Porque eu quis

Tem uma coisa que eu gosto muito que é me perguntar: porque tal coisa? E responder (para mim mesma ou para outros que acaso perguntem): porque eu quis. Sem agressividade ou arrogância, um porque eu quis tranquilo, de boas. Alguns associam a liberdade de dizer porque eu quis com o avanço da idade. Outros relacionam com a quantidade de dinheiro que a pessoa tem, teve e sabe que terá. Outros pensam que se deve a muitos e bons anos de análise. Eu mesma acho que depende. Depende, primeiro, do assunto/área da vida. Tem situação em que o meu porque eu quis vem leve e solto desde quando eu era jovem e endividada. Tem temas em que meu porque eu quis ainda não sai ou sai temeroso, estrangulado, duvidando de si mesmo, da minha vontade, de mim, mesmo agora que estou rodada tanto na vida como no divã e – comparativamente – rykaahhh.

Na cozinha, por exemplo, o porque eu quis foi ganhando espaço quanto mais eu cozinho só pra mim. Meu molho para guioza é um porque eu quis clássico: tem shoyu, mel, cebolinha, gergelim e umas gotas de limão siciliano ou laranja. Porque? Porque eu quis.

Acho que a comida mais foda-se que eu tenho feito é batata cozida com azeite e alho laminado. Quando eu estou bem e quando eu estou mal, mas especialmente quando eu estou com fome e muita preguiça de cozinhar, que vengan las patatas. Claro que os três ingredientes nem sempre precisam ficar a sós. Hoje tinha, também, cebolinha picada, queijos variados – que estavam fazendo hora extra na geladeira – em cubinhos, e linguiça calabresa cortada miudinha, fervida e depois tostada. Eu não estou em paz com o mundo, eu não estou em paz com a minha vida, eu não estou em paz com as pessoas, eu não estou em paz comigo mesma, mas estou em paz com as batatas.

coração kintsugi

Os caminhos acabam. Alguns sonhos também. Amor, amor não, parece que vira raiva, rima, essas coisas. As coisas, essas sim, as coisas se acabam. Manteiga. Goma. Esponja. Papel toalha. Papel filme. Papel de carta. Até papel de besta. Na escrivaninha, papel em branco. Na tv, times alheios. Dias quentes. Noites escuras. Gente que me ama. Xingamentos cúmplices, #forarenato. Shampoo de canela. Uma japonesa nova tão bonitinha. E outros gastos extras. Planos e sorrisos. Arrumar a cozinha, a mala, a alma. Cary Grant dançando. Chico Buarque em contos e um tratamento tão generoso que a Companhia das Letras deu para o material. Domingo é pra dormir macia e cheirosa. Em limpos lençóis. Uma fantasia. Uma alegria. Uma distância. Manter o passo e o riso. Aceitar o tempo da estrada. E que a fortuna nos conduza.

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