Formosa

Eu queria um montão de abraços. Um milhão de amigos. Uma passagem aérea. Um intervalo. Um respiro. Eu queria encontrar as palavras. As pessoas. O rumo. O ritmo. Eu queria acertar as coisas. O passo. O alvo. Eu queria mudar o tempo verbal. Presente. Eu quero. Acho bonito dizer: devastada. Como o rosto da Marguerite Duras. Algumas palavras são sequestradas por autores ou histórias específicos, acho eu. Com as que sobram, faço o que dá. Respondo mensagens inesperadas. Escrevo e-mails formais. Comemoro visitas futuras. Anoto receitas. Parabenizo, cobro, prometo. Enquanto as que pertencem àquela história que eu já não quero contar me engasgam.

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Um dia peculiar. O mundo veio dar um empurrãozinho nas minhas melhores resoluções. O céu estava azul, a água gostosinha, a comida boa, o café amargo e quente, muitas mensagens nas caixinhas.

Não posso tirar selfies, fico todo dia mais encantada comigo mesma. Sei lá, me acho linda.

Perguntou o Chico: e se de repente a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente? Primeiro, a angústia de um vazio, depois há o bolo, amiga, irmã, sol, sal, murmúrio, azul, azul, conchas, pelo, pele. E riso.

Porque eu vim ao mundo a passeio. E há gente por aí, com tempo livre. São as coisinhas miúdas da felicidade. Como uma ligação no fim da manhã. Um livro pelo correio. Ou uma surpresa com violino. É isso, meu segredo: eu adoro violinos. São lindos, não são? A curva sinuosa, o jeito preciso com que se assentam sob o queixo, a exigência de uma postura que lembra o preparar para um abraço… Ah, e ainda tem o som que eles produzem. É mais ou menos assim: tum, tum, tum. Não, não, esse é o som do meu coração batendo um tantinho mais acelerado.

Não digo que italiano é a língua mais bonita que tem, mas é o jeito mais bonito de dizer meu nome, ah, é.

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Izmália e outros sons

Deu um certo alívio o diarinho de segunda. Porque é um pouco espantoso ela sempre me adivinhar. Pois bem, ela ama casamentos, Eu também. Mas ela aprecia tudo nos casamentos e eu curto casamentos porque é um subgrupo de um amor maior: festas. Que ela não gosta tanto. Em comum, ela ama os casamentos por um dos motivos pelos quais eu gosto de festas: pessoas felizes. Não lembro o primeiro casamento que fui. Nem o último. Ou o mais bonito. Sei que o mais interessante certamente é o dos meus pais, minha mãe com um grande chapéu e pequena saia, atraso do noivo e o casal saindo de costas da igreja para o fotógrafo fazer fotos como se eles estivessem entrando porque não deu tempo no começo. Mas desse eu não lembro, só reinventei nas imagens. Lembro da carninha de caranguejo no casamento da Liana, das tranças maravilhosas no meu cabelo no casamento da Luana e que eu e ela quebramos todas as convenções e chocamos a sociedade, no casamento do Lucas, porque usamos vestidos da mesma cor (por total falta de opção na loja de roupas que não acertou fazer o meu vestido e só me avisou em cima da hora). Também eu tive casamento. Um e um plano. Nenhum dos dois acabou tendo uma grande festa, mas no primeiro eu mesma fiz o sermão no lugar do padre (#influente) e o cancelamento do segundo (faltando 16 dias) me rendeu uma bela viagem para a Itália com direito a um pulinho em Paris. Chorar no travesseiro é quentinho, mas passeando no umbigo do mundo é muito mais divertido. O que não é divertido? Perceber que você não tem nada pra me dizer, nem mesmo so long, farewell, auf Wiedersehen, adieu. E a delicadeza dos estranhos esfregando na minha cara que nem mesmo as promessas do auge foram cumpridas. Boba, boba, boba. Coloco a culpa nas estrelas, no isolamento, na Teresa Cristina. Como a piada: a culpa é minha, boto onde eu quiser. Lá no lá dela continua o frio, a luta está sob judice. Aqui nada continua, só se repete. Presa num infeliz dia da marmota. Inclusive no sentido cearense, não apenas a marmota do filme. A dor dela é no ouvido, a minha é no que não foi dito (#desculpem). Adorei o desenhinho animado – eu sou do tempo que fala desenho animado, não animação ou qualquer variação dessas. Um dos meus desenhos animados preferidos é A Pequena Sereia. Eu sei, gente, eu sei. Perder a voz. Eu faço análise, podem ficar tranquilos. Ela disse: live curtinha. Eu falei pelos cotovelos. Ainda bem que tenho sorte e as pessoas tem paciência comigo. A terça-feira começou com o mimo da Camila e eu até pensei algum alento. Bronze do Thiago, ouro da Ana Marcela, o nosso atleta que parece o Hulk do Vingadores Ultimato conseguindo a classificação pra final. Mas veio a tempestade, o dia foi doendo, doendo, doendo, de um jeito caprichado. No ritmo da Izmália: levar um soco, quase não dói; quebrar os dentes, não dói; ter que levantar, quase não dói. Quase.

