Deslizes

Resolvi muitas coisas hoje. Praticamente uma pessoa adulta. Passei perto de tudo que precisava fazer? Aí já é querer demais. Uma boa reunião, cartório, e-mails que eu não respondi. No fim do dia fiz uma sopinha de carne, daquelas com todos os legumes cortados em quadradinhos miúdos e quase idênticos. Tem um pênalti bem agora, no jogo que passa na televisão. Sempre penso na solidão do goleiro. Talvez para não lembrar da minha. Não sei de onde as pessoas tiram o tempo para tanta coisa, inclusive para a felicidade, para a infelicidade e para todas as séries que assistem, livros que lêem, músicas que escutam. Minha cozinha estava uma bagunça, agora só a pia estão lastimável. Dias melhores virão. Escrevi o conto e ele foi aprovado. Um dia de cada vez. E as noites todas me sufocando. Roubei das obrigações e acabei de assistir Uncoupled. Achei uma delícia (menos a cena final, mas entendi que era um gancho, etc).  Porém eu estava certa quando cogitei não ver. Não pelos motivos que cogitei. As emoções foram tão outras. Tive um estalo e percebi que minha questão não está nos términos, na ausência de um “um” na cama, nos dias; meu problema é não ter amigos do babado por perto. Fiquei muito envergonhada. My fault, i know. Muriçocas fazem a festa. Tão mais bem empregado o sangue se a visita fosse o Gary Oldman ou mesmo o Tom. Velhas referências. Separei umas fotos para colocar no mural de ímãs/viagens. Gastei tanto dinheiro hoje que fiquei tonta. E um pouco apavorada. Planejamento financeiro é no dia primeiro você saber em quanto vai fechar o mês no vermelho. Uma convicção: cafuné deveria ser considerado artigo de primeira necessidade. Vou ali, ouvir umas críticas da Isabela Boscov para me sentir sabida por gostar do que ela gosta. Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. Para quem acredita, as paralelas marcaram encontro no infinito.

Correspondentes

Orgulhosa de mim mesma e da coragem desprendida evocada, dei o que eu supus ser uma imensa patada. A pessoa achou que era um afago e me tratou com a displicência condescendente de sempre. Só me resta cantarolar: a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o livro é meu – porque um dia virá, sim, virá. Enquanto não vem, um convite gentil, um pequeno conto, uma boa aula, os Corleones, máscara com válvula, hidro, a correspondência. Abri o envelope e choveu dourados. Cartas há mais de um ano e você ainda consegue me surpreender. Alerta de correios e de sorrisos em mim, sorrisos que eu julguei perdidos. Ouvi uma musiquinha do Fito Paez. Tão doces os amores do passado que nos fizeram bem mesmo que não os entendêssemos como devíamos. Escuto os moços falarem de luxúria e me admira a segurança com que dão conselhos. Se eu fosse dos que dão conselhos diria: coloquem a macaxeira para cozinhar no cozido de carneiro. De preferência, tendo temperado a carne, também, com canela. E acrescentaria: depois que no prato estiverem carneiro, macaxeira e cuscuz, taca sem dó um monte de pimenta biquinho. Garanto uma boca em festa. Por falar em festas, ando precisando de um boteco. Em outra freguesia. Criei uma armadilha e me joguei nela. Eu era feliz e sabia. O que eu não sabia é que não seria feliz assim de novo. Os moços ainda estão no papo, infelizmente não dá para ignorar o moralismo dos conselhos. Sexo é um assunto complicado para se falar en passant – lembro-me de dar este desconto. Só me resta reler Ligações Perigosas e respirar por Merteuil. Eu não tinha medo de morrer. Agora eu tenho receio de não morrer. Ou de não saber que estou morrendo. Ainda estou decidindo. Li o diarinho da Fal e é óbvio que não devo assistir Uncoupled. Nem ler threads no twitter sobre obsessivos e histéricas. Este era o seu apelido correto: Olegário. Sôo ressentida? A dor é minha, o livro é meu. Comprei pasta de amendoim. Gastei dinheiro que não tenho. Não me senti melhor. Nem pior. Faz tempo que estou como o pintinho da piada: sentindo nada. Aí passa o efeito do analgésico e, claro, ninguém quer ler sobre isso. Fiz fotos com meus sapatos vermelhos. Não estou mais no Kansas, nem em Oz, nem mesmo em São Paulo. Mas encontrei um papel de carta muito fofo e etiquetas douradas em forma de estrela. Não estou fazendo planos pois não sei se estaremos juntos, eu e o futuro. Não sei quem ele vai encontrar, caso chegue. Provavelmente alguém que eu desconheço. Enfim, não estou fazendo planos, mas em algum canto bonito em mim, sonho encontros, vinho verde, pequenas palavras, imensos silêncios, muitos risos, talvez murmúrios, algum espanto, surpresas, conforto, a hora de ir embora sempre chegando antes do que devia. Preciso comprar envelopes.

