Atropelamentos

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Se eu disser isso, se eu mandar de presente aquilo, se eu fizer de um jeito ou de outro, pode ser que a pessoa entenda errado. Pode ser mesmo. Já aconteceu muitas vezes, inclusive. Mas se eu não fizer isso ou aquilo, se não enviar o presente, se não disser o que quero, construiremos fina camada de gelo sobre o lago como relacionamento e, um dia, pisando mais pesado na travessia, me afogo congelada. Não me parece um futuro promissor. Isso dos afetos é a minha praia. Não entendo de muito mais que isso. Finjo que entendo, mas, por exemplo, não sei direito a diferença entre sopa e caldo. O que não entendo, invento. Arrumo as palavras, as ideias, os sentimentos de forma que construam um mundo pra mim. Um mundo meu. Olhando de perto, lembra seu rosto. A coisa mais difícil que fiz hoje foi não responder à sua mensagem. E, olha, não foi um dia fácil. Na outra caixinha, notícias alvissareiras. Vem aí, um evento. Tenho nem roupa pra isso. Com sorte, não precisarei delas. Luciana, qual o mantra da sua vida, o maior ensinamento, seu farol desde a infância? quem já viu não se admira, quem nunca viu não sabe o que é. A vida já foi e vai voltar a ser mais de boas é a ilusão que alimento pra não saber que viver é superestimado e, ainda assim, é como a democracia, a melhor opção, etc. Faço listas dos médicos que preciso visitar: dermatologista, dentista, oculista. Não sei se a vista borrada é problema ou lente do óculos que está suja. Gostaria de ver mais. Inclusive ver mais séries e filmes para conversar com as pessoas, mas chega o fim de semana e eu assisto futebol, futebol, futebol. Perto da meia noite do domingo entro no site da universidade para aprovar relatório de iniciação científica só para desviar a cabeça e não mandar mensagem para você. Que nem leu o Eco. Perdi o controle, talvez. Talvez? Rá. Meu cabelo está bonito, minha pele está macia, meu cangote está cheiroso. E ninguém por perto.

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Amalia Bautista, CORAÇÃO DESABITADO, selecção e tradução de Inês Dias, ed. Edições Averno

Eu tive um pequeno vislumbre quando estava lendo a autobiografia do WA, mas larguei o livro, desviei o rumo, fechei os olhos, fugi. Foi assistindo o especial do Chico na Netflix, que entendi. Entender é um termo delicado e elegante demais pro que aconteceu, na verdade. Fui atropelada pela compreensão. Não é que você seja a pessoa de quem eu mais gostei. Não somos a maior história de amor ou algo desta natureza. É que saber que você existe me faz me sentir só. Muito só. Muito, muito, muito só. Porque todos os outros moços podiam – e uns ainda podem – me tirar os pés do chão, roubar o ar, fazer a cabeça girar. Eles podem me fazer bem. Podem me inspirar, me emocionar, me comover. Podem me excitar. Mas eu nunca pensei que eles veriam isso ou aquilo tão perto do que eu vejo. Não sentiriam tão perto do que eu sinto. Perto, próximo, íntimo. Por dentro. Não igual, melhor até. Encostadinho. Poder ser assim e não ser dói de um jeito que eu nem sei explicar. Disse ela: ninguém pode ser o que você quer ou precisa que ele seja – e ela está certa. Certíssima. Mas pode ser pior: alguém pode ser o que você quer ou precisa (você sou sempre eu, quem nem quando escrevo a gente, a gente também sou eu) e mesmo assim não querer, não poder, não qualquer coisa que impede que ela esteja, mesmo sendo. Meu único consolo é que sempre que entendo um pouco mais desse sentimento, mais perto fico de me despedir do mesmo. Do amor só é possível fazer autópsia (nem lembro quem disse, mas alguém disse).

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