Oba Oba

Tenho visto algumas pessoas nas redes sociais e mesmo comentaristas esportivos alertando sobre o oba-oba da torcida do Flamengo. Só posso deduzir que são pessoas sem futebol no coração. Sábado o Flamengo pode ganhar o jogo. Sábado o Flamengo pode perder o jogo (espero que não, mas pode). É isso o esporte. A alegria, a festa, o afeto em gritos, charangas, palmas, danças, canto, é a celebração de podermos estar lá. Comemora-se a possibilidade. Estamos eufóricos, sim, porque vamos jogar. O resto, o resultado, não temos controle sobre isso. Nos resta torcer e torcer não é apenas festejar uma vitória mas alegrar-se com o caminho. Torcer é antecipação. Torcer é expectativa. Torcer é anseio. Torcer é esperança. Temos orgulho de chegar à final. Temos prazer de ver a equipe jogando. Para quem ama futebol, para quem ama um time, sim, isso é embriagador, leva a dançar na rua, bradar nas varandas, abraçar desconhecidos, rir a toa. Depois é depois, hoje somos finalistas da Libertadores da América.

Eu sinto falta de beber vinho tinto.

Estou meio enlutada por abrir mão dos planos da licença-capacitação.

Tá doído ver tanto sofrimento na América do Sul. Tá inspirador ver tanta luta, gente que não se curva, que resiste, que sobrevive. Tá difícil sentir os retrocessos, os avanços do fascismo, o recrudescimento do racismo e dos mais variados preconceitos. E é tocante ver este mar vermelho e negro, de alegria e amor, atravessando fronteiras.

Dentista, dermatologista, ginecologista, oftalmologista. Minha vida em preto e branco.

Queria desistir desse negócio de comprar roupa pronta e contratar costureira pra fazer algumas roupas pra mim. Mas nem sei onde começar a procurar os “modelos”. Estou cansada de ter que escolher entre vestido de malha ruim e blusa de 320 reais nas boutiques de internet.

Ou posso andar seminua e malamanhada mesmo, daí gastar isso de passagem aérea.

Ontem foi o dia da consciência negra e eu digo isso, ano após ano:

NÓS SOMOS LINDOS…

e se o Flamengo ganhar, oba, oba, seremos lindos e felizes, sábado.

E se o Flamengo ganhar, ah, vai ser linda a explosão de amor. Vai ser envolvente, cativante, borbulhante. O Rio vai ser em alegrias, vai ter riso como se fossem bolhinhas de champanhe fazendo cócegas nas ruas, vai ter gente dançando em cada esquina, casais se amando nas varandas, crianças flutuando e maná caindo do céu.

 

 

Terra Vermelha

mas este feriado eu fui pra Canoa e Canoa é minha terra vermelha de Tara. Em Canoa tem festival de blues e caipirinha gelada e sotaques variados e crianças na escola cantando em roda o Canto do Povo de Um Lugar e velhinhas vaidosas de maiô, chapéu e colares à beira-mar e pais passeando com carrinhos e bebês de madrugada e uma rua chamada Broadway e pastel de arraia, às vezes com banana! e gente que faz tererê e massagem no meio da muvuca e um bar ridículo chamado bar dos bombados e uma pintura do Belchior e barraca que vai buscar você na pousada de buggy e cerveja gelada e cerveja quente e arranjos amorosos de toda modalidade e reggae na praia em noite de lua e adolescente tocando violino e tem aquele mar que eu não sei explicar mas faz parecer que um dia a mais de vida vale toda pena (e são tantas) mas tem Canoa e Canoa é minha terra vermelha de Tara. Canoa é tão em mim que quando falo dela eu escrevo sem pontuar direito porque justamente Canoa me faz respirar diferente.

eu tinha um plano. planilha de excel com projeção de custos. documentos no protocolo. datas revisadas. consentimento de chefe, amiga-irmã-colega-de-trabalho cobrindo uns dias. daí vem esse dólar e como é mesmo que se diz? white people problem mesmo quando não se é tão white assim.

