Nós

Meu analista me perguntou se eu não sinto medo. Porque não falo disso. Não falo da minha morte, de adoecer, nada assim. Do que falo, o tempo todo, é de tristeza. Sinto a tristeza travando a garganta. Apertando meus pulmões. Ocupando peito, estômago, revirando intestino, acelerando coração. Sinto a tristeza escorrer pelos olhos. Sinto a tristeza enrijecendo nos músculos. Doendo nos ossos. Sinto a tristeza lancinante, que me faz encolher e chorar. Sinto a tristeza constante, quase um ruído de fundo. Sinto a tristeza deslizando na língua. Sinto a tristeza como odor no meu suor. Sinto a tristeza como pequeno desconforto diário, um sapato um tantinho apertado. E sinto a tristeza avassaladora, como uma inundação invadindo casa, estragando móveis, arrastando objetos e destruindo memórias. Sinto a tristeza como intrusa inconveniente, sinto a tristeza como companheira. Sinto tristeza como sombra, sinto a tristeza como reflexo. Sinto a tristeza como uma estranha e sinto a tristeza como íntima. Sinto a tristeza, sinto tristeza, sinto-me triste. Misturei-me a ela de tal forma que dizer a tristeza é dizer de mim. E isso me apavora. Esse é o medo do qual devo falar, talvez.

Comprei goiaba, kiwi, tangerina, abacate, manga. Preciso redescobrir sabor nos dias. Ou fazer uma sangria insólita.

O bom do dizer-se é que não se acaba.
A dor do dizer-se, também.

Quando eu estou muito, muito, muito triste, eu evito as coisas que eu sei que me fazem bem. Não leio Verissimo, não converso com amigos, não assisto Tudo bem no ano que vem. Eu não entendia o porquê, mas agora eu sei: tenho medo de que não funcionem, que a tristeza seja maior que eles. Tenho medo de perdê-los. 

Tem a tristeza e tem a dor. Todo dia, o dia dói muito.

Vai ter Mostra Krzysztof Kieslowski a partir do meio dia, no Telecine Cult, e os deuses sabem que vou mergulhar nela, só vou parar pra ver o Paulinho da Viola às 22hs (vou perder A Igualdade é Branca) e continuar com a fraternidade (que infelizmente é o último).

“Éramos nós”. 

Projeto meio gata: me enroscar no teu colo e ronronar.

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Fragmentos da Infinitena

Estava passeando pelo meu instagram – a única pessoa que eu stalkeio sou eu mesma – e percebi como eu comia bem, até, sei lá, o ano passado. Uns pratos coloridos, com combinações de sabores, processos elaborados coisas assim. Não apenas o conteúdo (continuo comendo espinafre, cenoura, peixe, abobrinha, etc) mas o preparo, o cuidado, a apresentação. Continuo me amando (eu sou uma pessoa bem amável) mas tenho que caprichar mais na forma de demonstrar.

dance vinho

Uma atividade que me tranquiliza: alguém afiando o gume da espada.

O conto dez de dezembro, do George Saunders, é um negócio que fica mais e mais bonito em mim, quanto mais lembro dele. É meio mágico quando a literatura pega a gente assim.

O golpe, a eleição do presidente genocida e a pandemia me fizeram uma pessoa bem mais ranzinza. E depois que eu pego gastura…

Vinho, livros, máscaras, eu colaboro com a movimentação da economia.

Já cheguei na trigésima primeira newscoisa: Garrafinhas da Lu, se quiser assinar é só vir aqui.

Sinto falta da rua. Dos sons das conversas aleatórias nas calçadas. Dos cheiros no mercado do peixe. Das cores das roupas das pessoas, dos esbarrões acidentais, de comer bobagem nas lanchonetes de esquina. Até de me irritar em filas. Sinto falta vida num mundo meio desconfortável, mas tão rico e diverso.

Eu não sei viver esse luto. Mandei mensagem, chorei, confortei, mas acreditar, acreditar mesmo, que ele já não está, eu ainda não. Talvez em um Natal futuro, quando alguém disser: “podemos começar o amigo secreto, todo mundo já chegou” e o tio não estiver lá. Talvez aí. Talvez.

Passei muitos anos em análise e não lembro de ter chorado em nenhuma sessão. Voltei ao divã e, dessa vez, não teve uma sessão sequer que eu não tenha começado chorando.

