Que jogo é esse

Estava ouvindo a live no Fiftinah sobre Literatura e envelhecimento (vão lá ouvir também) e em algum momento a Tina fala que uma das dificuldades de envelhecer é uma certa dificuldade de se reconhecer. De olhar no espelho e não ver a si mesma na imagem que olha de volta. E fez uma luz em mim. Eu não tenho recordações visuais de mim mesma (e também não tenho boa memória sobre vocês, gravo os traços básicos, mas realmente me escapa se cortou cabelo, engordou, emagreceu, cabelo tá branco, ruivo, tem ruga, não tem, pé de galinha, colocou aparelho, etc. Eu identifico o essencial). É isso, não lembro como eu fui ou sou. No máximo lembro da minha imagem em algumas fotos antigas, mas nem isso é significativo porque são lucianas diferentes dependendo do ângulo, roupa, etc. Não tenho uma imagem pra perder e, assim, não tenho uma imagem pra reconstruir no processo de envelhecer. O que o espelho me oferece não é um reconhecimento, mas uma descoberta. Tem suas vantagens, garanto. Algumas dores e preocupações me escapam totalmente. Mas também cobra um preço. Tanta leveza, tá lá no Kundera, torna-nos menos que reais, tão livres quanto insignificantes.

Sorte no jogo, azar no amor. O jogo:

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Tem dia que não é dia. Ontem não era o do Nory. Antes das provas eu já senti. No solo, ele tava indo bem e eu avisei pra amiga: não vai rolar. Ele caiu de bunda logo depois. Tem dia que não é dia, O leite ferve e derrama, a gente queima o alho, bate o dedão do pé no pé da mesa, vê o ônibus dobrando a esquina quando chega na parada, deixa cair o celular no chão e trinca a tela e, mesmo que fique quietinha em casa, só esperando passar o dia, ainda é capaz de receber má notícia pelo telefone. Tem dia que não é dia, o corpo não corresponde, a mente vagueia, a alma fraqueja. Se fosse no dia anterior, quem sabe. Se fosse amanhã, talvez. Mas naquele dia, não dá, não vai, não anda. A gente cai de bunda no chão. O que o amor faz é enfileirar esses dias numa sucessão de desilusões olímpicas. Um calendário próprio só com dia que não é dia.

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Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore, 
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto. Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha…

(Adélia Prado)

Eu também queria, Adélia. E também tentei. Coisas que não dou a qualquer pessoa. A quem eu quero enganar? que nunca tinha dado a ninguém. Uma caixinha de pedacinhos de mim. Um envelope com instruções. Um livro, outro, uma imagem através de furinhos. A gente repete e repete o dar o que não se tem e esquece do a alguém que não o quer, não pediu, e, às vezes Lacan, nem faz conta.

Um jogo. Cheguei com a partida em andamento, ninguém me passou as regras e a sensação é de que estou perdendo de lavada.

Todo dia me beliscar para saber se sou capaz de sentir outra coisa além desse desejo.

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Teve mais coisa nas Olimpíadas: o jogão de futebol feminino, Brasil e Holanda, empate de seis gols. Marta, digna e analítica no pós-jogo, é quase tão bom vê-la dando entrevista quanto é gostoso vê-la jogar. Teve zebra no vôlei masculino (quem não curte torcer para um azarão?), o Irã derrotou a Polônia em um jogo tão intenso que o quinto set teve o placar de 23 a 21. Todo o talento – e beleza – de Marouf na quadra. Teve ginástica masculina e pegamos algumas finais, mas não a de equipe, que pena. Teve vôlei de quadra, eliminação precoce da campeã mundial Nathalie, de manhãzinha teve provas classificatórias de natação, teve, teve, teve, mas, talvez, o resultado mais importante do dia tenha sido a vitória de Richard Carapaz em Fuji, primeiro campeão olímpico da América Latina no ciclismo de estrada.

Uma das vantagens de morar sozinha e cozinhar apenas para mim mesma é poder arriscar, sem medo de deixar outra pessoa com fome, testar combinações, tentar matar a curiosidade. Então, eu via no programas de tv, camarão e bacon. Sempre pensei que devia dar certo mesmo, afinal, como diz o Joey, “camarão, bom”, “bacon, bom”. Procurei uma receita, fiz quase tudo diferente e voilá. Dizia: tempere o camarão com sal e pimenta. Fiquei com o pé atrás, afinal bacon é salgado, né? Descasquei, limpei, deixei o rabinho e temperei só com pimenta e alho em pasta. Enrolei no bacon (mas minhas habilidades manuais são sofríveis). Fechei com palitos. Uma coisa que eu faria diferente: colocaria um palito tb dentro do camarão, assim, quando ele fritasse, não enrolaria e ficaria mais bonitinho. Outra desobediência: dizia para fritar por imersão, em óleo. Achei desnecessário, peguei frigideira e azeite mesmo. Com medo de apostar todas as fichas em um número só, tratei o resto do camarão como sempre, sem bacon. Ficaram gostosinhos. Eu queria um molhinho, mas não queria rosé, daí fui nesse pesto.

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Infinitena, ano 2. 
497 madrugadas
1 CPI
548 mil mortos
1 ano sem a Carla
Margarida na varanda
Papeis de carta
Rosés
4 noites de competições olímpicas
361o dia no calendário kalúnico e contando.
24 fotos
Incontáveis crises de choro
Uma caneca, um imperador, uma cirurgia, uma interrupção.
Um convite engasgado.

É hoje, gente:

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Vinte por vinte ou Mate-me agora, amor

Infinitena, ano 2. 
489 madrugadas
2
tentativa com flores
1 sonho de avião, 1 sonho de bunker, 1 sonho com oculista de cabelo macio, 1 sonho com consultório
Sopros, já pedi a conta. Um susto. Outro. Uma canção. Dois apelidos. Uma cadeira. Coentro e cachaça.
Vinhos. Máscaras e outros mimos. Correios. Até tu, Brutus. Hopkins e personagens de quadrinhos.
344o dia no calendário kalúnico e contando.
Todo dia eu penso: agora vai. Toda madrugada eu fico.

 

“Você é um pouco Natal” – é por coisas assim que eu não consigo ir embora.

