Desinventar e outros quitutes

Se eu pudesse ser outra, 
seria tua.

É que já não é mais só o silêncio. É o seu silêncio. O vazio que se impõe à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar.

Ontem escrevi manchas roxas e acabei postando manchas rochas. Ainda bem que tenho amigas. Gostaria, mesmo, de saber desativar esse corretor do celular. 

Uma dor de cabeça de tanto chorar, antes de começar a primeira aula do semestre, parabéns pra mim. 

Porque eu quase encostei minha cabeça em seu peito, mas era apenas luz, sombra, letras e a minha vontade. 

Há dias difíceis, disse-me ele. Aqueles – explicou – que amanhecem nublados, mesmo que o sol não saiba e se bamboleie iluminando as coisas por aí. Disse: é que a alma amanhece cinza e o coração dormente. Nessas horas, penso eu, não devia ter geografia. Devia ser assim: bem penso nele, bem lhe dou  um abraço. O que eu não te disse, amigo, é que eu sei estes dias. Eles ardem como se a gente tivesse um corte aberto no pé e entrasse no mar. Não são o dia da dor, mas o seguinte. O primeiro dia do resto da vida. O primeiro dia do resto da vida sem aquele ele.

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Ela aconselha que suas meninas e seu menino de redação escrevam diariamente sobre a própria vida. Que façam anotações, diários, registros. Imagino que ela viraria pra mim e diria: mas você, amiga, você pare. Eu escrevo todo dia faz um bocado de tempo. Porque não consigo não escrever é o motivo principal ao qual, eventualmente, se agregam outros como tentar comunicar alguma coisa, te gritar pra me ver ou tentar ser resgatada de mim mesma. Escrevo e escrevo e nunca é o bastante. Nunca sou o bastante. Escrevo desde sempre para você, que sempre existiu em mim, mesmo quando eu não te sabia. Claro que isso é mentira, inventei agora, mas que diferença faz? Inventei também você e esse sentimento e, ainda assim, a dor de não estar contigo é real e não consigo desinventar. E eu tento e tento, todas as quartas-feiras, com meu Freud particular, que sacode a cabeça de um lado pra outro enquanto eu tento não te amar em todas as palavras. Suspeito que ele até me confortaria em um abraço (não, não me abraçaria, mas eu posso inventar isso também). De divã em divã, ontem o moço da barba bonita e dono da minha rosa escreveu: desfalar e eu ri porque eu já disse, deitadinha no divã, exatamente isso: falei e desfalei. Sabe, gosto de conversar com ele, é um encontro no caminho, não uma revelação. Dá tempo respirar. E apreciar luas e rosas e esquinas. Não. Não quero colocar coluninhas pra vocês. Gosto de conversar com ele, ponto.

