E na hora do enlace…

Seria só um assim, cerveja ou café, um chegando no depois do outro, o passo entre o contente e o incerto, o abraço desajeitado dos corpos aprendizes, sem um saber de onde colocar mãos e desejos. O sentar quase ao lado, a mesa quadrada, os joelhos se tocando na ponta dos noventa graus. As palavras, que nunca serão lembradas com precisão nos futuros, servindo de véu, enquanto na língua que insinua sua ponta úmida, no bater mais acelerado das pestanas, no entreabrir da boca, na pequena dilatação do nariz, nos dentes que mordiscam os lábios, na voz um tanto mais baixa convidando à aproximação, confessam-se.  Você não ia ler minha mão? E agora a gente acredita? Precisamos. Então, simO verso sobre a palma, uma pele seca e quente, a outra macia, o dedo percorrendo as linhas como se borrasse fronteiras. Entrelaçam os dedos, suponho. Pagam contas de bebidas que não beberam, comidas que não mastigaram, atendimentos que não precisaram, pois eram esperas e vontades e só. Vagam ruas. Procuram, enfim, reserva e meia luz e portas com chaves e camas, Num sem fôlego despem roupas e vidas lá fora e entrelaçam pernas e histórias. Sentem gostos e alegrias e se afogam e se perdem e se provam e se mordem e se tocam até que, quando já estão tão abraçados que não há espaço para culpa ou indecisão, se beijam. Sopro. Como se dessem a vida a uma frágil, delicada, rara possibilidade. E, libertados, morrem um pouquinho um no outro. E outra e outra e outra vez. No depois dos suores e cheiros e aconchego e cochilos, ela vê a réstia de luz avançar no quarto e tocar um pequeno franzir na testa dele e, antes que a preocupação que chega vire tristeza, ela espana com os cabelos a ruga e desce esfregando nariz no nariz e morde o queixo e beija o peito lá onde o coração soluça e distribui risadas e roupas onde foram carinhos. Se os corpos que voltam pro mundo não se roçam nem num acaso, é que já não precisam, tão dentro um do outro. Na frente do mesmo bar, um abraço, com corpos que já se sabem, nem despedida nem promessa. O incêndio de um amor.

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Acontecesse (Bruno Batista)

Se um dia acontecesse
De nós se amirar
Um cadinho que sêsse
E se acaso ocorresse
De tu se engraçasse
E eu correspondesse
E nós se aprumasse
E se desgarrasse
De qualquer devesse
E na hora do enlace
Eu não me furtasse
E tu me arrecebesse

E nós se empariasse
Tu me trespassasse
Eu não me contesse
E eu mais tu se embrenhasse
E nem assuntasse
De tanto quererse
E adispois começasse
Teus óio virasse
Minhas pernas tremesse
E se o Diabo gostasse
Deus escutasse
E um anjo descesse.

E achegasse num susto
E com muito custo
Nós se apercebesse
E ele arresolvesse
Arrastar asa pra tu, e eu vêsse
E o safado eu maldasse
(Que Deus perdoasse)
Eu ensandecesse
E o anjo depenasse
Ele gargalhasse
E arrespondesse:

“Fui pro céu por acaso
(Um caso com uma santa estrangeira)
Os donzelo odiaram
E me agarraram com uma padroeira
Então fui rebaixado
Pra Anjo da Guarda das Virgem Embusteira
E agora depenado
Vou virar beato
Das alcoviteiras”.

