Walk tall, Luciana

Às vezes ela come chocolate. Eu fico pensando no que eu estou perdendo, em estilo, por não gostar muito de doces, especialmente chocolate. E não beber chá. Nem infusão. Não usar lenço ou chapéu com regularidade. Não frequentar cafés. Mas aí nem é limitação minha, eu frequentaria se cá houvesse. Enquanto assistia “há tanto tempo que te amo” eu pensava que também me reencontraria em cafés, cigarro e amor. Fizemos live e eu falei, falei, falei. Mas o som estava ruim e ninguém escutou. A vida podia ser mais discreta com as metáforas irônicas. Pelo menos as perguntas foram sensacionais, vale a pena assistir por isso. Me preparei pra ter o coração partido. E tive. Tem um certo conforto em largar mão do “e se”. Se nada, se toca mulher. Procuro o lado positivo, mas ele está de costas. Atravessei a madrugada vendo pessoas mais rápidas, mais equilibradas, mais fortes, mais disciplinadas e, principalmente, mais esperançosas do que eu. Coloco foto de flores e comida nas redes sociais no lugar de pedidos de socorro. Preparo um banho longo, há onze anos que me parabenizo por ter feito questão da banheira. Começo listinha mental do quanto sou foda, mas desisto depois de um tempo, é um bocado de coisa. Ser capaz de rir de mim mesma estava na lista sim. Tem nem dez dias falei dos labirintos vazios, ela trouxe os minotauros esfomeados Somando todas as horas de sono dos últimos dias, não dá as tais oito horas. Coloquei pra gelar cervejas que não bebi. Mas fiz gostosura com abacates. Uma banda e meia, leite condensado e creme de leite. A outra banda, um parente próximo de guacamole: abacate amassadinho, azeite, sal, pimentinha, cebola roxa, tomate, cheiro verde, limão. Aí é só montar: uma torrada gostosinha, cream cheese, o abacate temperado e, sucesso, uma fatia de salmão defumado. Luxo. Tem coisas que eu compro no supermercado quando vejo porque nunca, nunca, nunca tem. Cogumelo, salmão defumado, lichia. Posso até me endividar pra isso. Chega o diarinho de hoje. O que foi esclarecido: não posso ficar menor do que sou pra caber na sua vida. O que foi arrumado: a louça. O que foi escrito: a 60ª newscoisa, Garrafinhas da Lu. O que foi visto – olimpíada, revisto – as primeiras páginas de Orgulho e Preconceito, entendido – o silêncio é intencional. O que foi posto no lugar: meu juízo. O que foi planejado: um dezembro. O que foi pintado de azul: Blue Rondo à la Turk (Dave Brubeck, melhor bagagem de relacionamento). O que foi possível: sobreviver.

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Um cristal estilhaçando. Ainda tem o afeto, o desejo, ainda tem tudo que revira entranhas. Mas. Pois é. Saber que não importa pra você faz importar menos pra mim. Ainda vai doer, eu sei que vai. Ainda vou acordar chorando no meio da madrugada. Ainda vou sentir como se um batalhão de soldados enfiassem sabres no meu peito. Ainda vai arder, ainda vai queimar, ainda vai me faltar o ar, o ânimo, a força, o riso. Ainda vou chorar e suar e sangrar pra você sair de mim. Mas, agora, eu sei que há um depois sem sua presença aqui dentro. Porque, hoje, você abriu essa fresta por onde vai se esvair esse sentir. Eu não esperava muita coisa. Nem isso nem aquilo nem futuro ou laço. Só estar aí. Aqui. Ali. Pra mim. E você não esteve. Não está.

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Amiga, isso não se faz. Estou aqui juntando força pra tentar sair de cabeça erguida, apesar do fio da meia corrido, do salto quebrado, da mão trêmula agarrando a alça da bolsa, do rímel borrado, do dente mordendo lábio até o sangue. Não se faz, um texto assim, Juntando força pra sair sem tropeçar,  tropeçar sem cair, cair sem chorar, chorar sem fazer barulho. Engolir em seco sentindo as lágrimas escavando gretas no rosto. Juntando força pra sair sem xingar, sem reclamar, sem pedir, sem me despedir, porque qualquer palavra, eu sei, seria uma desculpa para mais um eu e. Pois é. Isso não se faz, amiga, um texto que chega puxando o tapete sem aviso, sem alerta, sem alarme e agora meu passo fica mais lento, meus ombros mais pesados, a hemorragia mais intensa.

Que jogo é esse

Estava ouvindo a live no Fiftinah sobre Literatura e envelhecimento (vão lá ouvir também) e em algum momento a Tina fala que uma das dificuldades de envelhecer é uma certa dificuldade de se reconhecer. De olhar no espelho e não ver a si mesma na imagem que olha de volta. E fez uma luz em mim. Eu não tenho recordações visuais de mim mesma (e também não tenho boa memória sobre vocês, gravo os traços básicos, mas realmente me escapa se cortou cabelo, engordou, emagreceu, cabelo tá branco, ruivo, tem ruga, não tem, pé de galinha, colocou aparelho, etc. Eu identifico o essencial). É isso, não lembro como eu fui ou sou. No máximo lembro da minha imagem em algumas fotos antigas, mas nem isso é significativo porque são lucianas diferentes dependendo do ângulo, roupa, etc. Não tenho uma imagem pra perder e, assim, não tenho uma imagem pra reconstruir no processo de envelhecer. O que o espelho me oferece não é um reconhecimento, mas uma descoberta. Tem suas vantagens, garanto. Algumas dores e preocupações me escapam totalmente. Mas também cobra um preço. Tanta leveza, tá lá no Kundera, torna-nos menos que reais, tão livres quanto insignificantes.

