Revisitando

Abrir portas, aguar plantas, acender fogo. Onde o sol entra a doença sai, diziam as avós ou dizem que elas diziam. Água, pó de café, coador. Goma, peneira, frigideira. Manteiga da terra – que adeptos de uma língua que me é quase estrangeira chamam “de garrafa”. Arrumar a mesa com a toalha estampada com versinhos advindos dos lenços dos namorados – sentir saudades de Portugal, colocar fados para tocar no celular, prosear com mãe e pai, cozinhar milho, responder e-mails irritantes, responder e-mails importantes, corrigir trabalhos, cozinhar batatas, limpar o peixe, temperar o peixe, rechear o peixe, assar o peixe, alimentar duas casas. Comprar passagens, suspirar, lavar louças, mandar mensagens, preparar slides, arrumar o kindle do pai, tirar tudo da cristaleira, arrastar móveis, organizar taças, aparelho de jantar da avó, coleção de canecas, trocar as mantas do divã e sofá, já é de novo cozinha, carne de sol, arroz de leite, casa da irmã, voltar correndo pra aula, esperar alunos, fazer o melhor possível sempre, sentir o corpo pedir repouso, espiar o céu, respirar fundo, fazer silêncio bem dentro, deixar o vento balançar cabelo e saia do vestido, fechar portas – deixando uma brechinha nas persianas. Já é quase um amanhã.

alexa

Tá lá no Vinícius: é impossível ser feliz sozinho. E eu sempre entendi mais ou menos como: precisamos do Outro para a felicidade, somos seres de incompletude, há sempre o vazio do objeto perdido enquanto perdido e por aí vai. Hoje, sustentando a compreensão inicial, mas emprestando-lhe uma outra camada, percebi que há certas felicidades que precisam ser contadas, esmiuçadas, compartilhadas letra a letra. Guardadas só em mim tiram meu prumo, me engasgam, aceleram meu coração no peito chega faz aquele barulhinho de carro de F1 na curva. Zuuummmm. Foi um pouco melancólico (não fosse eu uma peixinha) perceber que não havia ninguém para ouvir essa felicidade, ou melhor, ninguém que a ouvisse e a entendesse – como já houve. Ninguém que risse e suspirasse e o olho brilhasse. Tenho mais e – se o termo pudesse ser empregado nessa situação – melhores amigos do que já tive. Mas no envelhecimento nosso ficou no caminho aquela amiguinha do telefonema longo depois das 22hs, a da conversa no banco na calçada, aquela de quem eu guardei correspondência e pra quem revisei e até escrevi cartas que ela remeteria a seus paqueras, a amiga pra quem eu narraria meu sorriso e pra quem contaria detalhes insignificantes como se importassem – e ela realmente se importaria. Não quero soar errado, então esclareço mais um pouquinho: tenho muitos amigos e eles – sem exceção – se alegram com qualquer minha alegria. Com todas felicidades que eu sinta. Mas ficariam contentes e animados porque eu estou contente e animada – não pela coisa em si. O lance é que não tem outro alguém tão bobo/a quanto eu. Não que isso tenha me inibido, chamei uma e pedi: tenha paciência. E ela teve e me acolheu e achou bonito que eu ficasse feliz.

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