Chico César, Eco, Camille, Fal, o moço da Polishop e um texto com soluço

para viver em estado de poesia, me entranharia nesses sertões de você“. era essa a coragem que eu esperava. a única disposição. a vontade. nenhuma promessa mais. não almejo amanhãs, os hojes me bastam. tu se engraçou, eu correspondi. mas não se engane que o pouco não é um nada. eu não me furtei, mas tu não me arrecebeu. em certo momento, quanto menos você aí, mais você em mim. crescendo, crescendo, crescendo. desejo, saudade, anseio. mas você cresceu tanto que já não há mais espaço. eu bem que tentei, botei pra fora outros sentimentos, planos, belezas, lembranças e você cada vez maior em mim, ocupando cada brecha, até começar a transbordar. e agora eu choro você, suo você, cuspo você, você sai de mim de todos e tantos jeitos. eu tento vedar as rachaduras porque eu amei tanto te amar e tenho tanto medo de ficar oca sem você e sem mim cá dentro. oca sem sequer a dor de te querer me acompanhando nos dias e me assombrando as noites. medo de murchar e encolher e desaparecer e me perder e me esquecer e me desencontrar. e emudecer. é do que tenho mais medo. de não conseguir dizer nada mais, se eu nunca disser que te amo.

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Umberto Eco é um autor muito inquietante. Você olha sua estante e pensa que tem o bastante da obra dele. Aí de repente você descobre – ou alguém descobre e mostra pra você – um texto que lhe é desconhecido e você percebe que precisa ter. Imediatamente. E não é só isso (como diria o moço da Polishop), você também sente que tem que distribuir o tal livro para algumas pessoas queridas. Cartas, livros e vasinhos com flores na varanda, sei não, talvez a infinitena tenha aberto uma fenda no espaço-tempo e eu tenha me mudado para uma década qualquer em outro século. Afinal eu coro quando vejo aquela letra no envelope. Uma coisa desconcertante é encontrar uma frase que fez belezas em sua vida presente na narrativa de mudança de vida de outra pessoa: “você só precisa pagar a passagem”. Procuro sentimentos futuros nas entrelinhas. Releio para passar mais tempo ao lado da pessoa sombra que mal vislumbro. Seguro o facho. Preencho páginas com a letra esparramada, ansiosa por ser despachada. E por uma ou duas horas eu não sou sua. Eu não me ressinto da ausência, não preencho o silêncio com lágrimas, não definho. Definhar é uma palavra estranha. Só de pensar nela já me sinto um pouco debilitada. Passam os dias pra mim – ou eu por eles – e sinto que estou perdendo alguma coisa. Eu mesma. É como se a tristeza me consumisse lentamente de dentro pra fora. Não mais aquela angústia ou desespero sustentados pela esperança de um “nós”, em uma irônica contradição vou sendo esvaziada ao ser preenchida por uma resignada aceitação de que o horizonte encantador era um cenário pintado. E lamento. Fico triste de marré descer. Eu sei que você gosta de mim, os astros, os búzios, as cartas e suas próprias palavras dizem isso. Talvez fosse melhor se você não gostasse. Seria mais fácil soltar as amarras, deixar o barco deslizar suavemente embalado pelas águas do esquecimento e seguir para um além de outros afetos. Mas fico e o lodo se entranha entre as tábuas do casco, encaixes enferrujam, as velas mofam, dobradas e úmidas, todo o estoque de rum acabou. Onde está o bom e velho “ele só quer te comer” no lugar dessa sintonia assustadora que parece querer ameaçar mundos? Quem quer casar com dona baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha, é carinhosa e não faz doce mas pode rolar um torresmo ou um peixinho? Claro, onde se lê casar é pra trocar por dar uns quebras, ficar, chegar mais. Alguém além de mim ainda fala dar uns quebras? Talvez não. Mais ainda se fala de outra das minhas frases preferidas. Foi a Fal falou citou hoje, no diarinho: Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente. Sentir a ausência de algo que nem se sabe o que é. É Camille e é, pra mim, a leitura sentida de Caio dessa ideia de Camille. É o filme, é meu passeio solitário pelos jardins do Museu Rodin. São corpos dolorosamente enlaçados. Doloroso como ler um texto como esse, que entalou.

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