pessoas queridas visitando cidades que eu amo me dá uma saudade chega pinica.

assumir que não cabe no orçamento. mas dói.

eu gosto de mar. de boteco. de conversa sem rumo. de beijo na boca. gosto de gente. de prédios antigos. de fazer a mala. de comprar passagem. gosto de torresmo. de queijo, gosto muito de queijo. gosto de abraço, de contar história. de contar muitas vezes a mesma história. de ouvir. de abraçar. de fazer ciranda no terreiro, de fazer ciranda a beira mar, de fazer ciranda em reunião, aula, o que for. gosto de blusa decotada. gosto de batom vermelho – mesmo esquecendo de usar. gosto de cafuné. gosto de pele com pele. gosto de fresta, de brecha, de fenda, de deixar em aberto. gosto do quem sabe. gosto.

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Tem, na vida, aqueles momentos que a gente já vive sacando que são “de cinema”. A luz é perfeita, os diálogos azeitados, até trilha sonora aparece. O duro é depois voltar pro dia a dia de programa de tv com baixo orçamento.

 

 

 

Jogando Bola na Rua ou o Golpe Nosso de Cada Dia

Faz bastante tempo que eu tive essa revelação: viver em sociedade é como jogar bola na rua. Depende, basicamente, que todo mundo concorde de agir e reagir mediados pelas mesmas regras. O que pode, o que não pode, o que vale, quanto vale.

Na pelada ideal o dono da bola não é escolhido só porque é o dono da bola, entra no par ou ímpar como qualquer um. Gol feio e gol bonito vale igual. É lateral, independente se a gente gosta ou não de quem bateu por último na bola e por aí vai. Além disso, e principalmente, não se mudam as regras durante a partida. Tá implícito.

E olha que a pelada convencional tá longe de ser inclusiva. Por exemplo, menina não joga. São muitos os excluídos, os marginalizados. Tem quem jogue de chuteira, uniforme oficial, tem quem entre descalço e de bermuda tactel. A gente pede, negocia, pressiona e vai ajustando uma regra e outra, devagarzinho. Muito, muito devagar. E o jogo vai sendo jogado porque, né, a democracia, opa, a pelada é a pior forma de governo, fora todas as outras.

Eu vivo encucada com o quanto a pelada na rua é de um frágil equilíbrio. Todo mundo tem que concordar, gente. Concordar com regra que me favorece, com regra que me prejudica, com regra que não ajuda nem atrapalha as pessoas mas serve ao jogo. Um monte de “tudo bem, se é pelo bem da partida, eu topo” e o quão displicentemente lidamos com isso. A gente bate bola e tenta o gol sem nem perceber o quanto de acerto prévio, cordialidade e respeito mútuo tem que estar presente pra garantir isso aí. Até o dia que dá ruim. Que furam a bola.

Tem umas ruas aí que o jogo é jogado a tanto tempo que as pessoas nem duvidam da importância dele. Gostando ou não, mantém a bola em movimento. Mas em outras esquinas, ah, em outras, é todo o tempo o risco de ultrapassar a risca. E se o dono da bola decidir que só ele escolhe quem vai jogar? Se o time com camisa tem que fazer três pra valer um e o time com camisa começa a fraudar a placar só porque está com os irmãos mais velhos e mais fortes ali do lado, dando uma força? E se o time perdedor resolver proibir os melhores do time adversário de entrarem na partida? E se a turma da liga do outro bairro resolver tumultuar as nossas partidas e mandarem os irmãos mais velhos e malhados deles influenciarem nossos resultados?

Sei lá, eu sou muito da galera que acha que quem tá na calçada esperando pela vez já devia resolver que não tem isso e entrar todo mundo agora-já-imediatamente e dane-se. Mas e depois? Depois tem que ir todo mundo pra casa, tomar o toddy, dormir descansado e no outro dia, combinar de novo o novo, par ou ímpar, vamos tirar o time. E retomar o frágil equilíbrio.

