O funeral de Heitor

“Quero muito fogo
Pra toda essa palha”

A ira de Aquiles termina com a morte de Heitor. E não só, a Ilíada também. Homero nem precisa contar se Tróia caiu ou como. Cairia sem Heitor, sabia-se. Heitor que morreu porque os deuses determinaram e por nenhum outro motivo. Heitor que reconheceu o que os deuses queriam e tratou de fazê-la inesquecível. Heitor que pôde cruzar olhar com seu algoz e repreendê-lo. Heitor, o nobre. Heitor, valente não porque queria ou gostava, mas porque era preciso. Gentil, é como sinto Heitor. Quando ele tira o elmo, caem todas as minhas defesas. Gosto muito de muitos, mas tenho um xodó especial por Heitor que, suspeito, vem do mesmo lugar e tem a mesma natureza do que me faz apreciar Rollo e Boromir. Heitor que recebe as glórias e as honras, mas nunca perde as dúvidas, os medos, a perspectiva. Heitor que valoriza o simples, a vida, o riso do filho, o toque da mulher. Heitor era amado. Pela esposa, pelo filho, pelo povo. Não temido. Amado. Porque era um grande guerreiro, claro, e admirado por isso, mas não apenas. Não ser um apenas. Lembrei dele, ao pensar em Heitor, e não de você. Mais um passo. Um dia termino de ir embora. Com sorte, nesta vida. Andei lotando ela, esta vida, de compromissos pesados e dos quais já não posso me esquivar. Pra equilibrar estou fazendo o quê? Isso mesmo, me comprometendo com mais outro tanto de coisas, mas dessa vez coisas das quais eu gosto, coisas que queria fazer e não fazia porque achava que não dava. Agora, na rádio cabeça, a musiquinha “vai ter que dar, vai ter que dar”. Um clube de leitura para reencontrar a Odisseia. Outro grupinho semanal para ler e discutir contos. A aulinha de cinema. E a aventura iniciada hoje. Eu gostaria de ser a pessoa que diz: pode me empurrar do penhasco etc sei voar tal e coisa. Mas não sou assim. Não vou usar o caderno que veio de Paris. Pelo menos mandei telegrama. É que não aguento mais o Universo falando para eu desapegar e ninguém me dizendo como. Resolvi passar 3 dias sem gastar dinheiro de jeito nenhum. Mas só começa amanhã que hoje eu vou pedir jantar pois, após terem erguido o túmulo, voltaram os troianos ao palácio de Príamo e, seguindo os ritos, festejaram com um banquete. E foi assim o funeral de Heitor, o domador de cavalos, a lembrança delicada de que nem todos os finais podem ser felizes, mas o meu (ou o desse amor, que neste momento me parece a mesma coisa), posso fazê-lo nobre.

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Imagem meramente ilustrativa

Tanta pose e palavra bonita para, no fim da noite, eu chorar como sempre, soluçar e escorrer nariz, enrodilhada na saudade de uma madrugada contigo, desejando mandar mensagem, mandar presente, mandar um avião com faixa pra frente da sua casa, arrancar o coração com a mão e depositar na sua caixa de correio.

Atropelamentos

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Se eu disser isso, se eu mandar de presente aquilo, se eu fizer de um jeito ou de outro, pode ser que a pessoa entenda errado. Pode ser mesmo. Já aconteceu muitas vezes, inclusive. Mas se eu não fizer isso ou aquilo, se não enviar o presente, se não disser o que quero, construiremos fina camada de gelo sobre o lago como relacionamento e, um dia, pisando mais pesado na travessia, me afogo congelada. Não me parece um futuro promissor. Isso dos afetos é a minha praia. Não entendo de muito mais que isso. Finjo que entendo, mas, por exemplo, não sei direito a diferença entre sopa e caldo. O que não entendo, invento. Arrumo as palavras, as ideias, os sentimentos de forma que construam um mundo pra mim. Um mundo meu. Olhando de perto, lembra seu rosto. A coisa mais difícil que fiz hoje foi não responder à sua mensagem. E, olha, não foi um dia fácil. Na outra caixinha, notícias alvissareiras. Vem aí, um evento. Tenho nem roupa pra isso. Com sorte, não precisarei delas. Luciana, qual o mantra da sua vida, o maior ensinamento, seu farol desde a infância? quem já viu não se admira, quem nunca viu não sabe o que é. A vida já foi e vai voltar a ser mais de boas é a ilusão que alimento pra não saber que viver é superestimado e, ainda assim, é como a democracia, a melhor opção, etc. Faço listas dos médicos que preciso visitar: dermatologista, dentista, oculista. Não sei se a vista borrada é problema ou lente do óculos que está suja. Gostaria de ver mais. Inclusive ver mais séries e filmes para conversar com as pessoas, mas chega o fim de semana e eu assisto futebol, futebol, futebol. Perto da meia noite do domingo entro no site da universidade para aprovar relatório de iniciação científica só para desviar a cabeça e não mandar mensagem para você. Que nem leu o Eco. Perdi o controle, talvez. Talvez? Rá. Meu cabelo está bonito, minha pele está macia, meu cangote está cheiroso. E ninguém por perto.

