Correspondentes

Orgulhosa de mim mesma e da coragem desprendida evocada, dei o que eu supus ser uma imensa patada. A pessoa achou que era um afago e me tratou com a displicência condescendente de sempre. Só me resta cantarolar: a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o livro é meu – porque um dia virá, sim, virá. Enquanto não vem, um convite gentil, um pequeno conto, uma boa aula, os Corleones, máscara com válvula, hidro, a correspondência. Abri o envelope e choveu dourados. Cartas há mais de um ano e você ainda consegue me surpreender. Alerta de correios e de sorrisos em mim, sorrisos que eu julguei perdidos. Ouvi uma musiquinha do Fito Paez. Tão doces os amores do passado que nos fizeram bem mesmo que não os entendêssemos como devíamos. Escuto os moços falarem de luxúria e me admira a segurança com que dão conselhos. Se eu fosse dos que dão conselhos diria: coloquem a macaxeira para cozinhar no cozido de carneiro. De preferência, tendo temperado a carne, também, com canela. E acrescentaria: depois que no prato estiverem carneiro, macaxeira e cuscuz, taca sem dó um monte de pimenta biquinho. Garanto uma boca em festa. Por falar em festas, ando precisando de um boteco. Em outra freguesia. Criei uma armadilha e me joguei nela. Eu era feliz e sabia. O que eu não sabia é que não seria feliz assim de novo. Os moços ainda estão no papo, infelizmente não dá para ignorar o moralismo dos conselhos. Sexo é um assunto complicado para se falar en passant – lembro-me de dar este desconto. Só me resta reler Ligações Perigosas e respirar por Merteuil. Eu não tinha medo de morrer. Agora eu tenho receio de não morrer. Ou de não saber que estou morrendo. Ainda estou decidindo. Li o diarinho da Fal e é óbvio que não devo assistir Uncoupled. Nem ler threads no twitter sobre obsessivos e histéricas. Este era o seu apelido correto: Olegário. Sôo ressentida? A dor é minha, o livro é meu. Comprei pasta de amendoim. Gastei dinheiro que não tenho. Não me senti melhor. Nem pior. Faz tempo que estou como o pintinho da piada: sentindo nada. Aí passa o efeito do analgésico e, claro, ninguém quer ler sobre isso. Fiz fotos com meus sapatos vermelhos. Não estou mais no Kansas, nem em Oz, nem mesmo em São Paulo. Mas encontrei um papel de carta muito fofo e etiquetas douradas em forma de estrela. Não estou fazendo planos pois não sei se estaremos juntos, eu e o futuro. Não sei quem ele vai encontrar, caso chegue. Provavelmente alguém que eu desconheço. Enfim, não estou fazendo planos, mas em algum canto bonito em mim, sonho encontros, vinho verde, pequenas palavras, imensos silêncios, muitos risos, talvez murmúrios, algum espanto, surpresas, conforto, a hora de ir embora sempre chegando antes do que devia. Preciso comprar envelopes.

Telescópio e outros aléns

Recebi a carta mais simples, despretensiosa e gentil. E, sim, o “com amor” me balançou um pouco. 

Status: entendendo melhor o conceito de migalhas. 

Eu poderia dizer que não tem sido fácil viver e qualquer um acompanharia o raciocínio. Mas não seria muito honesto. Nem posso garantir que estou tentando. Há coisas que não tenho nem terei coragem de fazer e todo o resto parece pálido diante desta constatação.

Westworld voltou e que morte horrível. Mas talvez seja eu.

Minha amiga perguntou se eu não preciso de ajuda. Tentei. A mulher disse que a vida tá dureza mesmo, respira fundo, come melhor, chora quando precisar e segue… quando estiver na ladeira, solta e vai na banguela. Não com essas palavras, claro.

A amiga autora me escreveu uma carta, aceitei o convite e estou comendo pão integral com grãos, ouvindo Salmaso e tentando não dar na vista que não ligo muito para fotos de salas e maçãs.