Telescópio e outros aléns

Recebi a carta mais simples, despretensiosa e gentil. E, sim, o “com amor” me balançou um pouco. 

Status: entendendo melhor o conceito de migalhas. 

Eu poderia dizer que não tem sido fácil viver e qualquer um acompanharia o raciocínio. Mas não seria muito honesto. Nem posso garantir que estou tentando. Há coisas que não tenho nem terei coragem de fazer e todo o resto parece pálido diante desta constatação.

Westworld voltou e que morte horrível. Mas talvez seja eu.

Minha amiga perguntou se eu não preciso de ajuda. Tentei. A mulher disse que a vida tá dureza mesmo, respira fundo, come melhor, chora quando precisar e segue… quando estiver na ladeira, solta e vai na banguela. Não com essas palavras, claro.

A amiga autora me escreveu uma carta, aceitei o convite e estou comendo pão integral com grãos, ouvindo Salmaso e tentando não dar na vista que não ligo muito para fotos de salas e maçãs.

Vi uma enquete no twitter que perguntava no que você acredita? e as opções eram deus, natureza, universo e nada. Entre estas eu responderia nada, claro. Mas bem lá no fundo ainda acredito é na rapaziada. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá – apesar das evidências todas me atropelando. Hoje vimos as primeiras imagens do telescópio James Webb. O engenho humano sempre me encanta. Que alguém, que é gente, tenha pintado a capela sistina, tenha esculpido Davi, tenha feito cálculos para pôr foguetes em órbita, tenha descoberto vacinas e impresso estampas em tecido, tudo isso me comove e arrebata.

As coisas que você estragou pra mim

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.
(Paulo Mendes Campos)

Que pena que você foi embora, moço. Levou, que nem a Rita, um sorriso meu e tantos assuntos que ainda poderiam ser. Guardo, com carinho, os últimos besitos. Melhores que vinho.

É, para mim, cada dia mais difícil falar com as pessoas. Especialmente com as gentis. Com os gentis que são meus amigos, então, é quase impossível. Atenciosamente eles me perguntam: como vai? Como você está? E eu não posso responder. Não conheço as palavras. Me esquivo. Ontem eu tentei, porque ela, tão querida, perguntou. Eu disse – eu tô sem estar. Sinto que atravesso os dias como se todos fossem o mesmo e cada um fosse o vazio. Nem alegre nem triste nem poeta – mas eu disse não é exato, não é bem isso, embora seja o mais perto que consigo chegar da verdade quando tento colocar em palavras.

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Vem aí meu aniversário (falta menos de uma semana) e eu estou apavorada com a tristeza que vou sentir.

Em um Diarinho recente ela fez uma lista de coisas interessantes sobre a vida dela e disse que uma – só umazinha – era mentira. Foi tão bonito que eu nem soube comentar.

Quando eu digo que não conheço as palavras é uma meia verdade. Conheço algumas, mas elas tentam escapar. Hoje passei uns bons 50 segundos olhando pra escrivaninha, tentando lembrar este nome e só me vinha: maçaneta.

As coisas que você estragou pra mim (ou bem perto disso): Paulinho da Viola, Verissimo, escola de samba, madrugada, a sua cidade, vinho, bacalhau, amizade.

Status: hora extra.

É muito irritante quando eu digo, em análise, eu não sei tal coisa (sobre mim) e o analista emenda um sonoro: eu também não.