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Amalia Bautista, CORAÇÃO DESABITADO, selecção e tradução de Inês Dias, ed. Edições Averno

Eu tive um pequeno vislumbre quando estava lendo a autobiografia do WA, mas larguei o livro, desviei o rumo, fechei os olhos, fugi. Foi assistindo o especial do Chico na Netflix, que entendi. Entender é um termo delicado e elegante demais pro que aconteceu, na verdade. Fui atropelada pela compreensão. Não é que você seja a pessoa de quem eu mais gostei. Não somos a maior história de amor ou algo desta natureza. É que saber que você existe me faz me sentir só. Muito só. Muito, muito, muito só. Porque todos os outros moços podiam – e uns ainda podem – me tirar os pés do chão, roubar o ar, fazer a cabeça girar. Eles podem me fazer bem. Podem me inspirar, me emocionar, me comover. Podem me excitar. Mas eu nunca pensei que eles veriam isso ou aquilo tão perto do que eu vejo. Não sentiriam tão perto do que eu sinto. Perto, próximo, íntimo. Por dentro. Não igual, melhor até. Encostadinho. Poder ser assim e não ser dói de um jeito que eu nem sei explicar. Disse ela: ninguém pode ser o que você quer ou precisa que ele seja – e ela está certa. Certíssima. Mas pode ser pior: alguém pode ser o que você quer ou precisa (você sou sempre eu, quem nem quando escrevo a gente, a gente também sou eu) e mesmo assim não querer, não poder, não qualquer coisa que impede que ela esteja, mesmo sendo. Meu único consolo é que sempre que entendo um pouco mais desse sentimento, mais perto fico de me despedir do mesmo. Do amor só é possível fazer autópsia (nem lembro quem disse, mas alguém disse).

Uma praia na Itália e Verissimos pelo correio

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Ganhei livros da Fal. Mais livros, na verdade. Ela, que já me deu tanto. Coisas, também, mas tão mais. Chorei ontem, quando recebi os livros. Chorei agorinha, quando fiz a foto pra me gabar por todo lado. Como cantavam os moços do MPB4, a vida não anda amenizando. Aprendi a fazer planos. Por exemplo: depois do turno da noite, pretendo beber. A única coisa que eu realmente preciso, na madrugada, é ficar longe do teclado para não mandar mensagens estúpidas com digitação tosca. Concluí que o efeito colateral do vinho é fazer as pontas dos dedos ficarem tão largas que a gente – a gente sou sempre eu – pensa que está apertando numa letrinha no celular e está apertando outras três. O mais humilhante nem é a mensagem estúpida (o que mais se pode esperar de uma adolescente apaixonada?) e sim os erros ortográficos, de concordância e as palavras ilegíveis. Tento assistir white lótus mas fico constrangida com as coisas que acontecem com os personagens. Um dia de cada vez, uma solidão depois da outra. Um respiro: a live do livro. Quase fui feliz. Você sabe bem o porquê. Além dos moços gentis e das palavras simpáticas. É bem difícil manter este ralo aberto no peito. Ainda tenho a varanda, carrego meus anseios pra lá e deixo-os respirar. Recebo musiquinha na caixinha e primeiro penso: porque você não. Depois fico contente porque ele sim. Como era a música, Caetano? Só vou gostar de quem gosta de mim. Eu era assim. Eu sempre fui assim. Nem sei como foi que você me mudou e eu ainda aqui, quando você, você não (eu sei que não é verdade. Eu sei que você gosta de mim. Mas eu preciso fazer de conta que não. Porque não basta. Acho que seria mais fácil se você não gostasse. Seria?). Então, ele sim. Música, foto, palavra. Presente. Me usa. Pretendo. Ele que não gosta de mim. Não desse jeito. Eu não gosto dele. Não dessa maneira. Mas gostamos de gostar um do outro de um jeito nosso. Bóia em alto mar. Sapato vermelho, caderneta, corpete. Magnífico. Magníficos. Um sorriso entre parênteses. No resto do tempo, arrasto a vontade de dezembros. Você, você é sumidouro. O dinheiro acabou mais cedo, então nem posso compensar com mimos, vinhos e livros toda essa solidão. Desligar o celular para dormir sem esperanças. Passar a noite sonhando com barulhinho de notificação e acordando a cada susto. Sonhei. Tem carta, pena, tinta que é sangue diluída em mar, portas abertas, encontros, tem eu e você neste sonho. Sonho que se sonha só é feito unha encravada. Lateja. Chega mais um diarinho que é como arrancar a casquinha do machucado. Gostaria de comprar morangos e laranjas. Gostaria de estar na foto em uma praia italiana. Opa, já estive. De casaco vermelho. Eu sou tão, tão bonita. É importante não esquecer.

