Flechadas

Eu acho engraçado que só tem duas modalidades de série, agora. Ou é a melhor experiência da vida, completamente arrebatadora ou uma coisa execrável, insuportável, intolerável. Ando vendo Os Anéis de Poder e é meio: não estou achando as interpretações grande coisa AAAHHH VOCÊ ODIOU A SÉRIE? Não, eu tenho achado alguns núcleos bem interessantes, gosto da beleza suave nas tomadas e enquadramentos, tenho fascínio pela fantasia como conteúdo e estrutura AAAHH ENTÃO VOCÊ ACHA QUE A SÉRIE É MARAVILHOSA-SEM-DEFEITOS. Nem oito nem oitenta, nem céu e muito menos inferno. Nessa – e em tantas outras – séries, eu consigo assistir achar coisas que me interessam, sentir que tem aspectos que me incomodam, me divertir um pouco, pensar outro tanto e seguir a vida (na mesma editoria digo engraçado mas estou pensando estranho, opera essa coisa excludente: se alguém gosta d’Os Anéis de Poder não gosta da Casa dos Dragões e vice-versa. Olha, eu posso gostar de mais de uma coisa de cada vez. Se fosse dessas, ouviria Anitta e Ludmilla sim).

De qualquer forma, queria mesmo era falar da cena bem escrita e bem filmada no episódio 3 da série dos Anéis. Eu não ligo muito pra spoilers, o que acontece é mais insignificante do que o como acontece, quase sempre. E é bem isso, nessa cena a que me referi. Um personagem morre. Mas em um pequeno instante antes de sabermos isso, vislumbramos – pelo menos eu vislumbrei – uma percepção, todo um sentimento, uma ação, que nunca existiram no personagem. Essa puxada de tapete foi muito boa. O personagem morrer não é o principal, mas o que a cena em que ele morre conta sobre o lugar, sobre os demais personagens e sobre nós, que assistimos tudo aquilo é o que importa.

As pessoas sendo escrotas e racistas por ter uma atriz negra interpretando uma sereia. Pessoas sendo racistas e escrotas por ter um ator negro interpretando um elfo. É tudo meio inacreditável, pra mim, que honestamente esperava que numa altura dessas do campeonato já estivéssemos em outro patamar #saudadesbrunohenrique. Mas estamos aqui, tentando sobreviver ao bozo. E, no meu caso, tentando com certa margem de insucesso. Recebi uma carta linda que ainda não soube responder. Uma? Duas. Tenho a palma dos pés e os sonhos doloridos. Estrada demais. Nenhum filme legendado nos cinemas da cidade. Viagem cancelada porque o carro deu problema. O jeito é lançar mão do equipamento de segurança: um livro íntimo, um belo gol do Neymar, a conversa divertida na caixinha do FB. Comi um prato reconfortante de legumes refogados e ovo mexido. Ganhei um picolé de limão.

Foto do filme A.I. - Inteligência Artificial - Foto 17 de 27 - AdoroCinema

Apesar do Tom Hanks, acho que não vou ver o Pinóquio de 2022,
afinal já vi a melhor live action possível: I. A.

Registrada AR #01

Querida Lavínia,

Uma chávena de chá, o papel de carta alinhado no centro da escrivaninha bem arrumada, a brisa fresca, a caneta de ponta macia, as boas memórias, as ideias cordatas, as palavras espirituosas, o crepúsculo na varanda atrás de mim, a emoldurar-me, instigantes ilustrações emolduradas na parede à minha frente. Assim escrevo a resposta para sua carta. Na minha imaginação, claro, que só pretenderia te oferecer no melhor formato um retorno à altura do que se vislumbra nas folhas verdes que saltam do envelope bem endereçado que você enviou. 

No que não consigo desengendrar, já passa das 18hs e o sol desmaiou deixando um discreto risco de lua decorar o negrume lá fora; a escrivaninha e seus potes de lápis, seus blocos empilhados, suas torres de caixas do mesmo remédio só não está mais desalinhada que a cozinha (e o meu juízo) e a xícara que marca a capa dos meus cadernos e livros esfumaça café, café e mais café.