É tanta muriçoca que eu tenho medo de não sobrar sangue pros exames.

Confesso que eu fico muito impressionada com a displicência com que pessoas não-negacionistas resolveram viver a vida nestes últimos tempos.

Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

Eu não entendo. Mas eu não preciso entender. Preciso me colocar no colo, me embalar, afagar minhas costas, secar minhas lágrimas, servir uma canja, velar meu sono. E sobreviver.

amiga nao minta

Sueli ou as paixonites nossas de cada dia

Paixonite é uma coisa séria, tinha escrito um negócio imenso, com cara de blog, cheiro de blog, jeito de blog, mas não aguentei o enlevo da newscoisa e mandei por lá mesmo (mas deixei salvo no rascunho daqui, porque a terra é redonda, capota e sei lá quanto tempo dura essa brasa).

Uma verdade intolerável: Não importa se os finais são felizes, mas se são bem roteirizados.

A próxima semana será louca. As próximas, talvez. Eu me sinto fazendo vários nadas e mesmo assim não estou cabendo nem nas horas do dia e me meti a lecionar disciplina com 60hs em 6 semanas. Como diria no Ceará: queeeeima, quengaral.

Diz o Darín que depois da pandemia vai procurar sua namorada brasileira e eu já estou mudando meu nome para Sueli.

Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam. Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as pessoas. No ônibus circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, espiando pessoas entrarem e saírem do ônibus nos variados bairros da cidade, seus sorrisos e ansiedades e pesos carregados e pares e afetos e cansaços. Ou as horas passadas nos bancos das praças, a escolha das profissões, o turismo errante. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo viver sem roteiro. Ou sem trilha sonora. Baixinho, escuto o vento assoviando uma melodia do Morricone. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo, ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo outro café e olho, olho, olho. Quanto mais vejo gente, mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados, tensos, animados, atrasados, doloridos, trotando no peito. Ser gente é um aprendizado. Que me inquieta. Não sei mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem um repentino sentido. Viver é esse desfile de vidas das quais quase tudo ignoramos, na rua os transeuntes apenas surgem e desaparecem mais rápido. No dia a dia, alguns já estavam quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós, o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Mais um cigarro, outro café ou um licor? Lembro o que esqueci: o salto alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento, impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. Uma taça de vinho e a conta. Há de se estar sempre pronta pra partir. Na notinha que o garçom, figurante elegante, traz: café, café café, nem conto quantos. Deixo o dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Devia saber qual meu melhor ângulo, mas de que adiantaria, também não sei onde bate a luz. Respiro e lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando, ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de quem pareço intuir alguma coisa, mas é breve e logo volta a seer mistério, uma mulher de ar confuso, olhos tristes, roupas desalinhadas. E sapatilha vermelha. Vitrine.

Ontem aquele homem asqueroso arrancou as cruzes da areia na manifestação silenciosa do Rio de Paz. Hoje um grupo invadiu hospital, chutou portas nas alas de pacientes com Covid e derrubou computadores. Eu não tenho mais condição de lidar com este Brasil.

Eu pensava que nunca tinha te dito um eu te amo. Acho que não disse mesmo, mas escrevi. Encontrei entre cartas antigas (posso chamar email velho assim?) e me espantei de ter sido essa coragem.

Instagram é um perigo para meu coração bandoleiro: dois, três dias seguindo alguém desconhecido e eu já me sinto íntima, mandando coraçãozinho.

Tenho tirado mais selfies. Nem sempre ficam boas. Ontem tirei, sem querer, fotos das minhas pernas. Ficaram ótimas.

A gente vai aprendendo a morrer. A gente, como você, sou eu, sempre. Onde diz sempre, quero dizer, quando for aqui. Confuso, não é? Ando me sentindo assim. Você também? (neste caso, excepcionalmente, você não sou eu, tese do Nerson da Capitinga). Mas, dizia eu, vou aprendendo a morrer, que é uma outra forma de dizer seguir em frente. Ou apenas seguir, sem muito senso de direção.

Ontem foram mimosas e caponata e patê de salaminho e eu quase truquei o Tom Jobim e acreditei que era possível ser feliz sozinha (e é, tipo morar só, viver só, ser uma só – que é o que todos somos. Mas também é preciso o faz de conta dos encontros, as ilusões de encaixe, o sorriso bobo quando você disse que a gente se entendia).