Tenho saudades do tempo em que eu não gostava de brócolis #classemédiasofre

A tua carta está em cima da escrivaninha esperando ser respondida. Não chegou hoje nem ontem. Nem mesmo anteontem. Chegou com um bonito e enorme gato no envelope, prometendo tanto. Que não veio. Que não estava no envelope, nas linhas nem nas entrelinhas nem nada. Bom, pelo menos eu não encontrei. Não respondi ainda. Não me animei. Não me inquietei. Não me inspirei. Não quis. Não quero. Estou cansando de você, provavelmente por suspeitar que logo você vá cansar de mim. Não é um movimento novo, embora ainda não tenha conseguido explicar direitinho, no divã, o fenômeno. Eu vou embora, mesmo que ainda pareça estar. E não consigo voltar. Depois podem ser os ridículos “dezesseis dias seguintes”, mas, quase sempre, nem isso.

A casa limpinha. Máscaras nas estantes, na mochila, na bolsa, nas gavetas. Esperando. O kindle e o reino dos livros inacabados. Rúcula com manga. Alho frito. O vermelho intenso da rosa do deserto. Decisões tomadas. Grandes, imensas. Renúncias presentes e futuras. Camisola lilás. A televisão recebendo um poltergaist. Suco de maracujá. Muito suco de maracujá. Reunião no sábado. Um bom filme velho. Um gol do Flamengo. Uma música triste. O café sem açúcar. O shampoo de café. E o condicionador de canela. A ponta do lápis de cor. Os passarinhos, as florzinhas, o ventinho frio de chuva. Aquele doer sem diminutivo.

Está chegando a hora…

Não é a minha “crítica” sobre o filmes. É apenas a listinha de comentário/indicação de gosto que a Marília pediu. Já escrevi sobre Ataque dos Cães na newscoisa e sobre a maior parte dos outros filmes no meu perfil do FB (quem for mais curioso e/ou gostar de comentários melhor desenvolvios)

Melhor Filme

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Ataque dos Cães – é o filme do ano, pra mim. Competente nas qualidades técnicas, em explorar emoções e tem aquele sine qua non que caracteriza uma grande obra e transforma um bom filme em uma experiência realmente especial. E é um faroeste, né, minha gente, como não amar os faroestes? Imperdível.

Belfast – uma maravilha de filme, com uma fotografia em preto e branco muito inteligente, excelentes atuações – especialmente dos coadjuvantes, um filme sobre memória e afetos. Vale muito.

Não olhe para cima – uma comédia que não me interessou, a não ser em uns poucos minutos de fim do mundo. E, claro, Leo é realmente um ator imenso, tudo que ele faz tem um toque de talento. Nhé.

No ritmo do coração – um drama leve com ares de sessão da tarde não fosse a delicadeza e sensibilidade com que a história é dirigida, interpretada e fotografada. Sabe aquela comoção que não senti com Lady Bird? Senti aqui. Assista sim.

O beco do pesadelo – um bom noir na primeira metade do filme. A segunda metade tem Cate Blanchett que desistiu de interpretar outros personagens a não ser “Cate Blanchett interpretando com intensidade”, além daquela constrangedora cena no divã. Razoável, mas dispensável.

Duna – Visualmente impressionante, bons atores. Tem gente que reclama do ritmo, mas eu amo faroeste antigo, então, né. Para os pacientes, para os adeptos, para os curiosos.

Drive my car – não vi ainda porque os torrentes vem com a legenda em inglês pregada mas li o conto – e amo. Aguardo ansiosa.

West Side Story – é Spielberg é musical. Quero.

King Richard – não sei bem porque tendo duas mulheres fodas pra cinebiografar, se escolhe contar a história do pai delas de uma forma chapa branca, com um roteiro bem clichê, que fala nas Williams mas que elas poderiam ser substituídas por qualquer personagem atleta padrão e o roteiro seria quase a mesma coisa. Achei um filme bem convencional, direção sem criatividade, escolhas estéticas banais, não curti não.

Licorice Pizza – estava esperando agoniada, porque Trama Fantasma meio mudou a minha vida, tinha expectativas imensas. Vi Licorice Pizza e sei lá porque tanta gente gostou. Inclusive sei lá porque eu gostei tanto. Paul Thomas Anderson é um feiticeiro original, capaz de alternar extrema delicadeza e uma estranheza inesperada sem soar artificial ou desnecessário. O filho de Phillip Seymour tá incrível e nem tenho palavras para a moça que faz Alana, ela parece um ímã poderoso, esquisito e charmoso, concomitantemente. Sei que vou rever e sei que vou escrever textão, mas adianto que tem hora que a gente se encanta, tem hora que a gente se retrai mas principalmente sai sorrindo do filme e isso é enorme.

