Um amor chamado Boromir

Deixa a minha boca morar na sua boca
Deixa o meu sexo morar no seu
Deixa a minha mão morar nas suas pernas
E o meu quadril anexo ao seu

Euforia
Euforia
Eu faria
Tudo por você

No envelope: chá, cartão, cartinha de baralho. E palavras, muitas palavras. Na caneca, café. No peito, corredores vazios. A roupa de cama tem cinza e verde. Na mala, sapatos vermelhos. Livros que não li. Mensagens que não respondi. Redes que não frequentei. Mais boletos que dinheiros. Uma lista no spotify. Um artigo revisado. No vaso, florzinhas vermelhas. Várias renúncias. Uma hora inteira resumindo faroestes pro analista. Ele riu. Eu chorei. Você, você eu não sei. Não quero ser amada, quero ser entendida. Ele riu, eu ri também. Você, você eu inventei.

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Eu lembrava que gosto muito d’A Sociedade do Anel, mas eu tinha esquecido como o filme é gloriosamente bonito. Que uso primoroso da luz. E é admirável como os roteiristas conseguiram cortar vários eventos presentes nos livros sem perder a essência da narrativa. É um filme de afetos. De gente que não tem vergonha, nem de chorar nem de abraçar. Revi lembrando Meredith e Cristina. Elas caberiam direitinho entre os personagens. Em se tratando deles, aliás, ressalto que gosto demais do Boromir. Boromir é o personagem que vacila. Aquele personagem que enfia o pé na jaca com tanto gosto, que flerta com a desonra, que protagoniza tantos furos na virtude que se poderia pensar que existe só para servir de contraponto ao fodão. Mas não é (só) isso. Ele é tão, tão humano. Tão fraco, tão suscetível ao erro, tão vulnerável. É isso que mais amo: a vulnerabilidade. Porque é da sua imensa, enorme fraqueza, que ele se faz forte. É ele quem brinca com os hobbits, ele que se comove com a dor dos pequenos quando perdem o mago, ele que carrega uma culpa imensa por não ser capaz de proteger todo um povo, ele que cobiça, ele que se arrepende, ele que se inspira. Ele que se entrega. Ele é daqueles que, uma hora ou outra, sucumbem. Que eles caem, caem, mas que seja em cima de mim. Os mais humanos e, por isso, meus preferidos. Ele não sabe os caminhos, ele só sabe a chegada e, nisso, se perde. A morte de Boromir é tocante demais. Redimindo-se. E é tão simbólico que ele não cai no confronto direto. É preciso a covardia e a distância para atingi-lo. E uma imensa crueldade. 

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As pessoas saem com inquietações da sessão de análise, eu saio com dicas de faroestes.

Sim, carrego arrependimentos. Poucos e leves.
Como ter usado minha melhor dedicatória no livro que te dei.

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Cinema é um negócio mágico quando bem feito. Em poucos minutos, com as cores, o riso, as conversas, a gente entende porque Frodo – confrontado com a iminência do Condado ser invadido, resolve partir, proteger seu lugar e seu povo. Antes do bom e conhecido “salvar o mundo”, cuidar do que é alegre e bom. E não em um sentido mítico e expurgado de paraíso, entre os hobbits há fofoca, intriga, picuinha, maledicência, gula, alguma preguiça, etc. Ainda assim – ou por causa disso tudo – é um tempo/espaço precioso. 

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Hoje me perguntaram: se eu caio enferma, quem será meu escudo e minha espada? 

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Tem uma hora que Frodo diz a Gandalf que gostaria que o anel nunca tivesse chegado a ele, Frodo. Que preferia que nada do que lhe ocorreu tivesse acontecido. E Gandalf responde, com a genialidade do óbvio (não estou sendo irônica): assim como todos que vivem para ver tempos assim, mas não cabe a eles decidir. Temos de decidir apenas o que fazer com o tempo que nos é dado. Eu gostei dessa frase quando vi o filme a primeira vez e em todas as vezes subsequentes. Acontece que eu não tinha revisto ainda depois de 2015. Venho repetindo, como Frodo, que preferia outro mundo, outra vida, outros eventos. Porque que tempos de horror. Mas preciso encontrar o eco da frase de Gandalf, em mim.

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Um dos segredos da felicidade, ouvi dizer, é compreender a nossa relevância no mundo.
Acrescentei por minha conta: e rir disso. 

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Está confirmado, haverá um amanhã.

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