Pés. Aos seus. Barro. Chumbo.

Terminei de escrever na madrugada de quarta, pensei: melhor publicar durante o dia. Esqueci, claro. Mas tô aqui, infinitena, sobrevivendo a mim mesma.

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                                                Meu mundo você é quem faz, música, letra e dança

Parei no diarinho em que ela disse que existem opções. Porque, a quem eu quero enganar, é mais fácil fazer de conta que ficar aqui, na tal pedra do porto, é destino. Ela está certa, existem caminhos, posso fazer escolhas. Não faço, mas aí o problema é outro. Decido visitar meus pais. Duas vezes, em dezoito meses. Tomar banho de bica. Ouvir e contar histórias. Comer chapéu de couro. Cantar bem alto no carro de vidros fechados. Não tenho nenhum unicórnio pra resgatar, mas senti falta dos meus zecas ao lê-la no domingo. Aqui não choveu. Rego as plantinhas disciplinadamente, se alguma coisa der errada, não fui eu, não fui eu, não fui eu. A não ser na medida de que eu é que dei errado. Vontade de apertar a mão dela e dizer, não como quem consola, apenas estupefata com a coincidência: eu também não sei o que estou fazendo. Outras decisões. Cortar o cabelo. Abrir uma cerveja. Escrever um tanto de cartas. Marcar o dentista. E o que nem é preciso decidir. Preparei aulas. Inventei problemas futuros que não me façam parecer ter 14 anos. Mas inventar problemas futuros é muito, muito juvenil. Bola fora. Ela teve um dia todo sem mim. Senti um pouco de ciúme. Ri disso. Eu tive uma vida toda sem você. Como era mesmo? Leio o diarinho, uma palavra puxa outra e lembro que vou espalhando minhas pedrinhas no tumblr: peladonas, cigarro, cerveja, ofélias, cores em você. Tudo com você, como na música da Letrux que dói, escuto em looping e vai queimando, ferro de marcar gado. Já tive tudo com você. Na minha cabeça. Você nunca pisou lá, no tumblr, você não tem tempo pra me ler, me ver, me ouvir. Deixo as placas, sinalizo as estradas e aí me lembro do amigo debochado da Julia Roberts no filme do casamento em que outro amigo é quem casa. Atenção, não tem ninguém correndo, etc. Eu hoje precisei de você. Não é sempre, o sempre é o desejo, mas, sim, hoje eu precisei de você. Escrevo com tinta invisível: quero te contar coisas e que você também segure minha mão. É só isso, quero não me sentir como eu estou me sentindo, agora, agorinha; eu quero me sentir como me senti há três horas. Por três minutos. Tomo um banho longo, mas você não sai com espuma. Ou lágrimas. Talvez uma intervenção. Cirúrgica. Ela disse nariz. (leia aqui) E tudo o mais sobre ele. Ou melhor, sobre a ausência de. Eu li e entendi assim: o bem querer do moço. Já estamos todos enjoados dessa ladainha, eu, os leitores, você. Recuo um pouco, você talvez não, você nem deve saber essa angústia. Como um totem displicente, recebe as oferendas que deposito regularmente na sua caixinha como se fosse nada mais do que a ordem do dia. Tento me afastar, mas se seus pés são de barro, os meus são de chumbo.

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