De tudo que foi na newscoisa, mantenho duas verdades aqui:

É muito gentil da sua parte me emprestar roupa e deixar entrar no salão iluminado, mas meu corpo é grande demais, minha voz é falha demais, eu vim de nenhum lugar, não tenho horizonte, não trago ouro nem incenso nem mirra e acabo esbarrando na mesa, derrubando alguma coisa, derramando o vinho na roupa, cruzando a perna e revelando o furo na sola do sapato, não adianta o disfarce nem os enfeites, meu pé não é do tamanho do seu.

Quem só vem por aqui e quer saber da newscoisa: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

Morfina

BEIJO AMERICANO CAIXA COM 15 MUDAS * - Tirol Plantas

 

Meu cabelo está com uma aparência estranha, mas muito macio.

Tem essa comidinha, quente, simples, razoavelmente barata, que aprendi com minha mãe e que fazia sempre pro meu filho. Linguiça com batata ao molho e arroz. Fiz um panelão imenso dessa comida-abraço.

Tenho que descer, ligar o carro, aguar as plantas, colocar o lixo pra fora, lavar roupa. E estou sem ânimo até pra vestir alguma coisa (a falta de ânimo pra colocar roupa, honestamente, não tem muita relação com o momento atual, sempre gostei de ficar pelada mesmo, o isolamento só facilitou).

Comprar um oxímetro? Um novo nebulizador?

Eu continuo dizendo que não gosto de podcast, mas já escuto três.

Ontem reli O Amante. Tinha esquecido como Marguerite Duras escreve o que preciso como preciso.

Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, uma pele sulcada. Não é caído como certos rostos de feições finas, os contornos se mantiveram, mas sua matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído

Olhei no espelho e percebi que nunca mais conseguiria não me ver como eu não me via, antes. A pandemia me deu um corpo e um rosto. Devastados.

Mais de 5000 mortos. Eu não tenho nenhuma condição de lidar com essa informação. Menos ainda pra ler os comentários de gente burra que se acha muito esperta comparando com o genocídio negro/indígena.

Quanto mais as receitas cada vez mais elaboradas na minha timeline mais aqui em casa a tendência é tapioca com ovo – até acabar a goma, pelo menos.

Tem essa amiga querida e ela me perguntou como eu estou. E quando ela perguntou, eu, que já não era ninguém, difusa, diluída nos dias que são apenas espera e angústia, me fiz alguém pra responder. É inesperado o que pode nos salvar de nós mesmos. Fina flor, um beijo.

Se não perdi as contas, quarenta e cinco dias. Posso dizer que estou tendo vários momentos Iago (bem incomum porque geralmente dou pouca atenção à vida alheia). Por exemplo, uma certa inveja de quem tem preocupações estéticas relacionadas ao fim da quarentena. Eu me preocupo apenas com a) quem estará vivo e b) se eu não for uma das pessoas vivas, que tenha sido sem muita dor.

Era apenas isso que eu devia escrever, mas disfarço entre variados parágrafos: eu queria morfina, faz favor.

Uma saudade do mar. E de guioza, não queria morrer sem voltar a comer guioza num balcão na Liberdade.

A vida, eu sei (e a morte, seu outro nome), não é sobre o que eu espero.

Queria escrever uma coisa bonita. Como um canteiro de marias-sem-vergonha. Um pudim recém-desenformado. Uma gaitada no começo da noite. Um lenço de seda colorido. Uma melodia do Gil. Pessoas de mãos dadas. Uma reprodução de um quadro de Renoir. Uma floração de ipês. O barulhinho do eléctrico 28. Uma foto sua, de manhã, antes de sair da cama. Uma memória antiga de um relacionamento que foi bom até já não ser. O desenho do mar quando se desfaz em renda, na areia; seu sussurro, a maresia, o gosto de sal na ponta da língua que toca a minha. Queria escrever uma coisa bonita, algo simples, evidente daquele jeito que espanta porque nos esquecemos do que apenas é, algo que afague, que alente, que faça companhia pra esse doer que se tornou a vida. Queria escrever: um abraço.