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Fiz o possível: banho, comida quente e simples, lençol cheiroso.

E chorei, chorei, chorei toda a impossibilidade.

No eu te dedico, uma dedicatória no livro uma história social do morrer, para uma Luciana. Só isso mesmo.

Tem uma música meio breguinha, mas que eu adoro que diz: abre a porta e deixa entrar, essa paz que faz o amor imenso. É mesmo pelas frestas que um amor chega. Às vezes penso que não é a solidão o que nos define como humanos. É sabermos a solidão.

Esse é um blog de família. Provavelmente da Corleone.

Não poder não escrever também é uma coisa que me define, vocês sabem. Querer ser amada não apesar da falha, mas pela falha, é um desses abismos em que me jogo.

Ele segurou minha mão no recital e por todo caminho de volta pra casa (eu chamo de casa todo local que me hospedo, vejam vocês). E eu ficando tão miudinha que podia caber na palma de uma mão. E coube. E me deixei ficar porque às vezes eu canso de não caber em lugar nenhum.

Mais uma dose ou Infinitena #dia475 #dia12

Um dia assustador, o dela. Queria estar perto, segurar a mão, colocar cubos de gelo na jarra deixando a água sempre gelada, contar historinhas bonitinhas, raindrops on roses and whiskers on kittens, bright copper kettles and warm woolen mittens. Por aqui, entendi que todos, todos, todos, todos os dias serão difíceis até o dia em que eu serei a mais fácil de todas. Não é que não seja o bastante. É que é de outra natureza. Eu sei que você gosta de mim. Como não gostar? Mas o que eu quero é um abraço e algum esquecimento. Lavei as roupas, oba, yay, palmas pra mim, mas o resto da casa está uma bagunça. Podia faxinar, mas fiz café e vou mastigar devagar o meu pãozinho com manteiga. President ou Aviação? Ostentação. Passei o dia todo um tantinho sentimental, lendo dedicatórias e ouvindo Mia Martini. Pensei que serviria de armadura. Bobinha. Como foi que tudo foi ficando parecido com você? Tento ver futebol e parece que estão arrancando minha pele. De baixo pra cima. Um dia vou rir disso tudo. Histericamente. Chegam figurinhas do Omar – o senador, não o moço gostoso do bar – pelo zap. Mando pra amiga. Será que ela riu? Fico sabendo do disco novo da Marisa Monte. Queria chamar a amiga na caixinha, mas me sinto oca. Ela vai sair de férias, não precisa do meu peso na bagagem. Tem livro novo na minha estante. E outro. E outro. E nenhuma palavra que me leve de mim.  Vacinas vencidas, pera, não estavam vencidas, governador gay, opa, a governadora era gay primeiro, o jumento de Tróia na cpi, olha, não tem brasil que aguente. Paguei o máximo de boletos no dia primeiro. Só de brincadeira, registrei um novo blog. Talvez aproveite pra guardar lá os melhores conselhos. Por exemplo: Se você tem recordação de coisa bonita que nem o título do Flamengo na Superliga Feminina de 2000/2001, guarde com carinho, um dia pode te salvar até de você mesma. Ou: uma panela maior é sempre melhor que quebrar o macarrão. E ainda: leia as histórias da Fal e tenha um divã de cetim. Dezoito horas e uma dorzinha fina, sei lá, vida.

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eu só queria mesmo um sorvete.
enquanto pangolasse na Villa Borghese. 

