Paulinho da Viola, Hiroshima e outros vazios

Primeiro o convite: sábado, dia 24 de julho, vai ter uma live, no instagram, sobre o meu livro Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Estaremos papeando eu, Suzi e Fal (editoras) e Fernando Amaral (co-autor de dois contos). Meu perfil: @lucianahnepomuceno ou o perfil do livro @eter_luciana_nepomuceno.

***********

Às vezes penso que era melhor se você me fizesse sofrer de propósito. 

Por um erro de julgamento nossa heroína vai viver, esta semana, de maçã, manga, rúcula e espinafre.

Me digam uma coisa, vocês que são sabidos, quando um amor irrealizado sequestra uma música, um cantor, um estilo, depois ele devolve?  

Estado de espírito: Joey colocando Mulherzinhas do congelador. 

Nunca mais ouvir para um amor no recife sem sentir uma pontada. Nunca mais ouvir coisas do mundo, minha nega sem doer uma vontade. 

Por causa da aulinha de cinema, senti saudade da M. Duras. Resultado: reli O Amante, O Amante da China do Norte (como uma autora consegue escrever dois maravilhosos livros contando a mesma história?) e revi Hiroshima, mon amour (inclusive copiando trechos). Sim, eu tinha acabado de rever o filme para a aulinha, mas o que eu posso fazer se você dói tanto em mim? 

*********************************************

213103296_4082835215087711_8520365706398681651_n

Será que o Paulinho da Viola também gosta de bacalhau? Deve gostar, Rio de Janeiro e tal. Não era o meu peixe favorito, você sabe. Você sabe? Enfim. Não era. Agora, gosto e faço de um montão de jeitos, a única certeza é: azeite. Então, pega a assadeira e já coloca uma boa dose de azeite. Despejo com vontade, como se soltasse todos aqueles gestos que não posso fazer e todas as palavras que não posso dizer. Aviso: esta receita leva cebola. Muita cebola. É sempre uma boa desculpa pra chorar, quando se precisa manter a compostura e fingir que se detém algum controle. Cebola, pois. Pra começar, crua, em rodelas mais ou menos finas, para cobrir o fundo da vasilha. Esqueci (sim, sou um tanto Dory, leia-me toda, marque na caixinha: estou ciente e quero continuar): já tem batata no fogo, até ficar al dente. Eu cozinho fatiada, prefiro ter a maior parte do trabalho no começo do preparo mesmo. Depois, segue na banguela, é meio assim que toco a vida. Pode colocar um pouco de sal na batata (se tiver dessalgado direitinho o bacalhau, claro). Quando a batata está no ponto, emborca a metade na assadeira e deixa o resto reservado. Em uma panela ou frigideira grade e funda, mais uma cebola, cortada em rodelas finas, azeite, fogo, alho, enche a cozinha com o cheirinho de refogado e coloca o bacalhau lá dentro. Bacalhau em lascas, já dessalgado. bacalhau que parecia um amanhecer frio, olhando montanha, que parecia esquina de catedral, que parecia conversa mansa com amigo sabido, que parecia surpresa, intimidade, festa e agora só parece você, você, você. Depois de mexer pra lá e pra cá, um nadinha de leite pro bacalhau cozinhar por, no máximo, dez minutos. E lá vai o bacalhau em cima das batatas. Pega mais uma (ou duas) cebolas (mais? mais), corta do jeito que você preferir e refoga bem, deixando molinha, molinha, que nem alguém fica quando o bem querer capricha no cheiro no cangote (como se eu soubesse, como se vontade já fosse saudade). Cebola em cima do bacalhau, o resto da batata em cima da cebola (e viva a suruba de comida). Aí vem o molho branco que cada um faz como preferir. E queijinho parmesão ralado por cima. Forno por meia hora, duas taças de vinho enquanto espera, mais outro tanto pra acompanhar o prato. Se faltar sal, lágrima.

*****************

E6zkpPBUUAAh07H

Nem teve Cerimônia de Abertura ainda e já estou mergulhada nas Olimpíadas. Pra começar uma partida deliciosa de softball, entendi zero, me anestesiei totalmente. Obrigada, deuses gregos. Pouquinhas horas de sono (mas pelo menos agora é opcional e não uma versão ruim de uma canção do Roberto Carlos) e amanheço vendo gols de Marta e Debinha, na competição de futebol feminino. Sigo trabalhando e ouvindo a narração do jogo entre Holanda e Zâmbia (um passeio ainda maior que o nosso). Já são quase doze horas segurando a onda de depender emocionalmente de outrem que não você.

Brasil 5 X 0 China. Dois gols da Marta e um trabalho incrível tanto da nossa goleira como da trave.

**************************

thenewyorker_hiroshima-mon-amour

“Ele virá até mim, me pegará pelos ombros e me beijará. Ele me beijará e eu estarei perdida (se a gente sou sempre eu, ele ou você, sabemos quem é). Eu encontro você. Lembro-me de você. Esta cidade foi feita para o amor. Você foi feito na medida do meu corpo (antecipo o encaixe, seu queixo em meu cabelo, sua mão me cabendo toda, escuto a batida descompassada do coração – meu ou seu? – e deixo que minha mão mapeie todos os atalhos, esquinas, curvas, acidentes geográficos neste teu corpo-território). Quem é você? Você está me matando. Eu tinha fome. Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer (fui escrever morrer e escrevi você, nenhuma surpresa, os atos falhos se amontoam). Desde sempre. Eu sabia que um dia você cairia sobre mim (…). Devore-me. Deforme-me à sua imagem para que ninguém, depois, possa entender o porquê de tamanho desejo (para que eu mesma não consiga encontrar o marco temporal, nem antes nem depois, um sempre esse amor. Reescrevo nossa história, reinvento momentos, escrevo cartas, sonho lembranças). Nós ficaremos sozinhos, meu amor. A noite não acabará (só isso que quero: uma noite, um momento, um encontro e o desnecessário depois, dias e dias em que eu saberei que estive com você e você esteve em mim). O dia não nascerá mais para ninguém. Nunca. Nunca mais. Enfim. Você ainda está me matando. Você me faz bem (todos, todos os dias, eu sinto a angústia e aí você, qualquer coisa e todos os passarinhos cantam e todos os arco-íris colorem céus e todo o riso e bom e certo se apresentam. Ou eu acho que sim). Prantearemos o dia morto com consciência e boa vontade. Não teremos mais nada a fazer senão prantear o dia morto (porque teremos sido felizes, tudo se acolhe e se enfrenta). O tempo passará. O tempo, somente (não passará meu bem querer). E virá o tempo em que não saberemos dar nome ao que nos uniu. O nome se apagará aos poucos de nossa memória, depois desaparecerá por completo (a felicidade, como a beleza, é mesmo tão fugaz).”

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s