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Os moços do Choque de Cultura são uma das poucas coisas que me fazem bem, neste agora.

 

 

 

 

 

 

Pra lá de mês

Eu não me sinto trouxa por estar completando 32 dias sem sair de casa pra nada, nadinha enquanto tem um monte de gente em festas, supermercados, praças, sei lá onde. Sinto-me triste e enfurecida porque sei que grande parte dessas pessoas adoecerão. Que algumas – espero que não muitas – morrerão. Que sobrecarregarão o sistema de saúde e farão adoecer, física e mentalmente, médicos, enfermeiras, auxiliares e tantos outros trabalhadores envolvidos no cuidado. Me sinto triste e enfurecida porque estão colocando em risco tantas outras que gostariam de se isolar mas, por prestarem serviços indispensáveis à sociedade, tornam-se vulneráveis, como garis, coveiros, caixas de supermercado e gente que trabalha na farmácia. Eu não me sinto trouxa de ficar em casa. Me sinto envergonhada, às vezes. Aliviada, muito aliviada. E zangada, sempre.

Hoje eu li que o sistema de saúde do Ceará já está saturado. Hoje o Mandetta (que nem era essas garapas toda) foi substituído por alguém que entende que saúde é mercadoria e cuidar da população é um custo. Internações e mortes em número crescente. Manaus e nosso completo fracasso. Raiva e tristeza, raiva e tristeza, raiva e tristeza.

Saiu uma portaria do MEC prorrogando por mais 30 dias a suspensão das atividades letivas, imagino que a “minha” Universidade vá seguir essa diretriz. Alívio.

Morrem. Morreu Moraes Moreira, morreu Sepúlveda, morreu Rubem, morreu Garcia-Roza. Garcia-Roza, além de um grande romancista, é minha referência bibliográfica de afeto quando lembro da luciana com seus dezesseis famintos anos, primeiro semestre do Curso de Psicologia. Já estou ficando repetitiva, meu mundo acabando, sei lá o que vou continuar fazendo por aqui?

Há pouco tempo escrevi que não sinto inveja da vida de ninguém. Não é bem verdade. Às vezes sinto inveja das vidas das lucianas que eu não fui. Mas quando vem este sentimento eu logo paro e penso: será que eu gostaria delas como eu gosto de mim?

Para não zerar o jogo da quarentena, fiz pão.

Acabou a laranja. Todas chora.

Minha rosa do deserto tá florando loucamente. Ela realmente não gosta de mim.

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Apenas duas mãos

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo

Vigésimo-nono dia.

Eu sinto todas as perdas das pessoas. Pessoas que perderam a esperança. O emprego. A fé. Pessoas que perderam o vôo, a chance, o prazo. Pessoas que perderam a alma. A capacidade de refletir. O bom senso. O senso de autopreservação. Pessoas que perderam o rumo, o prumo, o discernimento. Pessoas que perderam o bico, a merenda escolar, a convivência. Pessoas que perderam a privacidade, a oportunidade, o sossego. Pessoas que perderam o descanso, a proteção, o chão. Pessoas que perderam espaço, poder de decisão, liberdade. Pessoas que perderam a saúde, o ar, a vida. Pessoas que perderam amigos, irmãos, pais, avós, vizinhos, professores, alunos, conhecidos, colegas, amantes, filhos. Pessoas que perderam pessoas. Pessoas que perderam alguém, talvez a si mesmos. Eu sinto tudo mas é impossível sentir como o outro sente o que ele sente então eu sinto sem saber, do meu jeito, de mau jeito, atabalhoadamente.

Quando se perde algo, quando se perde tanto, quando se perde alguém, é um tipo de fim do mundo. É isso, meu mundo tá se acabando.

Eu faço o que posso e posso muito pouco e me pergunto se faço tudo mesmo ou faço apenas o bastante pra sacudir a cabeça e me dar tapinhas condescendentes nas costas. Eu faço o que posso, mando mensagens, faço doações, oriento alunos, fico em casa. E em tudo que faço sinto que não sou o suficiente. Anos de análise me cutucam a dizer que ninguém é. Usualmente me estrutura, me organiza, me consola. Agora, só impede o desespero.

Não é apenas aqui, não é apenas – e isso é imenso e a angústia nem chega a dor conta. Em algum lugar alguém sofre, eu sempre soube, mas há nesse momento presente uma impressão de que. Pois é. Quase.

