Está chegando a hora…

Não é a minha “crítica” sobre o filmes. É apenas a listinha de comentário/indicação de gosto que a Marília pediu. Já escrevi sobre Ataque dos Cães na newscoisa e sobre a maior parte dos outros filmes no meu perfil do FB (quem for mais curioso e/ou gostar de comentários melhor desenvolvios)

Melhor Filme

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Ataque dos Cães – é o filme do ano, pra mim. Competente nas qualidades técnicas, em explorar emoções e tem aquele sine qua non que caracteriza uma grande obra e transforma um bom filme em uma experiência realmente especial. E é um faroeste, né, minha gente, como não amar os faroestes? Imperdível.

Belfast – uma maravilha de filme, com uma fotografia em preto e branco muito inteligente, excelentes atuações – especialmente dos coadjuvantes, um filme sobre memória e afetos. Vale muito.

Não olhe para cima – uma comédia que não me interessou, a não ser em uns poucos minutos de fim do mundo. E, claro, Leo é realmente um ator imenso, tudo que ele faz tem um toque de talento. Nhé.

No ritmo do coração – um drama leve com ares de sessão da tarde não fosse a delicadeza e sensibilidade com que a história é dirigida, interpretada e fotografada. Sabe aquela comoção que não senti com Lady Bird? Senti aqui. Assista sim.

O beco do pesadelo – um bom noir na primeira metade do filme. A segunda metade tem Cate Blanchett que desistiu de interpretar outros personagens a não ser “Cate Blanchett interpretando com intensidade”, além daquela constrangedora cena no divã. Razoável, mas dispensável.

Duna – Visualmente impressionante, bons atores. Tem gente que reclama do ritmo, mas eu amo faroeste antigo, então, né. Para os pacientes, para os adeptos, para os curiosos.

Drive my car – não vi ainda porque os torrentes vem com a legenda em inglês pregada mas li o conto – e amo. Aguardo ansiosa.

West Side Story – é Spielberg é musical. Quero.

King Richard – não sei bem porque tendo duas mulheres fodas pra cinebiografar, se escolhe contar a história do pai delas de uma forma chapa branca, com um roteiro bem clichê, que fala nas Williams mas que elas poderiam ser substituídas por qualquer personagem atleta padrão e o roteiro seria quase a mesma coisa. Achei um filme bem convencional, direção sem criatividade, escolhas estéticas banais, não curti não.

Licorice Pizza – estava esperando agoniada, porque Trama Fantasma meio mudou a minha vida, tinha expectativas imensas. Vi Licorice Pizza e sei lá porque tanta gente gostou. Inclusive sei lá porque eu gostei tanto. Paul Thomas Anderson é um feiticeiro original, capaz de alternar extrema delicadeza e uma estranheza inesperada sem soar artificial ou desnecessário. O filho de Phillip Seymour tá incrível e nem tenho palavras para a moça que faz Alana, ela parece um ímã poderoso, esquisito e charmoso, concomitantemente. Sei que vou rever e sei que vou escrever textão, mas adianto que tem hora que a gente se encanta, tem hora que a gente se retrai mas principalmente sai sorrindo do filme e isso é enorme.

Melhor Direção:

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Concorrem Kenneth Branagh (Belfast), Ryusuke Hamaguchi (Drive my car), Jane Campion (Ataque dos cães), Steven Spielberg (“Amor, sublime amor”) e Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza). Falta ver Amor, Sublime Amor e Drive my car, mas acho difícil alguém ter sido melhor que Jane Campion, ela acertou demais no uso da câmera, dos planos, do ritmo, deu alma ao filme.

Melhor Atriz:

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Jessica Chastain fez um trabalho assustadoramente bom em Os olhos de Tammy Faye e é minha favorita, disparada. A queridinha que deve ganhar é a Olivia cult Colman com seu trabalho como mãe de boneca n’A filha perdida. Outra que disputa com chance é Nicole Kidman, muito convincente em Apresentando os Ricardos. Ela realmente interpretou Lucille Ball de forma brilhante, mas o roteiro do filme é bem ruim. Por fim temos Penélope Cruz em Mães paralelas. Acho que Jessica fez um trabalho primoroso, porém parte de mim torce inconsequente pela Penélope pois todo reconhecimento é pouco para um filme do Almodóvar.

Honestamente não sei o que Spencer e Kirsten Stewart estão fazendo na lista, acho até desrespeitosa esta indicação em que a atriz alterna cara de nada com cara de choro. Por mais insípida que a princesa fosse, é ficção e não mímica.

Melhor Ator

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Esta categoria está impossível pra mim. Impossível. O que Benedict Cumberbatch fez em Ataque dos cães deveria lhe dar o prêmio, com folga. Mas aí chegou Denzel e seu Macbeth e, OLHA, eu não tenho nem palavras pra interpretação que ele trouxe a um personagem já tão conhecido. Fez um trabalho louvável: Andrew Garfield (Tick, tick… Boom!). É competente, mas nada de especial: Javier Bardem (Apresentando os Ricardos). Não sei avaliar porque o filme é tão blé que atrapalha a interpretação: Will Smith (King Richard: criando campeãs).

Melhor ator coadjuvante

Se entregarem para Ciarán Hinds por Belfast ou Troy Kotsur por No ritmo do coração, está muito bem entregue. Se quiserem dar pro jovem Kodi Smit-McPhee de Ataque dos cães, não vou reclamar. Jesse Plemons (Ataque dos cães) e J.K. Simmons (Apresentando os Ricardos) são bons atores, mas não foram os melhores com estes papéis.