Vi uma enquete no twitter que perguntava no que você acredita? e as opções eram deus, natureza, universo e nada. Entre estas eu responderia nada, claro. Mas bem lá no fundo ainda acredito é na rapaziada. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá – apesar das evidências todas me atropelando. Hoje vimos as primeiras imagens do telescópio James Webb. O engenho humano sempre me encanta. Que alguém, que é gente, tenha pintado a capela sistina, tenha esculpido Davi, tenha feito cálculos para pôr foguetes em órbita, tenha descoberto vacinas e impresso estampas em tecido, tudo isso me comove e arrebata.

As coisas que você estragou pra mim

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.
(Paulo Mendes Campos)

Que pena que você foi embora, moço. Levou, que nem a Rita, um sorriso meu e tantos assuntos que ainda poderiam ser. Guardo, com carinho, os últimos besitos. Melhores que vinho.

É, para mim, cada dia mais difícil falar com as pessoas. Especialmente com as gentis. Com os gentis que são meus amigos, então, é quase impossível. Atenciosamente eles me perguntam: como vai? Como você está? E eu não posso responder. Não conheço as palavras. Me esquivo. Ontem eu tentei, porque ela, tão querida, perguntou. Eu disse – eu tô sem estar. Sinto que atravesso os dias como se todos fossem o mesmo e cada um fosse o vazio. Nem alegre nem triste nem poeta – mas eu disse não é exato, não é bem isso, embora seja o mais perto que consigo chegar da verdade quando tento colocar em palavras.

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Vem aí meu aniversário (falta menos de uma semana) e eu estou apavorada com a tristeza que vou sentir.

Em um Diarinho recente ela fez uma lista de coisas interessantes sobre a vida dela e disse que uma – só umazinha – era mentira. Foi tão bonito que eu nem soube comentar.

Quando eu digo que não conheço as palavras é uma meia verdade. Conheço algumas, mas elas tentam escapar. Hoje passei uns bons 50 segundos olhando pra escrivaninha, tentando lembrar este nome e só me vinha: maçaneta.

As coisas que você estragou pra mim (ou bem perto disso): Paulinho da Viola, Verissimo, escola de samba, madrugada, a sua cidade, vinho, bacalhau, amizade.

Status: hora extra.

É muito irritante quando eu digo, em análise, eu não sei tal coisa (sobre mim) e o analista emenda um sonoro: eu também não.

Tenho saudades do tempo em que eu não gostava de brócolis #classemédiasofre

A tua carta está em cima da escrivaninha esperando ser respondida. Não chegou hoje nem ontem. Nem mesmo anteontem. Chegou com um bonito e enorme gato no envelope, prometendo tanto. Que não veio. Que não estava no envelope, nas linhas nem nas entrelinhas nem nada. Bom, pelo menos eu não encontrei. Não respondi ainda. Não me animei. Não me inquietei. Não me inspirei. Não quis. Não quero. Estou cansando de você, provavelmente por suspeitar que logo você vá cansar de mim. Não é um movimento novo, embora ainda não tenha conseguido explicar direitinho, no divã, o fenômeno. Eu vou embora, mesmo que ainda pareça estar. E não consigo voltar. Depois podem ser os ridículos “dezesseis dias seguintes”, mas, quase sempre, nem isso.

A casa limpinha. Máscaras nas estantes, na mochila, na bolsa, nas gavetas. Esperando. O kindle e o reino dos livros inacabados. Rúcula com manga. Alho frito. O vermelho intenso da rosa do deserto. Decisões tomadas. Grandes, imensas. Renúncias presentes e futuras. Camisola lilás. A televisão recebendo um poltergaist. Suco de maracujá. Muito suco de maracujá. Reunião no sábado. Um bom filme velho. Um gol do Flamengo. Uma música triste. O café sem açúcar. O shampoo de café. E o condicionador de canela. A ponta do lápis de cor. Os passarinhos, as florzinhas, o ventinho frio de chuva. Aquele doer sem diminutivo.

“Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”

Chegou 2022 com alguns aperreios inesperados. Cheguei nele com a decisão de ficar bem. De remover muros, cercas e sei lá mais quantas camadas de proteção que eu sei que uso, que nem o menino enrolado em plástico bolha do Pequeno Grande Time. Bora lá, mergulhar de cabeça, correndo o risco de partir uns ossos. Ou o coração.