Sei lá se tem fim este post, tô engasgada, não pode ter a porra de uma alegriazinha que vem o sistema e lembra que nós tamo é fodido mesmo

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Coisas desconexas ou eu me dou mal até nos memes

Coisas desconexas que sei fazer: qualquer coisa que eu faça já que sou desconexa de berço.

Outro: as pessoas listando o que as marcou em cada ano desta última década e eu não consigo lembrar nem o que jantei no sábado passado.

Eu quero muito, muito fazer uma coisa. Essa coisa me assusta demais. Não é de bouas financeiramente. Aí eu não sei se estou pensando em não ir porque sou racional, ponderada e adulta e sei que não devo me endividar por um ano ou se estou desistindo porque estou com medo e estou disfarçando colocando a culpa na grana.

E eu sou gulosa, né, podia ser só o bolo mas eu quero com cobertura e cereja.

Luciana, não vi nenhum comentário seu sobre o óleo no litoral do Nordeste. É que eu não consigo gente. Não consigo. Eu tô morrendo junto.

É estranho como desejar uma coisa diferente pode soar ameaçador. Ou como as pessoas podem ser condescendentes imaginando que tem algo que é muito superior. Spoiler: não tem.

O que  tenho é esse livro Cobras do LFV, mas emprestei e não sei a quem, chuiff.

São tantas coisinhas miúdas… e a menor delas sou eu.

A humanidade sonha: viajar no tempo.
Digo eu: é fácil viajar no tempo.

Antes do protesto e das provas em contrário, reafirmo, é fácil viajar no tempo, é bem assim: uma noite estrelada e uma pessoa a mirar o firmamento. Eu. Ou você. Pronto. Os pontos de luz que atravessam nossa retina surgiram há milhares de anos. Algumas até já desapareceram. É isso, vemos e vivemos, ao olhar para estrelas, um evento que aconteceu há séculos. O tempo, o aprisionamos nos olhos ao bem abri-los. O tempo nos aprisiona em seu mistério ao bem fechá-los. Porque quando fechamos os olhos para melhor sentir seja uma carícia, seja um doer, queremos nos colocar fora dele – tempo – mas é justo aí que ele opera, passa sem o sabermos e logo há histórias demais em nossa pele. Somos transitórios, é o que o tempo nos diz e, ao dizê-lo em estrelas que deixam de existir quando ainda as vemos, oscilamos entre finito e eterno. É na beleza deste intervalo que a gente reconhece: ainda não, e nesta brecha a vida se sabe mais.

Contar o tempo em xícaras de café, folhas que se amarelam – nas árvores e nas mãos, em beijos, sabores na ponta da língua. Deixar que seja o corpo o que ele se encaminha pra ser e rir-se em rugas nos cantos dos olhos como se dissesse: o seu tempo é o meu. O meu tempo sou eu. Então, espero a noite, vou pra varanda, abro bem os olhos e vejo estrelas que sussurram historietas de olhares outros. É bonito isso, de não estarem mais em lugar algum e ainda poderem estar em tantos olhos distantes. Estendo a mão, simulando um toque que transpusesse espaços. Em vão. A mais imperfeita máquina do tempo é a saudade.

 

 

 

This is Us ou A memória é uma ilha de edição

Eu não ligo pra spoiler. Não me importo nadinha quando passam imagens que ainda não vi de algum filme ou série, não ligo quando alguém comenta que evento A ou B vai rolar. Não consigo lembrar de nenhum livro, filme ou série que eu tenha gostado que tenha sido prejudicado pelo fato de eu saber algum “o quê”. Entretanto This Is Us colocou em xeque, duas vezes, essa minha indiferença. Há, nesta série, duas únicas situações que eu suspeito que sim, que se eu tivesse assistido sabendo quem eram aqueles personagens, teria sido menos emocionante. Duas situações em 3 longas temporadas, nem sei se chega a ser suficiente pra configurar como exceção.

