Por onde for

Moça lendo uma carta à janela, c. 1658, por Johannes Vermeer. Óleo sobre tela, 83 x 64,5 cm. Staatliche Kunstsammlungen, Dresden.
Moça lendo uma carta à janela – Vermeer

Sabe, amigo, tenho lido muitos policiais, devorei tudo que encontrei da Karin Slaughter. Agora estou lendo, interessada, “Tudo que nunca contei” de Celeste Ng, que faz pensar no sofrimento de abandonar raízes e identidades em troca de uma adaptação que nunca vem como se espera. Na mesma vibe, terminei a segunda temporada de Mindhunter rapidinho. Já escrevi algumas vezes sobre minha relação com este tipo de narrativa, ela me organiza, me conforta, garante um eixo que a vida mesma, não oferece e ainda debocha.

Ontem vi o documentário Fevereiros e a vida agora é contar os dias até começarem a vender os ingressos pro show de Bethânia em Recife. Estou querendo ir a Santo Amaro da Purificação para a festa de 02 de fevereiro, mas nada garantido, a vida parece uma corrente com âncora que compromete a certeza de chegar com fôlego, lá. Convoquei os amigos, ainda acredito nos afetos.

Na miudeza, esta semana fiz feijão e comi com farinha. Me arrependo de não ter feito capitão. Comprei umas roupas pela internet mas errei o tamanho e elas vieram cabendo uma Luciana e meia. É bastante tecido. Queria redecorar o quarto, outras cores, quadros, uma mesinha de cabeceira. Mas, né. Quem disse que não se pode ter tudo certamente antes conferiu minha conta bancária. Não sei mexer no notebook sem mouse mas comprei um novo com quem ainda não acertei o ritmo.

Como promessa de alento, próxima semana terei muitas fotos de mar. E, talvez, uma declaração pra Jesus, não o da cruz mas o português que treina meu time. Entre tanto desalento, ele me faz feliz.

Na vibe fofoca, porque ninguém é de ferro: o coração tem porta de bar de faroeste, tantos entram como saem. Eu queria mesmo era mandar mensagem pro moço que eu estranho muito: pode ser ou tá difícil? mas suspeito que não saberia o que fazer se ele dissesse que está difícil e, muito menos, se ele abrisse a porteira.

Queria dizer, amigo, amiga, você com quem me enlinhei na rede: gosto demais de saber de você, fica por perto, faz favor de não ir embora.

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Ir embora. Ir embora? Claro. Que não. Partir. Pra onde. Ela já não sabe quem é fora desta relação. Quem era. Alguém sem graça, já que tão esquecível? Ou nem. Como saber depois do amor arrebatação? Arrebentação. Ela tinha uma vida antes, não tinha? Tinha. Casa, carro, banco, amarras, navios. Que queimou. Destruiu, com o arder do desejo, as possibilidades de sair daquele abraço. Nem tinha como sair na ponta do pé. Abriu os braços e saltou.

Quanto tempo faz? Não lembra. O espelho conta em rugas e cabelos prateados. Mas as perguntas ainda a acompanham: Você vai jogar tudo fora? Você é louca? Sim. Sim. Jogou. Rompeu ligações. E ligamentos, no exercício da paixão. Aprimoramentos. Ele também, alguém argumentaria. Ela ri, o amor é sempre recíproco ou não se leu Lacan. Amor convulsão. Revolução. Suspiros. Ela, que podia ilustrar uma daquelas propagandas de Antes/Depois. Se houvesse uma dessas para a alma, claro. Antes: razão, equilíbrio, projetos. Uma vida em planilhas. Aí. Ele. Tudo que é sólido desmancha no ar. Livros demais. Desvaneceu. O pensamento livre. O corpo solto. Rolar no chão, rodopiar, entontecer. Par.

Desvario, disseram amigos, familiares, psicólogo e médico consultados. Tesão. Os olhos dele, escuros, noites eternas. Corpos que se enroscam, quadris que se encaixam, pernas que se confundem. Há quem tenha vida em comum. Nestes anos todos o que tiveram foi uma cama em comum. Mesmo quando não estavam trepando, estavam misturados. As pernas dele a sustentavam, as dela o levavam aqui e ali. Intimidade.

