Que jogo é esse

Estava ouvindo a live no Fiftinah sobre Literatura e envelhecimento (vão lá ouvir também) e em algum momento a Tina fala que uma das dificuldades de envelhecer é uma certa dificuldade de se reconhecer. De olhar no espelho e não ver a si mesma na imagem que olha de volta. E fez uma luz em mim. Eu não tenho recordações visuais de mim mesma (e também não tenho boa memória sobre vocês, gravo os traços básicos, mas realmente me escapa se cortou cabelo, engordou, emagreceu, cabelo tá branco, ruivo, tem ruga, não tem, pé de galinha, colocou aparelho, etc. Eu identifico o essencial). É isso, não lembro como eu fui ou sou. No máximo lembro da minha imagem em algumas fotos antigas, mas nem isso é significativo porque são lucianas diferentes dependendo do ângulo, roupa, etc. Não tenho uma imagem pra perder e, assim, não tenho uma imagem pra reconstruir no processo de envelhecer. O que o espelho me oferece não é um reconhecimento, mas uma descoberta. Tem suas vantagens, garanto. Algumas dores e preocupações me escapam totalmente. Mas também cobra um preço. Tanta leveza, tá lá no Kundera, torna-nos menos que reais, tão livres quanto insignificantes.

Sorte no jogo, azar no amor. O jogo:

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Tem dia que não é dia. Ontem não era o do Nory. Antes das provas eu já senti. No solo, ele tava indo bem e eu avisei pra amiga: não vai rolar. Ele caiu de bunda logo depois. Tem dia que não é dia, O leite ferve e derrama, a gente queima o alho, bate o dedão do pé no pé da mesa, vê o ônibus dobrando a esquina quando chega na parada, deixa cair o celular no chão e trinca a tela e, mesmo que fique quietinha em casa, só esperando passar o dia, ainda é capaz de receber má notícia pelo telefone. Tem dia que não é dia, o corpo não corresponde, a mente vagueia, a alma fraqueja. Se fosse no dia anterior, quem sabe. Se fosse amanhã, talvez. Mas naquele dia, não dá, não vai, não anda. A gente cai de bunda no chão. O que o amor faz é enfileirar esses dias numa sucessão de desilusões olímpicas. Um calendário próprio só com dia que não é dia.

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Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore, 
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto. Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha…

(Adélia Prado)

Eu também queria, Adélia. E também tentei. Coisas que não dou a qualquer pessoa. A quem eu quero enganar? que nunca tinha dado a ninguém. Uma caixinha de pedacinhos de mim. Um envelope com instruções. Um livro, outro, uma imagem através de furinhos. A gente repete e repete o dar o que não se tem e esquece do a alguém que não o quer, não pediu, e, às vezes Lacan, nem faz conta.

Um jogo. Cheguei com a partida em andamento, ninguém me passou as regras e a sensação é de que estou perdendo de lavada.

Todo dia me beliscar para saber se sou capaz de sentir outra coisa além desse desejo.

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Teve mais coisa nas Olimpíadas: o jogão de futebol feminino, Brasil e Holanda, empate de seis gols. Marta, digna e analítica no pós-jogo, é quase tão bom vê-la dando entrevista quanto é gostoso vê-la jogar. Teve zebra no vôlei masculino (quem não curte torcer para um azarão?), o Irã derrotou a Polônia em um jogo tão intenso que o quinto set teve o placar de 23 a 21. Todo o talento – e beleza – de Marouf na quadra. Teve ginástica masculina e pegamos algumas finais, mas não a de equipe, que pena. Teve vôlei de quadra, eliminação precoce da campeã mundial Nathalie, de manhãzinha teve provas classificatórias de natação, teve, teve, teve, mas, talvez, o resultado mais importante do dia tenha sido a vitória de Richard Carapaz em Fuji, primeiro campeão olímpico da América Latina no ciclismo de estrada.

Uma das vantagens de morar sozinha e cozinhar apenas para mim mesma é poder arriscar, sem medo de deixar outra pessoa com fome, testar combinações, tentar matar a curiosidade. Então, eu via no programas de tv, camarão e bacon. Sempre pensei que devia dar certo mesmo, afinal, como diz o Joey, “camarão, bom”, “bacon, bom”. Procurei uma receita, fiz quase tudo diferente e voilá. Dizia: tempere o camarão com sal e pimenta. Fiquei com o pé atrás, afinal bacon é salgado, né? Descasquei, limpei, deixei o rabinho e temperei só com pimenta e alho em pasta. Enrolei no bacon (mas minhas habilidades manuais são sofríveis). Fechei com palitos. Uma coisa que eu faria diferente: colocaria um palito tb dentro do camarão, assim, quando ele fritasse, não enrolaria e ficaria mais bonitinho. Outra desobediência: dizia para fritar por imersão, em óleo. Achei desnecessário, peguei frigideira e azeite mesmo. Com medo de apostar todas as fichas em um número só, tratei o resto do camarão como sempre, sem bacon. Ficaram gostosinhos. Eu queria um molhinho, mas não queria rosé, daí fui nesse pesto.

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Infinitena, ano 2. 
497 madrugadas
1 CPI
548 mil mortos
1 ano sem a Carla
Margarida na varanda
Papeis de carta
Rosés
4 noites de competições olímpicas
361o dia no calendário kalúnico e contando.
24 fotos
Incontáveis crises de choro
Uma caneca, um imperador, uma cirurgia, uma interrupção.
Um convite engasgado.

É hoje, gente:

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