O fato é que (se você não viu o primeiro episódio da primeira temporada de This is Us – e pretende ver a série – sugiro não ler este parágrafo) o uso das linhas temporais distintas e descobrir que aquele amontoado de histórias se entrelaçava foi muito instigante. E isso dependia apenas disso: saber quem eles eram. O uso intencional deste mesmo recurso no primeiro episódio da quarta temporada foi ainda mais tocante.

Mas nem era disso que eu ia falar. This Is Us é uma série brilhante sobre miudezas. Sobre cotidiano, pequenas alegrias, perdas, trabalho, cólicas menstruais, afeto, mudar de cidade, empacotar e desempacotar itens pra mudança, encontrar parentes que nem se sabia que tinha, parir, adotar, cozinhar, ir a uma reunião de AA. É uma série sobre viver. E sobre as decisões, inúmeras e constantes decisões que tomamos e que nos tomam e nos dirigem a seguir. Ficar ou não em uma festa, cursar ou não uma disciplina, dar bola ou não pra um rapaz bonito e como isso é ao mesmo tempo insignificante e completamente transformador.

Tomamos estas miúdas e significativas decisões baseadas em um balaio de coisas, nossos valores, o momento que vivemos, nossas esperanças, medos, informações que dispomos e, também, nossa memória. Quem e como nos fizemos a pessoa que somos. Em This is us somos levados a nos envolver com uma família pelo que vamos descobrindo do que eles viveram. Aí vem um maravilhoso episódio na terceira temporada e dá aquela sacudida: a memória é seletiva, ela lembra de uma guerra de lantejoulas, ele lembra do pai, frustrado e zangado, jogando um prato no chão. Mesmo dia, mesma família. O que é mentira, o que é verdade? Importa pouco, importa como o que “escolhemos” lembrar (e essa escolha, como bem enfatiza o Randall, também é resultado dos afetos envolvidos e de como um tipo de sensação, boa ou ruim, é forte o bastante pra suplantar a outra) vai sustentando novas decisões que forjarão outras lembranças que levarão a outras decisões.

Estava conversando com a Ju Fina Flor e lembrei da situação entre Randall e Beth e como, em determinada discussão, ela começa a listar uma série de situações no casamento em que ela foi se adaptando ao que era melhor pro Randall.  E eu totalmente do lado dela, como numa claque eu gritava mentalmente: “separa! separa!”. Mas depois eu pensei: o que nós lembramos vai depender, também, não só do afeto do momento em que vivemos aquelas situações mas do afeto atual quando recontamos a história. Se hoje ela se sente pressionada a se adequar e se ressente de se sentir assim, o afeto vai colocar holofote em outras situações em que, se ela não sentiu assim, poderia. Mas, eis a minha questão, se no decorrer do relacionamento ela não viveu aquilo como adequação, perda de sonhos, whatever, é pertinente que se cobre que as pessoas que viviam aquilo com ela tivessem reconhecido e reagido de forma diferente? E, além, sendo a memória esta ilha de edição, não é possível pensar que, neste momento da briga, é perfeitamente plausível que se edite pra lembrar o que se lembra de acordo com o desejo presente?

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This is us é como a prateleira de vídeos feitos em casa, sem etiquetas e nas caixas erradas. Em cada episódio é como se sentássemos, puxássemos uma fita aleatória e nos encontrássemos com histórias incompletas, que dependem, em grande parte, do ângulo e das decisões de quem estava filmando, como se estivéssemos acompanhando uma conversa entre três pessoas, uma delas sai, a câmera acompanha aquela e ficamos pensando o que as outras duas continuaram dizendo ou quando estamos filmando uma criança fazer alguma coisa fofa aí ela cai e soltamos a câmera e nada depois daquilo fica gravado. This is Us deixa uma porção de frestas. Questões em aberto. Como foi mesmo? O que vai ser? Será que? Mas a vida não apresenta respostas lineares e a série também não. Cada fita caseira traz a história que narra mas traz, também, as emoções ligadas àqueles momentos, lembranças afins que não foram gravadas, brechas materiais para sabermos não só o que foi dito ou feito, mas como. Porque nos lembramos disso e não daquilo? Gosto que na série tem muita coisa aleatória e sem sentido – como na vida. E, tal como na vida, a gente busca dar um significado a estas coisas, porque é impossível simplesmente lidar com o é da coisa. Mas o sentido que encontramos, que tecemos, é sempre cobertor curto e não é único, depende da forma que cada um encontra pra lidar com o viver.

