Fronteira ou: pode chegar, 2022

Em 2022 seguirei maravilhosa.

Fiz uma listinha de pessoas que tenho obrigação de desejar uma boa passagem de ano. Certeza que vou furar.

Jantarei pizza e qualquer um pode me julgar, nunca liguei mesmo.

Vivo na fronteira entre querer muito e desesperadamente ser amada por todo mundo e a absoluta incapacidade de alterar um a em mim ou nos meus planos pra agradar a qualquer pessoa que não seja eu mesma. Ou seja, me amem, mas sem que eu faça nada pra merecer a não existir – e olhe lá.

O melhor macarrão é refogado em azeite, alho, um pouco de manteiga, uma pitada de nada de açafrão e depois um punhado de cebolinha picada.

A profissional que corta meu cabelo tem falado bastante sobre fazer reflexos, luzes, mechas, sei lá. Gostaria de encontrar um jeito gentil de dizer que necasquipitibiriba. E nem é por nenhum apreço especial pelo natural ou algo assim. É que faz tempo que eu resolvi que viver ia ser o mais barato possível. E se eu me sinto bem e bonita de todo jeito, porque mesmo vou gastar a mais com esses lances aí (e os necessários retoques e produtos decorrentes)?

Tenho escrito muito, mas não consigo decidir se posto no blog ou nas Garrafinhas e vou deixando no dropbox mesmo.

Seu presente de aniversário ter chegado aí antes deste ano acabar é só a cereja do bolo de indiretas que o universo vem me enviando. Como diria o personagem antigo: passa a régua e fecha a conta.

Leiam e comentem minha newscoisa #momentopedintecarente (https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu)

Filmes bem bons que vi nos últimos dias: Ataque dos Cães e Belfast.

Volta e meia eu explico porque romances/filmes policiais me fazem bem. Resumidamente, eles colocam ordem no que não tem certeza nem nunca terá. Há outro motivo: há, sempre, alguém que se importa. O investigador, ele quer saber a verdade, mas, principalmente, ele se importa. Mesmo que seja do jeito pedante de Poirot: eu não aprovo assassinatos. Gosto demais, nesta chave aí, dos investigadores sofridos das séries nórdicas. E em Shetland tem esse detetive que se importa, se importa muito, não com esta ou aquela vítima. Ele se importa com as pessoas. Dono do meu coração.

Já, já será mar e mar e tanto azul. Já, já, vida, você não perde por me esperar.

Pode vir 2022, pronta ou não, tô no gol

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Contente

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Nada de raízes, tenho âncoras, já falei algumas vezes. De outro jeito: eu sou meu próprio lar. Andava exilada e, hoje, a sensação de que estou voltando pra casa. A amiga lá longe disse: o retorno de coisas que dão alegria na vida. Coisas que a pandemia nos tirou. Coisas que nos dão muito prazer e nos definem. Ela me conhece muito. Olhar no espelho e perceber que estou sorrindo. Pode ser do bolinho de espinafre. Da piscina aquecida. Das primeiras páginas d’A Convidada ou das últimas d’O Amante. De me sentir feliz na chegada e na partida. Seguir a vida. Ter os planos bagunçados. Fazer pequenas listas confusas: trocar o punho da rede, descascar macaxeira, enterrar a margarida. Rir sozinha das coincidências. Escrever: so-zi-nha e não parar de respirar. Experimentei soletrar seu nome. Depois, em sílabas. Murmurar inteiro. E em voz alta: nome e sobrenome. Olha só, o chão ainda está aqui, sob os meus pés. Se não contarmos o cearensês, a língua italiana é provavelmente a mais bonita. Certamente é a mais gostosa. Estou indo embora como a Julieta dos espíritos, mas tocando o trompete do final d’Os Palhaços. Fechando o círculo: lembrei que tem gente que faz bem pra gente sem nem precisar estar com a gente, só por estar na gente. E ter marcado o colchão. De resto: pia cheia, panqueca de cogumelo, promessa de mimosas, foto sorrindo, o samba da Vila de 2022, instrução normativa de retorno à atividade presencial, uma consulta médica agendada, os livros de poesia da Ana Martins Marques, uma carta que não chegou ao coração de Minas, garrafinhas de água, Stellas vazias enfileiradas no quintal, a carta dos enamorados, um galeão saindo do peito. Eu ainda durmo do lado da cama mais perto da porta.