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Eu quis dizer…

5 objetos que são muito a minha cara (sem hierarquia entre eles)

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Não precisa ser esse, esse, justamente esse, mas é bom que seja desse modelo. E, pra ser sincera, esse, esse mesmo, justamente esse, já está comigo faz um tempo, fazendo um lindo trabalho.

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Eu amo esse quadrinho, ele sintetiza várias coisas que me dão prazer: uma viagem divertida, heróis, vida longa, a possibilidade de um certo cansaço espantado. 

Ganhei este caldeirãozinho de um amigo querido, só isso já seria motivo pra ter como xodó, mas como tudo que é bom parece que aprecia ser melhorado, virou a casa de muitas conchinhas de diversas praias que visitei. 

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Eu resisti muito à ideia do kindle. Eu gosto da materialidade dos livros, gosto do cheirinho dos livros novos, do amarelado nas páginas dos livros antigos, gosto de folhear pra achar o que eu nem sabia que procurava e muitas outras coisas assim. Mas, poxa, viajar ficou muito mais fácil. A mala ficou mais maneira, muito mais maneira e não me acompanha mais aquele medo do livro acabar antes da viagem, já que no kindle vão muitos. Guardo, nele, minhas bíblias (do poderoso chefão a ligações perigosas, passando pela filha pródiga, fogos e a insustentável leveza do ser) e já nem sei como seria meu fim de tarde, na rede, sem sua companhia

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Meu caderninho de tudo. Eu tinha esquecido o prazer de escrever à mão e quando voltei a isso, eita, que alegria. Tem de tudo nele, planos de viagem, bilhetinhos de amor jamais enviados, lista de supermercado, planos de reforma (improvável), ideias aleatórias para posts e garrafinhas, palavras soltas que jamais saberei a que eu me referia, anotações sobre conceitos e insights teórico-empíricos variados e tudo mais que nem sei nomear. 

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(depois da lista definida e fotografada foi que pensei que devia ter incluído um ventilador, meu companheiro fiel, ligado 24/7, no ambiente em que eu estiver na casa, então vai de bônus, ele, todo prosa, sentadinho na minha poltrona)

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O tempo, o vento e o álcool

Uma coisa tristíssima é a sensação de que, passado o que precisa ser passado, depois do depois, quando estivermos de máscara mas devidamente vacinados e na rua, eu estarei muito mais sozinha do que agora, nestes meses de isolamento.

A vida dá uns sacodes que benzadeus.

O consolo é que gosto um bocado da minha própria companhia. E tem a internet, livros, uns projetos interessantes pra tocar, praia por perto quando puder sair de casa, rede na varanda, tudo bem no ano que vem, ligações perigosas, west wing e o poderoso chefão pra rever até os olhos ficarem dormentes e a cozinha, sempre terei a cozinha (não hoje, hoje comerei pão com queijo e café, o dia todo).

Mesmo assim, doeu. Ah, doeu.