Melhor atriz coadjuvante

Terei que fazer a Glória Pires, mas Judi Dench e Kirsten Dunst foram muito bem nos seus papéis, as usual. Também foram indicadas: Jessie Buckley por A filha perdida (vi, gostei); Ariana DeBose por Amor, sublime amor (não vi), e Aunjanue Ellis por King Richard: criando campeãs (tal como o Will Smithm acho que o roteiro não oferece muito material).

Melhor roteiro original

Amei Belfast dicumforça, considero que Não olhe para cima fora do ponto, Licorice Pizza tem um roteiro realmente delicado e criativo. Não gostei de King Richard e não vi A Pior Pessoa do Mundo.

Melhor roteiro adaptado

Pelamor Ataque dos Cães é uma perfeição. Merece demais todos os prêmios que receber. Acho que quem adaptou A Filha Perdida perdeu (desculpe) muita nuance da protagonista, mas ainda assim resultou em um filme muito inteligente e bem dirigido. Adaptar Duna já merece um prêmio, nem que seja de coragem. CODA tem um bom roteiro, mas acho que não o bastante para disputar. Preciso ver Drive my car, o conto é ótimo (eu já disse, mas repito).

De grão em grão

Eu nunca fui boa aluna, especialmente na escola da vida. Cada lugar pelo qual passei só me torna inquieta no que agora estou – e se para um deles voltasse, seria insatisfeita com o que, daqui, não se encontra lá; e se para um novo fosse, sentiria falta daqui e de todos os outros lá(re)s.

Greta Garbo belíssima em Grand Hotel. Gosto muito de histórias que usam boa desculpa para desfilar uma profusão de vidas que só se tocam pelo viés do acaso e que acabam se transformando no processo: trens, hotéis, excursões e acidentes.

Volta às aulas, exausta, rouca e contente com o interesse da turma nova.

Pensando em mudar de banco, mas que preguiça dos procedimentos burocráticos.

Café como os dias, cada vez mais amargos.

Todas as vezes que eu assisto “se meu apartamento falasse” e vejo Jack Lemmon – que é dito como bom cozinheiro no filme – lavando o macarrão cozido e depois soltando umas almôndegas secas em cima eu penso que talvez o conceito de boa comida seja mais relativo do que se imagina. Pelo menos ele joga uma profusão de azeite em cima.

Woody Allen é muito destruidor. A Outra é tão bonito que ecoa em mim por dias.

40 anos torcendo, meu time disputando grandes clássicos, rivais históricos, várias picuinhas, nunca tinha visto uma torcida tão mesquinha como essa do Atlético. Os caras com um timaço, ganhando e tal, mas mentalidade de dor de cotovelo e incapazes de ver as limitações administrativas do clube. Vou dar um desconto apenas porque na era das redes sociais a voz dos imbecis é ampliada né.

Juntar moedinhas, se não vou mais ser feliz, pelo menos vou passar o mês comprando tomates na feira em Florença.

Um amor chamado Boromir

Deixa a minha boca morar na sua boca
Deixa o meu sexo morar no seu
Deixa a minha mão morar nas suas pernas
E o meu quadril anexo ao seu

Euforia
Euforia
Eu faria
Tudo por você

No envelope: chá, cartão, cartinha de baralho. E palavras, muitas palavras. Na caneca, café. No peito, corredores vazios. A roupa de cama tem cinza e verde. Na mala, sapatos vermelhos. Livros que não li. Mensagens que não respondi. Redes que não frequentei. Mais boletos que dinheiros. Uma lista no spotify. Um artigo revisado. No vaso, florzinhas vermelhas. Várias renúncias. Uma hora inteira resumindo faroestes pro analista. Ele riu. Eu chorei. Você, você eu não sei. Não quero ser amada, quero ser entendida. Ele riu, eu ri também. Você, você eu inventei.

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Eu lembrava que gosto muito d’A Sociedade do Anel, mas eu tinha esquecido como o filme é gloriosamente bonito. Que uso primoroso da luz. E é admirável como os roteiristas conseguiram cortar vários eventos presentes nos livros sem perder a essência da narrativa. É um filme de afetos. De gente que não tem vergonha, nem de chorar nem de abraçar. Revi lembrando Meredith e Cristina. Elas caberiam direitinho entre os personagens. Em se tratando deles, aliás, ressalto que gosto demais do Boromir. Boromir é o personagem que vacila. Aquele personagem que enfia o pé na jaca com tanto gosto, que flerta com a desonra, que protagoniza tantos furos na virtude que se poderia pensar que existe só para servir de contraponto ao fodão. Mas não é (só) isso. Ele é tão, tão humano. Tão fraco, tão suscetível ao erro, tão vulnerável. É isso que mais amo: a vulnerabilidade. Porque é da sua imensa, enorme fraqueza, que ele se faz forte. É ele quem brinca com os hobbits, ele que se comove com a dor dos pequenos quando perdem o mago, ele que carrega uma culpa imensa por não ser capaz de proteger todo um povo, ele que cobiça, ele que se arrepende, ele que se inspira. Ele que se entrega. Ele é daqueles que, uma hora ou outra, sucumbem. Que eles caem, caem, mas que seja em cima de mim. Os mais humanos e, por isso, meus preferidos. Ele não sabe os caminhos, ele só sabe a chegada e, nisso, se perde. A morte de Boromir é tocante demais. Redimindo-se. E é tão simbólico que ele não cai no confronto direto. É preciso a covardia e a distância para atingi-lo. E uma imensa crueldade. 

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As pessoas saem com inquietações da sessão de análise, eu saio com dicas de faroestes.

Sim, carrego arrependimentos. Poucos e leves.
Como ter usado minha melhor dedicatória no livro que te dei.