Sorte no jogo, azar no amor. O jogo:

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Tem dia que não é dia. Ontem não era o do Nory. Antes das provas eu já senti. No solo, ele tava indo bem e eu avisei pra amiga: não vai rolar. Ele caiu de bunda logo depois. Tem dia que não é dia, O leite ferve e derrama, a gente queima o alho, bate o dedão do pé no pé da mesa, vê o ônibus dobrando a esquina quando chega na parada, deixa cair o celular no chão e trinca a tela e, mesmo que fique quietinha em casa, só esperando passar o dia, ainda é capaz de receber má notícia pelo telefone. Tem dia que não é dia, o corpo não corresponde, a mente vagueia, a alma fraqueja. Se fosse no dia anterior, quem sabe. Se fosse amanhã, talvez. Mas naquele dia, não dá, não vai, não anda. A gente cai de bunda no chão. O que o amor faz é enfileirar esses dias numa sucessão de desilusões olímpicas. Um calendário próprio só com dia que não é dia.

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Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore, 
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto. Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha…

(Adélia Prado)

Eu também queria, Adélia. E também tentei. Coisas que não dou a qualquer pessoa. A quem eu quero enganar? que nunca tinha dado a ninguém. Uma caixinha de pedacinhos de mim. Um envelope com instruções. Um livro, outro, uma imagem através de furinhos. A gente repete e repete o dar o que não se tem e esquece do a alguém que não o quer, não pediu, e, às vezes Lacan, nem faz conta.

Um jogo. Cheguei com a partida em andamento, ninguém me passou as regras e a sensação é de que estou perdendo de lavada.

Todo dia me beliscar para saber se sou capaz de sentir outra coisa além desse desejo.

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Teve mais coisa nas Olimpíadas: o jogão de futebol feminino, Brasil e Holanda, empate de seis gols. Marta, digna e analítica no pós-jogo, é quase tão bom vê-la dando entrevista quanto é gostoso vê-la jogar. Teve zebra no vôlei masculino (quem não curte torcer para um azarão?), o Irã derrotou a Polônia em um jogo tão intenso que o quinto set teve o placar de 23 a 21. Todo o talento – e beleza – de Marouf na quadra. Teve ginástica masculina e pegamos algumas finais, mas não a de equipe, que pena. Teve vôlei de quadra, eliminação precoce da campeã mundial Nathalie, de manhãzinha teve provas classificatórias de natação, teve, teve, teve, mas, talvez, o resultado mais importante do dia tenha sido a vitória de Richard Carapaz em Fuji, primeiro campeão olímpico da América Latina no ciclismo de estrada.

Uma das vantagens de morar sozinha e cozinhar apenas para mim mesma é poder arriscar, sem medo de deixar outra pessoa com fome, testar combinações, tentar matar a curiosidade. Então, eu via no programas de tv, camarão e bacon. Sempre pensei que devia dar certo mesmo, afinal, como diz o Joey, “camarão, bom”, “bacon, bom”. Procurei uma receita, fiz quase tudo diferente e voilá. Dizia: tempere o camarão com sal e pimenta. Fiquei com o pé atrás, afinal bacon é salgado, né? Descasquei, limpei, deixei o rabinho e temperei só com pimenta e alho em pasta. Enrolei no bacon (mas minhas habilidades manuais são sofríveis). Fechei com palitos. Uma coisa que eu faria diferente: colocaria um palito tb dentro do camarão, assim, quando ele fritasse, não enrolaria e ficaria mais bonitinho. Outra desobediência: dizia para fritar por imersão, em óleo. Achei desnecessário, peguei frigideira e azeite mesmo. Com medo de apostar todas as fichas em um número só, tratei o resto do camarão como sempre, sem bacon. Ficaram gostosinhos. Eu queria um molhinho, mas não queria rosé, daí fui nesse pesto.

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Infinitena, ano 2. 
497 madrugadas
1 CPI
548 mil mortos
1 ano sem a Carla
Margarida na varanda
Papeis de carta
Rosés
4 noites de competições olímpicas
361o dia no calendário kalúnico e contando.
24 fotos
Incontáveis crises de choro
Uma caneca, um imperador, uma cirurgia, uma interrupção.
Um convite engasgado.

É hoje, gente:

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Ecos do Diarinho da Fal, sem gelo