Tenho certeza que sempre tem um ponto da minha história que alguém pensa “ah, para, você está inventando”.

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Estou toda pintada de protetor solar passado aleatoriamente. Fiquei bonitinha, sabe? São coisas assim que me lembram que eu vou, sim, sobreviver. A tudo isso. A você.
Vamos lá, Luciana, um brinde.

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Infinitena #dia468 #dia05 #dia307nocalendáriokalúnico*

Eu não sei mesmo. Eu tento, mas perco o passo. Ou me distraio. E as pessoas vão e vão cada vez mais próximos e íntimos, como deve ser. E eu lamento, mas não faço diferente. Pra minha sorte, sempre tem alguém que vai, mas fica. Que entra no caminho da floresta comigo. Mãos dadas, colos trocados. Consolo. É pra elas que um dia aprenderei a fazer o bolo gelado de pêssego da minha mãe. Até lá eu também compro, amiga. E mando beijo pra minha mãe e pra sua. Sabe, tenho esse segredo pra te contar: quando vi o maravilhoso filme argentino, Cidadão Ilustre e ouvi aquela frase, a de que pra escrever é necessário lápis, papel e vaidade, eu pensei que não escrevia. Achei que me faltava a vaidade. Até ontem à noite. Um e outra e outra pessoa encontrando diversão, inteligência, beleza e técnica nos meus textos me fez revirar os olhinhos. Escuta essa frase aqui. E eu escutava também e pensava: uia. E uau. No intervalo de duas garrafas, a impressão de que é possível alguém realmente ler o que está escrito. No tempo do tudo ruim, uns dias de tudo um pouco melhor. Com isso. E a mochila pronta do lado da cama. E todas as mimosas por beber. E a lista: cebola, pimentão colorido, pimenta de cheiro, tomate, leite de coco. Respirar mais fundo. E rir com o moço que diz do início ao sim. E eu aviso que vou roubar a frase. E ele arremata: aí é fim ou não.  Eu tenho sorte. Chegam pessoas tão gostosas na minha vida. Começaram a chegar, também, os pacotes. Didion e Woody, fiquem à vontade. E canetas que deslizam como bailarinas. Boa razão para escrever mais cartas. O resto tudo, amiga, vai ter que esperar até depois de depois de depois de amanhã.

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[além das frases – ótimas – roubei também a foto que ele fez #EuAliBaba. Mas diga aí se eu não tinha razão em dizer esperta, bonita, inteligente, divertida, sobre a(s) pessoa(s).]

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Encontrei esse status antigo e ri, pois é ainda mais verdade em mim: do que mais gosto é do que não serve pra nada. A gente diz, com riso no olho: “não vale uma cibalena vencida”. Gosto do que existe sem propósito. Ou ainda, do que vivemos sem propósito além do próprio desfrute do que é. Não é para. Para emagrecer, para aprender, para ficar saudável, para empoderar, para seduzir, para ficar em forma, para conquistar, para manter, para acabar. Vive-se e (a coisa) é. Ou está. E estamos. O que já é o bonito e o bom.

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Lá vem Olimpíadas e lá vou eu, com ela. Estou no aquecimento e vejo as várias matérias e programas nos canais de esporte. Encontro Bernardinho dizendo, antes de uma das finais olímpicas, emocionado com o desempenho do time no jogo que tinha acabado de vencer: o que importa é mais que a medalha, é o progresso do jogador. Ele se tornar aquilo que ele podia se tornar (podem não ser essas as palavras exatas, mas é quase, quase, não fosse minha péssima memória). E é assim o que sinto por você. Mais, pela nossa história. Não tenho expectativas, saiba, a não ser essa: que a gente se permita e que ela venha a ser o que pode vir a ser. Porque tão, tão bonita – eu sei. Eu sinto.

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31 de agosto, o dia da bacalhau. Do milho do papai. Do tanto. Inventar conversa pra não parar de falar. E ouvir. Áudios pra que te quero. Te quero.

