Um amor, desses de cinema

Assisti Monsieur & Madame Adelman e vim escrever que você também deveria ver. Talvez eu escreva isso porque Victor se apaixona pelo sorriso de Sarah e quem não gosta de uma bela brasa na sua sardinha? Talvez eu escreva porque a história começa em um bar, ele bêbado demais, ela empolgada demais, ele se arrepende, ela insiste. Sei lá, me soou quase assustadoramente familiar (alguém poderia argumentar que não era um bar, mas era uma espécie de boteco, não era? E havia vinho. Muito vinho). Talvez eu escreva sobre isso ou qualquer coisa como uma forma de sustentar essa imaginária conversa que desejo interminável e mantenha a impressão de um vínculo qualquer. Ou, plot twist, tem um jornalista me entrevistando pra futura biografia, vai saber.

E o filme? É uma história assim: um relacionamento. Ele é bonito, ela ri, os dois são inteligentes, um tantinho cruéis. Pronto, pode soltar a respiração, há pouco mais em intersecção.

Mas, a bem da verdade, não é de nós que gosto no filme. É inquietante que na única crítica que li sobre ele, até agora, tenha se analisado o filme como se fosse uma comédia. Me senti no Choque de Cultura lendo isso.  Tem que ver se não é comédia, se não for comédia, excelente filme. Embora tenha algum humor, não me parece que o propósito central seja fazer rir (embora haja momentos em que, sim, claro). Me pareceu um filme sobre relações. Ou ainda, sobre o imperfeito nas relações – que é o que as faz existir também. O desencaixe, o desencontro, as frustrações assim como o encanto, o tesão, o deslumbramento. A finitude. Do sentimento, da parceria, das pessoas. E o que permanece.

Também é um filme sobre a potência da palavra e da lembrança. Poder contar uma história, a própria história, é confortador. Organizador. E libertador. Passear nos corredores da memória, etiquetar as lembranças, dizer sobre elas, reformá-las, reinventá-las, moldá-las à necessidade do presente. Expressar-se. Como bem disse W. Salomão: a memória é ilha de edição. Por outro lado, ao colocar a narrativa no centro, a força de poder dizer-se, também é preciso reconhecer que palavras têm pontas afiadas. Não sei se existem novos cozinheiros sem pequenos cortes e queimaduras. Certamente não há escritores sem marcas e cicatrizes do processo da própria escritura. Sarah é quem conta, é uma história sobre um escritor, mas ele não é o dono da palavra, embora não passe impune por elas. É uma história da mulher que recorda, mas depois de anos juntos, como garantir a “pureza” do que se lembra? Como, depois de tão misturados, saber que o que se lembra é lembrado a partir de si mesmo e não filtrado pelo olhar do outro? Como não pensar no Chico: “te dei meus olhos pra tomares conta”?

E é um filme que se faz atravessar, com alguma malícia, por outras questões relevantes como desejo, segredos, relações familiares, sucesso (ou fracasso) profissional, relação teoria/prática na política e por aí vai sem se perder nestas veredas e ficar sem rumo (as famílias, aliás, dariam um texto à parte, o que carregamos das nossas histórias familiares, o que adotamos da família de quem amamos, o que transformamos, as coisas com as quais rompemos, as cenas que repetimos sem perceber).

Não há condescendência nem com personagens, nem com os espectadores. É um filme para adultos, é preciso bagagem e alguma coragem. Não há temor de expor fraquezas e inseguranças do casal burguês (que sabem e/ou se perguntam sobre o que são e representam, quase sempre) que está longe de ser modelo nos diversos papéis que ocupam, inclusive como pai e mãe (alguém pode dizer que os filhos são “esquecidos” pelo roteiro em vários momentos, mas, penso, é um jeito inteligente de mostrar como as crianças são escanteadas na trajetória deles, o quanto são abandonadas mesmo).

É um filme sobre amor. E sobre um relacionamento de 45 anos. Não se enganem – e nem o filme pretende contar esta história – não é um filme sobre um amor de 45 anos ou sobre como o amor dura pra sempre (sendo o sempre, 45 anos). Como eu disse, conversando com a Renata, o amor não cabe bem em calendários e relógios. Como eu sei disso? Precisei reinventar uma vida pra caber você nela desde sempre.

