mas não seria muito honesto. Nem posso garantir que estou tentando. Há coisas que não tenho nem terei coragem de fazer e todo o resto parece pálido diante desta constatação.

Westworld voltou e que morte horrível. Mas talvez seja eu.

Minha amiga perguntou se eu não preciso de ajuda. Tentei. A mulher disse que a vida tá dureza mesmo, respira fundo, come melhor, chora quando precisar e segue… quando estiver na ladeira, solta e vai na banguela. Não com essas palavras, claro.

A amiga autora me escreveu uma carta, aceitei o convite e estou comendo pão integral com grãos, ouvindo Salmaso e tentando não dar na vista que não ligo muito para fotos de salas e maçãs.

Vi uma enquete no twitter que perguntava no que você acredita? e as opções eram deus, natureza, universo e nada. Entre estas eu responderia nada, claro. Mas bem lá no fundo ainda acredito é na rapaziada. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá – apesar das evidências todas me atropelando. Hoje vimos as primeiras imagens do telescópio James Webb. O engenho humano sempre me encanta. Que alguém, que é gente, tenha pintado a capela sistina, tenha esculpido Davi, tenha feito cálculos para pôr foguetes em órbita, tenha descoberto vacinas e impresso estampas em tecido, tudo isso me comove e arrebata.

De grão em grão

Eu nunca fui boa aluna, especialmente na escola da vida. Cada lugar pelo qual passei só me torna inquieta no que agora estou – e se para um deles voltasse, seria insatisfeita com o que, daqui, não se encontra lá; e se para um novo fosse, sentiria falta daqui e de todos os outros lá(re)s.

Greta Garbo belíssima em Grand Hotel. Gosto muito de histórias que usam boa desculpa para desfilar uma profusão de vidas que só se tocam pelo viés do acaso e que acabam se transformando no processo: trens, hotéis, excursões e acidentes.

Volta às aulas, exausta, rouca e contente com o interesse da turma nova.

Pensando em mudar de banco, mas que preguiça dos procedimentos burocráticos.

Café como os dias, cada vez mais amargos.

Todas as vezes que eu assisto “se meu apartamento falasse” e vejo Jack Lemmon – que é dito como bom cozinheiro no filme – lavando o macarrão cozido e depois soltando umas almôndegas secas em cima eu penso que talvez o conceito de boa comida seja mais relativo do que se imagina. Pelo menos ele joga uma profusão de azeite em cima.

Woody Allen é muito destruidor. A Outra é tão bonito que ecoa em mim por dias.

40 anos torcendo, meu time disputando grandes clássicos, rivais históricos, várias picuinhas, nunca tinha visto uma torcida tão mesquinha como essa do Atlético. Os caras com um timaço, ganhando e tal, mas mentalidade de dor de cotovelo e incapazes de ver as limitações administrativas do clube. Vou dar um desconto apenas porque na era das redes sociais a voz dos imbecis é ampliada né.

Juntar moedinhas, se não vou mais ser feliz, pelo menos vou passar o mês comprando tomates na feira em Florença.

Porque eu quis

Tem uma coisa que eu gosto muito que é me perguntar: porque tal coisa? E responder (para mim mesma ou para outros que acaso perguntem): porque eu quis. Sem agressividade ou arrogância, um porque eu quis tranquilo, de boas. Alguns associam a liberdade de dizer porque eu quis com o avanço da idade. Outros relacionam com a quantidade de dinheiro que a pessoa tem, teve e sabe que terá. Outros pensam que se deve a muitos e bons anos de análise. Eu mesma acho que depende. Depende, primeiro, do assunto/área da vida. Tem situação em que o meu porque eu quis vem leve e solto desde quando eu era jovem e endividada. Tem temas em que meu porque eu quis ainda não sai ou sai temeroso, estrangulado, duvidando de si mesmo, da minha vontade, de mim, mesmo agora que estou rodada tanto na vida como no divã e – comparativamente – rykaahhh.

Na cozinha, por exemplo, o porque eu quis foi ganhando espaço quanto mais eu cozinho só pra mim. Meu molho para guioza é um porque eu quis clássico: tem shoyu, mel, cebolinha, gergelim e umas gotas de limão siciliano ou laranja. Porque? Porque eu quis.