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Desde que voltei pra casa eu não fiquei triste, triste de verdade. Nem alegre. Nem calma. Nem nada que se costuma usar pra definir um estado. Meio oca, talvez. Tirei uma foto do meu lindo óculos. E faço de conta que não quero saber se alguém viu. Tenho intenção de passar uns dias deixando o mar lavar a ferida. E bebendo mimosas. E caipirinhas. E cervejas. E alguma água de coco. Se ele soubesse – mas ele não vai – talvez ele pensasse: se eu vivesse com essa mulher, eu seria um alcóolatra. Digo eu: melhor que ser um adicto da infelicidade (perdoem, estou decompondo a amargura, espero em breve ter outros sabores). Minha pia está limpa, minhas roupas estão lavadas, o chão está aspirado. Ok, a cama está bagunçada e tenho livros demais dentro do quarto, mas, espiando rápido, 2022 já começa melhor do que terminei 2021. Eu não curto chá (ou infusão, como a Fal e o Fabi preferirem), mas tomei banho de camomila. E fiz uma pequena prece – para os deuses gregos, que são os únicos que conheço pelo nome e tal. Comi pizza ontem, comi pizza hoje. Com café. Doei coisas, ganhei uma churrasqueira de fogão, além de um batom nude e água micelar – tive que pesquisar pra descobrir o que é. Vi muitos episódios de queer eye sobre pessoas incríveis que trabalham muito pra fazer o mundo melhor. Fiz isto enrodilhada na minha preguiça. Foi confortador passar o ano só e confirmar que sou desnecessária. Estou lendo um conto com uma personagem se chama Glosspan. Nem precisa muito mais do que isso pra ser bom, não é? Preciso de uma luz mais forte no meu quarto. De um colchão novo. Ir ao dentista. De menos danos. Melhores planos.

Fiz o que pude. Acho que não fui tão mal”.  A frase do Maradona é a epígrafe de um filme. Gosto de pensar que funciona, também, como síntese das minhas ações em relação a, bom, essa coisa toda.

Eu nunca fui especialmente ligada em super heróis embora tenha lido muita, muita mesmo, revistinha na infância/adolescência. Essa ênfase na quantidade vinha mais pela facilidade de encontrar este tipo de coisa pra ler do que por uma preferência temática. Entretanto, em tempos recentes, a Marvel tem me oferecido um consolo parecido com aquele que advém dos romances policiais, especialmente dos livros da Agatha Christie. Eles me confortam. Colocam meu mundo no lugar, mesmo que temporariamente. Dificilmente eu poderia eleger meu Vingador preferido. Mas, ao longo do tempo, fui reconhecendo minha afinidade com um tipo de personagem: o mais humano – e, humano, aqui, simbolizando potencial para enfiar o pé na jaca. Na longa lista brilham Derfel, Boromir, Rollo e afins. É nessa tradição que se apresenta meu xodó pelo Gavião Arqueiro. O herói de mau humor. Que sai todo roxo dos embates. Que faz o que é certo porque, bom, é o certo. O que tem uma melhor amiga. Que se envolve. Que vê longe e escuta mal. Que brinca com os filhos, tem piada cúmplice com a companheira, que passa vergonha em público. Nesse 2022 só quero voltar a ser eu mesma, sem nenhuma pretensão de super poder, pendurada nos prédios por um nadinha, fazendo o que é certo porque é certo e, evntualmente, o pé todo atochado na jaca.

Das coisas que você precisa ouvir, mas eu nunca, nunca vou te dizer: você toma péssimas decisões.

Antes de conhecer você eu não tinha razões para viver. Mais, eu não tinha razões para morrer. Você me deu os dois.” Se eu fosse uma das criadoras do álbum, colocaria assim: “amar é”… ver sinais onde existem apenas coincidências e diálogos fracos. Estou assistindo A Roda do Tempo. A série é bem qualquer coisa, há desvios demais da história dos livros pro meu gosto, mas – tal como os personagens todos – estou envolvida com Moiraine e disposta a segui-la, mesmo me sentindo incomodada quase sempre.