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Cinema é um negócio mágico quando bem feito. Em poucos minutos, com as cores, o riso, as conversas, a gente entende porque Frodo – confrontado com a iminência do Condado ser invadido, resolve partir, proteger seu lugar e seu povo. Antes do bom e conhecido “salvar o mundo”, cuidar do que é alegre e bom. E não em um sentido mítico e expurgado de paraíso, entre os hobbits há fofoca, intriga, picuinha, maledicência, gula, alguma preguiça, etc. Ainda assim – ou por causa disso tudo – é um tempo/espaço precioso. 

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Hoje me perguntaram: se eu caio enferma, quem será meu escudo e minha espada? 

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Tem uma hora que Frodo diz a Gandalf que gostaria que o anel nunca tivesse chegado a ele, Frodo. Que preferia que nada do que lhe ocorreu tivesse acontecido. E Gandalf responde, com a genialidade do óbvio (não estou sendo irônica): assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Temos de decidir apenas o que fazer com o tempo que nos é dado. Eu gostei dessa frase quando vi o filme a primeira vez e em todas as vezes subsequentes. Acontece que eu não tinha revisto ainda depois de 2015. Venho repetindo, como Frodo, que preferia outro mundo, outra vida, outros eventos. Porque que tempos de horror. Mas preciso encontrar o eco da frase de Gandalf, em mim.

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Um dos segredos da felicidade, ouvi dizer, é compreender a nossa relevância no mundo.
Acrescentei por minha conta: e rir disso. 

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Está confirmado, haverá um amanhã.

A morte e outras rotinas

“No centro da sala, diante da mesa,
no fundo do prato, comida e tristeza”

Eu lembro sempre de um episódio de Grey’s em que a voz em off comenta que a gente nunca sabe que o maior dia da nossa vida vai ser o maior dia da nossa vida, que os dias que a gente espera que sejam especiais acabam nunca sendo exatamente o que se esperava deles. São os dias comuns, os que começam normais e sem expectativas, estes são os dias que terminam por ser os maiores dias. No episódio, excepcionalmente para esta série, eles estão falando dos grandes dias que são, também, os felizes. Mas eu acho que a lógica se mantém para todos os outros tipos de dias excepcionais. Como o dia em que você morre quando morre alguma coisa em você que lhe é tão própria, que você se acostumou a pensar naquilo como sendo você mesma. Alguma coisa. Um amor. Foi bem assim – e hoje eu posso sentar na cadeira de balanço e embalar a memória daquele dia – o dia em que eu morri. Não acordei antes nem depois do horário comum. Banho, escova de dente, de cabelo, nenhum sinal. Até aulinha de hidro eu fiz. Não almocei, mas também isso era comum naqueles dias. Em algum momento da tarde, suco de laranja. Trabalhos corrigidos. Notas lançadas. Pedido na feirinha. Emails respondidos. O sol que subiu, descia. Tudo como mandava o figurino. E aí, então, eu morri. Entre um silêncio e um emoji. Bom, não exatamente eu. O amor. Ou a crença que o insuflava. Uma brincadeira com dominós. Morreu aquele algo que sustentava o amor que me fazia existir. Tão bonitinha, ela. Pois é, morreu. Morrer dói, é a informação que eu trago aqui (como diria o moço do choque de cultura). Foi no meio da dor que eu percebi que aquele era um dos grandes dias da vida, do tipo que se falava em Grey’s. Depois de morrer continuei fazendo o que tinha que fazer. Orientei alunos, vi tv, fiz sopa, comi a sopa. Li, escrevi. Dormi. Acordei. Morta. Mortinha. Foi interessante – e um tanto perturbador – daí pra frente, imaginar quantos outros mortos haveria vivendo no mundo. Talvez alguns deles até assistam grey’s anatomy, como eu.

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 Se eu tivesse vergonha na cara, não postaria essa Bacall hoje

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Cá dentro, eu sei: gosto, de uma forma terna e dolorida, que não cheguemos nunca a nos encontrar, mesmo com toda essa fome que tivemos um pelo outro. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, tantos futuros se dissolvendo. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, eu repito, agora em voz alta, e a minha mão te procura e o mundo me chega morno e salgado.

Não há você, mas eu lembro a história. A do primeiro bichinho de estimação: um porquinho da índia que um dia, tão velho, tão velho, sumiu. E quem não quis acreditar quando uma mãe ofereceu abraço e mentiras e disse: ele fugiu? Eu, eu também quis acreditar na fuga do porquinho.

Hoje, sem mãe, sem abraço, sem você, me sobra a mentira: o porquinho fugiu.

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A conversa que Phoebe tem com os embriões é meio o que eu queria dizer pra alguns moços: estou aqui pra fazê-los se sentir bem e quentinhos por um tempo, depois vocês serão devidamente entregues e tal. E, claro, quando nos virmos, se eu estiver gritando, não se assustem, é assim mesmo.

Obviamente essa é uma mensagem na garrafa que nunca chegou à sua praia.

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Além disso, Mathilde é uma otimista.
 Tem para si que, se aquele fio não a levar ao seu amante,
paciência, não importa, ela ainda pode se enforcar com ele.

Depois de morrer, fui ver um filme. Rever, a bem da verdade. Um Longo Domingo de Noivado. A esperança, essa droga perigosa. O esquecimento. Os horrores da guerra. O horror, talvez mais duro, da incerteza cotidiana. As imensas tragédias. As pequenas perdas. A cena do farol, que justifica todo o amor, toda a espera, todos os amores que você e eu vamos sentir ou já sentimos, todas as lágrimas que choramos, todos os sonhos que cultivamos. O cinema me ajuda a pôr a vida em perspectiva. Me faz lembrar que, fora os filmes, é isso mesmo: um dia e outro e outro e outro e, se puder, um pouco de alegria. Enfim, para além de Pollyana, me descobrir Mathilde. Seguro, firme, o fio. E sigo otimista.