Tá tendo maratona de Criminal Minds, exatamente a companhia que eu precisava para passar essa virada de ano. Sim, continuo apaixonadinha pelo Reid. Séries e livros policiais me confortam muito. Já falei sobre isso algumas vezes. Eu sempre recomendo romances e séries policiais para males diversos, especialmente os de amor. É que eles parecem seguir uma lógica. Organizam o mundo. Encontram respostas. Quando uma relação acaba ou nem, quando está tudo muito dolorido, é aquela confusão nos sentidos. Tudo em carne viva e as pessoas se perguntando e se? Mas porque? Foi alguma coisa que eu fiz? Será que? O amor é labirinto sem fio de Ariadne. Sem nem mesmo as migalhinhas de pão do João. Amor não tem resposta única (o viver, na verdade, mas a gente se entretem no dia a dia e esquece um pouco). Não tem verdade. Quanto mais se olha pra trás e tenta desvendar o que e como aconteceu, mais perdida a pessoa fica. Já o universo do mistério policial faz sentido. No mundo dos livros e séries de investigação há uma pergunta central e uma resposta única. A verdade. Um desenlace que se a gente não pegou de primeira, volta e espia: vai ter um fio condutor. As pistas estavam todas lá, a gente que não tinha visto, mas com calma, analisando bem, arrá, era isso. Alguém explica tudo. Tudinho. O romance policial me acalma. Acalenta. Coloca um pouco de ordem – mesmo que temporária e transitória – na bagunça que é o sentir. É um desafio intelectual. A gente pode pensar sobre. Ou se deixar levar, como quem faz uma visita guiada: à direita vocês podem ver um suspeito inocentado, reparem que seu ar suspeito é, na verdade, efeito da azia. A gente (a gente sou sempre eu, como anteriormente combinado) tem essa fome: de conhecimento, de verdade, de saber. E viver é aprender que não tem resposta fácil, que a gente não vai saber tudo e que a verdade é uma construção. E amar é aprender isso tudo sem pele. Mas o romance policial, ah, por um momento a gente pode, sabe, responde. Poirot, Grissom, Miss Marple, Reid, quem for, eles vão saber. Vão dizer. Vão provar. Nesse 2020 de angústias, de incerteza, um tempo sem horizonte (que se estende para o ano que começa amanhã), nesse ano em que não só o sentir, mas o próprio existir se apresenta como uma imensa bagunça disforme, os livros e séries desse tipo me tem sido muleta, oxigênio, ninho, limite, fôrma (eu sei que não tem chapeuzinho, me deixa). Bora, Reid, me abraça.

Pegando gastura.

Tenho pena de nunca ter te mostrado o conto Plantação. Eu nunca tinha vivido em um tarde demais. É um lugar realmente inóspito.

O tempo, o vento e o álcool. Meu tio, muito sábio.

Eles desgastam tudo, sabe? O tempo, o vento, o álcool. Lenta ou rapidamente, no seu próprio e inesperado ritmo, vão esculpindo na pele, na carne, na terra, nas coisas do mundo, suas marcas. Discreta ou descaradamente. De forma bela ou disforme. Podemos dar-lhes sentido ou aos seus efeitos, mas não evitá-los – pelo menos não aos efeitos.

Escrevi e apaguei e reescrevi a mensagem que vou te enviar. Porque sou uma tonta e sim, tenho que desapegar, mas não, não vai ser hoje. Hoje eu ainda queria. Quero. Tonta, tonta, tonta, eu já disse?

Vejo as pessoas comentando sobre qual a cor que vão usar na passagem de ano e, bom, pelo menos nisso vou me divertir, estarei “cor da pele”.

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Duke Ellington, muito de boas

De vestido curtinho e sapatos vermelhos. Ainda viva.

A amiga disse: o importante é sobreviver e voltar pra contar a história.

A sorte é sua.

Faço longas cartas para alguém.

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A gente assim. Mesmo que nunca tenha sido. Eu sei tudo que não está na imagem. Sei os dedos entrelaçados. Sei o rosto de um virado pro outro enquanto o outro espia o mar. Sei o movimento discreto com que alternam o foco. E o riso no canto da boca quando os olhos se encontram meio sem querer, embaraçados de se quererem bem tanto assim. Sei o vento redesenhando a canga frouxamente amarrada no pescoço. Sei a bermuda discreta, a camisa que também é filtro e o gosto de protetor solar na curva do pescoço. Sei a impressão de que está tudo bem. A sensação de que devia ser sempre aquele momento. E, ao mesmo tempo, o gostoso de levar a cumplicidade por onde vão. Sei o morno da água e a surpresa gostosa de um e o sorriso convencido do outro, eu te disse. Sei o instante em que se desenroscam dedos e se parte, levando o sal, o horizonte, o azul, a saudade e a memória como uma liga a mais. Você faz parecer fácil. Simples. Óbvio. Faz parecer que sim. Queres. Quero. Queremos. Eu quase acredito. Suspiro.

