Muito Greta Garbo, ela

“já realizou todos os seus sonhos?”
“Não, ainda tenho muita coisa pra fazer ainda, só tenho que descobrir o que é”
Martinho da Vila, mas podia ser eu.

Eu me sinto muito espertinha porque o Almodóvar também gosta do diálogo de Johnny Guitar. #mulheresabeiradeumataquedenervosfeelings

Cansei de tudo, tuitarei no blog.

Se eu participasse de Love is Blind provavelmente me envolveria com 100% dos não escrotos.

Fiz uma sopa tão gostosa que fiquei triste por todas as outras pessoas do mundo que tomam suas sopas pensando que estão boas. Não estão. Esta sim, estava.

Sobre a celeuma da Semana de 22, até ontem eu diria com prazer que não tenho informações suficientes para ter opinião, mas agora já não posso dizer isso, tenho informações o bastante para dizer que acho toda a conversa um tédio.

Tomar decisões é um esporte que eu pratico de maneira instável, então é tipo voltar pra musculação depois de um tempo sedentária, dói tudo.

A verdade é que eu pego muita corda. E agora estou sentindo falta dos seus emails. Vida que segue, espero que as fotografias do futuro fiquem boas.

Eu só ficarei realmente satisfeita com uma versão em que Christian e Cyrano se descubram apaixonados um pelo outro e dane-se a autocentrada Roxane.

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Muito triste não ter uma amiga que tenha uma vida igual à minha e passe pelos meus problemas e tenha as minhas aspirações e desejos e dificuldades para me ajudar a tomar as decisões difíceis.

Cresci em coletivos. A rua em que vivi toda a infância era uma espécie de vila e a família expandida era imensa com primos e primas dormindo em minha casa e eu na deles, viajando juntos, grandes almoços de domingo. Depois, grupos de jovem, coordenação de crisma, pastoral da juventude do meio popular, teatro, coral. A seguir, um projeto de extensão durante toda minha vida universitária, assentamentos, conselhos, associações, federações. Avançando em idade e tecnologia, listas de e-mails, longas e profundas conversas. Sempre tive e sempre gostei de ter gente por perto. Daí me mudei, me separei, filho vivendo distante, o trabalho que faço me mantem em contato com muitas pessoas mas não em grupo e, por fim, eu e a cidade em que vivo nunca nos entendemos muito bem. Sinto falta das experiências coletivas. Tentava amenizar com os grandes momentos de comunhão em redes sociais. Copa, Olimpíadas, Masterchef, até no BBB eu mergulhei para ter a sensação de algum contato com os outros. Funcionou por um tempo, mas a verdade é que me enfastio cada vez mais. Os mesmos temas voltando com tratamento cada vez mais tosco. Me cansam as bobagens ditas sobre psicanálise. Me entendiam as conversas sobre aparência, peso, ruga. Me irritam os papos moralistas. Vou preferindo o silêncio.

Me desagrada a vida que levo, do jeito que levo, mas me desagradaria ainda mais levar a vida do jeito que vejo os outros levando, mesmo que sejam felizes nelas – e que bom que são.

Meu casco parece cada vez mais atraente: uso os pôsteres dos filmes do Almodóvar de decoração.

Minha cozinha cheira a especiarias e pimenta de cheiro, meu prato de massa alcançou uma elegância que me faz chorar, só uso lençóis macios e tomo banhos de canela, camomila, mel e casca de maçã.

Cortei o cabelo e tá, olha, lindo demais.

2022 e alguma beleza

O ano só começa quando eu consigo voltar a escrever.

Como se diz bom dia? Bem assim: primeiro o flocão de milho amarelinho, amarelinho. Daí o leite. Pode ser de vaca, de coco, misturado. Deixa o flocão se hidratar. Um pouco de açúcar, um pouco de sal. Manteiga, claro. Um ovo, com a gema bem amarelinha – se quiser. Canela, cravo, queijo. Mexe, mexe. Um pouquinhozinho de nada de farinha de trigo. Fermento. Espalha na frigideira untad com mais manteiga. Bordinha quase queimou? Vira. Um balde de café quente, forte e amargo. Uma cadeira de balanço, vento enlinhando o cabelo, a vida proseando na calçada com o tempo que por ali passava e parou.

Existe uma beleza na alegria de ser quem se é. Acordei assim. Sorri pro meu sorriso no espelho. Ouvi minha playlist de forró. Comi meu milho com queijo. Inspirei com força o cheiro de mormaço. Amei meu rosto, meu corpo, meus dias.

