Muito Greta Garbo, ela

“já realizou todos os seus sonhos?”
“Não, ainda tenho muita coisa pra fazer ainda, só tenho que descobrir o que é”
Martinho da Vila, mas podia ser eu.

Eu me sinto muito espertinha porque o Almodóvar também gosta do diálogo de Johnny Guitar. #mulheresabeiradeumataquedenervosfeelings

Cansei de tudo, tuitarei no blog.

Se eu participasse de Love is Blind provavelmente me envolveria com 100% dos não escrotos.

Fiz uma sopa tão gostosa que fiquei triste por todas as outras pessoas do mundo que tomam suas sopas pensando que estão boas. Não estão. Esta sim, estava.

Sobre a celeuma da Semana de 22, até ontem eu diria com prazer que não tenho informações suficientes para ter opinião, mas agora já não posso dizer isso, tenho informações o bastante para dizer que acho toda a conversa um tédio.

Tomar decisões é um esporte que eu pratico de maneira instável, então é tipo voltar pra musculação depois de um tempo sedentária, dói tudo.

A verdade é que eu pego muita corda. E agora estou sentindo falta dos seus emails. Vida que segue, espero que as fotografias do futuro fiquem boas.

Eu só ficarei realmente satisfeita com uma versão em que Christian e Cyrano se descubram apaixonados um pelo outro e dane-se a autocentrada Roxane.

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Muito triste não ter uma amiga que tenha uma vida igual à minha e passe pelos meus problemas e tenha as minhas aspirações e desejos e dificuldades para me ajudar a tomar as decisões difíceis.

Cresci em coletivos. A rua em que vivi toda a infância era uma espécie de vila e a família expandida era imensa com primos e primas dormindo em minha casa e eu na deles, viajando juntos, grandes almoços de domingo. Depois, grupos de jovem, coordenação de crisma, pastoral da juventude do meio popular, teatro, coral. A seguir, um projeto de extensão durante toda minha vida universitária, assentamentos, conselhos, associações, federações. Avançando em idade e tecnologia, listas de e-mails, longas e profundas conversas. Sempre tive e sempre gostei de ter gente por perto. Daí me mudei, me separei, filho vivendo distante, o trabalho que faço me mantem em contato com muitas pessoas mas não em grupo e, por fim, eu e a cidade em que vivo nunca nos entendemos muito bem. Sinto falta das experiências coletivas. Tentava amenizar com os grandes momentos de comunhão em redes sociais. Copa, Olimpíadas, Masterchef, até no BBB eu mergulhei para ter a sensação de algum contato com os outros. Funcionou por um tempo, mas a verdade é que me enfastio cada vez mais. Os mesmos temas voltando com tratamento cada vez mais tosco. Me cansam as bobagens ditas sobre psicanálise. Me entendiam as conversas sobre aparência, peso, ruga. Me irritam os papos moralistas. Vou preferindo o silêncio.

Me desagrada a vida que levo, do jeito que levo, mas me desagradaria ainda mais levar a vida do jeito que vejo os outros levando, mesmo que sejam felizes nelas – e que bom que são.

Meu casco parece cada vez mais atraente: uso os pôsteres dos filmes do Almodóvar de decoração.

Minha cozinha cheira a especiarias e pimenta de cheiro, meu prato de massa alcançou uma elegância que me faz chorar, só uso lençóis macios e tomo banhos de canela, camomila, mel e casca de maçã.

Cortei o cabelo e tá, olha, lindo demais.

Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

2022 e alguma beleza

O ano só começa quando eu consigo voltar a escrever.

Como se diz bom dia? Bem assim: primeiro o flocão de milho amarelinho, amarelinho. Daí o leite. Pode ser de vaca, de coco, misturado. Deixa o flocão se hidratar. Um pouco de açúcar, um pouco de sal. Manteiga, claro. Um ovo, com a gema bem amarelinha – se quiser. Canela, cravo, queijo. Mexe, mexe. Um pouquinhozinho de nada de farinha de trigo. Fermento. Espalha na frigideira untad com mais manteiga. Bordinha quase queimou? Vira. Um balde de café quente, forte e amargo. Uma cadeira de balanço, vento enlinhando o cabelo, a vida proseando na calçada com o tempo que por ali passava e parou.