Invisto na descrição porque sei quantas vezes me esgueirei nas nossas conversas, evitando as atividades em que você as solicitava. Acrescento então que as paredes são de uma pálido azul desnudo dos quadros que esperam pregos, uma das lâmpadas da luminária está queimada e existem seis garrafinhas de água vazias escarnecendo da memória que esquece de voltar a enchê-las. É o último dia de agosto e tento dar a essa informação algum sentido que lhe confira relevância. Em vão.

Três extensos parágrafos e nada de espirituoso. Vejo-me desejosa de ter uma vida para contá-la aqui, mas o que trago são exames, trânsito, uma partida de tênis – na tv, um aplicativo desagradável, uma releitura que me torna mais e mais solitária, gentilezas ocas trocadas, tarefas adiadas, fígado no almoço, uma lista de compras por fazer, e, no meio disso tudo, a revelação que é como o índio do Caetano, o óbvio: é que sou preguiçosa e covarde. Não, amiga, não é uma exclamação autodepreciativa que clama por contestação e afagos. Não estou me queixando ou disfarçadamente tentando louvar estas características. É apenas um momento da grande ficha laertiana em ação. Enquanto a vida foi generosa, eu vivi uma vida boa. Quando ela foi cuidar de outras cosias e pessoas, deixando-me com a responsabilidade pelos meus dias, eu não consegui fazer o necessário para garantir os lampejos de felicidade.

Há alguma coisa na felicidade que sabe a álcool, cigarro e esperma. É uma frase do livro que não termino, mas é também uma espécie de pós-conceito ou farol para os dias de nevoeiro. Como hoje. Ontem. Provavelmente amanhã. Como nem tudo são resmungos, há também o riso nervoso: li no twitter uma fórmula para a idade dos possíveis envolvimentos amorosos. Atenção, amiga: (x+2/2 ) + 8. Sendo X a idade da pessoa que tá querendo o rala e rola. Se a matemática não me engana, enfiei muito o pé na jaca. Pausa para suspirar.

Sei que nem preciso explicar que falo disso para não falar nem do meu nem do seu amigo ou dos afetos que não são aceitos nem recusados, apenas negligentemente tratados. Tratados, eu disse? Ignorados. Já de Matisse não falo porque nunca aprendi as palavras que a você chegam tão fáceis. Mas espio as cores, as formas, quase sinto texturas e temperaturas e é temporariamente encontrar a resposta para a pergunta que não se ousa ou não se sabe formular.

Se evito falar de amor, me jogo no tema da morte. O que, riem-se os mais sábios, são os nomes pelos quais a vida pode ser chamada. Abracei a minha finitude há tempos (também não receio o envelhecimento, mas o tema merece outra carta). Asseguro aos descrentes que é bem mais fácil saber-me efêmera que acolher a falta que nos define e a solidão, única companhia certa (desculpe, não resisti). A mortalidade alheia, porém, não me é tão suportável. Enfio a cabeça na areia e assim pretendo que não aconteçam. Maduro, não é? (no livro que releio, em um outro planeta e cultura, há um ditado: voaremos esse falcão quando lhe crescerem as asas – talvez seja um pouco menos pueril pensar assim que simplesmente fazer de conta que é possível que algo não seja simplesmente por o ignorar).

Tenho lido pouco e visto ainda menos filmes e séries. Tudo pesa e se embaralha e eu apenas deito e deixo o tempo passar no ritmo que ele escolhe. Respiro. Recebo o que a percepção me oferece em sons, cheiros, imagens, mas pouco destino lhes dou além da recepção. Também não tenho escrito. Sou grata pelo filho que já cresce sozinho, é uma incompetência a menos a depor contra mim. Ele trabalha, ama, limpa a casa, paga contas, encontra pessoas, come e dorme. A vida toda de um filho é um assombro, me espanto com quem não se assarapanta (fui ao dicionário buscar uma palavra para oferece-la como uma pequena prenda, querida).