Peixinha

Eu tinha um pé atrás com o lance dos signos. Provavelmente por vaidade. Em todo canto encontrava a ideia de que pisciano é trouxa e, olha, de maneira geral eu tenho a bunda virada pra lua e as pessoas mais cuidam de mim do que tentam me enganar de alguma forma. Outros estereótipos nos quais eu não me encaixava muito: gente sofredora e que se apaixona fácil. Quem me conhece sabe da minha imensa vocação para a alegria e, quanto à paixão, bom, eu realmente nunca nem tinha me apaixonado, acho. Não nos moldes mais comumente descritos na literatura, registrados em cinematecas e compartilhados em fuxicos de amigas.

Mas estes dias tenho vivido a “piscianidade” (existe essa palavra? Em algum multiverso?) de uma forma bem explícita até pra desligados como eu (piscadinha pro clichê). Olha aí o desenhinho:

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Um peixe nadando pra cima, o outro peixe ignorando esse otimismo e nadando pra baixo. Um quer o mundo e os encontros, o outro busca a solidão e o ensimesmamento. Eu quero o claro, eu sonho o breu. Persigo a superfície, me afundo na região abissal. Falo tudo pra não dizer nada. Todos os dias me convenço que é hora de ir, que já não há mais espaço pra você cá dentro, que a história engasgou, não rende, aquele vislumbre de magia está perdido. Segue, luciana. Vai pra cima, nada em outros cardumes, tá vendo aquele dançante dourado? É o sol fazendo cócegas no emciminha da água. Uma beleza, bora lá. Todas as noites eu me impregno da vontade de você e me convenço de que não é possível deixar pra trás sem esperar até o possível, só pra ver, que mal faz, alimenta mais um pouco, entrega mais uma coisinha, tá quase lá, vai embora sem nem saber o gosto? A curiosidade segura e esfrego escamas no frio entre rochas do abismo.

A Fal disse, em seu diarinho*, que a vida anda. Eu acredito que sim. Eu sei que sim. A minha mesma já seguiu de momentos tão mais cinematográficos. Andou. Andei. Estou aqui, não estou? “Pessoas danificadas/machucadas/quebradas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. Sobrevivi. E mais. Eu só não lembro direito o como. Mas vou descobrir, claro. Em algum momento de um futuro que está sempre distante demais para o peixinho que sobe e ameaçadoramente próximo para o peixinho que procura o reino de Poseidon ou mesmo Atlântida. É que o sorriso chega antes da alegria.

Antes do futuro que virá, virá aquele momento do grande gesto. Eu, hoje, entendo porque alguns moços ficam confusos e até magoados comigo. Geralmente faço o solene e grandioso ato de amor verdadeiro, forte e profundo, naquele momento exatamente anterior à minha partida. Cabo de guerra entre peixinhos. Ficar, ficar, partir, partir, ficar, partir.

Minto pra mim, pra vocês, pra eles? Faço o grande ato de amor verdadeiro, forte e profundo quando já parti, mas reluto em aceitar? Não tenho certeza se não tem sido isso essa sucessão de entregas recentes. Ao ladinho do sempre tua tem aquela que talvez esteja abrindo as janelas, arejando espaços, batendo o tapete, espanando os cantos, trocando a roupa das almofadas. A vantagem do peito vazio é a acústica.

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Raramente te dá presentes e eles são esquisitos. Mas estranhamente pertinentes.

(o print é puro suco de narcisismo, né? Não tenho vergonha na cara)

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O que vocês preferem: narrar uma vida inventada ou inventar uma vida a ser vivida?

Gosto demais de La la land. Revendo uma conversa antiga, reclamam que não tem química entre o casal protagonista. E eu respondi que o filme não deveria contar com um par certo porque a vida não é sobre as pessoas encontrarem pessoas certas. É sobre a gente pensar que é. Reli essa minha resposta e doeu como jogar água oxigenada no joelho ralado. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

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*Se você quiser receber o Diarinho da Fal, diariamente no seu zap, sem preocupação (não tem interação, só a Fal posta) é só apertar neste link: https://chat.whatsapp.com/BcANA1N35q6Libhh8Yz8lW

Paulinho da Viola, Hiroshima e outros vazios

Primeiro o convite: sábado, dia 24 de julho, vai ter uma live, no instagram, sobre o meu livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Estaremos papeando eu, Suzi e Fal (editoras) e Fernando Amaral (co-autor de dois contos). Meu perfil: @lucianahnepomuceno ou o perfil do livro @eter_luciana_nepomuceno.

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Às vezes penso que era melhor se você me fizesse sofrer de propósito. 

Por um erro de julgamento nossa heroína vai viver, esta semana, de maçã, manga, rúcula e espinafre.

Me digam uma coisa, vocês que são sabidos, quando um amor irrealizado sequestra uma música, um cantor, um estilo, depois ele devolve?  

Estado de espírito: Joey colocando Mulherzinhas do congelador. 

Nunca mais ouvir para um amor no recife sem sentir uma pontada. Nunca mais ouvir coisas do mundo, minha nega sem doer uma vontade. 

Por causa da aulinha de cinema, senti saudade da M. Duras. Resultado: reli O Amante, O Amante da China do Norte (como uma autora consegue escrever dois maravilhosos livros contando a mesma história?) e revi Hiroshima, mon amour (inclusive copiando trechos). Sim, eu tinha acabado de rever o filme para a aulinha, mas o que eu posso fazer se você dói tanto em mim? 