Nem saberia arrumar a mala. Um armário de roupas misturadas. De quem é o pijama com o qual ela dorme?  Sapatos empilhados. Nem é possível pensar em lidar com a gaveta dos documentos ou em uma impossível divisão dos livros. A dúvida. As dúvidas. As dívidas. Com que cara eu vou sair? Não com a mesma de antes das travessuras. Ela já não é aquela. Mas também não permanece a que se tornou. Estranha. Como se despedir com a sensação de que o corpo não sabe ser sem as mãos dele marcando o limite? Ainda sente o beijo leve nos lábios, o beijo de sempre quando ele vai sair dos lençóis, as mãos sustentando os seios, o pé cutucando a bunda em uma tradicional brincadeira cúmplice, tão antiga que já nem sabem porquê existe.

Ir embora. Ir embora? Claro. Que não. Partir. Pra onde. E,ainda mais misterioso: de onde? Ir embora dali, dele, é despedir-se de si mesma. De uma ela que foi possível, que foi a única visível, todos estes anos. Como ir embora se já não sabe quem é, como serão seus passos. Ou o que é o mundo. Se acostumou a ver-se e ao mundo nos olhos dele. Não pelos olhos dele, isso seria mais fácil, uma ela que levaria um ele com ela. Mas nem. Se ela se via no que ele via, como seguir sem esta muleta? Partir. Sair. Deixar. Sem arrependimentos por isso. Retomar os olhos que dera pra ele tomar conta. Um pouco tonta, tenta reconquistar a noção das horas. Seguir. Sem alegria. Sem arrependimento. Ali, quem sabe? ela sabe, foi feliz. Pois vai, vai mesmo. Nunca mais. Vai deixando a fatia mais doce da vida pra trás. Mas aí já são outras canções. E outra coreografia. Passos. Ne pas de deux.

A Vida é um Jogo

Infelizmente não prestei muita atenção quando estavam explicando as regras.

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E você tá pronta pra morrer? Ué, eu já nasci pronta, só não estou com pressa.

Se a vida é um jogo eu preferiria que fosse aquele curling raiz, que a galera jogava com o varredor em uma mão, uma cerveja na outra e o cigarro no canto da boca.

Só essa semana fiz:

– feijão com linguiça, cebola roxa, cheiro verde, queijo coalho e farinha

– torta de cebola e queijo

– espaguete com azeite, cebola, tomate e ovo frito

– linguiça com molho de tomate e batata

… comida pode ser uma forma de carinho.

Sim, tenho máquina de cápsulas. Tenho uma cafeteira elétrica. Tenho uma cafeteira francesa. Já tive uma italiana, pretendendo comprar outra. Mas ainda prefiro o café coado no pano.

Acho que nunca tinha recebido um “oi, sumida”, foi engraçado.