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O funeral de Heitor

“Quero muito fogo
Pra toda essa palha”

A ira de Aquiles termina com a morte de Heitor. E não só, a Ilíada também. Homero nem precisa contar se Tróia caiu ou como. Cairia sem Heitor, sabia-se. Heitor que morreu porque os deuses determinaram e por nenhum outro motivo. Heitor que reconheceu o que os deuses queriam e tratou de fazê-la inesquecível. Heitor que pôde cruzar olhar com seu algoz e repreendê-lo. Heitor, o nobre. Heitor, valente não porque queria ou gostava, mas porque era preciso. Gentil, é como sinto Heitor. Quando ele tira o elmo, caem todas as minhas defesas. Gosto muito de muitos, mas tenho um xodó especial por Heitor que, suspeito, vem do mesmo lugar e tem a mesma natureza do que me faz apreciar Rollo e Boromir. Heitor que recebe as glórias e as honras, mas nunca perde as dúvidas, os medos, a perspectiva. Heitor que valoriza o simples, a vida, o riso do filho, o toque da mulher. Heitor era amado. Pela esposa, pelo filho, pelo povo. Não temido. Amado. Porque era um grande guerreiro, claro, e admirado por isso, mas não apenas. Não ser um apenas. Lembrei dele, ao pensar em Heitor, e não de você. Mais um passo. Um dia termino de ir embora. Com sorte, nesta vida. Andei lotando ela, esta vida, de compromissos pesados e dos quais já não posso me esquivar. Pra equilibrar estou fazendo o quê? Isso mesmo, me comprometendo com mais outro tanto de coisas, mas dessa vez coisas das quais eu gosto, coisas que queria fazer e não fazia porque achava que não dava. Agora, na rádio cabeça, a musiquinha “vai ter que dar, vai ter que dar”. Um clube de leitura para reencontrar a Odisseia. Outro grupinho semanal para ler e discutir contos. A aulinha de cinema. E a aventura iniciada hoje. Eu gostaria de ser a pessoa que diz: pode me empurrar do penhasco etc sei voar tal e coisa. Mas não sou assim. Não vou usar o caderno que veio de Paris. Pelo menos mandei telegrama. É que não aguento mais o Universo falando para eu desapegar e ninguém me dizendo como. Resolvi passar 3 dias sem gastar dinheiro de jeito nenhum. Mas só começa amanhã que hoje eu vou pedir jantar pois, após terem erguido o túmulo, voltaram os troianos ao palácio de Príamo e, seguindo os ritos, festejaram com um banquete. E foi assim o funeral de Heitor, o domador de cavalos, a lembrança delicada de que nem todos os finais podem ser felizes, mas o meu (ou o desse amor, que neste momento me parece a mesma coisa), posso fazê-lo nobre.

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Imagem meramente ilustrativa

Tanta pose e palavra bonita para, no fim da noite, eu chorar como sempre, soluçar e escorrer nariz, enrodilhada na saudade de uma madrugada contigo, desejando mandar mensagem, mandar presente, mandar um avião com faixa pra frente da sua casa, arrancar o coração com a mão e depositar na sua caixa de correio.