Acho delicioso e pertinente que Nicolas Bedos e Doria Tillier, um casal eles mesmos, além de viverem os protagonistas, Victor e Sarah, tenham escrito juntos este instigante roteiro. Além disso, Nicolas Bedos dirigiu o filme, com entusiasmo, alguma ansiedade nas decisões, mas bastante talento pra utilizar cortes e uma câmera ágil.

Tem umas coisinhas a pensar sobre minúcias do roteiro (se aquela revelação final sobre estilo é verdadeira, como ele escreveu aquele excelente livro sobre ela?), mas nada que seja realmente um incômodo (e pode ser que eu estivesse com os olhos tão marejados que tenha perdido alguma coisa, vou rever). É fácil querer pensar que Sarah é completamente responsável pelo Victor escritor. Um tantinho mais complexo é pensar que relação é construção de intertexto. Sim, muitos vão pensar em e considerá-lo como um A Esposa, mas francês – para o bem e para o bem (eu ia dizer para o mal, mas que mal?). Mas me lembrou, também e principalmente, Trama Fantasma. Amores para os quais o rótulo de feliz ou infeliz não é o bastante. Amores necessários. O amar de quem insiste em dar o que não se tem a alguém que não o quer. Sempre que eu canto a musiquinha da Vanessa da Matta (se você quiser eu vou te dar um amor, desses de cinema) é em relacionamentos assim que eu penso: agridoces.

Da parte técnica e execução, há muito pra se apreciar no longa. Gostei das cenas das vendas, por exemplo. Do figurino. Da maquiagem, da incrível e crível maquiagem que envelhece os atores ao longo de 45 anos. Do uso inteligente e divertido da presença do psicanalista. E das referências (umas sutis, outras nem tanto) que amarram o enredo. O filme é uma delícia ao sobrepor referência em cima de referência de literatura, música e muito, muito cinema, e o diretor soube explorar todos esses elementos assim como conduzir a narrativa ora em ciclos, ora em espiral, alternando um ritmo leve e ágil no momento de euforia amorosa e um certo peso e vagar quando a vida se avoluma nos ombros deles.

Ao conhecermos Victor e Sarah, recordamos: passamos a vida encarando o abismo. Se pudermos confiar que quem nos ama saberá ser generoso quando for preciso, já se tem – acho – um horizonte confortador.

Gosto também das nuances no filme. De não demandar empatia com os personagens, mas conexão. Além disso (narciso, etc), algumas frases e situações parecem ter sido colocadas lá só pra me cutucar ou inebriar. Bem no comecinho vemos Sarah apagando o cigarro no tampo da escrivaninha, supostamente um móvel de imenso valor afetivo. Victor presenteando: “pessoas apaixonadas exprimem isso de forma material. É meu jeito burguês de dizer eu te amo”. Ironias e um bocado de reflexões inteligentes, porém pouco confiáveis – como ela dizendo algo tipo as pessoas que fracassam acham que nós nos afastamos ou vamos nos afastar. E se tornam desagradáveis. Mas nos afastamos porque se tornaram desagradáveis e não porque fracassaram – a premissa soa consistente, mas ao vermos a relação entre os dois, não é assim tão clara a sequência.

E, claro, na hora que ela diz que o amou por 20 anos porque passou 20 anos com medo de perdê-lo, quem não se encolhe na cadeira?

Entre as versões possíveis de Victor, escritor reconhecido, premiado, ambíguo como filho, terrível como pai, um tanto hipócrita politicamente, é do Victor que ela decidiu amar que Sarah fala o tempo todo. E, assim, também é um filme sobre escolhas. Sobre as muitas que ele e ela fizeram ao longo da vida, mas também e principalmente as escolhas que ela faz do que lembrar e como contar o vínculo entre os dois. Alguém pode questionar o quanto do que ela conta é real. O quanto o homem que ela apresenta é real. Mas, eis a grande sacada, isso não importa! O que importa é o que ele foi pra ela e o que ela diz dele, fazendo-o presente, mesmo ausente. Não é um filme simples. Que bom que não é. Mas é muito honesto.

As pessoas podem reclamar que o filme não é feminista o bastante. Que Sarah era um mulherão e se resignou a ser menos do que poderia ser. Eu penso que essa é uma conclusão precipitada e pautada por alguns valores de sucesso relacionados à mentalidade produtivista, de vida pública, status, etc. Mas há prazeres outros no que é íntimo. Há intensidade e diversidade na poça d’água, sabia e nos dizia Agatha. Gosto demais de que Adelman seja a família dela, por exemplo. Sarah não é uma vítima de um homem mau que nem pica-pau. Não, ela está tão implicada na história dos dois como ele. Desejante. Autora e protagonista tanto quanto ele. Talvez um pouquinho mais. Ambígua. Corajosa. O filme perde como panfleto, mas ganha em sutileza. Ela, assim como todo o filme, deliciosamente amoral.

