aulas, hospitais, violinos, garrafinhas, filmes na tv e o bem querer abrindo o gás

Infinitena, sei lá em que ano estamos
#490dias
1 escrivaninha, 2 mesinhas de cabeceira, 1 ssd, 3 novas assinaturas de streaming
#135quemsabe
1 encontro com os pais
55 divãs
2 envelopes, 1 vela, 1 livro, 1 carta
5 praias desertas
#dia345nocalendáriokalúnico
2 pacotes de bacalhau no congelador
incontáveis visitas ao site de passagens aéreas
1 banda de moebius
1 caneca perfeita

No diarinho ela conta que mudou livros de lugar e eu rio um pouco, tenho um escritório, tem a estante na sala, tem um lugar na casa chamado por toda minha família de “quarto dos livros” e, ainda assim, no meu próprio quarto, os livros se avolumam no móvel da tv, na escrivaninha, nas mesinhas de cabeceira e, claro, vergonha maior, ao meu lado, no colchão (pelo menos ando dormindo com homens extraordinários). E nem é que eu tenha tantos, minha irmã vive atenta e regularmente me obriga incentiva a doar parte deles. Sei que todo mundo que é fino tem muito mais livros do que os que leu ou vai ler, mas eu não sou fina e me entristece reconhecer que tenho perdido essa batalha. Chegam os livros, empilho ao meu redor e lá permanecem apenas folheados. É amargamente irônico que, quando eu tinha a rua, vivesse com livros nos cafés, mas praças, na praia, até no cinema – esperando começar a sessão. O livro me garantia recolhimento, solidão e bons lugares pra conhecer. Agora, recolhida, só e com tempo para conhecer esses lugares e pessoas todas, sinto falta da rua e do cinema e da praia e da praça e dos cafés. Como companhia, além da pilha de livros, pilha de roupas na cadeira furadinha (saudades usar a cadeira furadinha para algo mais divertido que juntar roupa lavada e ainda não dobrada e/ou pendurada) e garrafinhas e garrafinhas e garrafinhas de água. Não tenho lido, mas não paro de escrever. O plano dela de me ter escrevendo 24hs por dia anda muito perto de ser alcançado. Infelizmente quantidade não garante qualidade, mas tem garantido alguma sanidade (perdoem a rima fraca e indesejada). Entre tudo que escrevi, também escrevi sobre um filme. Um filme de amor. Não um bonitinho e doce, um de quinas afiadas. E bati o cotovelo em uma delas. Tem um querido que, segundo ele mesmo, pega no meu pé. Eu respondi que os pés são a parte do corpo mais sensível dos piscianos. Alguém mando um filtro aqui pra casa, pelamor. Lembrei de um diálogo de Friends (sim, Friends, me deixa), alguém diz pra Phoebe que ela devia pensar antes de falar alguma coisa e ela: eu sei, mas às vezes não dá tempo. Estou revendo a série e é inevitável reconhecer que eu e ela estamos cada vez mais parecidas.

Adorei a imagem da vizinha que fuma no portão. Na visita – aquela, de um futuro de vacinados e sem bozos e tudo – além de falar do mundo borrado contarei também da vez que fui fazer compras de emergência no indiano e encontrei quem eu queria ser no futuro e envolvia roupão felpudo, cigarro, renda na camisola e encomenda de vinho verde. Fiquei feliz que vai ter segunda reimpressão dos livros dela, um mundo com mais livros dela é certamente um mundo melhor. Apesar do brasil. Do brasil que não come. Do brasil que não cuida. Do brasil preso em casa, preso nos seus preconceitos, preso no horror, no horror. Cheiro de napalm pela manhã é mato, nesse brasil. Estou lendo as conversas de Hitch e Truffaut. De novo? De novo, pra onde mais eu poderia fugir? E descobri um Nicholas Ray pra ver online. Noir com temática social e um dos diálogos mais inocentes da história do cinema. Ela: eu não sei muito sobre beijos, você vai ter que me mostrar. Ele: eu não sei muito sobre mim. Ela (encostando a cabeça no ombro dele): vamos aprender juntos. Eu devia ter sentido as coisas de 16 anos com 16 anos, talvez.

Interrompemos nossa programação pra dizer que acabei de receber as fotos mais lindas do mundo. Do mundo todo. Do universo. Talvez do multiverso, mas não vou garantir porque ainda estou mastigando o conceito. Terminei Loki. Estou esperando o desenhinho com as várias versões da vida. Legal esse negócio de várias linhas do tempo, em cada uma, uma vida outra possível. É mesmo poesia, faz sentido a denominação multiversos. Espero que em algum deles a gente (já) tenha se beijado – sim, o já está aí como uma esperança. Não era pra você saber, mas ler o diarinho me faz contar: quando estou no limiar entre insensibilidade e dor, eu dou o passo. Releio todas as mensagens antigas. Salto no despenhadeiro de olhos abertos. Devia fazer como a mãe da Phoebe e parar o filme – no caso, a leitura – em algum momento onde tudo parecia certo, gostoso, livre, possível e o Cebolinha sorria, um pouco malicioso. Antes da palavra amiga. Meu cabelo precisa de corte, minha pele precisa de sol, eu preciso de um timing melhor. Ela gosta de chocolate. Um ele, também. Você eu sei que gosta de bacalhau. E de brócolis com molho, mas talvez sejam apenas os brócolis servidos pela Cláudia Abreu. Já eu, eu gosto de você. 

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Agora que resgatei a instituição “carta” estou pensando se devo ou não resgatar a tradição “passar a limpo”. 

Se eu pudesse te amar, fazia do coração violino e tocava as notas mais agudas. Se eu soubesse te amar eu mandava ladrilhar meu coração com pedrinhas de brilhante. E abria o gás.  #misturandoreferências 

tela mulher na árvore e violino

Eu tenho olheiras, você tem bolsas embaixo dos olhos. Você tem farto cabelo e grisalhos, Os meus escasseiam, sustentando a cor. Você, um leão por dia, eu mal expulso uma esperança de dentro do quarto. Você, dois. Eu, um. Portela, Mangueira. Branco, vermelho. Bacalhau, sirigado. Sala, consultório. Um superego bem vestido, como o mordomo do Hopkins; um Id descabelado. Chopp, cerveja. Você fica, eu vou. O que isso importa? Nada, eu só gosto de escrever você e eu. (mentira, eu preciso des-descobrir a mágica, quem sabe listando divergências eu te perca em mim – te fazer sair eu já desisti). 

Kundera estava certíssimo sobre os cestos nos rio e pessoas que deixam grandes malas no depósito antes de entregar a vida pra outrem. 

Não tem deus, mas tem alguém jogando dados na sala de roteiristas, suspeito.  Nesse momento eles se divertem discutindo a verossimilhança de situações envolvendo aulas, hospitais, garrafinhas e filmes na tv. Talvez eu deva fazer como o Kronk e começar a cantarolar minha própria trilha sonora.

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