Vamos trazer pra cá as lucianas espalhadas nos blogs por aí? vamos:
Nancy retira os lençóis da cama em movimentos lentos, inconscientes, automáticos, como uma presteza alienada que vem da repetição. O cheiro de suor, esperma e gim entranhado no linho, as fronhas com saliva e sangue. Na vitrola antiquada que ela preserva como os sonhos juvenis, a voz rouca em tangos fora de moda. Apaga o abajur, acende a luz branca como de hospital que por um momento lhe ofusca. Joga os panos no balde roupa suja e o movimento brusco lhe dói a base da espinha. Dolorida. Do tempo gasto, sentada retesada e tensa à espera. Do telefonema. Da chegada. Do pedido. Ele. O certo. Que não veio, não ligou, não pediu. Nunca. Ela bem tentou acertar. Não é esse. Nem esse. Nem aquele outro. Nem, não, nem, não. Não é com você, não é com ninguém, é com a pessoa que eu quero mais bem. Na infância parecia fácil. Vamos provando. Uma boca, outra, mais. Pra encontrar o Amor, maiúsculo, único, redentor. Que não chegou, não veio, não ligou. Até agora, ela pensa. Ela suspira, impaciente consigo mesma. Já fez de tudo. Deu tudo. Atenção, carinho, dinheiro. O corpo. Desde que saiu da brincadeira de roda infantil e começou a falar de amor, deu, deu, deu. Entregou tanto que nem sabe se sobrou alguma coisa dela mesma. E o Amor? O Amor que só bate na porta ao lado. Que só frequenta as festas que ela, exausta das apresentações repetidas no pequeno palco, deixa de ir. O Amor que ela quis que fosse desde o primeiro namoro em pé, roçando, roçando, o pé do muro feito motel. É o Amor? Por favor, seja, seja, a boca aberta, os abraços rápidos, os gemidos desconexos, um, outro, mais, um, outro, outro, a vagina cada vez mais seca, o corpo mais árido, o sonho mais cinza. As promessas. Meio riso, meio soluço quando lembra das promessas que recebeu para dizer um sim que diria de qualquer maneira. Que fez, acreditando que era a última vez. Os braços abertos na cama. As mãos postas na frente do altarzinho improvisado no canto do camarim. Que seja Ele, dessa vez. Eles que não voltam. Não voltaram, não voltavam, não voltam, não eram. Iam, seguiam, um mandou um postal de Roma. Parecia tão bom, quer uma bebida? O que você está bebendo? Um gim pra mim também. Parecia tão bom, o paletó sem corte que ela já viu tantas vezes, a gravata berrante, a piada fácil. A fome. Parecia tão bom, também este, primeira fila, olhos fixos na suas pernas enquanto ela faz o que tem que fazer no minúsculo palco, também ele, mais esse, quem sabe aquele, ou este mesmo, diz sim, sim, sim, ele meio apressado e resfolega e goza tão rápido mas jurou que ela era especial quando lhe estava subindo a saia. Os braços forçados nas costas, ele querendo por dentro, por fora, por cima, por trás, puxando o cabelo, metendo e saindo, metendo e saindo, saindo, saindo, saindo, indo. Este não volta, ela sabe, nem chora mais como nas primeiras vezes enquanto retira os lençóis e faz as contas da lavanderia, babou na fronha, mordeu o lábio até sangrar, pelo menos gozou fora. Mais tarde, depois do show, depois de tudo, ignorará a cama feita, pegará o lençol meio esgarçado que traz desde a juventude e dormirá no chão. É com este desconforto que ela disfarça o da alma. Senta na pequena penteadeira pra fazer a maquiagem, ainda tem um espetáculo hoje, senta de pernas bem fechadas, a pélvis dolorida, as coxas ardendo, os pés juntos e a jura: nunca mais. Batem à porta, a resposta vem automática. Porque é dessas, que só dizem sim.

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Trabalho de Heather Horton

 

 

Cartas

Escrevo,
o que mais pode fazer quem tem o corpo no exílio? 

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Em cartas antigas ela reencontra sua letra ameninada e se surpreende como o sentir era antigo, embora não soubesse dizê-lo naquele tempo e já não se sinta no direito de fazê-lo no agora. Lamenta um tanto o que nunca foram, como ela nunca chegou a revelar – porque não compreendia o que sentia e se atinasse talvez não soubesse enunciar – o tanto que o quis em seus dias, em seu mundo, entre suas pernas.

Eles trocavam cartas. É que precisavam que o largo do tempo entre uma mensagem e outra se tornasse espaço pro bem querer que crescia tanto que escorria pelos olhos em lágrimas a que chamavam saudades e pingavam dos lábios que o outro corria a sorver e numa contradição que os encabulava quanto maior ficava o bem querer – e mais espaço exigia na vida de cada um – menos espaço permitia entre um corpo e outro quando se encontravam. Então eles trocavam cartas, escreviam palavras que nunca bastavam e guardavam nas entrelinhas todo amor-e-desejo-e-vem-viver-em-mim enquanto cobriam páginas com futebol, dias de sol, descrições extensas do local de trabalho e sonhavam viagens para se encontrarem quando o que queriam mesmo dizer era sobre perder-se um no outro.