Na canção de Vinícius: o amor só é bom se doer. O deles foi maravilhoso. 

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Escolhi essa foto porque ela está sorrindo? Porque contei o sonho em que eu estou cega? Jamais saberemos (mentira, já sabemos, né)

Infinitena #dia466 #dia03

Depois do depois, ainda a beleza. E a vida. A rosa do deserto em nova floração. Tal como o personagem antigo da Escolinha, porque mandar, porque não mandar, mandei-a-a, ela, a mensagem. Sempre que compro ou faço caponata eu olho e penso: por quê? com certeza não gosto de comer isso. Aí eu como e só falto gemer de achar bom. Também acho bom: os fios brancos na barba. Tal como me reconheço: li e escrevi. Misturei dias e é quarta e é terça e é dia de vôlei e futebol e, com sorte, um vislumbre de ginástica. Sim, estou me preparando para as Olimpíadas. Também fiz compras: sutiãs. Haja peito, aliás. Um é vermelho. Não uso espelho pra me pentear… nessa, acho, nem você me acompanha. No mesmo disco (LP, capa verde, uma coletânea de festivais) tinha também Cantiga por Luciana, com Evinha. E Filme Triste. Triste, mas não tanto quanto Crepúsculo dos Deuses. Preciso, mesmo, lembrar de chamar alguém pra consertar a máquina de lavar roupa. Aquele moço outro pensou em mim e disse uma espécie de oi. Eu podia ter batido pestana, acenado discreta, baixado os olhos, corado. Eu corei, pelo menos. E disse eu também e tanta coisa mais. É por isso que o povo se espanta, talvez. Vi a rua. E as pessoas na rua. Comprei liguinhas, o cabelo cresceu. Voltei pra casa com o envelope não enviado. A amiga recebeu o Éter. A outra, também. A outra, ainda não. Todo dia espio o site dos Correios e leio apenas: objeto enviado. Eu sei, fui eu. Chegou a entrega do supermercado: vem aí um fim de semana de mimosas. A rapidez com que eu vou de juro por deus de pés juntos que nunca mais para um nada disso, vamos disputar a lua seria divertido se um avião não fosse essa impossibilidade no hoje. Descasquei uma tangerina, cheira a alegria. Revi vídeos fofinhos da sobrinhada. Coloquei palavras aleatórias no google acrescentando, sempre, psicanálise e pdf, just for fun. Vejo pela terceira ou quarta vez o vídeo da meninada de Cuba falando de vacina e tal e coisa. Imagino gatinhos se enroscando nas suas pernas, madrugada adentro, tv ligada no filme Nomadland, imagino minhas pernas se enroscando nas suas não importa o que tenha na tv, pisco rápido, essa imaginação, ai, ai, postura, menina, como diria a professora de música da Fal (finalmente consegui ligar com o diarinho de ontem). Daí a pouco o banho, batom, vestido curto e analista.

eu continuo grande. seu coração é que ficou pequeno. eu continuo grande, sua imaginação é que ficou pequena. eu continuo grande, esse vestido é que ficou pequeno. eu continuo grande, sua memória é que ficou pequena. eu continuo grande, essa cidade é que ficou pequena. eu continuo grande, essa história é que ficou pequena.

I could stay home every night
Wait around for mr right
Take cold showers every day
And throw my life away
On a dream that won’t come true.
I could hurt
Someone like me

“devemos lembrar que os esquecemos”

Hoje (na verdade, ontem, é que ainda não dormi) foi pesado demais. O número de mortes, o sofrimento com rosto e nome, o adoecimento e a morte de pessoas que já fizeram parte da nossa vida de ouvir voz, sentir pele. Difícil demais. Nem a votação no STF conseguiu me tirar da areia movediça da angústia e tristeza.

A casa precisando de faxina. A alma também.

devemos lembrar que os esquecemos” – é isso mesmo, Sally. Harry & Sally é meu filme de tantas formas. Menos no subtítulo péssimo. Tudo que Harry e Sally não são é pré-fabricados um pro outro, tudo que eles não são é um encaixe fácil, uma atração física avassaladora, uma irmandade de almas afastados temporariamente por situações confusas ou pessoas mal intencionadas. Eles não são feitos um para o outro, eles desenvolvem um vínculo, constroem um afeto, se abrem pra relação, se conhecem, se desvendam, se estranham, se permitem e, neste processo, descobrem-se importando-se em estar (e não ser) um para o outro, um com o outro.