Acho que a comida mais foda-se que eu tenho feito é batata cozida com azeite e alho laminado. Quando eu estou bem e quando eu estou mal, mas especialmente quando eu estou com fome e muita preguiça de cozinhar, que vengan las patatas. Claro que os três ingredientes nem sempre precisam ficar a sós. Hoje tinha, também, cebolinha picada, queijos variados – que estavam fazendo hora extra na geladeira – em cubinhos, e linguiça calabresa cortada miudinha, fervida e depois tostada. Eu não estou em paz com o mundo, eu não estou em paz com a minha vida, eu não estou em paz com as pessoas, eu não estou em paz comigo mesma, mas estou em paz com as batatas.

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Os caminhos acabam. Alguns sonhos também. Amor, amor não, parece que vira raiva, rima, essas coisas. As coisas, essas sim, as coisas se acabam. Manteiga. Goma. Esponja. Papel toalha. Papel filme. Papel de carta. Até papel de besta. Na escrivaninha, papel em branco. Na tv, times alheios. Dias quentes. Noites escuras. Gente que me ama. Xingamentos cúmplices, #forarenato. Shampoo de canela. Uma japonesa nova tão bonitinha. E outros gastos extras. Planos e sorrisos. Arrumar a cozinha, a mala, a alma. Cary Grant dançando. Chico Buarque em contos e um tratamento tão generoso que a Companhia das Letras deu para o material. Domingo é pra dormir macia e cheirosa. Em limpos lençóis. Uma fantasia. Uma alegria. Uma distância. Manter o passo e o riso. Aceitar o tempo da estrada. E que a fortuna nos conduza.

Imaginar felicidades

Eu tenho sentido saudades de tudo. Especialmente de imaginar felicidades.

Lua que míngua, pequenos planos, longas cartas engavetadas, gastos inesperados, imagens de Lisboa, jogos de futebol, queijo errado, o pão certo, uma depilação esquisita, susto, café, café, café, sua foto me doendo, a vontade do livro que é caro demais, uma encomenda que não chega, espera, espera, espera, um tempo com Odisseu, desilusão, o universo já não me aguenta mais, a sensação de morrer em um mundo muito pior do que o que vivi, café, café, pão com patê de ricota e azeitona preta, Fellini, Éris como deusa do mês, uma dúzia de garrafas de água vazias ao redor da cama, coisas por fazer, atos de #forabolsonaro pelo país, uma resposta atravessada, o samba da Mangueira para 2022, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia nessa pandemia, se não eu, quero nem saber quem vai fazer você feliz, opa, errei a letra e acertei o sentir, café, café, feijão e banana, escolher um conto de Capote, empilhar cadernos e baralhos, os suspiros, os muitos suspiros, a planilha de custos, Olhos nos olhos, a morte de Sebastião Tapajós, Edward Hopper pintando meus dias, vento pela porta da varanda, a pele macia, Bethania cantando à capela, uma história emperrada, a sensação incessante de pisar em areia movediça.

outono

Outono. Talvez seja a estação que mais me cativou quando a gente as tem bem marcadinhas. No outono tudo é maduro. Há cor, cheiro e disposição. No outono o morno das castanhas. As folhas vermelhas. O vento eriçando pelos e mamilos. O mundo perde o pudor. As árvores se põem nuas. No outono já não há promessas, a vida é em entregas. O outono é luxúria. E aconchego, também. Fumacinha na tigela e ainda azul nos dias. Uma manta colorida. E memória. Outono é outra luz. E terra. Pés descalços e encontro. Dourado à beira da estrada. Outono é essa vontade de chegar, encolher no abraço e aceitar o bom do agora.  Neste momento é outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, pode-se cantarolar ao percorrer, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam desnudas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.

Tem conversas que eu não consigo mais ter e coisas que eu não quero explicar. Se alguém não entende, por exemplo, porque ter apenas cardápios em Qrcoisa não é desejável, eu dou de ombros e sigo andando. Tô cansada demais. Eu tenho bússola, descobre aí a sua, baby.