Melhor Direção:

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Concorrem Kenneth Branagh (Belfast), Ryusuke Hamaguchi (Drive my car), Jane Campion (Ataque dos cães), Steven Spielberg (“Amor, sublime amor”) e Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza). Falta ver Amor, Sublime Amor e Drive my car, mas acho difícil alguém ter sido melhor que Jane Campion, ela acertou demais no uso da câmera, dos planos, do ritmo, deu alma ao filme.

Melhor Atriz:

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Jessica Chastain fez um trabalho assustadoramente bom em Os olhos de Tammy Faye e é minha favorita, disparada. A queridinha que deve ganhar é a Olivia cult Colman com seu trabalho como mãe de boneca n’A filha perdida. Outra que disputa com chance é Nicole Kidman, muito convincente em Apresentando os Ricardos. Ela realmente interpretou Lucille Ball de forma brilhante, mas o roteiro do filme é bem ruim. Por fim temos Penélope Cruz em Mães paralelas. Acho que Jessica fez um trabalho primoroso, porém parte de mim torce inconsequente pela Penélope pois todo reconhecimento é pouco para um filme do Almodóvar.

Honestamente não sei o que Spencer e Kirsten Stewart estão fazendo na lista, acho até desrespeitosa esta indicação em que a atriz alterna cara de nada com cara de choro. Por mais insípida que a princesa fosse, é ficção e não mímica.

Melhor Ator

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Esta categoria está impossível pra mim. Impossível. O que Benedict Cumberbatch fez em Ataque dos cães deveria lhe dar o prêmio, com folga. Mas aí chegou Denzel e seu Macbeth e, OLHA, eu não tenho nem palavras pra interpretação que ele trouxe a um personagem já tão conhecido. Fez um trabalho louvável: Andrew Garfield (Tick, tick… Boom!). É competente, mas nada de especial: Javier Bardem (Apresentando os Ricardos). Não sei avaliar porque o filme é tão blé que atrapalha a interpretação: Will Smith (King Richard: criando campeãs).

Melhor ator coadjuvante

Se entregarem para Ciarán Hinds por Belfast ou Troy Kotsur por No ritmo do coração, está muito bem entregue. Se quiserem dar pro jovem Kodi Smit-McPhee de Ataque dos cães, não vou reclamar. Jesse Plemons (Ataque dos cães) e J.K. Simmons (Apresentando os Ricardos) são bons atores, mas não foram os melhores com estes papéis.

Melhor atriz coadjuvante

Terei que fazer a Glória Pires, mas Judi Dench e Kirsten Dunst foram muito bem nos seus papéis, as usual. Também foram indicadas: Jessie Buckley por A filha perdida (vi, gostei); Ariana DeBose por Amor, sublime amor (não vi), e Aunjanue Ellis por King Richard: criando campeãs (tal como o Will Smithm acho que o roteiro não oferece muito material).

Melhor roteiro original

Amei Belfast dicumforça, considero que Não olhe para cima fora do ponto, Licorice Pizza tem um roteiro realmente delicado e criativo. Não gostei de King Richard e não vi A Pior Pessoa do Mundo.

Melhor roteiro adaptado

Pelamor Ataque dos Cães é uma perfeição. Merece demais todos os prêmios que receber. Acho que quem adaptou A Filha Perdida perdeu (desculpe) muita nuance da protagonista, mas ainda assim resultou em um filme muito inteligente e bem dirigido. Adaptar Duna já merece um prêmio, nem que seja de coragem. CODA tem um bom roteiro, mas acho que não o bastante para disputar. Preciso ver Drive my car, o conto é ótimo (eu já disse, mas repito).

De grão em grão

Eu nunca fui boa aluna, especialmente na escola da vida. Cada lugar pelo qual passei só me torna inquieta no que agora estou – e se para um deles voltasse, seria insatisfeita com o que, daqui, não se encontra lá; e se para um novo fosse, sentiria falta daqui e de todos os outros lá(re)s.

Greta Garbo belíssima em Grand Hotel. Gosto muito de histórias que usam boa desculpa para desfilar uma profusão de vidas que só se tocam pelo viés do acaso e que acabam se transformando no processo: trens, hotéis, excursões e acidentes.