A espiga, mugunzá, canjica, pamonha, cuscuz – com ovo, com manteiga, com leite, com galinha ao molho, com carne de sol, com queijo, chapéu de couro, bolo. É de milho? Quero. Quero o quentinho e o riso do amarelo. A chinela na beirada do alpendre. A rede no lento balanço. O lençol dançando no varal. O barulhinho dos animais no terreiro. O sol, o sol, o sol e aquela gotinha de suor, marota, escorregando pelo cangote e se perdendo entre os seios.

Daí me perguntaram sobre minhas habilidades. E eu falei que a que eu tenho é fazer as pessoas se sentirem bem. E eu sou uma pessoa, né.

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Roupa no varal, que não seca nunca, o cartão do mês que vem virando uma bola de neve, a máquina de lavar vazando, acordar procurando um email que não veio, Duras na cabeceira novamente, folhas em branco reclamando, alguns sorrisos, comentários enormes no Drops da Fal, todos os vasos da varanda vazios, a caixa dos correios vazia, a geladeira vazia, uma quinta-feira vadia, o Gilson de novo no blog – viva!, um banho gostoso, a carta escrita pela metade,  o filme do Woody Allen, a mais bonita carta de tarot, a canjinha da madrugada, cabelo cheiroso, nada de email, uma prova de kart, bolinho de chuva ou bolinho de arroz, papel de carta lilás, aquela paixãozinha pelo detetive de Shetland, a situação de Minas Gerais, autorretrato: um pedacinho de sonho cercado de solidão por todos os lados, muitos diminutivos no caminho, o analista impaciente, lista de supermercado, a vontade do mar, o email ainda não chegou, notícias tristes, notícias boas, vacinas para crianças, Vinícius Jr., sapatinhos vermelhos, café quente quente quente, lápis sem ponta, misturo sim peixe com laticínio, risco livros, como pizza de calabresa com queijo, sou uma vândala, tem uma nova maquininha na cozinha, tenho que comprar remédios, a restauração do Poderoso Chefão.

Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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Porque eu quis

Tem uma coisa que eu gosto muito que é me perguntar: porque tal coisa? E responder (para mim mesma ou para outros que acaso perguntem): porque eu quis. Sem agressividade ou arrogância, um porque eu quis tranquilo, de boas. Alguns associam a liberdade de dizer porque eu quis com o avanço da idade. Outros relacionam com a quantidade de dinheiro que a pessoa tem, teve e sabe que terá. Outros pensam que se deve a muitos e bons anos de análise. Eu mesma acho que depende. Depende, primeiro, do assunto/área da vida. Tem situação em que o meu porque eu quis vem leve e solto desde quando eu era jovem e endividada. Tem temas em que meu porque eu quis ainda não sai ou sai temeroso, estrangulado, duvidando de si mesmo, da minha vontade, de mim, mesmo agora que estou rodada tanto na vida como no divã e – comparativamente – rykaahhh.

Na cozinha, por exemplo, o porque eu quis foi ganhando espaço quanto mais eu cozinho só pra mim. Meu molho para guioza é um porque eu quis clássico: tem shoyu, mel, cebolinha, gergelim e umas gotas de limão siciliano ou laranja. Porque? Porque eu quis.

Acho que a comida mais foda-se que eu tenho feito é batata cozida com azeite e alho laminado. Quando eu estou bem e quando eu estou mal, mas especialmente quando eu estou com fome e muita preguiça de cozinhar, que vengan las patatas. Claro que os três ingredientes nem sempre precisam ficar a sós. Hoje tinha, também, cebolinha picada, queijos variados – que estavam fazendo hora extra na geladeira – em cubinhos, e linguiça calabresa cortada miudinha, fervida e depois tostada. Eu não estou em paz com o mundo, eu não estou em paz com a minha vida, eu não estou em paz com as pessoas, eu não estou em paz comigo mesma, mas estou em paz com as batatas.

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Os caminhos acabam. Alguns sonhos também. Amor, amor não, parece que vira raiva, rima, essas coisas. As coisas, essas sim, as coisas se acabam. Manteiga. Goma. Esponja. Papel toalha. Papel filme. Papel de carta. Até papel de besta. Na escrivaninha, papel em branco. Na tv, times alheios. Dias quentes. Noites escuras. Gente que me ama. Xingamentos cúmplices, #forarenato. Shampoo de canela. Uma japonesa nova tão bonitinha. E outros gastos extras. Planos e sorrisos. Arrumar a cozinha, a mala, a alma. Cary Grant dançando. Chico Buarque em contos e um tratamento tão generoso que a Companhia das Letras deu para o material. Domingo é pra dormir macia e cheirosa. Em limpos lençóis. Uma fantasia. Uma alegria. Uma distância. Manter o passo e o riso. Aceitar o tempo da estrada. E que a fortuna nos conduza.