Equívocos

Essa semana talvez eu tenha sido um pouco indelicada em um grupo, totalmente sem querer (posso ser indelicada querendo, é raro, mas acontece). Uma das pessoas estava relatando o tempo que leva pra fazer as compras, em tempos de hipercuidado com o corona vírus e vários outros confirmando, máscaras, álcool gel, não entrar no corredor que tem muita gente, limpar o cartão de crédito depois do uso… daí eu perguntei: mas, vem cá, aí não tem entrega? Claro que tem, né, dãaa, luciana. Cidade muito maior que a sua. Mas um único supermercado não tem tudo que eles precisam. E pedir por imagem não é a mesma coisa que apalpar a fruta, verificar seu cheiro, etc. Desde que começou isso da infinitena eu desenvolvi uma forma de lidar com o mundo, inclusive compras: diminuir as interações ao mínimo do mínimo e aceitar que isso traz limitações. Em relação ao supermercado: reconhecer que não vou conseguir comprar tudo que quero ou acho que preciso, que alguns itens vão acabar antes de outros e eu vou passar um tempo comendo coisas mais sem graça, sem verdinhos; que os produtos que vão chegar não vão estar exatamente como eu os escolheria. Essa é a pegadinha, né? Não perceber que o nosso jeito é exata e apenas isso: um jeito, nosso.

(eu sou antitotalitarismo, viva a liberdade, etc, mas bem me apetecia uma política pública clara, nestes tempos, para mediar os “jeitos nossos” e evitar essa inclinação ao moralismo e julgamento do viver alheio)

futuro

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Passou por mim uma discussão sobre ser ou não pedante e eu ri porque, né, sou mesmo é deslumbrada.

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Todo dia acordar no mesmo dia não ajuda quem já é um poço de preguiça.

Eu admiro todo mundo que ainda estuda e, mais, quem ainda aprende. Eu, agora, só troco a água.

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Amar é fácil. Ser amada é um pouco mais difícil (sim, também no sentido de que é difícil  ter alguém que nos ame, mas eu estava pensando mesmo é no quanto é difícil aceitar amor. Aceitar ser amada como o outro ama e não como esperamos ser amados. Não como nós próprios amamos).

Você olha para a página em branco do word, ela olha de volta pra você, zombeteira. Você tenta disfarçar a incompetência colando trechos de artigos e livros que deveriam fazer algum sentido. A página gargalha. Você pensa, com inveja, nas pessoas que escrevem à mão e podem, nesses momentos, amassar a folha com determinação.

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Desde que começou a infinitena tenho lido bem menos, não vi quase nada de filme ou série, atividades que me eram costumeiras. Por outro lado, eu, que não tinha o costume de ouvir música e muito menos de cantar passei a fazer as duas coisas com espantosa regularidade em grande parte do dia. Isso estava me encafifando. Daí hoje, aos berros, me ouvi, no meio de uma canção do Ednardo. É engraçado e triste o óbvio, né: porque cantar parece com não morrer, é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão.

Estive relendo meus posts do começo da quarentena (ainda chamávamos assim) e, olha, como eu era ingênua. Quantas esperanças eu tinha.

Mais de 97.000 mortos. Não é inevitável o que atravessamos. Para não esquecermos que são pessoas, não números: inumeráveis. Para lembrarmos que havia caminhos e opções: a geografia macabra da covid-19.

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Uma das coisas bonitas de cozinhar só pra si mesma é poder usar largamente o tempero popularmente conhecido como “porque eu quis“.

Fato: invento motivo pra gostar de praticamente tudo que leio.

A voz da Mônica Salmaso é como uma carícia com dedos calejados. A gente geme, meio dor, meio prazer. E vive esperando por um pouquinho mais.

Cada dia eu vou no pêndulo do sofrer: a dor de todo o mundo, das mortes, dos que ficam, familiares e amigos, do cansaço dos profissionais de saúde, das pessoas que vão carregar as sequelas do covid até chorar de soluçar porque queria comprar uma passagem ou passar um fim de semana em Canoa.

nao aguentar

 

Cem

“As aparências enganam mas enfim aparecem,
o que já é alguma coisa
comparado com outras que nem isso”
Leminski

100 dias, pelas minhas contas. Uns 100 anos de solidão, fácil, fácil.

A pia está limpa mas a casa continua uma bagunça (atualização: a pia estava limpa, quem mandou não publicar o post naquela hora?)

Quando 20 anos parecem uma semana. De onde mesmo eu tirei essa ideia de votar à análise?