Porque eram do tempo das escrivaninhas, ela, a chave pequena que carregava na bolsa, as cartas que escrevia toda semana e ficavam guardadas à chave na velha escrivaninha para nunca serem enviadas. Precisava de uma escrivaninha com gavetas maiores ou uma saudade menor, riu-se, após o insucesso de fechar a gaveta abarrotada transformar sua pequena e reservada tragédia em uma comédia banal.

Gosta de cartas, a menina, gosta de recebê-las, pois claro, e ainda mais de escrevê-las. Ela sente – segurando firme a caneta que insiste em rascunhar corações e flechas no papel branco – que uma carta desdenha o calendário, ignora manchetes, prescinde de motivo, sua única urgência é existir. Por que me vejo compelida a escrever? – é lida, a menina, repete Goethe. É, também, algo irônica e zomba de si mesma ao continuar: não é preciso, querido, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel. Assim é, a cada vez que se faz letra envelopada não o faz para dar notícias, para informar, para atualizar seu leitor do que quer que seja, embora isso possa se passar. Escreve – a menina – para ficar próxima. Como uma forma de burlar a geografia, a carta enviada é uma tentativa de ser tocada. Tuas mãos queridas receberão este papel e será como se percorressem minha pele – ela quase escreve, mas só suspira. Um papel que liga duas solidões, alguém já disse, mas não é como se sente ela, diria mais precisamente: que liga dois anseios. É assim que a menina escreve. Como se sentisse fome. E sente.

 

Sim, eu namorei por carta. Estava com essa saudade avassaladora, com essa fome do outro, com essa vontade de saber: como vai? o que você está fazendo? pensou em mim? então eu sentava e escrevia cuidadosamente uma carta. E, depois, talvez, passasse a limpo. Aí estava sem envelope, ia comprar, talvez no mesmo dia, talvez só no dia seguinte. E tinha que arrumar um tempo pra ir ao correio. Que demorava uns diazinhos pra entregar. Com sorte, não se extraviava. Daí a outra pessoa recebia, lia, se emocionava, relia, sei lá o que fazia mais. Talvez curtisse a carta um dia inteiro antes de responder. Ou dois. Ou mais. E tinha trabalho, tinha família, tinha amigos… Até que dava pra escrever. E seguia o mesmo processo: escrever, corrigir, envelopar, enviar, carteiro, eu. As palavras. Que, no primeiro momento, nem importavam no que diziam. Elas tinham valor de matéria, valiam por existir. Cada letra uma ação do outro em minha direção. Depois, sim, o conteúdo. Paquerar cada linha. Emocionar-me nas entrelinhas. Sentir a voracidade um tantinho aplacada. Entre o momento em que o ralo se abriu, querendo do outro (me dá, me diga, me ame) e o momento em que, de alguma forma, se respondeu a isso, o que eu fazia? Vivia, não é. Tinha que dar conta da ansiedade. Arrumar um jeito do tempo passar e de passar no tempo. Eu lia. Ouvia música. Via tv. Sei lá. Só sei que era um jeito de lidar com a demanda. Que envolvia uma angústia mansa e alguma displicência.

Tinha também o relacionamento ao alcance do telefone fixo. Bem “mais rápido”. Dava a vontade? Eu telefonava. Quer dizer. Tinha que estar em casa ou esperar chegar em casa. E o telefone estar desocupado do lado de cá. Aí eu ligava. E podia dar ocupado. Do lado de lá. Ou a pessoa podia ter saído. Deixava recado. Ou ligava de novo mais tarde. Ou ligava amanhã – eu escrevo e rio, veja bem, a gente não conseguia falar hoje, sei lá, 20 horas e então deixava pra amanhã meio dia. Era outro tempo, era outra eu no tempo. Sem falar que, né, o telefone era da casa. Então a gente falava uma vez no dia (tá, um montão de tempo que tirava o resto das pessoas da casa do sério, mas isso é outra conversa). E, tchanrã, agora o bem querer e a mensagem instantânea. Toda uma reorganização dessa fome. Um bem querer que é principalmente agorajáimediatamenteporquevocênãorespondeuainda. Que é um me diga, me dê, me ame e faça isso rápido. Eu ainda trabalho nisso e nem sempre com bons resultados – acrescente-se a esta urgência um certo gosto pelo drama, dez minutos sem resposta e eu vou do “morreu” ao “não me ama mais” e volto ao começo, várias vezes. Daí respiro e lembro que o outro é, bom, o outro, né. Com outra vida. Outro ritmo. Outro tempo. Dele: o tempo, o ritmo, a vida. Que ele vai encostar na minha quando der ou puder ou quiser. E o que eu posso fazer é manter o senso. De proporção. Ou de humor.