Existe uma beleza na alegria de ser quem se é. Acordei assim. Sorri pro meu sorriso no espelho. Ouvi minha playlist de forró. Comi meu milho com queijo. Inspirei com força o cheiro de mormaço. Amei meu rosto, meu corpo, meus dias.

A espiga, mugunzá, canjica, pamonha, cuscuz – com ovo, com manteiga, com leite, com galinha ao molho, com carne de sol, com queijo, chapéu de couro, bolo. É de milho? Quero. Quero o quentinho e o riso do amarelo. A chinela na beirada do alpendre. A rede no lento balanço. O lençol dançando no varal. O barulhinho dos animais no terreiro. O sol, o sol, o sol e aquela gotinha de suor, marota, escorregando pelo cangote e se perdendo entre os seios.

Daí me perguntaram sobre minhas habilidades. E eu falei que a que eu tenho é fazer as pessoas se sentirem bem. E eu sou uma pessoa, né.

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Roupa no varal, que não seca nunca, o cartão do mês que vem virando uma bola de neve, a máquina de lavar vazando, acordar procurando um email que não veio, Duras na cabeceira novamente, folhas em branco reclamando, alguns sorrisos, comentários enormes no Drops da Fal, todos os vasos da varanda vazios, a caixa dos correios vazia, a geladeira vazia, uma quinta-feira vadia, o Gilson de novo no blog – viva!, um banho gostoso, a carta escrita pela metade,  o filme do Woody Allen, a mais bonita carta de tarot, a canjinha da madrugada, cabelo cheiroso, nada de email, uma prova de kart, bolinho de chuva ou bolinho de arroz, papel de carta lilás, aquela paixãozinha pelo detetive de Shetland, a situação de Minas Gerais, autorretrato: um pedacinho de sonho cercado de solidão por todos os lados, muitos diminutivos no caminho, o analista impaciente, lista de supermercado, a vontade do mar, o email ainda não chegou, notícias tristes, notícias boas, vacinas para crianças, Vinícius Jr., sapatinhos vermelhos, café quente quente quente, lápis sem ponta, misturo sim peixe com laticínio, risco livros, como pizza de calabresa com queijo, sou uma vândala, tem uma nova maquininha na cozinha, tenho que comprar remédios, a restauração do Poderoso Chefão.

Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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Um amor chamado Boromir

Deixa a minha boca morar na sua boca
Deixa o meu sexo morar no seu
Deixa a minha mão morar nas suas pernas
E o meu quadril anexo ao seu

Euforia
Euforia
Eu faria
Tudo por você

No envelope: chá, cartão, cartinha de baralho. E palavras, muitas palavras. Na caneca, café. No peito, corredores vazios. A roupa de cama tem cinza e verde. Na mala, sapatos vermelhos. Livros que não li. Mensagens que não respondi. Redes que não frequentei. Mais boletos que dinheiros. Uma lista no spotify. Um artigo revisado. No vaso, florzinhas vermelhas. Várias renúncias. Uma hora inteira resumindo faroestes pro analista. Ele riu. Eu chorei. Você, você eu não sei. Não quero ser amada, quero ser entendida. Ele riu, eu ri também. Você, você eu inventei.