115 anos do nascimento de Lacan. Quando eu conheci a psicanálise, ele já. Ele já tinha rompido com várias regras que estagnavam o trabalho com o inconsciente, já havia ensinado que a mulher não existe, já havia puxado o tapete das identificações, já havia apresentado os quatro discursos que fazem laço. É de Flaubert a frase “madame bovary sou eu”, mas foi com Lacan que cheguei a um entendimento: o analista é seu estilo. O sujeito, também. Lacan convida a uma assinatura. A análise convoca uma ética. Foi Lacan quem me ensinou que o Eu é um Outro e que o outro são outros, grande e pequeno, objeto pequeno a, o outro do laço social e até o Outro gozo, diferença pura e radical. Assim, a alteridade não se apresenta apenas na outra pessoa, pessoa diversa de mim, diferente, mas como sujeito cindido que sou, a estranheza que habita em mim.

Ainda sobre o Lacan, contei para minha amiga Renata Lins que estava pesquisando uns artigos sobre psicanálise, escrevi na barra de busca: “signo”, “Lacan” e antes de escrever as outras palavras, dei enter sem querer (olha o ato falho) e aí o google me mostrou o mapa astral do Lacan. Ela respondeu: “sabe que nunca vi? vou olhar”. Eu disse: se der, me conta suas impressões e ela explicou o mapa dele, tá nesse link aqui e eu achei sensacional de tão pertinente.

Hoje morreu Moraes Moreira. Quando eu me conheci e à música, ele já. Ouvi dele o canto da alegria e o convite pro bloco do prazer, ele quem instigou a abrir a janela e não perder a barca. Li de alguém: doce e maluco. Rubro-negro, como não. É mais do meu mundo que acaba.

Moraes Moreira - LETRAS.MUS.BR

 

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

 

 

Debutante

15 dias de quarentena, ela já é uma debutante.

Lavar as compras do supermercado, enfiar na água sanitária, borrifar, sei lá o quê, é exaustivo física e emocionalmente.

Conversando sobre o dia a dia, disse pra minha irmã: eu choro toda hora. Ela perguntou porquê. Eu não respondi senão ia chorar. De novo.

Não tinha lambrusco no supermercado online.

Verissimos empilhados na cama.

Xerazade engasgando.

Ganhei um presente maravilhoso da amiga. Em condições normais de temperatura e pressão eu já teria percorrido as 590 páginas. Hoje li dois parágrafos e chorei.

16o dia

Foi toda um infância e adolescência correndo pra farmácias (depois se tornou acessível e comprei meu próprio nebulizador). Era aterrorizante sentir falta de ar. Não há conforto em deitar, não se consegue ficar de pé. Tem que ser um sentado meio de lado e mesmo assim ajuda bem pouco. É doloroso respirar, é impossível não fazê-lo. Não é possível ler, ver tv, conversar, comer. Tudo custa muito esforço. Pode ter uma razão científica, mas eu achava apenas cruel que a hora em que a crise geralmente se acentuava era na madrugada. Se não bastasse a dor física, é tudo muito solitário. No começo eu ainda acordava meus pais ou minha irmã, mas depois de um tempo percebi a inutilidade disso. Então eu só sentava e chorava baixinho (não muito, chorar também piora a crise) e esperava passar, torcendo pra que aquela mão forte apertando meu peito soltasse só um pouquinho, que aquele peso nas costas se tornasse um tantinho mais leve, que não doesse tanto apenas estar ali e encarar a escuridão. Algumas vezes eu tomava longos banhos, inclinada, segurando na parede, a água massageando as costas, o tanto de tempo que aguentasse. Enquanto alguns assobiam Claudinho e Bochecha e seus futebol sem bola, piu-piu sem frajola, mais sofisticadamente cantam Samba em Prelúdio – sou chama sem luz, jardim sem luar, luar sem amor, amor sem se dar – ou são craques em combinações culinárias: presunto e melão, tomate e manjericão, queijo e goiabada,  meu enlace perfeito era Berotec & Atrovent.

E porque estou falando disso? Pelo óbvio mesmo, eu não tenho medo de morrer, mas é assustador pensar na dor. E mais – e principalmente – sofro com todas as mortes sem assistência.