Separei uma gaveta da escrivaninha para a nossa correspondência. É um voto de fé. De que os envelopes continuarão chegando, que eu estarei aqui recebendo-os. De que existirão outros dias, outras palavras, outras histórias e tantas vidas reinventadas.

Imagino que você já esteja cansada – sua amizade blinda o tédio – deixo-te pelo LP do Paulinho e um cigarro (eu sei eu sei, misturei tu e você, #shame). Anotação mental: preciso de mais cinzeiros.

Com carinho,

Elza D.

O envelope da Lavínia, você encontra aqui

Primeiras Palavras #04

Agora que eu morri, sei de tudo.  Era isso que eu esperava que acontecesse, mas, como muitos dos meus desejos, deixou de se realizar. Sei apenas alguns fatos dispersos que antes ignorava. Desnecessário dizer, trata-se de um preço alto demais para pagar pela satisfação da curiosidade”.

(A Odisseia de Penélope de Margaret Atwood)

Efúgio*

Minha querida Fal,

Até desliguei a televisão para te responder. Se alguém me conhecesse o suficiente, entenderia o que isso quer dizer. Mas sigo tranquila, não tem ninguém olhando por tempo suficiente para sequer suspeitar. Eu já tive a cozinha e a vida cheia de gente provando meu risoto. Dizem que a gente tem que aprender a estar só para estar com os outros. Depois que fiquei só, aprendi apenas a trancar melhor as portas e sempre fechar as venezianas. Ainda faço risoto em excesso, mas acredito que também para isso a solidão encontre saída. Sabe, congelo pouquíssima coisa e, o que congelo, muitas vezes fica esquecido. Mas vou tirar um potinho de arraia para o jantar, que ela faz rima com seu siri. Foram cebolas e tomates e pimentões e leite leite leite de coco. E dendê. Mas tudo em uma ordem tão diversa da sua que é quase espelhado. Procurei o atum no peixeiro e o quilo custa 45 reais. Sei lá quando foi que comecei a sovinar alegria. O corretor, arrogante, corrige todos os meus regionalismos sonoros, mesmo assim gostaria que ficasse registrado que meu sovinar é com “u”. Escrevi para um nunca mais e contei coisas que nem às paredes, etc. Não ria, se puder. Eu afio o punhal, encosto em meu peito e digo: vai. A sorte é que a displicência que eu tenho com a minha vida, ele também tem. Nem o esforço de empurrar parece valer a pena. Achei engraçado você falar das taças de vinho, ando pensando que eu preciso voltar a beber. É uma pequena e insípida metáfora sobre a vida, preciso seguir, preciso voltar, a soma das duas forças contrárias me mantem no mesmo lugar. Deixei os amigos no caminho para a bagagem pesar menos. Não funcionou. A verdade é que eu virei a Garota Resmunguinho na internet (mas no carne a carne eu ainda sou a mesma Sra. Gargalhadinha, me levem pro boteco). Agorinha vi o primeiro programa eleitoral do Lula e chorei. Nem é novidade, ando chorando cada vez que o Lula aparece na tv. O Brasil feliz de novo é o mote, e eu acredito que sim, menos eu, eu nunca mais. É preciso ter alguma ingenuidade onde a felicidade possa desabrochar. Contente, algumas vezes alegre, sim, claro, animada e até empolgada. Mas feliz, não. Falando em nãos, não ando cozinhando muito – nem escrevendo – mas fiz tapioca, conta? Peneirei fininho, misturei o queijo coalho ralado grosso, um nada de sal. E café, café, café. Mas ganhei uma bisteca de boi e amanhã vou grelhá-la para sentir saudade do amor que eu não quis receber. Cozinharei batatas e colocarei no prato com azeite e alho, refogarei espinafre e assarei um tomate. A beleza ainda é um refúgio. Setembro nem começou e já está sendo insuportável. Obrigada por me escrever aqui, obrigada por me escrever em letra cursiva, postais e palavras de afeto e interesse. Obrigada por continuar a construir abrigos.