Daí reli o texto e o que achei que era um prefácio descontextualizado está inequivocamente relacionado ao que gosto tanto em This is us: a série é um spoiler ambulante. O presente nos conta infinitas coisas da linha temporal do passado. De repente uma conversa aleatória do presente nos conta que alguém morreu, casou, teve filho, se mudou, brigou, sei lá o quê e bola pra frente. Momentos “criticos”, reviravoltas, plots twits e tudo que poderia ser UAU simplesmente surgem num papo. Em This is us não é o que aconteceu que importa, mas o como, o caminho, a jornada de cada um, os afetos que se vincularam ao evento, como se lembram, como reagem, como seguem.

This is Us é um dramalhão feito pra gente chorar e empilhar saudades do que foi, do que podia ter sido, do que devia ter sido? É sim. Mas é feito com graça, com elegância, com suavidade,  afetos, com belezas. Sou ligada a eles de forma tal que até pra escolher as fotos desse post eu chorei. Que bom sentir tanto assim.

PS. Em outra conversa com a Ju (essa linda) fiquei pensando sobre como se sentir amado, aceito, impacta na vida de Randall (e na minha). Como somos um tanto egoístas. E como, também, achamos natural, fácil, aceitar que nos amem e acreditar que as pessoas merecem ser amadas. Lá pela terceira temporada, Deja fala como pra ela foi impactante a forma fácil como ele a elogiou, como disse que ela era especial, não como um favor condescendente ou uma grande revelação, mas como uma constatação – e como isso era enorme e transformador. Os personagens de This is us merecem outro tanto de posts, els são absurdamente complexos e adoráveis. Só de ver o trailer da temporada já me comovo:

“Te amo com a memória, imperecível”

Faltam menos de duas semanas para o início dos Jogos Pan-Americanos e o canal Sportv está com uma chamada que apresenta ex-atletas que atuarão como comentaristas. Cada um deles segura, inicialmente, um objeto que remete ao seu esporte, aí tem uns escuros, um palavreado e depois o atleta solta este objeto e aparece com o uniforme do canal. Eu choro, claro. O esporte sempre me comoveu mas de uns tempos pra cá tenho ficado mais e mais sensível.

O esporte me enternece um tanto pela beleza do que um corpo humano pode ser e fazer. É plástico, é intrigante, é desafiador. E, muitas vezes, um pouquinho estranho e divertido. É bonito. Mas não é só. As olimpíadas, pan-americanos, mundiais, estas disputas falam sobre pessoas desejando ser mais. Mais que elas mesmo. Falam de treino. Falam de referências. Falam de inspiração. Falam de falta. Cada atleta em quadra ou campo me atinge pelo que faz mas também por todas as lutas e anseios que não puderam ser. Quando alguém faz bem feito parece sintetizar o eterno. Por exemplo, não sei quem inventou o tênis mas ao ver Federer em quadra tenho a certeza de que o jogo foi criado para que um dia ele o jogasse. Não importa o resultado de cada partida, o que Federer faz é arte.