Corpos em desalinho

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Cometi uma carta de nove páginas. Nove. Já estou até encabulada. A semana vai começar puxada. Disse sim para todos os compromissos de segunda e agora vou ter que rebolar, rebolar, rebolar. O que eu queria mesmo era ficar ouvindo o disco novo da Bethania por horas e depois me entorpecer de esporte. Não existe mais nem um pedacinho de mim pra te oferecer. Tenho que contar que você fique por aqui apenas pelo prazer da companhia. Fique, eu disse? Volte. Uma história só existe ao ser contada. Esta se dilui no seu silêncio. Teimosa, insisto ao gritá-la na beiradinha do abismo, mas sinto o ridículo de receber de volta apenas o eco debochado das últimas sílabas das minhas próprias palavras. Vou regar a margaridinha na varanda. Passar um café. Dobrar lençóis. Colocar máscara sobre máscara para enfrentar o lá fora. Sempre tive o sorriso fácil como técnica diversionista para os olhos tristes. Além da questão estrutural, tenho birra pessoal com a monogamia que ano após ano vai sequestrando parte da minha intimidade com as amigas. De tudo no envelhecer, o que me tem causado espanto e pena é ficar tão quebradiça. Recebi a segunda dose da vacina. Na esquina de casa. Viva o SUS. Diferente da primeira dose, que comemorei em praça pública, estou escondendo essa no texto que quase ninguém lê. Não sei bem por quê. Talvez tenha me dado a dimensão de uma outra solidão. Mas não passou em branco, celebrei tomando um suco de laranja e tentando despachar o máximo de tarefinhas como responder e-mails e marcar orientações. Zanetti aumentou a nota de partida e bateu com a cara no colchão. Arriscou tudo e foi imenso. Eu fiz o mesmo, aumentei a aposta, paguei pra ver. Sem igual grandeza, mas com semelhante resultado. Tudo bem, é só um pequeno sangramento no nariz.  Recebi a proposta que espero desde 2015 e disse talvez, mas com sabor de não. Almocei um picolé. Participei de reunião, dei boas sugestões. Chorei com crônicas bregas nos canais de esporte. Reli o diarinho da Fal vezes e vezes. Atenção para o segredo: o bom da amizade é a outra pessoa. Olho a despensa como certas pessoas lidam com o guarda – roupa: não tenho nada pra vestir, digo, pra comer. Você me fez perder a mão. Prometo, outra vez, sim, outra vez, deixar ir. Não esperar. Não pedir. Não tentar. De novo. Chamar o sol. Então, é isso. Mas, pra você saber, se estamos no escuro, corpos em desalinho e pés entrelaçados, é mais fácil dizer. Até adeus.

E na hora do enlace…

Seria só um assim, cerveja ou café, um chegando no depois do outro, o passo entre o contente e o incerto, o abraço desajeitado dos corpos aprendizes, sem um saber de onde colocar mãos e desejos. O sentar quase ao lado, a mesa quadrada, os joelhos se tocando na ponta dos noventa graus. As palavras, que nunca serão lembradas com precisão nos futuros, servindo de véu, enquanto na língua que insinua sua ponta úmida, no bater mais acelerado das pestanas, no entreabrir da boca, na pequena dilatação do nariz, nos dentes que mordiscam os lábios, na voz um tanto mais baixa convidando à aproximação, confessam-se.  Você não ia ler minha mão? E agora a gente acredita? Precisamos. Então, simO verso sobre a palma, uma pele seca e quente, a outra macia, o dedo percorrendo as linhas como se borrasse fronteiras. Entrelaçam os dedos, suponho. Pagam contas de bebidas que não beberam, comidas que não mastigaram, atendimentos que não precisaram, pois eram esperas e vontades e só. Vagam ruas. Procuram, enfim, reserva e meia luz e portas com chaves e camas, Num sem fôlego despem roupas e vidas lá fora e entrelaçam pernas e histórias. Sentem gostos e alegrias e se afogam e se perdem e se provam e se mordem e se tocam até que, quando já estão tão abraçados que não há espaço para culpa ou indecisão, se beijam. Sopro. Como se dessem a vida a uma frágil, delicada, rara possibilidade. E, libertados, morrem um pouquinho um no outro. E outra e outra e outra vez. No depois dos suores e cheiros e aconchego e cochilos, ela vê a réstia de luz avançar no quarto e tocar um pequeno franzir na testa dele e, antes que a preocupação que chega vire tristeza, ela espana com os cabelos a ruga e desce esfregando nariz no nariz e morde o queixo e beija o peito lá onde o coração soluça e distribui risadas e roupas onde foram carinhos. Se os corpos que voltam pro mundo não se roçam nem num acaso, é que já não precisam, tão dentro um do outro. Na frente do mesmo bar, um abraço, com corpos que já se sabem, nem despedida nem promessa. O incêndio de um amor.