*fui ao dicionário e achei esse incrível sinônimo para abrigo/refúgio.

Primeiras Palavras #03

“Falar de esquecimento é falar de amor. A pergunta ‘você se lembrou de mim?’ é sempre comovente. (…) A última frase da carta póstuma do meu pai é ‘Só espero que quando chegar a hora eu sinta que não lhe causei grande dano, o que me dará o direito de lhe pedir, com um beijo, que me esqueça’.”

(O que amar quer dizer de Mathieu Lindon)

Deglaçando sentimentos

Eu só queria ficar vendo erros de gravação de Friends, comendo torrada com pastinha de atum e bebendo vinho verde sem contar o número de garrafas. A Fal não sabe onde estão suas tesouras. Eu sei. Quer dizer, sei onde estão as minhas, não as dela. Eu tenho duas tesouras grandes, e as duas estão enferrujadas (também tenho 2 tesourinhas de unha na cabeceira, completamente operantes). Mas ela sabe tanto do tudo e eu sei tão pouco de nada. Fico ouvindo Fito Paez e pensando no tempo em que moços enviavam, pelo correio, cds, meias de seda e perfumes importados. A vida era um Natal infindo. Sabe, rebuçado é um nome tão pomposo para bombom que eu sempre aceito, quando me oferecem, na esperança de um sabor inusitado. Sei lá, um rebuçado com sabor de frutas deglaçadas com xerez proveniente de barris empilhados em regime de soleira. Não que alguém ande me oferecendo qualquer coisa. Escrevi duas páginas explicando a ideia de que “o analista é seu estilo” e fechei a carta com um adesivo de lacinho. Provavelmente não terei resposta. A pessoa – eu, eu, eu – arruma o quarto todinho, no capricho, e decide: nada mais de bagunça, quarto é pra ser espaço tranquilo, sei que lá, repouso, sei que lá, sei que lá, descanso. Um dia e meio depois está dormindo com catorze livros, dois cadernos, o kindle, um pote de lápis de cor e nem vou continuar. Cada vez mais cansada de perder o bonde, o timing, o ritmo, a crista da onda. Estou fazendo um curso maravilhoso sobre Caetano – presente da Renata Lins. O professor é tão bom que falou em música tonal, modal e, na hora, até eu entendi. Mas meu foco são as eventuais fofocas e as canções que ele dedilha. Oásis. Minha cozinha está menos bagunçada que meus sentimentos, mas isso não é tão animador quanto pode parecer. Abro, muitas vezes ao dia, o aplicativo do banco, esperando alguma coisa boa e inesperada acontecer com o meu saldo. Folheei, ao acaso, páginas da Sylvia Plath e seus ditos me cobriram de cores como se fossem chagas. Pretendo escutar Acanalhado até o Luca Argel ficar rouco no spotify. Me cansam os novos, me enervam os velhos desejos. Comecei um livro bom, terminei um livro ruim. Todo mundo é alguém ou já foi alguém ou conhece alguém que é alguém ou conhece alguém que já foi alguém, nessa rodinha. Às vezes eu tenho um certo embaraço por existir. Escrevi um texto tão miudinho que cabe em um suspiro. Se eu tivesse ficado no meu lugar, talvez não doesse assim.

Primeiras Palavras #02

“Nas primeiras horas do dia 25 de agosto de 79 d.C., a chuva de pedras-pomes que caía sobre Pompéia começou a amainar. Parecia um bom momento para deixar a cidade e fazer um esforço para se manter seguro. Um grupo desnorteado de mais de vinte fugitivos que se abrigara dentro das muralhas durante a pior hora da chuva aterrorizante arriscou sair por um dos portões ao leste da cidade, na esperança de escapar do alcance do bombardeio vulcânico. Outros haviam tentado a mesma rota algumas horas antes. Um casal fugira levando apenas uma pequena chave (presume-se que esperavam regressar um dia para aquilo que ela trancava – casa apartamento, baú, ou caixa-forte) e uma única lamparina de bronze”.