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Tem dia que, ela disse. Que não isso nem aquilo. Escutem, porque ela sabe como é mesmo a vida. É bem assim, tem dia que não. Apesar de. Ou mesmo quando. Apenas tem esses dias. Ou eu tenho. Ela também tem, me conforta saber que estou em boa companhia. E tem, também, o dia em que apenas. Dia em que ela pinta o desenho. E eu tateio. Hoje eu tinha três compromissos. Participei, contente, do grupo de pesquisa. Sobrevivi ao primeiro dia de aula de Psicologia. Não fui aos correios. Não fui. Sem saber se levava aquela cartinha junto com as outras. Não quero assustar. Tem essas coisinhas miúdas que são como pedrinhas jogadas no açude. Faz um ploct quase inaudível, mas se perpetua em círculos e círculos e tantos efeitos que no só depois nos damos conta. Não dá pra saber exatamente o que vai se tornar. Assim, fico espiando a carta. Essa. Que é convite. Um aceno.  Meu pequeno pedregulho. Com a minha sorte (e mira) capaz de nem chegar a cair na água. Coloco toda a força, vou aos correios e o pedregulho cai na margem. Pode acontecer. Olho a pilha de envelopes e fico encafifada, como posso escrever tanto sem ter nada a dizer? Eu sei. Eu escrevo muito. Eu escrevo demais. Eu entendo que mesmo as pessoas que gostam de me ler não dão conta. Faz parte. Pensei em ser mais sintética, mas não é assim que funciona. Ou não é assim que eu funciono. As palavras simplesmente irrompem. Uma opção seria escrever tudo que me ocorre e publicar só parte, mas não saberia peneirar porque, sejamos sinceros, eu não tenho nenhuma barra de qualidade. Nenhum filtro. Escrevo porque tenho que dizer o que digo, do jeito que digo. Ainda assim, ela gosta. Vê algum valor nisso. Um ensaio, ela disse. Mesmo que não seja, leio vezes e vezes o elogio e me sinto um pouco melhor. E, claro, escrevo sobre isso. Eu escrevo muito. Eu escrevo demais. Então me resignei ao fato de que escrevo para não ser soterrada e publico com a esperança de que alguma coisa chegue a alguém. Que não é você. Nunca é você. Não é você com suas estantes de madeira nobre, suas meias cinza, sua agenda lotada, seu tapete verde, suas anotações sobrepostas, seu trabalho sério, seus fones de ouvido, suas responsabilidades tantas, seu coração maltratado, seus olhos tristes, não é você com suas culpas e tarefas e pessoas e futuros. Não é você. Não é você, mesmo que você diga: quero, vou, que bom, manda pra mim, me avisa. Lerei. Você é tão educado. E, ainda assim, nunca é você. Mas talvez seja ele. Que está de férias. Ou aquele. Da barba. Alguém que me caiba. Sabe, sr. De Mille, eu sou grande, sua vida é que ficou pequena. Bom, talvez não seja grande, mas espaçosa. E escrevo, escrevo, escrevo. Sobre as Olimpíadas, minhas salsichas preferidas. Ontem nossa moça do arco foi bem, mas se deu mal no sorteio. Nosso rapaz do remo também fez o necessário. E, hoje, ainda acordando, a cerimônia de abertura. Você gostou dos pictogramas animados, como eu gostei? Se emocionou com a tenista acendendo aquela pira tão elegante, se comoveu com cada delegação, riu das chinelinhas e daquela sambada, reparou nas desigualdades de sempre, xingou os atletas sem máscara? É um pouco irritante querer conversar essas coisas com você. Um pouco? Anteontem você seria um “ah, sim” em qualquer conversa minha. Hoje estou mandando áudios pra meu amigo antropólogo recitando Tango de Nancy e, nem respiro, peço junto o link daquela coisa tão pronta pra ser um presente. É isso que vai ser a vida? Esquecer de tomar meu remédio mas lembrar sempre do Cebolinha? Mas, dizia eu, Olimpíadas. Eu sofro. Muita coisa acontecendo, como escolher o que acompanhar? Agora mesmo: badminton, esgrima, handebol e daqui a pouco vôlei de praia, vôlei de quadra e ginástica e os deuses sabem o que mais. O coração sofre uma coisinha: Nathalie e handebol estão na chiba, Mamute tá na frente mas num joguinho apertado. O importante é competir, Luciana, o importante é competir. É sair pro jogo. Tenho que acreditar nisso, baixei a guarda. Ou você destruiu minhas defesas. No zap, um cemitério de todas os links, figurinhas, matérias e mensagens que não enviei. Palavras, muitas palavras. Letras, tantas, que teimam em se organizar assim: quero, saudade, vontade, desejo, me olha, me chama. Nunca diga dessa água não beberei porque não só beberei como me afogarei, etc. É aquilo do morder a língua. Tão melhor morder seu lábio. Um ombro. Aquela curvinha embaixo do umbigo. A bunda, O calcanhar. Suspiro. Melhor comer, vai ver meu mal é fome. Farofinha de cuscuz. O fácil. O bom. Molha o flocão, salga de leve, deixa descansar, coloca na cuscuzeira peitinho e deixa cozinhar – ou seja, depois que a água ferver, mais dez minutos. Corta: linguiça, cebola, banana, tomate, cebolinha. Aí frita a linguiça, coloca a cebola até murchar, uma parte da banana, se for preciso acrescenta também um pouco de manteiga, o cuscuz, mexe, mexe, o tomate, mexe mais, o resto da banana, a cebolinha, desliga o fogo e bota pra dentro. Ainda fica faltando você, mas o vazio é um pouco menor.

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Desinventar e outros quitutes

Se eu pudesse ser outra, 
seria tua.

É que já não é mais só o silêncio. É o seu silêncio. O vazio que se impõe à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar.

Ontem escrevi manchas roxas e acabei postando manchas rochas. Ainda bem que tenho amigas. Gostaria, mesmo, de saber desativar esse corretor do celular. 

Uma dor de cabeça de tanto chorar, antes de começar a primeira aula do semestre, parabéns pra mim. 

Porque eu quase encostei minha cabeça em seu peito, mas era apenas luz, sombra, letras e a minha vontade. 