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Acontecesse (Bruno Batista)

Se um dia acontecesse
De nós se amirar
Um cadinho que sêsse
E se acaso ocorresse
De tu se engraçasse
E eu correspondesse
E nós se aprumasse
E se desgarrasse
De qualquer devesse
E na hora do enlace
Eu não me furtasse
E tu me arrecebesse

E nós se empariasse
Tu me trespassasse
Eu não me contesse
E eu mais tu se embrenhasse
E nem assuntasse
De tanto quererse
E adispois começasse
Teus óio virasse
Minhas pernas tremesse
E se o Diabo gostasse
Deus escutasse
E um anjo descesse.

E achegasse num susto
E com muito custo
Nós se apercebesse
E ele arresolvesse
Arrastar asa pra tu, e eu vêsse
E o safado eu maldasse
(Que Deus perdoasse)
Eu ensandecesse
E o anjo depenasse
Ele gargalhasse
E arrespondesse:

“Fui pro céu por acaso
(Um caso com uma santa estrangeira)
Os donzelo odiaram
E me agarraram com uma padroeira
Então fui rebaixado
Pra Anjo da Guarda das Virgem Embusteira
E agora depenado
Vou virar beato
Das alcoviteiras”.

Faltou o figurino

Mais de 80.000 mortos. Sabe-se lá quantas pessoas sofrendo a perda de gente querida. Já vivemos a distopia, só não percebemos porque não adaptamos o figurino.

Nunca esquecer: não são números. De vez em quando é bom visitar esta página: Inumeráveis.

125 dias de distanciamento e hoje apareceram duas notícias promissoras sobre vacinas.  Mas ainda leva meses, na mais otimista das versões. E, sim, eu não consigo deixar de me animar. Esperança é um negócio traiçoeiro mesmo.

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Mas a notícia mais animadora (e, ao mesmo tempo, menos, pois vivemos no brasil-sil-sil uma época estranha) é decorrente do estudo com soldados suíços: o resultado parece apontar que a gravidade da doença depende da carga viral. Assim, o uso de máscara e o distanciamento passam a ser ainda mais relevantes e desejáveis.

As voltas que o mundo dá (e às vezes a gente fica tonto): meu filho, ainda mais jovem do que o jovem que ele é hoje, vivia me falando do Átila. Eu tentava ouvir no youtube, pra ter assunto em comum, mas achava uó. Hoje é uma das pessoas que eu sigo com gosto.

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A máquina de pão queimou. Este mês eu soltei um pouco a mão e acabei gastando no limite. Tô aqui balançando se compro outra ou passo um tempo só de tapioca, cuscuz e chapéu de couro.

Tem sido cansativo, mas também muito recompensador, lecionar uma disciplina no semestre suplementar. O engajamento dos alunos à proposta realmente me emocionou.

Comprei umas máscaras, dessas que na propaganda parecem sensacionais. Comprei dando um desconto de que se parecem sensacionais, devem ser apenas boas. Pelo valor, de boas eu desci pra médias. Chegaram, experimentei. Putz, eu tava sendo otimista. Elas são ok. Ou nem isso: dá pra usar.

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Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava pra sempre.”

Antônio Bivar, por Maria Bethânia no disco Drama 3°Ato, 1973.