Como a casa dela, a minha é esse interminável de coisas a fazer. A máquina de lavar roupa quebrou outra vez e eu ainda não liguei pros senhores consertadores. Preciso de um colchão novo. De um filtro de barro. De todas as coisas que listei no post anterior e mais um monte que nem tive coragem de colocar. Como trocar as tomadas. Porque, porque, porque não fazem casas com tomadas introcáveis? Arrumei o quarto bagunçado e já desarrumei. Fiz besteira, me queimei e adiei pequenas e necessárias ações. Amanhã, sim, amanhã eu faço. Escrevo bilhetinhos pra mim mesma nestes fofos e coloridos papéis-para-aviso da 3m e colo na tela do notebook. Tenho certeza que estou esquecendo alguma coisa importante. Passo os dias com esta sombra dependurada no meu ombro. Eu detesto ver seu rosto nas fotinhas quando vou procurar alguma coisa nas conversas, detesto, detesto, detesto, você é tão bonito. Porque você é tão bonito? Detesto, detesto, detesto. Apesar disso, nunca deixo sua imagem desparecer. Podia deixá-la descer, descer, descer até ser mais irrelevante que as mensagens da Fazendinha ou da Farmácia. Mas, não. Você é tão bonito. Eu já disse que você é tão, tão, tão bonito? Tenho vontade de mandar uma mensagem só pra dizer isso. Ridícula e sem nem ter a justificativa de ser uma carta de amor, esta sou eu. Criei um grupo no zap só meu e envio pra mim todos os links, matérias, textos, músicas, notícias do mundo e do meu cotidiano que eu queria mandar pra você. Ah, moço bonito, porque esta barba macia e este cangote tão cheiroso e essa mão que me cabe toda? A ideia de me entorpecer com Olimpíadas tem funcionado parcialmente. Dois jogos de futebol, feminino e masculino, duas goleadas do brasil, que delícia. Mais partidas de softball (continuo não entendendo nada), no futebol feminino uma derrota dos EUA (uia); no futebol masculino a Argentina perdeu pra Austrália (uia, uia) e o México enfiou 4 na França. E queria falar de cada uma dessas coisas com você. Mandar pequenas frases com exclamações ou textos emocionados de muitas linhas. Combinar os quitutes. Louvar os atletas, reclamar de qualquer coisa da organização. Mas, moço bonito, esse barco já partiu. Tenho aula hoje à noite. Preparei tudo, tudinho, mas a insegurança de todo primeiro dia bate mais forte nessa modalidade esquisita de aulas à distância como se não o fossem. É engraçado pensar que há vidas (a sua, a sua, claro que é a sua) que são melhores comigo mas que seguiriam, impávidas, sem mim. Se eu nunca mais, você saberia? Ou espantaria o pensamento: ué, ela nunca mais sem nem uma saudade? Claro que eu releio tudo isso e estranho: quem foi mesmo que escreveu? Não eu, com a autoestima em dia, comendo morangos com balsâmico, recebendo mensagens simpáticas e vendo saltos e tiros e saques e arremessos e chutes e mergulhos e lutinhas de todos os tipos na tv. Não fui eu, não sou, queria mandar embora essa que insiste no amor pelo moço bonito, talvez a Fal saiba como mas ela fala de chá e biscoitinhos e eu não tomo chã e molho o pão com manteiga no café, eu não tenho finesse, eu não tenho dignidade e eu não tenho força pra fechar os olhos e nunca, nunca, nunca mais te ver, moço bonito.

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No “quitutes das olimpíadas” de hoje vamos de macarrão porque macarrão é gostoso, macarrão é fácil, macarrão acolhe quase tudo e, bom, eu tinha macarrão em casa. Bacon, parmesão, espinafre, creme de leite, alho e a massa. Passo 1: cortar bacon, separar folhas de espinafre, picar alho, ralar queijo, abrir a caixinha de creme de leite. Já tá praticamente pronto. Uma frigideira grande pra fazer quase tudo, uma coisa de cada vez. Vai de bacon, deixa até ficar crocante, deixa a gordurinha na frigideira e reserva o bacon crocante (reserva é só o nome chique para: deixa ali no cantinho). Joga o alho e as folhas de espinafre (muitas e muitas) nesta mesma frigideira, tempera (eu coloco mais pimenta e um nada no sal, porque o bacon e o parmesão já tem bastante, né) e espera murchar. Separa uns dois terços das folhas e alho e coloca no liquidificador, o que fica eu deixo pra misturar como está com a massa, acho gostoso mastigar as folhas. Pois bem, sua massa ainda não tá cozida? Pois avie. Bateu espinafre com creme de leite, volta pra frigideira, mergulha a massa que (pelo meu gosto) deve estar al dente, mistura bonitinho, coloca as folhas e o bacon reservado, despeja ou arruma bonitinho no prato, é a hora do queijo ralado e já pode correr pro abraço. 

E o de ontem? Para os quitutes das olimpíadas de ontem nem precisei acender o fogo. Foi bem comida de rico (que não sou). Enroladinhos: rúcula, manga e presunto parma; no palitinho: morango e parmesão; banhando tudo (mas com moderação, como nas propagandas de bebida): balsâmico, mel e laranja.

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Eu só não queria cair no abismo toda vez que penso teu nome longe do meu. 

No fim do filme ela diz: eu estou aqui. Sonho com o dia que poderei repetir isso. 

 

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