Há dias difíceis, disse-me ele. Aqueles – explicou – que amanhecem nublados, mesmo que o sol não saiba e se bamboleie iluminando as coisas por aí. Disse: é que a alma amanhece cinza e o coração dormente. Nessas horas, penso eu, não devia ter geografia. Devia ser assim: bem penso nele, bem lhe dou  um abraço. O que eu não te disse, amigo, é que eu sei estes dias. Eles ardem como se a gente tivesse um corte aberto no pé e entrasse no mar. Não são o dia da dor, mas o seguinte. O primeiro dia do resto da vida. O primeiro dia do resto da vida sem aquele ele.

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Ela aconselha que suas meninas e seu menino de redação escrevam diariamente sobre a própria vida. Que façam anotações, diários, registros. Imagino que ela viraria pra mim e diria: mas você, amiga, você pare. Eu escrevo todo dia faz um bocado de tempo. Porque não consigo não escrever é o motivo principal ao qual, eventualmente, se agregam outros como tentar comunicar alguma coisa, te gritar pra me ver ou tentar ser resgatada de mim mesma. Escrevo e escrevo e nunca é o bastante. Nunca sou o bastante. Escrevo desde sempre para você, que sempre existiu em mim, mesmo quando eu não te sabia. Claro que isso é mentira, inventei agora, mas que diferença faz? Inventei também você e esse sentimento e, ainda assim, a dor de não estar contigo é real e não consigo desinventar. E eu tento e tento, todas as quartas-feiras, com meu Freud particular, que sacode a cabeça de um lado pra outro enquanto eu tento não te amar em todas as palavras. Suspeito que ele até me confortaria em um abraço (não, não me abraçaria, mas eu posso inventar isso também). De divã em divã, ontem o moço da barba bonita e dono da minha rosa escreveu: desfalar e eu ri porque eu já disse, deitadinha no divã, exatamente isso: falei e desfalei. Sabe, gosto de conversar com ele, é um encontro no caminho, não uma revelação. Dá tempo respirar. E apreciar luas e rosas e esquinas. Não. Não quero colocar coluninhas pra vocês. Gosto de conversar com ele, ponto.

Como a casa dela, a minha é esse interminável de coisas a fazer. A máquina de lavar roupa quebrou outra vez e eu ainda não liguei pros senhores consertadores. Preciso de um colchão novo. De um filtro de barro. De todas as coisas que listei no post anterior e mais um monte que nem tive coragem de colocar. Como trocar as tomadas. Porque, porque, porque não fazem casas com tomadas introcáveis? Arrumei o quarto bagunçado e já desarrumei. Fiz besteira, me queimei e adiei pequenas e necessárias ações. Amanhã, sim, amanhã eu faço. Escrevo bilhetinhos pra mim mesma nestes fofos e coloridos papéis-para-aviso da 3m e colo na tela do notebook. Tenho certeza que estou esquecendo alguma coisa importante. Passo os dias com esta sombra dependurada no meu ombro. Eu detesto ver seu rosto nas fotinhas quando vou procurar alguma coisa nas conversas, detesto, detesto, detesto, você é tão bonito. Porque você é tão bonito? Detesto, detesto, detesto. Apesar disso, nunca deixo sua imagem desparecer. Podia deixá-la descer, descer, descer até ser mais irrelevante que as mensagens da Fazendinha ou da Farmácia. Mas, não. Você é tão bonito. Eu já disse que você é tão, tão, tão bonito? Tenho vontade de mandar uma mensagem só pra dizer isso. Ridícula e sem nem ter a justificativa de ser uma carta de amor, esta sou eu. Criei um grupo no zap só meu e envio pra mim todos os links, matérias, textos, músicas, notícias do mundo e do meu cotidiano que eu queria mandar pra você. Ah, moço bonito, porque esta barba macia e este cangote tão cheiroso e essa mão que me cabe toda? A ideia de me entorpecer com Olimpíadas tem funcionado parcialmente. Dois jogos de futebol, feminino e masculino, duas goleadas do brasil, que delícia. Mais partidas de softball (continuo não entendendo nada), no futebol feminino uma derrota dos EUA (uia); no futebol masculino a Argentina perdeu pra Austrália (uia, uia) e o México enfiou 4 na França. E queria falar de cada uma dessas coisas com você. Mandar pequenas frases com exclamações ou textos emocionados de muitas linhas. Combinar os quitutes. Louvar os atletas, reclamar de qualquer coisa da organização. Mas, moço bonito, esse barco já partiu. Tenho aula hoje à noite. Preparei tudo, tudinho, mas a insegurança de todo primeiro dia bate mais forte nessa modalidade esquisita de aulas à distância como se não o fossem. É engraçado pensar que há vidas (a sua, a sua, claro que é a sua) que são melhores comigo mas que seguiriam, impávidas, sem mim. Se eu nunca mais, você saberia? Ou espantaria o pensamento: ué, ela nunca mais sem nem uma saudade? Claro que eu releio tudo isso e estranho: quem foi mesmo que escreveu? Não eu, com a autoestima em dia, comendo morangos com balsâmico, recebendo mensagens simpáticas e vendo saltos e tiros e saques e arremessos e chutes e mergulhos e lutinhas de todos os tipos na tv. Não fui eu, não sou, queria mandar embora essa que insiste no amor pelo moço bonito, talvez a Fal saiba como mas ela fala de chá e biscoitinhos e eu não tomo chã e molho o pão com manteiga no café, eu não tenho finesse, eu não tenho dignidade e eu não tenho força pra fechar os olhos e nunca, nunca, nunca mais te ver, moço bonito.