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Eu gosto de tanto, nesta foto. Talvez tudo. Gosto do que está além. Que ela tenha sido feita em um dia especialmente difícil, entre muitos que não vem sendo fáceis de atravessar. Um dia em que o divã foi lenço. Um dia em que eu chorei. Tanto. Se não é fácil abrir portas e janelas, que dirá demolir muros. E, mesmo assim, o sorriso veio. Apesar de mim, dos temores, dos fantasmas. Ainda alguma alegria.

E gosto mais, gosto muito, do que está nela. Do cabelo branco, bem vistoso. Das marcas, todas: os pés de galinha, os riscos que são parênteses pro sorriso, as olheiras. Olheiras, claro, durmo tão pouquinho. Da sobrancelha sem forma, desajeitada e desligada, nem sei onde está a pinça. Muito menos sei usá-la. Gosto de ver o colo enrugando. E o decote, ainda amplo. Gosto de ter 45 anos e não saber passar o batom direito. Sigo tentando. Gosto das sardas, do pelinho da “minha barba”, das machinhas e sinais na testa. Todas as imprecisões, imperfeições, assinatura da vida que se inscreve em pele. Gosto do arremedo de covinha e dos olhos terem resolvido olhar pro mesmo lugar – dribles não intencionais no real. Gosto até do vermelho da rosácea, que se limitou ao rubor essa semana e de sentir falta dos meus cílios mais fartos e mais longos. Do sem jeito do enquadramento que mostra um nadinha de prateleira, que alaranja o fundo – vestígio das cores que ocupam a casa fazendo ponta na fotografia, que revela o amarelo de uma proteção que preciso e o pedaço de pau (sei lá como se chama) que seria rodapé na paredinha da sala, ali, ainda encostado no escritório.

Eu gosto de tanto nesta foto. De estar nela. De vestido curtinho e sapatos vermelhos. Ainda viva.

E na hora do enlace…

Seria só um assim, cerveja ou café, um chegando no depois do outro, o passo entre o contente e o incerto, o abraço desajeitado dos corpos aprendizes, sem um saber de onde colocar mãos e desejos. O sentar quase ao lado, a mesa quadrada, os joelhos se tocando na ponta dos noventa graus. As palavras, que nunca serão lembradas com precisão nos futuros, servindo de véu, enquanto na língua que insinua sua ponta úmida, no bater mais acelerado das pestanas, no entreabrir da boca, na pequena dilatação do nariz, nos dentes que mordiscam os lábios, na voz um tanto mais baixa convidando à aproximação, confessam-se.  Você não ia ler minha mão? E agora a gente acredita? Precisamos. Então, simO verso sobre a palma, uma pele seca e quente, a outra macia, o dedo percorrendo as linhas como se borrasse fronteiras. Entrelaçam os dedos, suponho. Pagam contas de bebidas que não beberam, comidas que não mastigaram, atendimentos que não precisaram, pois eram esperas e vontades e só. Vagam ruas. Procuram, enfim, reserva e meia luz e portas com chaves e camas, Num sem fôlego despem roupas e vidas lá fora e entrelaçam pernas e histórias. Sentem gostos e alegrias e se afogam e se perdem e se provam e se mordem e se tocam até que, quando já estão tão abraçados que não há espaço para culpa ou indecisão, se beijam. Sopro. Como se dessem a vida a uma frágil, delicada, rara possibilidade. E, libertados, morrem um pouquinho um no outro. E outra e outra e outra vez. No depois dos suores e cheiros e aconchego e cochilos, ela vê a réstia de luz avançar no quarto e tocar um pequeno franzir na testa dele e, antes que a preocupação que chega vire tristeza, ela espana com os cabelos a ruga e desce esfregando nariz no nariz e morde o queixo e beija o peito lá onde o coração soluça e distribui risadas e roupas onde foram carinhos. Se os corpos que voltam pro mundo não se roçam nem num acaso, é que já não precisam, tão dentro um do outro. Na frente do mesmo bar, um abraço, com corpos que já se sabem, nem despedida nem promessa. O incêndio de um amor.

