Espelho, espelho meu

Enquanto grande parte do meu círculo está decretando o fim da pandemia + distanciamento social, engrenando uma quinta e retomando a vida como se covid fosse uma distante memória ruim, eu ainda estou tateando, tentando descobrir uma forma de sobreviver ao isolamento. Me apaixonar não resolveu, então agora eu escrevo cartas. Escrevo com muito, muito carinho, tentando fazer a letra ficar legível e dizer alguma coisa gentil. Se você recebeu uma carta minha e uma (ou as duas) dessas condições não estão presentes, saiba: não foi falta de esforço. Nesse processo, reencontrei um amigo, uma pessoa que amo muito, mas que, por completa falta de jeito minha, eu tinha afastado. Ponto pras cartinhas. Algumas pessoas recebem as cartas e ficam contentes. Algumas pessoas recebem as cartas e respondem. Aí eu fico contente. E re-respondo. Só não escrevo pra você. Bom, é uma meia verdade. Eu escrevo. Mas não envio.

Ressentimento é uma coisa amarga. E grudenta. Viscosa, de um jeito negativo. Vai chegar o dia em que vou me esquecer de lembrar de esquecer. Vai sim. Por enquanto, trago esse travo nas palavras. Recordo envergonhada, o que eu disse, fiz, dei. Risos. O que digo, faço, dou. Se nego às cartas envelope e selo, não é por querer te privar do que quer que seja. Não tenho essa firmeza de caráter. Já ofereci tudo que tinha em mim. Palavras são o reconhecimento da falta. Não posso te dar o meu vazio.

Para além do seriado juvenil em que transformei minha vida, tipo um Barrados no Baile sofrido, Brasília está caindo, vias fechadas por caminhoneiros que dançam macarena, um povo esquisito que usava verde e amarelo e bradava por repressão agora quer sair de branco, mas ainda querendo a repressão e desejando mortes várias – inclusive a minha, STF com notinha de repúdio, centrão raspando o tacho, Temer escrevendo cartinha pro bozo assinar e eu gastando meu doer com a mensagem sem setinhas azuis. Ridícula. É que fico agoniada porque eu seria feliz fazendo você feliz. Mas você não quer ser feliz. Não desse jeito.

Se eu desisti – eu disse que desisti, não disse? então foi, tá desistido – eu devia pôr minha violinha no saco e cantar em outra freguesia, de ouvidos mais atentos. Devia mesmo. Mas fico arrodeando, fazendo de conta que estou só afinando uma corda, fingindo que estou compondo a última estrofe antes de seguir, cantarolo alto como quem ensaia, invento miudezas várias para ficar por perto, fazendo bastante barulho, como ensinou o Pedro Cardoso, E nada de Deborah Bloch pra mim.

Pelo menos a casa está limpa e arrumada, as aulas estão em dia, telegramas foram entregues, tem fruta na geladeira, tomei meus remédios, aguei as plantas, fiz ovinho mexido e suco de laranja para jantar e, se eu dormir, em um amanhã será sol e mar.

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