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Escrevi uma Garrafinha esses dias sobre dias banais e me reinventar para viver os dias que chegam. Dá pra ler neste link: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu/letters/newscoisa-66-banal e se quiser assinar e receber as Garrafinahs direto no seu email, é aqui: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

Ossada Perpétua

Ontem foi aniversário do Verissimo e eu queria comemorar com você. Tem disco novo com músicas do Aldir Blanc, penso logo em mandar o link. Meu time empatou, o seu venceu, eu poderia comentar isso. Vi episódios do Chico & Caetano, mais um tópico. Guardo mais um pdf que você gostaria de ler, arquivo uma e outra imagem que faria você rir, salvo pequenas tiradas, registros do cotidiano, memórias e insights, tudo que poderia lhe interessar. Vou montando uma ossada perpétua desse amor.

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É difícil demais aceitar que o trem já partiu. Reconhecer o não. Especialmente quando a pessoa é displicente ou receosa demais de dizê-lo assim, bem soletradinho: ene-a-o-til. Eu nunca entendi muito a necessidade de devolver presentes, fechar gestalts ou sei lá o nome que se queira dar pra passar a régua e zerar a conta. Provavelmente porque eram minhas as costas que estavam sendo vistas. Ainda não decidi se mantenho esse Amarcord na estante ou faço um pacote com a carta de despedida, a proposta que esbocei tão bonitinha e se tornou obsoleta e mais dois ou três presentes que planejei enviar e agora são excrescências. Queria respirar fundo, empinar o peito e desculpar-me, tal como a Audrey, de que não poderei ficar para lavar os pratos. Vou ensaiando.

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Vaidade é um negócio que me surpreende não porque me falta, mas porque me sobra. Vejo pessoas deixando de usar máscara, usando ineficientes máscaras de tecido com renda ou laços, comprando caras máscaras coloridas pra combinar com a roupa, etc. JAMAIS me passaria pela cabeça que usar qualquer tipo de máscara segura me deixaria menos linda do que reconhecidamente me sinto e sou.

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Semana que vem eu pretendo ir à praia. E na seguinte vou a Fortaleza e, sim, comprarei peixe no mercado. Por um tempo pensei que o segredo era recuperar todos os meus pequenos pedaços e descobrir como reencaixá-los. Eu, quebra-cabeça. Quando muito, providenciar ouro e fazer kintsugi do coração. Bobinha. Olhando os cacos todos no chão, bordas ásperas, algumas pontas esfareladas, percebi que o caminho é uma espécie de bricolagem. Como a que faz a irmã que quebra toda a porcelana que a outra colecionava e, depois, transforma aquela devastação em beleza, cobrindo uma parede com os cacos, no filme Colcha de Retalhos. Reinventar-me, outra, com o que já fui e mais as belezas e toda gentileza que puder misturar pra fazer o grude.

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Eu não sou muito de reclamar da temperatura, calor ou frio, porque não sou muito de reparar nela. Mas, né, até eu tenho limite. Aqui fez um calor na semana que passou que me fez chorar. Não que eu tenha precisado de muito motivo pra chorar nestes últimos dias. Ou meses. Ou anos, se pensarmos bem, mas divago. Fez um calor desgraçado. Sem brisa. Abafado. Como se o calor fosse um elefante suado sentado no meu peito. Além da agonia, uma saudade. Senti falta da ignorância, de não saber outros lugares e seus termômetros. Leio as pessoas falando em primavera (coerentemente), mas outubro, pra mim, será sempre outono, castanhas assadas, folhas vermelhas, vinhos mais encorpados. No antes, eu aqui eu só tinha a estação praia, aprendi os demais ritmos com sotaque luso e, suspeito, será sempre assim que lembrarei. Ela, a Fal, contou que canta em voz alta. Eu nunca falo em voz alta e raramente canto, o que me fez pensar que as palavras que me habitam tem mais discernimento do que eu mesma. Em outra editoria, deixo registrado que gosto das minhas rugas – e também das rugas da Fal. Disse o Caio: “queria tanto que alguém me amasse pelo que escrevi”. Por muito tempo essa frase me acompanhou como uma espécie de farol meio inconsciente, presente sempre que eu começava a digitar. Um alguém é qualquer um e, eventualmente, até mesmo uma ausência. Tinha e não tinha um leitor ideal(izado) #Schrödingerfeelings. Mas a maré enche e seca e deixa coisas na areia além de conchas ocas. Alguém agora tem endereço, barba e tristeza no olhar. Tem sotaque e blusas de botão. Boletos. Tem até rima e rival. E eu, modesta, um pouco tímida, nem fico querendo ser amada pelo que escrevi, fico cantarolando como uma atrasada Mutante “eu só quero que ele me queira” pelo que escrevi ou por qualquer outro motivo trivial, sei lá, porque meus dedos médios tem uma curvinha charmosa.