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Será que o Paulinho da Viola também gosta de bacalhau? Deve gostar, Rio de Janeiro e tal. Não era o meu peixe favorito, você sabe. Você sabe? Enfim. Não era. Agora, gosto e faço de um montão de jeitos, a única certeza é: azeite. Então, pega a assadeira e já coloca uma boa dose de azeite. Despejo com vontade, como se soltasse todos aqueles gestos que não posso fazer e todas as palavras que não posso dizer. Aviso: esta receita leva cebola. Muita cebola. É sempre uma boa desculpa pra chorar, quando se precisa manter a compostura e fingir que se detém algum controle. Cebola, pois. Pra começar, crua, em rodelas mais ou menos finas, para cobrir o fundo da vasilha. Esqueci (sim, sou um tanto Dory, leia-me toda, marque na caixinha: estou ciente e quero continuar): já tem batata no fogo, até ficar al dente. Eu cozinho fatiada, prefiro ter a maior parte do trabalho no começo do preparo mesmo. Depois, segue na banguela, é meio assim que toco a vida. Pode colocar um pouco de sal na batata (se tiver dessalgado direitinho o bacalhau, claro). Quando a batata está no ponto, emborca a metade na assadeira e deixa o resto reservado. Em uma panela ou frigideira grade e funda, mais uma cebola, cortada em rodelas finas, azeite, fogo, alho, enche a cozinha com o cheirinho de refogado e coloca o bacalhau lá dentro. Bacalhau em lascas, já dessalgado. bacalhau que parecia um amanhecer frio, olhando montanha, que parecia esquina de catedral, que parecia conversa mansa com amigo sabido, que parecia surpresa, intimidade, festa e agora só parece você, você, você. Depois de mexer pra lá e pra cá, um nadinha de leite pro bacalhau cozinhar por, no máximo, dez minutos. E lá vai o bacalhau em cima das batatas. Pega mais uma (ou duas) cebolas (mais? mais), corta do jeito que você preferir e refoga bem, deixando molinha, molinha, que nem alguém fica quando o bem querer capricha no cheiro no cangote (como se eu soubesse, como se vontade já fosse saudade). Cebola em cima do bacalhau, o resto da batata em cima da cebola (e viva a suruba de comida). Aí vem o molho branco que cada um faz como preferir. E queijinho parmesão ralado por cima. Forno por meia hora, duas taças de vinho enquanto espera, mais outro tanto pra acompanhar o prato. Se faltar sal, lágrima.

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Nem teve Cerimônia de Abertura ainda e já estou mergulhada nas Olimpíadas. Pra começar uma partida deliciosa de softball, entendi zero, me anestesiei totalmente. Obrigada, deuses gregos. Pouquinhas horas de sono (mas pelo menos agora é opcional e não uma versão ruim de uma canção do Roberto Carlos) e amanheço vendo gols de Marta e Debinha, na competição de futebol feminino. Sigo trabalhando e ouvindo a narração do jogo entre Holanda e Zâmbia (um passeio ainda maior que o nosso). Já são quase doze horas segurando a onda de depender emocionalmente de outrem que não você.

Brasil 5 X 0 China. Dois gols da Marta e um trabalho incrível tanto da nossa goleira como da trave.

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“Ele virá até mim, me pegará pelos ombros e me beijará. Ele me beijará e eu estarei perdida (se a gente sou sempre eu, ele ou você, sabemos quem é). Eu encontro você. Lembro-me de você. Esta cidade foi feita para o amor. Você foi feito na medida do meu corpo (antecipo o encaixe, seu queixo em meu cabelo, sua mão me cabendo toda, escuto a batida descompassada do coração – meu ou seu? – e deixo que minha mão mapeie todos os atalhos, esquinas, curvas, acidentes geográficos neste teu corpo-território). Quem é você? Você está me matando. Eu tinha fome. Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer (fui escrever morrer e escrevi você, nenhuma surpresa, os atos falhos se amontoam). Desde sempre. Eu sabia que um dia você cairia sobre mim (…). Devore-me. Deforme-me à sua imagem para que ninguém, depois, possa entender o porquê de tamanho desejo (para que eu mesma não consiga encontrar o marco temporal, nem antes nem depois, um sempre esse amor. Reescrevo nossa história, reinvento momentos, escrevo cartas, sonho lembranças). Nós ficaremos sozinhos, meu amor. A noite não acabará (só isso que quero: uma noite, um momento, um encontro e o desnecessário depois, dias e dias em que eu saberei que estive com você e você esteve em mim). O dia não nascerá mais para ninguém. Nunca. Nunca mais. Enfim. Você ainda está me matando. Você me faz bem (todos, todos os dias, eu sinto a angústia e aí você, qualquer coisa e todos os passarinhos cantam e todos os arco-íris colorem céus e todo o riso e bom e certo se apresentam. Ou eu acho que sim). Prantearemos o dia morto com consciência e boa vontade. Não teremos mais nada a fazer senão prantear o dia morto (porque teremos sido felizes, tudo se acolhe e se enfrenta). O tempo passará. O tempo, somente (não passará meu bem querer). E virá o tempo em que não saberemos dar nome ao que nos uniu. O nome se apagará aos poucos de nossa memória, depois desaparecerá por completo (a felicidade, como a beleza, é mesmo tão fugaz).”