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“Vem ver, vem ver, é 20 por 20”. Não lembro quase nada de nada, especialmente da infância, mas lembro do monte de oftalmologista aglomerado ao meu redor, extasiados com a minha visão perfeita**, embora cada olho insistisse na sua livre mirada. Não durou muito a perfeição na minha vida (e na de quem se estende? entre a visão impecável e homens extasiados, acho que fiquei com a melhor parte) e poucos anos depois estava eu com grossas lentes. Disse ela que às vezes, sem reparar, entra de óculos no banho e se sente perturbada porque embaçam e pensamentos nada felizes ocupam o juízo. Espero um dia, depois de vacinas e tal, visitá-la para confidenciar que sempre vi o mundo meio borrado. Mesmo nos anos incríveis pós-cirurgia da miopia e pré bifocais ou o que quer que seja que uso agora. Trago a miopia no sentir, talvez. A casa dela é de sopa e chás e pão de queijo no jantar. Jantei angústias, ontem, temperadinhas com sal das lágrimas e o amargo da impossibilidade. Eu sei, eu sei, uma sucessão de figuras piegas. Vamos colocar na conta da infinitena e não na minha reconhecida falta de noção. Outro exemplo dela (neste caso, não ela, ela, mas ela, a falta de noção): presentes. Não sou boa nisso. Nunca lembro das datas corretas, por exemplo. E, às vezes, mesmo conhecendo apenas superficialmente alguém, tenho vontade de enviar-lhe algo, só mesmo por que. Pois é. Tem um trocadilho prontinho pra ser escrito em uma frase sobre amigos, psicanalistas e dar. Mas não vou. Vão os pacotinhos e quem quiser se incomodar, que se incomode. Também voltei a escrever cartas. Serei resistência à privatização dos correios de uma forma um tanto quixotesca. Não comprei Chagall, comprei pano de chão e desinfetante na amazon. Provavelmente não escaparei da revolução, mesmo estando na mesma trincheira, quando encontrarem meus extratos do cartão de crédito. Na editoria aquele grande amor, as fotos não são roubadas (que boa ideia, amiga), mas a pasta existe. Com nome inventado e tudo. O rosto magro, a barba, a blusa azul, a mecha branca, nenhuma lente pra disfarçar a tristeza bem assentada. Ela sonha reformas incríveis, eu sonhava viagens, horizontes e infinito, agora a rota é única: quatro paredes, a moldura de uma cama e um relógio que tique-taqueie bem devagar. Se houver serviço de quarto: caipirinha, que é uma espécie de limonada para pessoas que vão dizer adeus e sentem os órgãos internos se desmanchando. Tem dias assim, todas as metáforas de bom gosto se ausentam para participar de alguma convenção elegante em um salão privado de hotel, com pequenos canapés, grandes drinques e crachás escritos com caneta pilot. Ficam no trabalho só as comparações de sobrenomes polissilábicos: esdrúxulas, excêntricas, espampanantes (sim, a gente tem que gastar este tipo de palavra enquanto nos é permitido). Tem outros dias em que você lê: te quero muito bem, e você pensa em contentes e fica querendo acreditar que o quero e bem são como você quer e tanto. Não dura, claro, você sabe (você sou sempre, sempre, sempre eu) que é uma frase pescada, dita como quem faz um carinho despreocupado e meio desligado atrás da orelha do gato. Voltei para o tumblr e é tentador nunca mais usar palavras e me perder em ofélias, cigarros, filmes antigos e piadas melancólicas. O notebook foi formatado e eu me sinto um tanto perdida, como se parte de mim tivesse sido apagada. Tento reencontrar os arquivos no HD externo, mas eles me parecem esquivos, arredios e um bocado hostis. Contei o sonho. O sonho que sonhei com você. Contei pra você, que nem ouviu. Sempre me pergunto porque lhe entrego tanto poder sobre mim. Porque afio a faca, encosto no peito e coloco o cabo na sua mão? Aí, ontem, na análise, eu citei: “a gente destrói aquilo que mais ama, em campo aberto ou numa emboscada(…), os covardes destroem com um beijo, os valentes destroem com a espada” e como uma coisa puxa a outra também falei da Clitemnestra no conto da Yourcenar, que ao se deparar com sua imagem no espelho, envelhecida e supostamente indesejável, escreveu ela mesma uma carta anônima ao marido que voltava da guerra com seus espólios, informando de sua traição com um sobrinho, esperando que ele – Agamenon – a matasse de uma forma íntima. Talvez estrangulada como um último abraço. Ou, digo, eu, com uma lâmina afiada penetrando o peito até terminar de separar as bandas do coração partido. Por todos os deuses, eu sou tão óbvia, nem precisa de visão vinte por vinte pra ver. 

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Te dei meu coração***, você me deu sua senha do streaming.

(as emoções exageradas que uma tarde em um quarto não resolveriam, não é mesmo, senhoras e senhores?)

Era véspera e eu sozinha. Não que eu me importasse muito com a data, mas sempre gostei da sobreposição de vozes e risos. Não esperava e você chegou. Com suas muitas taças de vinho, sua culpa, seu desejo encarcerado. Palavras suas, não minhas. Hoje, espiando o álbum de retratos, vejo que entendi tudo errado. Ouvi: adeus e suspeito que você dizia: me abrace. Com medo de que você não tivesse pra oferecer o que eu queria pedir, não dei o que você esperava receber. Eu tinha esquecido que tínhamos uma música.  Como eu não vi seu sol caindo no meu mar?

 

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C’est Magnifique – Melody Gardot, António Zambujo

** Por favor, detalhistas e oculistas de plantão, eu – hoje – já sei que 20/20 não significa perfeição mas uma suposta normalidade… mas não ficaria tão legal no texto, né?