Things I Love About “When Harry Met Sally…”

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Tentei ver a Liga da Justiça porque minha experiência me diz filme de herói é fácil de ver. Mas não quando é tão ruim assim. Além dos inúmeros problemas de cor, de roteiro, de fotografia, ainda tem um péssimo vilão. O que Thanos tinha de interessante e complexo esse tem de falta de carisma e ausência de mote. E eu nem me lembro mais porque ou como o Superman morreu. 

Qual é o melhor momento de Friends e porque é Ross presenteando Phoebe com a bicicleta? – eu não dependo só da gentileza de estranhos, eu dependo da gentileza de todo mundo.

Pin by Anita Santamaría on F.R.I.E.N.D.S. | Friends moments, Friends tv,  Friends in love

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Sim, seu moço, eu sei que podíamos ter sido felizes. Mas não acho triste pensar nisso. Acho bonito saber que tantas vidas que não vivi seriam boas como esta costumava ser (agora ela tá em stand by, né, não serve pra comparação)

Arrastar os dias feitos correntes. Toda minha solidariedade aos fantasmas de desenho animado.

Bay. E eu.

bay

Tem essa série juvenil. E na série tem um casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. E a vida que segue primeiro é a dele. Ou ele nota primeiro. E ela fica. E ela sofre. E as pessoas – todas muito legais – dizem a ela que vai passar, vai passar e tal. E, sabe, não adianta nada dizer. Ela se encolhe, se esconde, sofre em dobro, porque dói a ausência dele, do relacionamento, de quem ela era com ele e sofre mais, sofre porque parece em desacordo, mal educado, indelicado da parte dela continuar sofrendo apesar de tanto cuidado de todo mundo explicando que passa, que acaba, que não é tudo isso que parece ser naquele momento.  Apesar das boas intenções, do bem querer verdadeiro e do cuidado legítimo de todos que a rodeiam, ainda dói, porque naquela hora ali, não passou ainda.

Há sempre um tanto de gente com boas intenções. Quando não casei, quando escrevia a tese, quando perdi pessoas queridas. Todas lembrando que passa, que acaba, que não é tanto como parece naquele momento. Há até quem use essa lógica para 2020. E a pandemia. Se falo de desconforto, de angústia, do difícil que é viver cada dia, as pessoas, gentis e prestativas, me dizem que vai passar, que logo acaba, que é preciso sobreviver. E sim, eu acredito. Mas não adianta muito saber. Ainda dói. E me sinto indelicada, mal educada, fora de sintonia por não saber agir em consonância com todas essas tentativas e notícias boas que as pessoas gentis me trazem. Então me encolho, me escondo e dói em dobro. Porque, olha só, não passou ainda. Não desconheço o que é preciso. Coloco panelas no fogo, limpo a casa, faço meu trabalho. Vez ou outra, até sorrio num esquecer qualquer. E se não compartilho esperanças, carrego a teimosia de insistir na vida. Em algum lugar, eu mesma, ainda. Mas.

É isso. Tem essa série juvenil. Com esse casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. A vida dele seguiu. E ela ficou. Ficou, ficou, ficou até não mais ficar. Não mais. Não tanto. Também ela, um passo, outro, dois pra lá, dois pra cá. Segue. Entra na dança. Na roda. E até sorri. Quem sabe, um dia, até diz, bem intencionada, a outro alguém: vai passar.

Eu me abraço, me embalo e penso: que venha minha próxima temporada.

você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto

Trazido do Borboletas, de maio de 2016
Identidade: vejo futebol domingo meio dia.
 
Eu sei que sou uma pessoa legal. Mas não veio com algum tipo de esforço ou mérito. Mas uma coisa eu conquistei: a falta de vergonha de dizer. Eu digo. Digo mesmo. Digo a raiva. A dor. Digo a inveja. Digo o afeto. O encanto. O amor. Digo eu te amo. Digo muito. Digo sem vergonha. Dizer é uma conquista minha.
 