(Pompéia de Mary Beard)

einmal ist keinmal? (pensando aqui no programa The Rehearsal da HBO)

A coisa mais assustadora que assisti recentemente foi The Rehearsal (o Ensaio), série da HBO. Não tem filme de terror que chegue próximo da angústia que aquilo provoca na gente (a gente sou sempre eu, tá?). Uma série em que pessoas ensaiam momentos da sua vida – não sozinhos na frente do espelho antes de um encontro ou chorando no banho, pensando em tudo que poderia ter feito ou dito depois da situação vivida – mas com dezenas de atores, em ambientes milimetricamente reconstruídos para simular lugares reais, com recursos tecnológicos para simular passagem das estações em poucos dias, encenando a mesma situação vezes e vezes, em alguns momentos até com bebês recém-nascidos “alugados” como atores.

Vamos construir um bar inteiro dentro de um galpão e depois transportar pra outro estado, yay

Não parece má ideia minimizar imprevistos e atenuar inseguranças, mas fiquei matutando sobre essa necessidade de controle transbordando e indo além daqueles rituais comuns tais como planejar uma viagem, fazer listas de compras, manter uma planilha de gastos… ensaios e projetos de realidade que supomos desejar, mas que usualmente reconhecemos que nos escapa pois as banais e cotidianas decisões nos conduzem a imprevistos e imprevisíveis caminhos. E é o impensável que o diretor/ator insiste em – aparentemente – tentar domesticar, o que deveria tornar tudo – imagino – engraçado ou, pelo menos, cômico.

Talvez inevitavelmente, lembrei de um trecho d’A Insustentável Leveza do Ser, uma reflexão do Tomas: “Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um rascunho. Mas nem mesmo ”rascunho” é a palavra certa, porque um rascunho é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o rascunho que a nossa vida é, não é rascunho de nada, é um esboço sem quadro. ”

Será, então, que você não se sairia melhor nas situações importantes da vida se tivesse se preparado e ensaiado antes? Você pode realmente antecipar e ensaiar tudo? E quando alguma coisa dá errada mesmo depois de vários ensaios? Há algo que sempre vai escapar ou você não analisou a situação o suficiente e deveria ter ensaiado mais? E se você roteirizar a vida e depois roteirizar o ensaio para a vida e depois roteirizar o plano do ensaio para a vida? E se você fizer tudo que foi planejado, mas não sentir como deveria sentir dentro do planejado, que elementos deve incorporar ao ensaio para que ele abarque comportamento e sentimento? E esse tempo todo ensaiando é tempo perdido de vida ou é a própria vida? E, em sendo a vida, não deveria ensaiar para o ensaio do ensaio da vida? Talvez estas sejam algumas das perguntas que vão se imiscuindo gradativamente, guiando e orientando o programa.

É interessante que os rumos dessas questões, pelo menos na série, parecem nos conduzir para o oposto da conclusão de Tomas. Enquanto Tomas “repete em silêncio o provérbio alemão, einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver”, a espiral do ensaio para o ensaio do ensaio da vida que Nathan Fielder nos apresenta parece implicar que, insistindo nesse processo, o que resta é nascer, ensaiar e morrer, transformando a vida em um esboço recorrente.

Pode ser que o programa se proponha mesmo a ensaiar situações da vida como se elas fossem potencialmente controláveis e seja o mais aproximado possível do que vemos. Pode ser que se procure, sinceramente, organizar e dar sentido a uma realidade caótica via fluxos, gráficos, planejamento e alguma situação de comédia. Pode ser que seja realmente o que vemos, como vemos, mas seu propósito não seja o ensaio, mas explicitar e discutir que o como as pessoas agem e sentem caracterizam a forma de (e até impedem) lidar com as situações que vão transformar as suas vidas. E pode ser que seja tudo, tudo, tudo roteirizado e seja feito para deixar o espectador em uma zona incerta sobre os limites da realidade e da ficção e as especificidades da ficção de realitys e/ou da realidade ficcionalizada. Pode ser que a piada seja a imprecisão na figura singular que conduz o show, a incerteza se é um personagem consistentemente sustentado ou um personagem que ao longo do processo incorpora de forma sincera as preocupações do ator/diretor ou um ator/diretor que foi descobrindo o programa e a si mesmo ao fazê-lo. Pode até ser uma terapia muito cara e pública (meio como a minissérie Maysa). Qualquer que seja o propósito, a realização e a própria existência da temporada – confirmada a segunda – me tocou de formas nem sempre agradáveis.