Samarcanda Particular

Estava o cavaleiro, na praça, à toa na vida, vendo a banda passar. Ao longe avista a morte, que lhe acena, enfática. Aterrorizado, corre ao rei e implora pelo mais veloz cavalo, decidido a fugir, ligeiro, ao ponto mais distante do reino: se me deixar ir, senhor rei, ainda esta noite estou em Samarcanda (adoro a sonoridade desse nome). O rei, generoso, concede. O mesmo rei, curioso, manda chamar a morte. Os dois, rei e morte, cada um com sua xícara de chá, conversam, e o rei pergunta à morte porque assustou o cavaleiro. A morte, delicada, responde, algo surpresa: assustei? Não buscava lhe impingir medo, apenas espantei-me de vê-lo aqui, quando temos encontro marcado esta noite em Samarcanda. 

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Se há alguma moral nessa história, desconheço. Ela me faz rir, aquele riso que vem em discreta interrogação. Mais desconforto que alegria. Tudo me dá coceira no juízo: a precipitação do cavaleiro, o poder do rei que pode pedir satisfação à morte, a falsa inexorabilidade do destino. E, especialmente, a compreensão que a morte precisa da cumplicidade dos vivos. Que é no só depois que tudo passa a ter sentido. O gesto surpreso da morte torna-se uma incitação. Uma vez escrevi: vais me magoar. Eu sabia, mas esqueci. Passou o tempo e nada aconteceu. Fui feliz. Tornei-me desatenta. Ou, ainda, eu não pude evitar. O que? Ser eu. Dizia o Nelson (como bem destacou a Renata Lins, assim como Poirot e Mis Marple, bênção, Agatha), o assassino interessa bem pouco, é a vítima que conta. É nela que se esconde o segredo de sua própria morte. É isso: sou egoísta demais pra achar que esse amor não deveria ser assim, exatamente como ele é. Tanto te amo que me deixo morrer um pouco em tuas mãos. Mas até isso é um egoísmo, quero a intimidade das tuas mãos ao redor do meu pescoço, tirando meu fôlego naquele abraço último. 

Ou seja, fui mais feliz do que mereço e por mais tempo do que esperei. Saber disso não faz doer menos o oco que trago dos amanhãs. Reconhecer que não faria nada diferente não se fará risadas compartilhadas, segredos trocados, cúmplices escritas e aprendizados. Entender que eu não poderia ser senão eu mesma não me trará conforto. Saber que você não pode ser senão você mesmo não me fará companhia. Eu sabia que me machucarias. Eu sabia, ainda e antes, que isso seria por um erro meu. Te amar foi a viagem que empreendi, impulsiva. Já vejo a plaquinha: bem vinda à Samarcanda. 

“devemos lembrar que os esquecemos”

Hoje (na verdade, ontem, é que ainda não dormi) foi pesado demais. O número de mortes, o sofrimento com rosto e nome, o adoecimento e a morte de pessoas que já fizeram parte da nossa vida de ouvir voz, sentir pele. Difícil demais. Nem a votação no STF conseguiu me tirar da areia movediça da angústia e tristeza.

A casa precisando de faxina. A alma também.

devemos lembrar que os esquecemos” – é isso mesmo, Sally. Harry & Sally é meu filme de tantas formas. Menos no subtítulo péssimo. Tudo que Harry e Sally não são é pré-fabricados um pro outro, tudo que eles não são é um encaixe fácil, uma atração física avassaladora, uma irmandade de almas afastados temporariamente por situações confusas ou pessoas mal intencionadas. Eles não são feitos um para o outro, eles desenvolvem um vínculo, constroem um afeto, se abrem pra relação, se conhecem, se desvendam, se estranham, se permitem e, neste processo, descobrem-se importando-se em estar (e não ser) um para o outro, um com o outro.

Things I Love About “When Harry Met Sally…”

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Tentei ver a Liga da Justiça porque minha experiência me diz filme de herói é fácil de ver. Mas não quando é tão ruim assim. Além dos inúmeros problemas de cor, de roteiro, de fotografia, ainda tem um péssimo vilão. O que Thanos tinha de interessante e complexo esse tem de falta de carisma e ausência de mote. E eu nem me lembro mais porque ou como o Superman morreu. 

Qual é o melhor momento de Friends e porque é Ross presenteando Phoebe com a bicicleta? – eu não dependo só da gentileza de estranhos, eu dependo da gentileza de todo mundo.

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Sim, seu moço, eu sei que podíamos ter sido felizes. Mas não acho triste pensar nisso. Acho bonito saber que tantas vidas que não vivi seriam boas como esta costumava ser (agora ela tá em stand by, né, não serve pra comparação)

Arrastar os dias feitos correntes. Toda minha solidariedade aos fantasmas de desenho animado.

