Queda livre

Desde que te conheci, nunca fui tão infeliz na minha vida. 
-Nem eu. 
– Eu não trocaria isso por nada. 
-Nem eu.”
(Do filme A Um Passo da Eternidade)

Então ciúme é isso. Dói mesmo. Eu não acreditava muito. Parece que meus olhos querem chorar ácido, os pulmões ficam miudinhos e uma mão descarnada e quente aperta, alternadamente, coração e garganta. Tem caninos afiados e vem roendo por dentro. É pegajoso e amorfo.  Não encarei ainda os olhos, pra saber se são verdes, mas definitivamente é um monstro e não daqueles ou destes.

onde vivem os monstros

Estava lá, rabiscado em um caderno velhinho: não temo as partidas, já fui porto, navio, viagem, marinheiro.  E oceano. Por todos os deuses, luciana, você não sabia de nada mesmo.

Foram dois diarinhos difíceis de responder. Mas, na caixinha, trocamos informações e risos sobre faxina, ela me mandou fotos do cantinho a vencer, eu contei que lavei parte da louça e que tinha aguado seis vasinhos de planta e me quedado exausta. Não usei quedado na conversa, mas poderia, ela não me julga. Ou julga, mas é educada demais para demonstrar. Para continuar a madrugada, ela deixou um dublado na tv fazendo companhia à tediosa atividade doméstica, eu coloquei um Nicholas Ray porque era isso ou mandar mensagens lamechas fora de hora. Paciência, paciência, paciência, a hora há de chegar, é só manter a peteca no ar até o quando. Não sei é se tenho é fôlego pra isso. Escrevi cartas. Entendi porque as ladys tinham o dia para tratar da correspondência. Leva tempo fazer tudo direitinho, incluindo endereçar e envelopar. Na prateleira em cima da tv, um vaso metido a besta, a deusa Fortuna, o quadro do Jardim das Picas Murchas e a miniatura que é também caixinha de música, que a Camila me deu. Eu gosto demais de caixinhas de música e só tinha uma, até ganhar esta, uma miudinha, que toca a música d’O Poderoso Chefão. Foi escrever isso aí e pensar: cadê? Não achei, vasculhei as gavetas do quarto e nadica. Terei que enfrentar as várias estantes e sacolas e caixas e prateleiras e gavetas dos outros quartos. No caminho, nada se perde, tudo se transforma, esbarrei no livro e, sim, passou na frente de tudo o mais e estou relendo. É que a capa está bonita. Aliás, culpo Manuel e Fabiano por este novo gosto por livros estilosos. Livro-objeto.

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Outra afinidade recente: rosés. Inclusive tem dois na geladeira pra sábado. Não devia ter te convidado. Sei que você não vem e sofreria menos se pudesse pensar: é que ele não sabia. Mas eu sempre arranquei a casquinha da ferida. Escrevo de tudo aqui. Fico com a impressão que mesmo que alguém comece a ler, em algum momento do texto se distrai  e não me escuta. Teria vergonha se achasse que estou sendo entendida. Posso escrever sem pejo: eu não gosto de telefonemas, não muito, mas queria telefonar e saber que, ao atender, você não diria alô e sim vem e eu, ao ouvir sua respiração, poderia falar qualquer coisa porque o que digo mesmo é desejo. Sussurrar ou gritar: só o tanto que for. Só o tempo que for. Não saber antes. Descerrar a cortina quando for sol, espiar os desenhos no vidro quando for chuva. Não dar corda aos relógios. Abrir os botões como se fosse o peito. Escrever assim como quem gosta, como quem sofre, como quem morre e ninguém saber: queda livre. Me diluir entre as letras. Depois enfiar a lista de compras e seguir, nariz arrebitado. Abacate, maçã, tangerina, manga, laranja madura na beira da estrada e tudo mais. É complicado fazer perguntas nas redes sociais, mas as dicas compensam. Preciso trocar o colchão, dormi tanto tempo sozinha que só um lado dele afundou. Durmo sempre perto da porta. Sento sempre de costas pra parede. Procuro sempre a mesa afastada. Corto as unhas do pé com tesourinha, ainda, nunca aprendi a usar aquele outro trequinho. Brinco de noves fora. Não sei desenhar. Guardo uma moeda ou cédula de todo país que visitei na esperança de voltar lá pra gastar. E sonho com sopros.

Eu competindo nesses programas de culinária. Os chefs: falta acidez e doçura no prato. Eu, internamente: mas não na alma.

Estou cansada de não ser feliz.

Eu sou arisca. Eu dou, eu digo, eu entrego. Mas o mas está sempre rondando. Enquanto são dois pra lá, dois pra cá, eu danço. Mas tenho atenção ao ritmo. E nunca desgostei das cadeirinhas de descanso. Essa sou eu, saindo da pista, indo buscar uma bebida.

Eu preciso de:
Um abraço
Um filtro de barro
Sorvete de graviola
Uma pele mais grossa
Sapatinhos vermelhos
Um colchão
Coragem
Um corte de cabelo
Um batom vermelho
Esquecer você
Um sabonete de chá verde
Passagem aérea
Uma caixinha de som
Uma semana em Canoa
Uma colher de pau. Ou duas.
Uma sombrinha vermelha
Uma máquina de escrever
Láudano
Bom senso

Um comentário em “Queda livre

  1. eu sempre acho que não tem lugar pra comentário, mas tem, só que é lá embaixo longe de tudo… tô achando bonito essa correspondência do IMS entre vc e a Fal. quase que fiquei com ciúme, mas não. só achei bonito mesmo. não é que eu não tenha ciúmes, mas só tenho quando de fato vale a pena. e isso foi um aprendizado.
    eu ia dizer outras coisas mas essa conversa do ciúme me desviou. coisas de netuno.
    beijos.

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