Eu acho engraçado (naquele sentido que não faz rir, mas pensar) gostar tanto deste texto. Eu não era, nem sou, das que tem medo do que não permanece. E nunca pensei em ser trapezista, eu já tinha a certeza de estar segura, sem precisar do disfarce do picadeiro. Isso, de saber o amor, é rede de proteção que segue com a gente.

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Olha só: não tenho mais nada pra dar.

Mas era amor de verdade? Ou: você estava apaixonada mesmo? Me escapa, sempre, porque isso seria relevante (ou, mesmo, se possível determinar). O que esse mesmo ou de verdade pelejam pra representar é o que sempre escapa. Não há palavra para o real. Todo afeto é ficção. Como, aliás, todo o viver.

Meta: beber água e não me afogar em tristezas. Falhando miseravelmente.

Eu gostava de estar em outro lugar (conjugando em português de cá e de lá).

Cartas na mesa. Copos também. Ou corpos. A memória é confusa.

Em outra editoria: eu me despedi de você sem mágoa. Doeu, sarou. Passamos. Ou achei que. Lamento que o seu futuro tenha, de certa forma, roubado meu passado.

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Eu era viúva do Carlinhos. Acabei pensando, por anos e anos, que ninguém ia me proporcionar as emoções que ele provocava, nunca ninguém ia acertar meu time do jeito que eu sonhava. Era conformada em não desejar. E resignada de ter alegrias, nunca felicidade. Aí ele chegou e colocou tudo no lugar certo: riso e William Arão, só pra começar. Foi um amor intenso. Ele me deu não mais, mas justinho o que eu sempre quis, do jeito que eu quis. Tudo parecia possível. Mesmo quando o mundo adoeceu, saber que ele, eu, os homens, ainda seríamos no depois, me animava. Mas não deu pra ele ficar. Estou de coração partido? estou. Mas ainda amo um homem.

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Um homem que não tem medo nem vergonha de beijar outro homem. Jesus merece (e recebe) todo meu bem querer.

Tenho interesse

14o dia.

Um dia de vazios. Vazia a alma, o corpo, as panelas, as ideias.

Hoje choveu, caiu energia, molhou a rede na varanda. Não teve pôr do sol. Mas, como disse a amiga, depois da tempestade ainda ficaram varanda e rede #lucro

É uma questão de ritmo. Ou de temperatura. Deixa cozinhar o galo.

O moço bonito e seus desenhos inquietos.

Tenho interesse. E eu aqui, enfileirando palavras, imagens, sons.

Eu estou bem de boas por não estar de boas. Entendo todas as mensagens de que não devemos ficar abatidos, de que não devemos ter pânico, etc. Entendo e concordo que são reflexões pertinentes. Mas eu sou das que fica triste mesmo com as dores de todo um mundo. Sou, também, das que fica alegre por qualquer beleza. Uma criança rindo, um quadro, um passo de dança, um gesto solidário. Então não tenho medo de abraçar a angústia como nunca tive pejo dos sorrisos. Sei que amanhã vai ser outro dia, só não sei quem seremos e não me apresso em decidir isso.

Eu passaria melhor por isto tudo se fizesse bolos.

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Comida, cinema e relacionamentos, tudo sem receita

Bacalhau a Espanhola feito a quatro mãos (ou algo inspirado no Bacalhau a Espanhola, enfim, receitas particulares e únicas, melhores receitas).

Duas dessas mãos cortam cebola, cortam alho, descascam e cortam cenoura bem miudinha. Depois as mãos acompanham o corpo e vão pro cantinho da mesa, com uma taça de vinho entre elas e ficam beliscando chouriça e queijos vários.

As outras mãos, que já serviram o vinho, que já dessalgaram o bacalhau, que já arrumaram a mesa, cortaram queijos e chouriças, agora colocam a cebola em um lago de azeite. Entretanto (o do lado de lá do mar), descascam e cortam em rodelas mais cebolas, pimentos vermelhos, tomates, batatas. De quando em vez, mexem o refogado.

