O centro do centro do centro do mundo: Roma

Roma. O centro do centro do centro do mundo. A impressão de que sempre está acontecendo alguma coisa. Vozes. Risos. Cheiros. Eu não falo italiano. Eu não tenho parentes italianos.

Um pulinho lá, na viagem do diploma. O de sempre, minha Fontana di Trevi. O novo e desejado, Trastevere. Uma irmã, um amigo. Cerveja, pizza, gelatto, vinho, alcachofra, massa, massa, massa.

Minha escolha é sempre ficar o mais perto possível do Netuno. Dessa vez foi o Hotel de Petris. É um hotel simples, mas tem um lugar de tirar o fôlego pra tomar o café da manhã. E é perto do meu lugarzinho, né, eu e Netuno precisamos nos ver todo dia. Dependendo da saudade, mais de uma vez por dia.

20180114_140329_084

Roma é um dos lugares (que fui) na zoropa que mais facilmente se pode comer barato (aquelas pizzas aos pedaços que se vende em praticamente toda rua enche fácil o bucho e não ofende o paladar de quase ninguém). O problema é que a gente não quer, né. A gente quer entrar na trattoria e pedir antipasti, primo piatto, secondo piatto, todo contorno que aguentar, dolce e beber todo e qualquer vinho que a casa servir. A gente quer é beber capuccino olhando as pessoas passarem em Campi di Fiori. A gente quer é ficar em Trastevere bebendo cerveja e imaginando a vida correndo do outro lado do rio. A gente quer é tomar (comer?) gelatto todo dia. A gente quer com voracidade e preguiça.

Tudo em Roma é bonito, o que facilita o trabalho do turista. Tem uma escala de belezura, né. Você visita um lugar, de vez em quando aparece um monumento, um prédio lindo, cê vai ver, “lugar tal, aqui aconteceu tal coisa”. Legal. Aí tem cidades feito Paris, tudo é lindo, todo prédio é incrível, vai lá correndo e… ah, é “só” lindo mesmo. Uma ruma de lindeza só por ser, só pra ser. Roma é como Paris, com agravante: tudo é lindo, todo prédio é incrível (como Paris) mas cê vai lá e SIM, aconteceu alguma coisa, tem placa, tem nome, tem data. Minha irmã e museus, depois de uns dias em Roma: “se não for dos etruscos pra trás eu nem me dou ao trabalho”.

5 dias em Roma passam voando. 5 dias em Roma são a eternidade.

O que eu queria de ti, Lisboa

O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era o jardim feito quintal, para onde eu arrastava livros, sonhos e vontades e me deixava levar pelo riso das crianças aprendendo a correr de bicicleta, pelo murmúrio da conversa dos velhos em bancos ao sol, pela alegria ruidosa dos adolescentes em bandos. Não. Não era, Lisboa, tuas ladeiras enigmáticas, tuas calçadas trançadas ou tuas cores que embevecem, não era isso, Lisboa, que eu queria, agora, de ti, nem o melodioso das falas, o doloroso dos fados, o sossego das praças. Não queria a alheira cheirando, os vinhos baratos, o pão de casca dura e miolo perfeito. Nem a casa de paredes grossas e chave engraçada.

O que eu queria agora, Lisboa, não era nem mesmo o cheiro de rio e mar e água por todo lado, não era a rua enfeitada para festa antonina, não era o vaguear sem destino a qualquer hora, o café na esplanada, o pastel de nata morninho. Não era, não era, não era, Lisboa, a biblioteca de janelas imensas, as salas de aula que emanam passados clericais, os livros na mesma língua tão outra. Não era o alfarrabista da esquina. Não era a feira, não era o mercado nem a caixa grande com frutas que eu nunca pensei que ia gostar e seus vários tons de suculência. O que eu queria de ti, Lisboa, não era deslizar a mão nos azulejos frios das frentes das casas. Não era passear de eléctrico. Ou percorrer ruínas em castelo. O que eu queria de ti não era a criança perigosamente pegando carona no bonde, nem a velhinha teimosa em bengalas e ladeira. Não era, Lisboa, a rua apertada no Bairro Alto, em turistas e luas. O que eu queria de ti, Lisboa, não eram os museus semiabandonados, os restaurantes abarrotados e os cenários de cinema.

P1190765.JPG

O que eu queria de ti não eram os festivais, os piqueniques, os sinos domingueiros, os artistas na rua, as ruas repletas. O que eu queria de ti não era o tempo que se faz lento no cemitério. Não era o perfumado das flores e sardinhas assadas. O que eu queria de ti não era a imperial solitária, a fumaça das castanhas, a refeição farta e caseira do Bitoque.  Não queria, Lisboa, agora, nem a açorda quente nem o camarão frio. O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era a travessia de barco, a outra margem falando mais de Rosas que de Pessoas. Nem as estações, mediadoras da beleza, seja em chegadas ou partidas. Não queria, Lisboa, tuas pedras antigas nem os embelezamentos de caminho turístico badalado. Não queria, Lisboa, o azul. Nem o alaranjado do sol que esquece de deitar. O que eu mais queria de ti, Lisboa, agora, não era o avermelhado das folhas nas calçadas, nem o lilás encarapitado nos galhos, nem o suave e branco frio que assovia no vão da janela.

Não, Lisboa, o que eu mais queria de ti, o que anseio encontrar em tuas esquinas, em cada paragem, esplanada, azulejo, fotografia, lembrança, história, o que eu mais queria de ti, agora, vorazmente, como quem se afoga, sem fôlego e sem tempo, o que eu queria, como quem sonha, arde, adoece, o que eu queria como quem já não suporta o vazio, o interdito, o banido, o que eu queria, em desespero, angústia, voragem, o que eu queria, mesmo que resquício, fragmento, vestígio, o que eu queria, Lisboa, era saber quem fui, quando em ti, habitava.

 

Matera

Uma das imagens que me marcou e permanece em mim (embora nem lembre mais onde li) foi a idéia de Roma. Uma cidade sobre uma cidade sobre uma cidade, sobre uma cidade, etc. Que coisa incrível, acho eu, a insistência da humanidade em ser. E, em cada escombro, as existências únicas e irrepetíveis. Cada vida. Cada pessoa que comeu, bebeu, suou, trepou talvez, sofreu, ansiou. Ardeu. Cada. Únicos. Nós.

Por outro lado, Matera (sim, o pensamento desliza). Que nem disfarça com escombros, vai se reinventando do neolítico até hoje, casas nas grutas, nas pedras, onde dá, a vida persistente em ser.