Ecos do Diarinho da Fal, sem gelo

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Tem dia que, ela disse. Que não isso nem aquilo. Escutem, porque ela sabe como é mesmo a vida. É bem assim, tem dia que não. Apesar de. Ou mesmo quando. Apenas tem esses dias. Ou eu tenho. Ela também tem, me conforta saber que estou em boa companhia. E tem, também, o dia em que apenas. Dia em que ela pinta o desenho. E eu tateio. Hoje eu tinha três compromissos. Participei, contente, do grupo de pesquisa. Sobrevivi ao primeiro dia de aula de Psicologia. Não fui aos correios. Não fui. Sem saber se levava aquela cartinha junto com as outras. Não quero assustar. Tem essas coisinhas miúdas que são como pedrinhas jogadas no açude. Faz um ploct quase inaudível, mas se perpetua em círculos e círculos e tantos efeitos que no só depois nos damos conta. Não dá pra saber exatamente o que vai se tornar. Assim, fico espiando a carta. Essa. Que é convite. Um aceno.  Meu pequeno pedregulho. Com a minha sorte (e mira) capaz de nem chegar a cair na água. Coloco toda a força, vou aos correios e o pedregulho cai na margem. Pode acontecer. Olho a pilha de envelopes e fico encafifada, como posso escrever tanto sem ter nada a dizer? Eu sei. Eu escrevo muito. Eu escrevo demais. Eu entendo que mesmo as pessoas que gostam de me ler não dão conta. Faz parte. Pensei em ser mais sintética, mas não é assim que funciona. Ou não é assim que eu funciono. As palavras simplesmente irrompem. Uma opção seria escrever tudo que me ocorre e publicar só parte, mas não saberia peneirar porque, sejamos sinceros, eu não tenho nenhuma barra de qualidade. Nenhum filtro. Escrevo porque tenho que dizer o que digo, do jeito que digo. Ainda assim, ela gosta. Vê algum valor nisso. Um ensaio, ela disse. Mesmo que não seja, leio vezes e vezes o elogio e me sinto um pouco melhor. E, claro, escrevo sobre isso. Eu escrevo muito. Eu escrevo demais. Então me resignei ao fato de que escrevo para não ser soterrada e publico com a esperança de que alguma coisa chegue a alguém. Que não é você. Nunca é você. Não é você com suas estantes de madeira nobre, suas meias cinza, sua agenda lotada, seu tapete verde, suas anotações sobrepostas, seu trabalho sério, seus fones de ouvido, suas responsabilidades tantas, seu coração maltratado, seus olhos tristes, não é você com suas culpas e tarefas e pessoas e futuros. Não é você. Não é você, mesmo que você diga: quero, vou, que bom, manda pra mim, me avisa. Lerei. Você é tão educado. E, ainda assim, nunca é você. Mas talvez seja ele. Que está de férias. Ou aquele. Da barba. Alguém que me caiba. Sabe, sr. De Mille, eu sou grande, sua vida é que ficou pequena. Bom, talvez não seja grande, mas espaçosa. E escrevo, escrevo, escrevo. Sobre as Olimpíadas, minhas salsichas preferidas. Ontem nossa moça do arco foi bem, mas se deu mal no sorteio. Nosso rapaz do remo também fez o necessário. E, hoje, ainda acordando, a cerimônia de abertura. Você gostou dos pictogramas animados, como eu gostei? Se emocionou com a tenista acendendo aquela pira tão elegante, se comoveu com cada delegação, riu das chinelinhas e daquela sambada, reparou nas desigualdades de sempre, xingou os atletas sem máscara? É um pouco irritante querer conversar essas coisas com você. Um pouco? Anteontem você seria um “ah, sim” em qualquer conversa minha. Hoje estou mandando áudios pra meu amigo antropólogo recitando Tango de Nancy e, nem respiro, peço junto o link daquela coisa tão pronta pra ser um presente. É isso que vai ser a vida? Esquecer de tomar meu remédio mas lembrar sempre do Cebolinha? Mas, dizia eu, Olimpíadas. Eu sofro. Muita coisa acontecendo, como escolher o que acompanhar? Agora mesmo: badminton, esgrima, handebol e daqui a pouco vôlei de praia, vôlei de quadra e ginástica e os deuses sabem o que mais. O coração sofre uma coisinha: Nathalie e handebol estão na chiba, Mamute tá na frente mas num joguinho apertado. O importante é competir, Luciana, o importante é competir. É sair pro jogo. Tenho que acreditar nisso, baixei a guarda. Ou você destruiu minhas defesas. No zap, um cemitério de todas os links, figurinhas, matérias e mensagens que não enviei. Palavras, muitas palavras. Letras, tantas, que teimam em se organizar assim: quero, saudade, vontade, desejo, me olha, me chama. Nunca diga dessa água não beberei porque não só beberei como me afogarei, etc. É aquilo do morder a língua. Tão melhor morder seu lábio. Um ombro. Aquela curvinha embaixo do umbigo. A bunda, O calcanhar. Suspiro. Melhor comer, vai ver meu mal é fome. Farofinha de cuscuz. O fácil. O bom. Molha o flocão, salga de leve, deixa descansar, coloca na cuscuzeira peitinho e deixa cozinhar – ou seja, depois que a água ferver, mais dez minutos. Corta: linguiça, cebola, banana, tomate, cebolinha. Aí frita a linguiça, coloca a cebola até murchar, uma parte da banana, se for preciso acrescenta também um pouco de manteiga, o cuscuz, mexe, mexe, o tomate, mexe mais, o resto da banana, a cebolinha, desliga o fogo e bota pra dentro. Ainda fica faltando você, mas o vazio é um pouco menor.

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