Corpos em desalinho

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Cometi uma carta de nove páginas. Nove. Já estou até encabulada. A semana vai começar puxada. Disse sim para todos os compromissos de segunda e agora vou ter que rebolar, rebolar, rebolar. O que eu queria mesmo era ficar ouvindo o disco novo da Bethania por horas e depois me entorpecer de esporte. Não existe mais nem um pedacinho de mim pra te oferecer. Tenho que contar que você fique por aqui apenas pelo prazer da companhia. Fique, eu disse? Volte. Uma história só existe ao ser contada. Esta se dilui no seu silêncio. Teimosa, insisto ao gritá-la na beiradinha do abismo, mas sinto o ridículo de receber de volta apenas o eco debochado das últimas sílabas das minhas próprias palavras. Vou regar a margaridinha na varanda. Passar um café. Dobrar lençóis. Colocar máscara sobre máscara para enfrentar o lá fora. Sempre tive o sorriso fácil como técnica diversionista para os olhos tristes. Além da questão estrutural, tenho birra pessoal com a monogamia que ano após ano vai sequestrando parte da minha intimidade com as amigas. De tudo no envelhecer, o que me tem causado espanto e pena é ficar tão quebradiça. Recebi a segunda dose da vacina. Na esquina de casa. Viva o SUS. Diferente da primeira dose, que comemorei em praça pública, estou escondendo essa no texto que quase ninguém lê. Não sei bem por quê. Talvez tenha me dado a dimensão de uma outra solidão. Mas não passou em branco, celebrei tomando um suco de laranja e tentando despachar o máximo de tarefinhas como responder e-mails e marcar orientações. Zanetti aumentou a nota de partida e bateu com a cara no colchão. Arriscou tudo e foi imenso. Eu fiz o mesmo, aumentei a aposta, paguei pra ver. Sem igual grandeza, mas com semelhante resultado. Tudo bem, é só um pequeno sangramento no nariz.  Recebi a proposta que espero desde 2015 e disse talvez, mas com sabor de não. Almocei um picolé. Participei de reunião, dei boas sugestões. Chorei com crônicas bregas nos canais de esporte. Reli o diarinho da Fal vezes e vezes. Atenção para o segredo: o bom da amizade é a outra pessoa. Olho a despensa como certas pessoas lidam com o guarda – roupa: não tenho nada pra vestir, digo, pra comer. Você me fez perder a mão. Prometo, outra vez, sim, outra vez, deixar ir. Não esperar. Não pedir. Não tentar. De novo. Chamar o sol. Então, é isso. Mas, pra você saber, se estamos no escuro, corpos em desalinho e pés entrelaçados, é mais fácil dizer. Até adeus.

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