*** e era um coração em bom estado, pouco uso, nenhuma avaria mais severa.

Minotauro

Ela diz Pablo e, se ela diz, escuto. Diz também Marlboro, Free e eu penso em cowboys e amizades desfeitas e no coração do Piauí e beijos em moços altos, alguém apelidado de Paraíso, outro lembrando um dos Irmãos Coragem – o que joga futebol – e piadas com batom e biógrafos e cartas escritas em conjunto e a sensação quase irrepetível de encontro e encaixe. Alguém ainda fuma Carlton? Alguém ainda chora espantos? Eu nem mesmo posso alegar inocência. Errei duas vezes. Duas vezes. Nas maiores apostas. A banca sempre ganha. A vida sempre puxa o tapete. Eu devia saber. Mas eu não sabia. Eu não sei. Por aqui, nenhum telefonema sombrio. Na verdade, nenhum telefonema porque a TIM me odeia. O corretor do celular me odeia. O aparelhinho que pesca canais de satélite pra mim não para de engasgar. Quando acontecer a revolta dos equipamentos eletrônicos, não terei escapatória, serei caçada como um cão na rua (que expressão cruel). Nenhum telefonema sombrio, mas a nuvem cinza de desenho animado acompanha nossas poucas mensagens. Escuto um áudio que mandei e descubro que falo como escrevo, enchendo a história de intervalos. Vários travessões. Uma vez brinquei que ia escrever um texto sem pontuações na minha newsletter e enviar, junto com ele, um saquinho cheio de pontos e vírgulas para os leitores usarem como lhes aprouvesse. Preciso incluir travessões na sacola. Sinto-me um caracol. Comi caracóis em Portugal. Ela falou na escada caracol. O que isso representa? Nada, além da minha facilidade de associar livre escrevendo aqui e travando nos fins de tarde de quarta. Sempre que vejo escadas em caracol penso em voltas pra casa com álcool ou tristezas no corpo. Muito peso e desequilíbrio pra arrastar escada acima, cada vez mais enjoada. Eu sou desligada e desastrada e esquecida e bem tonta, mas com um GPS pragmático muito equilibrado. Por isso escolhi o moço de grandes olhos verdes no shopping. Eu só vou gostar de quem gosta de mim funcionava quando eu tinha 15 anos, funcionava aos 30, funcionava bem nos 45. Acho que a infinitena descalibrou a bússola. Sinto saudades do Henrique e da Glauce e da Nane e da Varela e de tanta gente que amo e não sei amar. Penso em mandar mensagens assim: desculpe, não tenho te tratado direito, vou melhorar. Não mando porque suspeito que não vou. Não sou muito boa em promessas que envolvem um sempre. Fui espiar cantinhos antigos e o Tumblr tinha censurado um dos meus blogs por “conteúdo adulto”. Um tumblr que tinha apenas fotos de mãos dadas. Eu não sei o que eles consideram coisa de adulto: afeto? Mandei um qualé e recuperei tudo. Não sem uma certa tristeza pelo moralismo comendo de esmola. Flamengo e Itália venceram, mas não como quem quer me agradar. A sombra do Ceni ainda vai atrapalhar por um tempo, na Gávea, até o time redescobrir um jogo coletivo além do esforço individual. Tenho uma planilha para acompanhar minhas finanças. Ando mantendo a planilha conscienciosamente em dia. Palmas. As contas, nem tanto. Pelo menos não vou poder alegar que eu não sabia, olha aí todas as mensagens de perigo. É muito, muito feio, mas às vezes eu volto ali, na caixinha, só pra espiar seu rosto e ficar passeando pelo labirinto que você construiu conversa após conversa e me largou lá dentro sem fio, sem Ariadne, sem esperança, sem companhia. Sem nem Minotauro.

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Você não imagina – não tem nem tempo pra isso, aliás – como tem sido assustador te amar e, ainda mais, amanhã. Ou melhor, hoje, que o relógio já avançou além das batidas da Cinderela faz um bom tempo. Hospitais e fantasmas, que combinação. Um pé, outro pé e o abismo ao lado. Não te contei ainda, mas tem um despenhadeiro no filme que vi hoje. Aquele, o filme em que a mulher apaga o cigarro no tampo da escrivaninha.

Sim, eu me pergunto se saberei existir quando for o tempo não só da sua ausência, mas da ausência desse amor. Às vezes eu me conforto recordando que já fui uma eu sem você. Às vezes resgato imagens como essa do cavalo (percebe, ivair, a fragmentação do cavalo) e me divirto que poderei ser qualquer eu, basta juntar os pedacinhos:

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Contei agorinha e tenho: esse blog, uma newsletter, de um a seis tumblrs voltando à ativa, um diário e um blog novo (Para embrulhar peixe) com a babi eu te amo pra caraleo lopes. Eu, poço em fundo.

Gravei áudio lendo Adélia, como achei que ia me safar? ou Infinitena #dia484 #dia15nocalendáriokalúnico

Tenho de escrever email pra amiga, tenho de escrever email pra amiga, tenho de escrever email pra amiga. Não escrevi email para a amiga. Porque não consigo mentir pra ela, mas não quero que ela veja o que eu não quero ver e, muito menos, mostrar. Poderia usar aquelas palavras com as quais o Verissimo brinca e que ela, a outra amiga, a do diarinho, recordou: lorota, fornida, falácia, bandalheira, betume, cabriolé. Para não dizer: solidão, vontade, medo, desamparo, vergonha. Amor ou qualquer coisa tão triste quanto.  Visito minha irmã e rio tanto que choro. Não é o único pranto da noite. Atenção para a receita: cozinhe batatas em rodelas até ficar al dente. Na travessa, azeite, as batatas, tempera, mais azeite, forno quente. Tudo que começa com azeite e batata chega com a certeza de conforto. Corta a cebola branca em meia lua, fininha, fininha. Cebola, eu disse? Cebolas. Não seja sovina nesse momento. Uma frigideira e azeite. Mais um pouquinho de azeite, confia. Refoga até a cozinha rescender a afeto e a cebola murchar.  Uma pitadinha de sal. Eu gosto de ir temperando cada item. Alguma independência há de ser preservada. O salmão já foi temperado com um suquinho de laranja, pimenta moída e sal – aqui, mantenha a mão leve e a pitada miudinha. Sim, abuso dos diminutivos. As batatas estão encaminhadas? Despeja aquele refogado de cebola, coloca o salmão com a pele pra cima e volta pro forno até o peixe ficar no ponto. Seguimos com mais dicas: chorar no chuveiro, não mandar mensagens quando tem taças de vinho envolvidas, beber mais água que café, colocar uma pitadinha de sal na massa do bolo, aprender a dizer “bom dia”, “obrigada”, “desculpe”, “com licença”, “por favor” e “uma cerveja” na língua do país que você for visitar, andar nua sempre que possível. A mãe dela cantava Superbacana e ela curtia um bairro enganando as pessoas. Quando eu era pequena meu pai cantava Fracasso e Prece ao Vento. Talvez isso ajude a explicar os olhos tristes. Cantava também Marina – e eu chorava. Meu time trocou de técnico. Sai Ceni – chico contente. Entra Renato Gaúcho – chico descrente. Talvez seja hora de aceitar que o Flamengo de Jorge Jesus e as conversas de setembro foram deleite fora da curva. Anoto e perco todas as sugestões de livros, séries, filmes. A falta de jeito de algumas pessoas ainda me espanta. Hoje é dia de pizza e lembro do garçom italiano indignado com meu acompanhante que permitiu que eu, a partir de um certo momento, comesse só o recheio. Em minha defesa, a pizza individual era enorme. Saudades, sotaque italiano. E tudo o mais. Inclusive Coliseu sem filas. Que comecem os jogos. Pode ser que entre pessoas correndo, saltando, nadando, jogando peteca, o tudo que não é incomode menos. Que chorar pelas conquistas e derrotas e sonhos frustrados e realizados esgote água e sal de chorar esse vazio. O google acadêmico manda mensagem dizendo que é hora de atualizar meus artigos. Eu leio: meus abrigos.

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O problema é que a gente se apega a um tipo de equívoco. A gente sou eu, sempre, claro.

Pois é, vai sabendo, eu tenho um coração inquieto. Ele te procura, acho. Ou se procura, mas isso não é muito diferente. Se não estiveres em mim, não estarás em lugar algum que eu possa te saber.

Leia o que eu gosto e, se der, goste junto, porque gostando do mesmo, mesmo de jeitos diferentes, é um engodo bom pro viver tão só. É isso, vida, eu não posso reclamar de ninguém, escolhi o punhal.

Eu li pra você a poesia do peixe. Do peixe! Eu li Adélia. Eu li pra você. Eu afiei o punhal.

Teve o tempo do deboche: é régua, balança ou voltímetro que se usa pra saber desses negócio de maior amor? Agora é o tempo da expiação.

Estou vendo um monte de gente fina, elegante, sincera, marcando barzinho, encontrinho, reuniãozinha, biritinha. Tudo gente anti-bozo e contra tudo isso que tá aí, etc. Marcam tudo no diminutivo, talvez pra diminuir o impacto. Mas já se sentem confortáveis o bastante pra fazer isso em público. Sei lá, talvez eu esteja amargurada demais. Talvez eu tenha me apaixonado pelo exílio da alegria. Talvez minha dor de cotovelo me impeça de ver as brechas. Mas todo dia eu leio que se o número de mortes e internações tem diminuído (obrigada, vacina), o número de casos tem aumentado. Eu fico pensando se as pessoas esquecem ou simplesmente não dão a mínima pro fato de que a) muita gente tomou só a primeira dose, b) alguns grupos nem começaram a ser vacinados ainda. Então pra estas pessoas, a soma de muita gente circulando mais a nova cepa que é mais agressiva, torna tudo mais perigoso. Penso, volto a ficar em dúvida, estou exagerando? Será inveja?

Você não está vendo Loki. Claro que não. Sua vida é muito séria pra isso. Você nunca vai saber que eu sonhei um cobertor verde pra nós dois.

Eu tinha todos os avisos. Eu vi as placas. Li os anúncios. Recebi os memorandos. Tinha o histórico, curriculum vitae, tudo em três vias. Até as informações por debaixo do pano confirmavam. E eu caí direitinho. Quando o abismo olha de volta, a vertigem é certa.

Constrangida demais porque estou me sentindo muito a Rachel, bêbada, telefonando para deixar mensagem que superou. Superou sim. Confia. Tá superado demais.

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Já vi Friends. Claro. Alguns episódios, muitas vezes. Foi uma série que acompanhei, inicialmente, ao acaso. Se eu estava vendo tv e passava, eu via. Às vezes via episódios de temporadas avançadas antes dos mais antigos, etc. Sempre tive um carinho enorme pela série e pelos personagens. Depois minha irmã ganhou os dvds todos e vi tudinho, em ordem. Depois do depois, estava em Portugal, às vezes me sentia péssima e aí achei uns dvds piratas de duas ou três temporadas e nunca mais os dias foram insuportáveis. Assim, quando teve o reunion, eu vi. E me chamou a atenção como eles pareciam ter se divertido juntos, na época que faziam a série. Como parecia que eles tinham se divertido fazendo a série. Então, agora que assinei o HBO, resolvi rever. Sem pressa, quando dá. Vi a primeira temporada e me saltou aos olhos o que eu nunca tinha reparado antes: eles segurando o riso. Achando graça um do outro. Achando graça um no outro. Tem essas duas coisas que realmente aprecio: gente gostando de outras gentes e gente achando graça em algo. Lembro o quanto gostei de 11 homens e um segredo. Não conseguia saber nem se o filme era bom ou ruim. Eu apenas me divertia com o tanto que eles estavam curtindo fazer aquele filme. Clooney, Brad, Matt e a patota inteira. Farra é o meu esporte.

Um intervalo pra delicadeza e, sim, Graúna, Loki e alguns personagens não nomeados ocupando quadros na parede da memória

Se não fossem os tempos que são, eu até usaria a palavra feliz. Uma conversa tão gostosa com ela, sobre risos e jornais compartilhados e jazz e moda e aprender o mundo aprendendo a ser amada. Ela que tem as frases exatas. O resultado é que na próxima semana vou rever todo Woody Allen que der. Tudo bem que esqueci de comer, mas agorinha preparei um espaguete bem honesto passado no azeite com cebola, tomate, alho e manjericão. Aí fiz aquelas tirinhas de bacon bem crocantes, esfarelei e joguei no prato porque tudo que é bom fica melhor com bacon. Pros amanhãs, pretendo espinafre e queijo. Quem sabe uma lasanha. Durante o dia escrevi coisas boas para pessoas queridas e comprei variados blocos de papéis de carta acreditando que vamos todos querer saber uns dos outros por tempo o bastante para usar folha por folha. Nem me irritei quando recebi a mordidinha de cobra. É sem veneno, mas o dente é afiado. Podia doer, não doeu. Talvez porque também teve Truffaut, Antoine Doine e o filme que é de tanta gente, mas que quando é meu, é só e tão meu. Uma daquelas coisas que não são nossas, thanks dog. Opa, god. Ou quem quer que cuide do roteiro. O que escrevo, são quase verdades quase mentiras e nem eu nem elas sabemos onde está a fronteira. Ou se há. Claro que segui ainda marcando o caminho para você, mas agora já não me preocupo tanto se com pão ou pedra. Contos de fadas para adultos. Lavei o cabelo – inclusive meu xodó: o fiozinho branco bem na frente – com o shampoo de canela, depois joguei o spray de café, talvez eu cheire a cappuccino, agora. Troquei os lençóis por aqueles macios e, embora insistentemente vazia, a cama se tornou mais convidativa. Chegou o diarinho e, como ela me adivinha, hoje teve doçuras. Roupa de papelão e dinossauros. Não qualquer dinossauro. Um desenho de dinossauro. Pensei no Pequeno Príncipe e não lembrei de você. Lembrei dele. Que traz chaves e pontes. Novo mundo. Navegamos. Um pouquinho de cada vez. Rumo ao desconhecido do/no outro. Devagar, no tempo das coisas. Baixamos carta por carta. Deslindar. Descobrir. Desnudar. Ao acaso. Passeios com cachorro, plantas no papel, velas, Troia e até um pouco de fé. No radinho, Marisa Monte e Asgeir. E a delicadeza, principalmente a delicadeza. Ele não me adivinha, mas se interessa em desvendar. Não sinto a fome, mas também não sinto o desespero. Alguma curiosidade. Ternura. Conjugar os verbos no presente. Mergulho. Como entrar no mar e reencontrar o equilíbrio do corpo. Não é seguir com as ondas, não é ficar rígida, é um me deixar mover, sentir que dentro e fora é apenas um jeito de organizar o espaço, antes e depois é somente a forma de nomear o tempo. É ver o mar e mais, sentir seu cheiro, o sal que arde nos pequenos cortes, entender o que é necessário entender, esquecer o que é necessário esquecer, acolher o que é necessário acolher, deixar ir o que já não deve ficar. O mar é o único lar que faz sentido pra mim. E, quem sabe, algum abraço. 

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Pela primeira vez, desde 1o de abril de 2020, o Amazonas passou 24hs sem registrar nenhuma morte por covid. Parece uma coisa tão pequenina. Mas me emocionou muito. Olha lá uma esperança, diria a Graúna.

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A Graúna é, talvez, minha personagem preferida no universo do Henfil. Gosto do trio do Nordeste, claro, e suas interações,, mas ela sintetiza muitos elementos que me comovem, divertem, inspiram. Tive, por um tempão, um blog (ainda mais) confessional chamado (espia a criatividade): Eu sou a Graúna. Um tanto pelas críticas à ditadura, censura, família nuclear, machismo e desigualdade social, além das características de humor, resistência e sobrevivência, tão próprias de quem tem as penas curtidas do sol do sertão. Mas, suspeito, principalmente pela forma irônica, livre e prazerosa de lidar com seu gênero (livre, eu sustento, apesar de algumas predileções ambíguas no relacionamento). Valente. E, sim, estou tecendo auto elogios. Modéstia, não trabalhamos.

O povo ainda chama mulher de galinha?

Momento reminiscências. Tem esse moço lá de longe (em tantos sentidos) que me interessou e eu joguei: pode ser ou tá difícil. E ele: tá difícil (depois nem tava tanto, depois tava, mas enfim, sigamos). Se tá difícil, tá difícil, vida que segue. Moço, porteira, tudo com muito afeto, mas biscoito, né, gente. Só que além daquele querer, eu gostava dele. De querer o bem, sabe. E de querer fazer esse bem acontecer. Mas tinha um pé atrás ali que nunca ficou explícito, mas nunca senti que passou. Eu podia dizer: sossega, sossega. Mas me faltou energia. Ou interesse. Quase sempre esqueço disso, esqueço dele, mas quando lembro, tipo agora, me dá uma dó do tão amigos que podíamos ter sido. 

Lembrei dele porque ontem papeando com a Fal (delícia), saí da conversa com uma meia memória. De um outro moço, de um rosto, de um cheiro. Não lembro o nome e nem a circunstância. Lembro o toque, o beijo, a gentileza, a segurança. Lembro a maciez da barba, lembro demais. Lembro que ele parecia com alguém de quem, até hoje, lembro bem. Não faço ideia de quem era nem de porque terminei/terminamos. Deve ter sido em uma viagem, será? Mas naquela coisa da memória da pele, lembro a felicidade. Alguém que esqueço quase sempre, como o rapaz do parágrafo anterior, mas a meia lembrança só me faz sorrir. 

E ele (ainda o que tava difícil) me fez pensar em outro sorriso. Nesse caso, nem precisava perguntar se podia ser ou tava difícil, tava fácil, tudo fácil, ele, eu, a situação. Principalmente a situação. Acho que nos envolvemos mais com a ideia de sermos juntos que um com o outro, mas mesmo assim foi divertido. Até começar a ficar difícil. O tempo, o espaço, ele pra mim, eu pra ele. E abandonarmos a ideia fez com que gostássemos mais um do outro. Muito mais. Anos e anos e é tão bom chamar: amigo.

Aquele trajeto, ora alegre, ora dolorido, do ” eu te desejo, amor” para o “eu te desejo amor”.

O amor é imprevisto. Parece que o Loki se apaixonar causa um problemão na linha do tempo. Me abraça, amigo.

Pão de queijo recheado de goiabada talvez seja algum tipo de heresia, mas tão gostosinho.

Estou bem atenta pra não me tornar uma espécie de Pete Fedido. Por não se sentir amado, por nunca brincar ou sorrir, por jamais ter estabelecido vínculos, ele acha que ficar na caixinha, sendo admirado, é melhor que ir pro mundo e correr qualquer risco. Tenho medo, afinal são muitos, muitos dias misturando-se nesta infinitena, na caixinha das telas (e olha que sou chegada a uma interação virtual, mas, né, depois vinha o avião), recebendo – senão amor, riso e festa – aplauso e admiração distante. Tenho medo de sentir que é o bastante e esquecer como sou boa nisso de viver.  

 

Silêncio que se vai cantar o fado ou Infinitena #dia477 mas publicado dia478 porque ninguém se importa mesmo

Hoje é um dia de silêncios. O óbvio. O da torcida de basquete. Maior, o da torcida do Flamengo. O silêncio da noite. O silêncio dos inocentes. O silêncio no quarto. O silêncio dos bons. O silêncio entre duas fileiras antes de batalha. O silêncio das estrelas. O silêncio em todas as caixinhas**. Silêncio que se vai cantar o fado. Tem coisas que calam tão fundo, seja lá o que essa frase signifique. O mar parece nunca silenciar. Mas eu nunca estive na Depressão Challenger, talvez lá. Uma coisa engraçada é isso de saber (ou não) que se é valiosa. Eu sei o meu valor. Uma pérola perfeita. Porém, ah, porém, dá uma batucadinha pra disfarçar, nem todo mundo tem fôlego ou equipamento para mergulhar e encontrar a concha. Isso sem mencionar eventuais águas turbulentas.

Uma coisa boa a infinitena me tirou: o interesse por comida. Não tenho necessariamente comido mais ou menos, mas tenho comido com menos prazer. E, algumas vezes, bem mal. Ainda assim, passei o dia inteiro vendo temporada antiga de Top Chef. Ou talvez por isso mesmo.

Uma coisa ruim a infinitena me trouxe: inveja. Porque em vidas que eu não queria ter tido existem prazeres que serão recuperados antes do que recuperarei os que davam sentido à vida que eu curtia tanto levar. Não é que eu quisesse essas coisas, nem antes nem agora, mas invejo o breve que parece existir. No meu daqui pra frente ainda serão muitos os silêncios. E a solidão.

Ontem ela falou de solidão. Eu sempre penso no Alfredo. E dele salto pra Vinícius, nos dias bons; e pra Sílvia, nos nem tanto. Oi, Sílvia. Ganhei livros da S. Plath de uma pessoa querida. É estranho como tem afeto que é comida de elfo, daquelas do senhor dos anéis. Um pedacinho alimenta por um tempão, cura feridos e enfermos e dá um gás pra seguir insistindo nisso de viver. Lembas embrulhadinhas pra viagem. E a gente sem poder sair do lugar. Lá no lá dela, um monstro querido que não sabe desenhar. Eu, no meu aqui, tenho pequenos monstrinhos de dentes afiados que roem os pés da esperança, bagunçam o armário dos sonhos, trocam o conteúdo dos vidrinhos dos temperos da vida: medo, alegria, bom senso, angústia e por aí vai. Claro, fazem tudo isso num insistente e maroto silêncio, eles não facilitam mesmo. Vai acabando o domingo. Sim, pedi pizza. Não, não me fez bem. Não pedir também não faria. Decifra-me e te devoro, ri a angústia com os monstrinhos na coleira.

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**Eu tenho pessoas maravilhosas na vida, o que eu não tenho mais é cara de pau. Apesar de querer tanto falar com, não vou chamar, depois de silenciar pra gente querida por tanto tempo

Mais uma dose ou Infinitena #dia475 #dia12

Um dia assustador, o dela. Queria estar perto, segurar a mão, colocar cubos de gelo na jarra deixando a água sempre gelada, contar historinhas bonitinhas, raindrops on roses and whiskers on kittens, bright copper kettles and warm woolen mittens. Por aqui, entendi que todos, todos, todos, todos os dias serão difíceis até o dia em que eu serei a mais fácil de todas. Não é que não seja o bastante. É que é de outra natureza. Eu sei que você gosta de mim. Como não gostar? Mas o que eu quero é um abraço e algum esquecimento. Lavei as roupas, oba, yay, palmas pra mim, mas o resto da casa está uma bagunça. Podia faxinar, mas fiz café e vou mastigar devagar o meu pãozinho com manteiga. President ou Aviação? Ostentação. Passei o dia todo um tantinho sentimental, lendo dedicatórias e ouvindo Mia Martini. Pensei que serviria de armadura. Bobinha. Como foi que tudo foi ficando parecido com você? Tento ver futebol e parece que estão arrancando minha pele. De baixo pra cima. Um dia vou rir disso tudo. Histericamente. Chegam figurinhas do Omar – o senador, não o moço gostoso do bar – pelo zap. Mando pra amiga. Será que ela riu? Fico sabendo do disco novo da Marisa Monte. Queria chamar a amiga na caixinha, mas me sinto oca. Ela vai sair de férias, não precisa do meu peso na bagagem. Tem livro novo na minha estante. E outro. E outro. E nenhuma palavra que me leve de mim.  Vacinas vencidas, pera, não estavam vencidas, governador gay, opa, a governadora era gay primeiro, o jumento de Tróia na cpi, olha, não tem brasil que aguente. Paguei o máximo de boletos no dia primeiro. Só de brincadeira, registrei um novo blog. Talvez aproveite pra guardar lá os melhores conselhos. Por exemplo: Se você tem recordação de coisa bonita que nem o título do Flamengo na Superliga Feminina de 2000/2001, guarde com carinho, um dia pode te salvar até de você mesma. Ou: uma panela maior é sempre melhor que quebrar o macarrão. E ainda: leia as histórias da Fal e tenha um divã de cetim. Dezoito horas e uma dorzinha fina, sei lá, vida.

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eu só queria mesmo um sorvete.
enquanto pangolasse na Villa Borghese. 

Tenho certeza que sempre tem um ponto da minha história que alguém pensa “ah, para, você está inventando”.

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Estou toda pintada de protetor solar passado aleatoriamente. Fiquei bonitinha, sabe? São coisas assim que me lembram que eu vou, sim, sobreviver. A tudo isso. A você.
Vamos lá, Luciana, um brinde.

ava

Invasões reealmente bárbaras ou Infinitena #dia30nocalendáriokalúnico #dia474 #dia11

Pra começar: máquina e pia consertadas. Amanhã, em horário nobre, o grande festival de roupa lavada. A coisa mais linda é o amigo estrangeiro se comunicando comigo: querida, recebei sua mensagem. Os tempos são difíceis, mas é tão bom saber que há quem nos faz sempre, sempre, sempre bem. Nunca, nunca vou esquecer como fui e sou mais perto de quem quero ser ali no seu olho, na sua palavra, no seu abraço. Tem amizade que é construção, mas tem relacionamento que é dádiva, né. Estrela perene. Na editoria grande paixão, mandei imagens do meu coração por zap. Se alguém tem medo de se sentir ridícula, calma, você sempre pode se comparar comigo e sair ganhando. Ela disse que tudo na vida é tentativa e erro. Estou me saindo muito bem. Tentando viver sem você. Tentando. Tentando. Tentando. Mas claro que minha vida não é só isso. Comprei uns croissants congelados que ficam uma belezinha na airfryer. Os livros do Junito de Souza Brandão continuam tão interessantes quanto eu lembrava que eram. A rosa do deserto está exuberante. Recebi correspondência e fiquei tão, tão contente. O único furo é que quero te contar tudo isso e mais alguma coisa. Em de-ta-lhes. De qualquer forma, amiga mandou figurinha com dicas de economia e eu ri horas: se o Paulo Guedes soubesse quantos banhos eu tomo em um dia, mandaria me prender. Eu não guardo os panos de pratos bordados que eventualmente ganho. Fiquei pensando o quanto isso depõe contra minha pessoa. Eu coloco os panos de prato na baia, eu uso a louça da minha avó pra servir café da manhã, eu coloco minha camisola nova e o sapato vermelho pra vadiar sozinha em casa. Eu bebo o melhor vinho sem razão. Eu nunca serei digna, então desisti de tentar (e como tudo na vida é treino, eu li, eu acreditei, nunca sairei deste impasse). Como seu eu fosse o pano e você fosse a linha, canta o Gil e eu repeti no meu divã. Vou precisar rever Invasões Bárbaras. Meu analista fica cutucando, cutucando, cutucando. Ele não sabe que, neste agora, não é que eu não quero saber. É que eu não posso saber. Termino cada sessão como se tivesse sido atropelada por uma Scania, mas se estou sentindo essa dor no corpo, é que ainda tenho um pra sentir. Atrás de você uma almofada vermelha. Revisito minha vida em vermelho: desejo, vinho, a voz de Callas, raiva, ópera, Clitemnestra, Ferrari, receber correspondência, passagem aérea, andar de pés descalços, Riobaldo e Diadorim, coragem, O Beijo de Rodin, dançar sozinha, cinema italiano, gritar, jazz, Fedra, gargalhar, lençóis de seda, os olhos depois daquela dor, O Repouso do Guerreiro, prorrogação no futebol, Caravaggio, andar de mãos dadas, Ne me quitte pas, morangos e cerejas, cavalgar, a luva de Gilda, silêncio, prender a respiração em baixo d’água, literatura russa, “Madame Bovary sou eu“, conhecer novas gentes, um corte no dedo, Bambi, Marguerite Gautier, canetas, meu biquíni, Mia Martini, sentar em amuradas pra ouvir o mar quando ele ruge, tomatinho assado, acordar no peito do alguém, Capitu, Rastros de Ódio, a morte de Macabéa, aquele samba, as palavras de Nelson Rodrigues, desespero, Capitão Acab, poesia erótica. Queria pintar as unhas de vermelho de novo.

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Ilustração de Samuel de Gois

Eu corri em direção ao despenhadeiro pensando que tinha asas. O amor começa em uma metáfora. E se mantém no apelido. Confiante, desafiei os dois. E me estrepei. Sei hoje. Naquele agora, sorri. Um apelido que é uma convocação, o que eu estava pensando? Afiei adagas, muito antes dos roteiristas de Loki anunciarem o perigo. Em minha defesa, estava acostumada ao movimento: entra, desarma, sai. Tudo limpo, sem perdas ou algum dano mais permanente. Bastava os aviões estarem funcionando, um boteco, um quarto de hotel. Entra, desarma, sai. Fui treinada. Entra. Especialista. Desarma. Sobrevivente. Sai. Não sabia que você era labirinto. Futebol, cantiga e, pior que nudes, áudios. Trinta dias e eu já estava perdida. Não é só o sono, Kundera. Também o riso, na madrugada, é corpo de delito.

Pão e Poesia para uma rainha delicada ou Infinitena #dia471 #dia08 #dia226nocalendáriokalúnico*

Eu cato conchinha. O que você acha, tenho cara de quem cata conchinha?, sempre tenho vontade de perguntar isso pra quem está me conhecendo. É um dos meus aspectos centrais, será? Desde nem sei quando, vou à praia, volto com conchinhas. Menina, mãos cheias. Hoje, tento me controlar, uma ou duas por dia à beira-mar. Nem sempre respeito os limites. A culpa é delas, das conchinhas. Que me chamam e me atraem e me envolvem e quando nem vejo, estamos em casa, eu e um monte delas. Já matutei o porquê deste chamego com as conchinhas. Talvez, em um primeiro momento, eu tentasse reter o enlevo que sentia com o mar. Conchinhas, essas representantes do imenso. Em um primeiro momento? Risos. Talvez eu insista em fazer de conta que é possível um recordar material do que é bom e certo e alegre em mim. Talvez alguma coisa que me habita demande belezas. Ou é meu jeito esquisito de viver a fase anal, né, Freud. Eu trago conchinhas, mas não coleciono. Não classifico, não estudo, não marco data nem lugar de origem. Eu apenas as tenho. Uma rainha delicada, como definiu Clarice. Se gosto muito, mas muito mesmo, de alguém, dou uma das minhas conchinhas. Nem todo mundo entende, poucos desvendam: é uma chave pro meu mundo. Tenho notado que tenho uma certa inclinação para conchinhas de cor lilás ou rajadas de preto. É uma predileção, mas não determinante. Por um tempo eu alimentei um desejo: contratar alguém para fazer tecidos com estampas das cores impressas nas minhas conchinhas (e depois, claro, fazer minhas roupas com estes panos). Como será o nome deste profissional? Designer de tecidos? Delírio passageiro, não tenho e não terei dinheiro pra essas coisas. Sabe, tenho um búzio, também. Grande, rebuscado, ainda entrega o eco da melodia das ondas que o desenharam. Gosto dele. Gosto sim. Mas são as conchinhas, sua forma previsível, suas cores misturadas, que me comovem e cativam. Cato conchinhas. E me encolho nelas, quando arde o sal na pele fina.

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Não gosto desse passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente”. Nem vontade, seu Rosa, nem vontade.

Se eu soubesse de toda lágrima, todo medo, todo anseio, todo impossível, mas também todo o riso, toda surpresa, todo encontro, todo conforto, toda beleza, tanta alegria, será que eu tinha mandado a sequência de números e o vai que?

Você não sabe, mas o aceno não era pra você. Ou era, mas eu – que acenava – não sabia. Mesmo nome, mesma cidade, mesma live, outra pessoa. O amor é sempre um equívoco?

Esse/aquele dia: a foto impressa no vazio do meu peito. Você se tornou, em mim, o desejo de te fazer sorrir.

Coque samurai e a cor de um delicado pôr-do-sol no peito. Cansaço, cansaço e alguma tristeza. A gente nunca sabe o que vai partir a alma em banda. Nunca? agora eu sei. Alguma tristeza, cansaço, cansaço, a cor certa e um coque samurai. Você nunca sorri inteiro, eu disse. Agora, suspeito que nem eu.

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Passei um nada de dias fora, mas serviu de confirmação: minhas plantas curtem um pouco de solidão. Cheguei e está tudo florindo e vicejando. Isso da porta pra fora. Da porta pra dentro, minha casa está tão bagunçada que não estou com preguiça de arrumá-la, estou com medo. O pequeno núcleo familiar foi à praia. Uma praia deserta, chico feliz. Mas que demanda preparo físico pois escadinha pra subir e descer, caminhada pra escapar da parte das pedras e areia fofa pelo percurso, chico ainda feliz, mas um tanto cansado. Comemos em casa, bebemos em casa, lembrei o riso em casa e fora. De volta, estou um pouco chateada de não ter um hidratante e um namorado. O morno por debaixo da pele, talvez eu passe uns dias me alimentando de picolés. Balanço, pois chegou o diarinho dela, com a sabedoria em frases curtas: ovo é sempre uma boa opção. Ela pensa se seria possível viajar em janeiro. Eu queria dezembro. As duas suspeitamos que a cobertura da vacina ainda não será suficiente. Suspiro por poder reclamar de um aeroporto confuso, pessoas ficando na fila do embarque desnecessariamente, café caro, mas no meio de tudo, eu curtindo os sotaques. Por agora, mando link pra álbum privado fingindo que é pra você ver fotos de paisagem e torcendo pra que se demore nas selfies. Na editoria conto muito mais do que o razoável, fiz tanta espuma lavando o cabelo que poderia encher uma banheira de filme. Aí ela junta lavar o cabelo e feliz. Ela me adivinha demais. Tomei banho ouvindo “Pão e Poesia” em looping. Pra você: “qualquer lugar que se ilumina”. Pra mim: “quando a gente quer amar”. Tenho vontade de te procurar só pra dizer que a letra dessa música é do Fausto Nilo. E acrescentar: ele é cearense. Como quem diz: cearenses são legais, são sabidos, são delícia. Sou cearense. Não procuro, não escrevo, seguro o tchan. Sossega, menina. O moço da portaria tinha uma pilha de pacotes à espera: envelope com postal, livro do Marcelo Lins (jornalista famoso por muitos e bons motivos, mas – pra mim – especialmente por ser o irmão da Renata), coleçãozinha de mitologia grega e alguns abacaxis. Na caixinha, outra notícia de notícia boa. Coração deu duplo twist carpado. Estou muito no clima esportes. Do lado de fora do meu riso, gente escolhendo vacina. E a desgraceira toda do desgoverno. Nas lembranças do Facebook, em uma conversa deliciosa de 2017, o Paulo diz que me falta compromisso com o ódio. Faltava, né. Daí vi o vídeo da ovação feita à criadora da vacina de Oxford, na abertura do torneio de Wimbledon e bateu aquela saudade do mundo que eu imagino possível. E lembrei que sim, gosto de gente, segura essa marimba, luciana.