Ontem revi O Poderoso Chefão pela zilionésima vez e é sempre um espanto. O filme é todo, todo, todo incrível, mas os primeiros vinte e seis minutos, sei nem o que diga de tão bem feitos.

Um amor geralmente é uma pergunta. Uma inquietação. Aqui chegando logo vi que sabia tão pouco, ou mesmo nada.  E na mesma medida que chegava o encanto, chegava a vontade de conhecer. Essa suposição ingênua e recorrente de que, ao desvendar o objeto de amor, o teremos mais nosso. Quando muito, acontece de sermos mais dele.

O funeral de Heitor

“Quero muito fogo
Pra toda essa palha”

A ira de Aquiles termina com a morte de Heitor. E não só, a Ilíada também. Homero nem precisa contar se Tróia caiu ou como. Cairia sem Heitor, sabia-se. Heitor que morreu porque os deuses determinaram e por nenhum outro motivo. Heitor que reconheceu o que os deuses queriam e tratou de fazê-la inesquecível. Heitor que pôde cruzar olhar com seu algoz e repreendê-lo. Heitor, o nobre. Heitor, valente não porque queria ou gostava, mas porque era preciso. Gentil, é como sinto Heitor. Quando ele tira o elmo, caem todas as minhas defesas. Gosto muito de muitos, mas tenho um xodó especial por Heitor que, suspeito, vem do mesmo lugar e tem a mesma natureza do que me faz apreciar Rollo e Boromir. Heitor que recebe as glórias e as honras, mas nunca perde as dúvidas, os medos, a perspectiva. Heitor que valoriza o simples, a vida, o riso do filho, o toque da mulher. Heitor era amado. Pela esposa, pelo filho, pelo povo. Não temido. Amado. Porque era um grande guerreiro, claro, e admirado por isso, mas não apenas. Não ser um apenas. Lembrei dele, ao pensar em Heitor, e não de você. Mais um passo. Um dia termino de ir embora. Com sorte, nesta vida. Andei lotando ela, esta vida, de compromissos pesados e dos quais já não posso me esquivar. Pra equilibrar estou fazendo o quê? Isso mesmo, me comprometendo com mais outro tanto de coisas, mas dessa vez coisas das quais eu gosto, coisas que queria fazer e não fazia porque achava que não dava. Agora, na rádio cabeça, a musiquinha “vai ter que dar, vai ter que dar”. Um clube de leitura para reencontrar a Odisseia. Outro grupinho semanal para ler e discutir contos. A aulinha de cinema. E a aventura iniciada hoje. Eu gostaria de ser a pessoa que diz: pode me empurrar do penhasco etc sei voar tal e coisa. Mas não sou assim. Não vou usar o caderno que veio de Paris. Pelo menos mandei telegrama. É que não aguento mais o Universo falando para eu desapegar e ninguém me dizendo como. Resolvi passar 3 dias sem gastar dinheiro de jeito nenhum. Mas só começa amanhã que hoje eu vou pedir jantar pois, após terem erguido o túmulo, voltaram os troianos ao palácio de Príamo e, seguindo os ritos, festejaram com um banquete. E foi assim o funeral de Heitor, o domador de cavalos, a lembrança delicada de que nem todos os finais podem ser felizes, mas o meu (ou o desse amor, que neste momento me parece a mesma coisa), posso fazê-lo nobre.