Volta às aulas, exausta, rouca e contente com o interesse da turma nova.

Pensando em mudar de banco, mas que preguiça dos procedimentos burocráticos.

Café como os dias, cada vez mais amargos.

Todas as vezes que eu assisto “se meu apartamento falasse” e vejo Jack Lemmon – que é dito como bom cozinheiro no filme – lavando o macarrão cozido e depois soltando umas almôndegas secas em cima eu penso que talvez o conceito de boa comida seja mais relativo do que se imagina. Pelo menos ele joga uma profusão de azeite em cima.

Woody Allen é muito destruidor. A Outra é tão bonito que ecoa em mim por dias.

40 anos torcendo, meu time disputando grandes clássicos, rivais históricos, várias picuinhas, nunca tinha visto uma torcida tão mesquinha como essa do Atlético. Os caras com um timaço, ganhando e tal, mas mentalidade de dor de cotovelo e incapazes de ver as limitações administrativas do clube. Vou dar um desconto apenas porque na era das redes sociais a voz dos imbecis é ampliada né.

Juntar moedinhas, se não vou mais ser feliz, pelo menos vou passar o mês comprando tomates na feira em Florença.

Muito Greta Garbo, ela

“já realizou todos os seus sonhos?”
“Não, ainda tenho muita coisa pra fazer ainda, só tenho que descobrir o que é”
Martinho da Vila, mas podia ser eu.

Eu me sinto muito espertinha porque o Almodóvar também gosta do diálogo de Johnny Guitar. #mulheresabeiradeumataquedenervosfeelings

Cansei de tudo, tuitarei no blog.

Se eu participasse de Love is Blind provavelmente me envolveria com 100% dos não escrotos.

Fiz uma sopa tão gostosa que fiquei triste por todas as outras pessoas do mundo que tomam suas sopas pensando que estão boas. Não estão. Esta sim, estava.

Sobre a celeuma da Semana de 22, até ontem eu diria com prazer que não tenho informações suficientes para ter opinião, mas agora já não posso dizer isso, tenho informações o bastante para dizer que acho toda a conversa um tédio.

Tomar decisões é um esporte que eu pratico de maneira instável, então é tipo voltar pra musculação depois de um tempo sedentária, dói tudo.

A verdade é que eu pego muita corda. E agora estou sentindo falta dos seus emails. Vida que segue, espero que as fotografias do futuro fiquem boas.

Eu só ficarei realmente satisfeita com uma versão em que Christian e Cyrano se descubram apaixonados um pelo outro e dane-se a autocentrada Roxane.

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Muito triste não ter uma amiga que tenha uma vida igual à minha e passe pelos meus problemas e tenha as minhas aspirações e desejos e dificuldades para me ajudar a tomar as decisões difíceis.

Cresci em coletivos. A rua em que vivi toda a infância era uma espécie de vila e a família expandida era imensa com primos e primas dormindo em minha casa e eu na deles, viajando juntos, grandes almoços de domingo. Depois, grupos de jovem, coordenação de crisma, pastoral da juventude do meio popular, teatro, coral. A seguir, um projeto de extensão durante toda minha vida universitária, assentamentos, conselhos, associações, federações. Avançando em idade e tecnologia, listas de e-mails, longas e profundas conversas. Sempre tive e sempre gostei de ter gente por perto. Daí me mudei, me separei, filho vivendo distante, o trabalho que faço me mantem em contato com muitas pessoas mas não em grupo e, por fim, eu e a cidade em que vivo nunca nos entendemos muito bem. Sinto falta das experiências coletivas. Tentava amenizar com os grandes momentos de comunhão em redes sociais. Copa, Olimpíadas, Masterchef, até no BBB eu mergulhei para ter a sensação de algum contato com os outros. Funcionou por um tempo, mas a verdade é que me enfastio cada vez mais. Os mesmos temas voltando com tratamento cada vez mais tosco. Me cansam as bobagens ditas sobre psicanálise. Me entendiam as conversas sobre aparência, peso, ruga. Me irritam os papos moralistas. Vou preferindo o silêncio.

Me desagrada a vida que levo, do jeito que levo, mas me desagradaria ainda mais levar a vida do jeito que vejo os outros levando, mesmo que sejam felizes nelas – e que bom que são.