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Esses dias amiga publicou um link que dizia que refizeram as contas e a previsão dos maias pro fim do mundo havia sido corrigida, não era 2012 mas esta semana. E tá correto, né? O mundo acabou. Não foi em fogo, conforme prometido no pós-dilúvio, foi afundando na ignorância. Areia movediça de capitalismo, indiferença, crueldade, arrogância e uma certa tosquice de se achar mais merecido. Quanto mais a gente se mexe, vai a shopping, festa, suruba, vai só ali dar uma voltinha na esquina, apenas um cafezinho com os amigos, mais rápido a gente afunda.

Eu não aguento mais a expectativa. Vivo tensa como uma corda muito apertada de um violão. Qualquer hora, arrebento.

Peguei tarefa de casa. Já esqueci o que é.

Como saber que é junho sem fogueira, sem canjica, sem vatapá e paçoca, sem forró machucando no miudinho, sem bandeirinha, sem mugunzá salgado, sem madrinha de fogueira, sem sanfona, sem chita, sem rua, sem casamento, sem sardinha, sem marcha ou quadrilha… não há calendário que me convença que é junho, que já foram antônio e joão e logo chega e passa Pedro, não há calendário que seque o rosto, não há calendário que console, conforte, não há dia depois do depois que compense a festa que não foi, sinto que se esgarça a relação linear com o tempo, presa num infeliz dia da marmota em que não aprendo nada com o vivido, mas os terrores se renovam, se aprofundam, se agudizam.

Um analista politizado é outra coisa, bebê.

Cansada de perder o bonde, o timing, o ritmo, a crista da onda. Mentira, cansada de saber que perco. Quando não sabia, não incomodava. Covarde? Sim. E preguiçosa. Pode alinhar defeito, o que falta em classe e virtude eu preencho com mau jeito. Um ou outro olhar generoso e alguma vontade de agradar eventualmente me mantém no rumo. Mas ando esmorecendo.

É engraçado rever episódios da temporada 1 de Criminal Minds e perceber como o Reid tinha um papel “pequeno” (mas já era meu favorito) sabendo o que ele representou nas temporadas seguintes e no que se tornou nas últimas. E porque eu tô falando isso? Por nada, não, só pra ter motivo de espiar fotos dele no google.

Não tenho mais nada pra dar. Nenhuma palavra, nenhuma beleza, nenhum conforto. Talvez eu ainda. Mas nem sei.

Uma viagenzinha, mesinhas na calçada, uma noite que não acaba. Queria.

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Então eu vou deitar e dormir. Só me acordem quando for dia. Não um, aquele, o dia do riso nas ruas, dos corpos em festa, dos gostos e dos gozos, da música nas praças e da fonte jorrando cerveja. O dia depois do depois.

Caraminholas

98o dia de quarentena (ou algo assim), mais de 50.000 mortos e, como na canção, “esse silêncio todo me atordoa”;

Pra tentar tirar a cabeça da imensa angústia do desamparo de nossa população nessa situação de pandemia, tem gente fazendo yoga, zumba, curso de cabala, aprendendo mandarim, eu estou lendo romances policiais e me entretendo com reflexões dessa natureza:

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Outra: as pessoas falando de Kopenhagem, eu lembro do único chocolate que realmente gosto, um negócio da Lindt com sal. Vou olhar no google e está confirmado, nunca mais como chocolate, uma barra é 30 reais, pelamor, o preço de um presente de Natal.

Eu estou preparada pra ficar por aqui, quietinha, trancada, quanto tempo for necessário, mais dois meses, quatro, um ano. Mas que vontade dolorida do mar.

A amiga me avisou da estréia e aqui estou eu esperando o primeiro episódio de Perry Mason. Intervalo, paro aqui, vou assistir. Vi. Pesadão.

Se eu pudesse. Se eu soubesse. Se me fosse dada a arte. Eu faria, do dolorido, vínculo. Vou aprender kintsugi.

Porque era noite e sem lua, ela apagou as luzes na casa e acendeu anseios. Porque era noite e havia sido dia, ela aceitou as dores nos ombros, o peso das pernas, o aperto no peito. Porque ela era sua própria noite, fechou os olhos e se deixou escurecer. E sentiu. As sombras. A dor. A solidão. O desejo. Porque eram noite, em coragens percorreu seus breus e vazios. Acolheu-se. Abriu os olhos e se soube madrugada. Sorriu, leve, caíam-lhe bem as cores.