Mais vinho nas taças de todas as mãos. Deixa a conversa assentar no ar tão frio que as palavras congelam um pouquinho antes de seguir caminho. As mãos encontram-se em ensaios de abraços e apartam-se, como se soubessem a saudade que um dia seria. Voltam as mãos segundas para o vai e vem da panela enquanto as outras, primeiras, se consolam no pezinho da taça.

Ao refogado, juntam-se os pinicadinhos cenoura e alho. Em camadas: batata, tomate, cebola, bacalhau, pimentos e tudo de novo, vezes e vezes. Aqui e ali, uma folhinha de coentro. Azeite como quem se esquece. Uma garrafinha de cerveja. Deixa o fogo ser tempo. Meia taça do vinho também na panela.

Espera o cheiro. Cheirou? Mais vinho nas línguas, mais alegria nos olhos, mais mãos nas mãos. Mesa posta.

Oscar 2020: Wild Rose

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Gostei demais de ver esse filme. Tem um bocado de coisas que me agradam, musiquinha, fuga de clichês, personagens cativantes, um pé na realidade outro no improvável, gente, gente, gente. Ok, tem um umbigo enorme que é meio vórtice e acaba que tem personagem que entra e sai e a gente não sabe pra onde foi mas, no frigir dos ovos, nem nos incomoda porque a protagonista tem aquele jeito cativante e a mãe dela pode sair cantando com a meryl streep a qualquer momento.

Críticos homens revolts porque em Wild Rose a narrativa parece sugerir que a maternidade atrapalha as ambições profissionais da protagonistAHAHAHAHAH SPOILER: ATRAPALHA SIM e nem é só no filme. Não a maternidade em si, mas as formas que podemos exercê-la, configuradas pelas relações sociais e talz (nem devia ter que explicar, mas, né).

Tendo visto Judy, recentemente, só posso ficar contente que embora a indústria ainda seja um moinho, tanto tenha mudado no mundo para as mulheres – por sua própria luta, destaque-se. Há caminhos.

É filminho com mensagem? é, mas é britânico, então nem ofende.

Este foi mais um momento… Correndo pro Oscar 2020: impressões aleatórias e meio sem fôlego de uma apaixonada pela breguice da premiação 

Terra Vermelha

mas este feriado eu fui pra Canoa e Canoa é minha terra vermelha de Tara. Em Canoa tem festival de blues e caipirinha gelada e sotaques variados e crianças na escola cantando em roda o Canto do Povo de Um Lugar e velhinhas vaidosas de maiô, chapéu e colares à beira-mar e pais passeando com carrinhos e bebês de madrugada e uma rua chamada Broadway e pastel de arraia, às vezes com banana! e gente que faz tererê e massagem no meio da muvuca e um bar ridículo chamado bar dos bombados e uma pintura do Belchior e barraca que vai buscar você na pousada de buggy e cerveja gelada e cerveja quente e arranjos amorosos de toda modalidade e reggae na praia em noite de lua e adolescente tocando violino e tem aquele mar que eu não sei explicar mas faz parecer que um dia a mais de vida vale toda pena (e são tantas) mas tem Canoa e Canoa é minha terra vermelha de Tara. Canoa é tão em mim que quando falo dela eu escrevo sem pontuar direito porque justamente Canoa me faz respirar diferente.

eu tinha um plano. planilha de excel com projeção de custos. documentos no protocolo. datas revisadas. consentimento de chefe, amiga-irmã-colega-de-trabalho cobrindo uns dias. daí vem esse dólar e como é mesmo que se diz? white people problem mesmo quando não se é tão white assim.

pessoas queridas visitando cidades que eu amo me dá uma saudade chega pinica.

assumir que não cabe no orçamento. mas dói.