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Eu lembrava que gosto muito d’A Sociedade do Anel, mas eu tinha esquecido como o filme é gloriosamente bonito. Que uso primoroso da luz. E é admirável como os roteiristas conseguiram cortar vários eventos presentes nos livros sem perder a essência da narrativa. É um filme de afetos. De gente que não tem vergonha, nem de chorar nem de abraçar. Revi lembrando Meredith e Cristina. Elas caberiam direitinho entre os personagens. Em se tratando deles, aliás, ressalto que gosto demais do Boromir. Boromir é o personagem que vacila. Aquele personagem que enfia o pé na jaca com tanto gosto, que flerta com a desonra, que protagoniza tantos furos na virtude que se poderia pensar que existe só para servir de contraponto ao fodão. Mas não é (só) isso. Ele é tão, tão humano. Tão fraco, tão suscetível ao erro, tão vulnerável. É isso que mais amo: a vulnerabilidade. Porque é da sua imensa, enorme fraqueza, que ele se faz forte. É ele quem brinca com os hobbits, ele que se comove com a dor dos pequenos quando perdem o mago, ele que carrega uma culpa imensa por não ser capaz de proteger todo um povo, ele que cobiça, ele que se arrepende, ele que se inspira. Ele que se entrega. Ele é daqueles que, uma hora ou outra, sucumbem. Que eles caem, caem, mas que seja em cima de mim. Os mais humanos e, por isso, meus preferidos. Ele não sabe os caminhos, ele só sabe a chegada e, nisso, se perde. A morte de Boromir é tocante demais. Redimindo-se. E é tão simbólico que ele não cai no confronto direto. É preciso a covardia e a distância para atingi-lo. E uma imensa crueldade. 

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As pessoas saem com inquietações da sessão de análise, eu saio com dicas de faroestes.

Sim, carrego arrependimentos. Poucos e leves.
Como ter usado minha melhor dedicatória no livro que te dei.

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Cinema é um negócio mágico quando bem feito. Em poucos minutos, com as cores, o riso, as conversas, a gente entende porque Frodo – confrontado com a iminência do Condado ser invadido, resolve partir, proteger seu lugar e seu povo. Antes do bom e conhecido “salvar o mundo”, cuidar do que é alegre e bom. E não em um sentido mítico e expurgado de paraíso, entre os hobbits há fofoca, intriga, picuinha, maledicência, gula, alguma preguiça, etc. Ainda assim – ou por causa disso tudo – é um tempo/espaço precioso. 

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Hoje me perguntaram: se eu caio enferma, quem será meu escudo e minha espada? 

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Tem uma hora que Frodo diz a Gandalf que gostaria que o anel nunca tivesse chegado a ele, Frodo. Que preferia que nada do que lhe ocorreu tivesse acontecido. E Gandalf responde, com a genialidade do óbvio (não estou sendo irônica): assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Temos de decidir apenas o que fazer com o tempo que nos é dado. Eu gostei dessa frase quando vi o filme a primeira vez e em todas as vezes subsequentes. Acontece que eu não tinha revisto ainda depois de 2015. Venho repetindo, como Frodo, que preferia outro mundo, outra vida, outros eventos. Porque que tempos de horror. Mas preciso encontrar o eco da frase de Gandalf, em mim.

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Um dos segredos da felicidade, ouvi dizer, é compreender a nossa relevância no mundo.
Acrescentei por minha conta: e rir disso. 

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Está confirmado, haverá um amanhã.

Porque eu quis

Tem uma coisa que eu gosto muito que é me perguntar: porque tal coisa? E responder (para mim mesma ou para outros que acaso perguntem): porque eu quis. Sem agressividade ou arrogância, um porque eu quis tranquilo, de boas. Alguns associam a liberdade de dizer porque eu quis com o avanço da idade. Outros relacionam com a quantidade de dinheiro que a pessoa tem, teve e sabe que terá. Outros pensam que se deve a muitos e bons anos de análise. Eu mesma acho que depende. Depende, primeiro, do assunto/área da vida. Tem situação em que o meu porque eu quis vem leve e solto desde quando eu era jovem e endividada. Tem temas em que meu porque eu quis ainda não sai ou sai temeroso, estrangulado, duvidando de si mesmo, da minha vontade, de mim, mesmo agora que estou rodada tanto na vida como no divã e – comparativamente – rykaahhh.

Na cozinha, por exemplo, o porque eu quis foi ganhando espaço quanto mais eu cozinho só pra mim. Meu molho para guioza é um porque eu quis clássico: tem shoyu, mel, cebolinha, gergelim e umas gotas de limão siciliano ou laranja. Porque? Porque eu quis.