Cartas e carrancas

Não tenho nada a dizer sobre o disco novo do Caetano. Não tenho nada a dizer sobre muitas coisas e mesmo sobre aquelas poucas que tenho algo ou muito a dizer, tenho silenciado quase sempre. Menos nas oito longas páginas – e contando – em que desfio memórias incompletas, reflexões antigas, perguntas novas, piadinhas cada vez menos preocupadas em fazer sentido e vários nadas contentes. Há muitos adjetivos nesta carta. Dos bons. E palavras proparoxítonas, que ambos gostamos. O antigo twitter seria impossível pra nós. O novo quase o é. Hoje espiei a frente da sua casa no google maps. Não sei se fui xereta ou atrasada nessa iniciativa. Não sei o que você sabe de mim. Mas sei o que importa: você ainda quer saber mais. Foda-se pandemia, eu já não quero nenhuma vida senão a que vou inventar.

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Eu sou ansiosa. Chego antes. Imagino de tudo: atos, sentimentos, finais. É muito raro (e, também, muito precioso) que alguém consiga apenas ser, ao meu lado. E, mais, que me faça apenas existir, sem a imaginação, as expectativas, os diálogos imaginários, as ações marionetadas, as grandes despedidas. Obrigada.

Porque hoje é sábado, isso e aquilo – foi mais ou menos assim que escreveu Vinícius. Porque hoje é sábado, 240 km de estrada pouco tranquila. Porque hoje é sábado, jantar 23hs. No intervalo: água, café, palavras. Porque hoje é sábado, trabalhar feito boi de puxar engenho e não terminar o que havia pra ser feito. Não chegar nem perto. Porque hoje é sábado, uma saudade inconveniente. Porque hoje é sábado, esvaziar a geladeira, separar as roupas pra máquina, aspirar o quarto. Porque hoje é sábado, futebol. E ainda que não fosse sábado, uma pontada com a derrota. Porque hoje é sábado, bater o martelo em uma casa pra chamar de minha no Rio. Um sapato vermelho pra São Paulo. Porque hoje é sábado, reler cartas e reinventar minhas respostas. Falando em carta, uma para o domingo: rainha de copas. Uma para o futuro: rainha de paus.

Imaginar felicidades

Eu tenho sentido saudades de tudo. Especialmente de imaginar felicidades.

Lua que míngua, pequenos planos, longas cartas engavetadas, gastos inesperados, imagens de Lisboa, jogos de futebol, queijo errado, o pão certo, uma depilação esquisita, susto, café, café, café, sua foto me doendo, a vontade do livro que é caro demais, uma encomenda que não chega, espera, espera, espera, um tempo com Odisseu, desilusão, o universo já não me aguenta mais, a sensação de morrer em um mundo muito pior do que o que vivi, café, café, pão com patê de ricota e azeitona preta, Fellini, Éris como deusa do mês, uma dúzia de garrafas de água vazias ao redor da cama, coisas por fazer, atos de #forabolsonaro pelo país, uma resposta atravessada, o samba da Mangueira para 2022, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia nessa pandemia, se não eu, quero nem saber quem vai fazer você feliz, opa, errei a letra e acertei o sentir, café, café, feijão e banana, escolher um conto de Capote, empilhar cadernos e baralhos, os suspiros, os muitos suspiros, a planilha de custos, Olhos nos olhos, a morte de Sebastião Tapajós, Edward Hopper pintando meus dias, vento pela porta da varanda, a pele macia, Bethania cantando à capela, uma história emperrada, a sensação incessante de pisar em areia movediça.

outono

Outono. Talvez seja a estação que mais me cativou quando a gente as tem bem marcadinhas. No outono tudo é maduro. Há cor, cheiro e disposição. No outono o morno das castanhas. As folhas vermelhas. O vento eriçando pelos e mamilos. O mundo perde o pudor. As árvores se põem nuas. No outono já não há promessas, a vida é em entregas. O outono é luxúria. E aconchego, também. Fumacinha na tigela e ainda azul nos dias. Uma manta colorida. E memória. Outono é outra luz. E terra. Pés descalços e encontro. Dourado à beira da estrada. Outono é essa vontade de chegar, encolher no abraço e aceitar o bom do agora.  Neste momento é outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, pode-se cantarolar ao percorrer, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam desnudas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.

Tem conversas que eu não consigo mais ter e coisas que eu não quero explicar. Se alguém não entende, por exemplo, porque ter apenas cardápios em Qrcoisa não é desejável, eu dou de ombros e sigo andando. Tô cansada demais. Eu tenho bússola, descobre aí a sua, baby.