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No “quitutes das olimpíadas” de hoje vamos de macarrão porque macarrão é gostoso, macarrão é fácil, macarrão acolhe quase tudo e, bom, eu tinha macarrão em casa. Bacon, parmesão, espinafre, creme de leite, alho e a massa. Passo 1: cortar bacon, separar folhas de espinafre, picar alho, ralar queijo, abrir a caixinha de creme de leite. Já tá praticamente pronto. Uma frigideira grande pra fazer quase tudo, uma coisa de cada vez. Vai de bacon, deixa até ficar crocante, deixa a gordurinha na frigideira e reserva o bacon crocante (reserva é só o nome chique para: deixa ali no cantinho). Joga o alho e as folhas de espinafre (muitas e muitas) nesta mesma frigideira, tempera (eu coloco mais pimenta e um nada no sal, porque o bacon e o parmesão já tem bastante, né) e espera murchar. Separa uns dois terços das folhas e alho e coloca no liquidificador, o que fica eu deixo pra misturar como está com a massa, acho gostoso mastigar as folhas. Pois bem, sua massa ainda não tá cozida? Pois avie. Bateu espinafre com creme de leite, volta pra frigideira, mergulha a massa que (pelo meu gosto) deve estar al dente, mistura bonitinho, coloca as folhas e o bacon reservado, despeja ou arruma bonitinho no prato, é a hora do queijo ralado e já pode correr pro abraço. 

E o de ontem? Para os quitutes das olimpíadas de ontem nem precisei acender o fogo. Foi bem comida de rico (que não sou). Enroladinhos: rúcula, manga e presunto parma; no palitinho: morango e parmesão; banhando tudo (mas com moderação, como nas propagandas de bebida): balsâmico, mel e laranja.

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Eu só não queria cair no abismo toda vez que penso teu nome longe do meu. 

No fim do filme ela diz: eu estou aqui. Sonho com o dia que poderei repetir isso. 

 

Paulinho da Viola, Hiroshima e outros vazios

Primeiro o convite: sábado, dia 24 de julho, vai ter uma live, no instagram, sobre o meu livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Estaremos papeando eu, Suzi e Fal (editoras) e Fernando Amaral (co-autor de dois contos). Meu perfil: @lucianahnepomuceno ou o perfil do livro @eter_luciana_nepomuceno.

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Às vezes penso que era melhor se você me fizesse sofrer de propósito. 

Por um erro de julgamento nossa heroína vai viver, esta semana, de maçã, manga, rúcula e espinafre.

Me digam uma coisa, vocês que são sabidos, quando um amor irrealizado sequestra uma música, um cantor, um estilo, depois ele devolve?  

Estado de espírito: Joey colocando Mulherzinhas do congelador. 

Nunca mais ouvir para um amor no recife sem sentir uma pontada. Nunca mais ouvir coisas do mundo, minha nega sem doer uma vontade. 

Por causa da aulinha de cinema, senti saudade da M. Duras. Resultado: reli O Amante, O Amante da China do Norte (como uma autora consegue escrever dois maravilhosos livros contando a mesma história?) e revi Hiroshima, mon amour (inclusive copiando trechos). Sim, eu tinha acabado de rever o filme para a aulinha, mas o que eu posso fazer se você dói tanto em mim? 

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Será que o Paulinho da Viola também gosta de bacalhau? Deve gostar, Rio de Janeiro e tal. Não era o meu peixe favorito, você sabe. Você sabe? Enfim. Não era. Agora, gosto e faço de um montão de jeitos, a única certeza é: azeite. Então, pega a assadeira e já coloca uma boa dose de azeite. Despejo com vontade, como se soltasse todos aqueles gestos que não posso fazer e todas as palavras que não posso dizer. Aviso: esta receita leva cebola. Muita cebola. É sempre uma boa desculpa pra chorar, quando se precisa manter a compostura e fingir que se detém algum controle. Cebola, pois. Pra começar, crua, em rodelas mais ou menos finas, para cobrir o fundo da vasilha. Esqueci (sim, sou um tanto Dory, leia-me toda, marque na caixinha: estou ciente e quero continuar): já tem batata no fogo, até ficar al dente. Eu cozinho fatiada, prefiro ter a maior parte do trabalho no começo do preparo mesmo. Depois, segue na banguela, é meio assim que toco a vida. Pode colocar um pouco de sal na batata (se tiver dessalgado direitinho o bacalhau, claro). Quando a batata está no ponto, emborca a metade na assadeira e deixa o resto reservado. Em uma panela ou frigideira grade e funda, mais uma cebola, cortada em rodelas finas, azeite, fogo, alho, enche a cozinha com o cheirinho de refogado e coloca o bacalhau lá dentro. Bacalhau em lascas, já dessalgado. bacalhau que parecia um amanhecer frio, olhando montanha, que parecia esquina de catedral, que parecia conversa mansa com amigo sabido, que parecia surpresa, intimidade, festa e agora só parece você, você, você. Depois de mexer pra lá e pra cá, um nadinha de leite pro bacalhau cozinhar por, no máximo, dez minutos. E lá vai o bacalhau em cima das batatas. Pega mais uma (ou duas) cebolas (mais? mais), corta do jeito que você preferir e refoga bem, deixando molinha, molinha, que nem alguém fica quando o bem querer capricha no cheiro no cangote (como se eu soubesse, como se vontade já fosse saudade). Cebola em cima do bacalhau, o resto da batata em cima da cebola (e viva a suruba de comida). Aí vem o molho branco que cada um faz como preferir. E queijinho parmesão ralado por cima. Forno por meia hora, duas taças de vinho enquanto espera, mais outro tanto pra acompanhar o prato. Se faltar sal, lágrima.