Segunda temporada de Emily em Paris: um conflito besta que se estende em um segredo sem pé nem cabeça. Mas o personagem Luc cresceu bem e me diverte.

Andei vendo: Tick, Tick…Boom!; A Filha Perdida; Meu ano em Nova Iorque; Não Olhei Para Cima, A Mão de Deus. #aquecimentoparaoOscar

Revisitando

Abrir portas, aguar plantas, acender fogo. Onde o sol entra a doença sai, diziam as avós ou dizem que elas diziam. Água, pó de café, coador. Goma, peneira, frigideira. Manteiga da terra – que adeptos de uma língua que me é quase estrangeira chamam “de garrafa”. Arrumar a mesa com a toalha estampada com versinhos advindos dos lenços dos namorados – sentir saudades de Portugal, colocar fados para tocar no celular, prosear com mãe e pai, cozinhar milho, responder e-mails irritantes, responder e-mails importantes, corrigir trabalhos, cozinhar batatas, limpar o peixe, temperar o peixe, rechear o peixe, assar o peixe, alimentar duas casas. Comprar passagens, suspirar, lavar louças, mandar mensagens, preparar slides, arrumar o kindle do pai, tirar tudo da cristaleira, arrastar móveis, organizar taças, aparelho de jantar da avó, coleção de canecas, trocar as mantas do divã e sofá, já é de novo cozinha, carne de sol, arroz de leite, casa da irmã, voltar correndo pra aula, esperar alunos, fazer o melhor possível sempre, sentir o corpo pedir repouso, espiar o céu, respirar fundo, fazer silêncio bem dentro, deixar o vento balançar cabelo e saia do vestido, fechar portas – deixando uma brechinha nas persianas. Já é quase um amanhã.

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Tá lá no Vinícius: é impossível ser feliz sozinho. E eu sempre entendi mais ou menos como: precisamos do Outro para a felicidade, somos seres de incompletude, há sempre o vazio do objeto perdido enquanto perdido e por aí vai. Hoje, sustentando a compreensão inicial, mas emprestando-lhe uma outra camada, percebi que há certas felicidades que precisam ser contadas, esmiuçadas, compartilhadas letra a letra. Guardadas só em mim tiram meu prumo, me engasgam, aceleram meu coração no peito chega faz aquele barulhinho de carro de F1 na curva. Zuuummmm. Foi um pouco melancólico (não fosse eu uma peixinha) perceber que não havia ninguém para ouvir essa felicidade, ou melhor, ninguém que a ouvisse e a entendesse – como já houve. Ninguém que risse e suspirasse e o olho brilhasse. Tenho mais e – se o termo pudesse ser empregado nessa situação – melhores amigos do que já tive. Mas no envelhecimento nosso ficou no caminho aquela amiguinha do telefonema longo depois das 22hs, a da conversa no banco na calçada, aquela de quem eu guardei correspondência e pra quem revisei e até escrevi cartas que ela remeteria a seus paqueras, a amiga pra quem eu narraria meu sorriso e pra quem contaria detalhes insignificantes como se importassem – e ela realmente se importaria. Não quero soar errado, então esclareço mais um pouquinho: tenho muitos amigos e eles – sem exceção – se alegram com qualquer minha alegria. Com todas felicidades que eu sinta. Mas ficariam contentes e animados porque eu estou contente e animada – não pela coisa em si. O lance é que não tem outro alguém tão bobo/a quanto eu. Não que isso tenha me inibido, chamei uma e pedi: tenha paciência. E ela teve e me acolheu e achou bonito que eu ficasse feliz.

Belchior

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Mas, principalmente porque você não estará por perto para ouvir.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a distância é tão grande. Porque doem ao sair do peito para a língua e, afiadas, cortam minha garganta no caminho. 

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Um livro de capa amarela. Canetas falhando. Comida ruim. Tarefas incompletas. Seu fantasma puxando o meu pé. O jogo indesculpável da seleção masculina de futebol. Mais de 600.000 ausências. As decisões judiciais absurdas. A planilha de contas. A planta que definha. A mensagem que eu não respondi. O programa tranqueira. Todas as pecinhas do quebra-cabeça que anunciam: ano passado eu morri mesmo, o Belchior estava certo. 