Meu casco parece cada vez mais atraente: uso os pôsteres dos filmes do Almodóvar de decoração.

Minha cozinha cheira a especiarias e pimenta de cheiro, meu prato de massa alcançou uma elegância que me faz chorar, só uso lençóis macios e tomo banhos de canela, camomila, mel e casca de maçã.

Cortei o cabelo e tá, olha, lindo demais.

Exausta

É preciso um bocado de equilíbrio pra não duvidar da história. História que embora não tenha sido verdadeira, não foi inventada por um só. O amor foi um delírio seu, o meu foi acreditar. Um amor? Um afeto. Podia ter sido em alegria, foi em renúncias. Te dei isso. Te dei muito. Te amei pelas minhas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.

Anda pelas redes uma brincadeira de revelar 5 curiosidades. Não participo, as coisas que podem ser conhecidas, já conto tudo com 5 minutos de papo. O que não deve ser sabido, não é na rede social que vou comentar. Mas vou abrir uma exceção e revelar: eu escrevo com delay.

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Ou me precipito. É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso e ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Atropelo. Te atropelei, acho. Que pena. O consolo é que o intangível não sangra na pista.

2022 e alguma beleza

O ano só começa quando eu consigo voltar a escrever.

Como se diz bom dia? Bem assim: primeiro o flocão de milho amarelinho, amarelinho. Daí o leite. Pode ser de vaca, de coco, misturado. Deixa o flocão se hidratar. Um pouco de açúcar, um pouco de sal. Manteiga, claro. Um ovo, com a gema bem amarelinha – se quiser. Canela, cravo, queijo. Mexe, mexe. Um pouquinhozinho de nada de farinha de trigo. Fermento. Espalha na frigideira untad com mais manteiga. Bordinha quase queimou? Vira. Um balde de café quente, forte e amargo. Uma cadeira de balanço, vento enlinhando o cabelo, a vida proseando na calçada com o tempo que por ali passava e parou.

Existe uma beleza na alegria de ser quem se é. Acordei assim. Sorri pro meu sorriso no espelho. Ouvi minha playlist de forró. Comi meu milho com queijo. Inspirei com força o cheiro de mormaço. Amei meu rosto, meu corpo, meus dias.

A espiga, mugunzá, canjica, pamonha, cuscuz – com ovo, com manteiga, com leite, com galinha ao molho, com carne de sol, com queijo, chapéu de couro, bolo. É de milho? Quero. Quero o quentinho e o riso do amarelo. A chinela na beirada do alpendre. A rede no lento balanço. O lençol dançando no varal. O barulhinho dos animais no terreiro. O sol, o sol, o sol e aquela gotinha de suor, marota, escorregando pelo cangote e se perdendo entre os seios.

Daí me perguntaram sobre minhas habilidades. E eu falei que a que eu tenho é fazer as pessoas se sentirem bem. E eu sou uma pessoa, né.

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Roupa no varal, que não seca nunca, o cartão do mês que vem virando uma bola de neve, a máquina de lavar vazando, acordar procurando um email que não veio, Duras na cabeceira novamente, folhas em branco reclamando, alguns sorrisos, comentários enormes no Drops da Fal, todos os vasos da varanda vazios, a caixa dos correios vazia, a geladeira vazia, uma quinta-feira vadia, o Gilson de novo no blog – viva!, um banho gostoso, a carta escrita pela metade,  o filme do Woody Allen, a mais bonita carta de tarot, a canjinha da madrugada, cabelo cheiroso, nada de email, uma prova de kart, bolinho de chuva ou bolinho de arroz, papel de carta lilás, aquela paixãozinha pelo detetive de Shetland, a situação de Minas Gerais, autorretrato: um pedacinho de sonho cercado de solidão por todos os lados, muitos diminutivos no caminho, o analista impaciente, lista de supermercado, a vontade do mar, o email ainda não chegou, notícias tristes, notícias boas, vacinas para crianças, Vinícius Jr., sapatinhos vermelhos, café quente quente quente, lápis sem ponta, misturo sim peixe com laticínio, risco livros, como pizza de calabresa com queijo, sou uma vândala, tem uma nova maquininha na cozinha, tenho que comprar remédios, a restauração do Poderoso Chefão.