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Nem teve Cerimônia de Abertura ainda e já estou mergulhada nas Olimpíadas. Pra começar uma partida deliciosa de softball, entendi zero, me anestesiei totalmente. Obrigada, deuses gregos. Pouquinhas horas de sono (mas pelo menos agora é opcional e não uma versão ruim de uma canção do Roberto Carlos) e amanheço vendo gols de Marta e Debinha, na competição de futebol feminino. Sigo trabalhando e ouvindo a narração do jogo entre Holanda e Zâmbia (um passeio ainda maior que o nosso). Já são quase doze horas segurando a onda de depender emocionalmente de outrem que não você.

Brasil 5 X 0 China. Dois gols da Marta e um trabalho incrível tanto da nossa goleira como da trave.

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“Ele virá até mim, me pegará pelos ombros e me beijará. Ele me beijará e eu estarei perdida (se a gente sou sempre eu, ele ou você, sabemos quem é). Eu encontro você. Lembro-me de você. Esta cidade foi feita para o amor. Você foi feito na medida do meu corpo (antecipo o encaixe, seu queixo em meu cabelo, sua mão me cabendo toda, escuto a batida descompassada do coração – meu ou seu? – e deixo que minha mão mapeie todos os atalhos, esquinas, curvas, acidentes geográficos neste teu corpo-território). Quem é você? Você está me matando. Eu tinha fome. Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer (fui escrever morrer e escrevi você, nenhuma surpresa, os atos falhos se amontoam). Desde sempre. Eu sabia que um dia você cairia sobre mim (…). Devore-me. Deforme-me à sua imagem para que ninguém, depois, possa entender o porquê de tamanho desejo (para que eu mesma não consiga encontrar o marco temporal, nem antes nem depois, um sempre esse amor. Reescrevo nossa história, reinvento momentos, escrevo cartas, sonho lembranças). Nós ficaremos sozinhos, meu amor. A noite não acabará (só isso que quero: uma noite, um momento, um encontro e o desnecessário depois, dias e dias em que eu saberei que estive com você e você esteve em mim). O dia não nascerá mais para ninguém. Nunca. Nunca mais. Enfim. Você ainda está me matando. Você me faz bem (todos, todos os dias, eu sinto a angústia e aí você, qualquer coisa e todos os passarinhos cantam e todos os arco-íris colorem céus e todo o riso e bom e certo se apresentam. Ou eu acho que sim). Prantearemos o dia morto com consciência e boa vontade. Não teremos mais nada a fazer senão prantear o dia morto (porque teremos sido felizes, tudo se acolhe e se enfrenta). O tempo passará. O tempo, somente (não passará meu bem querer). E virá o tempo em que não saberemos dar nome ao que nos uniu. O nome se apagará aos poucos de nossa memória, depois desaparecerá por completo (a felicidade, como a beleza, é mesmo tão fugaz).”

 

E na hora do enlace…

Seria só um assim, cerveja ou café, um chegando no depois do outro, o passo entre o contente e o incerto, o abraço desajeitado dos corpos aprendizes, sem um saber de onde colocar mãos e desejos. O sentar quase ao lado, a mesa quadrada, os joelhos se tocando na ponta dos noventa graus. As palavras, que nunca serão lembradas com precisão nos futuros, servindo de véu, enquanto na língua que insinua sua ponta úmida, no bater mais acelerado das pestanas, no entreabrir da boca, na pequena dilatação do nariz, nos dentes que mordiscam os lábios, na voz um tanto mais baixa convidando à aproximação, confessam-se.  Você não ia ler minha mão? E agora a gente acredita? Precisamos. Então, simO verso sobre a palma, uma pele seca e quente, a outra macia, o dedo percorrendo as linhas como se borrasse fronteiras. Entrelaçam os dedos, suponho. Pagam contas de bebidas que não beberam, comidas que não mastigaram, atendimentos que não precisaram, pois eram esperas e vontades e só. Vagam ruas. Procuram, enfim, reserva e meia luz e portas com chaves e camas, Num sem fôlego despem roupas e vidas lá fora e entrelaçam pernas e histórias. Sentem gostos e alegrias e se afogam e se perdem e se provam e se mordem e se tocam até que, quando já estão tão abraçados que não há espaço para culpa ou indecisão, se beijam. Sopro. Como se dessem a vida a uma frágil, delicada, rara possibilidade. E, libertados, morrem um pouquinho um no outro. E outra e outra e outra vez. No depois dos suores e cheiros e aconchego e cochilos, ela vê a réstia de luz avançar no quarto e tocar um pequeno franzir na testa dele e, antes que a preocupação que chega vire tristeza, ela espana com os cabelos a ruga e desce esfregando nariz no nariz e morde o queixo e beija o peito lá onde o coração soluça e distribui risadas e roupas onde foram carinhos. Se os corpos que voltam pro mundo não se roçam nem num acaso, é que já não precisam, tão dentro um do outro. Na frente do mesmo bar, um abraço, com corpos que já se sabem, nem despedida nem promessa. O incêndio de um amor.

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Acontecesse (Bruno Batista)

Se um dia acontecesse
De nós se amirar
Um cadinho que sêsse
E se acaso ocorresse
De tu se engraçasse
E eu correspondesse
E nós se aprumasse
E se desgarrasse
De qualquer devesse
E na hora do enlace
Eu não me furtasse
E tu me arrecebesse

E nós se empariasse
Tu me trespassasse
Eu não me contesse
E eu mais tu se embrenhasse
E nem assuntasse
De tanto quererse
E adispois começasse
Teus óio virasse
Minhas pernas tremesse
E se o Diabo gostasse
Deus escutasse
E um anjo descesse.