Contente

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Nada de raízes, tenho âncoras, já falei algumas vezes. De outro jeito: eu sou meu próprio lar. Andava exilada e, hoje, a sensação de que estou voltando pra casa. A amiga lá longe disse: o retorno de coisas que dão alegria na vida. Coisas que a pandemia nos tirou. Coisas que nos dão muito prazer e nos definem. Ela me conhece muito. Olhar no espelho e perceber que estou sorrindo. Pode ser do bolinho de espinafre. Da piscina aquecida. Das primeiras páginas d’A Convidada ou das últimas d’O Amante. De me sentir feliz na chegada e na partida. Seguir a vida. Ter os planos bagunçados. Fazer pequenas listas confusas: trocar o punho da rede, descascar macaxeira, enterrar a margarida. Rir sozinha das coincidências. Escrever: so-zi-nha e não parar de respirar. Experimentei soletrar seu nome. Depois, em sílabas. Murmurar inteiro. E em voz alta: nome e sobrenome. Olha só, o chão ainda está aqui, sob os meus pés. Se não contarmos o cearensês, a língua italiana é provavelmente a mais bonita. Certamente é a mais gostosa. Estou indo embora como a Julieta dos espíritos, mas tocando o trompete do final d’Os Palhaços. Fechando o círculo: lembrei que tem gente que faz bem pra gente sem nem precisar estar com a gente, só por estar na gente. E ter marcado o colchão. De resto: pia cheia, panqueca de cogumelo, promessa de mimosas, foto sorrindo, o samba da Vila de 2022, instrução normativa de retorno à atividade presencial, uma consulta médica agendada, os livros de poesia da Ana Martins Marques, uma carta que não chegou ao coração de Minas, garrafinhas de água, Stellas vazias enfileiradas no quintal, a carta dos enamorados, um galeão saindo do peito. Eu ainda durmo do lado da cama mais perto da porta.

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Imaginar felicidades

Eu tenho sentido saudades de tudo. Especialmente de imaginar felicidades.

Lua que míngua, pequenos planos, longas cartas engavetadas, gastos inesperados, imagens de Lisboa, jogos de futebol, queijo errado, o pão certo, uma depilação esquisita, susto, café, café, café, sua foto me doendo, a vontade do livro que é caro demais, uma encomenda que não chega, espera, espera, espera, um tempo com Odisseu, desilusão, o universo já não me aguenta mais, a sensação de morrer em um mundo muito pior do que o que vivi, café, café, pão com patê de ricota e azeitona preta, Fellini, Éris como deusa do mês, uma dúzia de garrafas de água vazias ao redor da cama, coisas por fazer, atos de #forabolsonaro pelo país, uma resposta atravessada, o samba da Mangueira para 2022, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia nessa pandemia, se não eu, quero nem saber quem vai fazer você feliz, opa, errei a letra e acertei o sentir, café, café, feijão e banana, escolher um conto de Capote, empilhar cadernos e baralhos, os suspiros, os muitos suspiros, a planilha de custos, Olhos nos olhos, a morte de Sebastião Tapajós, Edward Hopper pintando meus dias, vento pela porta da varanda, a pele macia, Bethania cantando à capela, uma história emperrada, a sensação incessante de pisar em areia movediça.

outono

Outono. Talvez seja a estação que mais me cativou quando a gente as tem bem marcadinhas. No outono tudo é maduro. Há cor, cheiro e disposição. No outono o morno das castanhas. As folhas vermelhas. O vento eriçando pelos e mamilos. O mundo perde o pudor. As árvores se põem nuas. No outono já não há promessas, a vida é em entregas. O outono é luxúria. E aconchego, também. Fumacinha na tigela e ainda azul nos dias. Uma manta colorida. E memória. Outono é outra luz. E terra. Pés descalços e encontro. Dourado à beira da estrada. Outono é essa vontade de chegar, encolher no abraço e aceitar o bom do agora.  Neste momento é outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, pode-se cantarolar ao percorrer, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam desnudas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.