Membros Fantasmas

Uma verdade: um dia a gente paga a língua (a gente sou eu, claro, e um dia é hoje).

Você troca livros, queria trocar carícias.

Ele só quer te usar. Ah, quem dera. Meu tempo, meu corpo, meu afeto, minha capacidade de cuidar, de entreter, minha alegria. Me usa.

Pode ser só birra, claro. Teimosia. Ego. Orgulho. Falta do que fazer. Eu chamo de amor – e ele responde.

Eu não preciso que você me ame. Que me namore. Que faça planos. Que viva comigo. Eu só quero que você me queira, tal qual Os Mutantes. E que deixe eu gostar de você.

Um dia e mais outro e outro. Aquela sensação de que o mundo acabou e, lá fora, só destroços do tipo filme distópico. Você fazendo compras por aplicativo. Máscaras penduradas em todos os compartimentos da casa, sempre à mão. Obras por terminar. Profissionais de saúde, exaustos. Acaba oxigênio em algumas cidades. Supermercados desabastecidos. Mil mortos por dia. O horror. Aí você vê fotografias. Filmagens. Assiste, sem querer, uma parte de um jornal. Festas, bailes, shows. Bares, jantares, reuniões. Escolas abertas. Salões de beleza. Shoppings. Pessoas circulando. Pessoas que você conhece fazendo “só um churrasquinho” com todas as medidas de segurança. Aquelas, de abril de 2020. E que no frigir dos ovos – ou no assar da carne – se resumem a lavar as mãos, talvez com álcool, porque quem vai comer e beber de máscara?

Cada dia mais e mais só.

Mas ainda recebo teu branco e preto e sinto calor. Ainda escuto as canções. Ainda rio com os trocadilhos. E danço, nua, pensando em você. Danço, né. Claro.

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Grey’s Anatomy é das melhores coisas que já vivi (nem digo vi, porque mexe comigo de uma forma ativa). Quando começou – e por muitos anos – a personagem que dá nome ao programa não me entusiasmava. O resto dos personagens é que construíram a teia e me aninharam nela. O que eu não sabia é que esse trabalho todo era pra deixar vir uma enorme Meredith – aranha prontinha para devorar meu coração. Por uns 12 anos eu questionava seu protagonismo, sem perceber a narrativa que se estruturava, para além da história evidente e que, hoje, me faz não só amá-la, mas entendê-la e, tantas vezes, entender-me.

Ser humano é ser um só (no sentido da unicidade, mas também da solidão que nos estrutura). E a série nos conduz junto à espiral da solidão de Meredith. Sua pessoa âncora: Cristina. Seu amor porto: Derek. Um a um. Vindo. Indo. Como a estação cantada por Milton: encontros e despedidas. Ou uma estação de trem, a perfeita metáfora do meu coração: chegadas e partidas.

Uma vez e outra, passar pela decisão: seguir vivendo apesar de. Apesar da água gelada que amortece a dor de viver. Apesar de ter o risco de ver explodir o coração como uma bomba. Apesar do inesperado da vida, acidente que leva onde não se pode cuidar de tudo e de todos. Com uma beleza que me encanta, episódio após episódio, a contradição: é nas perdas e nos vazios que as presenças e os laços se originam, se evidenciam, se consolidam. Perda após perda, sem porto e sem âncora, Meredith navega com bóias, faróis e sinaleiros.

Meredith vai descobrindo que poder ficar só não implica em querer ficar só, sempre. Nem, principalmente, ter que ficar só. Acho que é uma forma muito delicada de trabalhar o amadurecimento. Crescer não é não precisar de mais ninguém. É, também, acho, saber dar e receber esse cuidado. E, algumas vezes, precisar e ele não chegar. Muito se faz rima entre vidas que se tocam. A gente perdoa o outro. Ou se perdoa. Ou. E. Como Alex, ele que perdoou o pai que não deu o que ele precisava e perdoou a mãe por fazer tanto pra dar o que ele precisava e mesmo assim não pôde dar. Porque ninguém nunca pode, acho. Ele mesmo não pôde, e partiu.