Acho que a comida mais foda-se que eu tenho feito é batata cozida com azeite e alho laminado. Quando eu estou bem e quando eu estou mal, mas especialmente quando eu estou com fome e muita preguiça de cozinhar, que vengan las patatas. Claro que os três ingredientes nem sempre precisam ficar a sós. Hoje tinha, também, cebolinha picada, queijos variados – que estavam fazendo hora extra na geladeira – em cubinhos, e linguiça calabresa cortada miudinha, fervida e depois tostada. Eu não estou em paz com o mundo, eu não estou em paz com a minha vida, eu não estou em paz com as pessoas, eu não estou em paz comigo mesma, mas estou em paz com as batatas.

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Os caminhos acabam. Alguns sonhos também. Amor, amor não, parece que vira raiva, rima, essas coisas. As coisas, essas sim, as coisas se acabam. Manteiga. Goma. Esponja. Papel toalha. Papel filme. Papel de carta. Até papel de besta. Na escrivaninha, papel em branco. Na tv, times alheios. Dias quentes. Noites escuras. Gente que me ama. Xingamentos cúmplices, #forarenato. Shampoo de canela. Uma japonesa nova tão bonitinha. E outros gastos extras. Planos e sorrisos. Arrumar a cozinha, a mala, a alma. Cary Grant dançando. Chico Buarque em contos e um tratamento tão generoso que a Companhia das Letras deu para o material. Domingo é pra dormir macia e cheirosa. Em limpos lençóis. Uma fantasia. Uma alegria. Uma distância. Manter o passo e o riso. Aceitar o tempo da estrada. E que a fortuna nos conduza.

Todos os outros dias

 “Descobri — numa carta de Clarice Lispector para Lucio Cardoso —
que polisipo, em grego, significa “pausa na dor”.
Têm sido, estes dias, polisipos.”

Caio Fernando Abreu

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Passei o dia na cama, hoje. Não pelas melhores razões (saudades, melhores razões), mas não pelas piores. Não por doença ou angústia. Eu li – uma das coisas gostosas em mim é que quando engrena eu leio ligeiro demais. 230 e tal páginas se foram em menos de uma manhã. Aí revi um filme imenso, viagem no tempo, amizades, perdas, esperança. Uma coragem. Segui no dia em três partidas de futebol. Na mais importante delas – pra mim – o Flamengo venceu. Papeei com o Fabiano – e nem foi só sobre livros. Depois fiquei fuçando e-mails antigos. Eu, deliciosamente pedante. Que maravilha a vida que eu tenho vivido. Muito bom lembrar disso. Que vinha me divertindo. E que se tem estado tudo cinza e pesado nos meus dias é porque tá mesmo especialmente pesado e cinza no mundo. Mas, esticando a vista, lá está o veio do bom. Sim, eu tenho sofrido. Sofrido por grandes motivos e por miudezas. Mas nem boa nisso eu sou. Por isso fico genuinamente animada quando há analgesia. Fiz um banho especial. Morninho, com camomila e outras coisas doces e gentis. Menos chorosa, repito a sabedoria do Mark Sloan: Walk tall, Luciana. Até queria esticar as horas, mas já me sinto molinha. Vou dormir vendo um compacto de Palmeiras 1 X 3 Flamengo. E sorrindo.

(esse hoje foi ontem, agora já é o amanhã do antes e a vida tá sapateando, com bico fino, no meu coração)

Formosa

Eu queria um montão de abraços. Um milhão de amigos. Uma passagem aérea. Um intervalo. Um respiro. Eu queria encontrar as palavras. As pessoas. O rumo. O ritmo. Eu queria acertar as coisas. O passo. O alvo. Eu queria mudar o tempo verbal. Presente. Eu quero. Acho bonito dizer: devastada. Como o rosto da Marguerite Duras. Algumas palavras são sequestradas por autores ou histórias específicos, acho eu. Com as que sobram, faço o que dá. Respondo mensagens inesperadas. Escrevo e-mails formais. Comemoro visitas futuras. Anoto receitas. Parabenizo, cobro, prometo. Enquanto as que pertencem àquela história que eu já não quero contar me engasgam.