eu gosto de mar. de boteco. de conversa sem rumo. de beijo na boca. gosto de gente. de prédios antigos. de fazer a mala. de comprar passagem. gosto de torresmo. de queijo, gosto muito de queijo. gosto de abraço, de contar história. de contar muitas vezes a mesma história. de ouvir. de abraçar. de fazer ciranda no terreiro, de fazer ciranda a beira mar, de fazer ciranda em reunião, aula, o que for. gosto de blusa decotada. gosto de batom vermelho – mesmo esquecendo de usar. gosto de cafuné. gosto de pele com pele. gosto de fresta, de brecha, de fenda, de deixar em aberto. gosto do quem sabe. gosto.

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Tem, na vida, aqueles momentos que a gente já vive sacando que são “de cinema”. A luz é perfeita, os diálogos azeitados, até trilha sonora aparece. O duro é depois voltar pro dia a dia de programa de tv com baixo orçamento.

 

 

 

This is Us ou A memória é uma ilha de edição

Eu não ligo pra spoiler. Não me importo nadinha quando passam imagens que ainda não vi de algum filme ou série, não ligo quando alguém comenta que evento A ou B vai rolar. Não consigo lembrar de nenhum livro, filme ou série que eu tenha gostado que tenha sido prejudicado pelo fato de eu saber algum “o quê”. Entretanto This Is Us colocou em xeque, duas vezes, essa minha indiferença. Há, nesta série, duas únicas situações que eu suspeito que sim, que se eu tivesse assistido sabendo quem eram aqueles personagens, teria sido menos emocionante. Duas situações em 3 longas temporadas, nem sei se chega a ser suficiente pra configurar como exceção.

O fato é que (se você não viu o primeiro episódio da primeira temporada de This is Us – e pretende ver a série – sugiro não ler este parágrafo) o uso das linhas temporais distintas e descobrir que aquele amontoado de histórias se entrelaçava foi muito instigante. E isso dependia apenas disso: saber quem eles eram. O uso intencional deste mesmo recurso no primeiro episódio da quarta temporada foi ainda mais tocante.

Mas nem era disso que eu ia falar. This Is Us é uma série brilhante sobre miudezas. Sobre cotidiano, pequenas alegrias, perdas, trabalho, cólicas menstruais, afeto, mudar de cidade, empacotar e desempacotar itens pra mudança, encontrar parentes que nem se sabia que tinha, parir, adotar, cozinhar, ir a uma reunião de AA. É uma série sobre viver. E sobre as decisões, inúmeras e constantes decisões que tomamos e que nos tomam e nos dirigem a seguir. Ficar ou não em uma festa, cursar ou não uma disciplina, dar bola ou não pra um rapaz bonito e como isso é ao mesmo tempo insignificante e completamente transformador.

Tomamos estas miúdas e significativas decisões baseadas em um balaio de coisas, nossos valores, o momento que vivemos, nossas esperanças, medos, informações que dispomos e, também, nossa memória. Quem e como nos fizemos a pessoa que somos. Em This is us somos levados a nos envolver com uma família pelo que vamos descobrindo do que eles viveram. Aí vem um maravilhoso episódio na terceira temporada e dá aquela sacudida: a memória é seletiva, ela lembra de uma guerra de lantejoulas, ele lembra do pai, frustrado e zangado, jogando um prato no chão. Mesmo dia, mesma família. O que é mentira, o que é verdade? Importa pouco, importa como o que “escolhemos” lembrar (e essa escolha, como bem enfatiza o Randall, também é resultado dos afetos envolvidos e de como um tipo de sensação, boa ou ruim, é forte o bastante pra suplantar a outra) vai sustentando novas decisões que forjarão outras lembranças que levarão a outras decisões.