 
 Foi quase sem querer. O jogo de futebol às onze mudando todo o ritmo do domingo, a tarde preguiçosa se estendendo meio inútil às minha frente: um filme. Uma zapeada e encontrar Binoche. Eu vejo qualquer filme em que ela esteja. Selo de garantia. E ainda tinha o nome: Palavras e Imagens. E o mote: uma disputa entre uma professora de pintura (Dina) e um professor da língua (Marcus).
 
Nem é um filme novo. Tem essa vantagem em ser distraída como sou: de repente, uma aventura. Poderia ser apenas mais uma comédia romântica com momentos de melodrama. E quase é. Se. Se não tivesse a Binoche. E personagens fora do padrão. O mocinho, alcóolatra. A mocinha, artrite reumatóide. O drama: perder o emprego, os vínculos com o filho, a saúde. Uns momentos previsíveis. Ouros bonitos. E boas palavras. Bem usadas.
 
Um filme esquecível. Se não tivesse a Binoche. E se seu personagem não tivesse que reinventar o seu ofício, reinventando-se, a partir da mudança funcional do seu corpo. Eu pintava o mundo que podia ver. Agora vejo o mundo que posso pintar. Ou algo assim (saudades de ver os filmes em cassete e voltar aos diálogos pra transcrever direitinho).
 
O filme nos joga em perguntas: o que traduz melhor os sentimentos, o mundo, a vida, palavras ou imagens? Em quais delas podemos confiar? O que nos ampara e norteia? O que nos faz avançar? O que nos humaniza? E a dúvida que não está no filme, a não ser como resposta, mas que sustento como questão: há uma resposta única?
 
No próprio filme disputam imagens e palavras. Por um momento a gente se deixa convencer pela imagem: Binoche, um casaco vermelho, um lenço azul escuro. No momento seguinte, o diálogo mais tocante. Perto do fim do filme, o momento da disputa oficial, imagens X palavras e o moço, claro, usa as palavras para dizer que não importa se poema ou pintura, importa onde nos levam, nos elevam, etc. Mas eu, se fosse roteirista, teria terminado a fala dele assim: diante desses artistas, Shakespeare ou Dina, só nos resta a gratidão. E obrigado, claro, é uma palavra (é que eu não esqueço a marquesa: “traição não é sua palavra preferida? – não, crueldade. É mais imponente”).
 
Mas antes de me perder, quero dizer da imensa beleza das imagens-movimento de Juliete em sua casa-oficina-estúdio. Li por aí que as telas que aparecem no filme são mesmo dela. Quanto talento cabe em um corpo? Mas nem era essa a beleza. Do corpo. Mas a da limitação do corpo. A beleza dos exercícios. Dos pincéis enormes, para assim poderem ser manuseados. Da cadeira com rodinhas para facilitar o deslocamento. A beleza da vulnerabilidade conjugada com a força.
 
  
O filme corre pro inevitável romance entre os personagens centrais. É quando eles estão se preparando pro rala e rola que ela diz: “você tem que ter cuidado, com o meu corpo” e ele responde: “você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto.”
 
É uma crença ingênua, a do personagem Marcus. Uma crença que partilho, quase sempre. A de que as palavras serão o suficiente. Basta isso: a coragem do enunciado. Abre-te sésamo e estaremos diante dos tesouros. É só me dizer o que dói, onde e quanto e não nos machucaremos. Faça um esforço, respire mais fundo e tenha coragem de dizer: não me machuque. E, ainda assim. Eu não vou te machucar, a gente promete e acredita para, no momento seguinte, cair em cima da tela recem pintada.
 
Pessoas fazem merda. Pessoas legais. Pessoas gentis. Pessoas boas. Fazemos merda. Mesmo que tenham nos dito, com esforço: o que doía, onde e quanto. Dizer é indispensável, mas não é garantia. A gente esquece. Eu esqueço. Eu esqueci. Que as palavras não bastam. Não é o suficiente saber o que dói e quanto dói. As palavras não serão o suficiente porque nada, nunca, será o bastante. Somos humanos e há, no que não está dito, a vulnerabilidade que nos estrutura.
 
Às vezes nos dizem o que dói. Onde. Quanto. E mesmo assim. 
 
O que resta saber: “desculpe” também é uma palavra.
 
Eventualmente, inútil. Mas nunca dispensável.

Sobre canções, pinturas, histórias, testamentos e um rosto caroçudo

Dia 06 do distanciamento/isolamento social.