A tentativa de dar sentido a tudo, que é meio próprio de ser humano, às vezes é bem cruel. A pandemia não é instrutiva ou pedagógica, pelamor. É devastadora. O que faremos desta vivência não é óbvio nem linear.

Em Las Vegas fizeram de um estacionamento, “abrigo” para os moradores de rua com marcas para o distanciamento social. Eu não paro de morrer.

Minha irmã teve uma ideia (não vou dizer genial porque seria redundante, as dela sempre são). Todos os dias nos encontramos às 16hs, numa chamada por vídeo, ela, as duas sobrinhas de 8 anos e eu. O objetivo é compartilhar histórias que nós mesmas escrevemos. O tema é determinado de um dia pro outro. É um momento de respiro, estou organizando o dia em função disto. A maior dificuldade, pra mim, é escrever um texto que prenda a atenção das sobrinhas só na leitura. Hoje li uma salada de Feitiço de Áquila, Bela adormecida, Shrek e Aladdin.

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Vários nadas

Ontem fui dormir duas da madrugada, mais ou menos. Coloquei o despertador pra 8:10hs. Porém 7:50hs e eu já varri e passei o pano no quarto, limpei o banheiro, recolhi o lixo da casa e levei pros baldes do condomínio, guardei lençóis e toalhas lavados, troquei a roupa de cama, coloquei roupa na máquina, tomei banho lavando o cabelo e tudo. O problema de acordar cedo e dormir tarde é que se fica muito tempo sofrendo.

Depois, fui ler. Obrigada, Lisa Gardner, por um bom par de horas de desligamento.

13hs e eu não comi nada. Bebi 3 garrafinhas de 300 ml de água.

Tive uma longa conversa (pros nossos padrões) com o filhote. Ele está se comportando super bem, em recolhimento total. Mesmo assim a vontade que tenho é amarrar todos eles, filho, pais, parentes, guardar numa caixinha e só soltar quando o risco passar.

Aleatoriamente eu paro e choro. Tento não me incomodar com isso, é como sentir fome ou sede ou sono, sinto vontade de chorar.

Dois queijos-quente e uma xícara de café com leite. Na editoria putamerda o segundo pacote de pão de forma estragou.

“eu já estou totalmente na sua”. tem gente que é muito fofa.

Um montão de nada. Nem um cochilo na rede rolou.

Notícias, quase todas ruins. Um lindo texto da amiga lá no outro blog: Duas historinhas em tempos difíceis.

19hs e fui colocar carneiro na panela de pressão. Infelizmente acabou o colorau. Tempera com limão, sal, pimenta e páprica. Picadinho: pimentão, cebola roxa, cebola branca. Vou fazer cuscuz pra acompanhar? Vou fazer cuscuz pra acompanhar.

“E se aquele abraço crescesse”. Engraçado como tem frase que marca a gente.

Vejo as fotinhas das “festas-virtuais”, salinha de bate papo e acho incrível que as pessoas tenham o que dizer.

Eu nunca poderia participar do BBB porque não pode levar livro.

Visitinha da irmã (pode, é vizinha de quarentena e nós nem nos abraçamos nem nada).

Para a noite: Lisa Gardner ou Blake Pierce? #VivendoNasNovelasPoliciais

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07. E contando.

Dia 07 do distanciamento/isolamento social.

Querido diário, hoje eu escovei os dentes, penteei o cabelo e tomei banho, não uma, não duas, não as três vezes que eram a média diária, mas umas duas ou três vezes três. Não, diário, não por higiene exacerbada em tempos de pandemia mas como entretenimento. Como não consigo estudar, não consigo trabalhar, não termino nem um episódio curto de série, em certos momentos ou dias não estou conseguindo nem cozinhar algo além de mexer um ovo e fazer duas torradas, então coisas como tomar banho, um banho demorado, lavando o cabelo e esfregando bem entre os dedos do pé, se torna uma efetiva forma de obrigar o tempo a passar. Chega dia, acaba dia pra ver se já chega o dia em que já não haverá espera.

Outros momentos há, claro, que eu quero que o tempo passe devagar. Que pare. Para que não cheguem mais dores, mais perdas, mais mortes, mais corpos.

Em casa, de quarentena:

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Quando você vinha com a cana eu estava voltando com a rapadura. Agora, porém, o engenho está parado.

