Imaginar felicidades

Eu tenho sentido saudades de tudo. Especialmente de imaginar felicidades.

Lua que míngua, pequenos planos, longas cartas engavetadas, gastos inesperados, imagens de Lisboa, jogos de futebol, queijo errado, o pão certo, uma depilação esquisita, susto, café, café, café, sua foto me doendo, a vontade do livro que é caro demais, uma encomenda que não chega, espera, espera, espera, um tempo com Odisseu, desilusão, o universo já não me aguenta mais, a sensação de morrer em um mundo muito pior do que o que vivi, café, café, pão com patê de ricota e azeitona preta, Fellini, Éris como deusa do mês, uma dúzia de garrafas de água vazias ao redor da cama, coisas por fazer, atos de #forabolsonaro pelo país, uma resposta atravessada, o samba da Mangueira para 2022, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia nessa pandemia, se não eu, quero nem saber quem vai fazer você feliz, opa, errei a letra e acertei o sentir, café, café, feijão e banana, escolher um conto de Capote, empilhar cadernos e baralhos, os suspiros, os muitos suspiros, a planilha de custos, Olhos nos olhos, a morte de Sebastião Tapajós, Edward Hopper pintando meus dias, vento pela porta da varanda, a pele macia, Bethania cantando à capela, uma história emperrada, a sensação incessante de pisar em areia movediça.

outono

Outono. Talvez seja a estação que mais me cativou quando a gente as tem bem marcadinhas. No outono tudo é maduro. Há cor, cheiro e disposição. No outono o morno das castanhas. As folhas vermelhas. O vento eriçando pelos e mamilos. O mundo perde o pudor. As árvores se põem nuas. No outono já não há promessas, a vida é em entregas. O outono é luxúria. E aconchego, também. Fumacinha na tigela e ainda azul nos dias. Uma manta colorida. E memória. Outono é outra luz. E terra. Pés descalços e encontro. Dourado à beira da estrada. Outono é essa vontade de chegar, encolher no abraço e aceitar o bom do agora.  Neste momento é outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, pode-se cantarolar ao percorrer, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam desnudas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.

Tem conversas que eu não consigo mais ter e coisas que eu não quero explicar. Se alguém não entende, por exemplo, porque ter apenas cardápios em Qrcoisa não é desejável, eu dou de ombros e sigo andando. Tô cansada demais. Eu tenho bússola, descobre aí a sua, baby.

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Escrevi uma Garrafinha esses dias sobre dias banais e me reinventar para viver os dias que chegam. Dá pra ler neste link: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu/letters/newscoisa-66-banal e se quiser assinar e receber as Garrafinahs direto no seu email, é aqui: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

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