E achegasse num susto
E com muito custo
Nós se apercebesse
E ele arresolvesse
Arrastar asa pra tu, e eu vêsse
E o safado eu maldasse
(Que Deus perdoasse)
Eu ensandecesse
E o anjo depenasse
Ele gargalhasse
E arrespondesse:

“Fui pro céu por acaso
(Um caso com uma santa estrangeira)
Os donzelo odiaram
E me agarraram com uma padroeira
Então fui rebaixado
Pra Anjo da Guarda das Virgem Embusteira
E agora depenado
Vou virar beato
Das alcoviteiras”.

Eu-nírico*

Nos meus blogs, tudo é ficção, quase nada é literatura.

A história da minha vida: dar mais do que eu pretendia, menos do que esperavam.

Eu poderia te amar, mas nem eu nem você sabemos ao certo o que isso quer dizer.

[haveria muitos beijos. e abraços. e cafunés. e pernas enroscadas. e toques, muitos toques. mãos que se encontram meio sem porquê. e cafunés, eu já disse? e nariz fazendo cócegas. e abraços no meio de uma praça, apenas para rimar com o tempo que já foi – ou que podia ter sido]

A verdade é que estou precisando de mar. Deixar arder o sal nas feridas. Mergulhar e confundir maresia e lágrimas. Lavar a alma ou tirar a areia do biquíni, sei lá.

Descobri que, durante toda a vida, plagiei – mal – uma escritora que nunca havia lido. Uma escritora que me faz colocar sapatos vermelhos para lê-la ou dela falar. Juro. Acho que é o jeito que ela usa os adjetivos.

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Quando você pensa em Silvina Ocampo você pensa em… inquietude, perversão onírica, cores, perturbação, devaneio, estranheza, espelho, primeira pessoa, primeiro a pessoa, desatino, sombras, desejo e uma certa crueldade.

Tem aquele moço, não, não, a bem da verdade, teve aquele moço que tem até apelido no meu rol de afetos: enfiada de pé na jaca. Tem um moço, bem moço. O interesse é muito, a energia é pouca. Tem o moço de sempre. Tem o moço do quem sabe. Tem o moço do e se tivesse sido. Tem o outro moço, nem tão moço, nem tão paquera, outra vida, outro tempo, responsabilidades, mas tão boa a dança. Dois pra lá, dois pra cá, de sapatos vermelhos, claro.

Era só chegar no bar. E sentar ao lado. E pedir a cerveja. E contar uma história repetida. E de novo. E chegar mais perto pra ouvir melhor. E falar no ouvido, porque há muito barulho. E soprar, mornas, as palavras, e encostar a língua de leve no lóbulo. E sentir a pele arisca. E encostar joelho. E dispensar um copo e beber junto. E sentir o corpo úmido. E esbarrar mãos. E já nem lembrar qual o assunto. E entrar no táxi**. E encontrar lábios. E chocar dente. E rir um pouco. E pegar o jeito. E encostar o que der de pele. E sentir-se lânguida. E ficar feliz de conhecer esta palavra porque o corpo todo está pesado, mas vivo. E decidir. Sobe, segue, despede-se? Não importa, a memória é aquela ilha de edição.

Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Foi assim com M. Duras, eu jurava que tinha sido assim comigo. Mas não, apesar de na minha vida, também, muito cedo ser tarde demais, e sempre sentir-me um tanto mais velha do que o que os anos contavam, meu rosto só mudou aos 40. Mudou tudo de uma vez, ângulos, expressões, textura. Ainda estou aprendendo a ser essa outra mulher. Que tem seu charme, mas é um charme outro, tal como um esgrimista que muda do florete para o sabre e está descobrindo como manter a elegância.

Eu queria ter te amado melhor, sabe. Não me entenda mal, eu não queria ter te amado mais, nem em duração nem em intensidade. Eu te amei inteira, eu te amei em cada linha escrita, eu te amei em cada dito ou escuta, eu te amei no sono e te amei no sonho, eu te amei em lábios e pele e ânsia. Eu te amei tanto. Mas sim, eu queria ter te amado melhor.

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Os roteiristas deste programa tem toda minha admiração. A lista de livros, a relação da arte com a morte, a homenagem a Aldir Blanc e todos os outros, a canção do Tom Zé cantada em família. Tudo isso me fez tão bem. Porque não é negar a dor. É olhar no olho do medo, da perda, da raiva, da finitude e reinventar em beleza.

 

(tem umas pessoas públicas que eu admiro pelo que produziram, pela sua arte, pela sua voz, humor, talento, etc. e fica nisto, admiro, elas lá, eu aqui. tem outras que além disso ou apesar disso, eu sei, eu sinto, com convicção, que seríamos próximos caso nos conhecêssemos (me deixa). O Gilberto Gil é assim. O Caito Mainier. E tem aqueles que eu nem sei se seríamos amigos e tal, mas tem hora que eu bem que gostaria. Como o Gregório. Hoje eu quis muito tomar um café na casa dele.)

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*Um moço inteligente, um dos melhores em trocadilhos – bobos ou sabidos – enquanto se conversava sobre a escrita de Silvina Ocampo, soltou essa: ela não tem eu lírico, tem eu-nírico. Avisei que ia roubar. Roubei.

