Salonpas e outros anestésicos

(sim, eu rio de mim mesma)

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Terça-feira, meio dia: completamente destruída, corpo, alma, coração, não tem pedra sobre pedra. Usei salonpas pra dormir, infelizmente não tem desses pros lugares onde o desejo maltrata.

Os domingos enganam a gente, às vezes, né. Olha o dela, franguinho, maionese, pessoas e bichos numa boa. O meu nem foi mal, peixinho, florzinhas, risadas com o pai e toda galera, bom filme, bom livro. A segunda acordou pensando que era domingo, filho meu vacinado, pranto que é sorriso. Aí o Molusco foge, lá nela, aqui começa a aparecer dor em tudo que é lugar, amiga com problema renal, gente querida com covid, orientando que não entende o que se diz, universidade mandando colocar datas fictícias no sistema para fazer processo seletivo, faço comida conforto que não confortou, noite mal dormida, pesadelo com você, chegamos ali no começo do texto, salonpas, lágrimas e a terça com tanques na rua, nenhuma mensagem na caixinha, nenhuma carta no escaninho. Caiu uma obturação. Escuto os velhos homens na CPI e sinto tudo murchando cá dentro. Queria que alguém me fizesse uma jarra de suco de laranja. Sinto cada vez mais saudades de um outro lugar sabendo que sinto falta mesmo é do outro tempo. Que podia ser um futuro. Conto os livros dentro do quarto: 26. Não estou lendo nenhum deles. Estão ali, empilhados, provavelmente tentando derrubar a prateleira do móvel da tv. Compro ou não compra mais salonpas?

Choro porque nos acomodamos com mil mortos por dia. Choro porque perdemos o verniz na coisa pública. Choro porque prenderam um moço que tocava saxofone, Choro porque as margaridinhas amanheceram feinhas. Choro porque tenho que encher as garrafinhas de água. Choro porque não estou em Paris. Nem em canto nenhum. Nem mesmo em mim (eu sei, já disse isso, mas ainda sinto. Não é porque escrevi uma vez que deixo de sentir. Queria que a escrita tivesse esse poder de esponja mágica).

Minhas mãos geladas. A respiração forçada. Onde estão os balões de oxigênio? Falo com o moço que sabe ser tudo e são corpos e suspiros e sonhos e sapatos vermelhos e eu respiro mais fundo e sinto o morno na pele, sou tão grata por me fazer latejar. Mantem alguma coisa ligada. São muitos os nãos por aqui. Eu não sei piscar. Não sei estalar os dedos. Não sei levantar a sobrancelha. Não sei enrolar a língua. Nem lidar com o mundo real. Escrevi salonpas, o corretor transformou em sadomasoquismo. Pedi remédios e um sorvete. A farmácia não mandou o sorvete. Eu entendi a mensagem, universo, não precisa sapatear nas minhas costas.

Marquei reuniões. Fiz anotações pra hoje a noite. Paguei mais uma rodada de aulinha de cinema. Coloquei uma tabela ao lado dos remédios pra não esquecer de toma-los. Esqueço de marcar o x na tabelinha. Paquero mais um deck de tarot. Eu não leio tarot. Leio cartas, mas elas não chegaram ainda. Ross e Rachel estão namorando. Pode ser fanfic? Pode. Mas nós vivemos atolados em fake news de mau gosto, vou deixar essa bonitinha na mesinha de cabeceira pelo mens uma noite. Junto com taça e garrafa de vinho. Ama como uma estrada começa, disse Mário Cesariny. Bonito, né? Mas como começa uma estrada? Quando se precisa de um destino. Eis um porquê possível. Mas como? Com um passo e uma coragem?

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