Ser a gente mesmo, como disse o terapeuta da Meredith, pode ser bem assustador. E ainda mais assustador é reconhecer que nossos pedacinhos, o que nos forma e nos define, as partes de nossa “anatomia”, não são apenas o que está ou se acrescenta na vida, mas também as subtrações, as faltas, as perdas. Nossos membros fantasmas. E nunca poder coçá-los.

Sueli ou as paixonites nossas de cada dia

Paixonite é uma coisa séria, tinha escrito um negócio imenso, com cara de blog, cheiro de blog, jeito de blog, mas não aguentei o enlevo da newscoisa e mandei por lá mesmo (mas deixei salvo no rascunho daqui, porque a terra é redonda, capota e sei lá quanto tempo dura essa brasa).

Uma verdade intolerável: Não importa se os finais são felizes, mas se são bem roteirizados.

A próxima semana será louca. As próximas, talvez. Eu me sinto fazendo vários nadas e mesmo assim não estou cabendo nem nas horas do dia e me meti a lecionar disciplina com 60hs em 6 semanas. Como diria no Ceará: queeeeima, quengaral.

Diz o Darín que depois da pandemia vai procurar sua namorada brasileira e eu já estou mudando meu nome para Sueli.

Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam. Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as pessoas. No ônibus circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, espiando pessoas entrarem e saírem do ônibus nos variados bairros da cidade, seus sorrisos e ansiedades e pesos carregados e pares e afetos e cansaços. Ou as horas passadas nos bancos das praças, a escolha das profissões, o turismo errante. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo viver sem roteiro. Ou sem trilha sonora. Baixinho, escuto o vento assoviando uma melodia do Morricone. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo, ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo outro café e olho, olho, olho. Quanto mais vejo gente, mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados, tensos, animados, atrasados, doloridos, trotando no peito. Ser gente é um aprendizado. Que me inquieta. Não sei mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem um repentino sentido. Viver é esse desfile de vidas das quais quase tudo ignoramos, na rua os transeuntes apenas surgem e desaparecem mais rápido. No dia a dia, alguns já estavam quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós, o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Mais um cigarro, outro café ou um licor? Lembro o que esqueci: o salto alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento, impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. Uma taça de vinho e a conta. Há de se estar sempre pronta pra partir. Na notinha que o garçom, figurante elegante, traz: café, café café, nem conto quantos. Deixo o dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Devia saber qual meu melhor ângulo, mas de que adiantaria, também não sei onde bate a luz. Respiro e lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando, ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de quem pareço intuir alguma coisa, mas é breve e logo volta a seer mistério, uma mulher de ar confuso, olhos tristes, roupas desalinhadas. E sapatilha vermelha. Vitrine.

Ontem aquele homem asqueroso arrancou as cruzes da areia na manifestação silenciosa do Rio de Paz. Hoje um grupo invadiu hospital, chutou portas nas alas de pacientes com Covid e derrubou computadores. Eu não tenho mais condição de lidar com este Brasil.

Eu pensava que nunca tinha te dito um eu te amo. Acho que não disse mesmo, mas escrevi. Encontrei entre cartas antigas (posso chamar email velho assim?) e me espantei de ter sido essa coragem.

Instagram é um perigo para meu coração bandoleiro: dois, três dias seguindo alguém desconhecido e eu já me sinto íntima, mandando coraçãozinho.

Tenho tirado mais selfies. Nem sempre ficam boas. Ontem tirei, sem querer, fotos das minhas pernas. Ficaram ótimas.

A gente vai aprendendo a morrer. A gente, como você, sou eu, sempre. Onde diz sempre, quero dizer, quando for aqui. Confuso, não é? Ando me sentindo assim. Você também? (neste caso, excepcionalmente, você não sou eu, tese do Nerson da Capitinga). Mas, dizia eu, vou aprendendo a morrer, que é uma outra forma de dizer seguir em frente. Ou apenas seguir, sem muito senso de direção.

Ontem foram mimosas e caponata e patê de salaminho e eu quase truquei o Tom Jobim e acreditei que era possível ser feliz sozinha (e é, tipo morar só, viver só, ser uma só – que é o que todos somos. Mas também é preciso o faz de conta dos encontros, as ilusões de encaixe, o sorriso bobo quando você disse que a gente se entendia).

