Pássaro sem asa e um campo minado

Uma segunda bem longa. Que não se cansou ainda de nós, ela disse na hora do diarinho. Um jeito muito mais bonito do que reclamar e reclamar e reclamar da exaustão, como eu tenho feito. Ainda assim, apesar da beleza do enunciado, uma segunda imensa. Olimpíada de noite e de manhãzinha. No intervalo: coisa demais pra fazer, pra pensar, pra sentir. Até os quitutes das olimpíadas sofreram os efeitos, fui apenas de tortilla de batata com cebola e queijo. Graças aos deuses pela cebola e graças a quem deixou o leite talhar, pelo queijo. No meio, um divã inesperado. Meu rosto no espelho. Não, meu desejo no espelho. Confirmando imperativos. Firme, luciana, firme. Apesar do mate, apesar dos sonhos. Um passo, outro passo. Mas tem um sensor, né. Só pode, tipo aquele das granadas enterradas. Pisei em uma e sempre que penso em sair e diminuo o peso, dispara como se fosse estourar. Você adivinha. Gentileza, elogio, coração. Eu, manteiga. Vexame. De novo em cima da granada. Suspirando. Coloco o sorriso no rosto e faço de conta que. Bem leve, leve, é isso, marisa? A amiga é tão amiga que assistiu a live no dia seguinte. Nas redes vejo pessoas fazendo planos de encontro, viagem, bar para vinte dias depois da segunda dose da própria vacina e me dá um desânimo. Não estamos entendendo nada. Lá dentro uma voz corrosiva lembra que eu mesma faço planos para dezembro. Argumento que é um hipotético dezembro. Se houver cobertura vacinal. Se isso, se aquilo. Leio a notícia que a taxa de contaminação no brasil deu uma leve subida. Não verás dezembro nenhum. Como é mesmo o nome dele? Tento responder e seu nome gruda na minha língua. Escuto letra por letra na minha própria voz e cada uma delas é uma pontada no coração. Bico afiado. Pássaro sem asa, rei da covardia. Arrumo a cama, aguo as plantas, choro de vez em quando. Alterno tristeza e beleza. Obrigada, olímpicos. As dúvidas do cotidiano me atropelam. Já liguei pro moço que conserta a máquina de lavar roupa? Claro que não. Compro ou não compro o salmão pelos olhos da cara? Claro que não. Porque a vida real é tão exigente? No mais, café, feijão, farinha. Do que é fresco, banana, coentro e rúcula. Nem era diarinho mas ela quebrou minhas pernas colocando o Zeca Baleiro pra me lembrar o tanto que quero –  tua língua, mamilos, beijo, Tejo, Guanabara – e me desprezar levemente porque vou passar agosto esperando setembro, setembro esperando outubro, outubro esperando novembro, novembro esperando dezembro, dezembro esperando você e você, você vai dizer sim e depois silêncio. Agora, outras esperas. Espero um trabalho por email e espero um email de trabalho. Nenhum dos dois chega, passo pro próximo serviço. Tento não prestar atenção nos estragos no Cnpq e na possibilidade de ter que fazer lattes e tudo mais de novo. Você acorda lá no seu longe. Eu aguardo o dia de não precisar mais de você para dormir. Anoto vários nadas no caderninho. Leio os contos para o Cortazar na quarentena e penso na imensa sorte de poder ser outra nessas noites de fumaça, taças e livros. Meu carro estava se desmanchando por falta de uso. Meu cabelo mais cai do que cresce. Preciso marcar oculista, exame, dentista. Ou morrer me desmanchando, como o carro. Pergunto para as cartas se há um moço pra mim. Sim. Pergunto se ele está em Mossoró. As cartas debocham e mandam um não em neon. Tenho um grande número de quadros para colocar na parede. E eu, eu nunca. Não dou conta dos quadros, das dores, do tempo, das tarefas, de todas as mensagens. Me irrito com mais um mouse com problema. Escuto crianças brincando na rua e sorrio. Há algum alento em ainda conseguir sentir o bom. A ginasta russa terminando sua apresentação no solo ternamente comovida é meu espírito animal. Escuto a comentarista dizendo: não existe atleta sem dor. O atleta convive sempre com a dor. Cada um sente dor em algum lugar. Você é meu esporte.

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Infinitena, ano 2.
#dia500
nenhum corte de cabelo profissional
1 corte de cabelo amador
1 fim de semana na praia
1 cadeira preta com furinhos
1 viagem constantemente adiada
3 semestres completos e 1 iniciado
108 encontros do Cortazar na Quarentena
7 aulinhas  de cinema
1 oficina de escrita por começar
2 shows da Salmaso
1 encontro com os pais, sem abraço
1 artigo em evento e 1 artigo submetido à revista
4  madrugadas olímpicas
5 medalhas
#dia364 no calendário kalúnico
4 tentativas de ir embora
1 piada repetida
2 Verissimos, 1 pintado
1 Melody Gardot
1 vontade
1 ilusão de encontro
61 garrafinhas
1 dose da vacina
551 mil mortos
551 mil mortos
551 mil mortos
1 horror inesquecível

Vejo a amiga à beira de despenhadeiro e meu coração falha. Penso em gritar cuidado, mas tenho medo do desequilíbrio em caso de susto. Que coragem é essa, amiga, andar vendada assim na beiradinha? Toda nua. Toda. Pé em ponta, rodopios, faz pose, balança. Vou devagar, mão estendida, cheia de sermão pra depois do resgate. No finzinho da pedra, o ao redor vazio. Era eu, era eu, era eu. Eu e o abismo. Me empurro, então.

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