Eu faço de conta que disfarço 
enquanto anuncio anseios em enormes outdoors na beira da sua estrada.

 

Das coisas que podiam ser verdade

Eu sinto saudades de me ver nos seus olhos porque ali eu era uma alguém que me alegraria ser, como o bebê da psicanálise, ante o espelho, apaixonado pelo eu que é um outro.

Tenho inveja de tudo que os outros vivem embora suspeite – ora, a quem quero enganar? saiba – que não faria estas coisas destes jeitos.

luciana em uma palavra: preguiça.

separando roupas e sapatos e bolsas pra doar, me sentindo muito desprendida daí olho pras estantes lotadas e nada mais tenho a declarar.

Vaidade: alunos entram na minha sala na Universidade e comentam que nunca tinham visto uma sala tão legal.

No congelador: camarões grandes. Duas postas de pescada amarela. Filé de sirigado. Filé de arabaiana. Lulinhas. E álcool nas suas variadas formas geladas que a rosácea tá que tá e eu tô que tô, como cantaria a Simone.

Teve manifestação daquelas pessoas que são adeptas de terra plana, estado misturado com religião, agrotóxico na comida, reforma previdenciária e um sem número de absurdos. A ira não poderia estar melhor representada.

Xêro no cangote é sempre um bom começo.

Sou meio fã dos pecados capitais.

Olha, se você quiser eu também quero.

Status: não faça omeletes com o ovo no fiofó da galinha.

Aqui quase tudo é ficção, menos quando não é. Por exemplo, uma verdade: não há Minas em mim. Lendo a linda revista do Drops da Fal, o deslumbre e a certeza de ser sempre uma estrangeira nisso que tantos consideram o que é mais brasil brasileiro.

Faz uns tempos (me deixa, escrevo como me soa) eu fui convidada a responder um inquérito para os mortos (quanta falta me faz aquele blog). Perdeu-se não só o post com minhas respostas mas o conteúdo todo do blog (quanta falta faz ao mundo aquele blog). Hoje, fuçando emails antigos, achei as minhas respostas. Deixo aqui menos pelo que são e mais pelo que fui.

INQUÉRITO

  1. o que gostaria que se lesse na sua lápide?

Eu já pensei em tudo: da morte ao epitáfio. Negociei (e nem foi em um jogo de xadrez): quero morrer, numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba. Na lápide, posto assim: Sempre foi com muita sede ao pote.

  1. se fosse um aprendiz, quem seria o seu mestre?

Sardanapalo. Sempre mexeu com minha imaginação a inscrição: “Eu, Sardanapalo, filho de Anacindaraxes, construí Anquial em um dia. Comi, bebi, trepei. Todo o resto não vale isto.”

  1. que verbo é melhor sinónimo para amar?

Verbo, não disponho. Mas tenho dois substantivos (sexo e paciência) e uma tirinha…

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  1. qual foi a coisa mais bonita que lhe disseram?

“Do que mais gosto é acordar em você..”. Já se foram estas noites, mas é de linda lembrança ser querida assim. Outra coisa de que gosto é dos apelidos que meu pai me dava, especialmente princesa e bacorinha – daí talvez esta dinâmica esquisita que me guia. Também acharia lindo, mais lindo que tudo, se dissessem: seu filho parece tanto contigo. Mas eis coisa que não acontece.

  1. houve grandes heróis de morte matada na literatura, no cinema. Nas mitologias. Tem de matar um que viva numa dessas categorias. Quem escolhe? Porquê?