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Imagem meramente ilustrativa

Tanta pose e palavra bonita para, no fim da noite, eu chorar como sempre, soluçar e escorrer nariz, enrodilhada na saudade de uma madrugada contigo, desejando mandar mensagem, mandar presente, mandar um avião com faixa pra frente da sua casa, arrancar o coração com a mão e depositar na sua caixa de correio.

Peixinha

Eu tinha um pé atrás com o lance dos signos. Provavelmente por vaidade. Em todo canto encontrava a ideia de que pisciano é trouxa e, olha, de maneira geral eu tenho a bunda virada pra lua e as pessoas mais cuidam de mim do que tentam me enganar de alguma forma. Outros estereótipos nos quais eu não me encaixava muito: gente sofredora e que se apaixona fácil. Quem me conhece sabe da minha imensa vocação para a alegria e, quanto à paixão, bom, eu realmente nunca nem tinha me apaixonado, acho. Não nos moldes mais comumente descritos na literatura, registrados em cinematecas e compartilhados em fuxicos de amigas.

Mas estes dias tenho vivido a “piscianidade” (existe essa palavra? Em algum multiverso?) de uma forma bem explícita até pra desligados como eu (piscadinha pro clichê). Olha aí o desenhinho:

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Um peixe nadando pra cima, o outro peixe ignorando esse otimismo e nadando pra baixo. Um quer o mundo e os encontros, o outro busca a solidão e o ensimesmamento. Eu quero o claro, eu sonho o breu. Persigo a superfície, me afundo na região abissal. Falo tudo pra não dizer nada. Todos os dias me convenço que é hora de ir, que já não há mais espaço pra você cá dentro, que a história engasgou, não rende, aquele vislumbre de magia está perdido. Segue, luciana. Vai pra cima, nada em outros cardumes, tá vendo aquele dançante dourado? É o sol fazendo cócegas no emciminha da água. Uma beleza, bora lá. Todas as noites eu me impregno da vontade de você e me convenço de que não é possível deixar pra trás sem esperar até o possível, só pra ver, que mal faz, alimenta mais um pouco, entrega mais uma coisinha, tá quase lá, vai embora sem nem saber o gosto? A curiosidade segura e esfrego escamas no frio entre rochas do abismo.

A Fal disse, em seu diarinho*, que a vida anda. Eu acredito que sim. Eu sei que sim. A minha mesma já seguiu de momentos tão mais cinematográficos. Andou. Andei. Estou aqui, não estou? “Pessoas danificadas/machucadas/quebradas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. Sobrevivi. E mais. Eu só não lembro direito o como. Mas vou descobrir, claro. Em algum momento de um futuro que está sempre distante demais para o peixinho que sobe e ameaçadoramente próximo para o peixinho que procura o reino de Poseidon ou mesmo Atlântida. É que o sorriso chega antes da alegria.

Antes do futuro que virá, virá aquele momento do grande gesto. Eu, hoje, entendo porque alguns moços ficam confusos e até magoados comigo. Geralmente faço o solene e grandioso ato de amor verdadeiro, forte e profundo, naquele momento exatamente anterior à minha partida. Cabo de guerra entre peixinhos. Ficar, ficar, partir, partir, ficar, partir.

Minto pra mim, pra vocês, pra eles? Faço o grande ato de amor verdadeiro, forte e profundo quando já parti, mas reluto em aceitar? Não tenho certeza se não tem sido isso essa sucessão de entregas recentes. Ao ladinho do sempre tua tem aquela que talvez esteja abrindo as janelas, arejando espaços, batendo o tapete, espanando os cantos, trocando a roupa das almofadas. A vantagem do peito vazio é a acústica.

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Raramente te dá presentes e eles são esquisitos. Mas estranhamente pertinentes.

(o print é puro suco de narcisismo, né? Não tenho vergonha na cara)

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O que vocês preferem: narrar uma vida inventada ou inventar uma vida a ser vivida?

