“O acaso é a flor do real”

Pois é, viajando. Tal como o moço da piada caindo de um prédio muito muito muito alto, o que eu posso dizer sobre isso é: até agora, tudo bem.

Liberdade nunca é demais. Subir e descer e descer e subir, entrar em todos os mercados e ficar espiando rótulos com símbolos que nunca jamais decifrarei. Comer guioza na rua. Sentar no banquinho e espiar pessoas e tampo passarem se misturando. Querer mergulhar no caldinho do Tempura Udon do Izakaya Issa. Comprar temperinhos. Uma senhora idosa de máscara bem assentada, um pouco curvada, bengala estilosa e passo calculado como se o tempo estivesse a seu serviço e abrisse espaço na calçada para ela seguir seu trajeto. Jovens ligeiros gesticulando muito, ocupando a calçada na largura, falando uns com os outros e no celular – ao mesmo tempo. Um homem e duas crianças de olhos sorridentes por cima das máscaras coloridas param na ponte para tirar fotografias. Som, som, som e, entrando no jardim, um repentino som que, de tão diferente, é quase silêncio, como quando se atravessa uma cachoeira e já não há antes nem o depois, só a água fora, dentro, por todo lado, entontecendo. Uma moça fuma e reclama baixinho com ninguém, segurando o celular quase com repulsa. Duas adolescentes trocam selinhos. Um senhor de suéter azul, cabelos grisalhos e uma teia de tempo no rosto, fuma, distraído. Queria  me ver assim como vejo toda gente. O jeito, o corpo, as expressões. Meu rosto deve parecer tão triste de máscara, talvez, os olhinhos baixos sem o sorriso pra distrair. A sapatilha vermelha fazendo seu trabalho de destruição. Sacolas e uma bolsa de cactos. Sobe e desce e desce e sobe, entrando nos mercados, comendo na rua, carregando uma gargalhada como uma cicatriz, se esquecendo do tempo sentada no banco do jardim com um kindle no colo e o olhar vagando dentro.

No mercado de lá tinha lichia, perguntei o preço, balancei, não comprei. Na esquina daqui tinha castanha portuguesa, não perguntei o preço, comprei-a-a como diria o Rolando Lero. E depois chorei.

Choro por tudo que a gente não teve, por tudo que a gente não realizou, choro porque eu sei etc. Eita, Fábio Jr.

Por muitos anos eu evitei visitar São Paulo achando que nada havia lá que fosse realmente me interessar. Boba. Por muitos anos evitei visitar o Rio de Janeiro temendo que a realidade não se empariasse com minha imaginação alimentada por Nelsons e Vinícius. Boba. Boba.

Bem baixinho, no cantinho: São Paulo me trata melhor. Pohan, Rio, chuva? (e nem vamos falar do tira-gosto).

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Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

E essa é a última vez que eu digo que é a última vez. Porque estou cansada de não estar contente, sabe. E não tem mais desculpa, nem pra você nem pra mim. Estou aqui, estenda a mão, abra os braços, me cante uma canção bonita. Qualquer versão disso. Eu entendo as dores, mas já não quero um afeto que se recusa. Que me recusa. Te deixei livre para todos os caminhos, o passo e a rota que você escolhesse. Mas não viajar é dolorido demais. Você fica. Fique. Eu vou. Violeira. E se confundo lágrima e neblina é só um jeito diferente de ver a paisagem. 

yuval

(Yuval Robichek)

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