 Se o programa faz uma trajetória de questões simples a mais complexas, se compreende, ainda, um percurso do seu criador, também nós, espectadores, nos deslocamos (ou talvez seja uma questão minha): em alguns momentos penso que vejo algo revelador, criativo, provocador e até valioso, em outros momentos acho tudo muito forçado, meio ridículo e certamente pouco ético. O nosso – o meu – não é um trajeto linear. Funciona mais como pêndulo. E apesar de ter visto os seis episódios, não sei bem para onde o pêndulo aponta no meu agora.

O convidado do primeiro episódio compara Nathan com Willy Wonka (aquele do imenso chapéu e dos cupons para A Fantástica Fábrica de Chocolate) e é de uma extrema perspicácia (se ele mesmo pensou nisso) ou autoironia (se foi roteirizado): afinal, vale qualquer coisa se garante o final feliz do menino gentil e um tanto esquisito?

(a única coisa que eu não vou entender mesmo mesmo mesmo mesmo mesmo é porque chamam de comédia)

Primeiras Palavras #01

“12h35 – O telefone toca. Não fico feliz. Esse não é o jeito que eu mais gosto de acordar. Meu jeito preferido é com certo ator francês de cinema sussurrando delicadamente no meu ouvido às 14h30 que, se eu quiser ir à Suécia para receber meu prêmio Nobel de literatura, é melhor pedir logo o café da manhã. Isso ocorre com menos frequência do que eu gostaria”

(O almanaque de Franz Lebowitz)

Deslizes

Resolvi muitas coisas hoje. Praticamente uma pessoa adulta. Passei perto de tudo que precisava fazer? Aí já é querer demais. Uma boa reunião, cartório, e-mails que eu não respondi. No fim do dia fiz uma sopinha de carne, daquelas com todos os legumes cortados em quadradinhos miúdos e quase idênticos. Tem um pênalti bem agora, no jogo que passa na televisão. Sempre penso na solidão do goleiro. Talvez para não lembrar da minha. Não sei de onde as pessoas tiram o tempo para tanta coisa, inclusive para a felicidade, para a infelicidade e para todas as séries que assistem, livros que lêem, músicas que escutam. Minha cozinha estava uma bagunça, agora só a pia estão lastimável. Dias melhores virão. Escrevi o conto e ele foi aprovado. Um dia de cada vez. E as noites todas me sufocando. Roubei das obrigações e acabei de assistir Uncoupled. Achei uma delícia (menos a cena final, mas entendi que era um gancho, etc).  Porém eu estava certa quando cogitei não ver. Não pelos motivos que cogitei. As emoções foram tão outras. Tive um estalo e percebi que minha questão não está nos términos, na ausência de um “um” na cama, nos dias; meu problema é não ter amigos do babado por perto. Fiquei muito envergonhada. My fault, i know. Muriçocas fazem a festa. Tão mais bem empregado o sangue se a visita fosse o Gary Oldman ou mesmo o Tom. Velhas referências. Separei umas fotos para colocar no mural de ímãs/viagens. Gastei tanto dinheiro hoje que fiquei tonta. E um pouco apavorada. Planejamento financeiro é no dia primeiro você saber em quanto vai fechar o mês no vermelho. Uma convicção: cafuné deveria ser considerado artigo de primeira necessidade. Vou ali, ouvir umas críticas da Isabela Boscov para me sentir sabida por gostar do que ela gosta. Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. Para quem acredita, as paralelas marcaram encontro no infinito.