Tem conversas que eu não consigo mais ter e coisas que eu não quero explicar. Se alguém não entende, por exemplo, porque ter apenas cardápios em Qrcoisa não é desejável, eu dou de ombros e sigo andando. Tô cansada demais. Eu tenho bússola, descobre aí a sua, baby.

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Escrevi uma Garrafinha esses dias sobre dias banais e me reinventar para viver os dias que chegam. Dá pra ler neste link: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu/letters/newscoisa-66-banal e se quiser assinar e receber as Garrafinahs direto no seu email, é aqui: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

Ossada Perpétua

Ontem foi aniversário do Verissimo e eu queria comemorar com você. Tem disco novo com músicas do Aldir Blanc, penso logo em mandar o link. Meu time empatou, o seu venceu, eu poderia comentar isso. Vi episódios do Chico & Caetano, mais um tópico. Guardo mais um pdf que você gostaria de ler, arquivo uma e outra imagem que faria você rir, salvo pequenas tiradas, registros do cotidiano, memórias e insights, tudo que poderia lhe interessar. Vou montando uma ossada perpétua desse amor.

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É difícil demais aceitar que o trem já partiu. Reconhecer o não. Especialmente quando a pessoa é displicente ou receosa demais de dizê-lo assim, bem soletradinho: ene-a-o-til. Eu nunca entendi muito a necessidade de devolver presentes, fechar gestalts ou sei lá o nome que se queira dar pra passar a régua e zerar a conta. Provavelmente porque eram minhas as costas que estavam sendo vistas. Ainda não decidi se mantenho esse Amarcord na estante ou faço um pacote com a carta de despedida, a proposta que esbocei tão bonitinha e se tornou obsoleta e mais dois ou três presentes que planejei enviar e agora são excrescências. Queria respirar fundo, empinar o peito e desculpar-me, tal como a Audrey, de que não poderei ficar para lavar os pratos. Vou ensaiando.

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Vaidade é um negócio que me surpreende não porque me falta, mas porque me sobra. Vejo pessoas deixando de usar máscara, usando ineficientes máscaras de tecido com renda ou laços, comprando caras máscaras coloridas pra combinar com a roupa, etc. JAMAIS me passaria pela cabeça que usar qualquer tipo de máscara segura me deixaria menos linda do que reconhecidamente me sinto e sou.

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Semana que vem eu pretendo ir à praia. E na seguinte vou a Fortaleza e, sim, comprarei peixe no mercado. Por um tempo pensei que o segredo era recuperar todos os meus pequenos pedaços e descobrir como reencaixá-los. Eu, quebra-cabeça. Quando muito, providenciar ouro e fazer kintsugi do coração. Bobinha. Olhando os cacos todos no chão, bordas ásperas, algumas pontas esfareladas, percebi que o caminho é uma espécie de bricolagem. Como a que faz a irmã que quebra toda a porcelana que a outra colecionava e, depois, transforma aquela devastação em beleza, cobrindo uma parede com os cacos, no filme Colcha de Retalhos. Reinventar-me, outra, com o que já fui e mais as belezas e toda gentileza que puder misturar pra fazer o grude.