Hoje eu: chorei. E fiz tapioca. Assisti um filme inspirador sobre uma pintora chamada Maudie. Peguei receita de empadão com a Renata. Mandei mensagens de amor. Inclusive um áudio. Lavei peças pequenas, à mão. Fiz esteira, pouco mais de meia hora. Tomei banhos, vários banhos. Me preocupei com dinheiro. Terminei mais uma novela policial. Coloquei Mariene de Castro pra cantar Falsa Baiana e dancei. Fiz cuscuz e fui além, fiz farofa de cuscuz com linguiça. Desejei uma cerveja gelada, mas queria junto o bar e os amigos, então melhor nem pensar nisso. Bebi água. Maycon contou que a Biscoito Fino tinha liberado o show da Bethânia e Zeca Pagodinho, assisti e mandei o link pro meu pai. Comprei livrinhos pra minhas sobrinhas. Lavei a louça e arrumei a pia da cozinha.  Dormi no fim de tarde. Acordei com sede, tomei água (tenho tomado muito mais água que sempre) e agora voltarei ao kindle. Mais tarde vou esquentar o resto da sopa de ontem.

Quando eu digo que essa situação está me devastando não é jeito de dizer. Além da rosácea que tá tornando meu rosto uma bola de fogo caroçuda, cólicas de revirar os olhos e agora duas obturações caíram.

Lá em casa (na casa e no tempo da minha infância) tinha um LP que entre outras tantas canções, tinha duas que falavam de cores e sedução. Eu cantarolava – e até hoje sei – grande parte das duas. Achava bem fofo quando ouvia: “um sapatinho eu vou, com laço cor de rosa enfeitar, e perto dele eu vou, andar devagarinho e o broto conquistar“. Mas a cor e a canção que eram e permaneceram as minhas: “meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear, botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar“. Daí pra frente, cabelo desarranjado e uma certa displicência na vida. Além de, claro, ter muitos garotos e considerar bem normal. Daí eu cresci e passei a andar com um bocado de feminista maravilhosa mas sempre fui mais relaxada com os produtos culturais e os papéis de gênero porque, suspeito, tem muita coisa poderosa na mediação. Ah, minha música preferida no LP era Filme Triste e eu na vida fui muito mais broto e melhor amiga que mocinha que ia ao cinema.

Eu nunca tive medo de morrer. Uma certa pena, se for cedo, mas medo, não tenho. Desde antes dos catorze anos que fiz testamento. Sério, meu violão fica pra Fulano, meus livros pra Sicrana. Entretanto sempre tive – e tenho – medo de ficar cega. E, junto, pela experiência de ser asmática – medo, pavor, da dor do ar faltando. Qual o efeito do corona? É ironia isso aí, vida? (quanto ao testamento, não preciso mais, tenho filho, fica tudo, coisas, saudade, futuro, memória, tudo é dele).

Eu não sou muito dessas que se comove com histórias de superação por causa da superação (mas sim, às vezes acontece de me comover porque é uma história e gente me comove). Hoje eu conheci a Maudie Lewis e gostei muito de sabê-la. Gostei das pinturas, das cores e gostei da inveja que ela me fez sentir por saber ver a beleza no mundo, por saber reconhecer o amor que lhe dedicavam do jeito que podiam senti-lo e manifestá-lo, por saber ser generosa em retratar as miudezas que via de um jeito imenso. Tive inveja do cantinho que soube fazer pra ela e, nele, ser.

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Um dia de cada vez

Segunda, terça, quarta… este semestre são dias em que não tenho aula. Claro que precisaria sair para reuniões, orientação, grupo de pesquisa e outras atividades que brotam como gremlins na chuva no dia a dia de professor universitário. Mas, ainda assim, em dias que não tenho aula, excepcionalmente, poderia ficar trabalhando em casa – como já fiquei em outras situações. Então, pensei eu, nem vou sentir direito nesses primeiros dias, vai bater mesmo no dia em que eu deveria me encontrar com as turmas. Mas não é assim que funciona. O peso de não dever sair pra nada, nadinha, sente-se desde o início. E uma imensa e angustiante preocupação com os que não estão aqui. Muda a sensação do tempo, muda a forma como vivo os dias e a vontade de fazer coisas, mesmo as que gosto. Pensei: vou cozinhar mais. Realidade: pão e ovo win. Pensei: verei mais filmes. Realidade: nem  o filme diário, da “hora do almoço” tenho visto. Minha bóia tem sido a leitura. Tenho voltado aos livros de papel, me segurando nos velhos conhecidos, Puzos e Verissimos e psicanálise, sim, como se eu tivesse dezoito anos.