Esta pergunta revelou-me uma serial killer, pois vieram muitos à lembrança. Entre todos os gostos, fico com dois. Apetece-me matar Riobaldo e John Wayne (sei que é uma saída duplamente ilícita, pois devia escolher só um e, claro, no lugar de Wayne deveria responder Ethan ou Big Jack ou Doniphon ou Dunson ou T. Chance…mas me é impossível, eles todos se misturam em minha memória afetiva em um único herói: meio amargo, solitário e tentando desesperadamente alguma coisa que lhe escapa). Matava-os, Wayne e Riobaldo, pelo que me deram de beleza, valores, rude doçura. Matava-os pela árida paisagem que lhes molda face e fala e me diz tanto.

  1. morreu. Tem comité de honra à espera. Cinco: Ulisses, D. Quixote, Hamlet.. Quem são os outros dois? Com qual deles fala primeiro? Seja indiscreto! conte-nos um bocadinho do que lhe vai dizer.

(Um PS. completamente fora do lugar: o comitê de honra me espera onde? Dependendo de onde chego – acho – haveria, poderia haver, “diferentes gentes” a me esperar…)

Gosto de ser recebida por Ulisses, tenho a impressão de que ele será sabedor de todos as dicas e atalhos importantes e poderá me oferecer a mais relevante informação: Como funciona tudo por ali. Útil e bom papo, um membro digno de estar no tal comitê. De Hamlet, já não gosto tanto, especialmente se mantiver seu mau humor e perguntas irrespondíveis (além de, claro, haver suspeitas sobre seu odor). D. Quixote eu trato apenas de não desagradar, vai que tudo ali faz parte de seu devaneio?

Se Brás Cubas pudesse estar por perto seria o fino. Isso é, se ele mantiver a pena da galhofa e a tinta da melancolia…suponho que serão acessórios emocionais que me acompanharão no tal momento. E, completando a trupe, um certo Capitão Rodrigo.  Papearia com ele mais do que com todos, encanta-me o ar debochado e boêmio, a tenacidade, a pressa e sofreguidão, a fanfarronice, a generosidade e o pensamento libertário. Perguntaria de Bibiana só pra ter o prazer de ver seus olhos se estreitarem de satisfação e amor, antes da resposta segura.

  1. queremos terminar com simplicidade, por isso, nada de grandes questões. Já sabemos que alguém lhe contou o segredo: o que é a vida? E nós, tem um sentido a nossa existência?  Somos a pequenina parte do sonho em que alguém nos sonha? Não nos esconda nada… do Aleph de Borges aos comboios de descrentes de Whitman, diga-nos tudo o que quiser.

Contaram-me tudo do sentido da existência e eu quase tudo esqueci. Foi Vinícius, em tempos de Natal e havia demasiado uísque (Poema de Natal ). Era algo como: até o último gole (ou me confundo e isso era a regra pra entornar o copo). É assim, quando sinto a vida como uma altercação feroz, penso em Ofélia. Da vida eu não sei nada, a não ser morrê-la todo dia, mas suspeito que Adélia sabe e foi ela que me contou:

Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirando um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.

Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.

Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.

 

Diga 22

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Eu lembro quando o Dr. Fernando mostrou essa imagem e todos as imagens dos ultrassons seguintes e eu menti deslavadamente: tá vendo? tô! e claro que não estava entendendo nadica de onde era nariz, pé, joelho, mas não importava, nunca importou, eu já soube você em mim muito antes de qualquer teste revelar. De lá pra cá foi o tempo do sentir ser mais além, ser amor, admiração, diferença, aprendizado, distância, respeito, ternura. Ser mãe nunca foi um dado, pra mim. Nunca estive pronta. Que bom que você está comigo nessa caminhada, me ensinando a ser sua mãe. Em cada um desses 22 momentos e nas entrelinhas:

  1. Quando o médico estranho disse: “não precisa se preocupar, mãezinha, mas ligue agora pro seu obstetra e vá daqui logo se internar”
  2. O que você sente pela mamãe? amoooorrrr – fazendo biquinho
  3. Disputando corrida no sítio com o vovô.
  4. Vestido de Pequeno Príncipe no aniversário de 1 ano.
  5. Longe de mim nos simbólicos 15 e 18 anos.
  6. Viajando sozinho pra me encontrar além-mar.
  7. Dançando comigo “acho que engoli um roi-roi”
  8. Todo aprumado na festa de conclusão do ensino médio.
  9. De touca no curso do SENAC
  10. Engatinhando igual a uma minhoca
  11. Me fazendo ver um anime/mangá/sei lá o que é mas foi legal.
  12. Acordando de madrugada pra tomar remédio sem um pingo de dificuldade.
  13. Nossos cochilos depois do almoço
  14. Subindo os filhotes da Tia Luana no “abraço”.
  15. Dizendo que queria fazer tatuagem e pintar o cabelo de verde (fez tatuagem, desistiu da cor no cabelo #sábio)
  16. Partindo meu coração com o braço partido.
  17. Sincero ao telefone: “tá com saudade da mamãe?” “não”.
  18. Vegetariano por uma semana
  19. Indo pra show, jogando bola, jogando o jogo com a turma do Tio Lucas
  20. Fazendo massagem no meu pé ou arrancando meus cabelos brancos
  21. Tomando chá e jogando bola na sala de espera da emergência do Hospital da Criança
  22. Dizendo pra Tia Lica: “ah, se eu soubesse eu tinha casado com você”.

Um desejo nesse aniversário:

Que mesmo quando eu não te veja eu te sinta e que mesmo que você não me veja você me sinta. Tipo aquela velinha do Papai Noel.

 

Fé na vida, fé no homem, fé no que virá?

Eu não gostaria de soar nem de me sentir alarmista, derrotista, niilista nem nenhum ista do gênero. Mas eu leio as coisas que escrevo (e, pior, sei as que não chego a escrever) e sei que se a descrição não é exata, não é totalmente inverídica.

Eu gostaria de experimentar o fogo e a vontade de lutar que me constituíram desde a elaboração da Constituição de 88 que eu acompanhava da forma confusa e parcial que uma pessoa de pouco mais de 10 anos apreende e significa a realidade.

Eu gostaria de me sentir inspirada pelos movimentos populares, sua organização e mística, como na década seguinte. Gostaria de me sentir esperançosa e combativa como nos anos que se sucederam quando o governo federal já era “dos meus” mas ainda tinha tanto pra cobrar a fim de garantir avanços além do óbvio.

Sabe aquela canção: na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê? Eu estive mobilizada e atuante em todos estes lugares e fechando avenidas e fazendo caminhada em BR e acampando em reitorias e participando de assembléias de associações comunitárias ou formações nos sindicatos de trabalhadores rurais.

Eu sempre acreditei não em uma transformação mágica mas na caminhada constante. Nunca tive muitas certezas além da convicção de que um mundo melhor era, senão possível, necessário. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. “Você era jovem”, ouvi um dia desses. Não é a pouca capacidade pulmonar do meu corpo na meia idade, no entanto, que me sufoca, mas o ar irrespirável no ambiente.

Sim, eu estarei na greve geral e em todas as manifestações que convocarem. Sim, eu acho que devemos ocupar as ruas e organizar uma resistência. Sim eu apoiarei as decisões que nos tirem de impasses e reconstruam estradas a serem trilhadas. Mas tenho a impressão de que já não verei, na outra metade da vida que talvez eu tenha, sequer voltarmos – como país – para o ponto em que já estivemos. O que se perdeu não retorna com uma vitória eleitoral qualquer.

Eu, por exemplo, nunca vou esquecer o desprezo que eu sinto por pessoas que eu amava e o desdém que tenho por mim mesma por ter vivido estes sentimentos.

Eu acredito que é possível e necessário sair do ciclo de espanto, autocomiseração e horror que repito desde a eleição (no qual, suspeito, não estou sozinha). Reencontrar a fé na vida e nas pessoas para que algo venha. Se alguém suspeitar comos, tamos aê.