 

Um amor, desses de cinema

Assisti Monsieur & Madame Adelman e vim escrever que você também deveria ver. Talvez eu escreva isso porque Victor se apaixona pelo sorriso de Sarah e quem não gosta de uma bela brasa na sua sardinha? Talvez eu escreva porque a história começa em um bar, ele bêbado demais, ela empolgada demais, ele se arrepende, ela insiste. Sei lá, me soou quase assustadoramente familiar (alguém poderia argumentar que não era um bar, mas era uma espécie de boteco, não era? E havia vinho. Muito vinho). Talvez eu escreva sobre isso ou qualquer coisa como uma forma de sustentar essa imaginária conversa que desejo interminável e mantenha a impressão de um vínculo qualquer. Ou, plot twist, tem um jornalista me entrevistando pra futura biografia, vai saber.

E o filme? É uma história assim: um relacionamento. Ele é bonito, ela ri, os dois são inteligentes, um tantinho cruéis. Pronto, pode soltar a respiração, há pouco mais em intersecção.

Mas, a bem da verdade, não é de nós que gosto no filme. É inquietante que na única crítica que li sobre ele, até agora, tenha se analisado o filme como se fosse uma comédia. Me senti no Choque de Cultura lendo isso.  Tem que ver se não é comédia, se não for comédia, excelente filme. Embora tenha algum humor, não me parece que o propósito central seja fazer rir (embora haja momentos em que, sim, claro). Me pareceu um filme sobre relações. Ou ainda, sobre o imperfeito nas relações – que é o que as faz existir também. O desencaixe, o desencontro, as frustrações assim como o encanto, o tesão, o deslumbramento. A finitude. Do sentimento, da parceria, das pessoas. E o que permanece.

Também é um filme sobre a potência da palavra e da lembrança. Poder contar uma história, a própria história, é confortador. Organizador. E libertador. Passear nos corredores da memória, etiquetar as lembranças, dizer sobre elas, reformá-las, reinventá-las, moldá-las à necessidade do presente. Expressar-se. Como bem disse W. Salomão: a memória é ilha de edição. Por outro lado, ao colocar a narrativa no centro, a força de poder dizer-se, também é preciso reconhecer que palavras têm pontas afiadas. Não sei se existem novos cozinheiros sem pequenos cortes e queimaduras. Certamente não há escritores sem marcas e cicatrizes do processo da própria escritura. Sarah é quem conta, é uma história sobre um escritor, mas ele não é o dono da palavra, embora não passe impune por elas. É uma história da mulher que recorda, mas depois de anos juntos, como garantir a “pureza” do que se lembra? Como, depois de tão misturados, saber que o que se lembra é lembrado a partir de si mesmo e não filtrado pelo olhar do outro? Como não pensar no Chico: “te dei meus olhos pra tomares conta”?

E é um filme que se faz atravessar, com alguma malícia, por outras questões relevantes como desejo, segredos, relações familiares, sucesso (ou fracasso) profissional, relação teoria/prática na política e por aí vai sem se perder nestas veredas e ficar sem rumo (as famílias, aliás, dariam um texto à parte, o que carregamos das nossas histórias familiares, o que adotamos da família de quem amamos, o que transformamos, as coisas com as quais rompemos, as cenas que repetimos sem perceber).

Não há condescendência nem com personagens, nem com os espectadores. É um filme para adultos, é preciso bagagem e alguma coragem. Não há temor de expor fraquezas e inseguranças do casal burguês (que sabem e/ou se perguntam sobre o que são e representam, quase sempre) que está longe de ser modelo nos diversos papéis que ocupam, inclusive como pai e mãe (alguém pode dizer que os filhos são “esquecidos” pelo roteiro em vários momentos, mas, penso, é um jeito inteligente de mostrar como as crianças são escanteadas na trajetória deles, o quanto são abandonadas mesmo).

É um filme sobre amor. E sobre um relacionamento de 45 anos. Não se enganem – e nem o filme pretende contar esta história – não é um filme sobre um amor de 45 anos ou sobre como o amor dura pra sempre (sendo o sempre, 45 anos). Como eu disse, conversando com a Renata, o amor não cabe bem em calendários e relógios. Como eu sei disso? Precisei reinventar uma vida pra caber você nela desde sempre.

Acho delicioso e pertinente que Nicolas Bedos e Doria Tillier, um casal eles mesmos, além de viverem os protagonistas, Victor e Sarah, tenham escrito juntos este instigante roteiro. Além disso, Nicolas Bedos dirigiu o filme, com entusiasmo, alguma ansiedade nas decisões, mas bastante talento pra utilizar cortes e uma câmera ágil.

Tem umas coisinhas a pensar sobre minúcias do roteiro (se aquela revelação final sobre estilo é verdadeira, como ele escreveu aquele excelente livro sobre ela?), mas nada que seja realmente um incômodo (e pode ser que eu estivesse com os olhos tão marejados que tenha perdido alguma coisa, vou rever). É fácil querer pensar que Sarah é completamente responsável pelo Victor escritor. Um tantinho mais complexo é pensar que relação é construção de intertexto. Sim, muitos vão pensar em e considerá-lo como um A Esposa, mas francês – para o bem e para o bem (eu ia dizer para o mal, mas que mal?). Mas me lembrou, também e principalmente, Trama Fantasma. Amores para os quais o rótulo de feliz ou infeliz não é o bastante. Amores necessários. O amar de quem insiste em dar o que não se tem a alguém que não o quer. Sempre que eu canto a musiquinha da Vanessa da Matta (se você quiser eu vou te dar um amor, desses de cinema) é em relacionamentos assim que eu penso: agridoces.