De tudo que foi na newscoisa, mantenho duas verdades aqui:

É muito gentil da sua parte me emprestar roupa e deixar entrar no salão iluminado, mas meu corpo é grande demais, minha voz é falha demais, eu vim de nenhum lugar, não tenho horizonte, não trago ouro nem incenso nem mirra e acabo esbarrando na mesa, derrubando alguma coisa, derramando o vinho na roupa, cruzando a perna e revelando o furo na sola do sapato, não adianta o disfarce nem os enfeites, meu pé não é do tamanho do seu.

Quem só vem por aqui e quer saber da newscoisa: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto

Trazido do Borboletas, de maio de 2016
Identidade: vejo futebol domingo meio dia.
 
Eu sei que sou uma pessoa legal. Mas não veio com algum tipo de esforço ou mérito. Mas uma coisa eu conquistei: a falta de vergonha de dizer. Eu digo. Digo mesmo. Digo a raiva. A dor. Digo a inveja. Digo o afeto. O encanto. O amor. Digo eu te amo. Digo muito. Digo sem vergonha. Dizer é uma conquista minha.
 
 
 Foi quase sem querer. O jogo de futebol às onze mudando todo o ritmo do domingo, a tarde preguiçosa se estendendo meio inútil às minha frente: um filme. Uma zapeada e encontrar Binoche. Eu vejo qualquer filme em que ela esteja. Selo de garantia. E ainda tinha o nome: Palavras e Imagens. E o mote: uma disputa entre uma professora de pintura (Dina) e um professor da língua (Marcus).
 
Nem é um filme novo. Tem essa vantagem em ser distraída como sou: de repente, uma aventura. Poderia ser apenas mais uma comédia romântica com momentos de melodrama. E quase é. Se. Se não tivesse a Binoche. E personagens fora do padrão. O mocinho, alcóolatra. A mocinha, artrite reumatóide. O drama: perder o emprego, os vínculos com o filho, a saúde. Uns momentos previsíveis. Ouros bonitos. E boas palavras. Bem usadas.
 
Um filme esquecível. Se não tivesse a Binoche. E se seu personagem não tivesse que reinventar o seu ofício, reinventando-se, a partir da mudança funcional do seu corpo. Eu pintava o mundo que podia ver. Agora vejo o mundo que posso pintar. Ou algo assim (saudades de ver os filmes em cassete e voltar aos diálogos pra transcrever direitinho).
 
O filme nos joga em perguntas: o que traduz melhor os sentimentos, o mundo, a vida, palavras ou imagens? Em quais delas podemos confiar? O que nos ampara e norteia? O que nos faz avançar? O que nos humaniza? E a dúvida que não está no filme, a não ser como resposta, mas que sustento como questão: há uma resposta única?
 
No próprio filme disputam imagens e palavras. Por um momento a gente se deixa convencer pela imagem: Binoche, um casaco vermelho, um lenço azul escuro. No momento seguinte, o diálogo mais tocante. Perto do fim do filme, o momento da disputa oficial, imagens X palavras e o moço, claro, usa as palavras para dizer que não importa se poema ou pintura, importa onde nos levam, nos elevam, etc. Mas eu, se fosse roteirista, teria terminado a fala dele assim: diante desses artistas, Shakespeare ou Dina, só nos resta a gratidão. E obrigado, claro, é uma palavra (é que eu não esqueço a marquesa: “traição não é sua palavra preferida? – não, crueldade. É mais imponente”).
 
Mas antes de me perder, quero dizer da imensa beleza das imagens-movimento de Juliete em sua casa-oficina-estúdio. Li por aí que as telas que aparecem no filme são mesmo dela. Quanto talento cabe em um corpo? Mas nem era essa a beleza. Do corpo. Mas a da limitação do corpo. A beleza dos exercícios. Dos pincéis enormes, para assim poderem ser manuseados. Da cadeira com rodinhas para facilitar o deslocamento. A beleza da vulnerabilidade conjugada com a força.
 
  
O filme corre pro inevitável romance entre os personagens centrais. É quando eles estão se preparando pro rala e rola que ela diz: “você tem que ter cuidado, com o meu corpo” e ele responde: “você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto.”
 