** A paixão tem este sentido de urgência. Um livro que me tocou muito se chama “O Repouso do Guerreiro”.  Logo no começo da história, quando está se envolvendo com Renauld, a narradora diz:
“— Aliás, vamos tomar um táxi. É bastante longe.
Oh! Como é longe! O tempo é desmesurado. Dez metros, eu não os faria a pé. Só percebo o minuto seguinte a uma distância inacessível, nunca o atingirei.”

Amarelo

Um janelão imenso, o mar no enquadramento, panquecas na cama, aquele quando que é eterno: você lendo, baixinho, Para uma menina com uma flor. E, depois, rindo: no seu caso, pouco sutil, essa flor é um girassol.

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– Você não sabe amar. Nem discuto, até acredito. Mas sei como é ser amada. Obrigada.

Hoje fiz sopa. Pra você ver como o isolamento promove decisões estranhas. Sopa nunca foi confort food pra mim. Tomar sopa talvez ainda não seja. Mas preparar, sim, fazer sopa se tornou um jeito de me jogar, temporariamente, num tempo outro, melhor, mais alegre. Gosto que seja um processo demorado. Como me ensinaram, o principal tempero da sopa é o tempo no fogo. Cortar os legumes bem miudinho. Refogar a cebola, o alho, colocar o resto dos ingredientes (além dos legumes eu gosto de colocar um pedaço de linguiça ou bacon pra dar aquele sabor maroto), misturar, temperar, água quente, deixa cozinhar, cozinhar, cozinhar e quando achar que tá bom, cozinhar mais um pouquinho, tira o pedaço de linguiça, passa o resto tudo no mixer. Cebolinha e queijo na hora de servir.

Todos os dias chegam links de museus disponibilizando visitas virtuais, cursos online, poadcasts, lives e inúmeras outras atividades pra quem precisa de ajuda pra passar o tempo no isolamento. Eu acho admirável que alguém precise porque eu estou me sentindo meio como um bebê, eu como, eu durmo, eu tomo banho e coisas assim. A diferença, talvez, é que eu mesma preparo minha mamadeira e coloco a roupa pra lavar. Eu não fico procurando mais informações sobre o corona vírus, mas não consigo deixar de me preocupar com as pessoas que estão expostas, que provavelmente adoecerão, que talvez morram. É um sentimento constante de impotência.

Abrir a porta e esperar o sol.

 

Comida, cinema e relacionamentos, tudo sem receita

Bacalhau a Espanhola feito a quatro mãos (ou algo inspirado no Bacalhau a Espanhola, enfim, receitas particulares e únicas, melhores receitas).

Duas dessas mãos cortam cebola, cortam alho, descascam e cortam cenoura bem miudinha. Depois as mãos acompanham o corpo e vão pro cantinho da mesa, com uma taça de vinho entre elas e ficam beliscando chouriça e queijos vários.

As outras mãos, que já serviram o vinho, que já dessalgaram o bacalhau, que já arrumaram a mesa, cortaram queijos e chouriças, agora colocam a cebola em um lago de azeite. Entretanto (o do lado de lá do mar), descascam e cortam em rodelas mais cebolas, pimentos vermelhos, tomates, batatas. De quando em vez, mexem o refogado.

Mais vinho nas taças de todas as mãos. Deixa a conversa assentar no ar tão frio que as palavras congelam um pouquinho antes de seguir caminho. As mãos encontram-se em ensaios de abraços e apartam-se, como se soubessem a saudade que um dia seria. Voltam as mãos segundas para o vai e vem da panela enquanto as outras, primeiras, se consolam no pezinho da taça.

Ao refogado, juntam-se os pinicadinhos cenoura e alho. Em camadas: batata, tomate, cebola, bacalhau, pimentos e tudo de novo, vezes e vezes. Aqui e ali, uma folhinha de coentro. Azeite como quem se esquece. Uma garrafinha de cerveja. Deixa o fogo ser tempo. Meia taça do vinho também na panela.

Espera o cheiro. Cheirou? Mais vinho nas línguas, mais alegria nos olhos, mais mãos nas mãos. Mesa posta.

Oscar 2020: Wild Rose

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Gostei demais de ver esse filme. Tem um bocado de coisas que me agradam, musiquinha, fuga de clichês, personagens cativantes, um pé na realidade outro no improvável, gente, gente, gente. Ok, tem um umbigo enorme que é meio vórtice e acaba que tem personagem que entra e sai e a gente não sabe pra onde foi mas, no frigir dos ovos, nem nos incomoda porque a protagonista tem aquele jeito cativante e a mãe dela pode sair cantando com a meryl streep a qualquer momento.

Críticos homens revolts porque em Wild Rose a narrativa parece sugerir que a maternidade atrapalha as ambições profissionais da protagonistAHAHAHAHAH SPOILER: ATRAPALHA SIM e nem é só no filme. Não a maternidade em si, mas as formas que podemos exercê-la, configuradas pelas relações sociais e talz (nem devia ter que explicar, mas, né).

Tendo visto Judy, recentemente, só posso ficar contente que embora a indústria ainda seja um moinho, tanto tenha mudado no mundo para as mulheres – por sua própria luta, destaque-se. Há caminhos.

É filminho com mensagem? é, mas é britânico, então nem ofende.

Este foi mais um momento… Correndo pro Oscar 2020: impressões aleatórias e meio sem fôlego de uma apaixonada pela breguice da premiação