Tal como a arte o esporte é aquela coisa tão completamente humana, tocante porque absurdamente inútil. Pratica-se esporte como se pinta um quadro: porque sim. Porque é humano expressar o que não se pode definir. Porque somos o nosso corpo embora ele não seja tudo que somos. Ou podemos vir a ser. Os atletas são super humanos: correm na velocidade que não alcançamos, saltam em alturas que não alcançamos, chutam, nadam, pulam, fazem coisas em ritmo e velocidade que não fazemos. Mas são super humanos também no que essa expressão traz de ambiguidade: são tão humanos, são muito gente. Sentem medo, erram, confundem-se, enfiam o pé na jaca, falham. E reconhecem a incompletude de ser humano e por isso seguem treinando, jogando, tentando, sonhando.

Esse meu sentimentalismo é um pouquinho ridículo, eu sei. Choro mesmo. Choro muito, choro cada vez mais. Fiz as pazes com isso ao ir percebendo que as lágrimas não são exatamente pelo que está sendo, mas pelo conjunto de ternuras que fui arregimentando ao longo da vida. Quando se é mais jovem cada coisa tem apenas o peso do que é. O tempo vivido vai dando camadas ao momento atual e as coisas que são são muito mais pelo que já foi. Choro hoje por todas as partidas que vi, por todos os atletas que admirei, por todos os títulos perdidos, por todas as vitórias alcançadas. O choro da alegria de hoje é potencializado por todo o riso que já sorri e o choro da desilusão hoje é o abismo de todas as derrotas, todos os fracassos, todos os impossíveis. Choro por todas as lucianas que fui, por todas as emoções que senti e continuo sentindo, porque o que a memória ama, disse Adélia, é eterno. A emoção que encontro no esporte é fora do tempo. Cada lance, cada jogo, cada campeonato é único mas é, também, a síntese da eternidade de todos os campeonatos, de todos os jogos, de todos os lances. Enquanto eu for, este amor é.

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Beliscão

Quando meu filhote era bem isso, um filhotinho recém-nascido, com uns dias, umas semanas, sei lá, minha mãe me perguntou: filha, será que a gente não devia beliscar o Samuel? e eu: heeeiiinn? why? e ela: não com muita força, só pra saber se está tudo bem, afinal a gente nunca escuta ele chorar (e é verdade, eu sei que ser mãe e pai de bebezinho pode ser dureza mas não foi assim pra mim). Eu não concordei com o beliscão e disse que, ué, ele não chorava porque não precisava, tava sempre de bucho cheio, roupa seca, banho tomado, sono em dia e tal. Que a dor viria, porque viver dói, ele não precisava que a gente precipitasse o que era inevitável.

Em outro tempo, uma amiga que eu amo muito me perguntou: Lu, tu não fica mal nunca? Às vezes dá vontade de te sacudir pra saber o que tem atrás deste sorriso.

Corta pra hoje. Baby (que já não me considera amiga), a verdade é que o que tinha por trás do sorriso era outro sorriso, afinal eu andava banhada, comida, dormida. Pra quê que eu ia chorar? Mas taí, você não me sacudiu mas o mundo me beliscou. E nem foi devagarzinho e como experiência, como minha mãe ia fazer com o neto que ela ama, nem foi por cuidado ou preocupação. Não, arrancou pedaço e se eu não tomar cuidado, infecciona.

Hoje foi um dia bom. Dia de luta. Gente na rua (adolescente é engraçado, de um em um tem chance de eu gostar muito; em multidão: adoro; em grupos médios: socorro, alguém me tira daqui). Palavras de ordem. Resistência. Mas é angustiante como a realidade se assemelha com aqueles filmes-catástrofe em que a mesma quantidade de alimento parece sustentar os personagens por períodos cada vez menores de tempo.

extensão (13)

Não é que eu seja niilista. Acredito na luta. Fé no homem, fé na vida, fé no que virá. O que dói tanto não é a incerteza do que faremos do futuro mas a tristeza de saber como perdemos o passado.

“E esse aperto no fundo do peito, desses que o sujeito não pode aguentar…”

Ou, de outro jeito: vem aí um fim de semana que quero muito, que me anima e comove e mesmo assim nem consigo levantar e arrumar a mochila.