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Um dia peculiar. O mundo veio dar um empurrãozinho nas minhas melhores resoluções. O céu estava azul, a água gostosinha, a comida boa, o café amargo e quente, muitas mensagens nas caixinhas.

Não posso tirar selfies, fico todo dia mais encantada comigo mesma. Sei lá, me acho linda.

Perguntou o Chico: e se de repente a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente? Primeiro, a angústia de um vazio, depois há o bolo, amiga, irmã, sol, sal, murmúrio, azul, azul, conchas, pelo, pele. E riso.

Porque eu vim ao mundo a passeio. E há gente por aí, com tempo livre. São as coisinhas miúdas da felicidade. Como uma ligação no fim da manhã. Um livro pelo correio. Ou uma surpresa com violino. É isso, meu segredo: eu adoro violinos. São lindos, não são? A curva sinuosa, o jeito preciso com que se assentam sob o queixo, a exigência de uma postura que lembra o preparar para um abraço… Ah, e ainda tem o som que eles produzem. É mais ou menos assim: tum, tum, tum. Não, não, esse é o som do meu coração batendo um tantinho mais acelerado.

Não digo que italiano é a língua mais bonita que tem, mas é o jeito mais bonito de dizer meu nome, ah, é.

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O funeral de Heitor

“Quero muito fogo
Pra toda essa palha”

A ira de Aquiles termina com a morte de Heitor. E não só, a Ilíada também. Homero nem precisa contar se Tróia caiu ou como. Cairia sem Heitor, sabia-se. Heitor que morreu porque os deuses determinaram e por nenhum outro motivo. Heitor que reconheceu o que os deuses queriam e tratou de fazê-la inesquecível. Heitor que pôde cruzar olhar com seu algoz e repreendê-lo. Heitor, o nobre. Heitor, valente não porque queria ou gostava, mas porque era preciso. Gentil, é como sinto Heitor. Quando ele tira o elmo, caem todas as minhas defesas. Gosto muito de muitos, mas tenho um xodó especial por Heitor que, suspeito, vem do mesmo lugar e tem a mesma natureza do que me faz apreciar Rollo e Boromir. Heitor que recebe as glórias e as honras, mas nunca perde as dúvidas, os medos, a perspectiva. Heitor que valoriza o simples, a vida, o riso do filho, o toque da mulher. Heitor era amado. Pela esposa, pelo filho, pelo povo. Não temido. Amado. Porque era um grande guerreiro, claro, e admirado por isso, mas não apenas. Não ser um apenas. Lembrei dele, ao pensar em Heitor, e não de você. Mais um passo. Um dia termino de ir embora. Com sorte, nesta vida. Andei lotando ela, esta vida, de compromissos pesados e dos quais já não posso me esquivar. Pra equilibrar estou fazendo o quê? Isso mesmo, me comprometendo com mais outro tanto de coisas, mas dessa vez coisas das quais eu gosto, coisas que queria fazer e não fazia porque achava que não dava. Agora, na rádio cabeça, a musiquinha “vai ter que dar, vai ter que dar”. Um clube de leitura para reencontrar a Odisseia. Outro grupinho semanal para ler e discutir contos. A aulinha de cinema. E a aventura iniciada hoje. Eu gostaria de ser a pessoa que diz: pode me empurrar do penhasco etc sei voar tal e coisa. Mas não sou assim. Não vou usar o caderno que veio de Paris. Pelo menos mandei telegrama. É que não aguento mais o Universo falando para eu desapegar e ninguém me dizendo como. Resolvi passar 3 dias sem gastar dinheiro de jeito nenhum. Mas só começa amanhã que hoje eu vou pedir jantar pois, após terem erguido o túmulo, voltaram os troianos ao palácio de Príamo e, seguindo os ritos, festejaram com um banquete. E foi assim o funeral de Heitor, o domador de cavalos, a lembrança delicada de que nem todos os finais podem ser felizes, mas o meu (ou o desse amor, que neste momento me parece a mesma coisa), posso fazê-lo nobre.