Status de segunda: muito encantada por essa canção do Bruno Batista

 

Esticando a baladeira

Quando não tem olho que olha, a gente vai perdendo contorno, meio desaparecendo, deixando de ser, será? Poder estar no teu olho, na tua mão, na tua letra é um pequeno, mas valioso, balão de oxigênio.

E, sim, hay desejo acá, mas nem é disso que se trata. É a sorte imensa de poder ser.

É bonito ir construindo um mundo de imagens e letras e cores e confiança e aceitação e leveza e sei lá quantos nomes mais pra dizer o que não tem limite, caixinha, registro. Gosto demais que sejamos operários juntos.

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Na editoria vizinha, meti o pé pelas mãos.

Não devia ser mais fácil? Ou eu que ando me cansando logo?

Por outro lado um quero você e tem que acabar a quarentena acho que eu gosto mesmo é de você , então nem tudo está perdido.

E essa lista do que quero fazer depois de só aumenta (especialmente a parte 18+)

No fim, no fim, eu estico demais a baladeira.

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Termos novos que detesto: empoderamento, narrativa, privilégio, romantizar. Termo que tenho xodó: disputa.

Uma ideia bem louca, mas um nome tão bonito, seria uma pena desperdiçar.

Amanhã começam as aulas e eu tô como? impressionadíssima que dá pra ficar mais preocupada com o primeiro dia que nas aulas tete-a-tete.

Eu parei de contar os dias da quarentena.  Os dias estão cada dia menos cada um.

Quantas pessoas morreram vítima do corna vírus, é a pergunta que a gente tende a fazer pra lidar com o horror. Mas é impossível dizer, engasgo, me comovo, me enraiveço, fico completamente desmantelada, é impossível dizer um número – não pela subnotificação – mas porque são inumeráveis.

O podcast Elástico Mental teve uma conversa ótima com o Tiago Nacarato (sim, aquele moço bonito do The Voice de Portugal que cantou Onde anda você) e o melhor de tudo é que saí de lá com um encantamento novo: o moço Luca Argel que faz um sambinha tão engraçadinho, tô toda na dele.

E eu que nunca imaginei, agora imagino. Em camas voadoras.

Estou apaixonadinha pela minha paixão por você. Todo dia vou te encontrar no fim da tarde, começo da noite. Você não me sabe, mas talvez escute os suspiros (mentira, vai escutar nada, se belisca logo, luciana, coração, opa, bola no mato que o jogo é de campeonato)

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Eu já senti todos os medos, eu já gozei de todo jeito, eu já morri no fim da história, eu já furei corações com salto fino, eu já toquei todos os corpos, eu já sangrei por todos os cortes, eu já conheço todos os gostos, eu já bebi todos os venenos. Eu já beijei todas as bocas. Eu vi o filme da Binoche. Eu sobrevivi.

Ela não disse nada disso, claro, esticou o braço, ofereceu a mão, um lado do rosto, roçou com os lábios o rosto dele, muito prazer.

 

Forró e outros entranhamentos

Dançando na sala como se fosse verdade que seremos num mesmo salão, suor, ritmo, o roçar, pele, cheiro, vontade.

Todas as fogueiras que não foram na festa de Santo Antônio, queimam em meu peito e sua fumaça embaça meus olhos.

A quarentena me levou os filmes, as séries. Deixou, com parcimônia, livros. E me fez ser a pessoa que escuta música e monta playlists. Uma estranha.