“Isso lhe dá o poder, não o direito”
ainda encontro as melhores frases nos mais antigos filmes

Hoje eu fui ao supermercado, lavei roupa, li mais uns capítulos do livro juvenil de dragões, fiz lasanha, gravei áudios pra família, mandei mensagens pros alunos, escrevi post em blog novo, revi Doutor Jivago.

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A Dor é minha, em mim doeu

A Dor é uma das coisas mais potentes que eu já li e é este livro que me faz dizer, se é possível dizer algo assim, que Marguerite Duras é a minha autora.

Quando vi que tinha o filme, fiquei pensando: é possível filmar uma espera? Como fazer “ver” um dor tão indefinível? Como não tornar superficial tal dilaceramento? O filme, se não pode alcançar todas as ambiguidades, sombras, hemorragias e devastação das palavras de MD, consegue construir imagens e interações suficientemente angustiantes e concomitantemente belas. É um filme que se arrasta – e isso é um elogio. O fundo desfocado de tantas cenas nos coloca no cotidiano em que a vida “de verdade” é irrelevante e quase intangível. É a espera que importa, que impede o sono, que invade os pensamentos, que ocupa o corpo de tal forma que não permite nem mesmo que se coma – dois elementos não ocupam o mesmo lugar no espaço. A espera transfigura a existência e, quando assim acontece, já não se pode ser, apenas a Dor é.

O filme consegue traduzir a tensão dos encontros com Rabier, o desconforto nos encontros com a Resistência, a ambiguidade da relação com Dienys, a perturbação no corpo decorrente de uma situação quase impossível de suportar. A atuação de Melanie Thierry é irrepreensível, o roteiro é corajoso e a direção é muito inteligente (não gosto de alguns cortes, mas, né, quem sou eu no jogo do bicho). Gosto, especialmente, do recurso da narradora por vezes duplicar-se, ela é quem sente, mas é também ela que narra e por mais que não se “falseie” a realidade, a escrita é ficção e, por conseguinte, um tipo de distância.

A solidão é uma constante e a personagem tenta driblá-la com raciocínios compulsivos que, em vão, ela busca fazer ocupar o lugar da ausência. A impossibilidade de se visualizar e representar o horror é muito eticamente tratado pelo diretor, um dos filmes mais sensíveis e capazes de fazer sentir não usando mão de imagens fáceis ou recursos semelhantes que banalizam o indizível. O filme não alivia, não negocia com o espectador, ele segue, devastador, absurdo, angustiante e isso é exatamente o que ele deveria ser.

O filme não nos provoca uma catarse fácil, não nos empurra para a identificação superficial ou pra o sentimentalismo forte e e superável, não, ele vai cavando fundo, encontrando o que não sabemos viver, martelando, repetindo, batendo forte onde ressoa mais com aquele eco que altera a composição mesma das coisas e do ser e quando (ou se) o choro vem, não é alívio o que nos ocorre depois, mas ansiedade porque ainda há tanto o que se doer, digo, viver.

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Ps1. Amo filme francês que tá todo mundo todo tempo fumando.

Ps2. Filme “Memórias da Dor” (original La Douleur).

Ps3. Acho o título dado no Brasil um pouquinhoequivocado, essa não é uma dor que se pode evocar como memória, lembrança, ela conforma, habita, existe. É.

Oscar 2020: A Aposta X A Torcida

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Direção:
Aposta: Sam Mendes
Torcida: Bong Joon-Ho

Melhor Ator:
Aposta: Joaquin
Torcida: Banderas

Melhor Atriz
Aposta: Renée
Torcida: Renee

Melhor Atriz Coadjuvante
Aposta: Laura Dern
Torcida: Scarlet

Melhor Ator Coadjuvante
Aposta: Brad Pitt
Torcida: Joe Pesci

Roteiro Adaptado:
Aposta: Adoráveis Mulheres / Jojo
Torcida: O Irlandês

Roteiro Original:
Aposta: Era uma vez em Holywood
Torcida:  Parasita

Filme Estrangeiro:
Aposta: Parasita
Torcida: Dor e Glória

Animação
Aposta: Klaus
Torcida: Toy Story 4

Fotografia
Aposta: 1917
Torcida: 1917

Montagem
Aposta:
Parasita
Torcida:
O Irlandês

Maquiagem
Aposta: O Escândalo
Torcida: O Escândalo

Meu Melhor Filme de 2019 foi Dor e Glória mas, não tendo sido indicado, coloco em ordem de preferência os que foram:

O Irlandês
Parasita
Era uma vez…em Hollywood
Adoráveis Mulheres
História de um Casamento
Ford vs Ferrari
1917
Jojo Rabbit
Coringa

“Eu continuo grande, os filmes é que ficaram pequenos”
para minha sorte, nem todos eles

Naquela imaginária caixinha de madeira forrada de veludo ou chita, guardamos as coisas que são “nossas”. Nossos lugares, nossos artistas, nossos livros, nossa comida e bebidas, nossas frases de efeito, nossas canções. E nossos filmes, diretores, personagens, trilhas e fotografias.

A minha quimérica caixinha quase sempre tem Paulinho da Viola de trilha e, no lugar da bailarina, uma passista da Mangueira. É lá que guardo o melhor e o pior de mim e é também lá que encontro as belezas que me sustentam e que colecionei nas frestas do tempo. Rever um filme é dobrar tempo sobre tempo. Reencontro. Alegra que ainda faça sentido. Alegra mais que os sentidos não sejam apenas os mesmos.

 

 

Your girl is lovely, Hubbell

Eu queria estar aí. Ou que você estivesse aqui. Nem isso, queria que estivéssemos no mesmo abraço. Queria te dizer delicadezas, muitas e tantas até horizontes se colorirem no teu olhar. Ou nem, queria que meu silêncio fosse bálsamo. Queria te garantir futuros de riso e prazer e segurança e conforto, queria te prometer jardins e praias e navios com espaçosos convés e drinks com guarda-chuvas coloridas, imensos chapéus, canecas para café, quadros de molduras brilhantes, batons de intenso vermelho, bolsinhas coloridas, uma cadeira de balanço, moedas enterradas, fonte de água pura. Queria te colocar pra dormir e velar teu sono e apertar tua mão delicadamente quando fossem pesadelos e tirar suavemente o cabelo da sua testa esperando que o intervalo entre a entrega e o acordar leve a sombra nos seus olhos, seus medos, remorsos, a dor. Principalmente a dor. Queria que a dor fosse embora, deixando só aquela sabedoria nostálgica de já ter sido outra. Queria que ficasse o molejo de amor machucado, para sermos, juntas, da turma do Vinícius, mas o corte limpo e cicatrizado. Queria te dizer que não sei o que você sente mas sei o que já senti e estou aqui. Estamos. Permanecemos. Não inteiras – ninguém, nunca – mas cantarolando A Estrada e o Violeiro.

Queria dizer, principalmente, que não há pressa. Há o riso e há o pranto e é tudo ao mesmo tempo agora. Não há o certo. Não há um jeito. Há você. Já é difícil demais estar, ser, viver, pra gente ter que pensar se está passando por isso da forma adequada.

Às vezes, tantas vezes, muitas vezes, a “girl” do outro nem é pessoa, é miragem, ideal, modelo, expectativa. Um imperativo. Tipo a vida devia ser assim. Importa pouco, na verdade, gente ou quimera, importa mais que em algum momento, com sorte, sejamos capazes de acariciar – mesmo metaforicamente – Hubbley e consolá-lo, como a nós mesmos: ela é adorável, vai na paz, se puder.

MiserlyEasyBull-size_restricted

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
(Bukowski )

Faz um tempo que escrevi, mas quis vir pra cá, eu trouxe: Toda uma vida construída sobre saber ficar, saber partir. Mais: reconhecer a hora de partir, aproveitar o tempo de ficar. É mantra, serve pra tudo. Pra tanto. E pra quando. Também. Como agora, que o pé já sabe o frio de deixar tua meia, mas precisa caminhar. Como agora, quando o abraço ainda é quente, o riso ainda é fácil, o corpo ainda anseia. Ainda e, ainda assim, menos, sombra, resquício. Porque, eu sei ou adivinho, há festas tão intensas que mesmo depois do fim seu eco ainda é prazer e confunde os sentidos. É tentador ficar só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho como nas florestas de fadas em Avalon, enquanto a fruta apodrece, o cavalo vira carcaça, a teia cresce nas quinas e o pó entope arestas. Decidir levar a mala da saudade carregada de sim. Agarrar a vida com as mãos nuas e sentir suas afiadas arestas. Ninguém disse que era fácil. Mas eu digo que é possível. Ou torço para que seja.