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Escrevi uma Garrafinha esses dias sobre dias banais e me reinventar para viver os dias que chegam. Dá pra ler neste link: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu/letters/newscoisa-66-banal e se quiser assinar e receber as Garrafinahs direto no seu email, é aqui: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

Eu quis dizer…

5 objetos que são muito a minha cara (sem hierarquia entre eles)

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Não precisa ser esse, esse, justamente esse, mas é bom que seja desse modelo. E, pra ser sincera, esse, esse mesmo, justamente esse, já está comigo faz um tempo, fazendo um lindo trabalho.

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Eu amo esse quadrinho, ele sintetiza várias coisas que me dão prazer: uma viagem divertida, heróis, vida longa, a possibilidade de um certo cansaço espantado. 

Ganhei este caldeirãozinho de um amigo querido, só isso já seria motivo pra ter como xodó, mas como tudo que é bom parece que aprecia ser melhorado, virou a casa de muitas conchinhas de diversas praias que visitei. 

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Eu resisti muito à ideia do kindle. Eu gosto da materialidade dos livros, gosto do cheirinho dos livros novos, do amarelado nas páginas dos livros antigos, gosto de folhear pra achar o que eu nem sabia que procurava e muitas outras coisas assim. Mas, poxa, viajar ficou muito mais fácil. A mala ficou mais maneira, muito mais maneira e não me acompanha mais aquele medo do livro acabar antes da viagem, já que no kindle vão muitos. Guardo, nele, minhas bíblias (do poderoso chefão a ligações perigosas, passando pela filha pródiga, fogos e a insustentável leveza do ser) e já nem sei como seria meu fim de tarde, na rede, sem sua companhia

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Meu caderninho de tudo. Eu tinha esquecido o prazer de escrever à mão e quando voltei a isso, eita, que alegria. Tem de tudo nele, planos de viagem, bilhetinhos de amor jamais enviados, lista de supermercado, planos de reforma (improvável), ideias aleatórias para posts e garrafinhas, palavras soltas que jamais saberei a que eu me referia, anotações sobre conceitos e insights teórico-empíricos variados e tudo mais que nem sei nomear. 

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(depois da lista definida e fotografada foi que pensei que devia ter incluído um ventilador, meu companheiro fiel, ligado 24/7, no ambiente em que eu estiver na casa, então vai de bônus, ele, todo prosa, sentadinho na minha poltrona)

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Nós

Meu analista me perguntou se eu não sinto medo. Porque não falo disso. Não falo da minha morte, de adoecer, nada assim. Do que falo, o tempo todo, é de tristeza. Sinto a tristeza travando a garganta. Apertando meus pulmões. Ocupando peito, estômago, revirando intestino, acelerando coração. Sinto a tristeza escorrer pelos olhos. Sinto a tristeza enrijecendo nos músculos. Doendo nos ossos. Sinto a tristeza lancinante, que me faz encolher e chorar. Sinto a tristeza constante, quase um ruído de fundo. Sinto a tristeza deslizando na língua. Sinto a tristeza como odor no meu suor. Sinto a tristeza como pequeno desconforto diário, um sapato um tantinho apertado. E sinto a tristeza avassaladora, como uma inundação invadindo casa, estragando móveis, arrastando objetos e destruindo memórias. Sinto a tristeza como intrusa inconveniente, sinto a tristeza como companheira. Sinto tristeza como sombra, sinto a tristeza como reflexo. Sinto a tristeza como uma estranha e sinto a tristeza como íntima. Sinto a tristeza, sinto tristeza, sinto-me triste. Misturei-me a ela de tal forma que dizer a tristeza é dizer de mim. E isso me apavora. Esse é o medo do qual devo falar, talvez.

Comprei goiaba, kiwi, tangerina, abacate, manga. Preciso redescobrir sabor nos dias. Ou fazer uma sangria insólita.

O bom do dizer-se é que não se acaba.
A dor do dizer-se, também.

Quando eu estou muito, muito, muito triste, eu evito as coisas que eu sei que me fazem bem. Não leio Verissimo, não converso com amigos, não assisto Tudo bem no ano que vem. Eu não entendia o porquê, mas agora eu sei: tenho medo de que não funcionem, que a tristeza seja maior que eles. Tenho medo de perdê-los. 

Tem a tristeza e tem a dor. Todo dia, o dia dói muito.

Vai ter Mostra Krzysztof Kieslowski a partir do meio dia, no Telecine Cult, e os deuses sabem que vou mergulhar nela, só vou parar pra ver o Paulinho da Viola às 22hs (vou perder A Igualdade é Branca) e continuar com a fraternidade (que infelizmente é o último).

“Éramos nós”. 

Projeto meio gata: me enroscar no teu colo e ronronar.

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