Em algum lugar de mim, uma esperança. Em algum lugar de mim, uma saudade. Em algum lugar de mim, rumores, memórias, histórias. Nesse lugar, ou em outro? desejos. Que não ouso nomear. Em algum lugar de mim, risadas, portas e janelas escancaradas. Há cores e cheiros, como em uma cozinha. Em algum lugar de mim, sombras. E dores. E corpos estendidos, eu ignoro os abismos. Os que me acompanham, às vezes, precisam saber voar. Eu aprendi a morrer, já que não me cresceram asas. Em algum lugar de mim, o pranto, a perda, o peso. Em algum lugar de mim, a coragem. E os passos, que um dia eu quis que fossem de bailarina. Em algum lugar de mim o que se joga, o que procura, o que anseia. Em algum lugar de mim o que aceita, o que liberta, o que permite. Em algum lugar de mim, as palavras. Até que em algum momento, eu não esteja em lugar algum. Aí, o silêncio e fotos desbotando.

Fiz nhoque de batata-jerimum e duelam em mim um certo orgulho e a estranheza por passar tanto tempo pra preparar batata.

Pensando (e como não?) em tudo do agora, lembrei das crianças presas na caverna inundada na Tailândia, o quanto parecia difícil o resgate e como uma série de ações bem planejadas e bem executadas acabaram por salvá-las (não sem a morte de um dos mergulhadores voluntários). Não, não elaborei nada sofisticado, só vou deixar essa memória aqui, pra me lembrar do que não está sendo feito e dos efeitos que poderia ter.

Me enervam os novos amores, me cansam os velhos. Encontro algum conforto no quase não-desejo bem humorado que vai e vem em preto e branco.

Eu digo que não vejo live mas basta o Diogo Nogueira dizer “a” e eu tô lá, toda molinha. Também dancei com o Waldonys e, de vez em quando, apareço na sala da Teresa Cristina.

Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, há gente de uma matéria indefinivelmente especial.

O Dunker disse: “sem a palavra o amor não acontece”. É ao dizer você, que me torno cativa.

Eu sei, eu sei. Não é culpa sua. Nem minha. Nem nossa. Apenas não é. Não somos. Reza quem é de rezar, brinca aquele que é de brincadeira… é que eu sou festa pra uma noite inteira, mas você tem que sair logo, trabalha cedo amanhã.

É bem divertido ver um conto espalhado ao redor de uma frase que foi sua.

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Assim: acordar cedo e levantar tarde, porque sempre há o que fazer com o tempo na cama. Você, cozinha. Eu, banho. Você, chá. Eu, café. Você, cereais e iogurte. Eu, pão na chapa. Você, em pé, o ar pensativo me contando que já não está aqui, deve estar no escritório ou no fórum, uma lista de tarefas e obrigações fazendo sombra em seu rosto. Eu, seu roupão grande demais, uma perna dobrada em cima da cadeira, o queixo apoiado no joelho, os cabelos pingando, ainda estou na cama. A única refeição que fazemos em silêncio, talvez por estarmos em lugares diversos. Você deixa sua xícara sobre o balcão e avisa do atraso, do banho a tomar, do tempo que precisará ficar fora,  que traz o que fazer pro almoço, mas suspende palavras e ato, para atrás de mim, escorrega os dedos longos entre os fios e sacode meu cabelo murmurando alguma coisa sobre não ficar molhada no frio e eu me inclino pra roubar um pouco de você do dia e suas responsabilidades. Eficiente, você logo segue e eu mais uma vez não digo que fica mais frio quando sua mão me toca e me deixa mas é tão bobo que sinto renovada a alegria de esquecer sempre e tanto. Escuto seus ruídos no banheiro, as roupas sendo tiradas, o chuveiro ligado, pego outro café, vou pra varanda dos fundos e acendo o único cigarro do dia, fazendo um smog de névoa invernal, o ar quente da minha expiração e a transmudação do fumo, espirais de futuros impossíveis.

 

Teresa, unhas vermelhas e toda a dor todo dia

Você só quer me comer. Acho pertinente. E fico. Podia ser tão melhor, depois. Mas você nem cruza a vista. Queria explicar que sou a Teresa naquele momentinho que Tomás a vê dançando com o colega. Eu me ajusto. Não tinha de ser você. Mas é. Era. Foi. Você podia aproveitar mais.

Fiz uma lista no spotify e depois reparei que nunca fiquei tão nua.

Vocês também tiram o sutiã pra respirar melhor?

Um grito até que teus ouvidos não soubessem ouvir outra voz que não a minha.

O engraçado de fotos antigas é re-conhecer que fui uma mulher de unhas vermelhas.

Nelson Rodrigues diz que “depois de matar, o criminoso se torna secundário, ou nulo, e repito: some como se jamais tivesse existido”. Parece-me, a princípio, que assim é com o escritor. Ele não importa, o que importa é a sua escrita. Ou, antes, o que importa é o que está escrito. É o texto que é, não o autor. Digo, reluto, e retorno. Flaubert me vem: Madame Bovary sou eu. O escritor é o criminoso rodrigueano, mas é também a vítima. Ele está no dito mesmo que não se confunda com ele. Quem se equilibra na ponta da pena e faz, dela, lâmina, pra escrever o último bilhete. Se possível, unhas vermelho sangue.

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Tem coisas que pararam de me magoar e eu faço apenas um juízo estético mesmo. Aquele “que deselegante” encontrou seu lugar em mim.

Status: murchando.

era uma vez uma esperança. era.

ganhei a serenata. se eu não fosse quem sou, ficaria mais feliz?

não é que eu quisesse comer cheesecake. eu queria era sentar no apertadinho do “Melhor Bolo de Chocolate do Mundo” depois de bater perna em Campo de Ourique.

Me mandaram me cuidar, comer e tal. Obedeci. Uma vezinha só no dia, mas ganho estrelinha pela intenção, acho. Eu tenho um certo receio de comer/fazer as comidinhas que gosto. Por um lado eu sinto que me confortam, me acompanham, me sustentam. Mas tenho medo de num dia que será – se vierem a ser – elas saberem sempre a solidão, angústia e perda.

De tantas coisas que sinto nessa quarentena, o que não sinto é tédio.

Não tivemos, não temos e não teremos ações que possibilitem à maior parte da população ficar em casa. Não tivemos, não temos e não teremos ações significativas de proteção, cuidado e amparo aos profissionais dos serviços essenciais. Não tivemos, não temos e não teremos um governo federal que coloque o Estado à disposição para cuidar, proteger, zelar pela população. Resta ficar apelando para a sensibilidade individual dos poucos que podem, podem inclusive ficar em casa. E isso faz tudo doer ainda mais. Mais de 1.000 mortos em um dia. E todo mundo falando em reabertura. É angustiante. Lá fora Polícia Federal, operações com mortes no Rio de Janeiro, o policial branco matando um jovem negro nos EUA. Que ainda seja a vida de sempre é espantoso. Mas me expresso mal: a morte de sempre. A indiferença de sempre à morte de quem “não importa”.

L’appel du vide

Canção da Despedida é das coisas bonitas que a gente aprende com Geraldo Azevedo na voz da Elba. Quando eu era novinha, cantava assim: “amor, não chora, que a hora é de beijar”. Talvez eu soubesse coisas sobre mim que ainda eram só promessa. Talvez eu tenha me inventado aí.

Status: um pouco Scarlett.

Você está na posição exata de um ladrão que foi pego em flagrante e não se arrepende de ter roubado, mas está terrivelmente arrependido porque vai para a cadeia” – Reth não amaciava, não é mesmo?

Se fosse hoje, a roupa da cama trocada, a pose ensaiada, a casa arrumada. Se fosse hoje, a alma tranquila, a sede contida, a palavra escolhida. Se fosse hoje, sabendo pedir, sabendo ceder, sabendo querer. Se fosse hoje, o ontem.

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Como é mesmo o negócio? Quando a gente olha muito tempo pro abismo, ele retribui o olhar. E anexa um convite. Tem essa vontade, infantil?, de ocupar os vazios, de completar o que falta, de tampar a panela, vedar as brechas. Vertigem. É um risco, mas a gente balança. Tá lá o abismo, tá aqui a gente, entre nós o laço do olho que é olhado. Tênue equilíbrio.  Quem pisca primeiro? O vácuo convoca. Entregar-me de olhos abertos ou fechar o olho, recusar o apelo, um passo atrás e o suspiro?

Talvez um pouco arrependida de ser eu demais.

É tão estranho sentir uma tristeza outra, uma tristeza egoísta, mesquinha, particular, embaraçada, íntima. Uma tristeza pessoal como bater o dedão no pé da mesa, ninguém pra culpar, a impossibilidade de partilhar, quando foi que eu fiquei tão sozinha assim?

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Em outra editoria, a angústia nossa de cada dia.

Morreu Sergio Sant’Anna. Meu céu mais e mais escuro.

Dia das Mães e a impossibilidade de falar de felicidade. De falar, de desejar, de sentir felicidade.

E aquela raiva de todo dia, o dia todo. Quando eu era criança ou pré-adolescente, não lembro ao certo, passava aquele seriado do Hulk. Eu me comovia sempre quando ia terminando o episódio e ele seguia, sozinho, em estradas dolorosamente desertas. Intuía que o viver tinha uma sombra que era exatamente isso: estamos sós. Nunca pensei que um dia me identificaria com Bruce Banner e seu segredo. Eu agora também estou com raiva o tempo todo.

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De perto, ninguém é

Se você entrasse na minha casa, agora, ia perceber, já na entrada, em cima do aparador, um frasco de álcool gel. Esticando a vista, olhando em frente, em cima da mesa da cozinha, três ou quatro pacotes de farinha de trigo, um de feijão, milho, massa de lasanha, pacote de papel toalha, um vidro de azeite e mais um monte de outras coisas, como se alguém tivesse acabado de chegar do supermercado e estivesse desfazendo os pacotes. No chão do escritório, sacolas com outras compras “de castigo”, antes de serem higienizadas para serem utilizadas.

Um balde de roupa suja fica do lado da porta da cozinha, pelo lado de fora, quando termino de higienizar qualquer coisa, me dispo ali mesmo antes de entrar em casa, pelada. Há um par de chinela também ao lado da porta, ela é usada só do “lado de lá” e tem a outra pra usar do lado de cá.

Se eu pedi as compras na quinta passada (e elas chegarão só daqui a uma semana) e nesse ínterim percebo que esqueci algo como fio dental ou creme de leite, paciência, são cerca de três semanas antes de pedir qualquer coisa de novo. Eu podia pedir o fio dental na farmácia, claro, ou já fazer nova encomenda ao mercadinho. Podia pedir comida diferente, quando enjoo do meu tempero, pelo ifood. Podia guardar as compras todas nos potes e prateleiras da cozinha, podia arrumar a sala. Podia encomendar pão.

Moro só, seria razoavelmente confiável me proteger nestas interações, máscara, álcool gel e afins. Podia deixar minha casa arrumadinha, “aproveitar o tempo”, guardar tudo nos seus potes e prateleiras. Se se tratasse só de mim. Se não pedir coisas o tempo todo pela internet tivesse relação com mais ou menos conforto e não com diminuir a circulação das pessoas.

Podia manter uma rotina, como vejo tanta gente recomendando por aí. Mas eu não consigo. Porque o que estamos vivendo, e apesar das facilidades da minha posição eu não esqueço que também estou vivendo isso (com as especificidades que meu conforto e privilégios oferecem), é uma situação excepcional. Uma situação dolorosa, que altera planos, projetos, costumes. Uma situação invulgar que deixa tudo fora do lugar (embora, tal como n’ O Leopoardo, com alguns elementos estanques, como os efeitos devastadores da desigualdade social).

Quando eu percebi que não estava deixando as coisas com cara de normal, comum – veja bem, não é que a casa esteja arrumada ou bagunçada, ela só não está com a cara do “de sempre” – me perguntei por quê. Se, sei lá, estava mantendo tudo desse jeito para que me lembrasse de como está o “lá fora”, ou estava sentindo culpa e me punindo por poder me proteger e cuidar quando tantos não podem? Passou um bocado de coisa pela minha cabeça, inclusive que podia ser só preguiça, né. Acabei por achar que é sintoma, mesmo, na sua extensão de sentido, algo que manifesta outra coisa, que alerta, um sinal, um traço, um indício. Não é um para, é um por quê. O meu porquê.

Estamos em uma situação excepcional, invulgar, dolorosa, sim, sim, sim, mas, principalmente, preciso acreditar que é uma situação transitória. As sacolas no chão do escritório, as compras sobre a mesa e todos os outros elementos que evidenciam a quebra da rotina são sintoma dessa esperança (que às vezes sinto desaparecer e fico oca) de que isto que vivemos (ou que morremos) é provisório.

Leio bastante que “este é um momento de incerteza”. Não consigo entender assim. Não consigo vivê-lo assim. A vida, regularmente, é incerta. O imprevisto, o inusitado, o acaso, são sempre presentes quando a vida corre solta. Eu cresci ouvindo que a “única certeza é a morte”. Sinto que este não é um tempo de incerteza, de acaso, de inesperado, é um tempo de morte. Espero que seja um intervalo.

Porque sendo provisório o que vivemos agora – e apenas se – você nunca verá esta casa assim, como está agora que escrevo este post. Verá objetos insólitos sobre o aparador? Sim. Haverá coisas em cima da mesa da cozinha e espalhadas pelo chão do escritório? Provavelmente. Esbarrará em mim andando nua pela casa? Não há dúvida. Mas não será uma casa em suspenso, distante de si mesma, de mim, uma casa bunker.

Então eu desejo isso: que você veja minha casa como nós somos.  Parece simples, mas é imenso, você estará aqui, eu estarei aqui, a ameaça e o medo, não.

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Quem está contando?

Quarentena, dia 19 ou 20 ou 21, afinal, quem está contando? Você está, sua ridícula. Praticamente a única coisa que você tem feito já que não passa da segunda página do livro novo, não consegue ver mais que dez minutos de filme, não começou ainda a série do Freud, não faxinou a casa toda, não descobriu a cura do câncer nem pintou um quadro icônico.

Os otimistas dizem que vem aí um novo mundo. Os pessimistas também. E, olha só, também eu. A diferença é que eles sabem descrever, otimistas e pessimistas, como este novo mundo será. Não tem dúvidas, ou tem pouquinhas. Eu só consigo dizer que será outro. Nenhuma palavra a mais.

Tenho evitado botecos virtuais com amigos. Sinto que não tenho nada a dizer aqui e, provavelmente, não terei nada a dizer em interações. Uma vida cada dia menos nítida, vou virando um borrão sem cores ou contornos.

A sensação de morte iminente, a tristeza pela perda de tantas vidas, a insegurança constante, o temor pelas pessoas que amo, o lamento pelo stress dos profissionais de saúde, tudo isso me machuca, me maltrata. Mas o que me quebra mesmo é esse governo de merda e o tanto de gente tosca que ainda se alinha a ele.

Teve aniversário no fim de semana. Aliás, dois. A sobrinha num dia e no outro o sobrinho-vizinho. Teve parabéns pelo celular, foto com bolo, mensagens carinhosas e muita saudade.

Levei o lixo pra fora, lavei a louça, troquei a roupa de cama, cortei as unhas.

Você está triste porque não pode sair? me perguntaram. Eu não soube como explicar. Eu não sinto falta do “lado de fora”. Ou ainda, até sinto, mas não é isso, realmente, que tinge melancolicamente as páginas e inibe qualquer texto. Eu não sinto falta da minha vida de antes. Eu sinto falta da vida de vocês.

Eu acho engraçado que usam “fui desafiado” naquelas correntes de FB e não “fui convidado”. Parece que se vai para um duelo e não que se vá viver uma situação lúdica.

Espero que rúcula faça bem pra saúde porque estou comendo no almoço, merenda e jantar.

Queria demais ser a pessoa que faz bolos. Tenho guardadas inúmeras receitas, bolo fofo, mole, simples, elaborado, com suco de laranja, com queijo, de batata doce… mas nunca encontro a coragem.

Se eu estiver aqui. Se você ainda estiver aí. Se as palavras forem laço ou convite. Se não fosse esse nosso imenso e difícil amor, não fosse esse abismo entre nós, eu te convidava a dançar não o último, como Bivar, mas um primeiro bolero.

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