Eu, no x-games da vida e uma dolorida resignação

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Desde que comecei a ver X-games com Bob Burnquist, Mineirinho e cia., descobri que tenho alma de skatista: volta após volta taco a cara no cimento e ainda me lembro de rir porque, sei lá, em algum momento eu vou voar e quando há voo, ah, que beleza. Por isso, estou na pista. Claro que arranha, machuca, arranca a tampa do joelho. E, também por isso, chorei no divã. Mas consegui dizer: displicente. Porque há quem não tenha o que dar. Mas há quem não se importa o bastante para lembrar de. Espero que sejam lágrimas suficientes para encharcar seus pés de barro. Abrir mão de um amor é ceder de quem somos naquele amar. É difícil perder esse você que inventei, mais difícil ainda me despedir dessa eu que quis, quis mesmo, quis tanto, você. As águas do desejo são turvas, eu quase me afoguei. Faltou o ar. Ainda falta, mas nesses quandos, vou pra varanda e mergulho no azul. Ou encho a banheira. Ou peço uma comida gostosa. Trato bem o corpo que você ignora. Não tenho muita certeza se vale a máxima que cada um escolhe a vida que leva, mas confio que cada um escolhe a vida que lhe leva. Como uma versão da canção do Chico escrita em outra linha temporal (pois é, eu vi Loki), consta nos astros, nos signos, nos búzios, nos anúncios, no espelho, garantem os orixás que eu tenho que deixar pra trás. Abrir mão. Desapegar. Eu sei o quê, eles só não explicam o como. Continuo caindo com tudo no cimento. Mas continuo levantando. E buscando o voo.

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Infinitena, ano 2.
509 madrugadas
561 mil mortes
Aproximadamente 20.026.500 casos de coronavírus
1.118 mortes em 24horas
2 doses de Astrazeneca e nenhuma reação (mentira, muitas: fiquei emocionada, zangada, solitária, contente, aliviada, foram tantas que nem sei descrever)
373o dia no calendário kalúnico
Um apelido, uma ou duas playlists, um coração partido

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Estou me resignando à ideia de o Brasil manter um número constante e significativo de mortes por covid. Estou me resignando a, eu mesma, ficar cada vez mais em casa, não voltar a frequentar cinemas, restaurantes, não fazer compras em shopping, me resignando a não viajar pra ver amigos em outros estados. Estou me resignando a fronteiras internacionais fechadas ao turismo brasileiro e a passar todas as férias na praia aqui vizinha.

Porque olho pela janela e tem artista que foi resistência esses meses todos, fazendo shows – com todos os protocolos. Amigos e conhecidos que se cuidaram esse tempo todo achando que é o jeito abrir mesmo todas as escolas – com todos os protocolos – porque já não dava mais. Vendo gente juntinho, juntinho, juntinho em festas e comemorações e fazendo presencialmente trabalhos que poderiam ser à distância – com todos os protocolos – porque a vida precisa seguir.

E eu já nem estou mais discutindo se ainda dava, se a vida precisa mesmo seguir, se a arte é ou não indispensável agora. Não estou culpando ninguém nem mesmo considerando quem devia ser mais ou menos forte, mais ou menos resistente, fazer assim ou assado, Estou apenas triste porque todos os protocolos são absurdamente desconexos do que é efetivamente recomendado: não são espaços ventilados, não é obrigatório uso de PFF2, não tem intervalos em curtos espaços de tempo para se estar ao ar livre. Apenas se aceita o termo protocolo do jeito que ele vem, se inspira fundo, se reza ou se torce pro melhor e nos acostumamos à dor.

Eu me espanto, eu realmente me espanto, porque dá pra saber exatamente o que precisa ser feito pra minimizar. Não estou almejando isolamento, lockdown, essas aspirações mais nobres de um tempo anterior. Mas testagem, sabe, coisa possível. Máscara. Rastreio. Não é difícil, até eu que sou limitada, sei.

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