Da parte técnica e execução, há muito pra se apreciar no longa. Gostei das cenas das vendas, por exemplo. Do figurino. Da maquiagem, da incrível e crível maquiagem que envelhece os atores ao longo de 45 anos. Do uso inteligente e divertido da presença do psicanalista. E das referências (umas sutis, outras nem tanto) que amarram o enredo. O filme é uma delícia ao sobrepor referência em cima de referência de literatura, música e muito, muito cinema, e o diretor soube explorar todos esses elementos assim como conduzir a narrativa ora em ciclos, ora em espiral, alternando um ritmo leve e ágil no momento de euforia amorosa e um certo peso e vagar quando a vida se avoluma nos ombros deles.

Ao conhecermos Victor e Sarah, recordamos: passamos a vida encarando o abismo. Se pudermos confiar que quem nos ama saberá ser generoso quando for preciso, já se tem – acho – um horizonte confortador.

Gosto também das nuances no filme. De não demandar empatia com os personagens, mas conexão. Além disso (narciso, etc), algumas frases e situações parecem ter sido colocadas lá só pra me cutucar ou inebriar. Bem no comecinho vemos Sarah apagando o cigarro no tampo da escrivaninha, supostamente um móvel de imenso valor afetivo. Victor presenteando: “pessoas apaixonadas exprimem isso de forma material. É meu jeito burguês de dizer eu te amo”. Ironias e um bocado de reflexões inteligentes, porém pouco confiáveis – como ela dizendo algo tipo as pessoas que fracassam acham que nós nos afastamos ou vamos nos afastar. E se tornam desagradáveis. Mas nos afastamos porque se tornaram desagradáveis e não porque fracassaram – a premissa soa consistente, mas ao vermos a relação entre os dois, não é assim tão clara a sequência.

E, claro, na hora que ela diz que o amou por 20 anos porque passou 20 anos com medo de perdê-lo, quem não se encolhe na cadeira?

Entre as versões possíveis de Victor, escritor reconhecido, premiado, ambíguo como filho, terrível como pai, um tanto hipócrita politicamente, é do Victor que ela decidiu amar que Sarah fala o tempo todo. E, assim, também é um filme sobre escolhas. Sobre as muitas que ele e ela fizeram ao longo da vida, mas também e principalmente as escolhas que ela faz do que lembrar e como contar o vínculo entre os dois. Alguém pode questionar o quanto do que ela conta é real. O quanto o homem que ela apresenta é real. Mas, eis a grande sacada, isso não importa! O que importa é o que ele foi pra ela e o que ela diz dele, fazendo-o presente, mesmo ausente. Não é um filme simples. Que bom que não é. Mas é muito honesto.

As pessoas podem reclamar que o filme não é feminista o bastante. Que Sarah era um mulherão e se resignou a ser menos do que poderia ser. Eu penso que essa é uma conclusão precipitada e pautada por alguns valores de sucesso relacionados à mentalidade produtivista, de vida pública, status, etc. Mas há prazeres outros no que é íntimo. Há intensidade e diversidade na poça d’água, sabia e nos dizia Agatha. Gosto demais de que Adelman seja a família dela, por exemplo. Sarah não é uma vítima de um homem mau que nem pica-pau. Não, ela está tão implicada na história dos dois como ele. Desejante. Autora e protagonista tanto quanto ele. Talvez um pouquinho mais. Ambígua. Corajosa. O filme perde como panfleto, mas ganha em sutileza. Ela, assim como todo o filme, deliciosamente amoral.

Na canção de Vinícius: o amor só é bom se doer. O deles foi maravilhoso. 

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Escolhi essa foto porque ela está sorrindo? Porque contei o sonho em que eu estou cega? Jamais saberemos (mentira, já sabemos, né)

Infinitena #dia466 #dia03

Depois do depois, ainda a beleza. E a vida. A rosa do deserto em nova floração. Tal como o personagem antigo da Escolinha, porque mandar, porque não mandar, mandei-a-a, ela, a mensagem. Sempre que compro ou faço caponata eu olho e penso: por quê? com certeza não gosto de comer isso. Aí eu como e só falto gemer de achar bom. Também acho bom: os fios brancos na barba. Tal como me reconheço: li e escrevi. Misturei dias e é quarta e é terça e é dia de vôlei e futebol e, com sorte, um vislumbre de ginástica. Sim, estou me preparando para as Olimpíadas. Também fiz compras: sutiãs. Haja peito, aliás. Um é vermelho. Não uso espelho pra me pentear… nessa, acho, nem você me acompanha. No mesmo disco (LP, capa verde, uma coletânea de festivais) tinha também Cantiga por Luciana, com Evinha. E Filme Triste. Triste, mas não tanto quanto Crepúsculo dos Deuses. Preciso, mesmo, lembrar de chamar alguém pra consertar a máquina de lavar roupa. Aquele moço outro pensou em mim e disse uma espécie de oi. Eu podia ter batido pestana, acenado discreta, baixado os olhos, corado. Eu corei, pelo menos. E disse eu também e tanta coisa mais. É por isso que o povo se espanta, talvez. Vi a rua. E as pessoas na rua. Comprei liguinhas, o cabelo cresceu. Voltei pra casa com o envelope não enviado. A amiga recebeu o Éter. A outra, também. A outra, ainda não. Todo dia espio o site dos Correios e leio apenas: objeto enviado. Eu sei, fui eu. Chegou a entrega do supermercado: vem aí um fim de semana de mimosas. A rapidez com que eu vou de juro por deus de pés juntos que nunca mais para um nada disso, vamos disputar a lua seria divertido se um avião não fosse essa impossibilidade no hoje. Descasquei uma tangerina, cheira a alegria. Revi vídeos fofinhos da sobrinhada. Coloquei palavras aleatórias no google acrescentando, sempre, psicanálise e pdf, just for fun. Vejo pela terceira ou quarta vez o vídeo da meninada de Cuba falando de vacina e tal e coisa. Imagino gatinhos se enroscando nas suas pernas, madrugada adentro, tv ligada no filme Nomadland, imagino minhas pernas se enroscando nas suas não importa o que tenha na tv, pisco rápido, essa imaginação, ai, ai, postura, menina, como diria a professora de música da Fal (finalmente consegui ligar com o diarinho de ontem). Daí a pouco o banho, batom, vestido curto e analista.