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Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Se a vida fosse trabalhar nessa oficina
fazer menino ou menina, edifício e maracá
virtude e vício, liberdade e precipício
fazer pão, fazer comício, fazer gol e namorar

Se a vida fosse o meu desejo
dar um beijo em teu sorriso, sem cansaço
e o portão do paraíso é teu abraço
quando a fábrica apitar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Numa paisagem entre o pão e a poesia
entre o quero e o não queria
entre a terra e o luar
não é na guerra, nem saudade nem futuro
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar

E a faculdade de sonhar é uma poesia
que principia quando eu paro de pensar
pensar na luta desigual, na força bruta, meu amor
que te maltrata entre o almoço e o jantar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

O lindo espaço entre a fruta e o caroço
quando explode é um alvoroço
que distrai o teu olhar
é a natureza onde eu pareço metade
da tua mesma vontade
escondida em outro olhar

E como o doce não esconde a tamarinda
essa beleza só finda
quando a outra começar
vai ser bem feito nosso amor daquele jeito
nesse dia é feriado não precisa trabalhar

Pra não dizer que eu não falei da fantasia
que acaricia o pensamento popular
o amor que fica entre a fala e a tua boca
nem a palavra mais louca, consegue significar: felicidade

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Infinitena #dia470 #dia07 #diaZeronocalendáriokalúnico*

Eu já disse que não tenho expectativas sobre esse relacionamento. E era verdade. Agora é mentira. Sabe, é como em Loki, uma coisinha de nada abre uma nova linha temporal onde tudo pode vir a ser diferente. Foi assim: a biografia do Woody Allen. Que a Renata Lins indicou. E eu que nunca esperei nada, nadinha, agora tenho essa imagem – melhor dizendo, essas – me acompanhando, zombando do meu coração blasé, das certezas e da minha fala tranquilizadora. Assim: uma rede, quatro pés de um lado, um encaixe, cabeças do outro, um livro lido com ritmo e as paradas para rir e comentar, tudo tão sincronizado como se já tivesse sido sempre, sendo – na verdade – não só a primeira, mas a única vez. Eu disse imagens, mas muda pouca coisa: o mesmo livro, os mesmos risos, o mesmo ritmo, nós. De rede pra sofá ou divã. Eventualmente duas poltronas e dois exemplares. Não será. Não seremos. Mas isso eu gostaria. Não tem depois, não tem mais, não tem outro. Seríamos o tempo do livro. Trezentos e vinte e quatro páginas. Ia escrever um apenas, mas isso, tal como aquilo, também não seria verdade. Sem mais nem depois, este momento pra guardar na gaveta dos pequenos souvenirs da vida, e ouvir o eco do bom em qualquer tempo, como ouço o som do mar evocado nas conchinhas. No diarinho da amiga, palavras cansadas saindo de férias. Estou aqui aplaudindo a ideia. Gostaria que fossem curtir a serra e tomar chocolate quente com conhaque as já exaustas “espera”, “vontade”, “moço”. Estou de recesso e consegui uma brecha no tempo, no espaço, na culpa, no medo. Sem outras gentes. Nós e o mar e o sol que mergulha no mar num de repente. Ao longe uma jangada, do outro lado um pescador de chapéu e outro de blusa vermelha. Uma borboleta nas pedras. Gaivotas pescando. Baby, eu não tenho vaga nem pra robô-aspirador quanto mais pra robô-assassino. Eu e meus filósofos ficaremos fora dessa prosa. Troquei uma alexa pela caixa com Ilíada, Odisseia e as obras completas do Machado de Assis. Eu sei que o certo é gostar da fase realista – e eu gosto. Mas também tenho um xodó por Iaiá Garcia que um dia vou tentar explicar. Se, claro, antes eu vier a entender o porquê. Eu não entendo bem mais que as três ou quatro coisas dos provérbios. A cobra nas pedras, etc. Vivo entre dúvidas e perguntas. Não quero respostas proporcionais, quero que lhe falte o fôlego de tanto que precisa me falar. Eu sei, mudei de assunto. Tenho uma bússola íntima que, bom, todo mundo já entendeu. Comecei a resposta pra amiga, não terminei. Vontade de apagar tudo, até o que já contei, pra não saber que ela pode ver o que não devia ser visto. O navio no cais para reparos já há demasiado tempo. Podia enterrar uma cápsula no quintal. Para abrir daqui a x anos. Como se a memória não fosse esse antigo projetor dos slides preferidos. Olhando pra frente, só tememos o que já adivinhamos. Ou: eu temo. Mania de colocar na primeira pessoa do plural pra ver se fica mais fácil de lidar. Spoiler: não fica. A solidão é minha. Os sonhos. Os passos. A estrada. As letras na garrafa. A ilha. Eu sou a ilha, essa metáfora tão banal. Só que com tecnologias avançadas. Pega sky, sabe. E tem wifi. Disse ela – sim, estou juntando diarinhos, corra pra acompanhar, quem quiser – que há páginas coloridas e outras não. As coloridas estão na escrivaninha, esperando coragens virarem cartas. Vou fazer um álbum privado no FB com as cores que restarem no meu vestido e no horizonte.  

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Tem essa sombra que me acompanha: que você desista antes de. Porque te parece difícil, às vezes. E eu sou. Como a vida, os dias sem palavras, o dedo na quina da mesa, um jogo de final. Ou porque luminoso demais. E eu, sim, sol e gargalhadas. Estou zerando tudo. Ou tentando. Maneirar meu passo. Pra andar mais perto. Talvez a gente chegue lá. E corra pro abraço.