Status: revirando cinzas atrás de alguma brasa.

Saber que os dias continuam a passar apenas porque lá fora foi noite, já se fez dia, novamente noite e já amanhecia outra vez.

Consegui ver um filme. Um “desenho animado”, como se dizia antigamente. Aliás, rever. Tenho percebido isso, tem sido mais fácil me concentrar no que já conheço, seja filme, seja livro.

Comecei o revezamento dos ventiladores. um pro dia, outro pra noite e torcer pra nenhum queimar. Tem ar condicionado no meu quarto mas eu estou evitando ligar porque tenho medo da conta de energia. Eu tô bem preocupada com esse negócio de grana.

Sobre canções, pinturas, histórias, testamentos e um rosto caroçudo

Dia 06 do distanciamento/isolamento social.

Hoje eu: chorei. E fiz tapioca. Assisti um filme inspirador sobre uma pintora chamada Maudie. Peguei receita de empadão com a Renata. Mandei mensagens de amor. Inclusive um áudio. Lavei peças pequenas, à mão. Fiz esteira, pouco mais de meia hora. Tomei banhos, vários banhos. Me preocupei com dinheiro. Terminei mais uma novela policial. Coloquei Mariene de Castro pra cantar Falsa Baiana e dancei. Fiz cuscuz e fui além, fiz farofa de cuscuz com linguiça. Desejei uma cerveja gelada, mas queria junto o bar e os amigos, então melhor nem pensar nisso. Bebi água. Maycon contou que a Biscoito Fino tinha liberado o show da Bethânia e Zeca Pagodinho, assisti e mandei o link pro meu pai. Comprei livrinhos pra minhas sobrinhas. Lavei a louça e arrumei a pia da cozinha.  Dormi no fim de tarde. Acordei com sede, tomei água (tenho tomado muito mais água que sempre) e agora voltarei ao kindle. Mais tarde vou esquentar o resto da sopa de ontem.

Quando eu digo que essa situação está me devastando não é jeito de dizer. Além da rosácea que tá tornando meu rosto uma bola de fogo caroçuda, cólicas de revirar os olhos e agora duas obturações caíram.

Lá em casa (na casa e no tempo da minha infância) tinha um LP que entre outras tantas canções, tinha duas que falavam de cores e sedução. Eu cantarolava – e até hoje sei – grande parte das duas. Achava bem fofo quando ouvia: “um sapatinho eu vou, com laço cor de rosa enfeitar, e perto dele eu vou, andar devagarinho e o broto conquistar“. Mas a cor e a canção que eram e permaneceram as minhas: “meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear, botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar“. Daí pra frente, cabelo desarranjado e uma certa displicência na vida. Além de, claro, ter muitos garotos e considerar bem normal. Daí eu cresci e passei a andar com um bocado de feminista maravilhosa mas sempre fui mais relaxada com os produtos culturais e os papéis de gênero porque, suspeito, tem muita coisa poderosa na mediação. Ah, minha música preferida no LP era Filme Triste e eu na vida fui muito mais broto e melhor amiga que mocinha que ia ao cinema.

Eu nunca tive medo de morrer. Uma certa pena, se for cedo, mas medo, não tenho. Desde antes dos catorze anos que fiz testamento. Sério, meu violão fica pra Fulano, meus livros pra Sicrana. Entretanto sempre tive – e tenho – medo de ficar cega. E, junto, pela experiência de ser asmática – medo, pavor, da dor do ar faltando. Qual o efeito do corona? É ironia isso aí, vida? (quanto ao testamento, não preciso mais, tenho filho, fica tudo, coisas, saudade, futuro, memória, tudo é dele).

Eu não sou muito dessas que se comove com histórias de superação por causa da superação (mas sim, às vezes acontece de me comover porque é uma história e gente me comove). Hoje eu conheci a Maudie Lewis e gostei muito de sabê-la. Gostei das pinturas, das cores e gostei da inveja que ela me fez sentir por saber ver a beleza no mundo, por saber reconhecer o amor que lhe dedicavam do jeito que podiam senti-lo e manifestá-lo, por saber ser generosa em retratar as miudezas que via de um jeito imenso. Tive inveja do cantinho que soube fazer pra ela e, nele, ser.

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