Estava conversando com a Ju Fina Flor e lembrei da situação entre Randall e Beth e como, em determinada discussão, ela começa a listar uma série de situações no casamento em que ela foi se adaptando ao que era melhor pro Randall.  E eu totalmente do lado dela, como numa claque eu gritava mentalmente: “separa! separa!”. Mas depois eu pensei: o que nós lembramos vai depender, também, não só do afeto do momento em que vivemos aquelas situações mas do afeto atual quando recontamos a história. Se hoje ela se sente pressionada a se adequar e se ressente de se sentir assim, o afeto vai colocar holofote em outras situações em que, se ela não sentiu assim, poderia. Mas, eis a minha questão, se no decorrer do relacionamento ela não viveu aquilo como adequação, perda de sonhos, whatever, é pertinente que se cobre que as pessoas que viviam aquilo com ela tivessem reconhecido e reagido de forma diferente? E, além, sendo a memória esta ilha de edição, não é possível pensar que, neste momento da briga, é perfeitamente plausível que se edite pra lembrar o que se lembra de acordo com o desejo presente?

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This is us é como a prateleira de vídeos feitos em casa, sem etiquetas e nas caixas erradas. Em cada episódio é como se sentássemos, puxássemos uma fita aleatória e nos encontrássemos com histórias incompletas, que dependem, em grande parte, do ângulo e das decisões de quem estava filmando, como se estivéssemos acompanhando uma conversa entre três pessoas, uma delas sai, a câmera acompanha aquela e ficamos pensando o que as outras duas continuaram dizendo ou quando estamos filmando uma criança fazer alguma coisa fofa aí ela cai e soltamos a câmera e nada depois daquilo fica gravado. This is Us deixa uma porção de frestas. Questões em aberto. Como foi mesmo? O que vai ser? Será que? Mas a vida não apresenta respostas lineares e a série também não. Cada fita caseira traz a história que narra mas traz, também, as emoções ligadas àqueles momentos, lembranças afins que não foram gravadas, brechas materiais para sabermos não só o que foi dito ou feito, mas como. Porque nos lembramos disso e não daquilo? Gosto que na série tem muita coisa aleatória e sem sentido – como na vida. E, tal como na vida, a gente busca dar um significado a estas coisas, porque é impossível simplesmente lidar com o é da coisa. Mas o sentido que encontramos, que tecemos, é sempre cobertor curto e não é único, depende da forma que cada um encontra pra lidar com o viver.

Daí reli o texto e o que achei que era um prefácio descontextualizado está inequivocamente relacionado ao que gosto tanto em This is us: a série é um spoiler ambulante. O presente nos conta infinitas coisas da linha temporal do passado. De repente uma conversa aleatória do presente nos conta que alguém morreu, casou, teve filho, se mudou, brigou, sei lá o quê e bola pra frente. Momentos “criticos”, reviravoltas, plots twits e tudo que poderia ser UAU simplesmente surgem num papo. Em This is us não é o que aconteceu que importa, mas o como, o caminho, a jornada de cada um, os afetos que se vincularam ao evento, como se lembram, como reagem, como seguem.

This is Us é um dramalhão feito pra gente chorar e empilhar saudades do que foi, do que podia ter sido, do que devia ter sido? É sim. Mas é feito com graça, com elegância, com suavidade,  afetos, com belezas. Sou ligada a eles de forma tal que até pra escolher as fotos desse post eu chorei. Que bom sentir tanto assim.

PS. Em outra conversa com a Ju (essa linda) fiquei pensando sobre como se sentir amado, aceito, impacta na vida de Randall (e na minha). Como somos um tanto egoístas. E como, também, achamos natural, fácil, aceitar que nos amem e acreditar que as pessoas merecem ser amadas. Lá pela terceira temporada, Deja fala como pra ela foi impactante a forma fácil como ele a elogiou, como disse que ela era especial, não como um favor condescendente ou uma grande revelação, mas como uma constatação – e como isso era enorme e transformador. Os personagens de This is us merecem outro tanto de posts, els são absurdamente complexos e adoráveis. Só de ver o trailer da temporada já me comovo: