A morte e outras rotinas

“No centro da sala, diante da mesa,
no fundo do prato, comida e tristeza”

Eu lembro sempre de um episódio de Grey’s em que a voz em off comenta que a gente nunca sabe que o maior dia da nossa vida vai ser o maior dia da nossa vida, que os dias que a gente espera que sejam especiais acabam nunca sendo exatamente o que se esperava deles. São os dias comuns, os que começam normais e sem expectativas, estes são os dias que terminam por ser os maiores dias. No episódio, excepcionalmente para esta série, eles estão falando dos grandes dias que são, também, os felizes. Mas eu acho que a lógica se mantém para todos os outros tipos de dias excepcionais. Como o dia em que você morre quando morre alguma coisa em você que lhe é tão própria, que você se acostumou a pensar naquilo como sendo você mesma. Alguma coisa. Um amor. Foi bem assim – e hoje eu posso sentar na cadeira de balanço e embalar a memória daquele dia – o dia em que eu morri. Não acordei antes nem depois do horário comum. Banho, escova de dente, de cabelo, nenhum sinal. Até aulinha de hidro eu fiz. Não almocei, mas também isso era comum naqueles dias. Em algum momento da tarde, suco de laranja. Trabalhos corrigidos. Notas lançadas. Pedido na feirinha. Emails respondidos. O sol que subiu, descia. Tudo como mandava o figurino. E aí, então, eu morri. Entre um silêncio e um emoji. Bom, não exatamente eu. O amor. Ou a crença que o insuflava. Uma brincadeira com dominós. Morreu aquele algo que sustentava o amor que me fazia existir. Tão bonitinha, ela. Pois é, morreu. Morrer dói, é a informação que eu trago aqui (como diria o moço do choque de cultura). Foi no meio da dor que eu percebi que aquele era um dos grandes dias da vida, do tipo que se falava em Grey’s. Depois de morrer continuei fazendo o que tinha que fazer. Orientei alunos, vi tv, fiz sopa, comi a sopa. Li, escrevi. Dormi. Acordei. Morta. Mortinha. Foi interessante – e um tanto perturbador – daí pra frente, imaginar quantos outros mortos haveria vivendo no mundo. Talvez alguns deles até assistam grey’s anatomy, como eu.

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 Se eu tivesse vergonha na cara, não postaria essa Bacall hoje

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Cá dentro, eu sei: gosto, de uma forma terna e dolorida, que não cheguemos nunca a nos encontrar, mesmo com toda essa fome que tivemos um pelo outro. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, tantos futuros se dissolvendo. Gosto que não cheguemos nunca a nos encontrar, eu repito, agora em voz alta, e a minha mão te procura e o mundo me chega morno e salgado.

Não há você, mas eu lembro a história. A do primeiro bichinho de estimação: um porquinho da índia que um dia, tão velho, tão velho, sumiu. E quem não quis acreditar quando uma mãe ofereceu abraço e mentiras e disse: ele fugiu? Eu, eu também quis acreditar na fuga do porquinho.

Hoje, sem mãe, sem abraço, sem você, me sobra a mentira: o porquinho fugiu.

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A conversa que Phoebe tem com os embriões é meio o que eu queria dizer pra alguns moços: estou aqui pra fazê-los se sentir bem e quentinhos por um tempo, depois vocês serão devidamente entregues e tal. E, claro, quando nos virmos, se eu estiver gritando, não se assustem, é assim mesmo.

Obviamente essa é uma mensagem na garrafa que nunca chegou à sua praia.

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Além disso, Mathilde é uma otimista.
 Tem para si que, se aquele fio não a levar ao seu amante,
paciência, não importa, ela ainda pode se enforcar com ele.

Depois de morrer, fui ver um filme. Rever, a bem da verdade. Um Longo Domingo de Noivado. A esperança, essa droga perigosa. O esquecimento. Os horrores da guerra. O horror, talvez mais duro, da incerteza cotidiana. As imensas tragédias. As pequenas perdas. A cena do farol, que justifica todo o amor, toda a espera, todos os amores que você e eu vamos sentir ou já sentimos, todas as lágrimas que choramos, todos os sonhos que cultivamos. O cinema me ajuda a pôr a vida em perspectiva. Me faz lembrar que, fora os filmes, é isso mesmo: um dia e outro e outro e outro e, se puder, um pouco de alegria. Enfim, para além de Pollyana, me descobrir Mathilde. Seguro, firme, o fio. E sigo otimista.

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