É uma crença ingênua, a do personagem Marcus. Uma crença que partilho, quase sempre. A de que as palavras serão o suficiente. Basta isso: a coragem do enunciado. Abre-te sésamo e estaremos diante dos tesouros. É só me dizer o que dói, onde e quanto e não nos machucaremos. Faça um esforço, respire mais fundo e tenha coragem de dizer: não me machuque. E, ainda assim. Eu não vou te machucar, a gente promete e acredita para, no momento seguinte, cair em cima da tela recem pintada.
 
Pessoas fazem merda. Pessoas legais. Pessoas gentis. Pessoas boas. Fazemos merda. Mesmo que tenham nos dito, com esforço: o que doía, onde e quanto. Dizer é indispensável, mas não é garantia. A gente esquece. Eu esqueço. Eu esqueci. Que as palavras não bastam. Não é o suficiente saber o que dói e quanto dói. As palavras não serão o suficiente porque nada, nunca, será o bastante. Somos humanos e há, no que não está dito, a vulnerabilidade que nos estrutura.
 
Às vezes nos dizem o que dói. Onde. Quanto. E mesmo assim. 
 
O que resta saber: “desculpe” também é uma palavra.
 
Eventualmente, inútil. Mas nunca dispensável.

Teresa, unhas vermelhas e toda a dor todo dia

Você só quer me comer. Acho pertinente. E fico. Podia ser tão melhor, depois. Mas você nem cruza a vista. Queria explicar que sou a Teresa naquele momentinho que Tomás a vê dançando com o colega. Eu me ajusto. Não tinha de ser você. Mas é. Era. Foi. Você podia aproveitar mais.

Fiz uma lista no spotify e depois reparei que nunca fiquei tão nua.

Vocês também tiram o sutiã pra respirar melhor?

Um grito até que teus ouvidos não soubessem ouvir outra voz que não a minha.

O engraçado de fotos antigas é re-conhecer que fui uma mulher de unhas vermelhas.

Nelson Rodrigues diz que “depois de matar, o criminoso se torna secundário, ou nulo, e repito: some como se jamais tivesse existido”. Parece-me, a princípio, que assim é com o escritor. Ele não importa, o que importa é a sua escrita. Ou, antes, o que importa é o que está escrito. É o texto que é, não o autor. Digo, reluto, e retorno. Flaubert me vem: Madame Bovary sou eu. O escritor é o criminoso rodrigueano, mas é também a vítima. Ele está no dito mesmo que não se confunda com ele. Quem se equilibra na ponta da pena e faz, dela, lâmina, pra escrever o último bilhete. Se possível, unhas vermelho sangue.

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Tem coisas que pararam de me magoar e eu faço apenas um juízo estético mesmo. Aquele “que deselegante” encontrou seu lugar em mim.

Status: murchando.

era uma vez uma esperança. era.

ganhei a serenata. se eu não fosse quem sou, ficaria mais feliz?

não é que eu quisesse comer cheesecake. eu queria era sentar no apertadinho do “Melhor Bolo de Chocolate do Mundo” depois de bater perna em Campo de Ourique.

Me mandaram me cuidar, comer e tal. Obedeci. Uma vezinha só no dia, mas ganho estrelinha pela intenção, acho. Eu tenho um certo receio de comer/fazer as comidinhas que gosto. Por um lado eu sinto que me confortam, me acompanham, me sustentam. Mas tenho medo de num dia que será – se vierem a ser – elas saberem sempre a solidão, angústia e perda.

De tantas coisas que sinto nessa quarentena, o que não sinto é tédio.

Não tivemos, não temos e não teremos ações que possibilitem à maior parte da população ficar em casa. Não tivemos, não temos e não teremos ações significativas de proteção, cuidado e amparo aos profissionais dos serviços essenciais. Não tivemos, não temos e não teremos um governo federal que coloque o Estado à disposição para cuidar, proteger, zelar pela população. Resta ficar apelando para a sensibilidade individual dos poucos que podem, podem inclusive ficar em casa. E isso faz tudo doer ainda mais. Mais de 1.000 mortos em um dia. E todo mundo falando em reabertura. É angustiante. Lá fora Polícia Federal, operações com mortes no Rio de Janeiro, o policial branco matando um jovem negro nos EUA. Que ainda seja a vida de sempre é espantoso. Mas me expresso mal: a morte de sempre. A indiferença de sempre à morte de quem “não importa”.