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Acontecesse (Bruno Batista)

Se um dia acontecesse
De nós se amirar
Um cadinho que sêsse
E se acaso ocorresse
De tu se engraçasse
E eu correspondesse
E nós se aprumasse
E se desgarrasse
De qualquer devesse
E na hora do enlace
Eu não me furtasse
E tu me arrecebesse

E nós se empariasse
Tu me trespassasse
Eu não me contesse
E eu mais tu se embrenhasse
E nem assuntasse
De tanto quererse
E adispois começasse
Teus óio virasse
Minhas pernas tremesse
E se o Diabo gostasse
Deus escutasse
E um anjo descesse.

E achegasse num susto
E com muito custo
Nós se apercebesse
E ele arresolvesse
Arrastar asa pra tu, e eu vêsse
E o safado eu maldasse
(Que Deus perdoasse)
Eu ensandecesse
E o anjo depenasse
Ele gargalhasse
E arrespondesse:

“Fui pro céu por acaso
(Um caso com uma santa estrangeira)
Os donzelo odiaram
E me agarraram com uma padroeira
Então fui rebaixado
Pra Anjo da Guarda das Virgem Embusteira
E agora depenado
Vou virar beato
Das alcoviteiras”.

Equívocos

Essa semana talvez eu tenha sido um pouco indelicada em um grupo, totalmente sem querer (posso ser indelicada querendo, é raro, mas acontece). Uma das pessoas estava relatando o tempo que leva pra fazer as compras, em tempos de hipercuidado com o corona vírus e vários outros confirmando, máscaras, álcool gel, não entrar no corredor que tem muita gente, limpar o cartão de crédito depois do uso… daí eu perguntei: mas, vem cá, aí não tem entrega? Claro que tem, né, dãaa, luciana. Cidade muito maior que a sua. Mas um único supermercado não tem tudo que eles precisam. E pedir por imagem não é a mesma coisa que apalpar a fruta, verificar seu cheiro, etc. Desde que começou isso da infinitena eu desenvolvi uma forma de lidar com o mundo, inclusive compras: diminuir as interações ao mínimo do mínimo e aceitar que isso traz limitações. Em relação ao supermercado: reconhecer que não vou conseguir comprar tudo que quero ou acho que preciso, que alguns itens vão acabar antes de outros e eu vou passar um tempo comendo coisas mais sem graça, sem verdinhos; que os produtos que vão chegar não vão estar exatamente como eu os escolheria. Essa é a pegadinha, né? Não perceber que o nosso jeito é exata e apenas isso: um jeito, nosso.

(eu sou antitotalitarismo, viva a liberdade, etc, mas bem me apetecia uma política pública clara, nestes tempos, para mediar os “jeitos nossos” e evitar essa inclinação ao moralismo e julgamento do viver alheio)

futuro

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Passou por mim uma discussão sobre ser ou não pedante e eu ri porque, né, sou mesmo é deslumbrada.

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Todo dia acordar no mesmo dia não ajuda quem já é um poço de preguiça.

Eu admiro todo mundo que ainda estuda e, mais, quem ainda aprende. Eu, agora, só troco a água.

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Amar é fácil. Ser amada é um pouco mais difícil (sim, também no sentido de que é difícil  ter alguém que nos ame, mas eu estava pensando mesmo é no quanto é difícil aceitar amor. Aceitar ser amada como o outro ama e não como esperamos ser amados. Não como nós próprios amamos).

Você olha para a página em branco do word, ela olha de volta pra você, zombeteira. Você tenta disfarçar a incompetência colando trechos de artigos e livros que deveriam fazer algum sentido. A página gargalha. Você pensa, com inveja, nas pessoas que escrevem à mão e podem, nesses momentos, amassar a folha com determinação.

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Desde que começou a infinitena tenho lido bem menos, não vi quase nada de filme ou série, atividades que me eram costumeiras. Por outro lado, eu, que não tinha o costume de ouvir música e muito menos de cantar passei a fazer as duas coisas com espantosa regularidade em grande parte do dia. Isso estava me encafifando. Daí hoje, aos berros, me ouvi, no meio de uma canção do Ednardo. É engraçado e triste o óbvio, né: porque cantar parece com não morrer, é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão.