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Imagem meramente ilustrativa

Tanta pose e palavra bonita para, no fim da noite, eu chorar como sempre, soluçar e escorrer nariz, enrodilhada na saudade de uma madrugada contigo, desejando mandar mensagem, mandar presente, mandar um avião com faixa pra frente da sua casa, arrancar o coração com a mão e depositar na sua caixa de correio.

Atropelamentos

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Se eu disser isso, se eu mandar de presente aquilo, se eu fizer de um jeito ou de outro, pode ser que a pessoa entenda errado. Pode ser mesmo. Já aconteceu muitas vezes, inclusive. Mas se eu não fizer isso ou aquilo, se não enviar o presente, se não disser o que quero, construiremos fina camada de gelo sobre o lago como relacionamento e, um dia, pisando mais pesado na travessia, me afogo congelada. Não me parece um futuro promissor. Isso dos afetos é a minha praia. Não entendo de muito mais que isso. Finjo que entendo, mas, por exemplo, não sei direito a diferença entre sopa e caldo. O que não entendo, invento. Arrumo as palavras, as ideias, os sentimentos de forma que construam um mundo pra mim. Um mundo meu. Olhando de perto, lembra seu rosto. A coisa mais difícil que fiz hoje foi não responder à sua mensagem. E, olha, não foi um dia fácil. Na outra caixinha, notícias alvissareiras. Vem aí, um evento. Tenho nem roupa pra isso. Com sorte, não precisarei delas. Luciana, qual o mantra da sua vida, o maior ensinamento, seu farol desde a infância? quem já viu não se admira, quem nunca viu não sabe o que é. A vida já foi e vai voltar a ser mais de boas é a ilusão que alimento pra não saber que viver é superestimado e, ainda assim, é como a democracia, a melhor opção, etc. Faço listas dos médicos que preciso visitar: dermatologista, dentista, oculista. Não sei se a vista borrada é problema ou lente do óculos que está suja. Gostaria de ver mais. Inclusive ver mais séries e filmes para conversar com as pessoas, mas chega o fim de semana e eu assisto futebol, futebol, futebol. Perto da meia noite do domingo entro no site da universidade para aprovar relatório de iniciação científica só para desviar a cabeça e não mandar mensagem para você. Que nem leu o Eco. Perdi o controle, talvez. Talvez? Rá. Meu cabelo está bonito, minha pele está macia, meu cangote está cheiroso. E ninguém por perto.

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Amalia Bautista, CORAÇÃO DESABITADO, selecção e tradução de Inês Dias, ed. Edições Averno

Eu tive um pequeno vislumbre quando estava lendo a autobiografia do WA, mas larguei o livro, desviei o rumo, fechei os olhos, fugi. Foi assistindo o especial do Chico na Netflix, que entendi. Entender é um termo delicado e elegante demais pro que aconteceu, na verdade. Fui atropelada pela compreensão. Não é que você seja a pessoa de quem eu mais gostei. Não somos a maior história de amor ou algo desta natureza. É que saber que você existe me faz me sentir só. Muito só. Muito, muito, muito só. Porque todos os outros moços podiam – e uns ainda podem – me tirar os pés do chão, roubar o ar, fazer a cabeça girar. Eles podem me fazer bem. Podem me inspirar, me emocionar, me comover. Podem me excitar. Mas eu nunca pensei que eles veriam isso ou aquilo tão perto do que eu vejo. Não sentiriam tão perto do que eu sinto. Perto, próximo, íntimo. Por dentro. Não igual, melhor até. Encostadinho. Poder ser assim e não ser dói de um jeito que eu nem sei explicar. Disse ela: ninguém pode ser o que você quer ou precisa que ele seja – e ela está certa. Certíssima. Mas pode ser pior: alguém pode ser o que você quer ou precisa (você sou sempre eu, quem nem quando escrevo a gente, a gente também sou eu) e mesmo assim não querer, não poder, não qualquer coisa que impede que ela esteja, mesmo sendo. Meu único consolo é que sempre que entendo um pouco mais desse sentimento, mais perto fico de me despedir do mesmo. Do amor só é possível fazer autópsia (nem lembro quem disse, mas alguém disse).