Era uma mulher com seu caderno

 “Não era mais uma menina com um livro:
era uma mulher com o seu amante”.

Algumas vezes escrever é como caminhar no pó de estrelas, lúdico e brilhante, e a gente se sente um tanto Wendy, fazendo a curva no Big Ben e partindo para o mágico espaço onde agora é sempre. Na maior parte das vezes, porém, escrever – pra mim – é desbravar cavernas subterrâneas, onde incessante se escuta o gotejar das dúvidas e a mágica possível é continuar respirando e acreditando que o sempre é só agora, vai passar, e um nunca prometido e visionário está em alguma curva, em algum vão, no próximo tropeço, talvez. Entre o ar rarefeito do vôo e do profundo, se passo um dia sem escrever, quando retorno pra folha em branco, volto sempre com um medo esquisito de não saber mais como se faz. A quem eu quero enganar? (a mim mesma, pra começar e, se possível, a você também). Como falar de qualquer outra coisa quando só me vem palavras sobre o que eu não posso dizer? Não posso? Não quero. Não sei. Só sei que plantei, adubo e diariamente trago minha canequinha com água para regar este segredo. Vejo cores nele. Opa, em você. As aulas não me permitiram acompanhar o incêndio da Cinemateca na hora em que aconteceu. Alívio. As aulas não me permitiram acompanhar a live da Tina com Mary W, Helê e, claro, com ela. Perda. A vida dá, a vida tira. Vejo a conversa com atraso e me engasgo com todos os comentários que queria ter feito. Tanta coisa silenciada. Ganhei um caderno. Sim, Mardônio, eu percebo a ironia. Na tv, atletas de vários países choram. De alegria, de tristeza, quase sempre o principal sentimento é decepção. Sim, Mardônio, de novo, eu sei, eu sei. Eu falei de saudade e fui respondida. Partilhamos vislumbres de esquinas e ímãs de geladeira e eu passei uma hora inteira sorrindo. Gosto desse devagar dos envelopes, me ajuda a respirar. Tive uma ideia gentil e deixei no quase. Cheguei a pensar que tinha gastado todas com você. Você que, ainda. Você que inventei e reinventei em mim. Ainda sinto a fome. A besta no ventre. Fico pensando se o o problema é que fui educada pela Teresinha e agora não sei, você me contou suas viagens, vantagens, me diz rainha mas não me entrega nada e, ainda assim, posseiro, claro, como não? Às vezes estranho seu rosto. Saberíamos nos reconhecer além das palavras? Fui espiar o céu, sem lua, sem estrela, sem lembranças nem promessas. O escuro como o primeiro ou último abraço. Às vezes eu tenho medo de não estar viva, mas nunca de morrer.

lacan caminhnoeiro

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