eu continuo grande. seu coração é que ficou pequeno. eu continuo grande, sua imaginação é que ficou pequena. eu continuo grande, esse vestido é que ficou pequeno. eu continuo grande, sua memória é que ficou pequena. eu continuo grande, essa cidade é que ficou pequena. eu continuo grande, essa história é que ficou pequena.

I could stay home every night
Wait around for mr right
Take cold showers every day
And throw my life away
On a dream that won’t come true.
I could hurt
Someone like me

“devemos lembrar que os esquecemos”

Hoje (na verdade, ontem, é que ainda não dormi) foi pesado demais. O número de mortes, o sofrimento com rosto e nome, o adoecimento e a morte de pessoas que já fizeram parte da nossa vida de ouvir voz, sentir pele. Difícil demais. Nem a votação no STF conseguiu me tirar da areia movediça da angústia e tristeza.

A casa precisando de faxina. A alma também.

devemos lembrar que os esquecemos” – é isso mesmo, Sally. Harry & Sally é meu filme de tantas formas. Menos no subtítulo péssimo. Tudo que Harry e Sally não são é pré-fabricados um pro outro, tudo que eles não são é um encaixe fácil, uma atração física avassaladora, uma irmandade de almas afastados temporariamente por situações confusas ou pessoas mal intencionadas. Eles não são feitos um para o outro, eles desenvolvem um vínculo, constroem um afeto, se abrem pra relação, se conhecem, se desvendam, se estranham, se permitem e, neste processo, descobrem-se importando-se em estar (e não ser) um para o outro, um com o outro.

Things I Love About “When Harry Met Sally…”

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Tentei ver a Liga da Justiça porque minha experiência me diz filme de herói é fácil de ver. Mas não quando é tão ruim assim. Além dos inúmeros problemas de cor, de roteiro, de fotografia, ainda tem um péssimo vilão. O que Thanos tinha de interessante e complexo esse tem de falta de carisma e ausência de mote. E eu nem me lembro mais porque ou como o Superman morreu. 

Qual é o melhor momento de Friends e porque é Ross presenteando Phoebe com a bicicleta? – eu não dependo só da gentileza de estranhos, eu dependo da gentileza de todo mundo.

Pin by Anita Santamaría on F.R.I.E.N.D.S. | Friends moments, Friends tv,  Friends in love

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Sim, seu moço, eu sei que podíamos ter sido felizes. Mas não acho triste pensar nisso. Acho bonito saber que tantas vidas que não vivi seriam boas como esta costumava ser (agora ela tá em stand by, né, não serve pra comparação)

Arrastar os dias feitos correntes. Toda minha solidariedade aos fantasmas de desenho animado.

Bay. E eu.

bay

Tem essa série juvenil. E na série tem um casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. E a vida que segue primeiro é a dele. Ou ele nota primeiro. E ela fica. E ela sofre. E as pessoas – todas muito legais – dizem a ela que vai passar, vai passar e tal. E, sabe, não adianta nada dizer. Ela se encolhe, se esconde, sofre em dobro, porque dói a ausência dele, do relacionamento, de quem ela era com ele e sofre mais, sofre porque parece em desacordo, mal educado, indelicado da parte dela continuar sofrendo apesar de tanto cuidado de todo mundo explicando que passa, que acaba, que não é tudo isso que parece ser naquele momento.  Apesar das boas intenções, do bem querer verdadeiro e do cuidado legítimo de todos que a rodeiam, ainda dói, porque naquela hora ali, não passou ainda.

Há sempre um tanto de gente com boas intenções. Quando não casei, quando escrevia a tese, quando perdi pessoas queridas. Todas lembrando que passa, que acaba, que não é tanto como parece naquele momento. Há até quem use essa lógica para 2020. E a pandemia. Se falo de desconforto, de angústia, do difícil que é viver cada dia, as pessoas, gentis e prestativas, me dizem que vai passar, que logo acaba, que é preciso sobreviver. E sim, eu acredito. Mas não adianta muito saber. Ainda dói. E me sinto indelicada, mal educada, fora de sintonia por não saber agir em consonância com todas essas tentativas e notícias boas que as pessoas gentis me trazem. Então me encolho, me escondo e dói em dobro. Porque, olha só, não passou ainda. Não desconheço o que é preciso. Coloco panelas no fogo, limpo a casa, faço meu trabalho. Vez ou outra, até sorrio num esquecer qualquer. E se não compartilho esperanças, carrego a teimosia de insistir na vida. Em algum lugar, eu mesma, ainda. Mas.

É isso. Tem essa série juvenil. Com esse casalzinho fofo que fica junto muitas temporadas até que um dia: vida que segue. A vida dele seguiu. E ela ficou. Ficou, ficou, ficou até não mais ficar. Não mais. Não tanto. Também ela, um passo, outro, dois pra lá, dois pra cá. Segue. Entra na dança. Na roda. E até sorri. Quem sabe, um dia, até diz, bem intencionada, a outro alguém: vai passar.

Eu me abraço, me embalo e penso: que venha minha próxima temporada.