Estive relendo meus posts do começo da quarentena (ainda chamávamos assim) e, olha, como eu era ingênua. Quantas esperanças eu tinha.

Mais de 97.000 mortos. Não é inevitável o que atravessamos. Para não esquecermos que são pessoas, não números: inumeráveis. Para lembrarmos que havia caminhos e opções: a geografia macabra da covid-19.

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Uma das coisas bonitas de cozinhar só pra si mesma é poder usar largamente o tempero popularmente conhecido como “porque eu quis“.

Fato: invento motivo pra gostar de praticamente tudo que leio.

A voz da Mônica Salmaso é como uma carícia com dedos calejados. A gente geme, meio dor, meio prazer. E vive esperando por um pouquinho mais.

Cada dia eu vou no pêndulo do sofrer: a dor de todo o mundo, das mortes, dos que ficam, familiares e amigos, do cansaço dos profissionais de saúde, das pessoas que vão carregar as sequelas do covid até chorar de soluçar porque queria comprar uma passagem ou passar um fim de semana em Canoa.

nao aguentar

 

Cem

“As aparências enganam mas enfim aparecem,
o que já é alguma coisa
comparado com outras que nem isso”
Leminski

100 dias, pelas minhas contas. Uns 100 anos de solidão, fácil, fácil.

A pia está limpa mas a casa continua uma bagunça (atualização: a pia estava limpa, quem mandou não publicar o post naquela hora?)

Quando 20 anos parecem uma semana. De onde mesmo eu tirei essa ideia de votar à análise?

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Esses dias amiga publicou um link que dizia que refizeram as contas e a previsão dos maias pro fim do mundo havia sido corrigida, não era 2012 mas esta semana. E tá correto, né? O mundo acabou. Não foi em fogo, conforme prometido no pós-dilúvio, foi afundando na ignorância. Areia movediça de capitalismo, indiferença, crueldade, arrogância e uma certa tosquice de se achar mais merecido. Quanto mais a gente se mexe, vai a shopping, festa, suruba, vai só ali dar uma voltinha na esquina, apenas um cafezinho com os amigos, mais rápido a gente afunda.

Eu não aguento mais a expectativa. Vivo tensa como uma corda muito apertada de um violão. Qualquer hora, arrebento.

Peguei tarefa de casa. Já esqueci o que é.

Como saber que é junho sem fogueira, sem canjica, sem vatapá e paçoca, sem forró machucando no miudinho, sem bandeirinha, sem mugunzá salgado, sem madrinha de fogueira, sem sanfona, sem chita, sem rua, sem casamento, sem sardinha, sem marcha ou quadrilha… não há calendário que me convença que é junho, que já foram antônio e joão e logo chega e passa Pedro, não há calendário que seque o rosto, não há calendário que console, conforte, não há dia depois do depois que compense a festa que não foi, sinto que se esgarça a relação linear com o tempo, presa num infeliz dia da marmota em que não aprendo nada com o vivido, mas os terrores se renovam, se aprofundam, se agudizam.

Um analista politizado é outra coisa, bebê.

Cansada de perder o bonde, o timing, o ritmo, a crista da onda. Mentira, cansada de saber que perco. Quando não sabia, não incomodava. Covarde? Sim. E preguiçosa. Pode alinhar defeito, o que falta em classe e virtude eu preencho com mau jeito. Um ou outro olhar generoso e alguma vontade de agradar eventualmente me mantém no rumo. Mas ando esmorecendo.

É engraçado rever episódios da temporada 1 de Criminal Minds e perceber como o Reid tinha um papel “pequeno” (mas já era meu favorito) sabendo o que ele representou nas temporadas seguintes e no que se tornou nas últimas. E porque eu tô falando isso? Por nada, não, só pra ter motivo de espiar fotos dele no google.

Não tenho mais nada pra dar. Nenhuma palavra, nenhuma beleza, nenhum conforto. Talvez eu ainda. Mas nem sei.

Uma viagenzinha, mesinhas na calçada, uma noite que não acaba. Queria.

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Então eu vou deitar e dormir. Só me acordem quando for dia. Não um, aquele, o dia do riso nas ruas, dos corpos em festa, dos gostos e dos gozos, da música nas praças e da fonte jorrando cerveja. O dia depois do depois.