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Eu não sou muito de reclamar da temperatura, calor ou frio, porque não sou muito de reparar nela. Mas, né, até eu tenho limite. Aqui fez um calor na semana que passou que me fez chorar. Não que eu tenha precisado de muito motivo pra chorar nestes últimos dias. Ou meses. Ou anos, se pensarmos bem, mas divago. Fez um calor desgraçado. Sem brisa. Abafado. Como se o calor fosse um elefante suado sentado no meu peito. Além da agonia, uma saudade. Senti falta da ignorância, de não saber outros lugares e seus termômetros. Leio as pessoas falando em primavera (coerentemente), mas outubro, pra mim, será sempre outono, castanhas assadas, folhas vermelhas, vinhos mais encorpados. No antes, eu aqui eu só tinha a estação praia, aprendi os demais ritmos com sotaque luso e, suspeito, será sempre assim que lembrarei. Ela, a Fal, contou que canta em voz alta. Eu nunca falo em voz alta e raramente canto, o que me fez pensar que as palavras que me habitam tem mais discernimento do que eu mesma. Em outra editoria, deixo registrado que gosto das minhas rugas – e também das rugas da Fal. Disse o Caio: “queria tanto que alguém me amasse pelo que escrevi”. Por muito tempo essa frase me acompanhou como uma espécie de farol meio inconsciente, presente sempre que eu começava a digitar. Um alguém é qualquer um e, eventualmente, até mesmo uma ausência. Tinha e não tinha um leitor ideal(izado) #Schrödingerfeelings. Mas a maré enche e seca e deixa coisas na areia além de conchas ocas. Alguém agora tem endereço, barba e tristeza no olhar. Tem sotaque e blusas de botão. Boletos. Tem até rima e rival. E eu, modesta, um pouco tímida, nem fico querendo ser amada pelo que escrevi, fico cantarolando como uma atrasada Mutante “eu só quero que ele me queira” pelo que escrevi ou por qualquer outro motivo trivial, sei lá, porque meus dedos médios tem uma curvinha charmosa.

Ontem revi O Poderoso Chefão pela zilionésima vez e é sempre um espanto. O filme é todo, todo, todo incrível, mas os primeiros vinte e seis minutos, sei nem o que diga de tão bem feitos.

Um amor geralmente é uma pergunta. Uma inquietação. Aqui chegando logo vi que sabia tão pouco, ou mesmo nada.  E na mesma medida que chegava o encanto, chegava a vontade de conhecer. Essa suposição ingênua e recorrente de que, ao desvendar o objeto de amor, o teremos mais nosso. Quando muito, acontece de sermos mais dele.

Macia

Acho que eu nunca estive tão macia. Pode ser um comentário meio bobo, paciência, é assim que me sinto: macia. E não é uma metáfora, alegoria ou qualquer tipo de jogo de palavras espertinho. É minha pele e meu cabelo. Ok, eu troquei os shampoos de supermercado por uma linha de produtos um pouco menos aleatórios, mas isso explica a pele também? O shampoo escorre corpo abaixo e isso basta? Eu, toda macia, mas sozinha nesta infinitena e ninguém pra me alisar. Se eu tivesse escrito isso ontem, teria ficado triste. Quando eu ler, amanhã ou depois, provavelmente ficarei. Mas não hoje. Porque minha terra vermelha de Tara é azul, sabe a sal, vai e vem em murmúrios e hoje eu a visitei. Até trouxe conchinhas pra casa. Uma hora dirigindo de ida, outra hora de volta, o rádio contemporâneo falando de Afrodite, duas horinhas de praia. Tudo valeu a pena. Minha alma é imensa.

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Em casa, vi séries que eu deveria ficar constrangida de comentar. Pensei que estava curada de séries médicas ao passar incólume por The Good Doctor, mantendo-me fiel só às paixões crônicas e tal, mas caí em uma série turca chamada (eu não tenho jeito) Um Milagre, que é o quê? Hein? Hein? Série de hospital. No caso, com médico no espectro autista, que a vida não cansa de ser irônica. Mas tão lindos os moços turcos. No diarinho, a Fal disse que escrever é registrar. E eu entendi porque nunca senti a síndrome de impostor(a). É que eu sou mesmo uma. Dois livros, uma tese, uma dissertação, muitos artigos, 64 newscoisas, sei nem dizer quantos posts em blog. Eu escrevo, escrevo e escrevo. E sou péssima nisso de registrar. Mas disfarço a inconsistência da minha mágica com muita fumaça no palco, pombos voando, balões coloridos e uma assistente de palco com maiô bem cavado. Preciso – e quero – ler dois cantos da Odisseia, Torto Arado (sempre leio “tô tarado” – e descobri que não sou a única) e um artigo sobre Teoria Crítica e Estudos Organizacionais, mas vou ver heróis de macacão colado salvando o Universo. É isto ou desperdiçar 72hs de resistência e mandar mensagem praquele que deve ser esquecido.