Gosto demais de La la land. Revendo uma conversa antiga, reclamam que não tem química entre o casal protagonista. E eu respondi que o filme não deveria contar com um par certo porque a vida não é sobre as pessoas encontrarem pessoas certas. É sobre a gente pensar que é. Reli essa minha resposta e doeu como jogar água oxigenada no joelho ralado. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

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*Se você quiser receber o Diarinho da Fal, diariamente no seu zap, sem preocupação (não tem interação, só a Fal posta) é só apertar neste link: https://chat.whatsapp.com/BcANA1N35q6Libhh8Yz8lW

Jabá e outras sugestões

Acho que todo mundo conhece aquela piada:

Chega de falar de mim, já fizemos muito isso. Vamos falar de você. O que você acha de mim?

Mockups Design

Pois bem, amiguinhos, esse é o espírito da live da próxima quinta-feira, 19/08, às 20:30hs, sobre (ainda e de novo) o livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Anota aí na agenda, daqui a uma semana exatinho. Teremos convidados e eu prometo que, dessa vez, falarei bem pouco (e vou aproveitar as pessoas falando de mim ou, mais exatamente, do meu livro).

Vamos ouvir o João Carlos Ribeiro Jr. discutir o conto “Te encontro, Maninha” e perguntar pro Fernando sobre como foi escrever, em parceria, os contos “Foda-se, Plutão” e “Companheiros, blues, cafés, tabacos, drinques: fortes, amargos e lentos”. Teremos, também, claro, a participação luxuosa das Drops Editora, recebendo em seu perfil esse conversê todo. E porque alguém deveria se interessar e assistir? Primeiro: porque eles são lindinhos, vocês não acham?

Mas se isso não for motivo suficiente, confiem na minha palavra de que os dois são um excelente papo e entendem muito, muito mesmo, desse negócio de ler e escrever. Além disso, dessa vez estarei mais livre para acompanhar os comentários, anotar as questões e incluir mais gente no papo. Você já leu o livro, já conhece os moços, já não aguenta mais me ver? Tudo bem, divulga pros coleguinhas. Estou pensando até em sortear livros (não necessariamente o Éter). #VemGente

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Já que estamos falando de instagram, queria sugerir que vocês sigam esses perfis que, garanto, fazem daquela rede um lugar bem melhor pra se estar do que ele mesmo se pretende ser:

@fiftinah: um perfil que é, concomitantemente, instigante, informativo, divertido, que produz conteúdo sobre e para mulheres 45+. Toda sexta-feira, 19hs, tem live. A anfitriã e dona da porra toda é a queridíssima Tina Lopes. Amanhã, 13/08, o tema é “Mulheres à beira de um ataque de burnout” com Carla Zuquetto, terapeuta analítico-comportamental, que atende adolescentes e adultos; Renata Crispim, psicanalista, comunicadora e professora universitária e Líívia Ferreira, que trabalha com clínica psicanalítica e é doutoranda em Psicologia, com uma pesquisa em corpo, gênero e feminino.

@dropseditora: perfil que vocês devem acompanhar, além da divulgação dos livros incríveis editados pela Fal e Suzi, encontramos sugestões de leituras, divulgação de material sobre literatura, informação de forma lúdica. Aproveita e já fica sabendo que vai ter reimpressão “Como ensinar um idiota a dançar” – coletânea de Drops – e “Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem” – coletânea de crônicas – que são dois livros no mesmo volume.

@chamaterapêutica: perfil de loja online, situada em Fortaleza-Ce, que comercializa produtos terapêuticos e fitoterápicos.

@maesemhomeoffice2021: perfil do projeto de extensão da Universidade Federal Rural do Semiárido que ouviu e sistematizou o discurso de mulheres, mães, trabalhadoras, que tiveram que reorganizar a vida ao atravessar a pandemia da covid19.

@narrativadefeminicidios: perfil do livro das jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, que analisa o discurso sobre feminicídios e como esse discurso sustenta a violência contra a mulher.

@cafebelgrado: gosta de basquete? Gosta de NBA? Esse é o perfil pra você.

@edisca: segue o perfil da Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente para acompanhar as ações inspiradoras e assistir trechos de espetáculos de balé tão, tão lindos que o jeito é chorar.

@caju.fred: perfil do poeta Fred Caju que também é editor da Castanha Mecânica. E vem com a beleza pernambucana.

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